PSICOLOGIA ANALÍTICA

POR TRÁS DOS CONTOS DE FADAS

A importância das narrativas no aprendizado e na elaboração do autoconhecimento: uma visão junguiana, sua linguagem simbólica e o arquétipo do herói

Por trás dos contos de fadas

Basta sentarmos diante de um grupo, crianças ou adultos, e começarmos com, ”Era uma vez…” que rapidamente o silêncio se faz presente, os olhos atentos brilham e os ouvidos apuradíssimos não nos dão nenhum indício de qualquer “Déficit de Atenção”. Isso porque, por meio de reis, rainhas, anões, gigantes, ogros, bruxas ou dragões, saímos do nosso mundo real e entramos num mundo onde tudo é possível.

Neste mundo mágico o que aprendemos não é o saber da sala de aula, o conhecimento teórico, intelectual, mas sim, o saber que ensina a lutar contra forças, invencíveis, superar nossos medos, buscar nosso conhecimento, enfrentar os desafios, nunca desistir e, dentre tantos outros saberes, a identificar a hora certa para agir. Um verdadeiro alimento para nossa alma!

Os contos com suas figuras Fantásticas evocam imagens internas em crianças ou adultos; isso porque elas transcendem o campo da visão e o que ela reconhece, nas imagens de mamãe ou papai por exemplo, é seu valor simbólico como: colo, carinho, proteção, segurança, alimento, abandono, frustração etc.

“Assim, ao contarmos um conto é como se estabelecêssemos uma ponte entre as imagens do conto, as nossas de contador e as do mundo interior da criança. Jette Bonaventure. Por essa razão, cada vez que contamos um conto para nossas crianças é como se déssemos a elas e a nós mesmos um presente, pois, neste momento, bem diference da agitação do dia a dia, podemos praticar a vivência de nosso mundo interior.

O efeito causado pelos contos é sempre muito positivo: toda magia do conto cria um momento de cumplicidade entre as pessoas. Os contos nos dão verdadeiras lições de como resolver problemas complexos da vida. Não é necessário acreditar nos feitos heroicos presentes neles pois, certamente, isso não passaria pelo crivo da criança, no entanto isso não impede que atinjam outras camadas, para além do inconsciente.

As histórias falam “da realidade de ser humano, de sua busca, de seus traumas e dificuldades   para lidar com papai e mamãe, de seus desejos de ser herói, dos monstros que às vezes sente que tem que combater durante sua vida”. Jette Bonaventure. Mitos e contos, segundo Jung, “dão expressão a processos inconscientes e sua narração provoca a revitalização desses processos restabelecendo assim conexão entre consciente e inconsciente”.

HÁ MILHARES DE ANOS…

Para entender por que os contos e mitos encantam a todos, geração após geração, é preciso compreender do que tratam essas imagens e o que elas realmente representam.

Muitos se dedicaram ao estudo e interpretação da linguagem simbólica dos contos de fada e mitos; uma grande especialista no ramo é a Dra. Marie Louise Von Franz, discípula e colaboradora de Jung, a quem muitos outros seguem dentro da escola de Psicologia Analítica. Além dela cito Erich Neumann e, aqui no Brasil, a Dra. Jette Bonaventure, licenciada em filologia Românica em Copenhague, Psicopedagogia e Psicologia pela Sorbonne, revisora técnica da tradução da obra completa de C.G. Jung, para o português, de quem sigo os passos.

Diversas são as formas e linhas de interpretação dos contos e mitos. Neste artigo apresento o olhar psicopedagógico que, além de reconhecer a importância do simbolismo das imagens, também reconhece nos contos e mitos inúmeras possibilidades para a educação, estabelecendo assim, a parceria afeto-cognição. Também usarei a visão junguiana de interpretação, sem com isso desmerecer qualquer outra forma de olhar.

Os contos nos falam das diferentes situações da vida, o relacionamento das pessoas, entre si e com a sociedade, com a natureza, com o Divino, com as famílias etc. A maneira como o homem vem lidando com esses problemas durante todas as épocas e culturas não difere muito.

O tema em todos os contos e mitos é “o ser humano em busca de si mesmo e em busca do sentido da sua vida” (Jette Bonaventure). Não seria este o tema da vida de todos nós?

Podemos dizer que ao ler ou ouvir um conto ”nós somos a personagem principal e tudo a nossa volta são os nossos arquétipos, bichos que falam, árvores, fadas, bruxas…”

 OS CONTOS E MITOS NAS TERAPIAS

Ao utilizar os contos podemos falar de algo aparentemente inexistente, mágico, que para muitos é puro faz de conta, apenas histórias para fazer crianças dormirem; no entanto, o que não se percebe é que, como os contos falam de temas universais, evocam imagens inconscientes no indivíduo e, quando aproveitadas, nos ajudam a dar muito mais sentido a nossas vidas. Modificando olhares e atitudes, sem que o ser humano se dê conta, estará falando de si mesmo por meio do conto.

O terapeuta deve conhecer muitos contos e mitos para assim, utilizar-se precisamente daquele que está mais relacionado com os problemas específicos de seu paciente.

Conhecendo o que realmente “conta um conto”, ou seja, seu valor simbólico e psicológico, o    terapeuta poderá ajudar crianças e adultos aliviando os problemas que parecem sem solução. Ao entrar em contato com bruxas, feras, ogros ou vizires que nunca estão satisfeitos (como muitos papais), os pacientes acabam percebendo que apesar de essas forças impressão de indestrutíveis, uma personagem de aparência frágil é capaz de derrotá-los, mostrando ser ela dotada de um grande poder.

Os contos também ajudam a despotencializar a carga emocional presente nas pessoas, por deixarem de olhar seus problemas de forma tão individual.

Para as crianças não é preciso nenhuma interpretação intelectual; elas não estão preocupadas com racionalizações, apenas entram de corpo e alma e são elas mesmas “João e Maria” entrando e ficando perdidas na floresta escura, tendo que descobrir recursos internos que irão ajudá-las a vencer as forças do mal. É bem verdade que para isso muitas vezes são ajudadas pelos bichos da floresta, que cuidam das tarefas psicopedagógicas, como separar sementes, selecionar coisas, classificar, eleger, nomear, fazer descobertas junto as peças, o que as crianças os adolescentes precisam para processar esse aprendizado precisam de muito pouca ajuda do terapeuta.

Difícil é convencer as mentes apenas intelectuais que por meio dos contos aprendemos tanto. Nem bem entramos na escola e já começamos a ser treinados para usar nossa mente objetiva, reprimindo tanto quanto possível nossas reações pessoais e emocionais. A justificativa para isso é sempre o discurso: “um vestibular muito em breve”.

Tarefa difícil para o psicopedagogo que acredita que para educar não se pode desconsiderar o fator sentimento, sendo a base de seu trabalho o enfoque afetivo-cognitivo.

Ao utilizar contos e mitos como ferramenta psicopedagógica conseguimos contemplar todos os tipos psicológicos, pois qualquer que seja a forma de entrar em contato com as imagens dos contos será sempre a melhor, além do fato de que utilizando os contos para a intervenção psicopedagógica, favorecemos e ao mesmo tempo estimulamos todas as funções tipológicas.

