PSICOLOGIA ANALÍTICA

O PERDÃO É UM BOM REMÉDIO

Novas pesquisas revelam que essa prática pode curar emocional e fisicamente

O perdão é um bom remédio

Durante semanas, Karsten Mathiasen, 40 anos, foi dominado pela fúria. Meses antes, a mulher desse diretor de circo dinamarquês o abandonara para morar com outro homem. Cheio de ódio pelo novo companheiro da mulher, ele passava as noites acordado, com uma crescente dor de estômago e pensamentos raivosos rodopiando na cabeça. Começou a beber à noite para conseguir dormir.

Finalmente, foi a preocupação dos dois filhos pequenos que convenceu Karsten a conhecer esse homem de quem sentia tanta raiva.

Quando os dois se encontraram num café de Copenhague, Karsten percebeu que perdoaria o novo parceiro da mulher. Em vez de uma xícara de café, os dois tomaram várias e passaram horas conversando.

Na volta para casa, Karsten se espantou ao perceber que a tristeza e a raiva tinham sumido. Mais do que isso: ele se sentia fisicamente bem pela primeira vez em meses. Dormiu como um bebê naquela noite e acordou com a mente clara e o corpo relaxado.

“O perdão foi um grande presente que dei a mim mesmo”; diz Karsten.

Costumamos pensar no perdão como algo que fazemos pelo bem dos outros, mas novas pesquisas mostram que não é bem assim.

“Quem se dedica ao perdão passa por alterações na fisiologia: diz o Dr. Robert Enright, fundador do lnternational Forgiveness lnstitute (Instituto Internacional do Perdão) e autor dos livros O poder do perdão, The Forgiving Life (A vida que perdoa) e 8 Keys to Forgiveness (8 segredos do perdão), ele pesquisa a força do perdão há três décadas. “O perdão ajuda o indivíduo a se livrar da chamada raiva tóxica diz ele. O tipo de raiva que pode literalmente matar.”

Num estudo publicado em 2009 na revista Psychology and Health, Enright e sua equipe examinaram o efeito do perdão sobre a saúde de pacientes cardíacos. Eles verificaram que os participantes que perdoavam melhoravam de forma significativa o fluxo sanguíneo no coração, mesmo a pós quatro meses do ato de perdoar.

Em termos fisiológicos, esses achados fazem sentido. Quando pensamentos de raiva e vingança invadem o cérebro, as duas metades do sistema nervoso autônomo se ativam ao mesmo tempo: tanto a simpática, que nos estimula, quanto a parassimpática, que nos acalma. Pense na primeira como o pedal do acelerador do carro e na segunda como o freio. O que acontece quando se pisa com força no freio ao acelerar? Seu carro vai seguir aos solavancos, e são essas as mensagens confusas e estressantes recebidas pelo corpo e pelo coração de quem vive ressentido.

E não é só o coração que pode se curar. Um estudo de 2011 apresentado à Sociedade de Medicina Comportamental, nos Estados Unidos, mostrou que o perdão ajuda a aliviar a insônia, e outro estudo realizado no Centro Médico da Universidade Duke, na Carolina do Norte, também nos EUA, verificou que o perdão pode fortalecer o sistema imunológico de portadores do HIV. A cada ano que passa, novas pesquisas revelam que perdoar ajuda a curar muita coisa, desde a insônia até, talvez, o câncer.

 A vida de Rosalyn Boyce desandou em 1999 quando um homem invadiu sua casa em Londres e a estuprou, enquanto sua filha de 2 anos dormia no quarto ao lado. Três semanas depois, o criminoso, um estuprador contumaz, foi preso e condenado a três penas de prisão perpétua.

Para Rosalyn, no entanto, o pesadelo não acabou. A lembrança do ataque enchia sua cabeça o tempo todo, e ela foi forçada a se mudar da casa da família para fugir das recordações. Comer ficou impossível. Os médicos diagnosticaram depressão reativa e transtorno de estresse pós-traumático e lhe receitaram Prozac e tranquilizantes. Ela começou a tomar urna garrafa de vinho por noite para esquecer.

