PSICOLOGIA ANALÍTICA

CRIATIVIDADE E DESEQUILÍBRIO

Baseadas na história de grandes gênios da humanidade, pesquisas consideram inevitável a relação entre esses dois atributos. Corrente contrária recomenda cautela em generalizar a associação.

Criatividade e desequilíbrio

Não são poucos os exemplos nos quais a História conjugou loucura e criatividade extrema – Paul Gauguin, Léon Tolstoi, Serguei Rachmaninov, Vincent van Gogh, John Nash (este último retratado no filme Uma Mente Brilhante, do diretor Ron Howard). Ambos os atributos sempre pareceram compartilhar uma origem comum, sobretudo aos olhos leigos. Entretanto, do ponto de vista científico, essa associação permanece sem respostas. Pesquisas internacionais em certas disciplinas, como a Neurobiologia, tentam elucidar uma possível parceria entre problemas mentais e criação, apesar do ceticismo de muitos sobre essa relação. Alguns profissionais encaram e valorizam a arte muito mais no sentido terapêutico, à medida que, como instrumento de expressão, ela ajudaria a desvendar as aflições e os sofrimentos da mente.

Em estudo do departamento de psiquiatria e ciências comportamentais da universidade de Stanford, publicado em março de 2016 no Journal of Affictive Disorders, Cecylia Nowakowska e colegas procuraram as semelhanças e diferenças entre 49 pacientes com transtornos de humor bi­polar, 25 com unipolar, 42 pessoas saudáveis e 32 estudantes da universidade ligados a atividades artísticas – como pintura, fotografia, escultura e poesia – de maneira não profissional.

De acordo com o artigo, os grupos com transtorno de humor e dos artistas mostraram-se similares quanto ao temperamento, se comparados com os indivíduos saudáveis. Os pesquisadores chamam a atenção, ainda, para o fato de que especificamente os pacientes bipolares eram os mais parecidos com os estudantes envolvidos em alguma atividade artística no que diz respeito a estar aberto para novas experiências.

”A proeminente convergência entre esses dois grupos sugere que haja uma semelhança neurobiológica básica entre pessoas com transtorno de humor e indivíduos envolvidos em disciplinas criativas, coerente com a noção de que o temperamento contribui com a criatividade aumentada em indivíduos com transtorno bipolar”, afirmam os pesquisadores. Entretanto, eles destacam que utilizaram uma amostra com alta escolaridade, o que limitaria a generalização dos achados.

Mas o que é, afinal, o humor, para a Medicina e a Psicologia?

Existem várias definições, mas a que mais consideramos e utilizamos no nosso dia-a-dia é a de “veia cômica, graça e espírito”, como aponta o dicionário Aurélio. Mas parece que, cientificamente, a palavra assume uma conotação diferente. Rogério Aguiar, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Associação Brasileira de Psiquiatria, explica que o humor pode ser entendido como a “capacidade que a pessoa tem de variar o estado afetivo-emocional de acordo com os, estímulos que recebe”.

Ele esclarece que quando recebemos uma notícia ruim ou boa e, em resposta a ela, ficamos tristes ou alegres é sinal de que nosso humor está se manifestando, e de forma adequada. No entanto, nem sempre ele funciona de forma correta.

O humor, como qualquer reação do organismo humano, também é capaz de sucumbir ao adoecimento, os chamados transtornos de humor. Conhecido também como transtorno afetivo, tal quadro causa alterações comportamentais e configura uma patologia mental. Segundo Aguiar, o paciente com esta doença, embora conserve a capacidade de variar o humor, considerada sadia, apresenta determinados momentos em que o humor fica estático, ou seja, permanece em um único estado.

 BIPOLARIDADE E ESCRITORES

Na mesma linha da pesquisa de Stanford, em estudo publicado em agosto de 2014 na revista húngara Orvosi Hetilap, o pesquisador Janka Z. procurou elucidar a frequência de alterações psicopatológicas entre escritores e artistas e analisar a possível influência do transtorno bipolar sobre a criatividade artística com base nos resultados de pesquisas científicas já realizadas.

O autor da pesquisa cita como exemplo de artistas eminentes que provavelmente apresentavam sintomas maníaco-depressivos ou ciclo­ tímicos Emily Dickinson, Ernest Hemingway, Nikolai Gogol, Virgínia Woolf, Vincent van Gogh entre outros. Para além dos dados biográficos, o trabalho revisou também estudos baseados em exames psiquiátricos de escritores e artistas, a relação entre o estado mental dos indivíduos considerados gênios e o resultado de seus trabalhos, e os traços criativos e as habilidades do paciente psiquiátrico diagnosticado.

”Além da experiência prática e as impressões acumuladas ao Jongo do tempo desde a Antiguidade, as observações e os estudos científicos indicam que os sintomas psicopatológicos, especialmente aqueles pertencentes ao transtorno de humor bipolar, depressão maior e ciclotimia (desvio de humor, mas com limites dentro do normal) ocorrem mais frequentemente entre escritores, poetas, artistas visuais e compositores, comparado às taxas na população em geral”, afirma o pesquisador no texto. Na opinião do autor, pode-se concluir que os traços bipolares parecem contribuir para um maior sucesso no campo da arte.

 RELAÇÃO COM INTELIGÊNCIA?

Nancy Andreasen, em artigo publicado em 1987 na The American Journal of Psychiatry, já havia chamado a atenção para o fato de que escritores apresentam taxas substancialmente mais altas de doença mental, predominantemente desordens afetivas, com uma tendência ao tipo bipolar.

A pesquisadora da Universidade de Iowa (EUA) submeteu 30 escritores de prestígio em oficina da mesma universidade e um grupo de controle a uma série de testes, procurando comparar diferenças de comportamento existentes entre ambos. Andreasen analisou, ainda, parentes de primeiro grau dos participantes com o objetivo de verificar se existiam traços dos mesmos transtornos e criatividade nas famílias ligadas à amostra geneticamente mediada. A constatação foi positiva.

Entretanto, ao contrário da criatividade, parece que o transtorno de humor não tem nada a ver com inteligência, como constatou Andreasen em seu trabalho. No texto, ela chama a atenção para o fato de que “tanto escritores quanto o grupo controle (pessoas ‘comuns’) apresentavam QI mais elevado; os escritores foram mais notáveis apenas no sub teste de vocabulário WAIS’, confirmando as observações prévias de que inteligência e criatividade são habilidades mentais independentes”.

Criatividade e desequilíbrio5

TUDO EM FAMÍLIA

Além de diversas pesquisas sugerirem a relação entre criatividade e transtorno bipolar de humor, os mesmos apontam uma certa hereditariedade para ambos os tributos. Outro estudo realizado por pesquisadores do departamento de psiquiatria e ciências comportamentais da escola de Medicina da Universidade de Stanford (Califórnia, EUA) analisou 40 adultos com transtorno bipolar, 40 descendentes – sendo 20 com a doença e 20 com transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) – e compararam os resultados aos de 18 adultos saudáveis e seus respectivos filhos.

“Os resultados sugerem uma associação entre transtorno bipolar e criatividade – e contribuem para uma melhor compreensão dos possíveis mecanismos de transmissão de criatividade em famílias como susceptibilidade genética para a doença”, afirmam Diana Simeonova e equipe em artigo publicado no JournaL of Psychiatric Research, em novembro de 2015.

Apesar das limitações da pesquisa – como, por exemplo, número relativamente pequeno de participantes e análise de apenas um tipo de criatividade – apontadas no próprio texto, os aurores destacam que este foi o primeiro estudo a mostrar que crianças com o transtorno, ou alto risco de desenvolvê-lo, apresentam uma criatividade mais elevada do que as consideradas saudáveis.

Eles cogitam, entretanto, a possibilidade de que haja um componente ambiental subjacente responsável pela similaridade de ambos os grupos de crianças, bipolares e com TDAH, em termos de criatividade – hipótese que reforçaria uma suposta hereditariedade. “Como já estabelecido, a criatividade é um fenômeno heterogêneo complexo, relacionado a múltiplos fatores. Talvez aspectos genéticos, ambiente familiar e sintomas precoces do transtorno afetem a criatividade de uma maneira similar à que a doença é afetada por estressores fisiológicos e ambientais, resultando, deste modo, em uma criatividade aumentada, afirmam no texto.

Se por um lado o número de estudos sobre a possível associação entre distúrbios psiquiátricos e potencial criativo é crescente, por outro, poucos têm examinado a questão através de métodos empíricos. Nesse sentido, pesquisadores do departamento de Psicologia da Vanderbilt University (Tenesse, EUA) investigaram indivíduos portadores de esquizofrenia e com personalidade esquizoide, além de sujeitos saudáveis, com o objetivo de identificar possíveis relações entre tais grupos no que diz respeito ao processo de pensamento criativo.

Além de realizar inúmeros testes – como cálculo de QI, avaliação dos sintomas clínicos da esquizofrenia e grau de criatividade, por exemplo – o estudo registrou também a atividade pré-frontal de todos os 51 participantes (17 em cada grupo). Segundo artigo publicado em dezembro de 2015 na revista Schizophrenia Research, os autores concluíram que a personalidade esquizoide (um transtorno da personalidade em que a pessoa se afasta dos relacionamentos sociais, segundo o DSM-IV) é associada a uma elevada habilidade no que diz respeito a pensamentos divergentes (que chega a conclusões diversas e/ou contrárias sobre o mesmo assunto) e que tal característica estaria associada a uma atividade bilateral do córtex pré-frontal.

”Até onde sabemos, este é o primeiro estudo a comparar a neuroanatomia funcional do pensamento divergente em indivíduos com personalidade esquizoide, esquizofrenia (quadro de psicose com a duração de pelo menos seis meses, sendo um mês de sintomas ativos como delírios, alucinações, discurso desorganizado, comportamento desorganizado ou catatônico e sintomas negativos, de acordo com o DSM-IV) e sujeitos saudáveis”, afirmam Bradley Folley e Sohee Park, autores do artigo.

Eles destacam que a iniciativa foi um passo em direção ao desenvolvimento de ferramentas confiáveis para o escudo empírico da criatividade e da psicose. “Esta abordagem pode ajudar a diminuir a distância entre as evidências sem comprovação científica para a relação entre a criatividade e a psicose e seus mecanismos neurais subjacentes”, afirmam.

