PSICOLOGIA ANALÍTICA

DE BEM COM O LUTO

Bloqueios psíquicos e depressões explicam-se, muitas vezes pelas perdas não vivenciadas. Deixar fluir a tristeza é permitir-se um processo saudável de elaboração dos fatos.            

De bem com o luto

                                                                                          

A vida é uma sucessão de batalhas. Em algumas obtemos sucesso. Já em outras ocasiões, a perda é inevitável. Perder faz parte da nossa rotina. O problema é lidar com isso. Como aceitar a falta de um ente querido, de uma condição financeira anterior ou da cidade na qual crescemos? Infelizmente, não foi descoberta uma fórmula mágica para a felicidade eterna. Não há truques ou ensinamentos capazes de nos prevenir contra o sofrimento. A única opção válida e eficiente é superar a dor, aceitar perder e seguir em frente. É um processo longo e pungente… inevitável. Viver, dar-se conta do que se perdeu e, apesar de tudo, sobreviver.

Por mais difícil que aparente ser, esse processo é de extrema importância à continuidade da vida. Bloquear a dor, “esconder o problema embaixo do tapete” ou camuflar esses sentimentos pode parecer válido enquanto sofremos. Mas o perigo está justamente aí. Ao não elaborar a perda no momento em que ela acontece, estamos apenas adiando a dor. Ao fingir que não existe o problema, nos prendemos à falta, e ficamos com o sofrimento para sempre.

Em meio a cantas perdas diárias, as pessoas tendem a entrar em processo de luto. “No senso comum, utilizamos a expressão em relação à perda de um ente querido. No entanto, em termos psicológicos, o luto vai muito além da morte física, embora evidentemente, também a inclua” esclarece a psicóloga e Doutora em Psicologia, pela Universidade de São Paulo (USP), Lilian Graziano.

Professora universitária e diretora do Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, Lilian explica que o luto é um processo de tristeza que ocorre em resposta a uma perda significativa, seja ela no âmbito emocional, financeiro ou físico. Considerando que as perdas são rotineiras em nossas vidas, o processo de luto é intrínseco ao desenvolvimento psíquico saudável, pois com ele enfrentamos a perda e, consequentemente, evoluímos emocionalmente.

Mas nem todos conseguem enxergar a perda com olhos positivos. Há aqueles que não se permitem sofrer, “o que invariavelmente acaba lhes gerando problemas emocionais, dentre os quais a depressão” completa a psicóloga ressaltando que o erro está em acreditar que ao evitar a dor tudo será mais fácil. ”Ao fugir do sofrimento gerado pela perda, a pessoa acaba sofrendo muito mais e, o pior, por muito mais tempo.”

 Mas como realmente enxergar a importância da elaboração do luto? Um exemplo pode ajudar. Lilian conta que teve um paciente que aos nove anos perdeu seu pai, vítima de uma doença grave que praticamente mutilou seu corpo, uma vez que gradativamente vários de seus membros foram amputados. Um dia após o falecimento do pai, sua mãe, com a intenção de poupar o sofrimento do filho, perguntou se o garoto preferia ter o pai vivo, mas sofrendo em um leito de hospital, ou longe, porém descansando.

Sem muito entender o porquê da pergunta, o garoto optou pela segunda opção, pois não queria o sofrimento do pai. A mãe então disse que ele não deveria chorar, pois seu pai estava “descansando”. E a criança ouviu a mãe e não chorou a morte do pai. Os anos passaram, o menino cresceu, se casou e formou sua própria família. Um dia sua esposa quis saber o motivo da morte do sogro. Sem obter resposta do marido, foi verificar com a sogra.

Por intermédio da esposa, o garoto, agora já um homem, ficou sabendo a real história sobre a morte do seu pai. Todos os sentimentos de perda e culpa vieram à tona. “Esse paciente foi elaborar o luto da perda do pai na terapia, já com quarenta anos de idade” comenta a psicóloga. Passaram décadas até ele conseguir viver a perda do pai, chorar a morte. “Uma curiosidade é que o paciente foi procurar auxílio com a mesma idade que o pai veio a falecer”. Guardar este luto atrapalhou o serviço de paternidade do paciente, que devido ao conteúdo emocional mal elaborado, não conseguia ter um relacionamento mais íntimo com seu próprio filho.

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SAÍDA PARA A DOR

Uma alternativa para elaborar o luto é vivenciar não apenas a tristeza, mas também demais sentimentos que possam estar presentes na perda, entre eles a culpa, o arrependimento, a saudade, o remorso etc. “Costumo dizer a meus pacientes que em certos momentos da vida precisamos chegar ao fundo do poço, porque é apenas no fundo dele que conseguiremos apoiar as mãos para nos impulsionarmos em direção à saída”, afirma Lilian. A elaboração do luto é mais complexa do que aparenta ser. A fim de explicar este processo o psicólogo Luís Antônio Pereira cita a psiquiatra norte americana Elisabeth Kubler­ Ross, a qual afirma que existem sete estágios de agonia do luto. “O primeiro é o choque da notícia; o segundo é o estágio da negação; o terceiro é a revolta ou raiva pelo que aconteceu; o quarto é o estágio da tristeza ou depressão; o quinto é o estágio dos regateios/barganhas; o sexto é a aceitação e, por último, vem a reorganização/adaptação/esperança” completando que nem todos os enlutados passam por todos os estágios.

Devido à particularidade de cada ser humano, há diferentes formas de se lidar com a perda. Alguns gostam de falar com amigos sobre o sofrimento, outros procuram consolo em remédios e bebidas, há ainda os que preenchem qualquer espaço de tempo com atividades distintas a fim de não pensar no que perderam, ou substituem o que foi perdido por algo novo.

Em contrapartida, há pessoas que não tem necessidade de falar sobre o ocorrido, mas nem por isso deixam de lidar com os sentimentos, comportamento descrito por Jung como o tipo introvertido. Conforme explica o psicólogo clínico e professor de Psicologia da Universidade Católica de Santos, também Mestre em Educação pela mesma universidade, Luiz Antônio Cancello, este comportamento não é totalmente compreendido nos tempos atuais. “O problema é que essa configuração de personalidade parece não ter lugar na sociedade atual, onde precisamos ser alegres, agressivos e comunicativos”.

