PSICOLOGIA ANALÍTICA

MATINAL OU NOTIVAGO?

Preferência por horário de dormir tem raiz genética.

Matinal ou notívago

Preferir acordar bem cedo ou só dormir em plena madrugada não é só questão de gosto ou temperamento: estudo da consultoria 23andMe, especializada em pesquisas genéticas, sequenciou os genomas de 90 mil pessoas e chegou à conclusão de que o DNA seria o responsável pelo tipo de horário em que nosso corpo funciona melhor, definindo a pessoa como notívaga ou matinal. Segundo o estudo, publicado no jornal Nature Communications, todos nós vivemos o ciclo circadiano de 24 horas, mas nossos relógios internos determinam se preferimos acordar bem cedo ou dormir até mais tarde. A novidade da pesquisa é justamente o fato de explicar geneticamente essas diferenças.

Constataram-se, por exemplo, algumas vantagens dos matinais: não precisam de oito horas de sono, dormem profundamente, transpiram menos e apresentam índice de massa corporal menor do que os notívagos. Os autores também distribuíram questionários, descobrindo diferenças interessantes. Uma delas: as mulheres se consideram mais matinais do que os homens. Os resultados do estudo também podem ser úteis no tratamento de pessoas com distúrbios do sono. E, no mundo profissional, conhecer seu cronotipo (ritmo de matutinidade ou vespertinidade) de forma científica pode ser útil para programar melhor a jornada de trabalho, o tipo de atividade e o horário de sono – muitos dos notívagos sofrem de insônia por tentar dormir antes, o que prejudica sua rotina.

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OUTROS OLHARES

ALIMENTO PARA O CÉREBRO

Combinação certa de nutrientes é essencial para o bom funcionamento do sistema nervoso e ao alto desempenho intelectual.

Alimenta para o cérebro

Quem sofre frequentemente com problemas de concentração deveria refletir sobre seus hábitos alimentares, já que o nosso pão de cada dia influencia não apenas a saúde física, mas também o funcionamento cerebral. Muitos pesquisadores se ocupam atualmente de estudar quais alimentos e que substâncias dentro deles são relevantes para a memória, o aprendizado, a atenção, seja em curto, médio ou longo prazo. Apesar de todos os avanços, nosso conhecimento sobre esse tema está longe de ser completo. No entanto, há um grande número de evidências de que uma alimentação balanceada e adequada às necessidades cerebrais melhora o aproveitamento de nosso potencial intelectual.

É na fase inicial da vida, isto é, da gestação até aproximadamente os 6 meses de idade, que o cérebro é mais sensível aos alimentos. A final, trata-se de um período essencial de formação e amadurecimento do ser humano. É importante que o organismo seja abastecido com quantidade suficiente de matérias primas (principalmente proteínas e lipídeos), para que os neurônios se desenvolvam adequadamente. Alimentando-se de forma equilibrada, a mãe fornece à criança, durante a gravidez e a amamentação, tudo de que ela necessita. Do contrário, o feto e, mais tarde, o bebê sentirão as consequências. Já está mais que comprovado que problemas nutricionais nos primeiros anos de vida podem reduzir significativamente o quociente de inteligência.

Também para o cérebro adulto não há nada mais importante do que ter regularmente boa comida no prato. Para que nossos neurônios possam disparar a qualquer momento, incontáveis mecanismos – como as bombas iônicas – têm de consumir energia. É por isso que o cérebro, apesar de representar apenas 2 % do peso corporal, precisa de cerca de 20 % de toda a energia que consumimos. Ele queima 120g de glicose diariamente, e essa pequenina molécula tem de ser trazida via circulação sanguínea, já que, diferentemente dos músculos, o sistema nervoso central não é capaz de estocar glicose (na forma de glicogênio). Isso explica porque a glicemia é tão importante para a aptidão mental: quando ela cai, a concentração diminui. Estudo coordenado pelo bioquímico Daniel J. Cox, da Universidade de Virgínia, em 2015, revelou que também a concentração muito alta de glicose reduz a capacidade mental. Os participantes cometeram mais erros ao fazer cálculos depois de se esbaldar comendo doces.

Hoje os cientistas acreditam que nada melhor para o cérebro do que uma glicemia moderada e estável; e isso se consegue ingerindo os carboidratos adequados. Tanto a própria glicose quanto os carboidratos compostos, como a sacarose, a lactose e a maltose, aumentam o nível glicêmico forte e rapidamente. Assim, aquela barrinha de cereal, mel e doces com alta concentração de açúcar são excelentes entre as refeições ou depois de desgaste físico intenso. Mas cuidado: o efeito desses carboidratos dura pouco tempo, apenas algumas horas.

O aumento rápido da glicemia estimula o pâncreas a secretar grandes quantidades de insulina, hormônio que entre outras coisas, acelera a absorção de glicose pelas células, bem como seu armazenamento, na forma de glicogênio, no fígado e nos músculos. Depois de refeições que jogam a glicemia lá para o alto, esta cai rapidamente em cerca de meia hora, atingindo, em seguida, nível mais baixo que o anterior – por isso nos sentimos mais cansados que antes de comer. Por outro lado, os carboidratos complexos, também chamados polissacarídeos, elevam a glicemia mais lentamente, atingindo valores máximos mais baixos, comparados aos monossacarídeos, como a

glicose e a frutose, e os dissacarídeos, como a sacarose e a galactose. O mais importante desses “açúcares complexos e de efeito retardado é, sem dúvida, o amido.

UM POUCO DE AR

Tão importante quanto o fornecimento constante de glicose é o provimento do cérebro com oxigênio. Nenhum outro órgão depende tanto dessa molécula gasosa, cerca de 40 % do oxigênio consumido pelo corpo vão diretamente para o sistema nervoso central para gerar energia. Assim, atividades intelectuais devem ser sempre realizadas em locais bem arejados – fato que parece óbvio, mas por muitos desprezado.

A hemoglobina também é essencial nesse processo, pois é ela que, com a ajuda dos íons ferro, transporta o oxigênio no sangue. A deficiência de ferro não se caracteriza apenas pela palidez da pele, mas também por cansaço e déficit de atenção. Inúmeros estudos já demonstraram que a anemia é causa frequente de problemas de leitura, raciocínio e linguagem. Como o déficit crônico nos primeiros anos de vida compromete o desenvolvimento cerebral, supõe-se que, mais tarde, as consequências sejam irreversíveis. No entanto, adultos que consomem dietas pobres em ferro também sofrem de prejuízos mentais significativos.

É o que mostra o estudo com mulheres anêmicas, publicado em 20i7 por pesquisadores da Universidade do Estado da Pensilvânia. Depois de 16 semanas de suplementação com esse mineral, todas as participantes obtiveram melhora considerável em diversos testes cognitivos.

Outra categoria de nutrientes essenciais para o bom funcionamento cerebral é a dos aminoácidos, as unidades básicas das proteínas. Eles podem ser de 20 tipos, dos quais oito são considerados essenciais porque nosso organismo não consegue sintetizá-los; logo, precisamos obtê-los nos alimentos.