DEPRESSÃO, O BLOQUEIO

Na opinião de Rogério Aguiar, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), algumas pessoas que apresentam transtornos de humor podem realmente ter seu processo criativo atrelado a esses comportamentos – mas tal associação deve ser vista com cautela. O médico afirma que a produtividade seria mais intensa nos casos de euforia por conta da energia e da sensação de entusiasmo que fazem a pessoa expressar seus sentimentos, inclusive os reprimidos. Já os quadros de depressão seriam marcados por bloqueios no processo criativo, uma vez, que o indivíduo se sentiria tão desmotivado que não tem vontade de criar.

O professor da UFRGS diz ser incompatível com a realidade a ideia de que a produção criativa seria uma espécie de vantagem possibilitada pelo transtorno. De acordo com ele, aqueles que sofrem de esquizofrenia e transtorno bipolar – cerca de 1% da população – costumam muito mais perder do que ganhar com seus problemas. “Se analisarmos estatisticamente, perceberemos que eles perdem tudo: geralmente não têm família e não têm capacidade de escrever uma carta, quanto mais de produzir uma obra. Ficamos citando Van Gogh e outros artistas, mas quantos esquizofrênicos ou portadores de transtorno de humor são gênios? Poucos, apenas um ou outro se destacam”. Aguiar chega a reconhecer a existência de iniciativas que tentaram verificar a ligação entre os transtornos de humor e a capacidade criativa, mas alega que até agora “não teria sido demonstrado nada nesse sentido que fosse cabal”.

Cássio Bottino, psiquiatra do Hospital das Clínicas da USP, também acredita que a depressão interfira negativamente sobre o potencial criativo do indivíduo, deixando sua capacidade de trabalho comprometida, chegando inclusive a inviabilizar a execução de algumas tarefas do dia a dia. Ele reconhece que alguns relatos da literatura médica chegam a mencionar que indivíduos criativos teriam apresentado sintomas de esquizofrenia ou de pelo menos algum surto psicótico) mas levanta a possibilidade de tais dados não terem passado de uma coincidência. “Não dá para saber como seriam suas criações se esses artistas não tivessem tais transtornos”, defende.

Mas, se por um lado, Cássio Bottino discorda da ideia de que esses quadros de mania poderiam desencadear uma produção mais criativa, por outro, ele encara o processo de criação como uma possível via de verbalização para os que sofrem destes transtornos. Nesse aspecto, ele destaca a utilização da arte como terapia, especialmente quando utilizada para auxiliar os que possuem “uma comunicação social pobre”. “Eles passam a utilizar esses outros canais e conseguem se comunicar bem. Ela propicia o extravasamento dessas ideias, que podem até ser passíveis de interpretação”, diz.

OUTRAS ORIGENS

Se os transtornos de humor não seriam um fator para determinar o quanto uma pessoa é criativa, o que poderia fazer esse papel? Na opinião da professora Eunice Maria de Alencar um dos aspectos seria a própria personalidade do indivíduo. Pessoas que demonstram ter iniciativa, persistência, autoconfiança e senso de humor tenderiam a ser mais criativas que as que não possuem este perfil.

Outros fatores, segundo a pesquisadora, seriam a “flexibilidade” e a “fluência de ideias”. No primeiro caso teríamos uma habilidade cognitiva que permite que alguém tenha facilidade em promover associações com elementos de diferentes campos de saberes, promovendo raciocínios refinados. Já o segundo partiria do pressuposto de que quanto maior for a quantidade de ideias, maior será a chance de alcançar respostas de qualidade, ou seja, originais e, portanto, criativas. “É importante não ficar muito crítico na hora de pensar e deixar que a avaliação de ideias só aconteça posteriormente para que o pensamento criativo não seja subordinado a uma série de mecanismos de censura”, pontua Eunice.

Existiriam, ainda, momentos de relativa queda de criatividade ao longo da vida. Uma dessas etapas ocorreria aos 11 anos de idade, momento em que o indivíduo sai de sua fase infantil – onde não costuma censurar suas ideias – para ingressar na fase adolescente, período em que se vê obrigado a perder parte de sua espontaneidade para conseguir aceitação dentro do grupo. “Alguns trabalhos apontam esses dados, mas não existem muitas pesquisas nessa área”, ressalta Eunice.

A psicóloga Maria Alice d’Ávila Becker, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), também acredita que a id ade interfere de alguma forma no desenvolvimento da criatividade em um indivíduo. Segundo ela, as crianças, por outro lado, tenderiam a ser menos criativas que os adultos na hora de pensar em algo novo ou transformar o que já existe em outra coisa por não terem uma bagagem significativa de conhecimentos para tanto. “Elas utilizariam a criatividade para desempenhar atividades do dia a dia, mas teriam dificuldades nesse outro aspecto”, diz.

Os idosos, além de sofrerem prejuízos com doenças como o Alzheimer, ainda sofrem com o abandono e o ócio, reservando-se, na maioria dos casos, a atividades diárias banais – o que os levaria a expressar menos uma criatividade. Hoje, segundo Maria Virgínia Berger, ao contrário do passado – quando se encarava a criatividade como um dom inato – predomina uma perspectiva interacionalista, que considera a influência de fatores externos nessa capacidade de criação, ou seja, a relação entre o sujeito e o meio onde ele está inserido.

O QUE É CRIATIVIDADE?

NOVOS ARRANJOS COGNITIVOS

Para Maria Virgínia Bernardi Berger, doutora em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), pensar em criatividade seria meditar sobre a criação de novos arranjos cognitivos de interpretação de realidade. “A criatividade é uma transgressão na forma de olhar a realidade ou de agir. O pensamento criado não tem linearidade, é aberto a diferentes rotas, bifurcações, representa a ruptura com algo que já é conhecido. Caso contrário, não é criatividade, e sim a repetição de padrões”, afirma. No entanto, Berger reconhece que essa invenção não precisa ser feita em estruturas relativamente novas. A criatividade poderia simplesmente “rever ou reorganizar algo de forma diferente” – uma espécie de releitura que não se restringe ao campo das artes, mas envolve outras áreas como a própria ciência.

 FENÔMENO MULTIFACETADO

Já na opinião de Eunice Maria de Alencar, professora do Mestrado de Educação da Universidade Católica de Brasília, a dificuldade em definir o que é criatividade é intrínseca ao conceito, visto como “um fenômeno multifacetado que pode ser encarado de diferentes formas” e que pode abarcar, inclusive, soluções de problemas típicos de nosso dia a dia ou a criação de algo que seja útil.

CATARSE

Além de considerar os múltiplos significados do termo criatividade, outro passo importante na tarefa de entender esse fenômeno seria compreender as diferenças existentes entre processo e produto criativo. Enquanto este estaria ligado a um reconhecimento do indivíduo por parte de um grupo, aquele remeteria a uma dimensão subjetiva do indivíduo, que pode ou não resultar em um produto e que representaria uma via de diálogo entre este sujeito e a realidade em que ele está inserido. Neste caso, seria um canal através do qual ele exterioriza seus sentimentos em relação à vida e ao mundo. Justamente nesta espécie de catarse é que estaria um dos pontos mais discutidos: a influência dos transtornos de humor no processo criativo.

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TRANSTORNOS DE HUMOR

ALTERAÇÕES

Uma pessoa com transtorno de humor apresenta particularidades, como a estagnação do humor que, de acordo com Cássio Bottino, psiquiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo, dura um tempo prolongado, no mínimo duas semanas. Outros fatores além da variação de humor também podem ser notados como “alteração da volição, caracterizada pela vontade basicamente de fazer algo ou não, ou alterações no prazer, alteração do pensamento, característica afetiva de culpa, ideia sobre a morte como no caso da mania, ou ideias eufóricas, alterações também envolvendo o ciclo sono-vigília, alterações do apetite e da libido, do desejo sexual”, afirma Bottino.

 POLARIDADE

De acordo com Jerson Laks, o transtorno de humor pode ser caracterizado de formas distintas, mas existem duas categorias que se destacam: o transtorno de humor bipolar e o transtorno de humor unipolar. Segundo o médico, enquanto o transtorno bipolar “é composto por episódios de depressão e mania ou crises de exaltação do humor; no transtorno unipolar o paciente só passa pela fase de depressão”.

Essas fases são bem caracterizadas. Os psiquiatras consideram de forma geral que durante os episódios de euforia o paciente apresenta aceleração do pensamento, ideias paranoides e ideias de grandeza, com o ego elevado fazendo muitas vezes uma ideia de si que não condiz com a realidade. Por outro lado, a fase de depressão é marcada por uma conduta oposta, o paciente apresenta curso do pensamento lento e ideias pessimistas. Rogério Aguiar, por sua vez, ressalta que durante estes episódios, o paciente fica “trancado” dentro de um estado de tristeza e, por exemplo, mesmo que ele receba notícias alegres, não ficará feliz.

ESQUIZOFRENIA

Existem diversas alterações psíquicas, mas algumas em especial apresentam características que esbarram nos sintomas que envolvem o transtorno esquizoafetivo, que apresenta características do transtorno de humor e da esquizofrenia. 

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ARTE COMO TERAPIA

Lula Wanderley é terapeuta do Espaço Aberto ao Tempo (EAT) do Instituto Municipal Nise da Silveira, no Rio de Janeiro, iniciativa que oferece oficinas artísticas a fim de que pessoas com transtorno psíquico consigam se organizar internamente através da expressão das emoções, e atesta, por experiência própria, que a criatividade pode ser uma ferramenta útil no tratamento de distúrbios psíquicos. Segundo ele, toda manifestação criativa – seja ela a dança, a música, a pintura ou qualquer outra – promove o exercício da liberdade, uma condição que seria imprescindível aos que tiveram algum tipo de sofrimento intenso na vida. “Qualquer sofrimento representa um corte na comunicação e faz com que as pessoas precisem criar novas linguagens, novos códigos, e a criatividade é um instrumento de trabalho importante nesse tipo de tratamento”, diz.

Para o psicólogo do EAT soa estranha a ideia de que a criatividade estaria ligada ao transtorno de humor; ela seria apenas “uma espécie de recurso da inteligência que não teria relação direta com o sofrimento humano”. Segundo ele, a dificuldade de se comunicar com o mundo pode levar um indivíduo a buscar na criação artística formas de lidar com seu sofrimento, contudo não seria o transtorno psicológico que o tornaria um artista melhor; tudo seria uma questão de talento. “A maneira forte como sinto o mundo pode me ajudar a cantar, mas não quer dizer que eu seja um bom cantor por causa disso. Um transtorno de humor é um sofrimento humano e um sofrimento não determina quem vai ser artista. Uma pessoa que não passa por isso pode ser bastante criativa”.

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OUTROS OLHARES

MAGRAS DE MORRER

À procura de atenção e afeto, as pessoas que hoje sofrem com distúrbios alimentares desenvolveram relações patológicas com os alimentos.