Hoje, a sociedade impõe um ritmo brutal de vida. Não se pode parar por um segundo. “Vivemos na era do ‘Prozac’ (antidepressivo). Temos a obrigação de estar sempre felizes”, ironiza Cancello enfatizando que não há tempo para ficar de luto. “Se você ficar dois dias em casa, já aparecem vinte pessoas te ligando querendo te chamar pra sair, pra se distrair”.

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APRENDENDO COM A MORTE

Basta estar vivo para morrer. A morte é a única certeza da vida. Viver é, enfim, morrer. Eis algumas das muitas frases prontas que utilizamos para se conformar com a ideia de que, um dia, tudo chegará ao fim. As pessoas não mais serão. “Eu não mais serei este corpo”. Mesmo assim, com toda a certeza de que a morte existe para todos, as pessoas a temem e tentam burlar esta etapa final da evolução humana.

A morte é vista na sociedade contemporânea como a maior perda emocional a ser enfrentada. A vilã, aquela que arranca de nós toda possibilidade de vida. Impulsionadas pelo pavor de chegar ao término de tudo, as pessoas buscam por caminhos rumo à eternidade. Todos querem viver para sempre, ou ao menos, se prender a ideia de que não morrer é algo viável.

O avanço tecnológico que presenciamos confirma a cultura de negação à morte. Até 1950, a média de vida não passava de 50 anos.

Hoje em alguns países, principalmente as mulheres, chegam a 80 anos de vida. “Os cientistas negam, mas a ciência no imaginário popular tem nos fornecido uma certa aproximação à ideia de imortalidade”, afirma Cancello. Esta falsa noção de que poderemos viver eternamente dificulta a aceitação da morte e elaboração do luto quando alguém próximo vem a falecer.

“Podemos falar que a morte tem uma vantagem evolutiva para os evolucionistas, que faz parte da existência dentro do existencialismo, e podemos citar a elaboração do luto dentro da Psicanálise. Você pode falar em que linha for. Mas acho que todos vão concordar que o fim faz parte da vida, e que hoje a gente recusa a tristeza,” pontua o psicólogo existencialista.

Também em relação à morte, Lilian Graziano afirma que “embora todos estejamos sujeitos à morte e saibamos disso num nível racional, são muitos os que conduzem suas vidas sem trazer essa verdade para o nível emocional”. Um dos motivos é que a morre é encarada como sinônimo de dor, e sofrer é uma heresia dentro da cultura ocidental, que supervaloriza o prazer a qualquer custo. “A consequência disso é que ‘deixamos esse assunto pra lá’ e vamos ‘tocando nossa vidinha’ da mesma forma medíocre de sempre” completa.

Ao negar a morte, começamos a agir como se fôssemos eternos, e deixamos de aproveitar chances únicas nos enganando de que, devido à imortalidade, teremos novas oportunidades para alcançar nossas metas. Esquecemos que a vida é única e imprevista, e que cada segundo é de extrema importância para nossa história. Lilian faz um alerta referente à negação da morte. “Preste a atenção na próxima vez, que disser: ‘Serei feliz quando ganhar na mega sena’, ‘Serei mais dedicado à família quando me aposentar’. Afirmações como estas partem do pressuposto de que o futuro nos pertence. É assim que nossa vida, no presente, se torna medíocre”.

A perda em si é o sofrimento, mas a negação é um complicador e pode aflorar um luto mal elaborado. Perder alguém, seja a razão morte, separação conjugal ou qualquer outro motivo, é um acontecimento triste, mas dependendo do relacionamento entre os envolvidos, esse processo pode vir a ser tranquilo ou não. Ao perder um parente que se tem certeza de que o relacionamento foi bom, a pessoa que sofre a perda naturalmente entristece, mas acaba aceitando o fato e passando por cima do luto.

Por outro lado, quando a convivência com o outro não é harmônica, quando uma das partes acredita que poderia ter feito muito além do que fez, a aceitação da perda é conturbada, pois envolve o sentimento de culpa por não ter aproveitado tanto quanto poderia ao lado daquele alguém. “A pessoa cria um diálogo interior interminável e, em certos casos, procura por apoio psicológico na tentativa de calar este diálogo” esclarece Cancello. “Nessa situação, talvez valesse mesmo uma intervenção psicoterápica” completa o psicólogo. Após o tratamento, o paciente pode reconhecer que, na realidade, poderia ter feito poucas coisas além do que havia sido feito.

Em caso de doentes terminais, que são obrigados a viver na iminência da morte, o processo de luto tende a ser complicado. Quando a pessoa sabe que vai morrer e fica revoltada com a situação, a morte é mal resolvida e a passagem muito mais sofrida. Já quando o paciente sabe que vai morrer e passa a aproveitar cada segundo de vida, a morte é multo mais tranquila e fácil de ser aceita. Tendo a consciência de que cada instante deve ser bem aproveitado, a vida ganha uma nova importância. Para a psicóloga Lilian, “ao viver bem a vida, perder algo é mais fácil, pois sabemos que cada momento foi muito bem aproveitado. Isso significa viver o presente sem pensar no que vai ser ou no que já foi“.

Enquanto para uns a morte significa o fim de tudo, o sofrimento maior, para outros ela pode ser um alívio.  “Isso costuma acontecer com a pessoa que tem muito trabalho ao cuidar de um, idoso ou doente desenganado”, exemplifica Cancello. Quando a pessoa que cuida tem claro que a morte trará a paz para o doente, o processo de aceitação é muito mais fácil. No entanto, conforme explica o psicólogo, “certas personalidades exigem de si uma ‘coerência’ sobre-humana, não suportando a coexistência desses dois sentimentos (alívio e tristeza), sentindo-se culpadas”.

Mesmo com toda a complexidade da questão dos cuidadores, cada vez mais eles são necessários, face ao aumento da média de vida. Já aparece, na literatura científica, o termo “stress dos cuidadores”. “E não podemos esquecer que alguns dos primeiros casos de histeria relatados por Freud referiam-se a mulheres que cuidaram por longo tempo de pessoas doentes. Possivelmente essa era, na época, a manifestação do que hoje chamamos de estressados cuidadores”.

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TIPOS DE PERDA

Quando falamos de luto ou perdas, o primeiro pensamento que nos vem à mente é em relação à morte. Mas o processo de luto vai muito além disso, como já dito na reportagem. Lidamos diariamente com perdas, em diferentes escalas e magnitudes. Perder o emprego, um carro, uma oportunidade de mudança. Tudo isso pode desencadear o luto e levar a pessoa a um grande stress emocional.

