PSICOLOGIA ANALÍTICA

NA DOSE CERTA

Consumo moderado de bebida alcoólica, especialmente vinho, parece proteger o cérebro e aumentar a longevidade.

Na dose certa

Segundo a mitologia grega, em todos os lugares por onde passava o deus do vinho, Dionísio (ou Baco, na versão latina), ocorriam dois tipos de reação. Ou seus convivas se entregavam aos encantos de sua presença embriagante, ou exibiam franca resistência à sua sedução. Geralmente, estes últimos eram impiedosamente eliminados Pode-se dizer que algo análogo ocorre quando os efeitos do vinho – e do álcool de forma mais geral – na saúde se tornam o centro de uma discussão milenar: alguns se posicionam como francos delatores de seus malefícios no organismo, outros tentam reabilitá-lo e até reverenciá-lo como benéfico guardião de nossa saúde.

Estudos abundam em ambas as vertentes. Se por um lado, o uso abusivo e a dependência do álcool têm vasta e malévola repercussão em praticamente todos os sistemas (digestivo, nervoso, imunológico, endócrino, etc.), por outro, o consumo moderado parece redundar em benefícios à saúde. Há muitas evidências na literatura sobre o tropismo do etanol pelo fígado, estômago, nervos periféricos e encéfalo, onde produz lesões celulares algumas vezes irreversíveis, alterando o metabolismo em vários níveis. Mais recentemente, entretanto, uma série de estudos vem corroborando uma sabedoria há muito impregnada na cultura mediterrânea: usado com moderação, o vinho pode ser um poderoso aliado da saúde, prevenindo o aparecimento de doenças e prolongando a vida.

Devido a grande mortalidade e morbidade geradas pelas doenças cérebro vasculares no mundo, bem como aos elevados gastos que trazem ao sistema de saúde, a prevenção desses problemas tomou-se foco de multas pesquisas. A associação inversa entre consumo moderado de vinho e risco vascular tem sido demonstrada em muitos estudos epidemiológicos, revelando o vinho como importante fator de proteção para esse conjunto de doenças.

Todas as causas de morte em função do consumo de álcool, tem sido descritas por “curvas em forma de J”, que refletem menor risco de doenças cardíacas, quando o consumo é moderado, e aumento do risco para algumas formas de câncer e cirrose, quando a ingestão é alta. Já a relação entre consumo de bebida alcóolica e risco de acidente vascular cerebral (AVC) é mais controversa, particularmente porque muitos estudos falham em distinguir entre as versões hemorrágica e isquêmica da doença. Muitas pesquisas têm mostrado risco maior de AVC hemorrágico associado à maior ingestão de álcool. Outras, entretanto, indicam uma tendência de efeito protetor do álcool para o AVC isquêmico, mas falham em confirmar a relação independente entre eles. Estudo em que a maioria dos participantes eram negra evidenciou que o consumo frequente de álcool estava relacionado ao aumento do risco de isquemia cerebral, mas quando as variáveis tabagismo e hipertensão foram controladas, essa associação não foi significativa.

 DOENÇAS DO CÉREBRO

Alguns trabalhos têm mostrado relação positiva entre ingestão de alcoólica e AVC. Em um estudo realizado na Espanha, país que apresenta um dos maiores índices de consumo de vinho, o grupo do médico Fernando Rodriguez Artalejo relatou redução da incidência de doenças cerebrovasculares associada ao maior consumo de frutas, vegetais e peixes e também, o menor consumo de vinho no mesmo período (antes do estudo, o consumo era intenso). Assim, mudanças alimentares foram responsáveis por 22% da queda da mortalidade por doença cerebrovascular.

Em muitos estudos anteriormente citados, entretanto, não foi explicitada a relação entre a quantidade de álcool ingerido, o tipo da bebida e o tipo de doença cerebrovascular, isto é, AVC isquêmico ou hemorrágico. Esta, aliás, é a principal crítica aos estudos epidemiológicos, que vêm mostrando inconsistência ao relacionar o álcool, de forma geral, e o tipo de bebida alcoólica, de forma particular, ao AVC. Enquanto algumas pesquisas sugerem aumento do risco de AVC. Há evidências contrárias de que o consumo moderado de álcool pode diminuir o risco de AVC isquêmico.

Todos esses dados trazem à tona a noção de que o consumo de álcool reduza a incidência apenas do AVC isquêmico.  Isso porque a principal causa do AVC hemorrágico, a hipertensão arterial, apresenta estreita ligação com o consumo crônico de álcool. Dados epidemiológicos recentes mostram que o álcool também poderia prevenir o aparecimento de doenças cardiovasculares (doença coronária e infarto do miocárdio, por exemplo), que são a principal causa de morte no mundo.

Não existe ainda uma explicação definitiva para esse mecanismo protetor, tampouco se sabe se de fato ele existe. Acredita-se, no entanto, que tal proteção dos vasos sanguíneos possa ser mediada pela ação do álcool na peroxidação de lipídeos (indicador de stress oxidativo celular), bem como na coagulação sanguínea. O vinho, a cerveja e outras bebidas alcoólicas podem exercer diferentes efeitos na doença cardiovascular devido a suas substâncias com propriedades antioxidantes, como os polifenóis, que podem interferir nos mecanismos responsáveis pela doença cardiovascular.

