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MAGRAS DE MORRER

À procura de atenção e afeto, as pessoas que hoje sofrem com distúrbios alimentares desenvolveram relações patológicas com os alimentos.

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 Diante do espelho tendemos a nos considerar bonitos e esbeltos. A percepção das meninas, no entanto, é outra. Cada uma delas, vestindo roupas de banho, apresenta-se diante do grupo e aponta todas as partes do corpo em que vê defeitos, mesmo que só na imaginação: as coxas são gordas e grossas demais, a aparência toda não tem conserto, faltam curvas e os seios são muito pequenos.

Silja Vocks, terapeuta-chefe do grupo de imagem corporal de Bochum, Alemanha, tem uma tarefa árdua pela frente. Em seu “Treinamento contra a obsessão pelo corpo esbelto, um projeto da Universidade de Bochum aberto à comunidade, ela ajuda as meninas a gostar de si mesma e assim liberar a mente aprisionada no cálculo das calorias. A oferta permanente de cursos como este reflete o desenvolvimento observado nos últimos tempos: no mundo todo, o número de pessoas com transtornos alimentares continua crescendo. Só na Alemanha, cerca de 500 mil mulheres e 70 mil homens apresentavam bulimia em 2010. E por volta de 100 mil mulheres, na maioria jovens entre 15 e 25 anos, sofriam de anorexia. São números aproximados, já que na maior parte das vezes oculta-se a doença. Vergonha e baixa autoestima acabam por confinar os doentes a um círculo vicioso de compulsão e abstinência alimentar. A estudante Anita (o nome é fictício) começou seu calvário aos 14 anos. Hoje, depois de 10 anos enfrentando o distúrbio e diversas internações, inclusive em uma clínica psiquiátrica para crianças e adolescentes, ela parece estar livre. Anita teve anorexia nervosa, doença que em 95 % dos casos atinge mulheres. Na rigorosa dieta de abstenção dos anoréxicos, uma maçã é algo grave e uma guloseima com mais calorias pode causar verdadeira fobia. Eles passam fome durante longos períodos do dia, praticam esporte em excesso e se acham gordos mesmo que os ossos apareçam sob a pele. Ao mesmo tempo, podem ter prazer em cozinhar para outras pessoas. Mas enquanto o fazem planejam truques para se livrar discretamente da porção que lhes caberia

Como Anita, muitos deles têm orgulho de sua vida ascética e se vangloriam de seus sintomas, consideram-se fortes por vencer a tentação das tortas e barras de chocolate. Comparam-se triunfantes aos outros que, embora reclamando de seus quilinhos a mais, não conseguem resistir. Na verdade, porém, as sensações físicas dos anoréxicos ficam reduzidas: fome, frio, calor ou dor são percebidos por eles de maneira insuficiente.  Além disso, a menstruação é interrompida nas mulheres, e os homens sofrem de disfunção erétil. Outras consequências físicas decorrem dos períodos de jejum, entre elas pressão baixa e problemas dermatológicos. Mas mesmo diante dos protestos do corpo, muitos não se livram da ideia de poder, controle e realização, o que tem efeitos funestos. Pois primeiro é preciso anular esses mecanismos, para só então haver esperança de cura permanente. Estatisticamente, as chances não são boas: apenas 30% das pacientes anoréxicas superam seu vício, ou seja, ganham peso normal e voltam a ter menstruações regulares, 35% voltam a engordar um pouco embora sua atitude deturpada diante das questões de peso e forma do corpo persista; 15% continuam sendo crônicas. Nesse universo, 10 % jamais encontram a cura, mesmo em meio a uma sociedade abastada, morrem pelas consequências da falta de calorias, ou então se suicidam.

 ASCESE E ÊXTASE

Em casos típicos, a bulimia nervosa desenvolve-se em idade um pouco mais avançada que a anorexia, em média entre 18 e 35 anos. Aqui, os pacientes oscilam entre fome extrema e episódios de comer compulsivo, entre ascese e êxtase. Não é raro que os transtornos alimentares sejam acompanhados do abuso de álcool e drogas. Durante um acesso, os bulímicos ingerem grande quantidade de alimento calóricos: pães inteiros com manteiga, barras de chocolate e tortas cremosas desaparecem estômago adentro. De certa forma, quando se alimentam em excesso, essas pessoas tentam se livrar da solidão e do vazio interior e vencer estados de tensão insuportáveis. Em geral não desfrutam satisfação alguma, pois se envergonham de sua fome e voltam a forçar o vômito.