Luiz Cancello enumera que entre os principais fatores causadores de stress emocional, em primeiro vem a perda de um ente querido, seguida da separação conjugal. “No processo de separação sentimos a perda de um ambiente familiar e não necessariamente do parceiro”. Em ambos os casos, a dificuldade em lidar com a falta é porque aquela pessoa estava inserida em um projeto de vida, e com a perda, torna-se necessário reconstituir os planos. “Temos que resignificar nossas vidas por completo, sem aquela presença. Este processo que torna a perda tão difícil e intragável”, concluiu o psicólogo.

A perda da referência cultural também pode gerar o luto. Cada vez mais pessoas migram de suas cidades natal para ganhar a vida nas metrópoles. A mudança pode acarretar na perda da referência cultural daquele lugar e com isso, a pessoa passa a se sentir isolada, não pertencente à nova realidade. “O processo de mudança requer uma série de readaptações que lavem um tempo grande da maturação para você se situar em um novo lugar, com novas pessoas”, justifica Cancello.

Há também uma série de pequenas perdas que muitas vezes passam despercebidas em meio à agitada rotina. ”Ao nos levantarmos, toda manhã, acabamos de contabilizar um dia a menos na nossa existência. Deixamos pra trás o dia de ontem que morreu e que se perdeu de nós; não há como acessá-lo, senão através de lembranças”, ressalta Lilian Graziano.

Perdemos ainda com cada escolha que fazemos. Para comprar um carro tive que abrir mão da tão sonhada viagem. Se somarmos, ao longo do dia vivenciamos inúmeras perdas. Conforme destaca a psicóloga: “É claro que nem rodas elas geram um processo de luto clássico, mas nem por isso deixam de nos angustiar, ainda que não tenhamos consciência disso”.

Além da perda de algo concreto, que veio a existir, o ser humano também sofre com a falta do fantasioso. ”Afinal, nós não nos emocionamos em função da chamada realidade objetiva, mas sim em função da nossa percepção acerca dessa realidade”, esclarece Lilian. Levando em consideração que há uma tendência em sofrer com uma perda de algo que nunca foi nosso, Cancello complementa que “na Fenomenologia, você é aquilo que você foi e aquilo que você não foi. O teu hoje é resultado do que foi feito ontem e também daquilo que você não fez”.

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O RENASCER

Para Lilian Graziano todas as perdas são necessárias pois trazem em si a possibilidade de que venhamos a aprender com elas. “Se o sofrimento faz parte da vida, fugir dele seria o mesmo que fugir da própria vida, fato que boa parte das pessoas não se dá conca” completa.

Jonathas Martins Cardamone é um exemplo de superação da perda. Em 2001, ao retornar do seu horário de almoço sofreu um acidente de trânsito. Ele estava voltando da casa de sua sogra localizada no Morro do São Bento, em Santos. Na descida do morro, em uma curva, um ‘carro guiado por um motorista embriagado atingiu sua moto ocasionando o acidente.

“No hospital, ap6s o exame radiológico, fui direto para a cirurgia. Como tinha acabado de almoçar, o médico anestesista não pode me ‘dopar’, ou seja, fiquei acordado todo o tempo. Cheguei a escutar o barulho deles cortando minha perna. Quando saí da recuperação, fiquei procurando o resto da minha perna, e numa tentativa frustrada de me enganar, queria acreditar que não a sentia devido ao efeito dos remédios” relata.

Não aceitando à perda, Jonathas chorou por dois dias seguidos, pois sua esposa estava grávida de quatro meses e ele sentia-se na obrigação de trabalhar para sustentar a família. Durante a recuperação, ele sentiu medo do que iria enfrentar, “mas minha meta era me recuperar pois tinha um bebê para criar”. Em 2003, Jonathas começou a usar a prótese e após um ano já estava caminhando perfeitamente.

Atualmente, ele exerce a função de Auxiliar Administrativo na unidade de Cubatão da Petrobrás, contratado pela empresa AVAPE – Associação para Valorização e Promoção de Excepcionais. Com o emprego, descobriu também sua aptidão para tirar fotos. ”Às vezes agradeço a Deus por ter perdido a perna, pois como não tive condições de fazer uma faculdade, dificilmente teria a chance que tenho dentro da empresa”, enfatiza Jonathas.

São relatos como esse que nos mostram que superar desafios é necessário. Jonathan teve que perder parte de sua perna para “ganhar” uma nova vida. Mas nem todos têm que passar por isso.  O importante é reconhecer que a vida é feita de perdas. Em certos momentos é normal sentir medo de seguir em freme. Em outras ocasiões, a perda trará alívio imediato. A certeza é que apesar da grandeza da perda, aceitar é essencial e, às vezes, inevitável.

Por mais que o luto possa parecer um processo infindável, somos seres capazes de passar por cima, de enfrentar e aceitar a falta do que não mais nos pertence. “É por isso que a saída não está em evitar o sofrimento, mas sim em fortalecer nossos recursos emocionais para enfrenta­ lo”, completa Lilian. Viver é uma dádiva. Que sejamos, então, dignos deste presente.

 O PAPEL DA FÉ

Em busca de auxílio para a aceitação da perda, há quem recorra à religião para conseguir se sustentar e seguir a diante. “A religião é um recurso absolutamente legítimo. Se você se sente bem, certamente fará bem”, comenta Cancello. Acontece que, com frequência, apesar de buscar a ajuda da fé, a pessoa não se sente pertencente a uma religião. E justamente esta pertinência ao grupo é que fornece explicações e consolo. O apoio do grupo ajuda a driblar as perdas, afirma.

Nada mais atual do que o antigo Orkut para oferecer uma percepção disso. Nele, você classificava sua personalidade e crenças. Muitos de seus usuários escolhiam a opção “Espiritual, mas não religioso” para denominar a fé. De acordo com o psicólogo esse fato mostra que a pessoa tem a vaga sensação da existência de um algo a mais, no entanto, não se filia a nenhuma religião. “Não se perde a noção da transcendência, mas ao mesmo tempo tem um número significativo de pessoas que não se filiam a nenhuma crença.

Os que se enquadram neste perfil lidam com o fato bruto em caso de perda, com aquela sensação de que existe algum lugar, sem saber ao certo se é o céu ou não. A única certeza é que após a morte não estamos mais aqui. Para Cancello “vivemos em uma época muito singular desta questão, pois estamos entre algo materialista e tradicionalmente religioso. Você fica num limbo entre essa as coisas.

