PSICOLOGIA ANALÍTICA

CRIANÇAS TRANSTORNADAS

São cada vez mais evidentes os males provocados pela medicalização indiscriminada, especialmente na vida escolar, o que pode trazer consequências irreversíveis para a pessoa

Crianças transtornadas

Tivemos momentos na história em que o indivíduo era altamente prejudicado pela carência de critérios diagnósticos confiáveis que permitissem seu tratamento médico, muitas vezes chegando a óbito. Contudo, no século XXI vivemos uma grande ebulição das práticas diagnósticas. Crê-se que nos diagnósticos são encontradas as respostas para o tratamento e cura do indivíduo. Todavia, nem sempre essas práticas contribuem para o desenvolvimento de uma vida plena e saudável, pois muitas vezes são realizadas de forma indiscriminada, sem discussão sobre a massificação de casos de supostas doenças, síndromes ou transtornos de ordem psíquica que conduzem o indivíduo a modificações comportamentais por meio de sua medicalização. De maneira geral, os critérios diagnósticos acusam, nomeiam e classificam incapacidades, problemas, déficits, anormalidades que categorizam os indivíduos segundo resultados homogêneos, deixando à margem suas singularidades, sua subjetividade. Lamentavelmente, grande parte desses indivíduos é constituída por crianças em idade escolar.

O diagnóstico, quando realizado de maneira indiscriminada e/ou equivocada, traz consigo efeitos iatrogênicos que impactam até mesmo de forma perigosa a vida do indivíduo. Quando as características do que foi diagnosticado se apresentam como mais evidentes do que o próprio ser humano, encontramos nas relações humanas um comportamento que gera a “coisificação ” do indivíduo. Ele não é mais uma pessoa concebida e considerada pela sua subjetividade, mas sim a evidência, a materialização daquela “coisa” que antes era abstrata, o rótulo e as características dessa “coisa”. Infelizmente, em grande parte dos casos, passa a ser maior do que o próprio indivíduo frente à sociedade a qual pertence. Por essa causa encontramos em muitas escolas professores que, quando se referem a certos aprendizes, dizem: “aquele é o TDAH, aquele é o autista e aquela é a Down”, ou seja, essas crianças são nominadas não mais pelos seus nomes próprios, mas sim pelo quadro sintomático que a partir do diagnóstico emitido nelas foi materializado. Vale ressaltar que a homogeneização visa o controle do indivíduo pela sociedade contemporânea e o diagnóstico tem esse poder. Em outras palavras, o indivíduo curioso, questionador, superativo, resistente a cumprir todas as tarefas propostas, autêntico, criativo em sua maneira de ser acaba por incomodar a sociedade. Portanto, incomoda também a escola, que é a própria sociedade na forma de uma instituição que molda os indivíduos para serem segundo o que lhes foi predestinado pelas normas já estabelecidas como padrão de comportamento, padrão de vida. Quem assim não é foge aos padrões, logo é anormal ou rebelde.

Segundo Barbier, espera-se não um diagnóstico focado no quadro sintomático, mas a construção de sentido e significado sobre a doença para o indivíduo. No caso das muitas crianças concebidas como “transtornadas” por alguma suposta doença, síndrome ou transtorno deveria haver uma preocupação sobre o significado destas para suas famílias e para si mesmas; sobre a relação da pessoa com seu corpo, sua singularidade, sua forma de ser e viver.

Por causa da soberania dos diagnósticos fundamentados, principalmente na observação comportamental, é que se construiu uma imagem exacerbada sobre os comportamentos das crianças com transtorno do espectro do autismo, transtorno do déficit de atenção e com hiperatividade dentre outros e, como consequência, crê-se que essas crianças são hiperativas, agressivas, alienadas, desafiadoras, sem condições de aprender como as demais, submersas em seu mundo particular e até mesmo uma ameaça para outras crianças e que por isso devem frequentar ambientes terapêuticos segregados.

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FATORES PARTICULARES

A medicalização indiscriminada tem se estabelecido como um poderoso elemento no desmantelamento dos direitos humanos, pois a partir de seu cientificismo emanam discriminações, estigmas e preconceitos que dão margem às desigualdades entre os indivíduos desencadeados por fatores particulares. De acordo com Moysés e Collares, ”A normatização da vida tem por corolário a transformação dos problemas da vida em doenças, em distúrbios. O que escapa às normas, o que não vai bem, o que não funciona como deveria… tudo é transformado em doença, em problema individual. Afasta-se a vida, para sobre ela legislar, muitas vezes destruindo-a violenta e irreversivelmente”.

Nesse contexto, a medicalização tem o objetivo de restringir, modificar, diminuir ou cessar certos comportamentos concebidos como anormais e que fogem ao padrão conservador da sociedade. Como exemplo, podemos citar o objetivo de modificar o comportamento mais ativo de crianças com diagnóstico de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade para que estas se apresentem mais quietas, atenciosas e concentradas na sala de aula.

Segundo a OMS, cerca de 4 % dos adultos e de 5 % a 8 % de crianças e adolescentes têm TDAH e calculam que pelo menos duas crianças de uma sala de aula de 40 alunos tenham o transtorno (Medeiros, 2013). Nota-se, mais uma vez, a presença da supervalorização do diagnóstico que nomeia, classifica e rotula o indivíduo a partir de seu comportamento.

Sob o prisma do tratado das doenças que evidenciam comportamentos diferentes como se fossem um desvio em relação ao que é considerado normal do ponto de vista fisiológico, essa criança deve ser medicalizada precocemente por entenderem que a “transtornada” terá alterações de conduta por toda sua vida, podendo, inclusive, se envolver em ações criminosas ainda na adolescência.

Nesse caso, o medicamento mais utilizado tem sido a Ritalina (nome comercial), que atua como um estimulante do sistema nervoso central e potencializa a ação da noradrenalina e dopamina. O Brasil é o segundo maior consumidor do planeta de Ritalina.