Ao definir os tipos, Jung deixa claro que não foi para colocar rótulos nas pessoas, mas apenas por uma necessidade de criar uma ordem que compreendesse e explicasse os comportamentos.

Para o terapeuta que deseja interpretar contos é fundamental reconhecer sua própria tipologia, mas isso não basta, pois, o mais importante é conseguir transitar pelas quatro funções. “Quanto mais diferenciadas forem as quatro funções numa pessoa, tanto melhor será sua interpretação porque interpretar um conto é, ao mesmo tempo, uma arte, uma profissão e um artesanato”, discorreu Leon Bonaventure, em palestra proferida na PUC – SP.

O SIMBOLISMO DOS CONTOS DE FADA

É preciso dizer que o essencial não é a interpretação e compreensão das fantasias ou conteúdo dos contos, mas sim, a possibilidade de reviver plenamente esses conteúdos.

Para Jung, compreender intelectualmente um sentimento negativo, ou reconhecer sua falsidade, não é suficiente para eliminá-lo. Os sentimentos não podem ser atacados pelo intelecto porque não têm base intelectual.

É exatamente o que os contos nos ajudam a fazer: reviver sentimentos escondidos ou viver desconhecidos. Os contos falam diretamente à alma do ser humano; sozinhos eles causam raiva, dor, insegurança, indignação, orgulho, força. Isso porque somos nós a personagem principal e são nossas imagens internas que serão colocadas nas imagens do conto com nossa carga de sentimentos e emoções, pois eles são desprovidos disso.

As imagens e figuras arquetípicas que estão presentes nos contos e mitos nos fornecem material simbólico que nos permite trabalhar em todos os estágios da vida lidando com muitos arquétipos, principalmente com a sombra, o lado escuro da personalidade, em que se encontram os aspectos desconhecidos e geralmente desprezados por nós, como a raiva, inveja, ciúmes etc.

As crianças se identificam com as personagens dos contos e assim conseguem vivenciar seus sentimentos de abandono, rejeição, nascimento de irmãos, ciúme, o fato de ser a(o) filha (o) preferida(o) ou a(o) mais querida(o) etc. com essas personagens; com elas são submetidas às mais terríveis provas, com a vantagem de poderem pedir ajuda para seres fantásticos ou animaizinhos humanizados. Esses animais representam tendências humanas arquetípicas. Não representam os verdadeiros instintos dos animais, mas também nossos instintos animais, isto é, se o tigre representa na história a agressividade ou a avidez não é aquela característica realmente do tigre, mas a nossa própria agressividade ou avidez. Os animais são portadores da projeção de fatores psíquicos humanos.

É cumprindo toda essa trajetória, a chamada “jornada do herói” que nossas crianças podem de maneira simbólica, atingir a maturidade representada pelo encontro do “diamante perdido” ou pelo “resgate do parceiro” que estava em terras distantes.

Com as personagens dos contos, crianças, adolescentes e adultos provarão seu verdadeiro valor de herói ou heroína, superando seus medos, inseguranças e dificuldades.

As fadas geralmente representam o lado positivo do arquétipo da grande mãe, bem como as bruxas o seu aspecto mais terrível, porém tão fundamental para impulsionar nosso crescimento –  imaginem as histórias sem bruxas ou gigantes… nada aconteceria!

Mães excessivamente boas tendem a paralisar seus filhos impedindo seu desenvolvimento e autonomia. Quantas mamães chegam a impedir que seus filhos saiam de casa sozinhos, mesmo quando eles já têm idade e maturidade para isso. Para elas seus filhos nunca estarão suficientemente crescidos. É por essa razão que em muitos contos as mães boazinhas demais morrem no início deixando seus filhos e filhas sozinhos no mundo, ou melhor, nas mãos de uma madrasta terrível. Nesse momento do conto pode ser despertado nas crianças um pensar sobre “como me afastar de mamãe e descobrir minhas verdadeiras forças”, “quais são essas forças em mim?  “é possível eu me virar sozinho?”. Lógico que nem sempre será tão consciente para elas esse pensar.

As mamães ao ouvirem o conto, quando tocadas por essa imagem, talvez entrem em contato com: “posso deixar morrer o meu lado superprotetor saindo, um pouco de cena e permitindo que meus filhos enfrentem o mundo com seus próprios recursos?” ou “como é esse aspecto em mim?” ou ainda “existe um lado madrasta dentro de mim?”.

É assim que os contos e mitos nos ajudam a organizar nossos pensamentos e direcionar nossas ações de forma coerente e mais sábia, por nos permitir refletir sobre aspectos tão presentes em todos nós.

Os heróis dos contos representam os esforços que fazemos para cuidar do nosso crescimento e aprender a dialogar com os problemas que surgem o tempo todo.  A figura do herói é o meio simbólico por meio do qual o ego emerge; para isso ele tem que olhar de frente para a sombra; assim, o herói, mesmo tendo que enfrentar um caminho de pedras, estará suficientemente preparado para vencer o dragão.

Para encerrar, escolhi um conto de Apuleio: Amor e Psiquê – interpretado por Erich Neumann que fez uma análise com enfoque junguiano, reconhecendo no seu simbolismo O Desenvolvimento da Alma da Mulher, o feminino no seu mais amplo sentido.

AMOR E PSIQUÊ

Conta a lenda que a extraordinária beleza de Psiquê despertou o ciúme de Afrodite que encarregou seu filho Eros de atingir a vidada jovem com suas flechas, fazendo-a amar o homem mais horrendo sobre a face da terra. Amor, ou Eros, de tão perturbado pela beleza de Psiquê, feriu-se com sua própria flecha e se apaixonou por ela. O deus ordenou então que o vento Zéfiro a transportasse para seu palácio e passou a relacionar- se com ela. Havia, porém, uma condição: Psiquê jamais poderia ver seu rosto ou saber seu nome, ou o perderia para sempre.

A jovem aceito as condições e viveu feliz com seu amado até que suas irmãs, invejosas do romance, convenceram-na de que o amante era, na verdade, um monstro disfarçado que, cedo ou tarde, a mataria. Psiquê decidiu mata-lo: pegou um punhal para desferir o golpe, mas antes quis ver pela primeira vez a face do parceiro. iluminou-a com uma lamparina, e só então descobriu que o objeto de seu desejo era o belo deus do amor. Embevecida, deixou cair no rosto dele um pouco de óleo quente da lâmpada. Eros despertou com fortes dores e, sentindo-se traído em sua confiança. voou para longe, terminando o relacionamento.

Desesperada, Psiquê tentou o suicídio, mas foi salva pelo deus Pan. Segue em busca do amado até finalmente ter que recorrer à própria deusa do amor, a vingativa Afrodite, mãe de Eros, que prometeu facilitar a reaproximação com seu filho desde que a linda mortal cumprisse quatro tarefas praticamente impossíveis. Com a ajuda de seres mágicos Psiquê superou todas as provas.

A primeira tarefa era separar de um gigantesco monte de cereais as sementes de grão de bico, milho, etc. por espécie e durante uma única noite. Psiquê é ajudada pelas formigas, criaturas da terra.

A segunda tarefa era trazer para Afrodite flocos de lã de ouro que cobriam o dorso de carneiros selvagens ferozes. Nessa tarefa quem a ajuda é um caniço verde, que lhe murmura instruções.