Quando a saúde física e mental se deteriorou, Rosalyn percebeu que tinha de se curar. Com estudo e terapia, descobriu que o único caminho era perdoar o agressor. “Para mim, perdoar significava não sentir mais nenhum vínculo com o estuprador e me libertar do crime escreve ela. “Depois que escolhi entender o perdão nesses termos, um fardo imenso me foi tirado”.

Em julho de 2014, por meio de um programa de justiça restaurativa, Rosalyn finalmente conseguiu visitar o estuprador e perdoá-lo frente a frente. “Depois, fiquei eufórica: conta ela. “Não penso mais no estupro. Ele sumiu como fumaça.”

Pouca gente entende o perdão melhor do que Marina Cantacuzino. Ex- jornalista, Marina é fundadora e diretora do The Forgiveness Project (Projeto Perdão), um site na Internet e uma série de exposições com histórias pessoais do mundo inteiro, inclusive a de Rosalyn, para explorar os limites e as possibilidades do perdão. “Perdoar não é concordar nem desculpar’; explica a britânica, desfazendo o mito de que perdoar significa dizer que o acontecido foi aceitável. Outra concepção comum e errada é que o perdão exige reconciliação com o ofensor; não, não exige. É possível perdoar e não retomar o relacionamento. Na verdade, o perdão exige uma reconfiguração do passado para que se possa ver o incidente e o ofensor através de uma lente mais ampla, com mais compaixão.

Marina Cantacuzino também diz que oferecer perdão não significa abrir mão do direito de justiça. É possível perdoar alguém que terá de ir preso ou pagar pelo que fez. Na verdade, uma de suas definições favoritas de perdão veio de um presidiário: “Perdoar é abandonar toda esperança de um passado melhor.”

Depois de se mudar da Inglaterra para o Líbano em 1966 e ver o país se dilacerar em 15 anos de guerra civil, Alexandra Asseily, incrédula, se sentiu arrasada pela capacidade de violência da humanidade.

“Eu precisava perdoar as pessoas que destruíram o lugar lindo que era o Líbano”, diz a psicoterapeuta. Ela decidiu conversar com homens que tinham sido combatentes violentos no conflito. “Quando consegui vê-los como seres humanos e não como monstros, percebi que passara no meu próprio teste.”

Em 1984, ela ajudou a fundar o Centro de Estudos Libaneses da Universidade Oxford, na Inglaterra, onde se esforça para promover o perdão como ferramenta de paz e cura. Em seu trabalho, Alexandra diz que é comum encontrar pessoas que adoeceram. Ela descreve uma mulher de Roma que passou muitos anos ao lado do marido infiel e hoje está morrendo de câncer. “Ela é amarga, e acho que se corroeu por dentro diz Alexandra, que admite que a relação entre raiva e câncer ainda não foi cientificamente demonstrada.

Mas talvez não seja assim por muito tempo. Robert Enright se uniu ao oncologista eslovaco Pavel Kotou’ek num estudo para determinar se o perdão pode ajudar na batalha contra o câncer. Kotou’ek diz que tratou muitos casos na Eslováquia e na Inglaterra em que a amargura do paciente parecia paralisar o sistema imunológico. ” Há fortes indícios de que, se melhorarmos o perfil imunológico do paciente de câncer, conseguiremos controlar a doença.”

O estudo será realizado em toda a Europa pela entidade Myeloma Patients Europe, que oferecerá aos pacientes a terapia do perdão além de tratamentos convencionais, como quimioterapia, radioterapia e transplantes de medula óssea e células-tronco.

Para Azaria Botta, 33 anos, uma auxiliar de ensino de Vancouver, no Canadá, o rompimento com uma das melhores amigas abriu seus olhos para o poder curativo do perdão. No verão de 2004, com uma de suas amigas mais antigas, Azaria partiu numa viagem pela Europa de mochila às costas. As duas moças, empolgadas, deram início à viagem e percorreram o Reino Unido antes de chegar a Paris. Foi lá que a amiga de Azaria anunciou que faria um passeio romântico de uma semana com um jovem mochileiro colombiano.