Magras de morrer4

 Diante do espelho tendemos a nos considerar bonitos e esbeltos. A percepção das meninas, no entanto, é outra. Cada uma delas, vestindo roupas de banho, apresenta-se diante do grupo e aponta todas as partes do corpo em que vê defeitos, mesmo que só na imaginação: as coxas são gordas e grossas demais, a aparência toda não tem conserto, faltam curvas e os seios são muito pequenos.

Silja Vocks, terapeuta-chefe do grupo de imagem corporal de Bochum, Alemanha, tem uma tarefa árdua pela frente. Em seu “Treinamento contra a obsessão pelo corpo esbelto, um projeto da Universidade de Bochum aberto à comunidade, ela ajuda as meninas a gostar de si mesma e assim liberar a mente aprisionada no cálculo das calorias. A oferta permanente de cursos como este reflete o desenvolvimento observado nos últimos tempos: no mundo todo, o número de pessoas com transtornos alimentares continua crescendo. Só na Alemanha, cerca de 500 mil mulheres e 70 mil homens apresentavam bulimia em 2010. E por volta de 100 mil mulheres, na maioria jovens entre 15 e 25 anos, sofriam de anorexia. São números aproximados, já que na maior parte das vezes oculta-se a doença. Vergonha e baixa autoestima acabam por confinar os doentes a um círculo vicioso de compulsão e abstinência alimentar. A estudante Anita (o nome é fictício) começou seu calvário aos 14 anos. Hoje, depois de 10 anos enfrentando o distúrbio e diversas internações, inclusive em uma clínica psiquiátrica para crianças e adolescentes, ela parece estar livre. Anita teve anorexia nervosa, doença que em 95 % dos casos atinge mulheres. Na rigorosa dieta de abstenção dos anoréxicos, uma maçã é algo grave e uma guloseima com mais calorias pode causar verdadeira fobia. Eles passam fome durante longos períodos do dia, praticam esporte em excesso e se acham gordos mesmo que os ossos apareçam sob a pele. Ao mesmo tempo, podem ter prazer em cozinhar para outras pessoas. Mas enquanto o fazem planejam truques para se livrar discretamente da porção que lhes caberia

Como Anita, muitos deles têm orgulho de sua vida ascética e se vangloriam de seus sintomas, consideram-se fortes por vencer a tentação das tortas e barras de chocolate. Comparam-se triunfantes aos outros que, embora reclamando de seus quilinhos a mais, não conseguem resistir. Na verdade, porém, as sensações físicas dos anoréxicos ficam reduzidas: fome, frio, calor ou dor são percebidos por eles de maneira insuficiente.  Além disso, a menstruação é interrompida nas mulheres, e os homens sofrem de disfunção erétil. Outras consequências físicas decorrem dos períodos de jejum, entre elas pressão baixa e problemas dermatológicos. Mas mesmo diante dos protestos do corpo, muitos não se livram da ideia de poder, controle e realização, o que tem efeitos funestos. Pois primeiro é preciso anular esses mecanismos, para só então haver esperança de cura permanente. Estatisticamente, as chances não são boas: apenas 30% das pacientes anoréxicas superam seu vício, ou seja, ganham peso normal e voltam a ter menstruações regulares, 35% voltam a engordar um pouco embora sua atitude deturpada diante das questões de peso e forma do corpo persista; 15% continuam sendo crônicas. Nesse universo, 10 % jamais encontram a cura, mesmo em meio a uma sociedade abastada, morrem pelas consequências da falta de calorias, ou então se suicidam.

 ASCESE E ÊXTASE

Em casos típicos, a bulimia nervosa desenvolve-se em idade um pouco mais avançada que a anorexia, em média entre 18 e 35 anos. Aqui, os pacientes oscilam entre fome extrema e episódios de comer compulsivo, entre ascese e êxtase. Não é raro que os transtornos alimentares sejam acompanhados do abuso de álcool e drogas. Durante um acesso, os bulímicos ingerem grande quantidade de alimento calóricos: pães inteiros com manteiga, barras de chocolate e tortas cremosas desaparecem estômago adentro. De certa forma, quando se alimentam em excesso, essas pessoas tentam se livrar da solidão e do vazio interior e vencer estados de tensão insuportáveis. Em geral não desfrutam satisfação alguma, pois se envergonham de sua fome e voltam a forçar o vômito.

Esses pacientes também causam muitos danos ao próprio corpo com os vômitos frequentes, os ácidos estomacais afetam os dentes, ocorrem ulcerações do esôfago, danos em outros órgãos, problemas cardiovasculares. Por outro lado, o peso de pacientes bulímicos costuma manter-se na normalidade, e por isso é frequente que nem sequer a família ou amigos próximos percebem o problema. Quando se submetem a um tratamento, as chances de cura são maiores que na anorexia: cerca de metade consegue livrar-se da doença, mas para 25% os vômitos continuarão fazendo parte do dia-a-dia. Os demais em geral permanecem na zona nebulosa da doença.

Quando um paciente não vomita depois de um episódio de comer compulsivo os psicólogos falam de transtorno de compulsão alimentar periódica (binge eating disorder). Aí não se trata de passar dos limites apenas ocasionalmente. Esse diagnóstico supõe que a pessoa perca o controle sobre seu comportamento alimentar ao menos duas vezes por semana, geralmente em decorrência de frustração, medo ou tédio. Fala-se de vício alimentar quando o acúmulo de calorias permanece sempre acima do consumo.

Apesar de diferenças nos fatores de formação da doença, há muita fluidez nas fronteiras entre a vida saudável e o começo da enfermidade. A maioria dos atingidos começa a desenvolver o distúrbio alimentar por meio de uma dieta. No início, a ideia é emagrecer um pouco, mas logo, estão cortando tudo que contém açúcar e gordura, e de um determinado ponto em diante a questão é: o que ainda posso comer? Quase metade das mulheres já se submeteu a uma dieta de emagrecimento. Mas essa mortificação do próprio corpo tem consequências fatais. Dietas frequentes não demoram a confundir o sistema de apetência e saciedade do corpo. Há médicos que ao longo dos anos combatem somente doenças secundárias sem de fato conhecer as causas da enfermidade, como a alimentação deficitária de anoréxicos por exemplo. Uma razão para isso é que os próprios pacientes avaliam sua constituição física de maneira errada.

Mas o que está realmente por trás do chamado transtorno do esquema corporal? Para chegar a uma resposta a equipe de Vocks fotografou 56 pacientes com distúrbios alimentares e 209 pessoas saudáveis. Os pesquisadores pediram que os participantes alterassem a forma do próprio corpo em um programa gráfico de computador até se reconhecerem na imagem. A seguir, os dois grupos deveriam modelar esse “eu virtual” para a imagem adquirir a forma que desejariam ter.  Resultado: pacientes com bulimia e anorexia superestimavam consideravelmente suas medidas corporais.  Pessoas saudáveis, ao contrário, via de regra mostraram acreditar ser mais esbeltas que de fato são.

Outra experiência investigou a forma do corpo em movimento. Para tanto, os participantes deveriam avaliar seu jeito de andar. Viam na tela do computador um modelo animado de movimentação do corpo, e, por meio de um eixo poderiam torná-lo mais pesado ou mais ágil. Também aqui uma diferença gritante entre pacientes com transtornos alimentares e pessoas saudáveis foi constatada. Os primeiros consideravam seus movimentos mais pesados e se colocavam sob um modelo de movimentação típico de pessoas mais gordas. Além disso, quanto mais superestimavam a forma corporal, mais insatisfeitos se mostravam com o próprio corpo e maior era seu medo de adquirir sobrepeso. Ao mesmo tempo sofriam mais de fobias e outros problemas psíquicos.

Resultados semelhantes foram alcançados em 2004 por Barbara Mangweth, do departamento de Psiquiatria da Universidade de Innsbruck, Áustria, que trabalhou com um grupo de homens. A psicóloga aplicou a experiência a 27 pacientes com bulimia e anorexia, comparando-os a um grupo de controle acompanhado por colegas do laboratório Biológico de Psiquiatria da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos. Os pesquisadores constataram que as noções de uma forma ideal eram semelhantes em todos os pacientes. Mas os julgamentos sobre o próprio corpo divergiam muito: bulímicos e anoréxicos, quando comparados a pessoas saudáveis, atribuíam aos esboços gráficos de seu corpo o dobro da gordura que de fato tinham. Mangweth concluiu que uma percepção errônea acaba sendo determinante para o desenvolvimento de transtornos alimentares – e não tanto as noções de uma forma ideal.

FALHA SENSORIAL

Até o momento não se tem uma explicação satisfatória para o porquê de certas pessoas serem passíveis dessas avaliações equivocadas. O grupo de Vocks supõe que a razão esteja em um processamento de informações errôneo. Segundo a equipe, nas pessoas com transtornos alimentares os órgãos dos sentidos repassam as informações sobre a imagem do próprio corpo de maneira correta, só que a valoração desses dados é influenciada por pensamentos negativos. Alguns pacientes, por exemplo, ficaram fortemente marcados por lembranças de zombarias a que se viram expostos na infância e adolescência. Poucos experimentaram proteção, dedicação e apoio da família. Nas pessoas atingidas, é frequente que um sentimento de insegurança acabe por culminar em rejeição completa do próprio corpo.

Distúrbios alimentares ocorrem nas mais diversas famílias e em todas as classes sociais.  Há, entretanto, traços comuns que sé evidenciam no ambiente de pessoas com o problema. Justamente nos casos de anorexia e bulimia a família tem boa situação, instrução acima da média e passa a impressão de ser impecável e harmoniosa. Não é raro que prevaleçam grandes expectativas, todos se orientam rigorosamente de acordo com determinadas noções de valor e não dão vazão a sentimentos desagradáveis como raiva e ciúmes, de modo que os conflitos ficam latentes no subsolo, em vez de vir à tona. Os verdadeiros problemas por trás da fachada idealmente esbelta, são descobertos bem mais tarde pelos terapeutas.

PERFEIÇÃO SOB SUSPEITA

Anita, a estudante com anorexia, sempre procurou se livrar da imagem de menininha fofa. Aos poucos, foi renunciando a tudo que parecesse muito apetitoso. No começo, amigos e familiares aplaudiram sua decisão, e a diminuição rápida de peso motivou Anita a continuar. Não bastasse, ela continuava desempenhando o papel de filha perfeita, trazia boas notas para casa, era sempre atenciosa e solícita. O comportamento é típico de pessoa com distúrbios alimentares. Frequentemente os acometidos são alunos exemplares – ou adultos que têm uma vida cômoda, sucesso na profissão e dão muito valor à aparência primorosa. Mesmo assim jamais estão satisfeitos consigo mesmos.

