PSICOLOGIA ANALÍTICA

O SEGREDO DA PROSPERIDADE

O Segredo da Prosperidade

Uma série de estudos e publicações dá pistas para quais sejam os fatores envolvidos no sucesso. Muitos cientistas deliberam sobre a subjetividade desses fatores enquanto outros vão direto ao ponto em defini-los e relacioná-los a um maior ou menor nível de prosperidade na vida.

Desta vez foram os pesquisadores da Universidade de Bath (Reino Unido) a fazê-lo, observando como o sucesso se caracteriza e instala nas diversas fases da vida humana, identificando traços de personalidade e situações externas que se inter-relacionam e tornam o indivíduo alguém considerado próspero.

Ao longo de quase todas as fases da vida, os cientistas identificaram características pessoais que conduzem ao sucesso, tais como espiritualidade, otimismo, motivação, flexibilidade e resiliência, além do gosto pelo aprendizado e autoconfiança. Inclua-se aí, ainda, a facilidade em criar e manter conexões sociais.

Já os fatores externos incidentes nas diversas etapas de desenvolvimento dos indivíduos prósperos estão ligados ao aproveitamento das oportunidades profissionais e de relações, entre outras, ao longo da vida, além do suporte social nos ambientes de trabalho e familiar, ou de amigos. A presença de obstáculos gerenciáveis ao longo do crescimento, e que este último ocorra num ambiente calmo, que permita o desenvolvimento da autonomia e da confiança nas outras pessoas, também foram listados como determinantes de sucesso. 

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OUTROS OLHARES

O PODER DOS ULTRAJOVENS

A geração que vai romper (e já está rompendo) com tudo o que se quis e se imaginou.

O poder dos ultrajovens

Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem”, escreveu Carlos Drummond de Andrade no final dos anos 1960, em uma crônica que versava sobre o embate de um pai com a filhinha em torno de uma lasanha. Ele insistia, ela ignorava. Ele repetia, ela se mantinha firme em seu propósito. Ele tergiversava, ela o lembrava do que queria. Ela ganhou por coerência. Ele perdeu por não entender a dinâmica dos tempos. A premissa é mais atual do que nunca. A força do poder ultrajovem é inexorável.

De acordo com pesquisas recentes, se depender da geração que tem por volta dos 20 anos, estão encrencados os hotéis, as lojas de departamentos, as cadeias de restaurantes, a indústria automobilística, o comércio de diamantes, a produção de guardanapos e de canudinhos, os programas de fidelidade de hotéis e de cartões de crédito, os jogos de azar, os bancos, a produção de amaciantes de roupa, o sonho da casa própria, a ideia de casamento estável, os acasos felizes, as viagens de cruzeiro, as emissoras de TV aberta, os políticos de ocasião, os planos de aposentadoria, Paris e até o milk-shake do Bob’s.

Eles resolvem a vida (para o bem e para o mal) pelo celular, sorvem coisas de cor verde (comer virou questão de identidade), têm um pendor para medicamentos identificados com uma tarja preta, passam a noite em claro, não se sabe se estão trabalhando ou relaxando, gostam de empunhar bandeiras universais, mas se preocupam mesmo é com sua persona nas redes sociais, pensam igual a quase todo mundo da mesma geração, comportam-se como adolescentes apesar de terem idade de adultos, tecnologia lhes é tão intrínseco como respirar, ser de esquerda é do jogo, ter o nariz em pé é condição sine qua non, gostam de Insta Stories porque ele dura pouco, arriscam tudo por terem pouco a perder, rechaçam qualquer coisa que contenha plástico, gostam de viajar para lugares onde podem mostrar novidades no Instagram. Eles são o que são ou são o que querem parecer ser?

“Eles se tornam personagens de suas próprias vidas, preocupados com narrativas, contextos, motivações. Estão sempre esperando pelo terceiro ato – que nunca chega”, disse um estudo da Box 1824, conduzido pelos pesquisadores Sean Monahan e Sophie Secaf nos Estados Unidos, sobre o que chamaram de GenExit, a geração que opta por experimentar novas possibilidades identitárias, mais livres e menos deterministas, mas não menos disruptivas.