As proteínas são decompostas em aminoácidos durante a digestão. Estes são absorvidos e, mais tarde, transformados pelo metabolismo celular em novas proteínas com as mais diferentes funções, anticorpos, enzimas, transportadores etc. Além disso, os aminoácidos são importantes também para a síntese de neurotransmissores. A fenilalanina e a tirosina, por exemplo, são matéria-prima para a produção de noradrenalina e dopamina. A acetilcolina, fundamental para os processos relacionados à memória, é sintetizada a partir do aminoácido colina, que pode vir da dieta ou da conversão de outros aminoácidos, como a serina e metionina

FONTES DE SEROTONINA

Entre os aminoácidos essenciais destaca-se o triptofano, base para síntese de serotonina, que também pode ser encontrada na banana, nas nozes e no tomate. No entanto, a serotonina dos alimentos não atinge o cérebro porque, diferentemente do triptofano (que é uma molécula menor), ela não atravessa a barreira hematoencefálica. Alguns estudos mostram que uma dieta pobre em triptofano prejudica a concentração e a memória. Contudo, a carência desse aminoácido é rara, pelo menos nos países industrializados. Peixe e carne magra, bem como leguminosas e derivados de leite, principalmente em combinação com carboidratos, elevam rapidamente os níveis de serotonina e, consequentemente, afastam a depressão.

Diferentemente das proteínas, as gorduras gozam de muito má reputação. Apesar de representarem uma importante fonte de energia, grandes quantidades de lipídeos de origem animal não fazem bem para o corpo nem para o cérebro. Os mais temidos são as chamadas

gorduras trans. e as saturadas, que elevam os níveis de LDL mais conhecido como colesterol ruim. As gorduras cis e as insaturadas, por sua vez, têm função importante no organismo, especialmente no cérebro. Merecem atenção especial ácidos graxos de cadeia longa e poli insaturados, como o Ômega – 3, encontrados nas algas e nos peixes, sobretudo na sardinha e no salmão. Segundo estudo recente, publicado em fevereiro deste ano por pesquisadores americanos e britânicos, o ômega-3 influencia a inteligência ainda no feto. Crianças de 8 anos cuja mãe consumiu mais de 340 g de peixe por semana durante a gravidez estavam à frente dos colegas da mesma idade quanta ao desenvolvimento linguístico.

 GORDURAS DO BEM

De forma geral, os ácidos graxos são importantes por fazer parte da membrana das células, inclusive dos neurônios, e da bainha de mielina. Além disso, eles ajudam a combater a aterosclerose e, logo, distúrbios da circulação cerebrovascular. Como demonstram as estatísticas, o consumo de uma a três porções de peixe por mês já reduz claramente o risco de infarto. Como alternativa ao peixe, que em alguns lugares vem contaminado com metais pesados, podem ser usados os óleos de linhaça, canola, soja e nozes: todos têm alto teor de ácido gama-linoleico. Trata-se de um ácido graxo do tipo ômega-3, mais curto que o presente na gordura do peixe, mas que em grandes quantidades pode ser transformado pelo organismo em ômega 3 de cadeia mais longa. Só não se deve esquecê-lo, pois altas temperaturas o transformam em gordura trans., e esta pode levar a dificuldades de aprendizado, pelo menos é o que foi observado em experimentos com animais. Assim, quando esses óleos vegetais são usados para frituras, todas as suas propriedades benéficas são eliminadas.

Vitaminas e sais minerais também são indispensáveis para o cérebro. Potássio, sódio e cálcio, por exemplo, são os elementos que mantêm os neurônios carregados eletricamente e aptos a disparar quando estimulados. Por outro lado, esses íons também atuam como cofatores em incontáveis reações enzimáticas. Algumas vitaminas exercem efeito protetor na medida em que neutralizam produtos metabólicos tóxicos para as células. Em 2014, a nutricionista France Bellisle, do Hospital Hotel-Dieu, em Paris, analisou um grande número de evidências e concluiu que a suplementação adequada de vitaminas em crianças e jovens com deficiência vitamínica pode elevar o quociente de inteligência. Crianças sem carência desses nutrientes, no entanto, não ficaram mais inteligentes com doses extras dessas substâncias.

Entre as vitaminas é preciso destacar a B1, essencial para o metabolismo cerebral, já que participa da queima da glicose. Basta uma leve carência desse componente (que não é difícil de atingir com uma alimentação fortemente baseada em fast-food) para que os sintomas apareçam, cansaço, apatia, depressão, lapsos de memória e problemas de concentração.

Tão importante quanto os nutrientes é a ingestão regular de líquidos. Uma pequena deficiência deles já reduz a capacidade mental – as consequências são cansaço e dores de cabeça, já que a circulação cerebrovascular diminui, prejudicando o abastecimento de nutrientes. Estudos comprovam déficit da memória de curto prazo. A pessoa age mais lentamente, fica mais inflexível, perde a visão de conjunto mais facilmente e tem dificuldade de compreender relações complexas.

BENEFÍCIOS DO CHÁ

Além da água, os chás e os sucos são excelentes fontes de líquidos para o cérebro. Em pequenas quantidades, a cafeína estimula a concentração em curto prazo. Aproximadamente 20 minutos depois de saborear uma xícara de café, novas informações aprendidas são mais bem armazenadas. Esse efeito dura até três horas, sendo mais forte e mais longo quanto menos a pessoa estiver acostumada à cafeína. Já em grandes quantidades, o café pode levar a irritação e perda de concentração. Chá verde e preto também nos deixam mais alertas, principalmente se forem infundidos por pouco tempo. Uma xícara de chá, no entanto, tem muito menos cafeína que o café e, além disso, ela é absorvida mais lentamente pelo corpo. Com isso, o efeito é mais fraco, mas em compensação dura mais tempo.

O efeito do desjejum também já foi bastante estudado nos últimos anos. Crianças que fazem uma refeição de manhã têm melhores resultados na escola que seus colegas que vão para a escola sem o café da manhã. Essa conclusão foi confirmada por dois estudos publicados em 2015 pelos psicólogos Gail C. Rampersaud, da Universidade da Flórida em Gamesville, e Howard Taras, da Universidade da Califórnia em San Diego. É claro que tudo depende da composição do café da manhã quanto mais rico em cereais e, portanto, em carboidratos complexos, melhor para o raciocínio na primeira parte do dia.

Pequenas “injeções de energia” na hora certa impedem ou reduzem quedas de produção. Assim, o ideal para um abastecimento perfeito do cérebro são refeições intermediárias que garantam um aporte constante de glicose no organismo.