Percebe-se que há uma irresponsabilidade a respeito do impacto da medicalização na vida das crianças. Na verdade, não há nada que comprove cientificamente que o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade comprometa a aprendizagem das crianças. Entretanto, por certo que os efeitos colaterais da “droga da obediência” podem trazer prejuízos de todo tipo para seu desenvolvimento global, afetando profundamente seu processo de aprender como sujeito singular com possibilidades de aprendizagem como é próprio da espécie humana.

AUTISMO

Sobre o transtorno do espectro do autismo, a ONU acredita haver mais de 70 milhões de pessoas em todo o planeta, afetando a maneira como esses indivíduos se comunicam e interagem.

Em 2007, na Conferência e Exposição Nacional da Academia Americana de Pediatria, realizada em São Francisco, EUA, um estudo de observação dos padrões de prescrição médica apontou que 80% das crianças diagnosticadas com autismo ou síndrome de Asperger (TEA) são tratadas com pelo menos um medicamento psiquiátrico. Para aproximadamente 30% dos pacientes foram prescritos medicamentos antipsicóticos, 40% antidepressivos, 40% estimulantes e aproximadamente 30% receberam alguma outra classe de medicamento, incluindo estabilizador de humor e anticonvulsivantes. Alguns pacientes foram tratados com vários medicamentos. Segundo comentário de George W. Rutherford, professor de Epidemiologia na Universidade da Califórnia, em São Francisco, ao periódico Medscape Pediatrics: “Se você procurar ver o que seus colaboradores estão fazendo, há uma tendência para tratar uma grande parte destes pacientes com medicamentos psicotrópicos”, disse em uma entrevista.

E ainda complementa: “Assim como em muitas condições psiquiátricas em crianças, sabemos realmente muito pouco sobre como esses medicamentos realmente funcionam, e como deveriam ser usados na prática. Esse realmente é um primeiro passo na pesquisa que deveria basicamente motivar mais pesquisas”.

Nota-se que não existe um padrão específico para o tratamento do TEA, tampouco esse transtorno, tal como também é concebido, é uma doença para ser curada. Os medicamentos utilizados se apresentam como uma tentativa de ensaio e erro para averiguar qual deles é mais promissor para a modificação de comportamentos não desejados. Sujeita-se, portanto, a criança à medicalização sem levar em conta os efeitos colaterais sobre sua vida, muito menos sobre seu processo de aprendizagem, uma vez que é com um concebê-las como seres incapazes de aprender junto a outras crianças.

A medicalização da vida da criança é hoje popularmente aceita pela maioria das famílias em razão da falta de conhecimento e informação sobre os desencadeamentos iatrogênicos que podem ocorrer. Ainda sobre o TEA, segundo um estudo feito por Holland, por cerca de 20 anos o governo federal americano negou publicamente a relação entre vacinas em crianças e autismo. Contudo, o Programa de Compensação por Lesões Causadas por Vacinas pagou indenizações por danos de vacinas para crianças que apresentaram quadros de lesão cerebral, convulsão e autismo.

Face a esse trabalho, o diretor executivo da Safe Minds, Lyn Redwood, comentou: “Esse estudo muda dramaticamente o debate sobre autismo e vacinas. A questão não é mais se é possível que as vacinas causem o autismo. A resposta é clara. Agora, temos de perguntar: quantos casos de autismo as vacinas causaram e como nós podemos prevenir novos casos?”.

O estudo realizado investigou aproximadamente I.300 casos de lesão cerebral infantil como resultado de vacinas em que o Juizado Especial da Vacina deu ganho de causa para os demandantes, em busca de referências ao autismo, sintomas de autismo ou desordens comumente associadas ao autismo. A hipótese de que o TEA pode ser desencadeado na criança após determinadas vacinas é crescente e tem instigado pesquisadores a estudarem mais o assunto.

Não é uma questão de se posicionar veementemente contrário às vacinas. Isso não resolve o problema da dúvida sobre elas. Mas sim averiguar como se dão a fabricação e a aplicação das vacinas e medicamentos, bem como seus efetivos riscos contra a saúde humana. Será que precisamos da medicalização de tudo? É preciso ampliar os estudos diante dessa hipótese.

Outras pesquisas sobre o impacto da medicalização na vida das crianças indicam que nosso organismo tem condições de gerar anti­corpos para muitas doenças e que, portanto, não haveria necessidade da criação de vacinas para todas as doenças que talvez pudéssemos contrair em algum momento de nossas vidas. Em 2010, o Instituto Nacional de Saúde da Finlândia (THL) suspendeu o uso da vacina H1N1 pela decorrência de distúrbios neurológicos gerados em crianças e jovens, especificamente a narcolepsia, que tem como sintoma o aumento da necessidade de sono e que resulta no indivíduo adormecer, de repente, sem nenhum tipo de aviso, além de seus músculos poderem se enfraquecer e, subitamente, colapsar. Até a presente data, nenhuma cura é conhecida para a doença. Além da Finlândia, houve um número elevado de casos de narcolepsia na Suécia após uma campanha da vacina H1N1 em 2009 / 2010. E, ainda, tanto as vacinas contra a gripe tradicional como a H1N1 estão associadas a uma série de efeitos colaterais em todo o planeta, incluindo casos da síndrome de Guillain-Barré e distonia. A vacina contra a gripe tradicional tem sido associada às convulsões em menores de 5 anos de idade.

Segundo Kent Holtorf, especialista em doenças infecciosas, a dose de mercúrio na vacina contra gripe é 25 mil vezes superior ao que é considerado seguro para o ser humano, além de níveis elevados de timerosal e esqualeno.

