PSICOLOGIA ANALÍTICA

NA DOSE CERTA

Consumo moderado de bebida alcoólica, especialmente vinho, parece proteger o cérebro e aumentar a longevidade.

Na dose certa

Segundo a mitologia grega, em todos os lugares por onde passava o deus do vinho, Dionísio (ou Baco, na versão latina), ocorriam dois tipos de reação. Ou seus convivas se entregavam aos encantos de sua presença embriagante, ou exibiam franca resistência à sua sedução. Geralmente, estes últimos eram impiedosamente eliminados Pode-se dizer que algo análogo ocorre quando os efeitos do vinho – e do álcool de forma mais geral – na saúde se tornam o centro de uma discussão milenar: alguns se posicionam como francos delatores de seus malefícios no organismo, outros tentam reabilitá-lo e até reverenciá-lo como benéfico guardião de nossa saúde.

Estudos abundam em ambas as vertentes. Se por um lado, o uso abusivo e a dependência do álcool têm vasta e malévola repercussão em praticamente todos os sistemas (digestivo, nervoso, imunológico, endócrino, etc.), por outro, o consumo moderado parece redundar em benefícios à saúde. Há muitas evidências na literatura sobre o tropismo do etanol pelo fígado, estômago, nervos periféricos e encéfalo, onde produz lesões celulares algumas vezes irreversíveis, alterando o metabolismo em vários níveis. Mais recentemente, entretanto, uma série de estudos vem corroborando uma sabedoria há muito impregnada na cultura mediterrânea: usado com moderação, o vinho pode ser um poderoso aliado da saúde, prevenindo o aparecimento de doenças e prolongando a vida.

Devido a grande mortalidade e morbidade geradas pelas doenças cérebro vasculares no mundo, bem como aos elevados gastos que trazem ao sistema de saúde, a prevenção desses problemas tomou-se foco de multas pesquisas. A associação inversa entre consumo moderado de vinho e risco vascular tem sido demonstrada em muitos estudos epidemiológicos, revelando o vinho como importante fator de proteção para esse conjunto de doenças.

Todas as causas de morte em função do consumo de álcool, tem sido descritas por “curvas em forma de J”, que refletem menor risco de doenças cardíacas, quando o consumo é moderado, e aumento do risco para algumas formas de câncer e cirrose, quando a ingestão é alta. Já a relação entre consumo de bebida alcóolica e risco de acidente vascular cerebral (AVC) é mais controversa, particularmente porque muitos estudos falham em distinguir entre as versões hemorrágica e isquêmica da doença. Muitas pesquisas têm mostrado risco maior de AVC hemorrágico associado à maior ingestão de álcool. Outras, entretanto, indicam uma tendência de efeito protetor do álcool para o AVC isquêmico, mas falham em confirmar a relação independente entre eles. Estudo em que a maioria dos participantes eram negra evidenciou que o consumo frequente de álcool estava relacionado ao aumento do risco de isquemia cerebral, mas quando as variáveis tabagismo e hipertensão foram controladas, essa associação não foi significativa.

 DOENÇAS DO CÉREBRO

Alguns trabalhos têm mostrado relação positiva entre ingestão de alcoólica e AVC. Em um estudo realizado na Espanha, país que apresenta um dos maiores índices de consumo de vinho, o grupo do médico Fernando Rodriguez Artalejo relatou redução da incidência de doenças cerebrovasculares associada ao maior consumo de frutas, vegetais e peixes e também, o menor consumo de vinho no mesmo período (antes do estudo, o consumo era intenso). Assim, mudanças alimentares foram responsáveis por 22% da queda da mortalidade por doença cerebrovascular.

Em muitos estudos anteriormente citados, entretanto, não foi explicitada a relação entre a quantidade de álcool ingerido, o tipo da bebida e o tipo de doença cerebrovascular, isto é, AVC isquêmico ou hemorrágico. Esta, aliás, é a principal crítica aos estudos epidemiológicos, que vêm mostrando inconsistência ao relacionar o álcool, de forma geral, e o tipo de bebida alcoólica, de forma particular, ao AVC. Enquanto algumas pesquisas sugerem aumento do risco de AVC. Há evidências contrárias de que o consumo moderado de álcool pode diminuir o risco de AVC isquêmico.