Ainda que esteja cansado depois de um dia longo, o estudante de publicidade Luigi Dalmolin, de 21 anos, só vai para a cama após um banho quente. Por isso, entre uma ensaboada e outra, Dalmolin assiste a vídeos no YouTube ou responde a mensagens no WhatsApp. Graças a u1na providencial capinha à prova d’água, ele faz parte de uma minoria – surgi­ da recentemente – que toma banho com o telefone celular dentro do box. Estar com o celular nas mãos o tempo todo como faz Dalmolin, conectado, com os olhos vidrados e os dedos tocando a tela, é um dos principais comportamentos identificadores dos ultrajovens (ou geração Y). São as pessoas nascidas entre 1982 e 2000 (segundo o Census Bureau, agência governamental encarregada pelo censo nos Estados Unidos), ou entre 1981 e 1997 (segundo o instituto de pesquisa americano Pev Research Center). Os jovens apresentam características que os diferenciam das gerações anteriores e refletem mudanças relevantes no mundo.

A principal distinção dos ultrajovens é a necessidade de estar conectado o tempo todo. Smartphones são sua porta de acesso ao mundo; 43% dos jovens são como Dalmolin: não vão ao banheiro sem seus celulares. O aparelho é tão importante que 42% deles afirmam que deixariam de ir à academia se não pudessem levá-lo.

A fixação por smartphones atinge outras faixas etárias, mas, no caso dos ultrajovens, deu origem à “era da distração”. A fartura de dispositivos conectados à internet está reduzindo cada vez mais a capacidade de concentração. No início de maio, Carl Marci, neurocientista e médico especialista em questões ligadas ao consumo e ao comportamento, esteve no Brasil para apresentar o resultado de pesquisas neurológicas realizadas por sua empresa, um braço da gigante teuto­ americana Nielsen.

Marci encara a tal distração como resultado da falta de tempo ocioso. Os “nativos digitais” não se enfadam, porque estão sob constante estimulo. Se estão na fila do mercado, não precisam “esperar”; é só sacar o celular e responder a uma mensagem ou dar uma conferida nas notificações das redes sociais e pronto: a fila andou rapidinho.

Essa constante alternância entre a vida real e as plataformas digitais gera um alto nível de emoção e engajamento. Quimicamente, esse fenômeno estimula a dopamina, o “neurotransmissor do prazer” – ou seja, os ultrajovens ficam literalmente felizes com essa interação toda. Marci chama isso de “regulador de humor”. “Quando você cresce em um mundo com esses dispositivos, surge a possibilidade de calibrar suas emoções”, disse. “No entanto, há uma questão importante a ser observada: ao estar constantemente pegando e guardando o celular, você passa a não dar atenção completa a nenhuma das atividades que está fazendo.” Prevalece a distração.

Em seus estudos, Marci comparou a capacidade de concentração de nativos digitais com a de “imigrantes digitais”, aquelas pessoas que já eram grandinhas quando a internet se popularizou, na segunda metade da década de 1990. O experimento foi feito pela observação de para onde os participantes olhavam durante a transmissão de um programa de TV: o celular ou a televisão. Os resultados mostraram que um imigrante digital troca a atenção 17 vezes – o que lhe garante uma média de atenção de cerca de três minutos. Já o nativo digital troca 27 vezes – uma queda de 30% no tempo em que consegue prestar atenção em algo (cerca de dois minutos). Levando em conta que ver televisão exige pouco esforço cognitivo, não parece ser um grande problema ter a atenção mais dispersa – até porque, segundo Marci, conforme vamos envelhecendo, a capacidade de concentração aumenta.

Porém, Marci encontrou um estudo parecido, feito com crianças de 3 anos, e a comparação dos resultados o alarmou. As crianças trocaram a atenção entre seus brinquedos e a televisão 33 vezes. Ou seja: os nativos digitais têm uma capacidade de concentração muito mais próxima à de uma criança do que à de um adulto. “O que me preocupa, como médico, é que, se não falarmos sobre isso, as pessoas passarão a transferir esse comportamento para outras áreas de suas vidas”, disse Marci.