Azaria ficou chocada e furiosa. Passou a semana sozinha em Paris, cheia de raiva e desapontamento. Também sofreu estranhas dores de cabeça e de barriga. Azaria continuou a ferver de raiva depois que a amiga voltou a Paris e lhe pediu muitas desculpas.

No retorno a Vancouver, a raiva de Azaria não a abandonou – nem as dores de cabeça e de barriga. Só quando a amiga implorou desculpas e as duas se reconciliaram aos prantos, a cabeça de Azaria parou de doer e seu apetite voltou. Foi então que ela ligou os pontos: a raiva a deixara doente. “Eu me senti mais leve”; diz Azaria. “Desistir daquela raiva foi o primeiro passo.”

Os especialistas são inflexíveis; não existe um caminho especifico para o perdão. ” É diferente para cada um alerta Marina Cantacuzino.

Com o passar dos anos, alguns se sentem desgastados pelo ódio e pelo medo e decidem mudar. Outros, segundo ela, conhecem alguém parecido com o ofensor ou assistem a um programa de televisão que os leva a pensar na situação de um jeito diferente.

Robert Enright concorda que o perdão pode assumir muitas formas, mas, no aspecto mais básico, perdoar é oferecer bondade a quem nos feriu.

“O perdão pode assumir a forma de respeito, de retornar um telefonema ou dizer a outra pessoa uma palavra gentil sobre o ofensor explica ele. “O paradoxo é que, quando temos misericórdia de quem não a teve conosco, nos curamos emocional e, às vezes, também fisicamente.”

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OUTROS OLHARES

UM ALÍVIO PARA A ENXAQUECA

As dores insuportáveis e prolongadas acometem três vezes mais mulheres do que homens.

Um alívio para a enxaqueca

Se você nunca sentiu uma dor de cabeça, algo improvável, saiba que sentirá – e pode ser agora mesmo. Estudos recentes mostram que nove em cada dez pessoas, crianças inclusive, têm algum tipo de cefaleia, a denominação científica para a mais tristemente democrática das condições de saúde. Pelo menos 150 modalidades de cefaleia já foram catalogadas, de diferentes graus de sofrimento, duração e localização. Nenhuma é mais terrível do que a enxaqueca – menos frequente, alcança quinze em cada 100 indivíduos, o que equivale a 30 milhões de pessoas no Brasil. Elas sofrem com episódios recorrentes de um distúrbio que pode durar de quatro a 72 intermináveis horas, quase sempre unilateral, na fronte e na têmpora (a dor de cabeça comum é bilateral e difusa, facilmente solucionada com um analgésico leve). No mundo, há 1 bilhão de vítimas. Como efeitos adversos, a enxaqueca induz a náusea e o vômito e impede qualquer contato com fiapos de luz ou ruídos, mesmo os quase inaudíveis. A escritora inglesa Virgínia Woolf (1882-1941,) que padecia do mal, chegou a dizer em um ensaio autobiográfico, Sobre Estar Doente, de 1926, que não havia no inglês de Shakespeare, o idioma que lhe permitiu dar vida a personagens como Hamlet e o Rei Lear, palavras capazes de descrever uma enxaquecaPara o alemão Emil duBois-Reymond (1818-1896), um dos mais profundos conhecedores do cérebro de seu tempo, aquilo que ele mesmo sentia, cotidianamente, era “uma sensação generalizada de desordem”.

Desordem que, até hoje, ficou nisso mesmo, tangenciando o desespero, porque não se encontrava medicamento capaz de agir diretamente na enxaqueca- ela sempre foi atacada de modo indireto, com drogas desenvolvidas para outras afecções, como a pressão alta e a depressão, mas sem muita eficácia. Na quinta-feira 17, contudo, abriu-se uma extraordinária janela de esperança para a luz do “mais prático dos sóis”, como escreveu o poeta João Cabral de Melo Neto (1920-1999), e não foi uma singela Aspirina. A FDA, a agência americana reguladora de medicamentos, aprovou o uso de uma novíssima molécula, o erenumabe, apta a prevenir o início do sofrimento. Fabricada pelos laboratórios Novartis e Amgen, ela pertence à família das drogas mais modernas na medicina, os chamados anticorpos monoclonais. É injetável. A seringa, semelhante à da aplicação de insulina para o diabetes, pode ser usada pelo próprio doente – na barriga, no braço ou na perna. Nos Estados Unidos, uma única dose – disponível a partir desta semana – custa o equivalente a pouco mais de 2000 reais. Novidades dessa monta são tão impactantes que produzem ondas de interesse e curiosidade imediatas.