Todos esses dados trazem à tona a noção de que o consumo de álcool reduza a incidência apenas do AVC isquêmico.  Isso porque a principal causa do AVC hemorrágico, a hipertensão arterial, apresenta estreita ligação com o consumo crônico de álcool. Dados epidemiológicos recentes mostram que o álcool também poderia prevenir o aparecimento de doenças cardiovasculares (doença coronária e infarto do miocárdio, por exemplo), que são a principal causa de morte no mundo.

Não existe ainda uma explicação definitiva para esse mecanismo protetor, tampouco se sabe se de fato ele existe. Acredita-se, no entanto, que tal proteção dos vasos sanguíneos possa ser mediada pela ação do álcool na peroxidação de lipídeos (indicador de stress oxidativo celular), bem como na coagulação sanguínea. O vinho, a cerveja e outras bebidas alcoólicas podem exercer diferentes efeitos na doença cardiovascular devido a suas substâncias com propriedades antioxidantes, como os polifenóis, que podem interferir nos mecanismos responsáveis pela doença cardiovascular.

Diversos estudos epidemiológicos mostram que o consumo moderado de álcool está associado à redução da morbidade e da mortalidade secundária à complicação arteriosclerótica. Os dados indicam que qualquer tipo de bebida é benéfico, mas o vinho tinto parece conferir um benefício adicional.

A quantidade de bebida alcoólica é um aspecto importante na determinação dos fatores de risco para as doenças cardiovasculares e cardíacas. O consumo moderado, definido como de uma a duas doses por dia, tem sido indicado como responsável pelo aumento da longevidade em diferentes grupos populacionais.

Comparado a outras bebidas, o vinho tem sido responsável por maior redução no risco de doenças cerebrovasculares, especialmente o AVC isquêmico. Além do álcool, pesquisadores revelam a presença de substâncias importantes na estabilização ou na regressão desses distúrbios. Em análise prospectiva com mais de 38 mil homens saudáveis, o consumo de álcool em geral, esteve associado a alto risco para AVC isquêmico entre os que consumiam mais que duas doses diárias (o equivalente a cerca de 30 g de etanol). A ingestão de três a quatro doses semanais pareceu estar associada com menor risco. O consumo de vinho tinto foi inversamente relacionado ao risco para AVC isquêmico, associação que foi significativamente diferente das outras comparações com outros tipos de bebidas. O consumo regular de vinho tinto foi sugerido como explicação para o paradoxo francês, “isto é, a relativa baixa incidência de doença coronariana arteriosclerótica na França, comparada a outros países ocidentais, apesar da alta ingestão de gordura saturada por essa população

DOENÇAS VASCULARES

A ideia de que talvez o vinho tinto forneça uma proteção vascular superior ao de outras bebidas fomentou o interesse pelo tema, dando origem ao Copenhagen Heart Study, que avaliou

prospectivamente, durante 12 anos, 13 indivíduos entre homens e mulheres. Os resultados sugeriram que os consumidores moderados de vinho tinto tinham metade do risco de morrer por doenças cardiovasculares e cerebrovasculares. Cerveja e outras bebidas alcoólicas não apresentaram essa vantagem. Essas evidências foram reforçadas quando o mesmo grupo realizou um novo estudo em que variáveis como tipo de bebida, tabagismo, nível educacional, atividade física e índice de massa corporal foram controladas no início da pesquisa. Comparados com quem não bebia álcool, os bebedores leves que evitavam vinho tinham risco relativo de morrer por qualquer causa bem acima dos que apreciavam a bebida de Baco. Os autores concluíram que, além de o vinho ter efeito benéfico em todas as causas de mortalidade, esse benefício é somado à proteção fornecida pelo álcool.