Em 70 mil anos de existência, os cérebros humanos nunca tiveram tantos estímulos quanto os que hoje afetam os ultrajovens. Eles são cobaias da adaptação física e intelectual a novidades incessantes. Ao mesmo tempo que possuem facilidades que seriam impensáveis anos atrás – conectar-se com um sem-número de pessoas e informações mundo afora em segundos -, também encaram os primeiros sinais de alerta dessa exposição, traduzidos em altos níveis de ansiedade e depressão.

Em abril, Lucas Crispim, analista de marketing de 26 anos, desafiou a si mesmo a ficar 24 horas desconectado. Desinstalou o Facebook e o Instagram de seu celular para não ter a tentação de acompanhar o andamento de curtidas, visualizações e notificações. Não deu certo. “Não consegui sequer chegar à marca de oito horas”, disse. “A ansiedade foi demais.” Essa aflição é comum a muitos jovens. Pesquisas apontam que esta é a geração mais irrequieta que já existiu.

“Nomophobia” (do termo em inglês “no­mobile- phone phobia”, ou “fobia de ficar sem celular”, em tradução livre) foi o termo usado para caracterizar esse comportamento em estudo feito no Reino Unido, em 2013, pela empresa de marketing OnePoll. O levantamento mostrou que mais da metade dos usuários ficava ansiosa quando perdia o aparelho, quando ficava sem cobertura da rede ou quando a bateria acabava. Em pesquisa da empresa americana Coupofy, 20% dos usuários admitiram que seus celulares são a única razão pela qual não dormem o suficiente.

A ansiedade dos jovens se manifesta não só pela distância dos smartphones, como também pela proximidade: 58% dos entrevistados pela Coupofy acreditam que a ansiedade é o principal efeito colateral do comportamento compulsivo. Adolescentes que têm relações de quase dependência com celulares e com as mídias sociais experimentam níveis elevados de estresse, agressividade, depressão e distração, além de baixa autoestima e sono. “Sinto que tenho uma relação de amor e ódio com o celular. É bom estar com ele. Ao mesmo tempo, pode ser ainda melhor estar sem. Ainda assim, não largo dele”, disse Luigi Dalmolin, com o celular na mão, óbvio, mas ao menos fora do chuveiro. Os jovens, como principais usuários do Instagram – 59% deles têm entre 18 e 29 anos -, são os que mais sofrem. A angústia de acompanhar a vida alheia nas redes sociais tem nome: FoMO.

A sigla foi cunhada em 2004 por Patrick J. McGinnis em um artigo na revista The Harbus, da Harvard Business School, a partir do termo “fear of missing out” (ou “medo de ficar de fora”, em tradução livre).

Como designer, Victor Campos, de 24 anos, exerce uma atividade que exige persistência e repetição. Contudo, ele conta que ultimamente desiste de algumas atividades quando percebe que não conseguirá um resultado bom em um tempo curto. Quando desenha, por exemplo, se não consegue algo de qualidade logo na primeira investida, deixa de tentar. “Sofro por não ter conseguido e paro”, disse. Na esteira da ansiedade, surge também o perfeccionismo a assombrar os jovens. Comparados com as gerações anteriores, os estudantes universitários de hoje são mais duros consigo mesmos, mais exigentes com os outros e se sentem pressionados a atingir a perfeição.

Um estudo publicado na revista acadêmica Psychological Bulletin em janeiro deste ano examina respostas a um famoso teste sobre perfeccionismo, desenvolvido pelo psicólogo Randy O. Frost, chamado Escala Multidimensional da Perfeição. Dividida em seis dimensões, a escala leva em conta os níveis de preocupação por cometer erros, de rigorosa autocrítica e cobrança, de busca por excelência, de percepção de altas expectativas e crítica parentais, de dúvida sobre a qualidade das próprias ações e de preferência por ordem e organização. Foram analisados mais de 40 mil estudantes universitários, que participaram da pesquisa entre 1989 e 2016. Os resultados mostraram um aumento de 10% no perfeccionismo auto direcionado (voltado para si mesmo), de 33% no perfeccionismo socialmente prescrito (altos padrões ditados pelas expectativas dos outros) e de 16% com relação a terceiros (padrões perfeccionistas que são aplicados a outras pessoas).