 A INFLUÊNCIA DOS HABITOS

Algumas atitudes do cotidiano ajudam a prevenir o surgimento da enxaqueca e diminuir sua intensidade.

ALIMENTAÇÃO – Ficar um longo período sem comer pode causar queda nas taxas de açúcar do sangue e liberação de hormônios do stress, condições associadas à enxaqueca. O que evitar à mesa? As frutas cítricas aumentam a absorção de cobre, substância que pode estar relacionada às crises. Chocolate, alimentos muito gordurosos ou processados e bebidas alcoólicas e ricas em cafeína contribuem para o aparecimento das dores, pelo efeito vasodilatador

CONTROLE DE PESO – Um estudo publicado na revista científica americana Neurology mostrou que obesos apresentam probabilidade 27% maior de ter enxaqueca do que pessoas com o peso ideal. A obesidade crônica e o ganho muito rápido de quilos extras aumentam a inflamação no corpo, mecanismo associado à enxaqueca.

RELAXAMENTO – Durante momentos de stress – físico e mental -, o cérebro libera hormônios que podem causar alterações vasculares associadas a enxaquecas. A tensão muscular provocada por situações estressantes e pela ansiedade também dilata os vasos sanguíneos, o que pode piorar a intensidade da dor mostrou que obesos apresentam probabilidade 27% maior ao ter enxaqueca do que pessoas com o peso ideal. A obesidade crônica e o ganho muito rápido de quilos extras aumentam a inflamação no corpo, mecanismo associado à enxaqueca.

ATIVIDADE FÍSICA – Além de ajudar a relaxar, a movimentação do corpo colabora para a manutenção do peso e para uma melhor vascularização no crânio, atalho para reduzir os episódios de enxaqueca e atenuar as dores durante uma crise. A prática de esportes libera endorfina e serotonina, hormônios que deixam o organismo mais resistente à dor.

INGESTÃO DE LÍQUIDOS – É vital. Quando sentimos sede, já estamos em um estado de 20% de desidratação. O primeiro órgão a sofrer com essa escassez é o cérebro, que passa a produzir toxinas relacionadas à enxaqueca.

 O QUE EXISTE CONTRA A DOR DE CABEÇA

Os medicamentos disponíveis até agora agem apenas indiretamente na enxaqueca, estimulando a produção de substâncias que ajudam a driblá-la.

ANTIDEPRESSIVOS – Amitriptilina e nortriptilina

COMO AGEM – Estimulam a ação do hormônio serotonina, composto cerebral associado à sensação de bem-estar, o que ajuda no combate aos sintomas

ANTl·HIPERTENSIVOS – Propranolol e atenolol

COMO AGEM – Inibem a ação da adrenalina, hormônio excitante que estimula as crises.

ANTIEPILÉTICOS – Divalproato de sódio e topiramato

COMO AGEM – Reduzem a fabricação de glutamato, composto que tem efeito estimulante no cérebro e é associado à dor. Também impulsionam a síntese do neurotransmissor GABA, que provoca efeito calmante no cérebro.

BOTOX

COMO AGE – Aplicada atrás da cabeça, na testa, na têmpora e no pescoço a cada três meses, a toxina bloqueia as substâncias inflamatórias, o que reduz a dor.