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OUTROS OLHARES

SOB O PESO DA OBESIDADE

Regulação do comportamento alimentar nem sempre funciona como gostaríamos; dietas equivocadas podem nos fazer engordar.

Sob o peso da obesidade

Quem já não se sentiu frustrado diante do espelho? Normalmente, quando o verão se aproxima, observamos nossos pontos fracos com espírito especialmente crítico. Concluímos que a única solução é emagrecer. Os doces banidos e os manuais passam a orientar nossa lista de compras.  Convém saber, entretanto, que o emagrecimento eficaz é estatisticamente raro, porque a psicologia do comportamento alimentar é cheia de surpresas.

Que significam noções como “excesso de peso” e “obesidade? No ser humano, os valores normais de peso mantêm estreita relação com a altura. Essa relação é estabelecida pelo índice de massa corporal (IMC), que divide o peso em quilogramas pelo quadrado da estatura em metros. Os valores do peso considerados ideais correspondem ao IMC associado a uma menor taxa de mortalidade. Segundo os critérios propostos pela organização Mundial da Saúde (OMS), o peso normal situa-se entre 18,5 kg/m2 e 25 kg/m2. Os valores situados entre 2S kg/m2 e 30 kg/m2 indicam excesso de peso, os superiores a 30 kg/m2 mostram obesidade.

O excesso de peso ou a obesidade não são saudáveis e reduzem a expectativa de vida.  As doenças cardiovasculares, o diabetes e o derrame atingem de forma mais acentuada este grupo. Por outro lado, peso abaixo do ideal está associado a mortalidade mais elevada que a média.  Além disso, em idosos, o IMC correspondente à mortalidade mínima comporta valores superiores em duas ou três unidades.

Não está claro se o risco adicional atribuído à obesidade tem relação direta com o peso elevado e não com outros fatores relacionados. Os obesos se movem em média, menos que pessoas com peso normal e sabemos que longas caminhadas cotidianas aumentam a expectativa de vida. Presume-se ainda que o padrão de dietas reiteradas, curtas e drásticas, habitual entre obesos contribua para a mortalidade elevada, o mesmo pode ser afirmado da instabilidade de pessoas associada ao uso de medicamentos.

Além das consequências para a saúde, a obesidade tem efeitos sociais, sobretudo para mulheres. Estudos realizados nos Estados Unidos mostram que mulheres com excesso de peso têm mais dificuldades para casar-se. Homens e mulheres com IMC elevados sofrem mais para encontrar emprego e, quando o fazem, ganham menos que colegas de peso normal.

Dadas as consequências negativas do excesso de peso e da obesidade, é compreensível a generalização do desejo de emagrecer. Uma pesquisa realizada em 2011 nos Estados Unidos revelou que 33% das mulheres e 20% dos homens estavam naquele momento tentando emagrecer. As reduções esperadas eram, em média, de 10 kg nas pessoas com um leve excesso de peso e de 30 kg nas obesas, mas os resultados efetivamente obtidos eram, respectivamente, de 5,6 kg e 8,2 kg, bem inferiores às expectativas.

As tentativas de dieta duram, em média, de cinco a seis meses. Com a ajuda de um profissional, no âmbito de uma terapia comportamental, por exemplo, o êxito aumenta um pouco. Pesquisa realizada entre 2005 e 2009 mostrou que os participantes de um programa desse tipo emagrecem em média 8,5 kg em um prazo médio de cinco meses. É preciso considerar que são supostamente os casos mais desesperados que recorrem aos programas dietéticos supervisionados por um profissional.

Embora uma dieta para emagrecer possa atingir seu objetivo, a perda de peso obtida raramente é suficiente para os obesos chegarem a um peso normal. Além disso, é raro conseguir manter a perda de forma duradoura. Participantes de programas controlados por profissionais ganharam, em média, mais de 3 kg um ano após o término da terapia.

 EFEITO SANFONA

Quando consideramos períodos mais longos, os resultados das dietas são ainda piores. Os participantes de um determinado programa terapêutico que no início haviam perdido entre 8 % e 12 % de peso estavam, quatro anos depois, somente 4% abaixo do peso original.

Naturalmente, há casos em que as pessoas atingem o peso normal e conseguem mantê-lo, mas são raros. Avalia-se que entre 90 % e 95 % dos participantes de programas de dieta retornam, depois de cinco anos, ao peso original, para logo aumentá-lo. Essa dura realidade foi admitida até mesmo pelos defensores das dietas.

As opiniões relativas às dietas mudaram também em outros aspectos. Atualmente, os nutricionistas não só admitem a ineficácia habitual das dietas, mas começam a considerar seus riscos e efeitos colaterais, como a obsessão pelo peso e pela imagem ideal, um dos principais fatores de risco para o surgimento de transtornos de comportamento alimentar entre os adolescentes.

A descoberta, nos anos 90, do hormônio anti obesidade – a leptina – gerou grandes esperanças de encontrar as causas genéticas do excesso de peso. A leptina é produzida e liberada pelas células adiposas. Quanto maior o conteúdo lipídico das células, maior será sua produção de leptina. Este hormônio, atuando sobre sensores cerebrais, regula a ingestão de comida e o armazenamento dos lipídios. Animais que apresentam uma mutação do gene correspondente não podem secretar a leptina e se tornam extremamente obesos. Seria razoável pensar que as pessoas obesas não produzem suficiente leptina, mas observou- se o fenômeno oposto: os obesos têm um nível de leptina elevado em relação ao peso do corpo. Pesquisadores suspeitam que a sensibilidade dos receptores da leptina nos obesos seja menor.

A dificuldade que obesos experimentam para atingir e manter um peso normal não prova que a obesidade seja hereditária. Mas é inquestionável que os fatores genéticos exercem influência considerável na obesidade. Estudos sobre a genética do comportamento, porém, demostram que o IMC é herdado conforme uma proporção que varia entre 15% e 40%.

Há, portanto, ampla margem de liberdade para o comportamento individual. Outro indício que corrobora essa tese é fornecido pela observação de que a obesidade só aumentou drasticamente nos últimos decênios. Ora, é improvável que um gene da obesidade tenha se propagado com essa velocidade entre a população.