De acordo com Thomas Curran, um dos autores do estudo, os dados sugerem as mídias sociais como um dos culpados. “Os jovens relatam expectativas educacionais e profissionais cada vez mais irreais para si mesmos”, afirmou. “Como resultado, o perfeccionismo está aumentando entre eles.” A comparação de cada um com o que se vê nas redes sociais se tornou o grande ladrão da alegria alheia.

Redes sociais oferecem parâmetros a essa geração. Não apenas os de autoavaliação, mas também de informação e diversão. A maior parte dos jovens lê notícias no Facebook, a mais presente das redes sociais. Em, 2015, a agência americana Quartz informou que o Brasil lidera o ranking de consumo de notícias pelo Facebook, com 67% de sua população buscando informação prioritariamente nessa plataforma.

O especialista americano em comportamento do consumidor Morris Holbrook afirmou que, duas décadas atrás, pesquisadores de marketing passaram a prestar mais atenção nos aspectos hedônicos e nas experiências de consumo – conhecidos como fantasias, sentimentos e diversão (ou, em inglês, os “três Fs”: fantasy, feelings e fun). Pesquisas mais recentes ampliaram ainda mais essa visão e levaram ao reconhecimento dos “quatro Es” – experiência, entretenimento, exibicionismo e evangelização. Foi aí que surgiu a noção de marketing experiencial. Os indivíduos não apenas recebem experiências de modo multissensorial, mas também respondem e reagem a elas. Combine tudo isso à necessidade de não perder nada e cria-se um público sedento por participar e compartilhar – e essa parte é essencial. Segundo uma pesquisa do Instituto Ipsos americano, 75% dos jovens nos Estados Unidos valorizam as experiências acima de outros eventos e 48% deles participam de eventos para compartilhar nas redes sociais. “Ao chegar a algum lugar diferente, só depois de tirar uma foto ‘digna de ser postada’ eu aproveito”, contou Gabriele Borges, de 20 anos, estudante de comércio exterior.

O empenho social se reflete nos aspectos profissionais da vida dos jovens. De acordo com um estudo de 2016 feito para a agência Lynx pela Bowler/ Pimenta Pesquisa, 54% da geração Y acredita que as empresas devem se engajar e assumir bandeiras sociais e, para 82% desse público, as companhias têm poder transformador. Dos entrevistados, 43% são capazes de citar empresas engajadas em causas sociais e ambientais e dar exemplos dessas iniciativas.

A pesquisa Jovens e a geração nem-nem, realizada pelo Centro de Inteligência Padrão (CIP), em parceria com a empresa de pesquisa digital MindMiners, mostra que 66,4% dos jovens concordam que causas como criação ou manutenção dos direitos de minorias sociais, como dos LGBTs, negros e imigrantes, são importantes. Para eles, levantar bandeiras a respeito de problemas sociais e realizar ações para diminuir desigualdades pode colocar empresas em outro patamar. Não é à toa que 76,7% gostariam de trabalhar em uma empresa com políticas de inclusão social. Para aproveitar o potencial criativo dos jovens, os empregadores precisam oferecer um espaço que ao menos tente estar à altura de suas expectativas.

Eles preferem fazer compras on-line e apostar em marcas que prezm1 pela ecologia, criando peças de roupas descartáveis ou que não usem produtos de origem animal. Segundo um relatório de 2014 do grupo de pesquisas americano Brookings Institute, os jovens demonstraram maior confiança e lealdade – assim como maior propensão a comprar – a marcas que apoiam soluções para causas sociais específicas.

Isso vale também para comida. Para essa geração, a comida não é apenas comida, é comunidade. Em 2014, nos Estados Unidos, estimava-se que 12% dos jovens fossem “vegetarianos fiéis”, em comparação com 4% dos membros da geração X (os nascidos entre as décadas de 1960 e 1980) e 1% dos baby boomers (os nascidos logo após a Segunda Guerra Mundial). Uma pesquisa do Ibope indicou que 7% dos brasileiros entre 20 e 24 anos se declaram vegetarianos. O mercado vegano cresce 40% ao ano no país.

Conectados, engajados, vegetarianos, os ultrajovens diferem muito de seus predecessores. A parte da diversão que envolve a noite e as drogas tradicionais parece não interessá-los tanto assim. Na última década, 10 mil bares e casas noturnas fecharam nos Estados Unidos. Na Inglaterra, quase metade desapareceu. Em São Paulo, entre 2012 e 2015, a diminuição foi de 15%. Segundo a pesquisa americana Gen Y and housing (Geração Y e habitação), em 2010 pouco mais de 60% dos jovens frequentavam casas noturnas e, entre os que o faziam, apenas 25% iam mais de uma vez por mês.