Esses pacientes também causam muitos danos ao próprio corpo com os vômitos frequentes, os ácidos estomacais afetam os dentes, ocorrem ulcerações do esôfago, danos em outros órgãos, problemas cardiovasculares. Por outro lado, o peso de pacientes bulímicos costuma manter-se na normalidade, e por isso é frequente que nem sequer a família ou amigos próximos percebem o problema. Quando se submetem a um tratamento, as chances de cura são maiores que na anorexia: cerca de metade consegue livrar-se da doença, mas para 25% os vômitos continuarão fazendo parte do dia-a-dia. Os demais em geral permanecem na zona nebulosa da doença.

Quando um paciente não vomita depois de um episódio de comer compulsivo os psicólogos falam de transtorno de compulsão alimentar periódica (binge eating disorder). Aí não se trata de passar dos limites apenas ocasionalmente. Esse diagnóstico supõe que a pessoa perca o controle sobre seu comportamento alimentar ao menos duas vezes por semana, geralmente em decorrência de frustração, medo ou tédio. Fala-se de vício alimentar quando o acúmulo de calorias permanece sempre acima do consumo.

Apesar de diferenças nos fatores de formação da doença, há muita fluidez nas fronteiras entre a vida saudável e o começo da enfermidade. A maioria dos atingidos começa a desenvolver o distúrbio alimentar por meio de uma dieta. No início, a ideia é emagrecer um pouco, mas logo, estão cortando tudo que contém açúcar e gordura, e de um determinado ponto em diante a questão é: o que ainda posso comer? Quase metade das mulheres já se submeteu a uma dieta de emagrecimento. Mas essa mortificação do próprio corpo tem consequências fatais. Dietas frequentes não demoram a confundir o sistema de apetência e saciedade do corpo. Há médicos que ao longo dos anos combatem somente doenças secundárias sem de fato conhecer as causas da enfermidade, como a alimentação deficitária de anoréxicos por exemplo. Uma razão para isso é que os próprios pacientes avaliam sua constituição física de maneira errada.

Mas o que está realmente por trás do chamado transtorno do esquema corporal? Para chegar a uma resposta a equipe de Vocks fotografou 56 pacientes com distúrbios alimentares e 209 pessoas saudáveis. Os pesquisadores pediram que os participantes alterassem a forma do próprio corpo em um programa gráfico de computador até se reconhecerem na imagem. A seguir, os dois grupos deveriam modelar esse “eu virtual” para a imagem adquirir a forma que desejariam ter.  Resultado: pacientes com bulimia e anorexia superestimavam consideravelmente suas medidas corporais.  Pessoas saudáveis, ao contrário, via de regra mostraram acreditar ser mais esbeltas que de fato são.

Outra experiência investigou a forma do corpo em movimento. Para tanto, os participantes deveriam avaliar seu jeito de andar. Viam na tela do computador um modelo animado de movimentação do corpo, e, por meio de um eixo poderiam torná-lo mais pesado ou mais ágil. Também aqui uma diferença gritante entre pacientes com transtornos alimentares e pessoas saudáveis foi constatada. Os primeiros consideravam seus movimentos mais pesados e se colocavam sob um modelo de movimentação típico de pessoas mais gordas. Além disso, quanto mais superestimavam a forma corporal, mais insatisfeitos se mostravam com o próprio corpo e maior era seu medo de adquirir sobrepeso. Ao mesmo tempo sofriam mais de fobias e outros problemas psíquicos.