A terceira tarefa era trazer uma jarra de cristal cheia da água da fonte que alimenta os rios Esfige e o Cocito, ambos infernais; além disso, a montanha que teria que subir era guardada por serpentes terríveis. A ajuda neste momento veio da Águia de Zeus.

Na quarta tarefa, Psiquê tem que descer ao mundo dos mortos e pegar a caixa com a beleza imortal de Perséfone, rainha dos infernos, para entrega-la a Afrodite; essa tarefa Psiquê cumpre sozinha apenas recebendo a orientação da Torre.

Ao voltar do mundo dos mortos ela não resistiu aos desejos de obter um pouco da beleza imortal e, curiosa, abriu a caixa. No mesmo instante caiu num sono mortal. Foi assim, desfalecida, que Eros a encontrou. O deus conseguiu desperta-la, conduziu-a ao Olimpo e suplicou a Zeus permissão para desposá-la. Comovido, o deus dos deuses autorizou a união, promoveu a reconciliação entre Afrodite e a jovem e ainda concedeu a Psiquê a imortalidade. Eros e sua amada viveram felizes para sempre e tiveram uma filha, Volúpia.

Neste conto, encontramos alguns dos principais temas ou motivos presentes nos contos mais conhecidos como Cinderela, Branca de Neve, Vasalisa, A Bela Adormecida: a disputa pelo poder feminino, a beleza desejada, a beleza como símbolo do poder, a madrasta, a bruxa ou, como no mito a deusa Afrodite, a sogra terrível, as irmãs invejosas, as tarefas a cumprir e a curiosidade  feminina.

A abordagem junguiana focaliza a trajetória da humanização do amor. Psiquê adquire consciência de suas forças enfrentando seus desafios com êxito. Ela representa o arquétipo feminino ou anima, enquanto Eros ou Amor aparece como a representação do animus, a face masculina da mulher. Juntos, representam a integração harmoniosa dos opostos, que leva o ser humano a uma vivência amadurecida.

INTERPRETAÇÃO

Psiquê é castigada porque os homens lhe tributaram honras divinas e a consagraram a uma Afrodite por causa de sua beleza. Psiquê aceita seu castigo porque acredita ser a beleza a grande desgraça da sua vida.

Por muito tempo a vida no castelo é o Paraiso, mas o preço é alto, o amor tem que ser vivido no escuro. Isso quer dizer de forma consciente, na verdade como são vividos nossos relacionamentos ainda hoje.

A felicidade noturna não pode durar para sempre. As serpentes desse Paraíso – as irmãs –  são uma sombra de Psiquê e quem leva a tomar consciência de sua situação. São elas que marcam todo o amadurecimento para que nossa heroína se torne uma Psiquê feminina. São elas que levam a ação.

 Assim Psiquê entra em conflito; ao mesmo tempo ama e odeia o marido. Agora não pode mais ficar no mesmo estágio de inconsciência. O lado sombra faz com que agora veja seu casamento como a “prisão bem-aventurada”, mas sente falta de contato humano.

Pela primeira vez emerge do seu inconsciente a mulher. O amor corno expressão da totalidade do feminino não acontece no escuro como um processo inconsciente, um encontro legítimo com o outro envolve a consciência.

Afrodite, a grande mãe, representa o amor material, deusa da atração mística entre os opostos. Psiquê traz o princípio do amor que associa conhecimento, crescimento de consciência e desenvolvimento psíquico. Surge com ela um novo princípio do feminino com o masculino que se processa com base na individuação.

PSIQUÊ E AS TAREFAS

1ª TAREFA: USANDO A PERCEPÇÃO SENSORIAL – SENSAÇÃO

Separar as sementes é usar nosso aspecto formiguinha, criaturas ágeis e mãe de todos. Elas são o contato com a terra, trabalho interno, incansável, colocando ordem onde há desordem; é o elemento ordenador em nós, símbolo dos instintos. O nosso lado formiga é o aspecto que nos permite selecionar, avaliar, diferenciar e assim, encontrar o próprio rumo no meio da confusão de sentimentos e emoções.

Separar é perguntar-se o que realmente procuramos e desejamos, é o exercício de discriminar os desejos, os sentidos, as nossas necessidades, o bem do mal, o prazer do desprazer, masculino do feminino, as diferentes funções – pensamento, sentimento, intuição e percepção.

É necessário diferenciar para selecionar, excluir, incluir, priorizar e reorganizar todos esses conteúdos. É o momento de seletividade e para isso precisamos de uma boa função perceptiva sensorial. A mistura no monte é o desorganizado, o caótico, a confusão, mas também é fecunda de talentos e possibilidades que estão disponíveis no feminino que só depois da organização é que se tornarão úteis.

Graças a Afrodite e às irmãs, forças malignas, mas muito bem-vindas, já que geram o crescimento, é que Psiquê sai da passividade para a ação.

2ª TAREFA – USANDO O SENTIMENTO

Retirar a lã de ouro, resgatar a sua força, tem que ser ao anoitecer, sem confronto destrutivo com os carneiros selvagens. Trabalho de espera, de paciência, de discriminar a hora certa, cuidar dos sentimentos de ansiedade, impulsividade, impotência, acalmar a própria angústia, e impulso agressivo, buscar a flexibilidade do caniço das águas para se mover levemente a fim de atingir o seu objetivo.

Simbolicamente, Psiquê consegue despotencializar a carga masculina negativa representada pelos carneiros selvagens que destroem, incorporando apenas o necessário desse masculino para se fortalecer e não ser possuída por ele. Aprende a lidar com os sentimentos, não com a passividade, mas com a atenção consciente para não ser destruída pelo feroz.

3ª TAREFA – USANDO A INTUIÇÃO

Trazer o jarro de cristal contendo água da fonte que alimenta dois rios infernais não é tarefa para um ser humano; assim, a ajuda vem do alto, é a águia do próprio deus Zeus quem irá socorrê-la.

A água representa a nossa energia vital que se encontra no inconsciente e é eternamente fluida; se tentarmos contê-la de uma forma qualquer certamente será uma viagem sem volta. Por isso, a ajuda vem do alto. Simbolicamente é como se, utilizando seu aspecto águia, Psiquê estivesse mergulhada dentro de si mesma, indo em busca dessa energia vital tão necessária, energia essa que está dentro de cada um de nós.

Essa energia nos desperta para além do concreto, pois subir a montanha com a águia de Zeus é nos permitir enxergar outras possibilidades até então não vistas; mas é preciso não perder o foco e, principalmente, permanecer atentos aos perigos da jornada.

A águia é nosso lado intuitivo que, se bem usado, leva-nos a mergulhar no inconsciente e voltar de lá com nosso vaso de cristal cheio de orientações e sabedoria.

4ª TAREFA – USANDO O PENSAMENTO

Agora Psiquê não precisa mais da ajuda de forças do seu inconsciente. Basca a orientação objetiva da Torre, representante simbólica da cultura humana.

Descer aos infernos e retornar com um pouco da beleza eterna não é tarefa fácil, principalmente porque, para cumpri-la, são necessários direcionamento, assertividade estabilidade e firmeza, um ego centrado, forte e concentrado em seu objetivo para não ficar perdido no submundo. Sem dúvida, qualidades muito masculinas que precisam estar bem integradas ao feminino para que Psiquê possa descer aos infernos e ao voltar à terra ver as coisas num nível superior.