Diversos estudos epidemiológicos mostram que o consumo moderado de álcool está associado à redução da morbidade e da mortalidade secundária à complicação arteriosclerótica. Os dados indicam que qualquer tipo de bebida é benéfico, mas o vinho tinto parece conferir um benefício adicional.

A quantidade de bebida alcoólica é um aspecto importante na determinação dos fatores de risco para as doenças cardiovasculares e cardíacas. O consumo moderado, definido como de uma a duas doses por dia, tem sido indicado como responsável pelo aumento da longevidade em diferentes grupos populacionais.

Comparado a outras bebidas, o vinho tem sido responsável por maior redução no risco de doenças cerebrovasculares, especialmente o AVC isquêmico. Além do álcool, pesquisadores revelam a presença de substâncias importantes na estabilização ou na regressão desses distúrbios. Em análise prospectiva com mais de 38 mil homens saudáveis, o consumo de álcool em geral, esteve associado a alto risco para AVC isquêmico entre os que consumiam mais que duas doses diárias (o equivalente a cerca de 30 g de etanol). A ingestão de três a quatro doses semanais pareceu estar associada com menor risco. O consumo de vinho tinto foi inversamente relacionado ao risco para AVC isquêmico, associação que foi significativamente diferente das outras comparações com outros tipos de bebidas. O consumo regular de vinho tinto foi sugerido como explicação para o paradoxo francês, “isto é, a relativa baixa incidência de doença coronariana arteriosclerótica na França, comparada a outros países ocidentais, apesar da alta ingestão de gordura saturada por essa população

DOENÇAS VASCULARES

A ideia de que talvez o vinho tinto forneça uma proteção vascular superior ao de outras bebidas fomentou o interesse pelo tema, dando origem ao Copenhagen Heart Study, que avaliou

prospectivamente, durante 12 anos, 13 indivíduos entre homens e mulheres. Os resultados sugeriram que os consumidores moderados de vinho tinto tinham metade do risco de morrer por doenças cardiovasculares e cerebrovasculares. Cerveja e outras bebidas alcoólicas não apresentaram essa vantagem. Essas evidências foram reforçadas quando o mesmo grupo realizou um novo estudo em que variáveis como tipo de bebida, tabagismo, nível educacional, atividade física e índice de massa corporal foram controladas no início da pesquisa. Comparados com quem não bebia álcool, os bebedores leves que evitavam vinho tinham risco relativo de morrer por qualquer causa bem acima dos que apreciavam a bebida de Baco. Os autores concluíram que, além de o vinho ter efeito benéfico em todas as causas de mortalidade, esse benefício é somado à proteção fornecida pelo álcool.

A vantagem adicional do vinho, comparada a de outras bebidas alcoólicas, foi confirmada por uma metanálise que investigou a relação com o risco vascular. Os dados de 13 estudos, que somaram mais de 209 mil indivíduos, revelaram redução do risco de doenças vasculares de 32% devido à ingestão de vinho, para o consumo de cerveja, essa redução foi de apenas 21%.

É honesto ressaltar, entretanto, que outras pesquisas e metanálises têm falhado em demonstrar o efeito superior do vinho em relação a outras bebidas. Um grande estudo prospectivo com cerca de 129 mil participantes concluiu que o consumo moderado de qualquer bebida alcoólica reduz o risco cardiovascular sem o efeito adicional benéfico associado à ingestão específica de vinho. Explicações para esses resultados contraditórios podem incluir diferenças nos fatores de risco cardiovasculares: entre apreciadores de cerveja, de vinho e de outras bebidas alcoólicas, no comportamento de cada consumidor, na presença de estilos de vida diferentes e nas variações no tipo de vinho consumido.

Pesquisas recentes sugerem que os vinhos tintos diferem em sua capacidade de vasodilatação – impedindo a obliteração dos vasos sanguíneos e, logo, a isquemia tecidual -, dependendo do tipo de uva e do país de origem. Além disso, os apreciadores de vinho costumam ter alimentação mais saudável e, geralmente, pertencem a um nível sócio econômico mais alto quando comparados com quem prefere cerveja, por exemplo.

COLESTEROL E TRIGLICERÍDEOS

Muitos estudos epidemiológicos não conseguiram identificar o tipo de bebida consumida e as circunstâncias em que se dá esse consumo – de forma solitária ou em grupo, nas refeições ou apenas nos finais de semana, por exemplo. Obviamente tais limitações metodológicas podem produzir comparações menos verídicas e resultados menos consistentes. Assim, futuros estudos deveriam focar claramente estas questões, diferenciando os tipos de bebidas consumidas, identificando fatores como condição sócio econômica e dieta, e avaliando o comportamento de consumo, para afastar a confusão que existe na literatura em relação aos efeitos específicos do vinho.