Durante a manhã, a resistência pode ser elevada por um lanchinho com carboidratos e proteínas, por exemplo, um pedaço de fruta com iogurte ou queijo branco, ou pão integral com presunto magro ou queijo. Aliás, só o ato de mastigar já melhora a memória, como descobriu em 2012 a neurocientista Lucy Wilkinson, da Universidade de Northumbria, em Newcastle. Os participantes da pesquisa que testaram chicletes sem açúcar conseguiram memorizar melhor palavras, em comparação com os que não mastigaram nada. Os pesquisadores imaginam que a mastigação estimule a circulação sanguínea em certas regiões do cérebro.

Se tivermos de participar de pequenos testes ou de reuniões que exijam muito nossa atenção por curto período de tempo, o melhor é fazer, um pouco antes, uma refeição rica em proteína – um iogurte, por exemplo. É desaconselhável consumir doces antes de uma prova, a não ser que ela dure menos de 20 minutos, pois atividades longas e de concentração exigem carboidratos complexos, proteínas, vitamina B1, magnésio e os componentes proteicos tirosina e triptofano. Nesse caso também se sugere o consumo de produtos integrais, sempre combinados com legumes e frutas. Produtos lácteos, peixe e carne oferecem os componentes proteicos adequados. E o consumo suficiente de líquidos tem grande valor, pois apenas assim as substâncias nutritivas realmente chegam ao cérebro em quantidade suficiente.

 LEVEZA NO ALMOÇO

 Refeições leves, proteicas e com muitas vitaminas e sais minerais são ideais para o almoço. A capacidade produtiva se mantém alta e não se dá chance ao sono e à preguiça pós-prandial. Peixe grelhado, frango ou peru com legumes e salada são uma boa escolha. Um lanche rico em carboidratos deixa as crianças em boa forma para o esporte à tarde ou atentas para a lição de casa.  Para tanto, frutas, barrinhas de cereais e pães integrais devem estar sempre à mão.

Um jantar adequado possibilita um fim de dia agradável e um sono restaurador. A regra é simples: quanto menos, melhor. E, obviamente, deve-se evitar tudo o que for estimulante, como o café. São adequados pratos preparados com arroz, pequenas refeições com macarrão ou mesmo mingau de cereais, que sobrecarregam pouco o estômago e ao mesmo tempo disponibilizam energia para a síntese da serotonina (que é relaxante) e do hormônio do sono, a melatonina – ambas são produzidas a partir do triptofano. Não por acaso aquele antigo conselho de nossas avós – de tomar um copo de leite quente antes de dormir – está absolutamente certo.

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GESTÃO E CARREIRA

OS ENCRENQUEIROS

Eles são minoritários, mas barulhentos. Querem lucrar mais e mais rápido. Mesmo que precisem berrar, ofender e tornar a vida dos executivos um inferno. Eis os investidores ativistas. Prazer em conhecer?

Os encrenqueiros

A noite do último dia 17 de setembro não foi nada relaxante para David Taylor, presidente da Procter & Gamble. Ao ligar a televisão, ele teve de assistir à participação ao vivo em um programa de TV de Nelson Peltz, um acionista com US$ 3,5 bilhões investidos em ações da gigante americana dos produtos de consumo. Para dizer o mínimo, Peltz não se comportou como um investidor tradicional. Pelo contrário, parecia mais um desafeto figadal, disparando críticas e ameaças à direção da companhia. “Vocês estão supervisionando um cubo de gelo derreter”, metralhou. “Há uma década, ano após ano, vocês estão perdendo mercado. Sempre dizem que daqui para a frente a coisa vai ser diferente, e nunca nada muda.” Ui.

O que Peltz quer? Receber apoio na próxima assembleia de acionistas da P&G, marcada para meados de outubro, para se eleger a uma das 12 vagas do conselho de administração do centenário grupo fundado em 1837. Uma vez lá, ele tentará emplacar um plano radical – e ferozmente combatido pelos atuais administradores da companhia – de reestruturação, que inclui dividir a empresa em três. Peltz promete brigar até o fim: “Eu não sei nem soletrar a palavra derrota”, afirmou na TV. Vem mais chumbo grosso por aí.

O barulho provocado por Peltz é uma amostra do retorno à cena dos investidores minoritários ativistas, um pessoal que agitou o mercado financeiro durante a segunda metade da década de 90 e o início dos anos 2000, deixou os holofotes com a crise financeira global de 2008 e que agora, com as bolsas americanas batendo recordes, vive uma nova era de ouro. Põe ouro nisso. Uma pesquisa feita pelo Wall Street Journal mostra que, dez anos atrás, os ativistas movimentavam cerca de US$ 12 bilhões de ativos; hoje esse valor já supera os US$ 65 bilhões. “Os minoritários se tornaram uma fonte importante de captação de recursos para o mercado de capitais. Hoje eles não são mais formados em sua maioria por senhores que colocam suas aposentadorias em ações e sim pelos diretores de fundos de investimento”, explica Andréia Cristina Bezerra Casquet, professora do Insper Direito. Mais do que uma moda, o ativismo dos minoritários se tornou uma estratégia de peso do capitalismo global.

O objetivo dessa estratégia, claro, é ganhar dinheiro. Os ativistas são aqueles investidores que compram ações de uma empresa de capital aberto com o objetivo de conseguir assentos no conselho, ou influência sobre a direção executiva, para mudar os rumos da companhia. Esses investidores ficam de olho em empresas que eles julgam mal dirigidas, com custos excessivos, planos estratégicos equivocados ou algum outro problema que possa ser solucionado após seus gritos e resmungos de alerta – de modo que o lote de ações adquiridas se valorize e possa ser revendido com lucro.

Voz é o que não tem faltado para Peltz em sua disputa com a P&G. O criador da firma de investimentos Trian se tornou acionista no início deste ano, quando comprou US$ 3,5 bilhões em ações. A coisa desandou quando anunciou uma proposta para dividir a empresa em três partes, trocar toda a diretoria, cortar benefícios de funcionários e reduzir gastos com pesquisas. Os executivos foram à loucura e David Taylor, o CEO da P&G, classificou o plano como “perigoso para o futuro da empresa”. A aparição de Peltz na TV foi uma forma de rebater o executivo. “Perigoso é não fazer nada”, provocou.

A disputa se ampliou para o campo da competência pessoal. Taylor anunciou que a empresa fez um levantamento do desempenho de Peltz como investidor e que os resultados seriam, por assim dizer, desabonadores. Segundo o estudo, Peltz, em vez de adicionar valor no longo prazo, prejudica as empresas nas quais investe. É uma das primeiras vezes que a disputa entre um ativista e uma empresa cai para o lado pessoal.

Peltz não está sozinho no palco. Ao seu lado está o também americano Daniel Loeb, chefão da gestora Third Point. Dono de um estilo mercurial, Loeb é famoso pelas cartas mal-educadas que escreve para os diretores das empresas nas quais investe. Em 2005, mandou uma para o presidente da farmacêutica Ligand dizendo que ele era o “pior CEO da biotecnologia” e que não entendia como o conselho ainda não havia lhe “mostrado a porta de saída, acompanhada de um belo pontapé no traseiro”. Enviou outra para o executivo-chefe da Salton, após vê-lo na TV na final do torneio de tênis Aberto dos EUA, “bebendo e comendo petiscos” enquanto a empresa enfrentava uma crise.