É precisamente o que acontece no nosso interior, mas, a pergunta que fica é:

Simbolicamente, o morrer de Psiquê ao abrir a caixa significa a morte de uma Psiquê ingênua, passiva, dispersa, imatura para deixar nascer outra muito mais consciente de suas forças e do seu feminino, finalmente capaz de conduzir sua própria vida.

É pelo seu ato que ocorre a grande transformação, tanto dela como do seu amado Eros. Até mesmo a grande mãe Afrodite, ou melhor, a grande sogra, é obrigada a render-se diante da vitória da pequena Psiquê.

E é assim que os contos continuam a nos encantar e certamente permanecerão por toda a eternidade.

OS TIPOS PSICOLÓGICOS

uma das grandes contribuições de Jung para a Educação foi sua teoria dos Tipos Psicológicos que é muito respeitada quando usamos os contos na terapia; isso porque, segundo esta teoria, existem quatro “Tipos Psicológicos”. Cada indivíduo apresenta um deles como predominante, sendo que, é por meio desse seu jeito de ser que ele fará seus aprendizados na vida, inclusive na escola. Todos nós possuímos as quatro funções, mas sempre uma delas se apresenta mais desenvolvida e mais consciente que as outras três. Utilizando aquela que lhe é mais favorável o aprendizado será muito mais facilitado obtendo-se, assim, melhores resultados.

 TIPO PERCEPTIVO SENSORIAL: a sensação me diz algo; não exprime o que é nem qualquer outra particularidade do que está em questão. É a função dos sentidos, todas as minhas percepções dos fatos externos que até mim pelos sentidos.

TIPO PENSAMENTO: na sua forma mais simples exprime o que uma coisa é. O indivíduo a nomeia, vai conceituá-la, pois pensar é perceber e julgar, classificando e discriminando-a, o indivíduo se     mantém firme nos seus objetivos, manten­do-se distante do estado emocional para não se influenciar.

TIPO SENTIMENTO: o sentimento exprime o valor atribuído a uma coisa e nos informa por meio da carga emocional esse valor; ele nos diz se algo é aceitável, se isso nos agrada ou não. Ele também julga e pensa, mas a sua lógica é a do “coração”.

TIPO INTUITIVO: é uma percepção via inconsciente, uma espécie de faculdade mágica pela qual se antevê algo: é vislumbrar possibilidades ainda não conhecidas pela consciência, um tipo de percepção que não passa pelos sentidos, mas que nos coloca em contato com o que não podemos perceber, pensar ou sentir devido a uma não manifestação concreta. Registra-se ao nível inconsciente e não busca a lógica.

JUNG E A INTERPRETAÇÃO DOS CONTOS

O grande psiquiatra Dr. Carl Gustav Jung observou que certos “temas típicos” que apareciam nos sonhos e nas fantasias de seus pacientes eram repetições de mitos ou de contos de fadas sem que houvesse qualquer influência cultural exterior causadora de seu aparecimento.

Procurou compreender esses temas oníricos usando o conhecimento da mitologia e assim propôs que essas imagens seriam reações independentes de qualquer tradição cultural e que dessa forma se deveria admitir a existência de elementos mitológicos no psiquismo inconsciente; a esses elementos Jung chamou de arquétipos.

Arquétipos seriam uma disposição estrutural básica presente em todos os seres humanos, como uma forma à espera de complementos que formariam as subestruturas de sentimentos, emoções, fantasias e ações. Segundo Dr. Jung, estes temas ou motivos, os arquétipos, são esquemas básicos da psiquê humana e se encontram no “inconsciente coletivo”, a camada profunda do inconsciente.    Esses temas ou motivos que aparecem nos sonhos, presentes nos contos e mitos e se repetem em todos os tempos e culturas são: a grande Mãe, o Pai, a Criação do Mundo, Nascimento, Herói, Morte, Abandono etc.

Os arquétipos se manifestam por meio das imagens dos contos, sonhos ou mitos, sendo chamadas por Jung de Imagens Arquetípicas. É por meio delas que podemos entrar em contato com os conteúdos do inconsciente e como disse Jung, “restabelecer a conexão consciente e inconsciente”, sendo que dessa experiência arquetípica é que ocorre a verdadeira cura da alma. Para que isso aconteça, o arquétipo da grande mãe, por exemplo, ao aparecer num conto ou mito como imagem arquetípica tem que ser visto não apenas como um pensamento padrão, mas sim como uma experiência emocional daquele que o ouve ou lê.

Segundo Marie Louise V. Franz, “só se essa imagem tiver um valor emocional e afetivo para o indivíduo ela poderá ter vida e significação”. Assim, segundo Jung, podem se compilar todas as grandes mães do mundo, que não significará absolutamente nada, caso se deixe de lado a experiência afetiva do indivíduo.

Por trás dos contos de fadas2

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OUTROS OLHARES

FOME DE QUÊ?

Mais que a causa de transtornos alimentares, a relação com a comida revela como a pessoa se relaciona consigo e com o mundo.

Fome de que

Já nas primeiras horas de vida o mundo entra pela boca Junto com o leite, o bebê recebe o calor, o toque e o cheiro de quem o alimenta. Sente, ainda que de forma sutil, a presença –  ou a falta –  do afeto. E, depois das primeiras mamas, a fome jamais será apenas de alimento. Ao longo da existência, as relações continuam permeadas pelos significados simbólicos que a comida assume na vida de cada um, seja na recusa da anoréxica, ou na voracidade da bulímica ou na relação de amor e ódio dos obesos com os alimentos.

Profissionais da área de saúde sabem hoje que a obesidade ou os chamados transtornos alimentares bulimia e anorexia, não são quadros estanques, estudados ou tratados isoladamente. Há consenso de que a relação com a comida não pode ser considerada mera causa de problemas de saúde, mas um sintoma capaz de revelar formas de interação da pessoa consigo e com o mundo.

“Os sintomas se deslocam”, diz a psicanalista Alessandra Sapoznik, coordenadora do Projeto de Investigação e Intervenção Clínica de Anorexia e Bulimia do Instituto Sedes Sapientiae e professora do curso de atualização em transtornos alimentares do Programa de Orientação e Assistência a Pacientes com Transtornos Alimentares (Proata), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Cerca de 50% das anoréxicas tornam-se bulímicas em algum momento do tratamento. No decorrer de um acompanhamento, alterações podem até ser bem-vindas porque significam que algumas resistências foram quebradas e o paciente adquiriu outros recursos. Sem o devido cuidado, entretanto, as consequências podem ser graves.

Dados de uma pesquisa do Hospital das Clínicas (HC) de São Paulo mostram que de 53 pacientes que passaram por cirurgias bariátricas (para redução de peso), 88% engordaram novamente, (64,15% se tornaram obesos apesar da cirurgia e 13% apresentaram índices de obesidade considerados de elevadíssimo risco). Além disso, 17,65% dos pacientes atualmente ingerem álcool de forma avaliada como perigosa. “Também já sabemos que 80% apresentam depressão em algum grau, e há casos de bulimia e anorexia, diz a psicóloga Marlene Monteiro da Silva, coordenadora do curso de transtornos alimentares e obesidade do HC.