Resultados semelhantes foram alcançados em 2004 por Barbara Mangweth, do departamento de Psiquiatria da Universidade de Innsbruck, Áustria, que trabalhou com um grupo de homens. A psicóloga aplicou a experiência a 27 pacientes com bulimia e anorexia, comparando-os a um grupo de controle acompanhado por colegas do laboratório Biológico de Psiquiatria da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos. Os pesquisadores constataram que as noções de uma forma ideal eram semelhantes em todos os pacientes. Mas os julgamentos sobre o próprio corpo divergiam muito: bulímicos e anoréxicos, quando comparados a pessoas saudáveis, atribuíam aos esboços gráficos de seu corpo o dobro da gordura que de fato tinham. Mangweth concluiu que uma percepção errônea acaba sendo determinante para o desenvolvimento de transtornos alimentares – e não tanto as noções de uma forma ideal.

FALHA SENSORIAL

Até o momento não se tem uma explicação satisfatória para o porquê de certas pessoas serem passíveis dessas avaliações equivocadas. O grupo de Vocks supõe que a razão esteja em um processamento de informações errôneo. Segundo a equipe, nas pessoas com transtornos alimentares os órgãos dos sentidos repassam as informações sobre a imagem do próprio corpo de maneira correta, só que a valoração desses dados é influenciada por pensamentos negativos. Alguns pacientes, por exemplo, ficaram fortemente marcados por lembranças de zombarias a que se viram expostos na infância e adolescência. Poucos experimentaram proteção, dedicação e apoio da família. Nas pessoas atingidas, é frequente que um sentimento de insegurança acabe por culminar em rejeição completa do próprio corpo.

Distúrbios alimentares ocorrem nas mais diversas famílias e em todas as classes sociais.  Há, entretanto, traços comuns que sé evidenciam no ambiente de pessoas com o problema. Justamente nos casos de anorexia e bulimia a família tem boa situação, instrução acima da média e passa a impressão de ser impecável e harmoniosa. Não é raro que prevaleçam grandes expectativas, todos se orientam rigorosamente de acordo com determinadas noções de valor e não dão vazão a sentimentos desagradáveis como raiva e ciúmes, de modo que os conflitos ficam latentes no subsolo, em vez de vir à tona. Os verdadeiros problemas por trás da fachada idealmente esbelta, são descobertos bem mais tarde pelos terapeutas.

PERFEIÇÃO SOB SUSPEITA

Anita, a estudante com anorexia, sempre procurou se livrar da imagem de menininha fofa. Aos poucos, foi renunciando a tudo que parecesse muito apetitoso. No começo, amigos e familiares aplaudiram sua decisão, e a diminuição rápida de peso motivou Anita a continuar. Não bastasse, ela continuava desempenhando o papel de filha perfeita, trazia boas notas para casa, era sempre atenciosa e solícita. O comportamento é típico de pessoa com distúrbios alimentares. Frequentemente os acometidos são alunos exemplares – ou adultos que têm uma vida cômoda, sucesso na profissão e dão muito valor à aparência primorosa. Mesmo assim jamais estão satisfeitos consigo mesmos.

Outro grupo numeroso de pacientes com transtornos alimentares compõe-se de crianças de comportamento chamativo. Elas detestam o próprio corpo e sofrem de depressões e complexos de inferioridade. A alteração no comportamento alimentar é uma reação à negligência emocional ou a outras vivências traumáticas. Fases de inapetência ou episódios de comer compulsivo são seu grito por socorro e atenção – assim como é o caso de manifestações não tão traumáticas como fazer xixi na cama ou roer unhas.

O início do processo deve­ se menos à falta de tempo ou à ausência dos pais, que precisam trabalhar; ele é desencadeado, na maior parte das vezes, pelo abuso de álcool, separações de casais ou falta de comunicação na família. Alguns dos adolescentes tratados em clínica psiquiátrica para crianças e adolescentes de Essen, Alemanha, relataram ter sido compelidos ao papel de intermediários entre seus pais em separação. Mas o desafio de permanecer leal ao pai e à mãe e a tentativa de consolar e apaziguar o casal era exigido deles mais do que podiam dar. E teria sido essa a causa do ódio que passaram a sentir de si mesmos. Os terapeutas, a propósito, são unânimes ao declarar: em vez de excluir os filhos como doentes ou como crianças difíceis, o importante é saber interpretar os sinais de alerta que eles emitem e criar a partir daí um ambiente aberto para o diálogo.