O mais novo alvo de Loeb é a gigante suíça Nestlé. Não é apenas sua primeira incursão em terras europeias, onde o ativismo é bem menos comum do que nos Estados Unidos, mas a maior aposta de sua carreira: com um valor de mercado estimado em US$ 230 bilhões, a Nestlé é uma das maiores empresas do planeta. Para chacoalhar essa potência, o investidor comprou uma participação de US$ 3,5 bilhões e começou a fazer barulho. Segundo ele, a Nestlé está “presa a velhas práticas”, tem uma “cultura de gestão imobilizada” e uma “tendência a avanços graduais”. Para muitos analistas, uma companhia tipicamente europeia, sem problemas estruturais. Para Loeb, uma empresa que precisa vender uma série de marcas com índices de retorno baixos, se desfazer da participação de US$ 26 bilhões que possui na fabricante de cosméticos L’Oréal, aumentar sua margem de lucro operacional de 15% para 20% e, claro, promover um programa de recompra de ações – uma bela forma de ele obter lucro.

Curiosamente, é justamente o ativista mais conhecido do mundo que anda mais sossegado nos últimos tempos. Carl Icahn, aos 81, é uma espécie de poderoso chefão dessa turma: uma figura que todos respeitam por ter criado um império a partir do nada. Foi ele quem popularizou esse modelo de acionistas gritões em Wall Street, quando começou a pressionar os conselhos de empresas como a aérea TWA, a Nabisco e a Texaco, arrumando muita confusão pelo caminho – como ao dizer que a maior parte dos executivos é “idiota” e que a principal ferramenta que usou para ganhar seus bilhões foi “estudar a burrice humana”. Não por acaso, durante muitos anos Icahn foi visto no mercado de capitais americano como uma espécie de pirata. Gordon Gekko, o personagem vilão do filme Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme, dirigido por Oliver Stone, é inspirado em Icahn, que detesta a comparação. À frente de sua empresa, a Icahn Enterprises, o investidor tem atuado no mercado de tecnologia. Por “atuado” entenda-se “arrumado confusão”. Brigou com a Dell e chamou a liderança do eBay de “disfuncional”. Por outro lado, escorregou quando vendeu uma participação que tinha no Netflix, pouco antes de a empresa estourar mundo afora. Sua empreitada – ou vítima – mais recente é a Apple. No final de 2013, Icahn comprou mais de US$ 2 bilhões em papéis da empresa criada por Steve Jobs. Depois, começou a fazer ameaças veladas de iniciar uma disputa contra a direção do CEO Tim Cook. Só essa pressão bastou: a empresa recomprou os papéis, com uma bela recompensa para o investidor. O “Tio Icahn” continua em forma.

Mas, afinal, o ativismo é bom para o mercado de capitais? A resposta é um grande “talvez”. Um estudo da consultoria Activist Insight mostra que um grupo de 40 fundos ativistas teve um desempenho superior ao da média de mercado. Teria um retorno médio anual de 16,6%, frente aos 9,5% dos fundos tradicionais. No entanto, alguns analistas consideram o resultado questionável, porque a consultoria não especificou por que avaliou esses 40 fundos e deixou fora do estudo outras instituições que perderam dinheiro.

O que se pode dizer com certeza é que existem diversos pontos favoráveis e desfavoráveis. Pela visão otimista, trata-se de uma espécie de defesa dos minoritários contra eventuais abusos de poder por parte dos majoritários. Outro ponto positivo é que a ação ativista tira a gestão da empresa da zona de conforto. Cria um senso de urgência, faz com que decisões que vinham sendo postergadas saiam do papel. As chacoalhadas feitas por ativistas podem, sim, gerar uma empresa mais enxuta, com custos mais baixos e um retorno mais atrativo para os acionistas.

Mas o que funciona em uma determinada empresa pode se revelar um fiasco em outra. Não custa lembrar: analistas de modo geral tendem a focar demais no retorno a curto prazo, querendo resultados a cada trimestre, e com isso se descuidam de aspectos importantes no médio e longo prazo. No caso de Peltz, por exemplo, uma de suas recomendações é um corte radical nos gastos da P&G em pesquisa e desenvolvimento. Perfeito a curto prazo: aumenta o caixa, libera verba para outras áreas, turbina os próximos relatórios trimestrais e possivelmente eleva o valor das ações. Um baita negócio para Peltz, quando for revender sua participação. Mas um desastre potencial a longo prazo para a P&G, que pode se tornar uma empresa atrasada em novos lançamentos de produtos e estagnada em inovação diante da concorrência.

Enquanto lá fora os ativistas seguem, desculpem a redundância, ativos, por aqui o cenário é bem diferente, por uma série de motivos. Um deles é a própria estrutura do mercado no Brasil. Nos EUA, as empresas pulverizadas são a maioria. Com o controle difuso, fica mais fácil para que os ativistas consigam voz. Normalmente, basta amealhar apenas 5% de participação para conseguir um assento no conselho. Na Bovespa, a maior parte das companhias tem sócios majoritários ou blocos de controle: menos de 20% são corporações, com ações pulverizadas entre muitos sócios. Dessa forma, para garantir presença no conselho é necessário atingir 15% de representação – uma meta muito mais difícil.

A quantidade de empresas familiares ou com sócios majoritários definidos torna a palavrinha “ativismo” malvista no mercado brasileiro. “Há um receio de entrar peitando todo mundo, como os ativistas fazem nos EUA. Existe a visão de que numa empresa ‘com dono’ isso pode acabar gerando mais problemas do que soluções”, diz Dalton Sardenberg, professor da Fundação Dom Cabral. Dessa forma, os fundos que investem em participações nas empresas buscam uma estratégia mais amigável, de se colocar como parceiro do majoritário, sem esticar demais a corda. Eis o ativismo não ativo, uma legítima invenção brasileira.

Os episódios que fogem desse padrão são raros e nem sempre acabam bem, como a malsucedida passagem da gestora Tarpon pela direção da fabricante de alimentos BRF e a briga entre a rede de livrarias Saraiva com o polêmico investidor coreano Mu Hak You. Devido aos seus paradoxos, o cenário brasileiro chega a jogar grupos gigantes para a função de minoritários ativistas, como mostra a atual tentativa do BNDES de expulsar os irmãos Batista da direção da JBS, após os escândalos das gravações de conversas de políticos. Eis outra criação nacional: o ativismo estatal.