Um estudo da Monitoring the Future, empresa que acompanha o comportamento dos jovens nos EUA, mostrou que o uso de drogas sintéticas e álcool por adolescente às vésperas da maioridade chegou a seu nível mais baixo desde que a pesquisa foi iniciada, em 1975. Apenas 40% dos estudantes declararam ter ingerido algum tipo de bebida alcoólica. De acordo com uma análise feita pelo DrugAbuse.com, uma linha telefônica de tratamento contra as drogas, os jovens americanos usam menos maconha e cocaína do que as gerações anteriores faziam na mesma idade. No entanto, à medida que as principais drogas de rua se tornaram menos populares, analgésicos e antidepressivos preencheram esse vácuo: na última década, o abuso de opiáceos disparou. O caminho para o vício geralmente começa com uma receita legal vinda do consultório médico. O álcool não foi considerado no estudo americano. No Brasil, a bebida está presente entre mais de 40% dos jovens que vão para a balada em São Paulo – 18% no Brasil todo. E também não se levaram em consideração as drogas sintéticas. “Houve um grande aumento no consumo de bebidas no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, quando foi feito um novo investimento na economia noturna, com a abertura de bares para atrair mulheres jovens e a introdução de bebidas alcoólicas”, disse Fiona Measham, professora da Durham University, na Inglaterra, em entrevista ao jornal The Telegraph. Ela estuda os padrões de mudança do uso de álcool e drogas em jovens há mais de 20 anos e argumenta que, embora a bebedeira e o consumo de drogas tenham aumentado desde os anos 1950, esses índices finalmente estão caindo. “A geração anterior à geração Y frequentava muitos bares, bebendo compulsivamente e usando cocaína”, disse. “Agora não há aquela embriaguez frenética. Há uma nova sensação de sobriedade entre os jovens.”

Fora das baladas e usando menos drogas, diminuiu também a prática de sexo. Em um de seus estudos, a psicóloga Jean Twenge, professora e pesquisadora da San Diego State University e autora do livro Generation me, descobriu que os jovens relatam ter menos parceiros sexuais que a geração X e os baby boomers em sua juventude. Um relatório de 2015 do Center for Disease Control and Prevention descobriu que menos pessoas de 15 a 19 anos relatam ter feito sexo se comparadas às gerações anteriores. O declínio é significativo nos dois gêneros, mas particularmente entre os homens. A diminuição também é mais considerável entre os jovens mais jovens. Tudo isso pode ou não estar conectado com o uso das drogas prescritas por médicos. É perceptível que os indicadores de depressão e ansiedade subiram muito nos últimos 50 anos. Segundo um estudo de 2009 de Twenge, mais jovens estão usando antidepressivos e estimulantes, como a Ritalina, que podem diminuir o desejo.

Em 2016, o estado de São Paulo registrou queda de 20% na emissão da primeira habilitação em um ano, segundo um balanço do Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Especialistas creditam a redução a uma tendência mundial de desinteresse pelo automóvel por parte dos jovens. A venda dos veículos também caiu: na comparação entre o número de emplacamentos de veículos de 2015 em relação a 2014, a queda foi de 22%, incluindo carros, motos, caminhões e ônibus. Considerando apenas o segmento de automóveis, a queda foi de 27% nos emplacamentos, segundo a Fenabrave. É claro que a crise econômica que abate o Brasil desde 2013 é a maior responsável pela diminuição das vendas. Mas há uma percepção de que os mais jovens já não se deixam fascinar tanto por meios de transporte individuais movidos a gasolina como os jovens desde a década de 1950. Essa mudança começa pelas classes A e B, com maior acesso a táxis ou serviços como Uber. Nas classes mais baixas, ter uma carta de habilitação e um carro ainda é sinônimo de liberdade para ir e vir e, portanto, um desejo a ser realizado.