Embora os governos federais, diversos profissionais da saúde e laboratórios afirmem não serem verdadeiras as hipóteses dos casos caóticos acima mencionados, há que se pensar que também não sejam motivo para descartes e fúteis avaliações. As controvérsias são reais e vários profissionais da saúde se pronunciam a respeito do perigo da medicalização da vida e da sociedade. Estariam todos enganados ou mentindo?

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IMPACTO IATROGÊNICO

A criança cujo diagnóstico lhe é imposto tem sua marca biológica espelhada como um fator determinante para o fracasso em seu processo de aprendizagem. Ela sofre o peso do estigma de ser percebida como alguém doente ou anormal, carrega sobre si a culpa pelo não aprender e passa a ser invisível como sujeito singular. Ela é a materialização da doença, síndrome, anormalidade ou transtornos imputados pelo diagnóstico. Ao referirem-se a ela, apontam ser a autista, o TDAH, o esquisito, sua identidade é o reflexo da anormalidade. Nessa percepção é comum ouvirmos as frases: “Os autistas vivem isolados”, “Os TDAHs são agressivos”, “Muitos Downs aprendem”.

Já não há mais a singularidade, a subjetividade do João, da Juliana, do Marcos, há nomeações e classificações coletivas baseadas nos parâmetros patológicos. Esse talvez seja o pior dos efeitos iatrogênicos que se perpetuam de modo histórico, social e cultural na vida dessas crianças.

A crença por parte da escola e da família no diagnóstico e nas características que trazem dos quadros sintomáticos também é um fator iatrogênico. Enraizada nos princípios da normalidade, eles, cegamente, veem comportamentos agressivos e hiperativos apenas naquelas crianças diagnosticadas com algum tipo de transtorno, esquecendo-se que a agressividade, a ansiedade, a euforia, a emoção em sua totalidade, são próprias de seres humanos e que todos nós as manifestamos dependendo do contexto no qual estejamos inseridos. A criança assujeitada à medicalização indiscriminada se encontra numa condição passiva de apresentar quaisquer dos efeitos colaterais dispostos e cientificamente comprova­ dos pelos laboratórios farmacêuticos. Portanto, ao invés de a sociedade (da escola) aprender a lidar e a trabalhar com as novas configurações subjetivas que as crianças apresentam, e com seus novos modos de se relacionarem com o mundo que as cerca, prefere se render à psiquiatrização e à medicalização da vida, sem se questionar sobre o impacto iatrogênico sócio- educacional na vida da criança, tampouco sem questionar sobre os interesses comerciais da indústria farmacêutica.

Até o momento, não há comprovações da existência de uma doença neurológico-psiquiátrica que real­ mente comprometa a aprendizagem. Até porque cada um tem seu próprio jeito de aprender. Todos nós aprendemos o tempo todo.

A questão, na verdade, é: temos todos que aprender a dar conta de tudo o que a escola nos demanda? Se olharmos para toda a nossa vida escolar/acadêmica, quanto de conhecimento, de fato, nós acumulamos e nos lembramos de termos aprendido na escola? Tudo o que a escola nos obrigou a estudar é, verdadeiramente, imprescindível para nós? Precisamos nos comportar, nos concentrar, aprender as mesmas coisas, no mesmo tempo, no mesmo ritmo, com o mesmo método, com o mesmo rendimento e para os mesmos propósitos? Será que todos aprenderiam melhor se a escola valorizasse seus eixos de interesse?

O professor deve ser um agente de transformações e o aprendiz deve ser concebido como sujeito ativo da construção de sua história, de seu aprendizado, um sujeito com possibilidades de aprendizagem. A supervalorização dos diagnósticos pela escola e seu apoio à medicalização são caminhos opostos, cujo enfoque é a desconsideração da subjetividade do sujeito e aniquilação de sua personalidade. É a expressão mais nítida de barreiras atitudinais que adjetivam uma escola excludente e esse não deveria ser o reflexo de uma instituição formadora de cidadãos. Se a Psiquiatria é a responsável pelos inúmeros desencadeamentos iatrogênicos na vida das crianças convertidas em “transtornadas”, a escola que se rende à psiquiatrização e perpetua esse mal é cúmplice e coadjuvante dos resultados agravados na vida da criança, bem como de todo impacto sócio- educacional que corrobora para seu fracasso escolar.

ORGANIZAÇÃO SOCIAL

A escola deve promover e favorecer a educação de todos e para todos, a partir da organização do meio social, e a favor de um processo de ensinar e aprender repleto de sentido e significado para os aprendizes. Preparar-se continuamente para uma prática pedagógica, na qual tanto a coletividade quanto a individualidade sejam favorecedoras e promotoras do desenvolvimento da aprendizagem de todos os aprendizes, de modo que todos se relacionem, sejam acolhidos, participem e compartilhem de todas as atividades desenvolvidas.

Cabe à escola rever sua concepção de aprendiz, de professor, seus métodos de ensinar, seus propósitos frente à sociedade e não se expropriar da educação de todos e para todos cedendo espaço para a normalização e medicalização da vida escolar de suas crianças.

BULA ALERTA PARA SÉRIOS EFEITOS COLATERAIS

Segundo a própria bula, a droga “Ritalina é um estimulante do sistema nervoso central. Seu mecanismo de ação no homem ainda não foi completamente elucidado, mas presumivelmente ele exerce seu efeito estimulante ativando o sistema de excitação do tronco cerebral e o córtex. O mecanismo pelo qual ele produz seus efeitos psíquicos e comportamentais em crianças não está claramente estabelecido, nem há evidência conclusiva que demonstre como esses efeitos se relacionam com a condição do sistema nervoso central. Os pacientes em uso de Ritalina normalmente se queixam de desconforto abdominal, náusea e azia no início do tratamento. Essas queixas diminuem espontaneamente ou após alguns dias, tomando-se os comprimidos durante as refeições. Ritalina pode causar diminuição de apetite e isso pode resultar em perda de peso ou atraso de crescimento (peso e altura), especialmente em crianças. A suspensão regular do medicamento nos fins de semana e nas férias ajuda a restringir os efeitos indesejados ao mínimo, mas tal esquema somente deve ser adotado sob orientação do médico. A retomada de crescimento normalmente ocorre após a descontinuação do tratamento. Ritalina pode causar insônia, se for administrada muito próximo da hora costumeira de dormir” (Novartis, 2013).