Enquanto o mercado brasileiro deve caminhar lentamente (há poucos sinais de uma expansão rápida no número de empresas de controle pulverizado na Bovespa), esse barulho todo pode ter seus decibéis multiplicados nos EUA ao longo dos próximos anos. De um lado, o ativismo deve chegar às pequenas e médias empresas, o segmento que concentra o maior número de problemas de gestão, ou seja, o campo mais favorável para esse tipo de ação. De outro, as próprias mídias sociais amplificam a voz dos ativistas. “Esse cara não precisa mais fazer cartas abertas, nem comprar espaço em jornais. Hoje uma pessoa com muitos seguidores no Twitter pode fazer um estrago grande”, afirma o professor Sardenberg. “O ativismo é uma estratégia que chegou para ficar.” Haja gritaria.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 25: 31 – 46 – PARTE II

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O Processo do Último Julgamento 

IV – O processo de julgamento em relação a cada um deles.

1. Em relação aos justos, à direita. A causa deles deve ser concluída primeiro, para que possam ser assessores com Cristo no julgamento dos pecadores, cuja desgraça será agravada quando eles virem Abraão, e Isaque, e Jacó admitidos no Reino de Deus (Lucas 13.28). Observe aqui:

(1) A glória conferida a eles. A sentença pela qual eles não somente serão absolvidos, mas também escolhidos e recompensados (v. 34): “Dirá o Rei aos que estiverem à sua direita” Aquele que era o Pastor o que evidencia a proteção e ternura com a qual Ele fará a sua averiguação, aqui é o Rei, o que evidencia a autoridade por meio da qual Ele pronunciará a sentença. Onde estiver a palavra do Rei, ali haverá poder. Há duas coisas nessa sentença:

[1] O reconhecimento dos justos como benditos do Senhor: “Vinde, benditos de meu Pai”. Em primeiro lugar, Ele os pronuncia “benditos”; e as suas palavras, de que eles são benditos, os torna abençoados. A lei os amaldiçoa pelos seus muitos abandonos de causa; mas Cristo, tendo-os redimido da maldição da lei, comprou a bênção para eles, e a colocou sobre eles. Em segundo lugar, “benditos de seu Pai”. Censurados e amaldiçoados pelo mundo, mas abençoados por Deus. Da mesma maneira como o Espírito glorifica o Filho (João 16.14), também o Filho glorifica o Pai, ao lhe entregar a salvação dos justos como um assunto de importância primordial; todas as nossas bênçãos nos lugares celestiais vindas a nós de Deus, como o pai de nosso Senhor Jesus Cristo (Efésios 1.3). Em terceiro lugar, Ele os convida para vir. Este vir é, na realidade: “Bem-vindos, dez mil vezes bem-vindos para as bênçãos do meu Pai; venham a mim, venham para estar comigo para sempre. Você que me seguiu carregando a cruz, agora caminhe comigo usando a coroa. Os benditos de meu Pai são os bem-amados da minha alma. Aqueles que estiveram a uma distância grande demais de mim; venham, agora, venham para o meu seio, venham para os meus braços, venham para o mais precioso abraço!” Oh! com que alegria isto encherá os corações dos justos nesse dia! Agora nós vamos, com ousadia, ao trono da graça, mas somente então iremos ao trono da glória; e esta palavra assegura que nos será estendido o cetro de ouro, com a certeza de que os nossos pedidos serão concedidos, mesmo que superem a metade do Reino. Agora o Espírito diz: Vinde, na palavra; e a esposa diz: Vinde, em oração; e o resultado disso é uma comunicação harmoniosa; entretanto, a perfeição da felicidade ocorrerá quando o Rei disser: Vinde.

[2] A admissão dos santos à bem-aventurança e ao Reino do Pai: “Possuí por herança o Reino que vos está preparado”.

Em primeiro lugar, a felicidade que eles terão será muito grande. Esta informação nos é dada por aquele que a conhece, pois ela lhe pertence, e Ele a reservou para aqueles que o servem.

1. E um “Reino”. Um reino é considerado como sendo a mais valiosa possessão na terra e inclui a maior riqueza e honra. Aqueles que herdam os reinos usarão todas as glórias da coroa, desfrutarão todos os prazeres da corte e comandarão os tesouros peculiares das províncias; ainda que isto seja somente uma pequena semelhança da felicidade dos santos no céu. Aqueles que aqui são pobres, prisioneiros, considerados como a escória de todas as coisas, herdarão então o Reino (Salmos 113.7; Apocalipse 2.26-27).

2. É um Reino “preparado”. A felicidade deve ser grande, porque é o produto dos conselhos divinos. Observe que há uma grande preparação produzida para o entretenimento dos santos no Reino da glória. O Pai o designou a eles em seus pensamentos de amor, e proporcionou-o a eles na grandeza de sua sabedoria e podei: O Filho conseguiu-o para eles, e Ele entra primeiro para preparar o lugar (João 14.2). E o bendito Espírito Santo, ao prepará-los para o Reino, está, na verdade, preparando-o para eles.

1. Está preparado para eles. Isto revela:

(1) A adequação dessa felicidade. Ela está, em todos os pontos, adaptada à natureza da alma, e à nova natureza de uma alma santificada.

(2) A posse e o interesse que eles têm nele. Ele está preparado intencionalmente para eles; não somente para aqueles que são como vocês, mas para vocês, que são chamados por seus próprios nomes; para vocês, pessoal e particularmente, que foram escolhidos para a salvação pela santificação.

2. Está preparado “desde a fundação do mundo”. Esta felicidade foi designada para os santos, e eles para ela, “antes dos tempos dos séculos”, e por toda eternidade (Efésios 1.4). O fim, que é executado por último, é o primeiro na intenção. A Infinita Sabedoria tem um objetivo na glorificação eterna dos santos, desde a primeira fundação da criação: “Porque tudo isso é por amor de vós” (2 Coríntios 4.15). Ou isto, denota a preparação do lugar para essa felicidade, que será o assento e a morada dos benditos, que está preparado desde o início da obra da criação (Genesis 1.1). Ali, no céu dos céus, as estrelas da alva cantavam juntas alegremente, enquanto era criada a fundação da terra (Jó 38.4-7).

Em segundo lugar, a maneira pela qual eles tomarão posse é muito interessante: eles deverão vir e herdá-lo. Aquilo que recebemos por herança não foi conseguido por nossa aquisição, mas meramente, como os advogados expressam, por um ato de Deus. É Deus que nos faz herdeiros, herdeiros dos céus. Nós alcançamos a herança em virtude da nossa condição de filhos, da nossa adoção; se somos filhos, então somos herdeiros. Um título que se recebe por herança é o título mais doce e mais seguro; e neste caso, ele se refere à possessão na terra de Canaã, que era transferida por herança, e não seria alienada além do ano do Jubileu. Por essa razão, a herança divina é irrevogável e inalienável. Os santos neste mundo são como os herdeiros quando meninos: estão sob os cuidados de tutores e curadores até ao tempo determinado pelo pai (Gálatas 4.1-2); e então lhes será dada a completa possessão daquilo a que agora, por meio da graça, eles têm direito. “Vinde”, e possuí-o por herança.