Ela compara o período pós-operatório dos pacientes às fases de desenvolvimento na infância “Nos três primeiros meses podemos fazer um paralelo com a fase oral: a maior preocupação da pessoa é com a comida, só pode alimentar-se de sopas e papinhas, em geral fica emocionalmente regredida, chora muito, sente-se dependente.

Segundo Marlene, a partir do quarto mês há um “retorno” à fase anal. Alguns chegam a ter 20 kg a menos nesse momento e sentem-se mais expostos. O paciente depara com uma agressividade da qual nem sempre se dá conta, tem medo da mudança de identidade, então há a possibilidade de recorrer à comida para aliviar as angústias.

Por volta do sétimo mês, começa a fase pré-genital, uma espécie de adolescência emocional. Com o corpo bastante modificado, 50 kg ou 70 kg a menos, muitos desses pacientes passam a querer aproveitar tudo, muitas vezes de forma inconsequente. É nesse momento que correm o risco de se tornar alcoólatras, dependentes de drogas ou de viver relações promíscuas e se colocar em situações de risco. Os casos de bulimia e anorexia costumam aparecer depois de dez meses.

“Alguns tentam ‘esquecer’ que ainda é preciso fazer, no mínimo, quatro cirurgias plásticas, negam cortes e cicatrizes físicas e emocionais.  Depois de dois ou três anos, vivem o aumento das compulsões, entram em depressão ou voltam a engordar, mesmo com o estômago reduzido. Há o desafio de assumir o papel de adulto, trabalhar, viver uma vida sexual e afetiva equilibrada”, diz a psicóloga. “Aí as pessoas se dão conta de que o problema não era só o excesso de peso, que há sempre faltas e que é preciso conviver com elas.”

CIRURGIA BARIÁTRICA

Justamente pela complexidade dos fenômenos psíquicos envolvidos são tão importantes a avaliação psicológica antes da cirurgia e o acompanhamento depois dela. Na opinião da psicodramatista e pesquisadora do tema Celina Sobreira, presidente do Instituto Brasileiro Interdisciplinar da Obesidade (Inbio), também é fundamental desmistificar o caráter mágico da cirurgia bariátrica. O instituto, com o objetivo de pesquisar assuntos relativos à obesidade e aos transtornos alimentares. tem, entre suas propostas, investigar a relação dos profissionais de saúde com pacientes obesos.

Mais de 95% dos obesos já emagreceram em algum momento graças a ginástica, dietas restritivas e medicamentos, muitas vezes com efeitos colaterais ruins, mas, após algum tempo voltaram a engordar, ultrapassando o peso que tinham antes. Isso ocorre porque os atos psíquicos não foram levados em consideração”, afirma Ezequiel Gordon, coordenador do Grupo de Estudo e Tratamento do Obeso (Gesto), um dos raros serviços gratuitos oferecidos na rede pública fora de universidades.

“Nosso objetivo é a melhoria da qualidade de vida. A perda de peso, embora fundamental, é consequência de um trabalho mais amplo”, salienta o psiquiatra. Desde que iniciou suas atividades, cerca de 400 pessoas foram atendidas no Gesto. Além do acompanhamento psicológico, o programa inclui a biodanza e a dança do ventre, atividades físicas que envolvem a sensualidade e a percepção do próprio corpo. Passeios e programas culturais ajudam a reabilitar uma cidadania muitas vezes deformada pelo hábito do obeso de evitar lugares públicos, onde teme ser apontado e ridicularizado. Sob orientação de uma nutricionista os participantes vão à feira, escolhem alimentos saudáveis e aprendem a preparar receitas de baixo teor calórico. A atividade física, um dos maiores fantasmas para quem está acima do peso, é realizada de maneira lúdica, com um professor de educação física. “Preferimos propositalmente que um homem ocupe essa função, já que a maioria das pacientes é mulher e a proximidade da figura masculina desperta aspectos da sexualidade, geralmente recalcados.”

AFETO E RECALQUE

Trabalhando com obesos há mais de uma década, a psicóloga e psicanalista Walkíria Kramer Navarro, especializada em psicossomática e transtornos alimentares, tem se dado conta de que, ao buscar atendimento, a maioria dos pacientes não quer emagrecer, mas ser emagrecido”. ”O desejo tem componentes inconscientes e, muitas vezes, manter-se obeso satisfaz determinados aspectos psíquicos do sujeito”, observa.

Tanto nos atendimentos em grupo quanto nos individuais, uma das primeiras tarefas é sensibilizar os pacientes em relação aos aspectos vantajosos de ser gordo, ajudá-los a perceber o papel da comida em sua vida e a se comprometer consigo mesmos. Na psicoterapia em grupo, a ideia é que as questões não fiquem centradas apenas na obesidade e na compulsão, que afetam cerca de 30% dos pacientes. Na base do problema está uma questão psíquica recalcada, com a qual a pessoa não consegue lidar bem, acredita Navarro. O afeto, muitas vezes, é atenuado no comportamento compulsivo. O tratamento consiste em reconectar a ideia à emoção por meio da palavra “Associando ideias, o paciente fala até que possa chegar à gênese da compulsão, diz.

Tanto a bulimia quanto a anorexia são transtornos prevalentemente ligados às questões da feminilidade, a ideais intangíveis de corpo perfeito, de magreza. Em seu livro Anorexia Mental, Ascese Mística (Editora Companhia de Freud), o psicólogo e psicanalista francês Eric Bidaud compara as anoréxicas de hoje às santas da Idade Média, que se abstinham do alimento e jejuavam por dias a fio. A santa italiana Catarina de Siena (1347-1380), por exemplo, induzia o vômito. “O que marca a diferença entre as santas e as meninas anoréxicas de hoje é que as primeiras jejuavam em nome de um ideal coletivo, um ritual partilhado socialmente, enquanto as pacientes têm um objetivo próprio, uma espécie de ‘religião particular’, como afirma Bidaud”, explica Alessandra Sapoznik.

O transtorno é classificado como anorexia restritiva (jejum) e anorexia purgativa ou bulímica (com indução de vômito). O que diferencia clinicamente a bulimia da anorexia é o índice de massa corporal (IMC), inferior a 17,5, no caso das anoréxicas, e o grau de distorção da própria imagem.

 É possível também observar variações de características psicológicas. A anoréxica se exclui da relação com o outro, se enclausura, nega a própria sexualidade e o corpo como campo de frustração ou excitação.

A bulímica tem também o medo mórbido de engordar, mas se destaca pela compulsividade, não se retira das atividades sociais, é voraz, sexualmente ativa. Há também duas classificações; a bulimia não purgativa (em que após episódios de voracidade o excesso é compensado pelos exercícios físicos) e a purgativa (com indução de vômitos). Do ponto de vista médico, os casos de purgações são os mais graves, já que ao induzir vômitos a pessoa provoca no organismo um desequilíbrio eletrolítico entre o potássio e o sódio, podendo entrar em coma ou sofrer parada cardíaca.