As causas para um transtorno alimentar remontam muitas vezes à primeira infância. Os psicólogos sabem que o apoio e o aconchego amoroso do seio familiar exercem uma influência básica sobre o desenvolvimento da criança. Os primeiros passos para alcançar um vínculo saudável, acontecem durante a gravidez, quando ocorre uma interação importante entre a mãe e o bebê. Tão logo a criança nasce, os pais mais dedicados a embalam e cantam-lhe cantigas para que adormeça. Nos melhores casos, é já nas primeiras semanas de vida da criança que se desenvolve uma relação equilibrada entre segurança e vínculo, de um lado, curiosidade e autonomia, de outro.

Com o teste de situação desconhecida (strange situation test), Mary Aynsworth e seus colegas da ClínicaTavistock, em Bloomsburry, Inglaterra, foram capazes de averiguar se crianças a partir de 1 ano se sentiam seguras ou não. Decisivo para o teste é a avaliação dos pequenos em casos de separação: quando a pessoa de sua confiança e referência sai do quarto, uma criança psiquicamente estável interrompe a brincadeira e assume um aspecto preocupado e triste; mas quando esse alguém retorna a criança manifesta sua alegria, mantém um breve contato físico com ele e volta a brincar tranquila. Se, no entanto, a criança recebeu pouca dedicação, ela praticamente não reage à saída ou ao retorno do pai ou da mãe.

ABUSO SEXUAL

Sentir-se aceito e protegido: muitas vezes é disso que se precisa para romper o círculo do vício.  Estudos comprovam que apenas 70% de todas as crianças sentem um vínculo seguro. Anita também sabe disso hoje em dia: o predomínio de sua fome só tinha por finalidade afastá-la dos verdadeiros problemas. Ela não se sentia aceita em casa. Além disso, absorvera uma imagem negativa do papel da mulher, e, portanto, dela mesma.  Quando sua menstruação cessou em decorrência dos períodos de jejum, ficou aliviada.

Não querer se sentir mulher é um dos comportamentos típicos de muitas das meninas com transtornos alimentares. Não é raro que entre elas haja casos de abuso sexual. Segundo as investigações feitas por um grupo de pesquisadores coordenado por Stephen Wonderlich, do Instituto de Distúrbios Alimentares em Fargo, Dakota do Norte, esse é um dos principais fatores de risco para a incidência de distúrbios com a alimentação. Obviamente, ter sofrido violência sexual aumenta não só a suscetibilidade a esses distúrbios, mas aos transtornos psíquicos em geral.

Portanto, alterações patológicas no comportamento alimentar não são apenas consequência de problemas pessoais, mas são determinadas e até mesmo ocasionadas também pelo ambiente. Muitos pais não sabem como ajudar e sofrem por não saber apontar uma saída para seu filho. Por isso, na terapia familiar procura-se envolver os membros da família para encontrar estratégias e soluções em comum para os problemas. Em geral fica evidente que o distúrbio alimentar é apenas o último elo de uma longa corrente de circunstâncias infelizes.

O ideal de beleza vigente reforça de maneira perniciosa esses problemas profundamente arraigados. Estudos comprovam que a maioria das pessoas considera muito atraentes os corpos com peso abaixo do normal. Até o fim do século XIX a mulher que quisesse despertar desejo não tinha problema algum se fosse um pouco mais corpulenta. Mais tarde, sinais claros de feminilidade passaram a estar fora de moda: por volta de 1920, as mulheres tratavam de exibir formas masculinizadas, não tinham vez as formas arredondadas nos seios, bumbum e quadris. Hoje, atrizes e modelos são intencionalmente mais magras, e mesmo os manequins nas vitrines apresentam quadris e coxas 10 cm mais finos que antes.