Outro grupo numeroso de pacientes com transtornos alimentares compõe-se de crianças de comportamento chamativo. Elas detestam o próprio corpo e sofrem de depressões e complexos de inferioridade. A alteração no comportamento alimentar é uma reação à negligência emocional ou a outras vivências traumáticas. Fases de inapetência ou episódios de comer compulsivo são seu grito por socorro e atenção – assim como é o caso de manifestações não tão traumáticas como fazer xixi na cama ou roer unhas.

O início do processo deve­ se menos à falta de tempo ou à ausência dos pais, que precisam trabalhar; ele é desencadeado, na maior parte das vezes, pelo abuso de álcool, separações de casais ou falta de comunicação na família. Alguns dos adolescentes tratados em clínica psiquiátrica para crianças e adolescentes de Essen, Alemanha, relataram ter sido compelidos ao papel de intermediários entre seus pais em separação. Mas o desafio de permanecer leal ao pai e à mãe e a tentativa de consolar e apaziguar o casal era exigido deles mais do que podiam dar. E teria sido essa a causa do ódio que passaram a sentir de si mesmos. Os terapeutas, a propósito, são unânimes ao declarar: em vez de excluir os filhos como doentes ou como crianças difíceis, o importante é saber interpretar os sinais de alerta que eles emitem e criar a partir daí um ambiente aberto para o diálogo.

As causas para um transtorno alimentar remontam muitas vezes à primeira infância. Os psicólogos sabem que o apoio e o aconchego amoroso do seio familiar exercem uma influência básica sobre o desenvolvimento da criança. Os primeiros passos para alcançar um vínculo saudável, acontecem durante a gravidez, quando ocorre uma interação importante entre a mãe e o bebê. Tão logo a criança nasce, os pais mais dedicados a embalam e cantam-lhe cantigas para que adormeça. Nos melhores casos, é já nas primeiras semanas de vida da criança que se desenvolve uma relação equilibrada entre segurança e vínculo, de um lado, curiosidade e autonomia, de outro.

Com o teste de situação desconhecida (strange situation test), Mary Aynsworth e seus colegas da ClínicaTavistock, em Bloomsburry, Inglaterra, foram capazes de averiguar se crianças a partir de 1 ano se sentiam seguras ou não. Decisivo para o teste é a avaliação dos pequenos em casos de separação: quando a pessoa de sua confiança e referência sai do quarto, uma criança psiquicamente estável interrompe a brincadeira e assume um aspecto preocupado e triste; mas quando esse alguém retorna a criança manifesta sua alegria, mantém um breve contato físico com ele e volta a brincar tranquila. Se, no entanto, a criança recebeu pouca dedicação, ela praticamente não reage à saída ou ao retorno do pai ou da mãe.

ABUSO SEXUAL

Sentir-se aceito e protegido: muitas vezes é disso que se precisa para romper o círculo do vício.  Estudos comprovam que apenas 70% de todas as crianças sentem um vínculo seguro. Anita também sabe disso hoje em dia: o predomínio de sua fome só tinha por finalidade afastá-la dos verdadeiros problemas. Ela não se sentia aceita em casa. Além disso, absorvera uma imagem negativa do papel da mulher, e, portanto, dela mesma.  Quando sua menstruação cessou em decorrência dos períodos de jejum, ficou aliviada.

Não querer se sentir mulher é um dos comportamentos típicos de muitas das meninas com transtornos alimentares. Não é raro que entre elas haja casos de abuso sexual. Segundo as investigações feitas por um grupo de pesquisadores coordenado por Stephen Wonderlich, do Instituto de Distúrbios Alimentares em Fargo, Dakota do Norte, esse é um dos principais fatores de risco para a incidência de distúrbios com a alimentação. Obviamente, ter sofrido violência sexual aumenta não só a suscetibilidade a esses distúrbios, mas aos transtornos psíquicos em geral.

Portanto, alterações patológicas no comportamento alimentar não são apenas consequência de problemas pessoais, mas são determinadas e até mesmo ocasionadas também pelo ambiente. Muitos pais não sabem como ajudar e sofrem por não saber apontar uma saída para seu filho. Por isso, na terapia familiar procura-se envolver os membros da família para encontrar estratégias e soluções em comum para os problemas. Em geral fica evidente que o distúrbio alimentar é apenas o último elo de uma longa corrente de circunstâncias infelizes.

O ideal de beleza vigente reforça de maneira perniciosa esses problemas profundamente arraigados. Estudos comprovam que a maioria das pessoas considera muito atraentes os corpos com peso abaixo do normal. Até o fim do século XIX a mulher que quisesse despertar desejo não tinha problema algum se fosse um pouco mais corpulenta. Mais tarde, sinais claros de feminilidade passaram a estar fora de moda: por volta de 1920, as mulheres tratavam de exibir formas masculinizadas, não tinham vez as formas arredondadas nos seios, bumbum e quadris. Hoje, atrizes e modelos são intencionalmente mais magras, e mesmo os manequins nas vitrines apresentam quadris e coxas 10 cm mais finos que antes.

Para participantes do “Treinamento Contra a obsessão pelo corpo esbelto” valeu a coragem de deparar com a própria imagem no espelho. No grupo costuma-se descobrir com surpresa que o próprio corpo, tão odiado, pode ser visto pelos outros com simpatia, e que outras pessoas podem considera-lo bonito e bem formado. Embora as reuniões de 90 minutos não substituam uma terapia de longa duração, está comprovado que elas apresentam efeitos positivos. Meninas e mulheres que já participaram melhoraram seu comportamento alimentar e recuperaram parte da autoestima: um bom começo para romper o círculo vicioso da doença e para resolver os problemas a longo prazo.

O DESAFIO DE COMER BEM

Mesmo para pessoas sem problemas psíquicos não é fácil viver com saúde. As campanhas sobre alimentação saudável dos últimos 50 anos partiram do princípio de que basta fornecer informações para que todos passem a se comportar de maneira razoável. Um olhar retrospectivo faz perceber que esse pressuposto não está correto: no mundo todo, os custos diretos e indiretos com doenças condicionadas à má alimentação tendem a subir. De fato, a discussão dos últimos anos levou as pessoas a sentir um peso na consciência quando comem mal. Ou seja, sabem o que faz bem. Só que, mesmo assim, o comportamento delas não muda.

Já faz pelo menos duas décadas que as crianças são capazes de diferenciar alimentos saudáveis daqueles prejudiciais. Mas quando questionadas sobre o que mais gostam de comer, colocam no topo da lista os alimentos menos saudáveis: chocolate, refrigerante, salgadinhos etc. As crianças não escolhem determinado prato porque gostam dele, mas gostam dele porque o comem. Ou seja, seu gosto vai sendo treinado conforme o que lhes é oferecido de maneira desequilibrada, em casa, no lazer e nas escolas. Além disso, cresce nas famílias o costume de refeições-relâmpago. E se há problemas psíquicos somados a tudo isso, então o abismo entre conhecimento e comportamento aprofunda-se ainda mais. Em linhas gerais, deve valer a regra: a alimentação deve ser tão diversificada quanto possível. Uma mera divisão entre alimentos saudáveis e prejudiciais à saúde não é suficiente, já que as quantidades desempenham papel decisivo. O caso de uma doente de anorexia que adoeceu gravemente por comer apenas laranjas e salsinha é um exemplo claro disso.

Muitos médicos abandonaram a prática de prescrever quantidades ideais para sus pacientes. Também o índice de massa corpórea, usado internacionalmente, tem lá suas mazelas; não leva em conta o teor de minerais nem a constituição física do corpo da pessoa, tampouco sua massa muscular ou percentual de gordura. Para crianças e esportistas musculosos esses valores de referência simplesmente não dão certo. É muito mais importante que cada um conheça suas necessidades pessoais, permita-se desfrutar o prazer de comer e não queira resolver problemas psíquicos alterando seu comportamento alimentar.

Estratégias de esclarecimento não podem perder de vista a estreita relação entre emoção e alimentação. Campanhas na mídia são certamente apropriadas para atingir grupos populacionais maiores. Mas para haver mudanças no comportamento alimentar é preciso transmitir uma mensagem emocional. Em vez de “coma com saúde”, a palavra de ordem mais eficiente poderia ser “viva com mais saúde”.

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 COMER BEM OU FECHAR A BOCA?

Os transtornos alimentares são quadros psiquiátricos que afetam principalmente adolescentes e adultos jovens do sexo feminino, provocando aumento de morbidade e mortalidade.

A anorexia nervosa caracteriza-se pelo intenso emagrecimento à custa de restrição aumentar com busca desenfreada da magreza, recusa em readquirir o peso considerado esperado para a idade e a altura do paciente, distorção da imagem corporal e ausência de ciclos menstruais. O termo anorexia não é o mais pertinente psicopatologicamente, pois não há falta de apetite. A negação do apetite e o controle obsessivo do corpo tornam o termo alemão Pubertaetsmagersucht” (“adolescentes em busca da magreza”) mais adequado.

A bulimia nervosa caracteriza-se pelos episódios bulímicos, nos quais há grande ingestão de alimentos com a sensação de perda de controle num curto intervalo de tempo (aproximadamente duas horas), acompanhados de medidas compensatórias inadequadas para o controle de peso como: vômitos auto induzidos; uso de laxantes, inibidores de apetite e diuréticos; exercícios físicos compulsivos e dietas restritivas.

O termo bulimia nervosa foi cunhado por Russell e vem do termo grego “boul”(boi), ou “bou” (grande quantidade), associado com “lemos” (fome), ou seja, uma fome Intensa ou suficiente para devorar um boi. A anorexia nervosa acomete em sua grande maioria adolescentes, mas tem-se observado casos isolados com início na infância ou depois dos 30 anos. O início da bulimia nervosa é mais tardio, observado em geral no final da adolescência e no início da idade adulta. Diferentemente do que se observou nas primeiras descrições da bulimia nervosa, não ocorre distinção de aparecimento nas diferentes classes sociais.

Cerca de 80% a 90% dos pacientes são do sexo feminino, com grande maioria de raça branca. O número de homens afetados torna-se crescente, com maior incidência entre homossexuais.

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TIPOS DE PSICOTERAPIAS PARA OS TRANSTORNOS ALIMENTARES

Distúrbios alimentares acarretam tanto sintomas físicos quanto psíquicos. Um tratamento precisa dar conta desses dois campos. Alguns tipos de psicoterapia têm bons resultados:

Gestalterapia: O aqui e agora é tomado como ponto de partida. Se no momento o paciente está aborrecido com seu chefe, por exemplo, este passa a ser o tema da conversa. O tom da voz, gestos e postura corporal fornecem Informações mais importantes que a pergunta sobre a última refeição.