A vantagem adicional do vinho, comparada a de outras bebidas alcoólicas, foi confirmada por uma metanálise que investigou a relação com o risco vascular. Os dados de 13 estudos, que somaram mais de 209 mil indivíduos, revelaram redução do risco de doenças vasculares de 32% devido à ingestão de vinho, para o consumo de cerveja, essa redução foi de apenas 21%.

É honesto ressaltar, entretanto, que outras pesquisas e metanálises têm falhado em demonstrar o efeito superior do vinho em relação a outras bebidas. Um grande estudo prospectivo com cerca de 129 mil participantes concluiu que o consumo moderado de qualquer bebida alcoólica reduz o risco cardiovascular sem o efeito adicional benéfico associado à ingestão específica de vinho. Explicações para esses resultados contraditórios podem incluir diferenças nos fatores de risco cardiovasculares: entre apreciadores de cerveja, de vinho e de outras bebidas alcoólicas, no comportamento de cada consumidor, na presença de estilos de vida diferentes e nas variações no tipo de vinho consumido.

Pesquisas recentes sugerem que os vinhos tintos diferem em sua capacidade de vasodilatação – impedindo a obliteração dos vasos sanguíneos e, logo, a isquemia tecidual -, dependendo do tipo de uva e do país de origem. Além disso, os apreciadores de vinho costumam ter alimentação mais saudável e, geralmente, pertencem a um nível sócio econômico mais alto quando comparados com quem prefere cerveja, por exemplo.

COLESTEROL E TRIGLICERÍDEOS

Muitos estudos epidemiológicos não conseguiram identificar o tipo de bebida consumida e as circunstâncias em que se dá esse consumo – de forma solitária ou em grupo, nas refeições ou apenas nos finais de semana, por exemplo. Obviamente tais limitações metodológicas podem produzir comparações menos verídicas e resultados menos consistentes. Assim, futuros estudos deveriam focar claramente estas questões, diferenciando os tipos de bebidas consumidas, identificando fatores como condição sócio econômica e dieta, e avaliando o comportamento de consumo, para afastar a confusão que existe na literatura em relação aos efeitos específicos do vinho.

Modelos experimentais de arteriosclerose têm confirmado o efeito protetor do vinho e dos constituintes do suco de uva. Um estudo com coelhos alimentados por três meses com dieta rica em colesterol mostrou que a área coberta por placas arterioscleróticas foi maior nos animais que receberam somente dieta menor nos que ganharam dieta e vinho tinto, e intermediária naqueles que ingeriram subprodutos não alcoólicos do vinho junto com dieta rica em gordura. Curiosamente esses efeitos protetores ocorreram apesar da persistência do alto colesterol total e do LDL (colesterol ruim) e de nenhuma mudança nos níveis de triglicerídeos e de HDL (colesterol bom). O vinho tinto foi significativamente mais eficaz que seus subprodutos não alcoólicos.

Por fim, na compreensão do efeito protetor do vinho, temos que o aumento do HDL (colesterol bom) e dos triglicérides tem sido consistentemente documentado. Um estudo analisou os hábitos de consumo de bebida e o nível sérico de lipídeos em 1.581 homens e 1.535 mulheres na França. O resultado foi uma relação positiva e significativa entre consumo de álcool e níveis de HDL e triglicérides em ambos os sexos.  Os bebedores de vinho apresentavam maiores níveis de HDL. Sabe-se que o aumento dessa lipoproteína protege contra doenças arteriais crônicas, e isso poderia explicar o mecanismo pelo qual o álcool previne contra complicações arterioscleróticas.

Apesar de tantos estudos epidemiológicos e biológicos, ainda não há informação suficiente para recomendar a ingestão de vinho como intervenção terapêutica na prevenção ou tratamento das doenças vasculares arterioscleróticas. Infelizmente, a mídia geralmente não assume uma postura responsável e cuidadosa nesse sentido, recomendando sem base científica o consumo dessa bebida como uma espécie de panaceia. Talvez seja uma forma de ir ao encontro dos anseios dionisíacos disseminados na sociedade de consumo, que pregam a substituição da dor provocada pela doença pelo prazer (algumas vezes irresponsável) proporcionado pelo álcool.