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SILVIA ESTER ORRÚ – é graduada em Pedagogia, pós-graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional, com mestrado e doutorado em Educação. Pós-doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É professora da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília. É professora colaboradora na Universidade Federal de Alfenas, campus Poços de Caldas, MG. É autora de livros, capítulos e artigos em periódicos nacionais e internacionais, é coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Aprendizagem e inclusão (Lepai/UnB).

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OUTROS OLHARES

TRANSEXUALIDADE: UM DRAMA EXISTENCIAL

 Cirurgia de redesignação sexual e documentação adequada são apenas duas das difíceis etapas e angústias por que passam aqueles que buscam concordância entre a anatomia e o psíquico.

Transexualidade - um drama existencial

Fazem mais de 20 anos que o Conselho Federal de Medicina aprovou a cirurgia de redesignação sexual em pessoas que nasceram homens, mas que interiormente eram mulheres como também o oposto, mulheres que em sua essência sentiam-se homens. “A transexualidade pode ser determinada por uma alteração genética no componente cerebral, combinada com alteração hormonal e fator social  Entretanto, a hipótese mais aceita é; de que se trata de uma diferenciação sexual prejudicada no nível cerebral”, esclarece a professora Maria Jaqueline Coelho Pinto, psicóloga da Equipe de Adequação Sexual da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto – FAMERP e membro do Grupo Sexualidade Vida, da USP/CNPq.

Alguns especialistas acreditam que após a cirurgia este transtorno de identidade seja sanado, como explica o psiquiatra, sexólogo e prof. doutor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, Dr. Sergio Almeida: “é feita uma adequação entre o corpo fisiológico e o mental, então a pessoa entra em harmonia, pois não irá mais existir esta discrepância entre a identidade de gênero e a fisiológica”, afirma. Da mesma opinião, a psiquiatra Coordenadora do Comitê de Sexualidade da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH) e Professora da Faculdade de Medicina da USP, Dra. Carmita Helena Najjar Abdo, diz que o transexual resolve o seu drama de identidade e se sente curado após fazer a cirurgia.

Indo mais além nesta questão, a advogada Tereza Vieira afirma que a cura global só acontecerá depois de adequar a documentação, pois só assim não será mais vítima de preconceito ou discriminação social. “Não precisará se candidatar a subempregos nem terá mais vergonha de mostrar a identidade. O nome corresponderá ao seu biotipo”, diz,

Já a endocrinologista do Hospital das Clínicas, Dra. Elaine Maria Frade Costa, acredita que a cirurgia não corrigirá o transtorno de identidade sexual do indivíduo. “Ela apenas proporcionará uma adequação do fenótipo (características externas) ao seu sexo psíquico, porém o transtorno continuará existindo a pesar de o indivíduo ser adequado socialmente, pois o transexual nunca será um homem ou mulher absoluto em relação ao órgão genital e suas funções; mas a cirurgia deixará apenas a aparência e função da genitália o mais próximo possível da sua identificação” diz. O cirurgião-plástico Dr. Jalma Jurado lembra que nenhum ser humano está plenamente satisfeito com sua plástica; ninguém afirma que nasceu perfeito, independentemente de ser ou não transexual. É importante ter consciência de que a medicina evoluiu e que não é mais preciso esconder-se ou não se aceitar. “O médico vai ajudá-lo, respeitando o que está impresso no cérebro dele e tornando-o adequado à linha masculina ou feminina, argumenta.

No Brasil, a maioria dos transexuais chega ao consultório com a nova aparência formada. ” O transexual masculino já está tomando hormônio feminino e o transexual feminino já vem tomando hormônio masculino, ou seja, o fenótipo está bastante modificado. Resta para esta pessoa uma situação muito mais relacionada com “o genital para adequar ao seu fenótipo”, explica Carmita. O nome dado a este fenômeno é transexualidade.

 LONGO PERCURSO

A maior dificuldade dos transexuais é esperar por muitos anos para fazer a cirurgia. Recentemente, houve uma determinação da Justiça Federal para que o Sistema Único de Saúde (SUS} inclua em sua lista de procedimentos a cirurgia de transgenitalização. A medida é resultado de ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a União. O MPF considera a garantia da cirurgia um direito constitucional.

Os transexuais reivindicam o direito à saúde e, por ser um problema diagnosticável e com tratamento, não há motivo pata que eles não sejam atendidos. Caso o SUS não inclua a cirurgia terá que pagar multa diária no valor de R$ 1O mil. A decisão vale para todo o território nacional. “Encaro essa decisão como um grande avanço em prol de pessoas que sofrem inconformados com o seu sexo. Mas penso que a discussão em relação à falta de atenção com os transexuais deva ir além da cirurgia”, adverte a psicóloga Maria Jaqueline.

Pessoas contrárias à cirurgia dizem que, como o órgão masculino funciona e as mamas são perfeitas, a operação seria um crime. Em razão deste pensamento, muitos transexuais mutilaram-se, massacraram suas, mamas, entraram em profunda depressão e até se suicidaram. Além disso, é por meio do órgão masculino que se constrói a neovagina, tanto que os tratamentos atuais já orientam aos transexuais a aceitarem o órgão, pois têm que estar sadios para ser usados para reconstrução da vagina.