Os dois transtornos formam um contínuo patológico de excessos, considera Sapoznik. Para a psicanalista, tanto a obesidade quanto a bulimia e a anorexia podem ser consideradas formas de transgressão, maneiras dolorosas de expressar no próprio corpo a necessidade de distinguir-se como sujeito, de encontrar uma identidade. Segundo ela, atribuir a etiologia a fatores externo seria ingênuo, mas é inegável que há elementos da contemporaneidade, da grande oferta de produtos, da cultura narcísica que expõem a falta e ao mesmo tempo não toleram a imperfeição.  A clínica dos transtornos alimentares é marcada pela metáfora dos opostos, lidamos o tempo todo com as ideias de cheio-vazio, excesso-falta, há uma oscilação entre a fusão total com o outro e o movimento de total afastamento.

 Fome de que.3

UM MUNDO COM MAIS DE 20 MILHÕES DE CRIANÇAS OBESAS

A obesidade e os transtornos alimentares afetam também crianças. Sobre a bulimia, mesmo a considerada atípica (assim chamada porque não se encaixa completamente no diagnóstico psiquiátrico do Manual diagnóstico e estatístico dos transtornos mentais DSM-IV,1995), há poucos registros, já que os sintomas frequentemente se confundem com patologias e explicadas por muitos pediatras apenas como físicas. Na literatura, entretanto, há casos de crianças que provocam o vômito como reação à ausência ou à presença da mãe. Já a anorexia tem sido diagnosticada em pré-adolescentes com 11 ou até 10 anos, embora a maior prevalência se dê entre garotas com idade entre 15 e 22 anos.

A maior incidência é de casos de obesidade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), no mundo 22 milhões de crianças com menos de 5 anos são obesas. Em 20 anos, a obesidade infantil triplicou”, afirma a pediatra Denise Barbieri Marmo, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), referindo-se às conclusões de um estudo realizado na região de Campinas. “Tínhamos uma prevalência de 4,5 %, e temos agora 18% dos meninos e meninas com idade entre 7 e 14 anos com esse diagnóstico. Ou seja, de cada l00 crianças, quase 20 são obesas hoje.”

Embora os resultados da pesquisa não possam ser generalizados para outras regiões brasileiras, considerando as diferenças sociais, econômicas e culturais de cada área, os dados são preocupantes. Projeções mostram que, nos próximos 15 anos, complicações decorrentes do excesso de peso tendem a ultrapassar o tabagismo como maior causa de mortes.

Mesmo que as questões psíquicas envolvidas no ganho excessivo de peso sejam inegáveis na maioria dos casos, a obesidade escapa da classificação internacional de transtorno psiquiátrico, em razão do fator genético. De acordo com a nutricionista Júlia Laura Delbue Bernardi, professora da Faculdade de Nutrição da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCcamp), quando um dos pais é obeso, o filho tem 40% a mais de probabilidades de também se torna gordo. Se tanto o pai quanto a mãe forem obesos, o risco sobe para 70%. Já uma criança com pais sem excesso de peso tem cerca de 9% de chance de desenvolver a obesidade.

Ao entrevistar e acompanhar clinicamente famílias de crianças obesas, porém, é possível constatar que o excesso não está nos genes, mas envolve os vínculos. Funciona como defesa, substitui afetos, mascara palavras. As consequências são graves. Não é raro que crianças acima do peso sejam alvo de brincadeiras maldosas por parte dos colegas e recebam apelidos depreciativos. Os ataques podem provocar isolamento, sentimentos de inferioridade e agressividade. Sentindo-se rejeitada, a criança volta a se refugiar no aparente conforto do alimento.

Além de prejudicar a autoestima e a qualidade de vida, a obesidade em crianças pode provocar distúrbios cardiovasculares, hipertensão e até problemas de saúde que há alguns anos acometiam apenas adultos, como diabetes do tipo 2. E, na maioria dos casos, as complicações que aparecem no corpo revelam meandros das relações familiares.

A psicóloga Maria José Franklin, ex-coordenadora do Setor de Saúde Mental da Criança do Hospital das Clínicas da Unicamp, acompanhou um paciente de 10 anos, internado por graves complicações decorrentes da obesidade mórbida. Após algum tempo, a equipe médica descobriu que a própria mãe sabotava o tratamento e, nos horários de visita, levava doces escondidos para o filho. Ou seja, ela “fabricava” e mantinha sintomas no filho como um sinal de sua própria patologia. Por meio da comida estabeleceu-se um vínculo no qual uma relação mais saudável com o alimento coincidia com o medo do abandono e da rejeição. Ficou claro que não bastava cuidar do garoto, era preciso tratar também a mãe.

Embora essa seja uma situação extrema, em certas famílias estabelece-se uma dinâmica na qual a criança é tacitamente incentivada a permanecer gorda. Em muitos casos, os alimentos são oferecidos como prêmio e, desde muito cedo, a comida passa a ser companheira ou consoladora, oferecida para acalmar a criança ou distraí-la. Sua privação (normalmente de sobremesas) é considerada castigo.

Em geral, nessas famílias, os pais passam mensagens ambíguas. Ao mesmo tempo que pressionam o filho para emagrecer, com conselhos e advertências, não deixam faltar guloseimas em casa, e as frituras e lanches calóricos fazem parte do cardápio diário. Com frequência, os pais só se dão conta da contradição – e da necessidade que têm de manter a criança naquela situação- após um trabalho psicoterapêutico.

 Fome de que.2

GLÁUCIA LEAL – é jornalista, psicóloga, psicanalista e editora da Revista Mente e Cérebro.

GESTÃO E CARREIRA

NÃO SOMOS MÁQUINAS

Console-se: nossa produtividade varia ao longo do dia.

Não somos máquina

Diferentemente de máquinas, que podem funcionar sem parar desde que devidamente operadas, seres humanos variam de ritmo ao longo do dia. Mas muita gente se recusa a admitir isso, cobrando de si mesmo uma produtividade que acaba gerando trabalho além do expediente normal e nos fins de semana (supostamente um período de descanso), com consequências muito negativas para a saúde. É o que constata estudo da consultoria The Alternative Board (TAB), segundo o qual esse fenômeno se verifica sobretudo entre proprietários de negócios: 84% trabalham mais de oito horas diárias, sentindo-se sobrecarregados. Os autores ressalvam, porém, que excesso de esforço não significa melhor produtividade: nosso cérebro tem capacidade de foco durante 90 a 120 minutos, necessitando depois fazer uma pausa para recobrar a concentração. É o ciclo chamado “ritmo ultradiano”, que deve ser respeitado para ajudar nosso desempenho.

Além disso, as pessoas podem ser mais produtivas pela manhã ou de noite, sendo importante definir essa característica para flexibilizar seu expediente. Porém, não basta programar os horários adequados se não soubermos administrar esse tempo de forma eficiente. A empresa de software Toggl pesquisou o tema, detectando vários obstáculos: falta de prioridades, distrações, adiamentos, acúmulo de tarefas e deixar tudo para a última hora. Planejamento eficiente é essencial, o que inclui, por exemplo, revezar tarefas desgastantes (embora necessárias) com motivadoras, para manter nosso equilíbrio.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 26 – 30

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A Instituição da Ceia

Temos aqui a instituição da grande ordenança do Evangelho, a Ceia do Senhor, que foi recebida do Senhor. Considere:

I – A ocasião em que ela foi instituída: “enquanto comiam”. No momento final da ceia da Páscoa, antes de a mesa ser retirada, porque, como uma festa que está fundamentada em um sacrifício, ela deveria ser instituída no ambiente correto. Cristo é para nós o sacrifício da Páscoa, pelo qual a expiação é feita (1 Coríntios 5.7): “Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós”. Essa ordenança é para nós a ceia da Páscoa, pela qual a aplicação é feita, e a comemoração celebrada, tratando-se de uma libertação muito maior do que a de Israel saindo do Egito. Todos os sacrifícios legais de propiciação foram consumados na morte de Cristo, e assim foram abolidos. Da mesma forma, todas as festas legais de regozijo foram consumadas nesse sacramento, e assim abolidas.