Assim, felizmente, a maioria das pessoas pode decidir quanto quer exceder em sua alimentação. O que de fato limita as tentativas de emagrecimento são o excesso de gorduras na alimentação e a falta de atividade física.

Porque as pessoas comem mais do que pretendem, mesmo quando querem emagrecer? Há décadas essa pergunta ocupa os psicólogos. As tentativas de resposta partem da hipótese de que há uma diferença na regulação do comportamento alimentar entre as pessoas obesas e as de peso normal. O que leva alguém a começar a comer? O que determina a quantidade de comida que ingerimos? Quando damos uma refeição por concluída?  As respostas parecem simples: comemos quando temos fome e paramos de comer quando estamos saciados. Isto pode ser verdade para pessoas normais. No caso dos obesos, porém, esses sinais do organismo parecem desempenhar um papel menor na regulação do comportamento alimentar.

POR PRAZER

Em 1968, Stanley Schachter, psicólogo social da Universidade Colúmbia, em Nova York, formulou sua teoria da externalidade do comportamento alimentar. Segundo Schachter, os obesos simplesmente não discernem muito bem se estão com fome ou saciados. A sua ingestão de alimentos dependeria muito mais de estímulos externos, a hora do dia, os aromas exalados pela comida ou a apresentação dos pratos expostos. O obeso típico seria alguém que continua a comer por prazer, ainda que esteja saciado.

Schachter verificou sua teoria com estudos originais, aproveitando situações cotidianas. Observou, por exemplo, que os judeus obesos tinham menos dificuldade de respeitar o jejum no dia de Yom Kippur quando permaneciam mais tempo na sinagoga, isto é, longe dos estímulos culinários. Nos de pessoa normal, ao contrário, não constatou nenhuma relação significativa entre a duração da permanência na sinagoga e a dificuldade de respeitar o jejum. Em outro estudo, um psicólogo descobriu que os pilotos de avião obesos tinham, após um voo entre Europa e Estados Unidos, menos dificuldade para se adaptar aos horários locais de refeição que os seus colegas de peso normal. Neste caso, portanto, a regulação externa do comportamento alimentar era uma vantagem.

Após o entusiasmo inicial surgiram as críticas: as correlações descritas eram frequentemente fracas e nem sempre os resultados das pesquisas podiam ser reproduzidos. Além disso, a teoria não explicava as diferenças na regulação do comportamento alimentar. Peter Herman, da Universidade de Toronto, Canadá, tentou enfrentar essas críticas propondo a hipótese da “contenção”. Argumentou que quando obesos jejuam para reduzir o peso, reprimem a ingestão de comida; ora, este seria o fator que os tornariam especialmente suscetíveis aos estímulos ligados à alimentação.

Herman elaborou um questionário para medir a contenção alimentar, cujos valores apresentaram uma correlação com o IMC. Em uma amostra formada por estudantes, 85% dos obesos entraram na categoria dos comedores reprimidos; apenas 15% eram comedores normais. Posteriormente, Herman, em colaboração com Janet Polivy, ampliou sua teoria em um modelo limite do comportamento humano. Segundo essa hipótese, os comedores reprimidos fixam uma dieta-limite para controlar a ingestão de alimentos na tentativa de modificar, com regras auto- impostas, a quantidade de alimentos e bebidas que ingerem.

A orientação consciente do comportamento alimentar exige concentração e atenção e é, por isto, mais dispendiosa que a regulação automática. Um comedor reprimido consegue manter a dieta quando está concentrado e motivado, mas dois fatores podem alterar o controle consciente do comportamento alimentar. O primeiro é representado por qualquer distração que impeça a pessoa reprimida de controlar voluntariamente a ingestão de comida, um aborrecimento, por exemplo, pode bastar para que deixe de atentar para o que e quanto come. O segundo ocorre quando o comedor reprimido percebe que ultrapassou o limite de sua dieta e então renuncia totalmente ao controle sobre seu comportamento alimentar comendo, até alcançar o nível mais alto de sua zona de indiferença.

Essa suposição foi testada pela primeira vez em um experimento que Peter Herman publicou em 1985, junto com Deborah Mack, e cujos resultados foram confirmados por várias pesquisas realizadas posteriormente. Ofereceu-se a alguns dos participantes, todos comedidos, uma bebida bastante calórica, cujo consumo implicava clara transgressão de seus limites dietéticos. No experimento seguinte, as pessoas deviam avaliar o sabor de diversos tipos de sorvete.

Os pesquisadores não estariam interessados nas avaliações, mas na quantidade de sorvete ingerido. Os comedores normais, após terem ingerido bebida rica em calorias, tomavam menos sorvete que quando não haviam bebido. A reação dos reprimidos foi diferente. Após a ingestão da bebida calórica, comeram mais gelado que com o estômago vazio. Por quê? Porque sua dieta, após a ingestão da bebida, estava arruinada e, assim, continuaram a comer até atingir o limite máximo da saciedade.

AUTO-REPRESSÃO

Um dos pontos fracos do modelo proposto é sua limitada capacidade explicativa. Embora comprove algumas consequências da ingestão reprimida de comida, não justifica por que a pessoa adota este padrão de conduta. Em segundo lugar, há uma discrepância entre o conceito de auto repressão alimentar que baseia a teoria e o que se emprega efetivamente ao medir a ingestão reprimida de comida. Ainda que, segundo a teoria, a pessoa que reprime a alimentação esteja tentando seguir nesse momento uma dieta, o questionário para a avaliação da contenção alimentar mede uma atitude mais duradoura

Os comedores reprimidos crônicos seriam pessoas que têm em geral a intenção de emagrecer (ou pelo menos não engordar), mas não estão naquele momento necessariamente tentando emagrecer e, assim, nem sempre se impõem regras dietéticas estritas.

Um terceiro ponto débil da teoria é que ela não leva suficientemente em conta a motivação do prazer. Se fosse perguntado por que transgrediram sua dieta, os comedores reprimidos talvez não respondessem que não souberam respeitar as regras que eles mesmos se impuseram. É mais provável que respondessem que comeram em demasia por prazer.

Para eliminar esses pontos fracos, propus, junto com meus colaboradores, um modelo de objetivos conflitantes do comportamento alimentar. Segundo nossa teoria, um problema fundamental dos obesos é que gostam de comer bem. Em um estudo clínico, pacientes obesos e de peso normal foram alimentados com uma dieta consistente em um caldo insípido.