 FLAVONOIDES PARA LIMPAR E PROTEGER AS ARTÉRIAS

É preferível dizer “consumo de bebida alcoólica” que “consumo de álcool”, uma vez que cerveja, vinho e destilados contêm outras substâncias, além dos etanóis puros, que podem melhorar ou piorar a saúde. Esse pode ser o equilíbrio entre os atributos benéficos e prejudiciais que ajuda a explicar as diferenças observadas entre grupos populacionais e, mais importante, entre indivíduos.

No centro das explicações de como o vinho pode prevenir doenças estão os flavonoides, substâncias que podem influenciar muitos fatores que participam na formação e na evolução da placa arteriosclerótica. Estudos epidemiológicos e experimentais apontam para o efeito do vinho na diminuição da arteriosclerose, e o mecanismo envolvido foi recentemente descoberto. Os flavonoides presentes no vinho tinto podem diminuir a produção de ET-1, um poderoso vasoconstritor endógeno, bem como aumentar a secreção de óxido nítrico, de efeito vasodilatador, pelas células endoteliais. Um segundo tipo de evidência, obtida em uma série de estudos in vitro e in vivo, mostra que os componentes poli fenólicos do vinho tinto, somados ao álcool, poderiam ativamente impedir o início e a progressão da arteriosclerose. As substâncias poli fenólicas do vinho geralmente são divididas em dois grupos, os flavonoides e os não-flavonoides.

Os flavonoides presentes no vinho tinto e no suco de uva promovem dilatação endotelial. Os fenóis do vinho tinto bloqueiam a produção da endotelina (ET-1), um potente vasoconstritor que induz a proliferação de células musculares lisas cuja produção é fator-chave no desenvolvimento da doença vascular aterosclerótica. Os polifenóis dos diferentes vinhos tintos diminuem a síntese e suprimem a transcrição gênica da ET-1, como observado em cultura de células endoteliais de aorta bovina. A Inibição da síntese de endotelina foi diretamente correlacionada com o total de polifenóis presentes na cultura. Os vinhos branco e rosê não promoveram efeito similar.

Já a atividade antioxidante dos flavonoides se dá pelo aumento da resistência da oxidação do LDL (colesterol ruim), que é tóxica para as células endoteliais e tem papel significativo no desenvolvimento e progressão das placas arterioscleróticas. Em estudo em que foi ministrado suco de uva por 14 dias para 15 adultos com doença arterial, os pesquisadores observaram aumento de 34,5% no tempo de oxidação do LDL. Além disso, ocorreu importante aumento no fluxo sanguíneo por meio de vasodilatação.

Os flavonoides abundantes no vinho tinto e no suco de uva são a quercetina e a catecina. Além de ser um potente antioxidante, a quercetina induz relaxamento do anel aórtico in vitro. A catecina é representante da família de antioxidantes e está presente não somente no vinho tinto, mas também nos vegetais, frutas, chás e chocolates. Assim, o consumo de grande quantidade de catecina pode explicar, pelo menos em parte, o efeito protetor da dieta mediterrânea, rica em frutas, vegetais e vinho tinto.

 

LEONARDO CAIXETA – é doutor em neurologia e psiquiatria pela USP e professor de neurociências da Universidade Federal de Goiás.

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JEJUAR PARA VIVER MAIS

Estudo de Harvard ajuda a compreender que fazer jejum por algumas horas por dia pode manter as células mais ativas e aumentar o tempo de vida do organismo.

Jejuar para viver mais

Interferir em estruturas existentes no interior das células seja por restrição alimentar ou por manipulação genética (que imite o efeito da dieta) pode aumentar o tempo de vida e promover a saúde. Esta é a conclusão de uma nova pesquisa desenvolvida pela Escola de Saúde Pública de Harvard. O estudo, publicado em outubro no periódico científico Cell Metabolism, ajuda a entender processos biológicos básicos envolvidos na diminuição da capacidade das células de processar energia ao longo do tempo, o que leva ao envelhecimento E mais: como períodos de jejum podem favorecer envelhecimento saudável.