Aos 24 anos, prestes a quitar seu primeiro carro, Jaine Mori decidiu vendê-lo. Ela comprou o carro porque seu emprego, na época, demandava que se locomovesse muito. Porém, ao trocar de empresa, a necessidade diminuiu. Ela também aproveitou para se mudar para mais perto do local de trabalho. De repente, o carro pareceu obsoleto. “Eu me mudei para mais perto do metrô e do transporte público em geral. Ficou bem mais fácil me locomover na cidade”, contou. Como o carro é um bem que desvaloriza muito e, segundo Mori, “só dá gasto”, ela achou que valeria mais a pena vendê-lo do que arcar com o preço da gasolina, do seguro e das revisões. Detalhe: ela pretende vender o automóvel com a ajuda de um aplicativo especializado em cotação, vistoria e contato com clientes. “É muito mais prático”, disse.

O carro não é o único costume ligado à ideia tradicional de construção de patrimônio que os jovens estão abandonando. As opções de habitação também vêm mudando. De acordo com um estudo publicado pela Zap móveis em 2015, os ultrajovens tinham 40% a mais de interesse em viver de aluguel do que pessoas nascidas em outras gerações. Um levanta mento feito no Uruguai mostrou o mesmo movimento: oito em cada dez jovens (com idade entre 18 e 34 anos) estão interessados em alugar, enquanto apenas 20% buscam imóveis à venda.

Como o valor gasto com moradia costuma representar a maior despesa do orçamento doméstico, a melhor opção muitas vezes é arranjar alguém para dividir as contas. O costumeiro era casar-se, mas muitos jovens preferem morar com amigos a juntar escovas de dentes com seus parceiros. Segundo o IBGE, os jovens brasileiros de até 25 anos estão casando menos ou mais tarde. Em 2016, homens de 15 a 24 anos marcaram as menores taxas de nupcialidade dos 40 anos de amostra da pesquisa. No grupo de 20 a 24 anos (tradicionalmente o com maiores índices de casórios), os noivos marcaram 23,7 matrimônios para cada 1.000 habitantes – número bem inferior aos 70,5 de 1974. Há dez anos, o índice era de 25,9.

Ninguém está dizendo que nos próximos anos os jovens deixarão de casar, morar juntos e ter carros. O que esses indicadores mostram é que hábitos como matrimônio, moradia e carros estão perdendo a importância que tiveram na economia nos últimos dez, 20 anos ou mais. O publicitário Marcos Oliveira, de 26 anos, não quer acumular patrimônio. ” Não quero investir dinheiro em um apartamento ou em um carro. Para me locomover, posso usar transporte público ou o particular compartilhado. Se eu comprar um flat para morar hoje e casar em alguns anos, não haverá como morar ali, pois não terá espaço. Não sei o que farei em cinco anos”, disse. Para ele, a vida moderna não é tão rígida quanto antigamente. Por isso, não vale a pena enfrentar a burocracia necessária para possuir bens físicos. É trabalho demais. “Diferente de meus pais, que viam como uma necessidade ter uma casa e um carro para acomodar a família.”

Se no século XX a maior indústria reinante era a do automóvel, hoje é a Apple. E, para além de eletrônicos, a geração Y está trocando bens materiais por viagens. Uma pesquisa de 2016 organizada pela empresa de aluguel de habitações Airbnb na China, na Inglaterra e nos EUA apontou que, ao pensar nos próximos cinco anos, os jovens consideram mais importante viajar antes de tudo. Para 70% deles, o ato de viajar está ligado diretamente a suas personalidades e a quem eles são como pessoas. No ano passado, um levantamento do Ministério do Turismo apontou que 28,4% das pessoas entrevistadas com idade até 35 anos faziam planos de viagem, um crescimento de quase 10% se comparado com o mesmo período do ano anterior.

Ao priorizar viagens e diminuir a compra de carros e apartamentos, os jovens, que representam cerca de 20% da população mundial, trazem grandes implicações para o formato futuro da economia – e para a velocidade da recuperação da crise. E o mais interessante ainda está por vir: as gerações que chegam a partir dos anos 2000, como a geração Z, partirão das experiências da geração Y para moldar seus costumes.