(2) A razão para isso (vv. 35,36): “Porque tive fome, e destes-me de comer”. Nós não podemos, portanto, deduzir que quaisquer boas palavras nossas merecem a felicidade do céu, por qualquer valor ou excelência intrínseca que haja nelas. A nossa generosidade se estende não a Deus, mas está claro que Jesus Cristo irá julgar o mundo pelas mesmas regras pelas quais Ele o governa, e, sendo assim, irá recompensar aqueles que foram obedientes à lei; e será feita menção à sua obediência, não como seu título, mas como sua evidência de um interesse em Cristo, e no seu resgate. Essa felicidade será concedida aos crentes obedientes, não sobre uma estimativa de mérito, o que pressupõe uma proporção entre a obra e a recompensa, mas com base na promessa de Deus, comprada por Jesus Cristo, e o seu benefício assegurado sob certas condições e limitações. A compra e a promessa é que dão o direito; a obediência é apenas a qualificação da pessoa em questão. Pode-se dizer que uma propriedade é obtida mediante uma condição por meio de cessão ou testamento, quando a condição se concretiza em conformidade com a verdadeira intenção do doador ou de quem fez o testamento, tornando-se absoluta; e então, embora o direito esteja baseado exclusivamente na cessão ou no testamento, ainda assim a concretização da condição deve ser dada em evidência, e é isto o que ocorre aqui; pois Cristo é o Autor da salvação eterna, que só é dada àqueles que o obedecem, e que pacientemente continuam procedendo bem.

As boas obras aqui mencionadas são aquelas normalmente chamadas de caridade aos pobres. Muitos estarão à sua direita, porém nunca tiveram como alimentar quem tinha fome, ou vestir quem estava nu, mas foram, eles mesmos, alimentados e vestidos pela caridade de outros. Um exemplo de obediência sincera é colocado para os demais, ensinando nos que, de modo geral, a fé que trabalha através do amor é tudo em todos no cristianismo. “Mostra-me a tua fé pelas tuas obras”, e nada será abundante para uma prestação de contas futura, exceto os frutos da justiça em uma boa conduta agora. As boas obras aqui descritas implicam em três coisas, que devem ser encontradas em todos os que são salvos.

[1) A renúncia de si mesmo, e o desprezo pelo mundo. Considerar as coisas do mundo não traz bons resultados que nos permitam fazer o bem com elas. E aqueles que não possuem os recursos para fazer o bem, devem exibir a mesma disposição, sendo pobres, satisfeitos e alegres. Aqueles que são mortificados para as coisas da terra são aptos a morar no céu.

[2) O amor pelos nossos irmãos; o que é o segundo grande mandamento, o cumprimento da lei, e um excelente preparativo para o mundo em que reina o amor eterno. Nós devemos dar evidências desse amor pela nossa disposição em fazer o bem, e transmitir o Evangelho; os bons desejos não são nada além de zombarias, sem as boas obras (Tiago 2.15,16; 1 João 3.17). Aqueles que não têm o que dar, devem mostrar a mesma disposição de alguma outra maneira.

[3) Uma consideração respeitosa por Jesus Cristo, através da fé. O que é aqui recompensado é a ajuda aos pobres, por amor a Cristo, e conforme a sua orientação. Isso confere uma excelência à boa obra, uma vez que através dela nós servimos ao Senhor Jesus, e isto se aplica tanto àqueles que realizam essa obra para viver quanto àqueles que ajudam a conservar vivas outras pessoas. Veja Efésios 6.5-7. As boas obras que serão aceitas são aquelas feitas em nome do Senhor Jesus (Colossenses 3.17).

“Tive fome,” isto é, meus discípulos e seguidores tiveram fome, seja pelas perseguições dos inimigos por eles fazerem o bem, ou pelas dispensações comuns da Providência; pois, nessas coisas, há um único fato para os justos e para os pecadores: E destes de comer a eles. Observe, em primeiro lugar, que a Providência ordena e dispõe as circunstâncias do seu povo neste mundo de variadas maneiras, de modo que enquanto alguns têm condições de propiciar ajuda, outros necessitam dela. Não é novidade para aqueles que se alimentam com as guloseimas do céu ter fome e sede, e lhes faltar o alimento cotidiano; para aqueles que se sentem à vontade como se estivessem em casa quando estão em Deus, ser estrangeiros em terra alheia; para aqueles que se revestiram de Cristo, necessitar de roupas para se manterem aquecidos; para aqueles que têm almas saudáveis, ter corpos enfermos; e para aqueles que estão na prisão, que Cristo os tenha feito livres. Em segundo lugar, as obras de caridade e beneficência, conforme a nossa capacidade, são necessárias para a salvação; e elas serão ainda mais importantes no julgamento do grande Dia do que normalmente se imagina; elas devem ser as evidências do nosso amor, e da submissão que confessamos em relação ao Evangelho de Cristo (2 Coríntios 9.13). Mas aqueles que não mostram misericórdia, serão julgados sem misericórdia.

Esta razão é modesta mente questionada pelos justos, mas é o próprio Juiz que a explica.

1. Ela é questionada pelos justos (w. 37-39). Não como se eles se recusassem a herdar o reino, ou se envergonhassem das suas boas obras. ou não tivessem o testemunho da consciência em relação a si mesmos; mas:

(1) As expressões são alegóricas, com o objetivo de apresentar e gravar essas grandes verdades, de que Cristo tem uma grande consideração pelas obras de caridade, e se agrada especialmente pela generosidade demonstrada ao seu povo, em seu nome. Ou:

(2) Elas evidenciam a humilde admiração dos santos glorificados ao encontrar obras tão pobres e sem valor, como são as suas, tão grandemente celebradas e ricamente recompensadas: “Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer?” Observe que as almas que têm graça são capazes de pensar humildemente sobre as suas próprias boas obras, especialmente como sendo indignas de serem comparadas com a glória que há de ser revelada. Longe disso está o estado de espírito daqueles que disseram: “Por que jejuamos nós, e tu não atentas para isso?” (Isaias 58.3). Os santos no céu perguntarão a si mesmos o que os levou para lá, e se admirarão de que Deus considere tanto a eles, como aos seus serviços. Natanael deve ter chegado a corar ao ouvir o elogio que Cristo lhe fez: “De onde me conheces tu?” (João 1.47,48). Veja Efésios 3.20. ‘”Quando te vimos com fome?’ Nós vimos os pobres, em sofrimento, muitas vezes; mas quando foi que te vimos assim?” Observe que Cristo está mais entre nós do que pensamos que Ele está. Na verdade, o Senhor está neste lugar, pela sua Palavra, pelas suas ordenanças, pelos seus ministros, pelo seu Espírito, sim, e pelos seus pobres, e nós não sabemos disso: “Te vi eu estando tu debaixo da figueira” (João 1.48).

2. Ela é explicada pelo próprio Juiz (v. 40): “Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. As boas obras dos santos, quando apresenta­ das no grande Dia:

(1) Serão todas lembradas; e nem uma das menores delas será ignorada, nem um copo de água fria.