A chave para essa nova compreensão está nas mitocôndrias, que são estruturas produtoras de energia existentes no interior das células, organizadas em forma de redes que mudam dinamicamente de acordo com a demanda de energia. Os cientistas já sabiam que a plasticidade das mitocôndrias diminui com o passar dos anos, mas o impacto que isso tem sobre o metabolismo e a função celular não estava claro. No estudo mais recente, os pesquisadores mostraram a relação entre mudanças dinâmicas no formato das redes mitocondriais e longevidade.

VIDA DE 14 DIAS

Embora já soubéssemos como o jejum intermitente pode retardar o envelhecimento, estamos apenas começando a entender a biologia subjacente a esse processo, comentou o doutor em biologia Willian Mair, professor associado de genética e doenças complexas da Universidade Harvard, que também participou do estudo. Nosso trabalho mostra como a plasticidade das redes de mitocôndrias é crucial para os benefícios do jejum. Ou seja, se bloquearmos as mitocôndrias, podemos diminuir grande parte dos efeitos do desgaste causado pelo tempo no âmbito celular.

Os cientistas usaram na investigação o C. elegans (verme nematoide que vive apenas duas semanas – o que permite o acompanhamento do envelhecimento em tempo real no laboratório). Redes mitocondriais dentro das células tipicamente alternam entre estados fundidos e fragmentados. Os pesquisadores descobriram que restringir a dieta dos vermes por meio da manipulação genética de uma proteína sensível à energia chamada AMPK mantinha as redes mitocondriais em um estado “jovem” por mais tempo. Eles constataram que as redes preservadas modulam o metabolismo da gordura, aumentando a longevidade.

“Condições de baixa energia, como a que é ocasionada em situações de restrição alimentar e jejum intermitente, mostraram anteriormente que contribuíam para o envelhecimento saudável. Entender porque esse é o caso é um passo crucial para os benefícios de forma terapêutica, disse a neurocientista Heather Weir, que coordenou a pesquisa na Universidade Harvard. Em sua opinião, as descobertas abrem caminhos na busca de estratégias terapêuticas que reduzirão nossa probabilidade de desenvolver doenças relacionadas à idade.

Os próximos passos da pesquisa incluem testes que mostrem o efeito da restrição calórica e do jejum nas redes mitocondriais de mamíferos. Os neurocientistas querem investigar nessa nova fase se problemas na flexibilidade mitocondrial podem explicar a associação entre obesidade e aumento do risco de doenças relacionadas ao envelhecimento.

GESTÃO E CAREIRA

DETESTA SEU CHEFE?

“Liderança tóxica” é o principal motivo de pedidos de demissão

Detesta seu chefe

Qual é a maior causa de pedidos de demissão numa empresa? Excesso de trabalho? Salário baixo? Não: estudo da consultoria BambooRH constata que 44% dos pesquisados alegam ter pedido demissão por causa do “chefe tóxico”, que lhes tirou a motivação de trabalho por uma série de razões. A maior causa (mencionada por 20% dos entrevistados) é o chefe roubar o crédito pelo trabalho feito pelo subordinado, sem reconhecer seu valor (e 63% condenam esse tipo de “estelionato profissional”). Mas a lista de causas de pedidos de demissão vai longe: chefia não manifestar confiança ou dar poder; ignorar seu excesso de trabalho; não estabelecer recompensas financeiras por conquistas; contratar ou promover pessoas erradas; não apoiar o subordinado em disputas com clientes; não dar orientações claras; adotar micro gerenciamento que não permite autonomia; ressaltar suas fraquezas e não qualidades; e não deixar claras suas expectativas (ufa!).