Psicanálise: toma como ponto de partida conflitos inconscientes como causa do transtorno. À medida que sentimentos tornam-se conscientes ao longo do tratamento, é frequente que vivências traumáticas sejam ressignificadas e o paciente se abra a novas experiências.

Terapia sistêmica: o ser humano é visto como parte da rede de relações de seu ambiente. Sintomas de doença são a expressão de determinados modelos relacionais. As intervenções terapêuticas têm por meta torna-los claros e com isso ampliar as possibilidades de ação.

Terapia comportamental: trabalha com técnicas fundadas de aprendizagem no intuito de ensinar a comer com regularidade e a defrontar com sua imagem no espelho, sem se aprofundar nos conflitos que determinam o transtorno e seus sentidos. Embora eficiente em certos casos, há risco de que o problema reapareça na forma de outros sintomas.

MODELO MULTIFATORIAL

Não há uma única etiologia que pode ser considerada responsável pelos transtornos alimentares. Acredita-se no modelo multifatorial, com participação de componentes biológicos, genéticos, psicológicos, socioculturais e familiares.

1. Fatores genéticos: pesquisas indicam maior prevalência de transtornos alimentares em algumas famílias, sugerindo uma agregação familiar com possibilidade de um fator genético associado. Estudos com gêmeos monozigóticos e dizigóticos também apontam a genética como possível participante na etiologia dos transtornos alimentares.

2. Fatores biológicos: alterações nos neurotransmissores moduladores da fome e da saciedade como noradrenalina, serotonina, colecistoquinina e diferentes neuropeptídeos têm sido postuladas como predisponentes para os transtornos alimentares. Existem dúvidas se tais alterações acontecem primariamente ou são decorrentes do quadro.

3. Fatores socioculturais: a obsessão em ter um corpo magro e perfeito é reforçada no dia a dia da sociedade ocidental. A valorização de atrizes e modelos geralmente abaixo do peso, em oposição ao escárnio sofrido pelos obesos, é um exemplo disso.

4. Fatores familiares: dificuldades de comunicação entre os membros da família, interações tempestuosas e conflitantes podem ser consideradas mantenedoras dos transtornos alimentares.

5. Fatores psicológicos: algumas alterações características como baixa autoestima, rigidez no comportamento, distorções cognitivas, necessidade de manter controle completo sobre sua vida e falta de confiança podem anteceder o desenvolvimento do quadro clínico.

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CHRISTIAN EGGERS – é médico especializado em pediatria, psiquiatria e psicoterapia de crianças e adolescentes.

VERENA LIEBERS – é doutora em biologia e jornalista científica.

GESTÃO E CARREIRA

RENDA-SE AOS MAKERS

Os protagonistas da nova revolução industrial são desapegados, colaborativos e acreditam que o caminho para a inovação passa pelo erro. Aprenda a errar (do jeito certo) com eles.

Renda-se aos makers

O jovem empresário Pedro Salum, de 25 anos, costuma levar debaixo do braço para suas reuniões de trabalho a maquete de uma porta com uma fechadura que se abre com um deslizar de dedo no celular. Feito em chapas finas de MDF cortadas a laser, impressora 3D e circuitos eletrônicos de baixo custo, o dispositivo é a versão mais moderna de uma ideia que surgiu de forma despretensiosa depois de uma noite mal dormida, em 2015. Salum tinha esquecido as chaves de casa e teve de esperar até o dia seguinte para pedir que alguém abrisse a porta. Decidiu então tentar criar uma fechadura que dispensasse as chaves, mas fosse mais segura que os atuais sistemas de biometria. Do primeiro protótipo, feito com restos de blocos Lego, à mais recente, foram 18 versões. Entre uma e outra, um festival de tentativas e erros. Até que, em setembro, Salum fechou seu primeiro grande contrato. O equipamento será usado no controle de acesso dos empreendimentos de uma nova empresa do grupo Vitacon, a Vitastay, gestora de apartamentos e prédios inteiros dedicados a hospedagens de curta duração – um modelo similar ao do Airbnb. Com as coisas andando, agora Salum e seus sócios na LoopKey, como é chamada a empresa nascida com o novo produto, estudam a possibilidade de escalar a produção encomendando peças a terceiros, produzidas em larga escala, de modo mais tradicional, e com custos unitários de fabricação mais baixos.

Vista de forma isolada, a história da LoopKey é mais uma entre muitas de empreendedores anônimos que tiveram uma boa ideia, a levaram adiante e fundaram uma empresa. Mas o jeito ágil de trabalhar, usando ferramentas modernas para construir protótipos e testar produtos rapidamente, é característico de um movimento que rapidamente se expande para além de suas raízes artesanais e hobbyistas e ganha espaço em grandes empresas, como Fiat, Renault, Itaú e GE. É o movimento maker, a vanguarda do que o jornalista Chris Anderson, ex-editor da revista Wired e autor do livro A Cauda Longa: do Mercado de Massa para o Mercado de Nicho, considera ser uma nova revolução industrial. Uma revolução na qual as pessoas comuns, com mais ideias que dinheiro, farão diferença – assim como fizeram na revolução da informação, com web- sites, blogs, redes sociais e a produção de áudio e vídeo independentes. “A revolução digital chegou às oficinas, a camada das coisas reais”, afirma Anderson no livro Makers: The New Industrial Revolution, ainda não lançado no Brasil.

O conceito de maker é tão amplo quanto a tradução literal do termo para o português sugere – “fazedor”. Mas, em geral, ele é usado para definir pessoas que usam todo tipo de material e ferramentas para idealizar e construir protótipos e novos produtos, seja por prazer ou por necessidade. Pode ser só papel, tesoura e cola. Mas a lista inclui também impressora 3D, máquina de corte a laser e placas eletrônicas com microcontroladores. Em alguns casos, tudo isso junto. O fundamental, no entanto, está na maneira de pensar e de fazer as coisas dos makers. Tão logo têm uma ideia eles a compartilham online. Os projetos circulam, são modificados, aperfeiçoados, usados por outras pessoas, em qualquer parte do mundo, e voltam. No universo maker, há mais desapego que posse, mais colaboração que individualismo, mais horizontalidade que decisões tomadas de cima para baixo. Uma lógica de rede social, de coworking. No fundo, no fundo, se compararmos com o jeito de fazer negócios que conhecemos até aqui, o que existe é uma pequena anarquia. E isso é bom. Está interessando cada vez mais às grandes corporações. Não só as que lidam diretamente com o fazer, a produção, mas também empresas de serviços. Porque na cultura maker elas vislumbram um dos caminhos para a inovação.

Para ser um maker não é preciso ter um espaço especialmente preparado. Mas, assim como as fábricas de tijolos aparentes com suas chaminés se tornaram símbolos da primeira revolução industrial, eles também têm ambientes de produção característicos. O mais conhecido é o fab lab, laboratório idealizado pelo professor e diretor do Centro de Átomos e Bits do Massachusetts Institute of Technology (MIT) Neil Gershenfeld, em suas aulas no popular curso sobre “Como fazer (quase) tudo”. Equipados com cortadoras a laser, cortadoras de vinil, impressoras 3D, fresadoras para madeira, máquinas para a confecção de pequenos circuitos eletrônicos, além de ferramentas tradicionais de marcenaria, os fab labs começaram a se espalhar pelo mundo a partir de 2009, impulsionados por uma fundação sem fins lucrativos criada para isso, a Fab Foundation, também ligada ao MIT.

Os fab labs facilitaram o acesso a ferramentas caras e começaram a servir de ponto de convergência para pessoas até então dispersas que compartilhavam informações pela internet. Hoje, segundo a Fab Foundation, há mais de mil fab labs em 78 países. Eles estão instalados em associações comunitárias, instituições sem fins lucrativos e educacionais, seguindo a configuração- padrão definida pelo MIT. Fora dessa conta estão ainda centenas de unidades dentro de empresas, entidades ligadas à indústria, instituições de ensino e espaços públicos patrocinados por governos. São Paulo, por exemplo, tem um dos maiores programas de fab labs públicos do mundo, com 12 unida- des. Abertos na maior parte dos casos a qualquer interessado, eles se tornam, acima de tudo, usinas de ideias. Servem de ponto de encontro para trocar experiências sobre projetos que, em muitos casos, acabam indo parar em plataformas de financiamento coletivo e atraindo interessados em ver o coração dessa nova revolução: rascunhos feitos em impressoras 3D que se transformam em produtos de verdade, inovadores, úteis, transformadores do cotidiano de gente comum ou de linhas de montagem de veículos de uma multinacional.

“A primeira geração de gigantes do Vale do Silício começou em uma garagem, mas levou décadas para se tornar grande. Agora, companhias começam em um quarto de dormir e viram gigantes antes que seus fundadores possam se graduar na universidade”, diz Anderson em seu livro. “Tudo que a gente viveu na internet, vai viver de novo agora, mas com intensidade multiplicada por dez”, corrobora Ricardo Cavallini, cofundador da Makers Brasil, consultor de negócios digitais e autor do livro Evolução: Prepare Sua Empresa para Inovar Sempre.

Apesar da perspectiva de rápida expansão, da versatilidade na produção e do alto potencial de inovação, até pouco tempo atrás o movimento maker permanecia distante do mundo corporativo. Isso vem mudando – e muito rápido. “Antes, quando eu falava sobre cultura maker, os executivos diziam que era coisa para crianças. Agora, estão mudando de ideia, porque perceberam que competidores atentos ao movimento estão ganhando competitividade”, diz Heloisa Neves, uma das grandes referências maker no Brasil. Heloisa fala de uma posição privilegiada. Dona de um currículo que inclui cursos do MIT, um Ph.D. na USP sobre práticas makers e participação na criação do Garagem Fab Lab, um dos primeiros no Brasil, ela viu de perto as dificuldades que as grandes empresas tinham (ainda têm) para lidar com a novidade. Funcionários, geralmente ligados à área de inovação, chegavam ao espaço com a esperança de inventar algo. Mas, sem ter a mentalidade dos makers, travavam e voltavam de mãos vazias para seus escritórios. “Os fab labs são espaços que oferecem uma liberdade para trabalhar que não tem nada a ver com o ambiente hierárquico das empresas. Não tem ninguém que faça algo por você. É necessário sentar ali e aprender, descobrir”, diz Heloisa, que nos últimos dois anos se dedica a levar a cultura maker para dentro de grandes empresas.