II – A instituição em si. Um sacramento deve ser instituído. Ele não faz parte da adoração moral, nem é ditado pela luz natural, mas tem tanto a sua existência como o seu significado a partir de uma instituição, e de uma instituição divina. Ê prerrogativa daquele que estabeleceu a aliança indicar os selos dela. Consequentemente, o apóstolo (1 Coríntios 11.23ss.), no discurso a respeito dessa ordenança, o tempo todo chama Jesus Cristo de o Senhor, porque, como Senhor da aliança, e Senhor da igreja, Ele indicou essa ordenança, na qual:

1. O corpo de Cristo é representado pelo pão. Ele havia dito anteriormente (João 6.35): “Eu sou o Pão da vida”, e esse sacramento está construído sobre uma metáfora; assim como a vida do corpo é sustentada pelo pão, que é, portanto, colocado para toda a nutrição do corpo (cap. 4.4; 6.11), a vida da alma é sustentada e mantida por intermédio de Cristo.

(1)  Ele tomou o pão. Algum pão que estava pronto para ser distribuído, e que serviu a este propósito. Foi, provavelmente, pão sem fermento. Mas pelo fato de este detalhe não ser citado, não devemos nos ater a isto, como algumas igrejas gregas o fazem. A atitude de o Senhor tomar o pão foi uma ação solene, provavelmente realizada de uma maneira que deveria ser observada por aqueles que se assentavam com Ele, para que eles pudessem esperar que algo mais do que o comum fosse feito com ele. Assim, o Senhor Jesus foi separado, nos conselhos do amor divino, para a realização da nossa redenção.

(1)  Ele o abençoou. O Senhor o separou para esse uso pela oração e pela ação de graças. Não encontramos nenhuma forma estabelecida de palavras usada por Ele nessa ocasião; mas o que Ele disse, sem dúvida nenhuma, estava em harmonia com o assunto em questão, o Novo Testamento pelo qual essa ordenança deveria ser selada e ratificada. Isso foi como a bênção de Deus para o sétimo dia (Genesis 2.3), pela qual foi separado para a honra de Deus, e foi ordenado a todos que o observassem devidamente, como um dia abençoado. Cristo podia ordenar a bênção; e nós, em seu nome, somos encorajados a suplicá-la.

(2)  Ele “o partiu”, o que denota:

[1] O quebrantamento do corpo de Cristo por nós, para que pudesse ser adequado ao nosso uso: “Ele foi moído pelas nossas iniquidades”, como o trigo é esmiuçado (Isaias 28.28). Embora nenhum de seus ossos tenha sido quebrado (porque o seu quebrantamento não o enfraqueceu), a sua carne foi quebrantada em pedaços, e as suas feridas foram multiplicadas (Jó 9.17; 16.14), e isto o fez sofrer. Deus se queixa de que Ele é quebrantado pelo coração corrompido dos pecadores (Ezequiel 6.9). A sua lei é quebrada, a nossa aliança com Ele é quebrada. A justiça exige quebradura por quebradura (Levíticos 24.20), e Cristo foi quebrantado para satisfazer a esta exigência.

[2] O quebrantamento do corpo de Cristo por nós, como o pai de família parte o pão para os filhos. O quebrantamento de Cristo por nós facilita a aplicação; tudo é preparado para nós pelas concessões da Palavra de Deus e pelas operações da sua graça.

(4)  Ele o deu aos discípulos, como o Senhor da família, e o Senhor dessa festa. Não é dito que Ele o deu “aos apóstolos”, embora eles o fossem, e tivessem sido chamados assim com frequência antes disso, mas “aos discípulos”, porque todos os discípulos de Cristo têm o direito a essa ordenança; e aqueles que forem os seus verdadeiros discípulos terão o benefício dela. No entanto, Ele lhes deu o pão como fez com os pães multiplicados, para que, através deles, fossem distribuídos a todos os outros seguidores.

(5)  Ele disse: “Tomai, comei, isto é o meu corpo” (v. 26). O Senhor aqui lhes diz:

[1] O que deveriam fazer com o pão: “‘Tomai, comei’. Aceita-o da parte de Cristo quando ele for oferecido a ti, recebe a expiação, aprova-a, consente com ela, alcança os termos nos quais o benefício dela é proposto a ti; sujeita-te à sua graça e ao seu governo”. A crença em Cristo é expressa através da atitude de recebê-lo (João 1.12), e se alimentar dele (João 6.57,58). Apenas olhar para a carne ou para o prato bem guarnecido não nos alimentará. O pão deve ser comido. Assim também devemos nos alimentar da doutrina de Cristo.

[2] Que relacionamento eles deveriam ter com o pão: “Isto é o meu corpo”, não autos este pão, mas touto este ato de comer e beber. O ato de crer leva toda a eficácia da morte de Cristo para as nossas almas. “Isto é o meu corpo”, espiritual e sacramentalmente. Isto significa e representa o meu corpo. Ele emprega uma linguagem sacramental, como em Êxodo 12.11: “Esta é a Páscoa do Senhor”. E baseado no sentido carnal e extremamente errado dessas palavras, que a igreja de Roma constrói a monstruosa doutrina da transubstanciação, pela qual o pão é supostamente transformado na essência do corpo de Cristo, sobrando apenas as propriedades do pão. Esta afronta a Cristo destrói a natureza do sacramento, e leva a mentira aos nossos sentidos. Nós participamos do sol, não tendo a massa e o corpo do sol colocados em nossas mãos, mas o fazemos pelos raios de sol que são lançados sobre nós; da mesma forma, participamos de Cristo ao participarmos de sua graça, e dos frutos abençoados do partir de seu corpo.

2. O sangue de Cristo é representado pelo vinho. Para tornar essa festa completa, não há somente o pão, para fortalecer, mas também o vinho, par a alegrar o coração (vv. 27,28); “E, tornando o cálice”, o cálice da graça, que estava pronto par a ser bebido, depois de dar graças, de acordo com o costume dos judeus na Páscoa, Cristo o tomou, e fez dele o cálice sacramental, e assim alterou a sua peculiaridade. Este cálice significava um cálice de bênçãos (assim os judeus o chamavam), e, portanto, o apóstolo Paulo distinguiu com inteligência entre o cálice de bênçãos que nós abençoamos e aquele que eles abençoam. A expressão “dando graças”, nos ensina, não só em toda ordenança, mas em toda parte da ordenança, a termos os nossos olhos fixados em Deus.

O Senhor deu esse cálice aos discípulos;

(1)  Com um mandamento: “Bebei dele todos”. Assim Ele recebe os seus convidados à sua mesa, e ordena que todos eles bebam do seu cálice. Por que Ele tão expressamente ordena que todos eles bebam, e que cuidem para que ninguém deixe de beber, e expressa isto mais claramente aqui do que em qualquer outra parte da ordenança? Com certeza, foi porque o Senhor previu como, nas épocas futuras, essa ordenança seria desmembrada pela proibição do cálice aos leigos, com um expresso não obstante ao mandamento.