Para participantes do “Treinamento Contra a obsessão pelo corpo esbelto” valeu a coragem de deparar com a própria imagem no espelho. No grupo costuma-se descobrir com surpresa que o próprio corpo, tão odiado, pode ser visto pelos outros com simpatia, e que outras pessoas podem considera-lo bonito e bem formado. Embora as reuniões de 90 minutos não substituam uma terapia de longa duração, está comprovado que elas apresentam efeitos positivos. Meninas e mulheres que já participaram melhoraram seu comportamento alimentar e recuperaram parte da autoestima: um bom começo para romper o círculo vicioso da doença e para resolver os problemas a longo prazo.

O DESAFIO DE COMER BEM

Mesmo para pessoas sem problemas psíquicos não é fácil viver com saúde. As campanhas sobre alimentação saudável dos últimos 50 anos partiram do princípio de que basta fornecer informações para que todos passem a se comportar de maneira razoável. Um olhar retrospectivo faz perceber que esse pressuposto não está correto: no mundo todo, os custos diretos e indiretos com doenças condicionadas à má alimentação tendem a subir. De fato, a discussão dos últimos anos levou as pessoas a sentir um peso na consciência quando comem mal. Ou seja, sabem o que faz bem. Só que, mesmo assim, o comportamento delas não muda.

Já faz pelo menos duas décadas que as crianças são capazes de diferenciar alimentos saudáveis daqueles prejudiciais. Mas quando questionadas sobre o que mais gostam de comer, colocam no topo da lista os alimentos menos saudáveis: chocolate, refrigerante, salgadinhos etc. As crianças não escolhem determinado prato porque gostam dele, mas gostam dele porque o comem. Ou seja, seu gosto vai sendo treinado conforme o que lhes é oferecido de maneira desequilibrada, em casa, no lazer e nas escolas. Além disso, cresce nas famílias o costume de refeições-relâmpago. E se há problemas psíquicos somados a tudo isso, então o abismo entre conhecimento e comportamento aprofunda-se ainda mais. Em linhas gerais, deve valer a regra: a alimentação deve ser tão diversificada quanto possível. Uma mera divisão entre alimentos saudáveis e prejudiciais à saúde não é suficiente, já que as quantidades desempenham papel decisivo. O caso de uma doente de anorexia que adoeceu gravemente por comer apenas laranjas e salsinha é um exemplo claro disso.

Muitos médicos abandonaram a prática de prescrever quantidades ideais para sus pacientes. Também o índice de massa corpórea, usado internacionalmente, tem lá suas mazelas; não leva em conta o teor de minerais nem a constituição física do corpo da pessoa, tampouco sua massa muscular ou percentual de gordura. Para crianças e esportistas musculosos esses valores de referência simplesmente não dão certo. É muito mais importante que cada um conheça suas necessidades pessoais, permita-se desfrutar o prazer de comer e não queira resolver problemas psíquicos alterando seu comportamento alimentar.

Estratégias de esclarecimento não podem perder de vista a estreita relação entre emoção e alimentação. Campanhas na mídia são certamente apropriadas para atingir grupos populacionais maiores. Mas para haver mudanças no comportamento alimentar é preciso transmitir uma mensagem emocional. Em vez de “coma com saúde”, a palavra de ordem mais eficiente poderia ser “viva com mais saúde”.

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 COMER BEM OU FECHAR A BOCA?

Os transtornos alimentares são quadros psiquiátricos que afetam principalmente adolescentes e adultos jovens do sexo feminino, provocando aumento de morbidade e mortalidade.

A anorexia nervosa caracteriza-se pelo intenso emagrecimento à custa de restrição aumentar com busca desenfreada da magreza, recusa em readquirir o peso considerado esperado para a idade e a altura do paciente, distorção da imagem corporal e ausência de ciclos menstruais. O termo anorexia não é o mais pertinente psicopatologicamente, pois não há falta de apetite. A negação do apetite e o controle obsessivo do corpo tornam o termo alemão Pubertaetsmagersucht” (“adolescentes em busca da magreza”) mais adequado.

A bulimia nervosa caracteriza-se pelos episódios bulímicos, nos quais há grande ingestão de alimentos com a sensação de perda de controle num curto intervalo de tempo (aproximadamente duas horas), acompanhados de medidas compensatórias inadequadas para o controle de peso como: vômitos auto induzidos; uso de laxantes, inibidores de apetite e diuréticos; exercícios físicos compulsivos e dietas restritivas.