Cabe aqui citar a opinião do juiz, federal Roger Raupp Rios: “a partir de uma perspectiva biomédica, a transexualidade pode ser descrita como um distúrbio de identidade sexual no qual o indivíduo necessita alterar a designação sexual sob pena de graves consequências para sua vida, dentre as quais se destacam o intenso sofrimento, a possibilidade de auto mutilação e de suicídio”. O magistrado decidiu obrigar o SUS a pagar os custos da cirurgia de transgenitalização com o seguinte parecer “a prestação de saúde requerida é de vital importância para a garantia da sobrevivência e de padrões mínimos de bem-estar dos indivíduos que dela necessitam e se relaciona diretamente ao respeito da dignidade humana”.

O que ainda continua doloroso é não haver uma lei completa, pois são preciso laudos médicos, às vezes perícia, e um advogado que seja profundo conhecedor das leis de saúde e jurídicas para provar ao juiz e promotor que esta pessoa precisa adequar o seu nome e documentos para gozar o direito de uma vida sem discriminações. “Como prega a Constituição, o direito à saúde é dever do Estado e no Art.13 do Código Civil de 2002 está escrito que, salvo por exigência médica, a pessoa não poderia dispor de uma parte do corpo. Portanto, por exigência médica, para melhorar a saúde pode ser realizada a cirurgia”, defende Dra. Tereza, responsável por regularizar a documentação da transexual Roberta Close e de inúmeros casos de transexuais no Brasil. Para acabar com preconceitos ou falta de informação sobre este assunto vale relembrar o que disse o Juiz Raupp Rios “quanto a possibilidade de criminalização do médico – que poderia decorrer do efeito mutilador da cirurgia, conforme alegou a União, cito a doutrina segundo a qual, em procedimentos cirúrgicos realizados com o consentimento expresso ou tácito do paciente, em caso de interesse médico, não há crime” (AC 2001.7 l.00.026279-9/TRF)”.

A advogada vai mais além e faz a seguinte comparação: “se não existisse a lei (Art. 1, Código Civil 2002), ninguém poderia retirar o rim saudável para transplantá-lo em uma pessoa doente, como também não existiriam vários tipos de cirurgia plástica visando reparar alguma parte do corpo afetada por um acidente ou deformidade congênita”.

Esta constatação é comprovada por médicos de diferentes áreas da saúde e por especialistas da área psi. Por esses motivos, a Justiça percebeu que a saúde física e psíquica do ser humano não é da sua alçada. “Tanto que, quando surge este tipo de problema, o Juiz nomeia um perito, figura desempenhada por um médico ou psicólogo”, complementa Tereza.

 Será que nestes casos comprovados de transexualidade não seria menos desumano aprovar o ajuste da documentação enquanto se espera pela realização da cirurgia? “Eu defendo que o nome é aquele pelo qual a pessoa é conhecida, e não o do registro. Como também a troca de nome para pessoas cujos nomes a colocam em situações sociais de extremo sofrimento e constrangimento. Imagine uma pessoa com todas as feições femininas e silhueta arredondada ser obrigada a apresentar a identidade com o nome de João”, questiona Tereza.

Para o Dr. Oswaldo M. Rodrigues Júnior, diretor e psicoterapeuta sexual do Instituto Paulista de Sexualidade, a adequação cirúrgica é apenas uma parte do que será necessário para que os transexuais se sintam felizes e confortáveis. ” Desenvolver a capacidade de lidar com as novas situações de vida afora é uma necessidade primordial para alcançar um equilíbrio e felicidade”, enfatiza.

Além disso, após a cirurgia haverá a necessidade da adequação social aliada ao histórico profissional que permita obter uma vaga numa empresa, pois a cirurgia apenas elimina a discrepância entre o genital e o mental. “Juntos acabam até se prostituindo por não conseguirem emprego depois da cirurgia; inclusive aqueles que têm um emprego o fazem pela impossibilidade de continuar no trabalho que exerciam antes”, lamenta a psiquiatra Carmita.

“O primeiro avanço seria a sociedade perceber o transexual como cidadão, reconhecendo os seus direitos à família, educação, saúde, moradia, trabalho etc.”, defende Cassio Rodrigo, Coordenador Geral de Assuntos de Diversidade Sexual da Prefeitura de São Paulo.

Com certeza a fase mais conflitante vivida pelo transexual é a adolescência. Neste período ocorre o inverso para cada gênero: para as meninas os pelos; para os meninos as mamas se acentuam, ocorre a menstruação, tudo isso ocasionado pelas transformações hormonais.

Talvez por este fator muitos transexuais se arrisquem a já ir tomando o hormônio adequado a sua identidade e, não raro, sem prescrição médica. “Essa fase é caracterizada pela exacerbação da diferenciação sexual, que conduz a uma sensação de inadequação, ocasionando vergonha e não aceitação de seu genital”, esclarece Jaqueline.

Os especialistas ensinam que neste período é melhor compreender que a mudança é gradual respeitando o seu processo de aceitação e adaptação. “Muitos casos de dúvida acabam levando a consequências altamente desastrosas, depressões profundas, até risco de suicídio quando o que deveria ser feito não o é devidamente, constata Carmita.

O drama poderá ficar maior quando estão terminando a faculdade. “O compromisso social com o trabalho invoca mais conflitos”, considera Rodrigues Junior. O incômodo pode se acentuar quando já exercem atividade financeiramente produtiva e o trabalho exige atitudes apropriadas ao gênero que não é sentido como próprio.

“A família e a sociedade precisam entender que o transexual é realmente o que sente e acredita ser e, como todo ser humano, ele é responsável por seus atos. Portanto, não pode ser mais vítima de humilhação ou marginalização nem de repressão”, adverte a psicóloga Dra. Lourdes Brunini, diretora-presidente da Faculdade de Ciências da Saúde de São Paulo.

 AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA

Compreender os principais problemas vivenciados pelos transexuais requer entrevistas. “Também utilizamos recursos psicoterápicos para o atendimento individual e/ou grupal, orientação e conscientização do processo pré, trans e pós-operatório, orientação dos pacientes e familiares ao período de internação e nos retornos ambulatoriais e facilitação para a ressocialização no período pós-operatório”, explica Jaqueline.