Um alívio para a enxaqueca2I

1. Enquanto não tiver disponível no Brasil, o erenumabe poderá ser importado?

– Sim. Duas resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa (RDC nº 28/2011 e Decreto nº 8077/2013), possibilitam que remédios sem registro no Brasil sejam importados por pessoa física, desde que a finalidade seja o uso pessoal. Isso pode ser feito de duas maneiras: por contratação de um serviço de assessoria especializada na importação de remédios ou compra diretamente de uma distribuidora internacional. Os serviços de assessoria são empresas alocadas no Brasil que fazem a intermediação entre os pacientes que necessitam de medicamentos importados e os fabricantes e distribuidores internacionais. Eles cuidam de todos os trâmites – da compra do remédio no exterior, passando por transporte e desembaraço na alfândega, à entrega para o paciente. Os São empresas facilmente encontradas na internet, com informações em português. No caso da compra direta de um fornecedor internacional, o próprio paciente é responsável pelos detalhes do negócio.

2. É necessário ter uma receita médica?

– Sim. Ela é exigida para a importação de medicamentos sem registro no Brasil, como é o caso do erenumabe. A receita deve ser feita por um médico brasileiro. No documento devem constar o nome do paciente, a dosagem do medica­ mento e a quantidade a ser importada. Algumas empresas também exigem cópia autenticada do RG e do CPF do paciente ou de seu responsável legal, cópia do comprovante de residência, procuração autorizando o despachante a desembaraçar a mercadoria na Receita Federal e declaração do médico comprovando a doença, a importância do medicamento para a saúde do paciente e sua indisponibilidade no Brasil.

3. Quanto custa importar o remédio?

– A importação de medicamentos de até 10.000 dólares por pessoa física, para uso pessoal, é isenta de impostos. Nos Estados Unidos, convém reafirmar, o erenumabe custa algo em torno de 2.000 reais mensais.

4. Com 2.000 reais, compra-se remédio para quanto tempo?

– Para uma dose apenas – portanto, para um mês de tratamento. Os médicos estimam que o acompanhamento mínimo seja de três meses, mas pode durar a vida inteira. A conta final pode sair absurdamente cara.

5. Quanto tempo demora para que as caixas importadas cheguem ao Brasil?

– O prazo depende do fornecedor e do serviço de entrega. Em média, é de trinta dias após o pagamento.

6. Pode-se pedir a alguém para trazer o remédio do exterior?

– Não, porque há uma regra imutável: o uso pessoal. Mas, se o próprio paciente viajar para os Estados Unidos, poderá trazê-lo na mala. Ao desembarcar no Brasil, o paciente é obrigado a declarar o produto à Receita Federal por meio da Declaração Eletrônica de Bens do Viajante (e-DBV) e haverá cobrança de 50% sobre o valor que exceder o limite de 500 dólares, como ocorre com qualquer produto. Ele também deve ter em mãos a receita médica e a nota fiscal de compra do medicamento. A quantidade trazida deve ser rigorosamente compatível com o que está prescrito na receita para não caracterizar comércio. Vale ressaltar ainda que, como a compra do erenumabe nos Estados Unidos depende de prescrição médica, será necessária a apresentação de uma receita prescrita por médico americano.

7. Quando o remédio deve chegar ao Brasil?

– Provavelmente no primeiro semestre do próximo ano, a depender da Anvisa.

8. Quando o medicamento desembarcar legalmente no Brasil, será necessário receita para adquiri-lo?

– Sim, mas não deverá ser receita do tipo controlada, para remédios de tarja preta, aquela da qual os farmacêuticos retêm uma das vias.

9. Qual será o preço no Brasil?

– O valor de venda de um remédio só é definido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos depois da aprovação sanitária da Anvisa. Essa decisão pode demorar alguns meses. Mas acredita-se que será semelhante ao preço praticado nos Estados Unidos.

O pulo do gato na aventura do desenvolvimento do erenumabe foi a recriação em laboratório, sinteticamente, de drogas que mimetizam o funcionamento das células de defesa do organismo humano. O resultado da aplicação do medicamento: um anticorpo similar ao do sistema imunológico bloqueia a ação da substância química inflamatória responsável por desencadear a dor. Os anticorpos monoclonais, que estão na essência do erenumabe, já são utilizados no tratamento de câncer e doenças autoimunes.