O termo bulimia nervosa foi cunhado por Russell e vem do termo grego “boul”(boi), ou “bou” (grande quantidade), associado com “lemos” (fome), ou seja, uma fome Intensa ou suficiente para devorar um boi. A anorexia nervosa acomete em sua grande maioria adolescentes, mas tem-se observado casos isolados com início na infância ou depois dos 30 anos. O início da bulimia nervosa é mais tardio, observado em geral no final da adolescência e no início da idade adulta. Diferentemente do que se observou nas primeiras descrições da bulimia nervosa, não ocorre distinção de aparecimento nas diferentes classes sociais.

Cerca de 80% a 90% dos pacientes são do sexo feminino, com grande maioria de raça branca. O número de homens afetados torna-se crescente, com maior incidência entre homossexuais.

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TIPOS DE PSICOTERAPIAS PARA OS TRANSTORNOS ALIMENTARES

Distúrbios alimentares acarretam tanto sintomas físicos quanto psíquicos. Um tratamento precisa dar conta desses dois campos. Alguns tipos de psicoterapia têm bons resultados:

Gestalterapia: O aqui e agora é tomado como ponto de partida. Se no momento o paciente está aborrecido com seu chefe, por exemplo, este passa a ser o tema da conversa. O tom da voz, gestos e postura corporal fornecem Informações mais importantes que a pergunta sobre a última refeição.

Psicanálise: toma como ponto de partida conflitos inconscientes como causa do transtorno. À medida que sentimentos tornam-se conscientes ao longo do tratamento, é frequente que vivências traumáticas sejam ressignificadas e o paciente se abra a novas experiências.

Terapia sistêmica: o ser humano é visto como parte da rede de relações de seu ambiente. Sintomas de doença são a expressão de determinados modelos relacionais. As intervenções terapêuticas têm por meta torna-los claros e com isso ampliar as possibilidades de ação.

Terapia comportamental: trabalha com técnicas fundadas de aprendizagem no intuito de ensinar a comer com regularidade e a defrontar com sua imagem no espelho, sem se aprofundar nos conflitos que determinam o transtorno e seus sentidos. Embora eficiente em certos casos, há risco de que o problema reapareça na forma de outros sintomas.

MODELO MULTIFATORIAL

Não há uma única etiologia que pode ser considerada responsável pelos transtornos alimentares. Acredita-se no modelo multifatorial, com participação de componentes biológicos, genéticos, psicológicos, socioculturais e familiares.

1. Fatores genéticos: pesquisas indicam maior prevalência de transtornos alimentares em algumas famílias, sugerindo uma agregação familiar com possibilidade de um fator genético associado. Estudos com gêmeos monozigóticos e dizigóticos também apontam a genética como possível participante na etiologia dos transtornos alimentares.

2. Fatores biológicos: alterações nos neurotransmissores moduladores da fome e da saciedade como noradrenalina, serotonina, colecistoquinina e diferentes neuropeptídeos têm sido postuladas como predisponentes para os transtornos alimentares. Existem dúvidas se tais alterações acontecem primariamente ou são decorrentes do quadro.

3. Fatores socioculturais: a obsessão em ter um corpo magro e perfeito é reforçada no dia a dia da sociedade ocidental. A valorização de atrizes e modelos geralmente abaixo do peso, em oposição ao escárnio sofrido pelos obesos, é um exemplo disso.

4. Fatores familiares: dificuldades de comunicação entre os membros da família, interações tempestuosas e conflitantes podem ser consideradas mantenedoras dos transtornos alimentares.

5. Fatores psicológicos: algumas alterações características como baixa autoestima, rigidez no comportamento, distorções cognitivas, necessidade de manter controle completo sobre sua vida e falta de confiança podem anteceder o desenvolvimento do quadro clínico.

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CHRISTIAN EGGERS – é médico especializado em pediatria, psiquiatria e psicoterapia de crianças e adolescentes.

VERENA LIEBERS – é doutora em biologia e jornalista científica.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.