Uma das principais características do modo de trabalho dos makers é a reflexão sobre um objeto físico. Por isso, eles costumam inverter a lógica do que é feito normalmente nas empresas. Em vez de trabalhar um ou dois anos idealizando um novo produto antes testá-lo, os makers partem quase sempre de um protótipo (ainda que construído de forma grosseira com papel e fita crepe) para refletir sobre uma ideia. Isso significa ver, logo de início, se conceitualmente ela é boa e tem potencial, sem se preocupar em pedir permissão para testar, ou querer acertar de primeira e rápido. Aliás, a única permissão que existe na cultura maker – e que é extremamente bem-vista – é a de errar. Os makers erram com orgulho. Permitem-se errar porque isso faz parte do processo que pode levar ao acerto. O perfeccionismo, portanto, é apenas uma trava ao potencial de inovação. “Nosso mote é prototipe, não PPTipe”, brinca, referindo-se ao PowerPoint (essa muleta da falta de criatividade), Benjamin Carlu, um engenheiro mecânico que fundou na França o Usine IO, um híbrido de consultoria e fab lab que todos os anos ajuda a acelerar cerca de 300 projetos de empresas.

Claro que em um negócio “normal” não é assim que as coisas funcionam. Mas talvez isso esteja mudando – mesmo que aos trancos e barrancos, com a ajuda de pessoas como Heloisa Neves. Em 2015, ela fundou em São Paulo um projeto para ajudar empresas a serem criativas à maneira dos makers. Desde então, seu We Fab já recebeu mais de 30 companhias, entre as quais Natura, Suzano e Aché. Ao lado de designers e engenheiros, Heloisa ensina como se faz para materializar uma ideia em poucos dias. Pode ser uma máquina, uma embalagem, uma ferramenta, internet das coisas. Mas não é o resultado físico que importa. Vale mais a aquisição de um jeito novo de pensar. Foi assim com a L’Oréal. O problema da companhia era a dificuldade que as cabeleireiras estavam encontrando para aplicar um novo produto para cabelos. Depois de meses testando uma infinidade de acessórios, os franceses entraram em contato com Heloisa para destravar as ideias. Oito pessoas da L’Oréal e cinco facilitadores do We Fab fizeram um protótipo de um pente especial para aplicar o produto. Em um fim de semana de trabalho, avançaram o que estava emperrado com o time interno havia seis meses. Foi assim também com a Natura, que desenvolveu uma máquina de personalizar sabonetes.

Heloisa não está sozinha em seu esforço de levar a cultura maker para dentro das empresas. A Mundo Maker, a escola de negócios Insper, o Sesi, o Sesc e a universidade corporativa Isvor, do grupo Fiat Chrysler Automóveis (FCA), também assumiram esse papel. Todos eles têm laboratórios com as parafernálias usadas pelos makers. A ordem é experimentar, arriscar, ousar, sempre misturando produção artesanal e tecnologia. A Bolha, um estúdio de criação que usa técnicas maker para criar produtos sob medida, ajudou a fabricante de chocolates Hershey’s a fazer uma promoção em que as barras de chocolate teriam forma de emoji e peso de 1,5 kg. A ideia era fazer 160 tipos diferentes. Mas os moldes de chocolate feitos pelo método tradicional eram muito caros e demorados para fabricar. Para contornar o problema, a Bolha desenhou os emoji em 3D e os esculpiu em blocos de madeira, posteriormente usados para fazer os moldes. “Isso só aconteceu por causa da fabricação digital e da mentalidade maker. Não seria possível tempos atrás”, diz Nagib Nassif, diretor-executivo da Bolha. “Essas máquinas só existiam dentro de grandes indústrias. Estavam longe do gênio criativo dos makers.”

Nesse momento, o apoio externo ainda se mostra fundamental para ajudar a transformar culturas de trabalho há tanto tempo enraizadas. Porque o modelo de gestão de empresas tradicionais exige tudo que não tem a ver com o universo dos makers e das startups: hierarquia, departamentalização, obediência, disciplina, comando e controle. Um negócio que nasce hoje, por outro lado, pressupõe que, para competir, é preciso ter equipes multidisciplinares, menos hierarquia, menos organograma. Algumas velhas companhias – ao menos as velhas com alma jovem – já sabem disso. A questão é como colocar em prática.

O Itaú-Unibanco vem tentando. E com sucesso. O movimento começou há cinco anos pela área digital e, desde então, tem gerado avanços “exponenciais” na entrega de resultados, segundo Lívia Chanes, diretora de canais eletrônicos do banco. O desejo, ela conta, era dar maior autonomia para que as equipes pudessem conceber rapidamente protótipos, testá-los na prática e fazer depois os ajustes necessários em pleno voo. Hoje, cerca de mil pessoas no banco integram equipes que seguem esse jeito maker de trabalhar. O aplicativo Light nasceu dessa filosofia mais flexível e menos burocrática. O Itaú notou que tinha dificuldade de atrair seus clientes de baixa renda para o mundo digital. Pesquisas mostraram que um dos motivos era a limitação dos celulares desses clientes, sem capacidade para armazenar e rodar o app tradicional. Daí surgiu a ideia de uma versão mais leve dele. “Em menos de dois meses, já tínhamos um protótipo funcional”, diz Lívia. O passo seguinte foi lançá-lo em versão beta para alguns milhares de correntistas e testar o conceito. Com ele aprovado, o banco tirou o aplicativo da Apple Store e do Google Play e refinou a ideia. “Então houve o lançamento oficial. Em três meses alcançamos 400 mil novos usuários”, conta a executiva.

Apesar dos bons resultados, o desafio cultural continua a ser enorme, segundo Lívia. “A gente vem de uma dinâmica de negócios em que a frequência de mudança, seja por questão de fluxo de informação ou acesso à tecnologia, se dava em anos. Hoje, acontece em dias, semanas. O dinamismo que precisamos incorporar é muito maior.

E é impossível incorporar esse dinamismo com gestões centralizadas. Não adianta colocar nas costas de um executivo sozinho a responsabilidade de imaginar todas as aplicações possíveis para esse milhão de tendências que acontecem no mundo.” Ponto para a cultura maker.

Foi por isso também que a Fiat Chrysler Automóveis (FCA) criou estruturas paralelas à sua operação para dar mais liberdade e fluidez a projetos estratégicos e servir de centro disseminador de novas práticas de gestão. Uma dessas iniciativas é o fab lab da universidade corporativa Isvor. Outra é o projeto Afterburner, onde são gestados e acelerados projetos voltados a resolver demandas urgentes do grupo. A terceira estrutura é o grupo de inovação formado por 15 pessoas dentro do departamento de engenharia de desenvolvimento de produtos, que funciona como uma startup, com mais autonomia.

Um produto originado dessas iniciativas foi o Fiat Live On, sistema que conecta o celular ao carro e o transforma, por meio de um aplicativo, em central multimídia. A ideia surgiu em uma reunião de rotina. Toshizaemom Noce, supervisor da área de inovação, conta que a conversa enveredou para o fato de que a demanda por aparelhos multimídia dentro dos carros estava crescendo, mas sua produção era cara. Alguém sugeriu o uso de um celular com tela sensível ao toque. Isso permitiria a integração do sistema a veículos mais baratos. Em vez de seguir o processo de compra tradicional da companhia, com pedidos, carimbos e segundas vias, Noce e um colega compraram com dinheiro do próprio bolso celulares para testar o conceito. Convidaram pessoas da empresa, com o perfil do público-alvo do produto, para experimentá-lo. Em seis meses o projeto foi aceito no processo tradicional de desenvolvimento de produtos de linha. Hoje, equipa os modelos Mobi e o Uno.

Isso é pura cultura maker. É faça primeiro, avalie e justifique depois. “Na área de inovação, a gente funciona como uma ‘garagem’ dentro da empresa, com autonomia para errar e quebrar as regras”, afirma Noce. Da mesma forma, no Afterburner, quando há uma demanda, a companhia define as competências técnicas necessárias e busca internamente as pessoas com a capacitação adequada. Quando não encontra, vai buscá-las em uma rede externa de parceiros e colaboradores. Uma vez terminado o projeto, essas pessoas voltam para suas áreas, ajudando a disseminar os conhecimentos e as práticas de gestão que aprenderam.

E aqui chegamos a uma questão crucial. A disseminação de informações pode ser tão importante quanto os resultados dos projetos.

As redes internas formadas para testar uma ideia, com gente dos mais diversos departamentos e níveis hierárquicos, tendem a se manter ativas mesmo depois de encerrado o processo de desenvolvimento. É justamente como acontece com as redes de colaboração do universo maker fora da empresa. Por meio delas, aos poucos cria-se um ambiente fértil para o surgimento de

novas propostas, que podem gerar produtos ou processos mais eficientes. Descentralizar e compartilhar conhecimento é a regra.

A Fiat Chrysler não é a única no setor automobilístico a aproveitar a cultura maker. Há seis anos, a Renault montou em São José dos Pinhais, no Paraná, um laboratório maker e começou a fazer testes com impressoras 3D. Um dos projetos mais bem-sucedidos foi o de um novo bico para aplicação da cola que fixa os vidros nos carros. Hoje, conta Roberto Stucki, executivo da área de informática da Aliança Renault-Nissan para a América Latina, a empresa reduziu o custo de compra desses bicos de R$ 100 para R$ 25 por peça. Como cada robô da linha de montagem usa em média uma peça por turno, a economia se torna imensa. “Nossas impressoras 3D trabalham 24 horas, 7 dias por semana”, diz.

Não é difícil concluir que essa saudável simbiose entre o antigo e o novo, o escritório e o fab lab, o conservadorismo e a anarquia, enfim, abre grandes possibilidades. E caminhos para transformações profundas nas sociedades e na maneira como elas produzem riqueza, segundo Paulo Blikstein, professor de ciência da computação na Universidade Stanford, na Califórnia. “A discussão sobre a indústria do século 21 passa necessariamente pela cultura maker”, avalia. “Muitas pessoas se perguntam que cara essa indústria terá e o que vai sobrar para os países que não são a China, com sua produção em larga escala. Pois a cultura maker talvez seja a matriz dessa nova economia industrial.” Blikstein usa mais uma vez a indústria automobilística como exemplo. Hoje, as montadoras precisam manter em estoque peças de reposição para carros com 15 anos de fabricação. Sem saber se conseguirão vender todas elas. Em breve, uma impressora 3D produzirá essas peças sob demanda.