(2)  Com uma explicação: “Porque isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento”. Portanto, beba com apetite, prazer, porque é uma bebida rica e que traz vida. Até aqui, o sangue de Cristo tinha sido representado pelo sangue dos animais, por sangue real; mas depois de ter sido realmente derramado, foi representado pelo sangue das uvas, um sangue metafórico. Assim o vinho é chamado em uma profecia do Antigo Testamento a respeito de Cristo (Genesis 49.10,11).

Observe então o que Cristo disse sobre o seu sangue, que está representado no sacramento.

[1] “Isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento”. O Antigo Testamento foi confirmado pelo sangue dos bezerros e dos bodes (Hebreus 9.19,20; Êxodo 24.8); mas o Novo Testamento foi confirmado pelo sangue de Cristo, que é aqui distinguido do outro; “Isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento”. A aliança que Deus se agrada de fazer conosco, e todos os benefícios e privilégios dela, se devem aos méritos da morte de Cristo.

[2] “É derramado”. Não foi derramado até o dia seguinte, mas o foi então, na hora que deveria ser derramado, como precisava ser feito. “Antes que vocês mesmos venham a repetir esta ordenança, ele será derramado.” Ele estava então pronto para ser oferecido, e o seu sangue seria derramado, como o sangue dos sacrifícios que faziam a expiação.

[3]”É derramado por muitos”. Cristo veio para confirmar um concerto com muitos (Daniel 9.27), e a intenção de sua morte estava de pleno acordo com o plano da salvação. O sangue do Antigo Testamento era derramado por alguns. Ele confirmava um concerto, que (disse Moisés) “o Senhor tem feito convosco” (Êxodo 24.8). A expiação era feita somente pelos filhos de Israel (Levítico 16.34). Mas Cristo é uma propiciação pelos pecados de todo o mundo (1 João 2.2).

[4] “É derramado… para remissão dos pecados”, isto é, para comprar a remissão dos pecados em nosso favor. A redenção que temos através de seu sangue é a remissão dos pecados (Efésios 1.7). A nova aliança que é alcançada e ratificada pelo sangue de Cristo é uma carta de perdão, um ato de imunidade, com o propósito de fornecer uma reconciliação entre Deus e o homem. Porque o pecado era a única coisa que causou a dissolução, e “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hebreus 9.22). O perdão dos pecados é a grande bênção que é, na Ceia, conferida a todos os crentes verdadeiros; é o fundamento de todas as outras bênçãos, e a fonte do conforto eterno (cap. 9.2,3). A despedida vem então após participarem do fruto da vinha (v. 29). Cristo e os seus discípulos tinham então celebrado juntos, com um pouco de conforto, tanto a festa do Antigo Testamento como a do Novo Testamento. Como esses tabernáculos eram agradáveis! Como foi bom estar ali! Nunca houve um céu sobre a terra como nessa mesa. Mas essa situação não era destinada a ser perpétua. O Senhor então lhes disse (João 16.16): “Um pouco, e não me vereis; e outra vez um pouco, e ver-me-eis”, o que explica o que ocorreu ali.

Em primeiro lugar, Ele se despede dessa comunhão: “Desde agora, não beberei deste fruto da vide”, isto é, agora que Eu já não estou mais no mundo (João 17.11). Já bebi o necessário, e me alegro por pensar na partida, alegro-me por pensar que esta é a última refeição. Adeus a este fruto da vide, a este cálice da Páscoa, a este vinho sacramental. Os santos que morrem se despedem dos sacramentos, e das outras ordenanças da comunhão que eles tanto apreciam neste mundo, com conforto, porque a alegria e a glória em que eles entram superam todas eles; quando o sol nasce, damos adeus às velas.

Em segundo lugar, Ele lhes assegura de um outro encontro feliz no futuro. É uma despedida longa, mas não eterna: “até àquele Dia em que o beba de novo convosco”. 

1. Alguns entendem estas palavras como uma referência aos encontros que o Senhor teve com os seus discípulos após a sua ressurreição, que foi o primeiro passo de sua exaltação no Reino de seu Pai; e embora, durante aqueles quarenta dias, Ele não tenha conversa­ do com eles tão frequentemente como havia feito, o Senhor comeu e bebeu com eles (Atos 10.41), uma atitude que, assim como confirmou a fé deles, sem dúvida confortou grandemente os seus corações, pois eles ficaram maravilhados com isso (Lucas 24.41).

2. Outros as entendem como sendo as alegrias e as glórias do estado futuro, das quais os santos tomarão parte na comunhão eterna com o Senhor Jesus, representadas aqui pelos prazeres de um banquete de vinho. Este será o ” reino de seu Pai”, que será então entregue a ele. O vinho da consolação (Jeremias 16.7) sempre será novo, nunca insípido ou amargo, como o vinho guardado por muito tempo. Ele nunca será enjoativo ou desagradável, como o vinho se torna para aqueles que beberam demais, mas será sempre fresco. O próprio Senhor Jesus Cristo participará desses prazeres. Essa foi a alegria colocada diante dele, a alegria que Ele tinha em vista, e todos os seus amigos e seguidores fiéis participarão com Ele.

Por fim, aqui está o encerramento da solenidade com um hino (v. 30): “Tendo cantado um hino”, ou salmo. Não se sabe ao certo se este era um dos salmos que os judeus geralmente cantavam no encerramento da ceia da Páscoa, o que eles chamavam de o grande Hallel, isto é, o Salmo 113 e os cinco seguintes, ou se era um hino novo mais adequado à ocasião. Eu prefiro pensar no primeiro; se o hino fosse novo, João não teria deixado de registrá-lo. Note que:

1. Cantar os salmos é uma ordenança do Evangelho. A mudança feita por Cristo, cantando o hino no encerramento da Ceia, em vez de cantá-lo no encerramento da Páscoa, claramente sugere que a intenção dele era que a sua igreja continuasse com essa ordenança, pois como ela não teve o seu nascimento com a lei cerimonial, não deveria morrer com ela.

2. É muito adequado cantar após a Ceia, como uma expressão da nossa alegria em Deus através de Jesus Cristo, e um grato reconhecimento do grande amor com que Deus nos amou nele.

3. Essa atitude não é inoportuna, não, nem mesmo em tempos de tristeza e sofrimento. Os discípulos estavam tristes, Cristo estava entrando em seus sofrimentos, e ainda assim eles puderam cantar um hino juntos. A nossa alegria espiritual não deve ser interrompida pelas aflições externas.

Depois disso, eles saíram para o monte das Oliveiras. O Senhor não ficaria em casa para ser preso, para não colocar o dono daquela casa em dificuldades; nem permaneceria na cidade, para não causar um tumulto; mas Ele se retirou para a terra vizinha, o monte das Oliveiras, o mesmo monte que Davi, em sua aflição, subiu chorando (2 Samuel 15.30). Eles tiveram o benefício da luz do luar para essa caminhada, porque a Páscoa sempre era celebrada por ocasião da lua cheia. Note que depois de recebermos a Ceia, é bom que nos retiremos para oração e meditação, para ficarmos a sós com Deus.