O estudo constatou ainda que, além do comportamento tóxico, algumas atitudes da liderança também levam os subordinados a desejar outro emprego, como estilo falho de gerenciamento, atitudes condescendentes, temperamento mesquinho e assédio pessoal. Os autores sugerem então que, para montar uma boa equipe, as empresas devem escolher lideranças que confiem em seus subordinados, se preocupem com seus problemas pessoais, respeitem o equilíbrio   vida/trabalho e reconheçam seus esforços e suas boas ideias. Assim, as virtudes do topo se espalharão ao longo de toda a organização.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 36 – 46 – PARTE II

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A Agonia no Jardim

VI – O que se passou entre o Senhor Jesus e os seus três discípulos neste momento; e aqui podemos observar:

1. O erro de que eles eram culpados. Quando Ele estava em sua agonia, triste e abatido, suando, lutando e orando, eles estavam tão pouco preocupados, que não puderam permanecer acordados. Ele se aproxima, e os encontra dormindo (v. 40). A singularidade da situação deveria ter levantado os seus ânimos a uma mudança de atitude agora, para contemplarem essa grande visão da sarça que ardia, e não se consumia; muito mais o seu amor por seu Mestre, e o cuidado deles com relação a Ele, os obrigava a um serviço mais próximo e vigilante. Entretanto, eles estavam tão enfadados, que não puderam manter os olhos abertos. O que seria de nós se Cristo estivesse agora tão sonolento quanto os seus discípulos estavam? É bom que a nossa salvação esteja na mão de alguém que não cochila nem dorme. Cristo os incumbiu de vigiarem consigo, como se esperasse algum socorro da parte deles, mas eles dormiram. Certamente, essa foi a situação mais rude possível. Quando Davi chorou no monte das Oliveiras, todos os seus seguidores choraram com ele (2 Samuel 15.30); mas quando o Filho de Davi estava ali em lágrimas, os seus seguidores estavam dormindo. Os inimigos que o vigiavam estavam bastante acordados (Marcos 14.43); mas os seus discípulos, que deveriam ter vigiado com Ele, estavam dormindo. Senhor, que é o homem! Que são os melhores dos homens, quando Deus os deixa por si mesmos! Note que a negligência e a segurança carnal – especialmente quando Cristo está em sua agonia – são grandes erros em qualquer pessoa, mas especialmente naqueles que professam ser mais próximos a Ele. A igreja de Cristo, que é o seu corpo, está frequentemente em agonia, com lutas externas e temores internos. Estaremos dormindo então, como Gálio, que não se preocupou com nenhuma dessas coisas? Ou estaremos como aqueles (Amos 6.6) que ficaram tranquilos, e não es­ tiveram entristecidos pela aflição de José?

2. O favor de Cristo a eles, a despeito disso, as pessoas que estão sofrendo são muito propensas a serem irritadiças e impacientes com aqueles que estão ao seu redor, e qualquer atitude de negligência é penosamente levada a sério. Mas Cristo, em sua agonia, é manso como sempre, e age tão pacientemente com os seus seguidores como também com o seu Pai, e não tende a levar isso a mal.

Quando os discípulos de Cristo lhe fazem essa desfeita:

(1)   Ele se aproximou deles, como se esperasse receber alguma consolação da parte deles; e se eles tivessem em mente o que Cristo lhes havia dito a respeito de sua ressurreição e glória, talvez poderia ter havido alguma ajuda para Ele; mas, em vez disso, eles acrescentaram dor à sua tristeza. Mesmo assim, Ele se aproximou deles, sendo mais cuidadoso com eles do que eles estavam sendo consigo mesmos. Quando o Senhor Jesus estava mais envolvido na situação, Ele se aproximou para cuidar deles; porque aqueles que lhe foram dados estavam em se u coração, quer na vida, quer na morte.

(2)  Ele lhe s fez uma leve censura, porque é necessário repreendermos aqueles a quem amamos. O Senhor Jesus dirigiu a palavra a Pedro, que costumava falar pelos discípulos; mas agora Pedro ouve por eles. A reprovação foi muito comovente: “Então, nem uma hora pudeste vigiar comigo?” O Senhor fala como alguém que está espantado por vê-los tão néscios. Cada palavra, quando considerada de perto, mostra a natureza exasperada do caso. Considere:

[1] Quem eles eram: “Não pudestes vigiar, meus discípulos e seguidores? Não é de admirar que outros me negligenciem, se a terra está tranquila e em descanso (Zacarias 1.11); mas de vós eu esperava coisas melhores”.