A impressão 3D, se não é o coração, é um dos pulmões do movimento maker. É ela que viabiliza a construção rápida de peças e protótipos feitos principalmente de resina plástica, mas também de outros materiais, em uma variedade quase ilimitada de formas, a um custo muito baixo. Com ela é possível materializar ideias concebidas em arquivos digitais do outro lado do mundo em poucas horas. Seu uso ainda é incipiente nos processos produtivos da indústria tradicional. Mas parece não haver teto para o seu potencial.

Olhemos para a GE para entender isso melhor. A gigante americana usa desde o ano passado impressoras 3D para produzir peças e ferramentas em sua unidade de manutenção de turbinas de avião em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Antes, a ferramenta mais complexa utilizada no serviço, feita sob medida, levava seis meses para ficar pronta. Era preciso fazer um molde, enviá-lo ao fornecedor, aguardar o protótipo, aprová-lo, esperar a construção e o embarque da ferramenta. Um semestre inteiro. Hoje, com tudo feito internamente em impressoras 3D, o prazo é de uma semana. Peças mais simples, que antes custavam sete dias para chegar, ficam prontas em 54 minutos.

Não há, contudo, movimento maker capaz de levar uma empresa a se reinventar se não houver mudanças culturais profundas. Não adianta enviar o pessoal da inovação a uma oficina maker e esperar que um grande resultado brote pela força da natureza. A empresa tem de mudar seu jeito de pensar para mudar o de trabalhar. “Se não houver alguém patrocinando lá em cima [o CEO], nada vai adiante”, diz Miguel Sacramento, professor de organização e modelos de gestão na Fundação Dom Cabral. Uma das máximas do movimento, a de compartilhar informações, por exemplo, parece ainda incompreendida. São raras as grandes empresas que topam falar sobre projetos em andamento. Mais raras ainda as dispostas a adotar postura tão aberta quanto a do bilionário americano Elon Musk, que liberou ao público todas as patentes dos carros elétricos projetados por sua empresa, a Tesla.

É claro que não é o caso de uma empresa preencher todos os seus cargos com funcionários makers. Pelo contrário. Paulo Lima, gerente da Isvor, a universidade corporativa da Fiat Chrysler, defende a ideia de que, para inovar, as companhias precisam de quatro tipos de pessoas: o explorador, que gosta de decifrar problemas e não se satisfaz com a primeira resposta; o hacker, ávido por mudanças radicais, por virar situações do avesso; o maker, habilidoso em informática, construção manual de protótipos, design e engenharia; e o networker, que consegue reunir gente para ajudar na resolução de um problema.

Há tempo para isso. Por enquanto, a revolução maker é uma revolução silenciosa. É possível que você até esteja usando um produto fruto dela e nem saiba. Mas, se quiser que sua empresa faça parte do futuro, por mais intranquilo que o caminho possa parecer, você precisará se render ao jeito de pensar e fazer desses caras.

 

5 PASSOS PA SUA EMPRESA TER UMA ATITUDE MAKER

1 – TESTE RAPIDAMENTE

Tirar a ideia da gaveta e prototipá-la, seja com caneta e papelão, seja com componentes eletrônicos e impressora 3D, é a única forma de começar. O protótipo dá pistas mais firmes sobre o caminho a seguir.

2 – ACEITE O FRACASSO

Não importa se a primeira versão deu errado. Aproveite que essas novas técnicas de produção digital são mais baratas e dê chance ao erro – ele é um caminho.

3 – ESTEJA ABERTO

Criou algo legal com a ajuda de um maker ou está implantando um novo jeito de trabalhar? Compartilhe com sua comunidade. Novas ideias de como você pode melhorar seu produto podem surgir de onde você menos espera.

4 – APROXIME-SE DOS MAKERS

Vá a um makerspace ou fab lab para ver como eles trabalham e pensam. Explore. Converse. Peça ajuda. Diga o que tem em mente.

5 – IDENTIFIQUE OS TALENTOS NA SUA EMPRESA

Reconheça os que gostam de experimentar e têm conhecimento em construção manual, informática, engenharia ou design. E não se esqueça de que você precisa também do explorador (o que explora cenários), do hacker (que promove mudanças radicais) e do networker (que reúne pessoas para resolver um problema).

 

CASES DE SUCESSO

O CELULAR COMO CHAVE DE CASA

O engenheiro de computação Pedro Salum, de 25 anos, criou com outros dois sócios uma fechadura que dispensa chaves. A abertura da porta é feita com o aparelho celular. Basta instalar um aplicativo e deslizar o dedo na tela. Se perder o celular, for roubado ou ficar sem bateria, o usuário pode baixar o aplicativo em outro aparelho e abrir a porta. Também pode autorizar remotamente outras pessoas, limitando a data e o horário de acesso. Inicialmente, conta Salum, o trio não deu muita bola para o invento. Mas mudou de ideia depois que o submeteu à avaliação de outras pessoas e foi aprovado com ele em um concurso de startups na Itália. “O retorno foi impressionante. Aí começamos a investir no produto”, diz. Entre os clientes da LoopKey, empresa que fundaram para comercializá-lo, estão proprietários de imóveis locados no Airbnb, coworkings e uma construtora.

INTELIGÊNCIA NA LINHA DE PRODUÇÃO

Listada entre os dez brasileiros abaixo dos 30 anos mais inovadores do Brasil, Anielle Guedes, de 25, tem ajudado empresas a entender e aplicar tecnologias emergentes em seus processos. Recentemente, ela orientou a instalação de uma impressora 3D na linha de produção de uma fabricante de produtos plásticos. Com a tecnologia, a companhia substituiu os tradicionais moldes de aço por moldes feitos na impressora. A cadeia produtiva, que antes envolvia terceiros, foi encurtada. “Quando puxa isso para ‘dentro de casa’ você tem mais autonomia”, diz Anielle. Reduziram-se, assim, o ciclo e o custo de produção e o tempo de lançamento do produto. A empreendedora é conhecida internacionalmente pelos seus planos de construir casas com técnicas de impressão 3D, um projeto ainda em curso.

UM DRONE QUE ENXERGA A FALHA

Dono de patentes que vão de luminárias a cadeiras, o arquiteto Luciano Araújo, fundador da Elio Tecnologia, criou um drone capaz de enxergar a intensidade de fotossíntese numa planta ou falhas no plantio. O invento ficou em terceiro lugar no programa MIT Global Entrepreneurship Bootcamp de 2014. A NovAmérica, que planta cana-de-açúcar para a Raízen, usa o drone de Araújo para detectar falhas no canavial causadas pelo “pisoteio” de equipamentos agrícolas. Com essa informação, a empresa define se precisa ou não replantar a cana na área afetada. Para atender esse cliente, o maker modificou mais de cinco vezes todo o projeto da aeronave, a fim de incluir sensores mais pesados e precisos e diferentes tipos de GPS. Na foto, ele está com um dos protótipos. “Agora vamos, com o drone, ver o quanto tem de biomassa em cada hectare”, diz Fabio Barbosa, presidente da NovAmérica.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 17 – 25

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A Traição de Judas é predita

Temos aqui um relato da celebração da Páscoa por Cristo. Vivendo sob a lei, Ele se submeteu a todas as ordenanças desta, dentre elas, a Páscoa. Ela era celebrada em memória da libertação e da saída de Israel do Egito, o dia do nascimento desse povo; era uma tradição dos judeus, que nos dias do Messias eles deveriam ser redimidos no mesmo dia de sua saída do Egito. Isto foi cumprido exatamente assim, porque Cristo morreu no dia da Páscoa, no dia em que eles começaram a sua marcha.

I – O momento em que Cristo comeu a Páscoa foi o momento usual designado por Deus, e observado pelos judeus (v. 17): “no primeiro dia da Festa dos Pães Asmos”, que, naquele ano, aconteceu no quinto dia da semana, que é a nossa quinta-feira. Alguns têm sugerido que o nosso Senhor Jesus celebrou a Páscoa nesse momento do dia, antes das outras pessoas. Mas o estudioso Dr. Whitby refutou grandemente essa opinião.

II – O local foi particularmente indicado aos discípulos pelo próprio Senhor; após a indagação deles (v. 17).

Eles perguntaram: “Onde queres que preparemos a comida da Páscoa?” Talvez Judas tenha sido um dos que fizeram esta pergunta (onde ele comeria a Páscoa), para que pudesse desenvolver a sequência de seu plano; mas os demais discípulos perguntaram, como sempre, para que pudessem cumprir o seu dever.

1. Eles tinham certeza de que o seu Mestre comeria a Páscoa, embora Ele estivesse, nesse momento, sendo perseguido pelos príncipes dos sacerdotes, que procuravam tirar a sua vida. Aqueles homens sabiam que o Senhor não deixaria de cumprir o seu dever, fosse por temores externos ou internos. Aqueles que não seguem o exemplo de Cristo, e dão uma desculpa para não comparecerem à ceia do Senhor, a nossa Páscoa do Evangelho, alegando que têm muitos problemas e muitos inimigos, estão cheios de cuidados e temores; e se assim for, fica claro que eles têm mais necessidade dessa ordenança, para ajudar a acalmar os seus temores, e ajudá-los a vencer as suas dificuldades, para ajudá-los a perdoar os seus inimigos, e lançar todos os seus cuidados sobre Deus.

2. Eles sabiam muito bem que a preparação para a Páscoa deveria ser feita, e que era incumbência deles, como seus servos, fazer essa preparação: “Onde queres que preparemos…?” Antes das ordenanças solenes, deve haver uma preparação solene.

3. Eles sabiam que o Mestre não tinha uma casa sua onde comer a Páscoa; nisto, como em outras coisas, ele se tornou pobre por nossa causa. Entre todos os palácios de Sião, não havia nenhum para o Rei de Sião; mas o seu reino não era deste mundo. Veja João 1.11.

4. Eles não iriam escolher um lugar ao acaso, sem uma instrução dele; por essa razão, receberam urna instrução do próprio Senhor. Ele os enviou a um certo homem (v.18), que provavelmente era um de seus amigos e seguidores, e para a casa deste, o Senhor convidou a si mesmo e aos seus discípulos.