Segundo a psicóloga, durante o tratamento poderá ser atestada a subjetividade daquele indivíduo, que deverá se apresentar diferente em gênero da sua natureza física e, assim, será certificada a importância da experiência de viver no gênero desejado antes da definição cirúrgica, que é irreversível.

A psicoterapia serve para que o terapeuta ajude o paciente a fortalecer sua real identidade. “Compreender o contexto de suas relações e valores, adquirir uma visão mais realista do tratamento cirúrgico e de sua vida após a cirurgia, pois a maioria deposita na cirurgia o poder mágico de solução para todos os problemas, esclarece Jaqueline.

No decorrer do trabalho psicoterápico, Rodrigues Junior cita a importância da terapia individual para desenvolver o mecanismo de confiança social. “O processo psicoterápico pode durar anos, porém as mudanças psicossociais básicas precisam de cerca de dois anos para se instalar e a pessoa passar a viver pelas regras do gênero psicológico, aprontando-se para os processos cirúrgicos”, diz.

De acordo com o psiquiatra Sérgio Almeida, para ser feita a cirurgia de adequação para o gênero feminino, os resultados das avaliações psicológicas precisam ficar em torno de 90 a 95% para o perfil feminino. “Assim como heterossexuais teriam este valor. Pois ninguém é 100% homem ou mulher”, afirma.

Todas as especialidades citadas até aqui na reportagem existem em atividade concomitante nos Hospitais das Escolas de Medicina, porém o tratamento terapêutico também é encontrado em consultórios particulares.

INSERÇÃO SOCIAL

Com o laudo médico, o advogado entra com um processo para ajustar a certidão de nascimento e carreira de identidade com o nome real, um passaporte condizente com o gênero (feminino ou masculino), sem nenhum tipo de discriminação, para atestar que se trata de transexual. “Nós, profissionais do Direito devemos contribuir para o não-prolongamento do sofrimento destas pessoas auxiliando-as na necessária adequação de seus documentos, pois sua manutenção impede a inserção social e profissional do indivíduo. Ao Direito e à sociedade interessam a identificação correta do indivíduo, portanto sexo social, psicológico e jurídico, devem coincidir sob pena de o indivíduo acometido por este problema ser condenado ao ostracismo, a subempregos, ser um verdadeiro pária social, sem poder gozar dos seus direitos mais básicos como saúde e educação”, esclarece Tereza.

Segundo a advogada, na carteira de identidade ocorrerá apenas a mudança de nome, pois dela não consta o sexo. Na certidão de nascimento haverá a alteração do prenome e do sexo. “No espaço destinado às observações poder-se-á inscrever ‘registrado na forma da lei’, ‘contém averbações’, mas nada que exponha o indivíduo a situações vexatórias. Há sentenças em que o juiz solicita que nada se inscreva no espaço destinado às observações na certidão de parcial teor, explica.

Quando o assunto é casamento, trata-se de uma questão ética e moral, muitas vezes não há como dizer se é certo ou errado contar o passado para quem vai se casar. O futuro cônjuge pode não ter a compreensão e conhecimento esclarecido sobre a disforia de gênero e assim pode exigir a anulação até três anos depois da data da celebração. “Em havendo o temor da realização de um possível casamento, incorrendo em erro o pretendente, basta se averbar no livro de registro (não na certidão) de nascimento que tal alteração é determinada por sentença judicial. Assim, o eventual pretendente (bem como as autoridades) conhecerá sua história, caso ainda não tenha sido contada, pois para se casar será exigida a certidão de nascimento de inteiro teor (com todas as informações)”, explica Dra. Tereza.

Quanto aos diplomas escolares e universitários, basta levar a certidão para que a secretaria escolar regularize toda a documentação condizente com o correto gênero.

Dentre outros, o direito do transexual está baseado no direito à saúde (art. 196), no direito à vida privada (art.5, X) tutelados pela Constituição Federal. Os arts. 13 e 21 do novo Código Civil resguardam a disposição do próprio corpo quando recomendadas por médicos e tutelam a vida privada, respectivamente.

Além disso, a advogada alerta a sociedade dizendo; “o Direito deve facilitar e colaborar para inclusão social do transexual, pois. conforme declarou certa vez o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, ‘de nada adianta superar este impasse –  a dicotomia entre realidade morfológica e psíquica –  se a pessoa continua vivendo o constrangimento de apresentar documentos do sexo oposto'”, relembra a doutora.

 AS CIRURGIA DE TRANSGENITALIZAÇÃO

REDESIGNADO MULHER – Para o cirurgião-plástico Jalma Jurado o grande drama é o aspecto emocional. “A vagina é o canal e a vulva é o aspecto externo. O que precisa ser feito é uma vulva que não choque o parceiro, diz.

PROCEDIMENTO CIRÚRGICO A técnica mais avançada é aquela que usa somente a pele do pênis, que é muito elástica, extremamente lisa e tem pouco pelo. “Eu deixo os vasos que nutrem a pele e os nervos porque o gatilho do orgasmo precisa de sensibilidade normal”, explica Jurado.

VANTAGENS – Essa pele virada ao contrário vai fazer a forro da vagina, sua fricção vai provocar prazer chegando até o orgasmo.

PÓS OPERATÓRIO – fisioterapia no canal vaginal durante dois meses ou o uso do molde vaginal por pelo menos quatro horas ao dia. “O objetivo é assegurar que a neovagina se recupere corretamente e que mantenha seu tamanho e funcionalidade” diz Jaqueline.

Após a retirada dos testículos, indica-se tomar hormônio indefinidamente para não ocorrer menopausa instantânea, ou “problemas relacionados à falta de hormônio como osteoporose, perda da musculatura, insônia, calor, irritação etc.”, orienta o urologista e prof. Dr. Carlos Curi da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto.