[2] Quem Ele era: “Vigiai comigo. Se um de vós estivesse doente e em agonia, seria muito rude não vigiarmos com ele; mas é desobediência não vigiar com o vosso Mestre, que, por muito tempo, tem cuidado do vosso bem, vos tem guiado, alimentado e ensinado, sustentado, e perseverado convosco; tendes vós retribuído a Ele?” Ele despertou de seu sono para ajudá-los quando estavam aflitos (cap. 8.26). E eles não poderiam permanecer acordados, pelo menos para mostrar a boa vontade que tinham em relação a Ele, especialmente considerando que Ele estava sofrendo por eles, enfrentando uma grande agonia por eles? Estou sofrendo por vossa causa.

 [3] Que coisa pequena o Senhor Jesus esperava deles; apenas que vigiassem com Ele. Se Ele lhes tivesse ordenado que fizessem alguma coisa grande, que enfrentassem uma agonia com Ele, ou que morressem com Ele, eles certamente pensariam em poder tê-lo atendido. No entanto, não puderam atendê-lo quando o Senhor só desejava que eles vigiassem com Ele (2 Reis 5.13).

[4] Quão curto era o tempo que Ele esperava que eles vigiassem; ao menos uma hora. Eles não foram colocados de guarda por toda a noite, como o profeta (Isaias 21.8), mas apenas uma hora. Às vezes, o Senhor Jesus prosseguia durante toda a noite em oração a Deus Pai, mas nesses casos não esperava que os discípulos vigiassem com Ele; só agora, quando Ele tinha apenas uma hora para passar em oração.

 

(3)  Ele lhes deu bons conselhos: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação” (v. 41).

[1] Havia uma hora de tentação se aproximando, e estava muito perto; as dificuldades de Cristo eram tentações que poderiam levar os seus seguidores a não crerem nele e a não confiarem nele, a negá-lo e desertá-lo, e a renunciarem a todo o relacionamento com Ele.

[2] Havia o perigo de os discípulos entrarem em tentação, como em um laço ou armadilha; o perigo de entrarem em negociações com a tentação, ou passarem a ter uma boa opinião sobre ela, de serem influenciados por ela, e tenderem a transigir em relação a ela; este é o primeiro passo para ser vencido por ela.

[3] O Senhor, portanto, os exorta a vigiar e orar: “Vigiai comigo e orai comigo”. Enquanto eles estavam dormindo, perderam o benefício de se juntarem a Cristo em oração. “Vigiai vós mesmos, e orai vós mesmos. Vigiai e orai contra esta tentação presente de sonolência e segurança; orai para que possais vigiar; rogai a Deus por sua graça para vos manter acordados, agora em que há ocasião”. Quando estamos sonolentos no culto a Deus, devemos orar, como fez, certa vez, um bom cristão: “O Senhor me livre deste demônio da sonolência!” Senhor, vivifica em mim os teus caminhos. Ou: “Vigiai e orai contra outra tentação com que possais ser atacados; vigiai e orai para que este pecado não prove a entrada de muitos mais.” Note que quando percebemos que estamos entrando em alguma tentação, temos a necessidade de vigiar e orar.

(4)  Ele bondosamente os desculpou: “Na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca”. Não lemos de nenhuma palavra que eles tenham dito em favor de si mesmos (o senso da própria fraqueza deles fez com que se calassem); mas então o Senhor teve uma palavra terna para dizer em favor deles, pois é o ofício dele ser um Advogado; nisso, Ele nos apresenta um exemplo do amor que cobre uma multidão de pecados. Ele considerou a estrutura deles, e não os repreendeu, pois se lembrou de que eles eram apenas carne; e a carne é fraca, embora o espírito esteja pronto (Salmos 78.38,39). Considere que:

[1] Os discípulos de Cristo, enquanto estiverem aqui neste mundo, têm corpos, como também almas, e um princípio de corrupção persistente, bem como de graça reinante, como Jacó e Esaú no mesmo ventre, cananeus e israelitas na mesma terra (Gálatas 5.17,24).