O erenumabe age na borda da meninge, membrana localizada na superfície do cérebro. Ele inativa um composto químico cerebral chamado CGRP. Essa substância, por sua vez, é liberada pelo nervo trigêmeo, estrutura que se estende por quase toda a cabeça. Em pessoas saudáveis, ele participa das funções vasodilatadora e inflamatória, necessárias para o bom funcionamento do corpo todo. Em pessoas com enxaqueca, por algum motivo ainda misterioso, o CGRP se apresenta em quantidades abundantes, deflagrando a dor de cabeça.

Os anticorpos monoclonais atuam em alvos específicos. “Essa ação praticamente elimina os efeitos colaterais dos remédios, e isso é extraordinário em especial no tratamento da enxaqueca”, diz o neurologista Mario Peres, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Estudos mostram que as reações aos remédios atualmente utilizados para a doença (náuseas, sedação, ganho de peso e até disfunção erétil e confusão mental) fazem com que oito em cada dez pessoas interrompam o tratamento ou não o sigam corretamente. O principal efeito adverso do erenumabe é apenas dor no local da aplicação da injeção. Diz Thais Villa, neurologista da Sociedade Brasileira de Cefaleia e chefe do Setor de Cefaleias da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp): “O achado representa uma evolução tão relevante que nos faz compreender melhor a fisiologia da doença”.

O erenumabe é indicado tanto para a enxaqueca crônica – quando a dor persiste ao longo de pelo menos quinze dias –   quanto para a episódica, mais breve. Ele previne ou reduz as dores pela metade em 50% dos doentes, segundo os estudos realizados antes de seu lançamento. Mas não representa, infelizmente, a cura da doença. Não é simples debelá-la, por envolver uma centena de mecanismos em sua formação. A ciência ainda desconhece a maioria deles. Até a metade do século XX, acreditava-se que a enxaqueca era causada pela dilatação de veias e artérias cerebrais. O fato de os pacientes relatarem a sensação de vasos pulsando e o ato involuntário de pressionar as têmporas doloridas deram origem à crença. A ideia foi desbancada apenas na década de 90, graças ao aprimoramento dos exames de imagem, especialmente os de aparelhos de ressonância magnética cerebral funcional, que permitiram visualizar o cérebro em plena atividade.

Há um aumento no fluxo sanguíneo durante a enxaqueca, mas não é isso o que provoca as dores. Com essa hipótese finalmente descartada, iniciaram-se estudos para identificar a causa. Cogitou­ se, então, o envolvimento do nervo trigêmeo, responsável por retransmitir as sensações de dor e tato da face, cabeça e mandíbula para dentro do cérebro – e assim chegou-se aos estudos com o CGRP, o composto químico que é chave do bem e do mal. Os exames de imagem mostraram que, além de o CGRP estar presente em quantidades elevadas durante as crises, por alguma razão ainda não completamente decifrada, o cérebro de pessoas com enxaqueca é mais sensível ao CGRP. Parte da explicação pode estar na genética – filhos de pais que têm enxaqueca correm um risco até 80% maior de sofrer da doença. As moléculas de ataque ao CGRP começaram a ser desenvolvidas no início dos anos 2000. O erenumabe é o primeiro a ser aprovado, mas há outros três prestes a ser carimbados, com ação semelhante – o que dá a esperança de que o adeus definitivo à enxaqueca possa estar no horizonte.

 A enxaqueca é tão frequente, tão onipresente, que passou a alimentar estudos econômicos. Um levantamento internacional conduzido em oito regiões do mundo, o Carga Global de Doenças, classificou a enxaqueca como a terceira causa de incapacidade entre pessoas com menos de 50 anos. Para se ter uma ideia, apenas na Europa os custos da perda de produtividade de funcionários com enxaqueca – e que não aparecem para trabalhar – é de 27 bilhões de euros ao ano. Nos Estados Unidos, são 17 bilhões de dólares. Um trabalho do Instituto para Revisão Clínica e Econômica, organização americana sem fins lucrativos, mostrou que os pacientes com enxaqueca marcam menos compromissos com medo da dor, que é deflagrada sem aviso prévio. As mulheres são as maiores vítimas – as dores acometem três vezes mais a elas do que a eles. A explicação está no fato de o cérebro dos portadores de enxaqueca ser mais sensível às oscilações hormonais, em especial do estrógeno, um composto feminino, atalho para o aumento de sensibilidade dos centros nervosos relacionados à dor.