Existem outras técnicas para se fazer a neovagina, como a realizada pelo cirurgião plástico norte-americano, Dr. Gari Alter, que faz o clitóris à partir da cabeça do pênis (glande) e garante que há bem poucas complicações depois que ocorre a cirurgia de redesignação. “É uma mulher, urina sentada, já que o canal da urina é encurtado “, diz. Já Dr. Jurado usa partes restantes do canal urinário para fazer o clitóris e mantém a glande no interior da vagina, imitando o útero.

RESIGNADO HOMEM A cirurgia se baseia no conhecimento da técnica que foi feita num homem que perdeu ou amputou o pênis para fazer num transexual feminino que vai ser redesignado homem.

PROCEDIMENTOS CIRÚRGICOS – Intervenções complexas que envolvem a mastectomia bilateral – redução significativa dos seios. A histerectomia – retirada do útero, a doforectomia bilateral – extirpação dos ovários e tratamento hormonal, vaginectomia – remoção da cavidade vaginal, colocação de próteses testiculares de silicone e faloplastia – construção plástica do pênis.

Como é feita a faloplastia: a operação é feita com a pele ou o músculo do abdômen ou ainda com a pele virilha. “Dentro do tubo de pele é construído um canal por onde vai passar a urina e dentro deste tubo colocam-se materiais aloplásticos (polipropileno) que farão o neopênis ter um pequeno enrijecimento que permitirá a relação sexual”, explica Jurado. Durante a operação é criado o escroto usando os lábios vaginais.

PÓS-OPERATÓRIO – não haverá ereção espontânea. O transexual terá que levantar o órgão para introduzi-lo. O orgasmo poderá ser decorrente da sensibilidade do clitóris que estará embaixo do pênis. “No mundo inteiro os resultados desta cirurgia não são bons, porém os transexuais femininos encontram outras formas para agradar suas parceiras”, revela Dr. Cury.

No Brasil esta cirurgia ainda é experimental. Há cirurgiões que usam a pele do braço para reconstruir o pênis por meio de microcirurgia; porém o procedimento deixa uma marca muito grande e caso a cirurgia não seja bem-sucedida poderá ocorrer trombose no neopênis. Alguns operam a cartilagem do pescoço e outros as cordas vocais. “O que muda a voz são os exercícios praticados com uma fonoaudióloga (60%) ou a cirurgia da corda vocal (40%)”, esclarece Dr. Cury.

ESTUDOS SOBRE TRANSEXUALIDADE: MEDICINA BASEADA EM EVIDÊNCIAS

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 O PRAZER APÓS REDESIGNAÇÃO SEXUAL

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GESTÃO E CARREIRA

AO TRABALHO, VOVÔ!

Avanço da expectativa de vida aposentou a aposentadoria

Ao trabalho, vovô

A tradicional fórmula de “nascer, estudar, trabalhar, aposentar e morrer” perdeu a validade graças aos avanços tecnológicos, que aumentaram bastante a expectativa de vida das pessoas, esvaindo a noção de aposentadoria por idade. A tese é de Ric Edelman, consultor de finanças e autor do livro The Truth about Your Future (“A verdade sobre seu futuro”), segundo o qual, para permanecerem saudáveis, ativas e seguras financeiramente, as pessoas acima dos 65 anos deverão continuar a trabalhar, mesmo depois de aposentadas. Edelman chega ao ponto de prever que, em futuro não muito distante, seremos saudáveis até os 120 anos. Ele cita o caso do famoso professor japonês Shigeaki Hinohara, que trabalhou até os 105 anos, quando faleceu, afirmando que permanecer ativos melhora a saúde em vez de prejudicá-la.

Soa improvável? Edelman prevê que a melhoria da saúde motiva as pessoas a participar de atividades em sua comunidade. E que a expansão da chamada economia compartilhada (gig economy) permitirá trabalhos avulsos que não exigem necessariamente contratos formais ou expedientes constantes. Dessa forma, em vez de poupar dinheiro até os 65 anos para pagar as despesas futuras, que podem durar 20 anos ou mais, a pessoa terá capacidade de se sustentar e alternar trabalho com lazer. São os conhecidos períodos “sabáticos”, antes só acessíveis a algumas profissões, que agora se tornarão hábito para aposentados. E muitos aproveitarão essas pausas para se treinar em novas funções, acrescentando mais talentos a seus currículos.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 25: 31 – 46 – PARTE I

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O Processo do Último Julgamento 

Nesse trecho, temos a descrição do processo do Juízo Final no Grande Dia. Há algumas passagens que são alegóricas, como a separação entre as ovelhas e os bodes, e os diálogos entre o juiz e as pessoas julgadas. Mas não existe uma linha de semelhança no sermão, e por isso é preferível que seja chamado de esboço ou esquema do Juízo Final do que de parábola. Aqui está a explicação das parábolas anteriores. E temos então:

 I – O posicionamento do Juiz no trono (v. 31): “Quando o Filho do Homem vier”. Considere que:

1. Há um julgamento que há de vir, no qual cada homem deverá receber a sentença da condição de eterna felicidade, ou eterna miséria, no campo da recompensa ou retribuição, de acordo com o que fez neste mundo de tentações e provações, e todos serão julgados pelo estatuto do Evangelho eterno.

2. A administração do julgamento do Grand e Dia foi entregue ao Filho do Homem; porque por meio dele, Deus julgará o mundo (Atos 17.31), e todo o julgamento foi confiado a Ele, e por isso o julgamento daquele dia é o centro de tudo. Aqui, corno em outras passagens, quando se menciona o Juízo Final, Cristo é chamado de Filho do Homem, porque Ele deverá julgar os filhos dos homens (e o fato de Ele ter, além da natureza divina, a natureza humana, torna-o ainda mais irrepreensível). Por causa de sua maravilhosa condescendência, ao assumir para si a nossa natureza, e tornar-se o Filho do Homem, será recompensado com a sua exaltação naquele dia, e uma honra será colocada sobre a natureza humana.