(2) Elas serão interpretadas da melhor maneira, e com o melhor significado que lhes puder ser atribuído. Assim como Cristo faz o melhor das fraquezas dos santos, Ele também faz o máximo dos seus serviços.

Nós vemos as recompensas que Cristo tem para aqueles que alimentam os que têm fome, e que vestem os que estão nus. Mas o que será do pobre devoto que não tem recursos para fazer isso? Eles ficarão do lado de fora? Não:

[1] Cristo os reconhecerá, até mesmo o menor deles, como seus irmãos. Ele não se envergonhará, nem pensará que possa ser alguma depreciação para si mesmo, chamá-los de irmãos (Hebreus 2.11). Mesmo nos pícaros da sua glória, Ele não deixará de reconhecer esses seus parentes pobres; Lázaro está ali, no seu seio, como um amigo, como um irmão. É assim que Ele os confessará (cap. 10.32).

[2] Ele irá interpretar a gentileza feita aos pobres como tendo sido feita a si mesmo: “A mim o fizestes”. Observe que Cristo abraça a causa do seu povo, e se interessa pelo que interessa a eles, e se considera recebido, amado, e aceito neles. Se o próprio Cristo estivesse entre nós, na pobreza, com que presteza o ajudaríamos? Na prisão, com que frequência nós o visitaríamos? Nós estamos prontos para invejar a honra que tinham aqueles que o serviam com as suas fazendas (Lucas 8.3)? Onde estiverem santos pobres e ministros pobres, ali Cristo estará, pronto para receber neles a nossa bondade, e ela será levada em conta.

3. Aqui está o processo relacionado aos pecadores, aqueles que estão à esquerda. E quanto a isso, nós temos:

(1) A condenação que eles recebem (v. 41). Será uma desgraça estar colocado à esquerda; mas isto não é o pior de tudo. Ele dirá a eles: “Apartai-vos de mim, malditos”. Cada uma dessas palavras transmite terror, como o terror que trouxe a trombeta no monte Sinai, cada vez mais forte, cada inflexão mais e mais dolorosa, e sem nenhum consolo.

[1] Estar tão próximo de Cristo representava alguma satisfação, embora sob o seu olhar reprovador; mas isto já não mais será permitido: “Apartai-vos de mim”. Neste mundo, eles sempre foram chamados para ir a Cristo, para ir até a vida e o repouso, mas se recusaram a ouvir os seus convites; por isso, justamente, eles recebem a ordem de afastar-se de Cristo, pois não vieram a Ele. ”Apartem-se de mim, a Fonte de todo o bem, de mim, o Salvador, e, portanto, de toda a esperança de salvação. Eu nunca mais terei nada a dizer a vocês, nunca mais terei nada a ver com vocês”. Aqui, na terra, eles disseram ao Todo-Poderoso: Aparta-te de nós. Mas ali. Ele selecionará os enganos deles, e lhes dirá: ”Apartai-vos de mim”. Observe que afastar-se de Cristo é algo tão ruim, que pode ser considerado o inferno dos infernos.

[2] Se eles devem se afastar; e afastar-se de Cristo, eles não poderiam receber uma bênção na despedida, uma palavra gentil e misericordiosa, pelo menos? Não. ”Apartai- vos… malditos”. Aqueles que não vieram a Cristo para herdar uma bênção, devem afastar-se dele sob o peso de uma maldição, aquela maldição da lei que recai sobre todos os que a infringem (Gálatas 3.10). Como eles gostavam de amaldiçoar, ela também virá sobre eles. Observe que os justos são chamados “benditos de meu Pai”; entretanto, o fato de eles serem benditos se deve pura mente à graça de Deus e à sua bênção, mas os pecadores, aqui, são chamados somente de “malditos”, pois a sua condenação vem deles mesmos. Deus os vendeu? Não, eles mesmos se venderam, e se colocaram sob a maldição (Isaias 50.1).

[3] Se eles devem partir, e partir com uma maldição, eles não podem ir a algum lugar de paz e repouso? Já não será desgraça suficiente para eles lamentar a sua perda? Não. Há uma punição dos sentidos, além da perda; eles devem se afastar para ir para o fogo, para um tormento tão terrível como fogo o é para o corpo, e muito mais. Est e fogo é a ira do Deus eterno, prendendo-se às almas e às consciências culpadas dos pecadores, que se tornaram combustíveis para ele. O nosso Deus é um fogo consumidor, e os pecadores caem imediatamente nas suas mãos (Hebreus 10.31; Romanos 2.8,9).

[4] Se é necessário ir para o fogo, não pode ser um fogo leve ou brando? Não, é um fogo “preparado”; um tormento ordenado “desde ontem” (Isaias 30.33). A condenação dos pecadores frequentemente é mencionada como um ato de poder divino. Ele tem o poder de lançar no inferno. Nos vasos da ira, Ele torna conhecido o seu poder; isto é uma “eterna perdição, ante a face do Senhor e a glória do seu poder”. Nela, se verá o que um Deus provocado pode fazer para tornar uma criatura provocadora miserável.

[5] Se é ao fogo, a um fogo preparado: Oh!, Que seja apenas de curta duração, que eles apenas passem através do fogo. Não. O fogo da ira de Deus será um fogo eterno; um fogo que, prendendo-se às almas imortais, e atacando-as, nunca poderá se extinguir por falta de combustível; e, queimando e ardendo pela ira de um Deus imortal, nunca poderá se extinguir, por não ser soprado ou atiçado; e, estando excluídas para sempre as correntezas da misericórdia e da graça, não existe nada que extinga este fogo. Se uma gota de água é negada para esfriar a língua, baldes de água nunca serão concedidos para extinguir esta chama.

[6] Se eles precisam ser condenados a tal condição de desgraça interminável, pelo menos eles não podem ter alguma boa companhia ali? Não, ninguém, exceto “o diabo e seus anjos”, seus inimigos declarados, que ajudaram a levá-los a esta infelicidade, e irão vencê-los. Eles serviram ao diabo enquanto viveram, e por isso são justamente condenados a estar onde ele está, assim como aqueles que serviram a Cristo são levados para estar com Ele onde Ele está. É terrível estar em uma casa assombrada por demônios. O que será, então, a companhia deles para sempre? Em primeiro lugar, observe aqui que Cristo sugere que existe alguém que é o príncipe dos demônios, o líder da rebelião, e que o resto deles são os seus anjos, seus mensageiros, com cujo auxílio ele sustenta o seu reino. Cristo e os seus anjos, naquele dia, irão triunfar sobre o dragão e os seus anjos (Apocalipse 12.7,8). Em segundo lugar, está dito que a fogueira está preparada, não necessariamente para os maus, como o reino está preparado para os justos; mas ela, originalmente, se destinava apenas “para o diabo e os seus anjos”. Se os pecadores se associarem com Satanás, tolerando os seus desejos, eles poderão agradecer a si mesmos se compartilharem essa desgraça que foi preparada tanto para Satanás como para os seus colaboradores. A respeito disso, Calvino observa que por isso está dito que o tormento dos condenados está “preparado para o diabo e seus anjos”, para extirpar toda a esperança de escapar a ele. O diabo e os seus anjos já estão feitos prisioneiros no seu covil, e será que os vermes da terra pensam em escapar?