O consumo calórico dos pacientes obesos diminuiu em torno de um quarto da quantidade necessária para manter seu peso. Nos de peso normal, pelo contrário, não foram observadas diferenças

Até que ponto o gosto pela boa mesa constitui um problema pode depender em muito das preferências de cada um. Pessoas que gostam de peixe e de salada dificilmente terão problemas de peso. Diferente é a situação dos que gostam de hambúrguer, embutidos e outros alimentos ricos em gordura. A maioria dos obesos pertence a este último grupo e, por isso, ingerem mais gordura.

Evidentemente, esses hábitos alimentares aumentam o risco de engordar. A insatisfação com o peso costuma motivar o início de uma dieta, que resultará satisfatória, pelo menos a curto prazo. Mas como esses indivíduos tendem a recuperar o peso em breve, iniciam uma nova dieta. Depois de alguns ciclos, tornam-se comedores reprimidos. Seu comportamento alimentar caracteriza-se assim por um conflito entre objetivos opostos: querem desfrutar a comida, mas, ao mesmo, controlar o peso.

Diante de uma situação de conflito entre objetivos, o comportamento dependerá sempre da motivação predominante no momento. Assim, para que um comedor reprimido mantenha uma dieta baixa em calorias, a motivação para controlar o comportamento alimentar deve ser mais intensa que a motivação do prazer. Isso só ocorre quando estão realmente motivados e empenhados em seguir a dieta.

Infelizmente, o desenvolvimento de uma refeição é estruturado de tal forma que, no início, dominam os estímulos que despertam motivações prazerosas. Temos apetite e a comida exala aromas sedutores. No restaurante, a leitura do menu estimula o apetite e, em um piscar de olhos, o prato está sobre a mesa. Somente quando o prato está vazio ou quando sentimos o cinto apertar é que surge a motivação do controle. Recordamos então, com sentimento de culpa, as boas intenções de seguir rigidamente a dieta nessa noite. Mas, já que a dieta foi deixada de lado, podemos concluir a refeição com uma boa sobremesa.

Nesse jogo de alternâncias se misturam fatores cognitivos. É preciso mais atenção para conseguir controlar o peso que para desfrutar a comida. Qualquer distração durante a refeição reduzirá nossa capacidade de controlar as calorias que ingerimos. O hedonismo ganha a partida.

Outro problema aflige os comedores reprimidos. A menos que estejam passando fome neste momento preciso, a motivação que os induz a controlar as calorias provocarão efeito contrário. O leitor, certamente, conhece o fenômeno: quando queremos afastar da mente uma ideia incômoda, esta retorna com mais intensidade. Algo parecido ocorre quando revelamos, na primeira ocasião que surge, algo que queríamos manter em segredo. Assim, supomos que, na ausência de controle cognitivo, a motivação crônica para emagrecer pode ter a consequência paradoxal de favorecer uma maior ingestão de alimentos. Em outras palavras: os comedores reprimidos comem mais justamente porque querem comer menos!

RECURSOS COGNITIVOS

Essa suposição paradoxal baseia-se na “teoria dos processos paradoxais, publicada em 1994 por Daniel Wegner, hoje da Universidade Harvard. Alguns processos invalidam nossas intenções e provocam até mesmo a situação que pretendíamos evitar. Wegner comprovou, cm numerosos estudos, a influência desses processos paradoxais sobre o pensamento e o comportamento. Observou que as pessoas só eram capazes de reprimir determinados pensamentos ou tendências comportamentais quando se concentravam nessa tarefa; se distraídas, atuavam de forma contrária.

Segundo Wegner, o êxito de nossos esforços para nos controlarmos depende, sobretudo, da quantidade de recursos cognitivos invertidos. Em suas pesquisas, obrigou os indivíduos a investirem seus recursos cognitivos em outras tarefas. A origem da diminuição da capacidade cognitiva pode ser consequência de uma redução da motivação para o controle. Seria esse o caso dos comedores reprimidos que não estão em fase de dieta.

A comprovação da presença de processos paradoxais em tais circunstâncias foi fornecida por um estudo em que os participantes deviam opinar sobre o sabor de diversos tipos de sorvete. Em seguida, foram solicitados a anotar por escrito os pensamentos que tiveram durante o teste. O que interessava para a pesquisa não eram os juízos qualitativos emitidos, mas os pensamentos referentes ao controle das calorias, como por exemplo: “Cuidado com o sorvete, isto engorda”.

O resultado confirmou as expectativas, tipo de pensamento era mais frequente entre os comedores reprimidos, especialmente se nesse momento tentavam seguir uma dieta de emagrecimento. Além disso, os reprimidos comeram tanto menos quanto mais intensos eram os seus pensamentos de controle, ao passo que os reprimidos que não estavam de dieta consumiram até mesmo mais sorvete. Assim, a vontade crônica de emagrecer, sem uma motivação aguda para controlar o consumo de alimentos, leva a uma ingestão excessiva. Uma variante dessa pesquisa forneceu resultados similares.

COMER MENOS

Mas então o que devem fazer os obesos? O melhor conselho não seria comer menos, mas comer de forma diferente. Em vez de reduzir as calorias, deveriam reduzir a gordura de sua alimentação. Ainda que, inicialmente, essa alimentação pareça menos saborosa, a experiência ensina que logo passarão a apreciá-la. Com isso se elimina a necessidade de controle contínuo das calorias.

Além disso, o excesso de peso deve ser enfrentado não só agindo sobre a ingestão de calorias, mas intervindo também sobreo gasto de energia. Isso não quer dizer que é preciso começar a comer agora mesmo. Usar menos o carro e caminhar mais asseguram a redução do peso. Porém, não se deve esperar milagres: a combinação de uma alimentação pobre em gorduras com o exercício físico ajuda a combater a obesidade, mas não a elimina; a vantagem da combinação é reduzir os riscos associados à obesidade.

O meio familiar também pode se beneficiar de uma mudança de atitude que favoreça uma alimentação mais saudável. O fato de que pais obesos costumam ter filhos obesos não é só uma questão hereditária, mas também dos hábitos alimentares transmitidos. A obesidade infantil pode ser combatida ou prevenida mediante uma alimentação saudável no âmbito familiar, o que costuma ser crucial para o desenvolvimento posterior do indivíduo.