Modelos experimentais de arteriosclerose têm confirmado o efeito protetor do vinho e dos constituintes do suco de uva. Um estudo com coelhos alimentados por três meses com dieta rica em colesterol mostrou que a área coberta por placas arterioscleróticas foi maior nos animais que receberam somente dieta menor nos que ganharam dieta e vinho tinto, e intermediária naqueles que ingeriram subprodutos não alcoólicos do vinho junto com dieta rica em gordura. Curiosamente esses efeitos protetores ocorreram apesar da persistência do alto colesterol total e do LDL (colesterol ruim) e de nenhuma mudança nos níveis de triglicerídeos e de HDL (colesterol bom). O vinho tinto foi significativamente mais eficaz que seus subprodutos não alcoólicos.

Por fim, na compreensão do efeito protetor do vinho, temos que o aumento do HDL (colesterol bom) e dos triglicérides tem sido consistentemente documentado. Um estudo analisou os hábitos de consumo de bebida e o nível sérico de lipídeos em 1.581 homens e 1.535 mulheres na França. O resultado foi uma relação positiva e significativa entre consumo de álcool e níveis de HDL e triglicérides em ambos os sexos.  Os bebedores de vinho apresentavam maiores níveis de HDL. Sabe-se que o aumento dessa lipoproteína protege contra doenças arteriais crônicas, e isso poderia explicar o mecanismo pelo qual o álcool previne contra complicações arterioscleróticas.

Apesar de tantos estudos epidemiológicos e biológicos, ainda não há informação suficiente para recomendar a ingestão de vinho como intervenção terapêutica na prevenção ou tratamento das doenças vasculares arterioscleróticas. Infelizmente, a mídia geralmente não assume uma postura responsável e cuidadosa nesse sentido, recomendando sem base científica o consumo dessa bebida como uma espécie de panaceia. Talvez seja uma forma de ir ao encontro dos anseios dionisíacos disseminados na sociedade de consumo, que pregam a substituição da dor provocada pela doença pelo prazer (algumas vezes irresponsável) proporcionado pelo álcool.

 FLAVONOIDES PARA LIMPAR E PROTEGER AS ARTÉRIAS

É preferível dizer “consumo de bebida alcoólica” que “consumo de álcool”, uma vez que cerveja, vinho e destilados contêm outras substâncias, além dos etanóis puros, que podem melhorar ou piorar a saúde. Esse pode ser o equilíbrio entre os atributos benéficos e prejudiciais que ajuda a explicar as diferenças observadas entre grupos populacionais e, mais importante, entre indivíduos.

No centro das explicações de como o vinho pode prevenir doenças estão os flavonoides, substâncias que podem influenciar muitos fatores que participam na formação e na evolução da placa arteriosclerótica. Estudos epidemiológicos e experimentais apontam para o efeito do vinho na diminuição da arteriosclerose, e o mecanismo envolvido foi recentemente descoberto. Os flavonoides presentes no vinho tinto podem diminuir a produção de ET-1, um poderoso vasoconstritor endógeno, bem como aumentar a secreção de óxido nítrico, de efeito vasodilatador, pelas células endoteliais. Um segundo tipo de evidência, obtida em uma série de estudos in vitro e in vivo, mostra que os componentes poli fenólicos do vinho tinto, somados ao álcool, poderiam ativamente impedir o início e a progressão da arteriosclerose. As substâncias poli fenólicas do vinho geralmente são divididas em dois grupos, os flavonoides e os não-flavonoides.

Os flavonoides presentes no vinho tinto e no suco de uva promovem dilatação endotelial. Os fenóis do vinho tinto bloqueiam a produção da endotelina (ET-1), um potente vasoconstritor que induz a proliferação de células musculares lisas cuja produção é fator-chave no desenvolvimento da doença vascular aterosclerótica. Os polifenóis dos diferentes vinhos tintos diminuem a síntese e suprimem a transcrição gênica da ET-1, como observado em cultura de células endoteliais de aorta bovina. A Inibição da síntese de endotelina foi diretamente correlacionada com o total de polifenóis presentes na cultura. Os vinhos branco e rosê não promoveram efeito similar.

Já a atividade antioxidante dos flavonoides se dá pelo aumento da resistência da oxidação do LDL (colesterol ruim), que é tóxica para as células endoteliais e tem papel significativo no desenvolvimento e progressão das placas arterioscleróticas. Em estudo em que foi ministrado suco de uva por 14 dias para 15 adultos com doença arterial, os pesquisadores observaram aumento de 34,5% no tempo de oxidação do LDL. Além disso, ocorreu importante aumento no fluxo sanguíneo por meio de vasodilatação.

Os flavonoides abundantes no vinho tinto e no suco de uva são a quercetina e a catecina. Além de ser um potente antioxidante, a quercetina induz relaxamento do anel aórtico in vitro. A catecina é representante da família de antioxidantes e está presente não somente no vinho tinto, mas também nos vegetais, frutas, chás e chocolates. Assim, o consumo de grande quantidade de catecina pode explicar, pelo menos em parte, o efeito protetor da dieta mediterrânea, rica em frutas, vegetais e vinho tinto.

 

LEONARDO CAIXETA – é doutor em neurologia e psiquiatria pela USP e professor de neurociências da Universidade Federal de Goiás.

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.