As tentativas de aplacar a dor da enxaqueca existem desde a antiguidade, quando a sensação era associada a espíritos ruins aprisionados na cabeça e à loucura. Crânios de 9000 anos atrás mostram evidências de trepanação – prática em que a caixa craniana era perfurada de modo não letal-, para que as almas malignas pudessem escapar. A prática brutal foi documentada formidavelmente pelo pintor holandês Hieronymus Bosch (1450-1516) em A Extração da Pedra da Loucura. A sensação de desconforto provocada pela obra­ prima de Bosch dá a medida exata do horror da dor que se apresenta, do nada, e não para de crescer. O erenumabe é um alento, mas não é tudo. Uma vida mais saudável e menos sedentária é fundamental. Não é certeza de eliminação das dores, mas reduz o risco do surgimento das crises e pode diminuir sua intensidade. A tensão é o principal gatilho das crises, que costumam ser precedidas por momentos de stress. O organismo estressado libera quantidades elevadas de hormônios excitatórios, como a cortisona e a noradrenalina. Os compostos agridem o cérebro, tornando-o mais sensível e vulnerável. Portanto, a mente quieta associada a boa alimentação é o melhor remédio contra a enxaqueca, até que seja preciso entrar no erenumabe, a esperança provisória, o claro sol embutido numa seringa.

Um alívio para a enxaqueca

DOR OU DELÍRIO? Tela de Bosch, A Extração da Pedra da Loucura: documento formidável das doenças do cérebro.

 

GESTÃO E CARREIRA

A SOPA DE THOMAS EDISON

Original, ele avaliava candidatos a partir de temas alheios à função.

A sopa de Thomas Edison

Lenda da inovação, Thomas Edison também adotava métodos originais para selecionar candidatos para sua então chamada Edison Electric Light Company: oferecia um prato de sopa à pessoa e perguntava se ela queria sal ou pimenta para temperá-lo; se o candidato escolhesse um dos dois ingredientes antes de provar a sopa, Edison o eliminava imediatamente. Justificativa: quem toma uma decisão antes de baseá-la em algum motivo claro (a maldita postura da “presunção”) não tem capacidade de inovar – afinal, o candidato nem sabia o gosto da sopa, raciocinava Edison. Baseando-se nesse modelo, o consultor Jeff Haden aconselha: uma boa forma de selecionar candidatos é justamente avaliar comportamentos não relacionados diretamente a respostas dadas em entrevistas de emprego (para as quais muitos se preparam bastante). Um dos métodos de avaliação preferidos de Haden é o chamado “teste do recepcionista”: se um candidato se comporta de maneira agressiva com recepcionistas ao chegar à empresa, provavelmente agirá assim também com seus colegas, mesmo que seja muito educado com seu recrutador (para bajulá-lo…), exemplifica Haden. O consultor também sugere fazer testes de inteligência emocional com candidatos antes das entrevistas de emprego. A ideia não é avaliar a pessoa a partir deles, já que a diversidade de funções em uma empresa admite tipos variados de personalidade, sejam introvertidos ou extrovertidos, e sim ajudar o recrutador a saber como conduzir a entrevista. Ao conhecer melhor o candidato, fica mais fácil checar se ele se encaixa ou não na cultura da empresa. OK, mas o que o recrutador deve perguntar? Adam Grant, professor da Wharton School e autor de best-sellers sobre psicologia organizacional, baseia-se em vários estudos para alertar: certos tipos de perguntas “comportamentais” em uma entrevista de emprego são simplesmente inúteis, tais como indagar sobre fraquezas ou forças do candidato ou qual é a trajetória profissional desejada. Para Grant, esses tipos de indagação apresentam três desvantagens: são injustos, ao dar mais vantagem ao candidato com maior tempo de carreira, mas não necessariamente mais bem preparado; permite enrolação, favorecendo o candidato com maior capacidade de formular argumentos; e são genéricos, não se ajustando às necessidades específicas da empresa. Em vez de checar comportamentos, Grant sugere perguntas “situacionais”, que criem contextos hipotéticos para testar como agiria o candidato diante de certos desafios.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 26: 1 – 5