(1)  Dizei-lhe: “O meu tempo está próximo”; o Senhor quer dizer o tempo de sua morte, que, em outras passagens, é chamado de sua hora (João 8.20; 13.1); o tempo, a hora, fixado no conselho de Deus, sobre o qual estava o seu coração, e do qual Ele tão frequentemente havia falado. Ele sabia quando viria a sua hora, e estava de acordo; não conhecemos o nosso tempo (Eclesiastes 9.12). Portanto, nunca deve faltar a nossa vigilância; o nosso tempo está sempre pronto (João 7.6). Portanto, devemos estar sempre prontos. Observe que devido ao fato de seu tempo estar próximo, Ele celebraria a Páscoa. Note que a consideração da proximidade da morte deve nos estimular a um desenvolvimento diligente de todas as nossas oportunidades para a nossa alma. O nosso tempo está próximo, e a eternidade está bem diante de nós? Celebremos então a festa com os pães asmos da sinceridade. Observe que quando o nosso Senhor Jesus convidou a si mesmo para a casa desse bom homem, Ele lhe enviou esta informação: que o seu tempo estava próximo. Note que o segredo de Cristo está com aqueles que o hospedam em seus corações. Compare João 14.21 com Apocalipse 3.20.

(2)  Dizei-lhe: “Em tua casa celebrarei a Páscoa com os meus discípulos”. Este foi um exemplo de sua autoridade como o Mestre, que provavelmente esse homem reconhecia. Ele não suplicou, mas ordenou, o uso de sua casa para esse propósito. Deste modo, quando Cristo, por seu Espírito, entra no coração, Ele exige admissão, como aquele a quem o próprio coração pertence e não pode ser negado. E o Senhor ganha a admissão como aquele que tem todo o poder no coração e não pode ser resistido. Se Ele disser: “Eu celebrarei uma festa neste coração”, Ele assim fará; porque Ele opera, e nada pode lhe impedir. O seu povo estará disposto, porque Ele faz com que esteja assim. “Celebrarei a Páscoa com os meus discípulos”. Note que onde quer que Jesus seja bem recebido, Ele espera que os seus discípulos também o sejam. Quando aceitamos a Deus como o nosso Deus, aceitamos o seu povo corno o nosso povo.

III – A preparação foi feita pelos discípulos (v. 19): “E os discípulos fizeram corno Jesus lhes ordenara”. Aqueles que têm a presença de Cristo consigo, na Páscoa do Evangelho, devem observar rigorosamente as suas instruções, e agir conforme o Senhor os instrui: “E prepararam a Páscoa”. Eles mataram o cordeiro no pátio do Templo, assaram-no, providenciaram as ervas amargas, o pão e o vinho, a toalha, e prepararam todas as coisas para essa festa sagrada e solene.

IV – Eles comeram a Páscoa de acordo com a lei (v. 20): “Assentou- se”, na posição habitual na mesa, não deitado de lado, porque não seria fácil comer, nem possível beber nesta posição, mas sentando-se ereto, embora talvez sentando-se em um plano mais baixo. A palavra utilizada aqui é a mesma palavra que é usada para a sua posição em outras refeições (cap. 9.10; Lucas 7.37; cap. 26.7). Muitos pensam que apenas a primeira Páscoa, no Egito, foi comida com seus lombos cingidos, com os sapatos nos pés, e o cajado na mão, embora tudo isso pudesse ocorrer com os participantes sentados. O fato de Ele se assentar denota a sua serenidade de espírito, quando falou nessa solenidade. ”Assentou-se com os doze”; Judas não foi excluído. Pela lei, eles deveriam levar um cordeiro por família (Êxodo 12.3,4), que não deveria ter menos de dez pessoas, nem mais de vinte. Os discípulos de Cristo eram a sua família. Note que aqueles a quem Deus proveu com famílias, devem ter as suas casas a serviço do Senhor.

V – Temos aqui o discurso de Cristo aos seus discípulos na ceia da Páscoa. O tema usual de discurso na ordenança era a libertação de Israel do Egito (Êxodo 12.26,27); mas a grande Páscoa então está pronta para ser oferecida, e o seu discurso “engole” o antigo (Jeremias 16.14,15). Aqui está:

1. O anúncio geral que Cristo faz aos seus discípulos do traidor que deveria estar entre eles (v. 21): “Um de vós me há de trair”. Observe que:

(1) Cristo sabia disso. Não sabemos que problemas recairão sobre nós, nem quando eles surgirão; mas Cristo sabia de todos os seus. Este fato prova a sua onisciência, e a grandeza do seu amor, pois Ele conhecia todas as coisas que deveriam lhe sobrevir; contudo, não recuou. Ele previu a traição e a maldade de um dos seus discípulos, e mesmo assim continuou; cuidou daqueles que lhe foram dados, embora soubesse que havia um Judas entre eles; pagou o preço da nossa redenção, embora tenha previsto que alguns negariam o Senhor que os comprou; e derramou o seu sangue, embora soubesse que seria pisado sob os pés como uma coisa profana.

(2) Quando houve oportunidade, Ele deixou que aqueles que estavam à sua volta o soubessem. Ele havia lhes falado com frequência que o Filho do Homem deveria ser traído. Então o Senhor lhes diz que um deles o trairia, e que quando vissem este fato ocorrer, não deveriam ficar surpresos, mas ter a sua fé nele confirmada (João 13.19; 14.29).

2. Os sentimentos dos discípulos nessa ocasião (v. 22). Como eles encararam isso?

(1) Eles se entristeceram muito.

[1] Eles ficaram extremamente perturbados ao ouvirem que o seu Mestre seria traído. Quando Pedro ouviu isso, ele disse: “Longe de ti”; portanto, isso foi uma grande perturbação a ele e aos demais, ouvir sobre esse evento que se aproximava.

[2] Eles ficaram mais perturbados pelo fato de ouvirem que um deles o faria. Seria uma reprovação à fraternidade um apóstolo mostrar-se um traidor, e isto os entristeceu. As almas misericordiosas se entristecem pelos pecados dos outros, especialmente daqueles que fizeram uma profissão de fé que supera aquilo que é comum (2 Coríntios 11.29).

[3] Eles ficaram perturbados, acima de tudo, por terem duvidado sobre qual deles seria, e cada um deles estava com medo de ser o traidor. Eles não queriam, como fala Hazael (2 Reis 8.13), ser o cão que faria esta grande coisa. Aqueles que conhecem a força e a sutileza do tentador, e a sua própria fraqueza e loucura, só podem sofrer por si mesmos, ao ouvirem que o amor de muitos esfriará.

(2) Cada um deles começou a dizer: “Porventura, sou eu, Senhor?”

[1] Eles não estavam em condições de suspeitar de Judas. Embora ele fosse um ladrão, parece que havia desempenhado a sua função tão plausivelmente, que aqueles que lhe eram íntimos não sentiam ciúmes dele; nenhum deles olhou com desconfiança para ele, muito menos disseram: “Porventura, é Judas, Senhor?” É possível que um hipócrita passe pelo mundo, não só despercebido, mas também sem levantar suspeitas; como o dinheiro que foi engenhosamente falsificado, e que ninguém questiona.

[2] Eles tinham condições de suspeitar de si mesmos: “Porventura, sou eu, Senhor?” Embora eles não estivessem cientes em si mesmos de qualquer inclinação nesse sentido (este pensamento nunca entrou em suas mentes), eles temiam o pior, e perguntaram àquele que nos conhece melhor do que nós mesmos: “Porventura, sou eu, Senhor?” Pode bem acontecer que os discípulos de Cristo sempre sintam ciúmes, um ciúme benigno, dos outros, especialmente nos tempos de tribulação. Não sabemos com que força podemos ser tentados, nem até onde Deus pode nos deixar ao nosso próprio encargo. Portanto, temos motivos não para sermos arrogantes, mas para temermos. Devemos observar que o nosso Senhor Jesus, pouco antes de instituir a Ceia, colocou os seus discípulos nesse teste e suspeita de si mesmos, para nos ensinar que devemos nos examinar e julgar a nós mesmos, e assim “comer deste pão, e beber deste cálice”.

3. Outras informações lhes foram dadas com relação a esse assunto (vv. 23,24), onde Cristo lhes diz:

(1) Que o traidor era um amigo conhecido: “o que mete comigo a mão no prato”, isto é, um daqueles que estavam com ele à mesa. O Senhor menciona isto para mostrar quão grande é o pecado de traição. Note que a mera comunhão externa com Cristo nas ordenanças sagradas é uma grande agravante da nossa falsidade para com Ele. E uma ingratidão desprezível meter com Cristo a mão no prato e, ainda as­ sim, traí-lo.

(2) Que isso estava de acordo com as Escrituras, que iriam revelar a sua ofensa. Cristo foi traído por um discípulo? Assim estava escrito (Salmos 41.9): ”Até o meu próprio amigo íntimo, em quem eu tanto confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o seu calcanhar”. Quanto mais virmos o cumprimento das Escrituras nos nossos problemas, mais poderemos suportá-los.

(3) Que isso geraria um negócio de muito valor para o traidor: ”Ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído”. Isto o Senhor disse, não só para despertar a consciência de Judas, e levá-lo ao arrependimento, e cancelar o seu trato, mas para advertir a todos os outros a tomarem cuidado para não pecarem como Judas. Embora Deus possa ser­ vir aos seus próprios propósitos através dos pecados dos homens, isto não torna a condição do pecador menos terrível: “Bom seria para esse homem se não houvera nascido”. Note que a destruição que recai sobre aqueles que traem a Cristo é tão grande, que seria mais vantajoso nunca ter existido do que ser infeliz dessa maneira.

4. A condenação de Judas (v. 25).

(1) Ele perguntou: “Porventura, sou eu, Rabi?”, para evitar ser suspeito de culpa por seu silêncio. Ele sabia muito bem que era ele, e ainda assim desejou parecer estranho a tal conspiração. Note que muitos cujas consciências os condenam são muito engenhosos ao se justificarem diante dos homens, e tentam mostrar uma boa aparência, através de expressões como esta: “Porventura, sou eu, Rabi?” Ele podia saber que Cristo sabia, e, mesmo assim, confiou muito em sua cortesia, porque até àquele momento havia escondido a trama; assim, Judas teve o atrevimento de desafiar o Senhor a dizer o que ocorreria. Ou talvez ele estivesse tão subjugado ao poder da infidelidade, que tenha imaginado que Cristo não soubesse da sua conspiração, como aqueles que diziam: “O Senhor não o verá” (Salmos 94.7), e perguntavam: “Ele pode julgar através das nuvens negras?”

(2) Cristo logo respondeu essa pergunta: “Tu o disseste”, isto é, é como tu dissestes. Isto não é dito tão claramente quanto a palavra de Natã: “Tu és o homem”; mas foi o suficiente para convencê-lo. E se o coração de Judas não estivesse miseravelmente endurecido, poderia ter desistido de sua conspiração quando viu o seu plano descoberto pelo seu Mestre. Note que aqueles que estão planejando trair a Cristo, irão, em um momento ou outro, trair a si mesmos, e as suas próprias línguas cairão sobre eles.