ZONA DE INDIFERENÇA, TIPOS DE COMEDORES E DIETA LIMITE

Nosso organismo tenta manter a ingestão de comida dentro de certos limites. Assim, a sensação de fome impede a redução do consumo abaixo de um determinado valor mínimo, enquanto a sensação de saciedade evita que comamos em excesso. Entre esses limites está uma zona de indiferença biológica, na qual nosso comportamento alimentar é influenciado por fatores psicológicos.

Estes últimos regulam, nos comedores normais, o consumo alimentar localizado nesta zona de indiferença de forma inconsciente e automática. A ideia de computar as calorias é estranha aos comedores normais.

O mesmo não se dá com os comedores reprimidos, que subdividem sua zona de indiferença mediante uma “dieta-limite”. Isto significa que eles se impõem regras” dietéticas para reduzir a ingestão de alimentos. Essas regras determinam o tipo e a quantidade dos alimentos que podem ingerir. Assim, os comedores reprimidos regulam o próprio consumo de alimentos de forma consciente e atenta. Após tentarem suprimir, durante anos, os sinais do organismo e, sobretudo, a sensação de fome, não conseguem mais reconhecer esses sinais.

A consequência é que sua zona de indiferença é mais ampla que a dos comedores normais.

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QUILOS PERIGOSOS

O índice de massa corporal (IMC), calculado dividindo-se o peso pelo quadrado da altura, é o parâmetro usado para determinar quanto uma pessoa se distancia de seu peso ideal. Segundo os valores propostos pela OMS, as pessoas com peso normal têm IMC entre 18,5 e 25. Mas atenção: o IMC nada diz sobre a distribuição de gordura e é importante saber onde estão os quilos a mais. O acúmulo de gordura na região abdominal aumenta ainda mais o risco de doença cardiovascular.

Estatisticamente, os obesos correm maior risco de mortalidade. O diagrama mostra a relação entre mortalidade em diversos grupos (segundo o IMC) e a população geral. Os dados se baseiam em levantamentos de seguradoras americanas que registravam a altura e o peso de seus clientes no momento do contrato e depois os relacionavam com a idade alcançada. O valor de 200 corresponde a um risco de mortalidade duas vezes maior que a média.

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AUMENTO DE PESO POR DISTRAÇÃO

Os comedores reprimidos conseguem reduzir o peso quando se concentram no cumprimento das próprias regras dietéticas. Mas, quando se distraem, a intenção de emagrecer pode gerar o resultado contrário: acabam comendo mais. Para verificar essa tese, realizamos um experimento em que manipulamos a motivação dos participantes e sua capacidade de regular o próprio comportamento alimentar.

Fizemos com que acreditassem que os dois tipos de sorvete que deviam provar eram de conteúdo calórico elevado e reduzido, respectivamente. Na realidade, porém, ambos não se diferenciavam nesse aspecto. Influenciamos a capacidade de controle dos participantes distraindo um grupo durante o teste e deixando o outro se concentrar na suposta degustação. Conforme esperávamos, os comedores reprimidos restringiram o consumo do sorvete supostamente rico em calorias, mas desde que estivessem concentrados. Quando eram distribuídos, ao contrário, o consumo aumentava de maneira considerável.

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WOLFGANG STROEBE – é professor de psicologia social da Universidade de Utrecht, Holanda.

GESTÃO E CARREIRA

CARISMA? MEIA DOSE BASTA

Líderes muito carismáticos geram resultados piores

Carisma, meia dose basta

Ilude-se a empresa que valoriza um líder carismático, enfático, bom de lábia, agregador e motivador. Embora esses traços de personalidade possam parecer essenciais a uma boa liderança, estudo da Universidade de Ghent, na Bélgica, publicado pelo Journal of Personality and Social Psychology, revela que excesso de carisma pode ser até prejudicial para conduzir os negócios. Avaliando desempenho e traços pessoais de 800 líderes, os autores descobriram que os mais bem-sucedidos e efetivos demonstravam níveis médios, e não excessivos, de carisma. O estudo divide os líderes em duas categorias: os operacionais (que sabem definir processos e obter os melhores resultados de tarefas) e os estratégicos (que são bons em articular uma visão mais ampla da estratégia da empresa e inspirar os comandados a cumpri-la). O problema é que o segundo tipo de líder geralmente se apoia no primeiro tipo para se consolidar, isto é, passa uma imagem positiva, mas é incapaz de executar na prática as tarefas necessárias.

Os autores do estudo, porém, não condenam o carisma, ainda necessário para o sucesso de uma liderança. Apenas recomendam que seja aplicado em doses menores. Acima disso, o chefe começa a receber menos retornos positivos para seu charme, até provocar franca hostilidade de seus subordinados, que se consideram manipulados por uma liderança enganadora. Da mesma forma, o líder operacional, muito focado em resultados, mas negligente com as necessidades da equipe, também gera o mesmo tipo de reação. Portanto, o segredo está no meio-termo.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 14 – 16

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Cristo Ungido em Betânia

Imediatamente após um exemplo de grande bondade feita a Cristo, segue-se um exemplo de grande maldade. Há esta mistura de bom e mau entre os seguidores de Cristo. Ele possui alguns amigos fiéis, e outros amigos falsos e dissimulados. O que poderia ser mais desprezível do que esse acordo que Judas aqui fez com os príncipes dos sacerdotes, para lhes entregar o Cristo?

I – O traidor foi Judas Iscariotes. Ele é mencionado como “um dos doze”, como uma agravação de sua maldade. Quando estava crescendo o número dos discípulos (Atos 6.1), não seria surpresa se houvesse alguns entre eles que fossem uma vergonha e um problema para o grupo; mas havendo apenas os doze, e um deles sendo um diabo, com certeza nunca deveremos esperar qualquer sociedade perfeitamente pura neste lado do céu. Os doze eram amigos escolhidos de Cristo, que tinham o privilégio de seu favor especial. Eles eram seus seguidores constantes, que tinham o benefício de sua conversa mais íntima. Por todos esses aspectos, tinham motivo para amá-lo e serem verdadeiros com Ele; e mesmo assim, um deles o traiu. Note que nenhuma cadeia de obrigação ou gratidão pode conter aqueles que têm um demônio (Marcos 5.3,4).