(2) O motivo dessa condenação. Os julgamentos de Deus são todos justos, e Ele será justificado neles. Ele é o próprio Juiz, e por isso, “os céus anunciarão a sua justiça”.

Considere que:

[1] Tudo aquilo de que são acusados, e em que se baseia a condenação, é de omissão. Assim como antes, o servo foi condenado, não por gastar o seu talento, mas por enterrá-lo, também aqui. Ele não diz: “Eu tive fome e sede, pois vocês tomaram de mim o meu alimento e a minha bebida; Eu fui um estrangeiro, por­ que vocês me expulsaram; Eu estava nu, porque vocês me despiram; na prisão, porque vocês me colocaram ali”, mas: “Quando Eu estava passando por estas aflições. vocês foram tão egoístas, ficaram tão absorvidos na sua própria tranquilidade e no seu próprio prazer, se preocuparam tanto com o seu trabalho e estavam tão pouco dispostos a se separar do seu dinheiro, que vocês não ministraram, como poderiam ter feito, para o meu alívio e socorro. Vocês foram como aqueles amantes dos prazeres, que estavam em tranquilidade em Sião, e não se afligiram ‘pela quebra de José'” (Amós 6.4-6). Observe que as omissões são a ruína de milhares de pessoas.

[2] É a omissão de obras de caridade aos pobres. Eles não são condenados por omitir os seus sacrifícios e holocaustos (eles faziam isso abundantemente, Salmos 50.8), mas por omitir as questões mais importantes da lei, “o juízo, a misericórdia e a fé”. Os amonitas e moabitas não podiam entrar no santuário, porque não saíram para receber a Israel “com pão e água” (Deuteronômio 23.3,4). Observe que a falta de caridade aos pobres é um pecado condenável. Se não formos levados às obras de caridade com a esperança de recompensa, que sejamos influenciados pelo temor da punição, pois aqueles que não mostrarem misericórdia, serão julgados sem misericórdia. Jesus não diz: “Eu estava enfermo, e não me curastes; na prisão, e não me libertastes” (talvez isto fosse mais do que eles poderiam fazer), mas: “Vós ‘não me visitantes’, o que poderieis ter feito”. Note que os pecadores serão conde­ nados naquele grande Dia pela omissão daquele bem que eles podiam fazer. Mas se a condenação dos não-caridosos era tão terrível, quanto mais intolerável será a condenação dos cruéis, a condenação dos perseguido­ res! O motivo para essa condenação é:

Em primeiro lugar, a objeção dos prisioneiros (v. 44): “Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede?” Os pecadores condenados, embora não tenham nenhuma defesa que os justifique, em vão irão oferecer desculpas. Agora:

1. A forma do seu apelo evidencia a sua precipitação atual. Eles falaram claramente, como homens apressados: “Quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu”? Eles não se importam em repetir a acusação, como se estivessem conscientes da sua própria culpa, e fossem incapazes de suportar o terror do julgamento. Também não terão tempo para insistir com apelos tão frívolos; pois tudo isso é apenas (como dizemos) “brincar com a corte”.

2. A questão do seu apelo evidencia a sua antiga falta de consideração com aquilo que deveriam ter sabido, mas não souberam até que fosse tarde demais. Aqueles que tinham desprezado e per­ seguido os cristãos pobres, não reconheceram que tinham desprezado e perseguido a Cristo. Não, eles nunca pretenderam nenhuma afronta a Ele, nem esperavam que um problema tão grande surgisse disso. Eles imaginaram que era apenas um grupo de pessoas pobres, fracas, enfermas e desprezíveis, que faziam mais barulho do que era necessário sobre o Evangelho, e por isso eles as desprezavam. Mas aqueles que fazem isso virão a saber, seja no dia da sua conversão, como foi o caso de Paulo, ou da sua condenação, como é o caso desses, que era Jesus que eles perseguiam. E se eles dizem: “Eis que o não sabemos; porventura, aquele que pondera os corações não o considerará?” (Provérbios 24.11,12).

Em segundo lugar, é justificada pelo Juiz, que irá condenar todos os ímpios por todas as duras palavras proferidas contra Ele, quando falam daqueles que são seus (Judas 15). Ele segue a sua regra (v. 45): “Quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim”. Observe que aquilo que é feito contra os fiéis discípulos e seguidores de Cristo, até mesmo o menor deles, o Senhor assume como tendo sido feito contra si mesmo. Ele é reprovado e perseguido na pessoa deles, pois eles são reprovados e per seguidos por amor a Ele, e Ele se aflige por todas as aflições que eles sofrem. Aquele que os toca, toca nele, em uma parte não menos sensível que a menina dos seus olhos.

Por fim, aqui essas duas sentenças são executadas (v.46). A execução é a vida da lei, e Cristo irá se certificar de que seja feita de acordo com a sentença.

1. Os pecadores serão conduzidos à punição eterna. A sentença será, então, executada rapidamente, e não existe adiamento, não há tempo para se solicitar uma revisão da sentença. A execução dos pecadores é mencionada primeiro; pois primeiro é juntado e queimado o joio. Observe que:

(1) A punição dos pecadores, no estado futuro, será uma punição eterna, pois este estado será uma situação inalterável. Não se pode pensar que os pecadores poderiam modificar as suas próprias naturezas. Deus não daria a sua graça para modificá-los, uma vez que neste mundo o Dia da Graça foi mal utilizado, eles resistiram ao Espírito da graça, e os meios da graça foram frustrados e utilizados de forma abusiva.

(2) Os pecadores serão obrigados a sofrer aquela punição. Não irão voluntariamente. Não. Eles serão levados da luz às trevas; mas isso evidencia uma irresistível convicção de culpa e um desespero final por misericórdia.

2. Os justos serão levados à vida eterna, isto é, eles herdarão o Reino (v.34). Observe que:

(1) O céu é vida, é só felicidade. A vida da alma resulta da sua união com Deus, por meio da mediação de Jesus Cristo, assim como a vida do corpo resulta da sua união com a alma, por meio do espírito que Deus nos deu. A vida celestial consiste em ver o Senhor Deus e desfrutar a sua presença, em perfeita conformidade com Ele, e em uma comunhão imediata e ininterrupta com Ele.

(2) É a vida eterna. Não existe morte que dê fim à própria vida, nem velhice para dar fim ao seu conforto, nem tristeza para amargurá-la. Assim, a vida e a morte, o bem e o mal, a bênção e a maldição, estão diante de nós, para que possamos escolher o nosso caminho. E assim será o nosso fim. Até o pagão tinha alguma noção dessas diferentes condições de bem e mal, no mundo por vir.