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A Trama dos Príncipes dos Sacerdotes

Nesse trecho, vemos:

1. O aviso que Cristo deu aos seus discípulos sobre a aproximação dos seus sofrimentos (vv.1,2). Enquanto os seus inimigos estavam lhe preparando o mal, Ele estava preparando a si mesmo e aos seus seguidores para isso. Ele, com frequência, havia lhes falado sobre os seus sofrimentos com certa reserva, mas então lhes fala abertamente: “Daqui a dois dias”. Após muitos avisos anteriores sobre as dificuldades, ainda temos necessidade de novos avisos. Considere:

(1) O momento em que Ele deu esse alarme: quando Ele “concluiu todos esses discursos”.

[1] Não até ter terminado tudo o que tinha para dizer. As testemunhas de Cristo não morrem até que terminem de dar o seu testemunho. Quando Cristo havia terminado a sua tarefa como um profeta, Ele iniciou a execução de seu ofício como um sacerdote.

[2] Depois de ter terminado esses discursos, que ocorrem imediatamente antes dessa advertência. Ele havia advertido os seus discípulos a esperar em momentos tristes, prisões e aflições, e então lhes diz: “O Filho do Homem será entregue”. A sua intenção era sugerir que eles não deveriam passar por coisas piores do que as que Ele iria passar, e que os sofrimentos dele deveriam ser maiores do que os deles. Os pensamentos de um Cristo sofredor são grandes apoios para um cristão sofredor, que sofre com Ele e por Ele.

(2) O conteúdo do aviso: “O Filho do Homem será entregue”. O fato não só era certo, mas também tão próximo que era como se já tivesse ocorrido. Note que é bom considerar os sofrimentos que ainda estão por vir, como se já estivessem presentes para nós. Ele seria entregue, por­ que Judas estava então arquitetando e planejando traí-lo.

2. A conspiração dos príncipes dos sacerdotes, dos escribas e dos anciãos do povo contra a vida do nosso Senhor Jesus (vv. 3-5). Muitas conspirações haviam sido maquinadas contra a vida de Cristo, mas esse plano foi tramado com mais perspicácia do que qualquer outro, pois todas as pessoas eminentes estavam empenhadas nele. Os príncipes dos sacerdotes, que presidiam os assuntos eclesiásticos; os anciãos, que eram juízes em questões civis; e os escribas, que, como doutores da lei, instruíam a ambos – estes compunham o sinédrio, ou o grande concílio que governava a nação, e se aliaram contra Cristo. Considere:

(1) O lugar onde eles se reuniram; na sala do sumo sacerdote, que era o centro de sua unidade no projeto maligno.

(2) A conspiração em si; prenderem Jesus com dolo e o matarem; nada menos que o seu sangue, o sangue de sua vida, serviria para cumprir o objetivo deles. Os planos dos inimigos de Cristo e de sua igreja foram muito cruéis e sanguinários.

(3) A política dos conspiradores: “não durante a festa”. Por que não? Foi em consideração à santidade do momento, ou porque eles não seriam perturbados nos serviços religiosos do dia? Não, mas para que não houvesse alvoroço entre o povo. Eles sabiam que Cristo tinha um grande interesse pelas pessoas comuns, que afluíam em grande número no dia da festa, e haveria o risco de pegarem em armas contra os seus governantes se houvesse uma interferência violenta contra Cristo, a quem eles consideravam como profeta. Eles estavam com medo, não por temor a Deus, mas por temerem o povo; toda a preocupação deles era pela sua própria segurança, e não pela honra a Deus. Mesmo assim, eles procurariam fazer algo; porque era uma tradição dos judeus que criminosos fossem mortos em uma das três festas, especialmente rebeldes e impostores, para que todo o Israel pudesse ver e temer, mas “não durante a festa”.