[2] É a infelicidade e o fardo dos discípulos de Cristo, que os seus corpos não possa m acompanhar o ritmo de suas almas em obras de piedade e devoção, mas, por muitas vezes, sejam um obstáculo para eles; que, quando o espírito esteja livre e disposto para aquilo que é bom, a carne lhe seja contrária e indisposta. Isto, o apóstolo Paulo lamenta (Romanos 7.25): “Com o entendimento, sirvo à lei de Deus, mas, com a carne, à lei do pecado”. A nossa impotência no serviço a Deus é a grande iniquidade e infidelidade da nossa natureza, e ela surge a partir desses resíduos de corrupção, que são as dores e os fardos constantes do povo de Deus.

[3] No entanto, é a nossa consolação que o nosso Mestre considere bondosamente isso, e aceite a disposição do espírito, e se compadeça e perdoe as fraquezas e as enfermidades da carne; pois estamos debaixo da graça, e não debaixo da lei.

(5)  Embora eles continuassem enfadados e sonolentos, o Senhor não os repreendeu mais por isso; porque, embora o ofendamos diariamente, Ele não deseja nos repreender continuamente.

[1] Quando Ele se aproximou deles pela segunda vez, não encontramos que lhes tenha dito qualquer coisa (v. 43). O Senhor os achou outra vez adormecidos. Poderia se pensar que Ele havia dito o suficiente para mantê-los acordados; mas é difícil nos recobrarmos de um espírito de cochilo. A segurança carnal, quando prevalece uma vez, não é facilmente removida. Os seus olhos estavam carregados, o que sugere que eles lutaram o quanto puderam, mas foram vencidos pelo sono, como a esposa: “Eu dormia, mas o meu coração velava” (Cantares 5.2); portanto, o Mestre os olhou com compaixão.

[2] Quando Ele se aproximou pela terceira vez, alertou-os do perigo iminente (vv. 45,46): “Dormi, agora, e repousai”. Alguns pensam que isso foi dito com ironia: ”Agora durmam se puderem, durmam se ousarem; Eu não lhes perturbaria se Judas e seu grupo de homens não viessem nos perturbar.” Veja aqui como Cristo lida com aqueles que sofrem ao serem vencidos pela segurança que sentem, e que não serão despertados por ela. Em primeiro lugar, às vezes, Ele os entrega ao poder dela: “Dormi, agora”. Aquele que dorme, continue dormindo. A maldição do cochilo espiritual é o justo castigo do seu pecado (Romanos 11.8; Oseias 4.17). Em segundo lugar, muitas vezes, Ele envia algum juízo alarmante, para despertar aqueles que não seriam tocados pela Palavra; e seria melhor que aqueles que não são alarmados por razões e argumentos ficassem alarmados pelas espadas e lanças do que deixados para perecer em sua segurança. Que aqueles que não creem sejam forçados a sentir.

Quanto aos discípulos:

1. Seu Mestre os avisou da aproximação iminente de seus inimigos, que provavelmente estavam dentro do campo de visão ou podiam ser ouvidos, porque eles vieram com velas e tochas, e é provável que tenham feito um grande barulho: “O Filho do Homem será entregue nas mãos dos pecadores. E também, eis que é chegado o que me trai”. Note que os sofrimentos de Cristo não eram surpresa para Ele. Ele sabia o que, e quando, iria sofrer. Nesse momento, o extremo de sua agonia já havia passado, ou, ao menos, sido afastado. Enquanto isso, com uma coragem destemida, Ele se dirige ao próximo encontro, como um campeão para o combate.

2. Ele rogou que eles se levantassem, e que partissem. O Senhor não disse: “Levantai-vos, e fujamos do perigo”, mas: “Levantai-vos, partamos ao seu encontro”. Antes de orar, Ele temia os seus sofrimentos, mas agora havia superado os seus temores. Mas:

3. Ele os faz entender a atitude de loucura que era dormir durante o tempo em que deveriam estar se preparando; agora o evento os achou despreparados, e foi um terror para eles.