3. A aparição de Cristo para julgar o mundo será esplêndida e gloriosa. Agripa e Berenice se dirigiram ao trono do julgamento com “muito aparato” (Atos 25.23); mas aquilo foi (como a palavra original diz) uma grande fantasia. Cristo assumirá o seu trono em glória verdadeira. Então o Sol da Justiça brilhará no auge de seu esplendor, e o Príncipe dos reis da terra mostrará as riquezas do seu reino glorioso, e a dignidade da sua majestade esplêndida; e todo o mundo verá aquilo em que somente os justos creem agora, que Ele é o esplendor da glória do seu Pai. Ele não virá somente na glória de seu Pai, mas em sua própria glória, corno mediador. A sua primeira vinda foi sob a nuvem escura da obscuridade; a sua segunda vinda ser á sob a nuvem reluzente da glória. A certeza que Cristo deu aos seus discípulos da sua glória futura talvez tenha ajudado a amenizar, em sua mente, o escândalo da cruz e o seu sofrimento que se aproximava.

4. Quando Cristo vier na sua glória para julgar o mundo, trará todos os seus santos anjos consigo. Esta pessoa gloriosa terá um séquito glorioso, as suas miríades sagradas, que não serão somente os seus servidores, mas também ministros da sua justiça. Eles virão com Ele não só em grandeza, mas também para servi-lo. Eles devem vir para convocar o tribunal (1 Tessalonicenses 4.16), para ajuntar os escolhidos (cap. 24.31), para colher o joio (cap. 13.40), para serem testemunhas da glória dos santos (Lucas 12.8) e da desgraça dos pecadores (Apocalipse 14.10).

5. Ele então se sentará no trono da sua glória. Ele está agora sentado com seu Pai no se u trono; e é um trono de graça, para o qual podemos ir corajosamente; é um trono de governo, o trono do seu pai Davi. Ele é um sacerdote naquele trono. Mas então Ele se sentará no trono da glória, o trono do julgamento. Veja Daniel 7.9-10. O trono de Salomão, embora não houvesse outro igual em nenhum reino, era algo muito pequeno para o Senhor Jesus. Cristo, em seus dias como ser humano, foi acusado e julgado como um prisioneiro no tribunal; mas na sua segunda vinda, Ele se sentará como um juiz no tribunal.

II –  O aparecimento de todos os filhos dos homens diante dele (v. 32): “Todas as nações serão reunidas diante dele”. Observe que o julgamento do grande dia será um julgamento geral. Todos serão convocados diante do tribunal de Cristo; todos aqueles que viveram em qualquer época no mundo, desde o início até o fim dos tempos; todos de qualquer lugar da terra, mesmo dos cantos mais distantes do mundo, os mais obscuros e distantes; todas as nações, todas as nações dos homens que são feitos do mesmo sangue, que habitam por toda a face da terra.

 III – Será feita, então, a distinção entre o precioso e o vil. Ele “apartará uns dos outros”, como o joio e o trigo são separados na colheita, o peixe bom do ruim, na margem, o trigo da palha, na eira. O ímpio e o justo aqui habitam juntos, nos mesmos reinos, nas mesmas cidades, igrejas, famílias, e não são distinguíveis uns dos outros; tais são as tristezas dos santos, e tais as hipocrisias dos pecadores. Desta forma, o juízo será um evento importante para ambos, pois naquele dia eles serão apartados e separados para sempre. “Então, vereis outra vez a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus e o que não o serve” (Malaquias 3.18). Eles não podem se separar uns dos outros neste mundo (1 Coríntios 1.10), nem ninguém pode separá-los (cap.13.29); mas o Senhor conhece aqueles que lhe pertencem, e pode separá-los. Esta separação será tão precisa que nem os justos mais insignificantes se perderão na multidão dos pecadores, nem o mais plausível pecador se esconderá na congregação dos justos (Salmos 1.5), mas cada um deverá ir para seu próprio lugar. Isto é comparado à separação que o pastor faz entre as ovelhas e os bodes; ela é extraída de Ezequiel 34.17: “Eis que eu julgarei entre gado pequeno e gado pequeno, entre carneiros e bodes”. Observe que:

1. Jesus Cristo é o grande Pastor. Ele agora alimenta o seu rebanho como um Pastor, e em breve distinguirá entre aqueles que são seus e os que não são, assim como Labão separou as suas ovelhas das de Jacó e colocou uma distância de três dias de jornada entre ele e Jacó (Genesis 30.35-36).

2. Os justos são como as ovelhas, inocentes, mansas, pacientes, úteis. Os ímpios são como os bodes, um tipo de animal mais desprezível, repugnante e indisciplinado. As ovelhas e os bodes são alimentados no mesmo pasto durante o dia, mas são abrigados em diferentes currais à noite. Com essa divisão, Ele “porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda” (v. 33). Cristo honra os justos, assim como nós demonstramos respeito àqueles que se sentam ao nosso lado direito; mas os ímpios ressuscitarão “para vergonha e desprezo eterno” (Daniel 12.2). Não está dito que Ele colocará os ricos à sua direita, e os pobres à esquerda; os instruídos e nobres à direita, e os incultos e desprezados à esquerda; mas os justos à sua direita, e os ímpios à sua esquerda. Todas as outras divisões e subdivisões serão então aboli­ das, mas a grande distinção dos homens entre justos e pecadores, santos e ímpios, persistirá para sempre; e a condição imortal dos homens será determinada por ela. Os pecadores tomaram as suas bênçãos, riquezas e honra de maneira ilícita, e por esta razão serão condenados.