II – Aqui está a oferta que Judas fez aos príncipes dos sacerdotes: ele “foi ter com eles e disse: Que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei?” (v. 15). Eles não o procuraram, nem lhe fizeram a proposta; eles não poderiam ter pensado que um dos próprios discípulos de Cristo fosse desleal para com o seu Mestre. Note que há alguns entre os seguidores de Cristo que são piores do que qualquer um pode imaginar que sejam, e que só precisam de uma oportunidade para mostrar a sua iniquidade.

Observe:

1. O que Judas prometeu: “‘Eu vo-lo entregarei”; eu vos contarei onde Ele está, me comprometerei a levar-vos até Ele, em urna hora e local convenientes para que possais agarrá-lo sem barulho, ou perigo de um tumulto”. Em sua conspiração contra Cristo, era exatamente isso que eles precisavam (vv. 4,5). Eles não ousavam se intrometer com Ele em público, e não sabiam onde encontrá-lo em particular. Aqui estava o problema, e a dificuldade era insuperável; até que Judas veio, e lhes ofereceu o seu serviço. Note que aqueles que se entregam para serem guiados pelo diabo encontram-no mais prestativo do que imaginam para ajudá-los em uma tarefa difícil, como Judas fez com os príncipes dos sacerdotes. Embora os príncipes, por seu poder e interesse, pudessem matá-lo, quando o tivessem em suas mãos, apenas um discípulo poderia entregá-lo. Note que quanto maior for a profissão que os homens fizerem da religião, e quanto mais forem empregados no seu estudo e serviço, mais oportunidades terão de fazer alguma maldade, se os seus corações não forem retos para com Deus. Se Judas não tivesse sido um apóstolo, ele não poderia ter sido um traidor. Se os homens não tivessem conhecido o caminho da injustiça, não poderiam ter abusado dele.

“E eu vo-lo entregarei”. Judas não se ofereceu, nem eles discutiram com ele, para que fosse uma testemunha contra Cristo, embora quisessem uma evidência (v. 59). E se houvesse qualquer coisa que pudesse ser alegada contra Jesus, que pudesse servir como prova de que Ele era um impostor, Judas seria a pessoa mais provável para atestá-la. Mas esta é uma evidência da inocência do nosso Senhor Jesus, que o seu próprio discípulo, que conhecia tão bem a sua doutrina e modo de vida, e que foi desleal a Ele, não poderia acusá-lo de nada criminoso, mesmo que isto pudesse ter servido para justificar a sua traição.

2. O que Judas pediu, em consideração a esse compromisso: “Que me quereis dar?” Essa foi a única coisa que fez Judas trair o seu Mestre. Ele esperava ganhar dinheiro com isso. Seu Mestre não havia lhe dado nenhum motivo, embora soubesse, desde o princípio, que Judas tinha um demônio. Assim, parece que o Senhor lhe demonstrou a mesma bondade que dedicou aos demais, e não colocou nele nenhuma marca de desgraça que pudesse ofendê-lo. O Senhor o havia colocado em um posto que lhe agradava, designando-o como aquele que carregava a bolsa, e embora Judas tivesse se apropriado, de forma fraudulenta, dos recursos comuns (porque ele foi chamado de ladrão, (João 12.6), não encontramos que ele tenha sido chamado a prestar contas disso; nem parece que desconfiasse de que o Evangelho fosse uma fraude. Não, não foi o ódio pelo Mestre, nem qualquer discussão com Ele, mas puramente o amor ao dinheiro; isto, e nada mais, fez de Judas um traidor.

“Que me quereis dar?” Pois bem, o que ele queria? Nem pão para comer, nem roupas para vestir; nem coisas necessárias, nem confortos materiais. Ele não era bem recebido, onde quer que o seu Mestre fosse? Ele não era bem tratado? Ele não foi respeitosamente recebido na ceia em Betânia, na casa de Simão, o leproso, e, um pouco antes, em outra casa, onde ninguém menos que a própria Marta serviu a mesa? E ainda assim esse miserável ganancioso não conseguiu ficar satisfeito, mas foi desprezivelmente curvar-se aos sacerdotes, dizendo: Que me quereis dar? Note que não é a falta de dinheiro, mas o amor ao dinheiro, que é a raiz de todos os males, e particularmente da apostasia em relação a Cristo. Demas testemunha isso (2 Timóteo 4.10). Satanás tentou o nosso Senhor com essa isca: “Tudo isto te darei” (cap. 4.9). Mas Judas se ofereceu para ser tentado por isso. Ele pergunta: “Que me quereis dar?”, como se o seu Mestre fosse um produto de que ele pudesse dispor.

III – Aqui está o acordo que os príncipes dos sacerdotes fizeram com ele: “E eles lhe pesaram trinta moedas de prata”, isto é, trinta siclos. Parece que Judas se submeteu a eles, e estava disposto a aceitar o que eles estavam dispostos a dar; e aceitou a primeira oferta, para não correr o risco de que a próxima oferta pudesse ser pior. Judas não estava habituado a negociar com valores elevados; portanto, um pouco de dinheiro o satisfez. Pela lei (Êxodo 21.32), trinta moedas de prata era o preço de um escravo – um belo preço pelo qual Cristo foi avaliado! (Zacarias 11.13). Não é surpresa que os filhos de Sião, embora comparáveis ao ouro puro, sejam estimados como jarros de barro, quando o próprio Rei de Sião foi tão depreciado. Eles estipularam o preço com ele; eles pagaram, segundo alguns; entregaram-lhe o pagamento em mãos para que ele não desistisse, e para encorajá-lo a trair o Senhor.

IV – Aqui está o esforço de Judas, de acordo com o que foi tratado (v. 16). Ele buscava oportunidade para o entregar, e a sua mente ainda estava trabalhando para descobrir como poderia fazer isso de modo eficaz. Note que:

1. É uma atitude muito ímpia buscar oportunidade para pecar, e tramar a maldade; pois isso prova a completa disposição do coração dos homens para fazer o mal deliberadamente.

2. Aqueles que se envolvem em iniquidades como essa se aprofundam cada vez mais, embora estejam conscientes de que o resultado é sempre muito ruim. Depois de ter feito esse trato maligno, ele teve tempo para se arrepender, e para revogá-lo: mas então, por causa de sua aliança, o diabo tem mais direito sobre ele do que tinha antes, e lhe diz que ele deve ser fiel à sua palavra, embora seja tão desleal ao seu Mestre. O mesmo aconteceu a Herodes, que teve de decapitar João por causa de seu juramento.