 

AS GERAÇÕES

Geração do silêncio                                                    Nascidos entre 1928-1945  – 73 – 90anos

Baby boomers (bebês do boom do pós-guerra)  Nascidos entre 1946-1964 – 54 – 72anos

Geração X                                                                       Nascidos entre 1965-1980 – 38 – 53anos

Millennials                                                                    Nascidos entre 1981-1997 – 21 – 37 anos

Pós-millennials                                                             Nascidos entre 1998-2018 – 0 – 20 anos

GESTÃO E CARREIRA

MENOS EMPATIA, MAIS SUCESSO

Excesso de preocupação com os outros prejudica avanço pessoal

Menos empatia, mais sucesso

Mitos dos negócios como Mark Zuckerberg, Steve Jobs ou Elon Musk protagonizam relatos de atitudes agressivas, desleais ou egoístas com seus colaboradores (temas até de roteiros cinematográficos), que em nada ajudam sua reputação. Surpresa: seu sucesso se deve também a esse comportamento. Pelo menos é o que defende estudo publicado no blog Psychology Today, segundo o qual excesso de empatia (uma característica geralmente vista como positiva e desejável) pode ser prejudicial para a evolução profissional. Isso porque ser muito empático acaba colocando as demandas de colegas ou subordinados acima das próprias necessidades da pessoa, diminuindo a habilidade de tomar decisões em seu interesse. Ao contrário, traços psicopatas, que não levam muito em consideração os outros, podem gerar um processo de decisão mais efetivo porque focam na necessidade objetiva dos negócios e não em apenas agradar aos colegas. Trocando em miúdos, um mundo doente.

Não por acaso, CEOs e líderes de equipe apresentam quatro vezes mais tendências à psicopatia do que os demais profissionais. Mas o estudo não defende simplesmente a adoção de atitudes psicopatas: a solução para assegurar sucesso pessoal seria adotar um comportamento de “autopreservação”, ou seja, não hesitar em tomar decisões duras, como demitir alguém claramente incompetente ou inútil para a empresa, sem se preocupar com eventuais reações emocionais. Como resumem os autores, a arte da empatia é considerar as necessidades dos outros sem ignorar as próprias.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 25: 14-30 – PARTE II

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A Parábola dos Talentos 

 

III – A prestação de contas (v. 19).

1. A prestação de contas tarda para acontecer. Eles não foram chamados ao ajuste de contas senão “muito tempo depois”; não que o senhor negligenciasse os seus negócios, ou que Deus retarde a sua promessa (2 Pedro 3.9). Não, Ele “está preparado para julgar” (1 Pedro 4.5), mas tudo deve ser feito no seu tempo e na sua ordem.

2. Mas o dia da prestação de contas chega, por fim: “Veio o senhor daqueles servos e ajustou contas com eles”. Observe que os despenseiros da multiforme graça de Deus devem, em breve, prestar contas da sua administração. Todos nós prestaremos contas do bem que fizemos às nossas próprias almas, e do bem que fizemos aos outros, com os dons que recebemos. Veja Romanos 14.10,11. Considere:

(1) O bom resultado dos servos fiéis; e observe aqui:

[1] Os servos prestando contas (vv. 20,22): “Senhor; entregaste-me cinco talentos”; e outro servo disse: “Entregaste-me dois”. “Eis aqui outros cinco talentos que ganhei com eles;” e o outro disse: “Ganhei outros dois”.

Em primeiro lugar, os servos leais de Cristo reconhecem, com gratidão, sua concessão a eles. Senhor; o entregaste-me tais e tais coisas. Considere:

1. É bom fazer uma estimativa particular do que recebemos de Deus, para nos lembrarmos do que recebemos, para que possamos saber o que se espera de nós, e possamos produzir resultados correspondentes aos benefícios recebidos. 2. Nós nunca devemos considerar o que aprimoramos, a não ser com uma menção geral do favor de Deus a nós, da honra que Ele depositou em nós, ao nos confiar os seus bens, e àquela graça que é a origem e a fonte de tudo que há de bom em nós, ou que é realizado por nós. Pois a verdade é que, quanto mais fazemos para Deus, mais estamos em débito para com Ele, por fazer uso de nós, e nos capacitar para o seu serviço.

Em segundo lugar, eles apresentam, como prova da sua lealdade, o que obtiveram. Note que os bons despenseiros de Deus têm alguma coisa a apresentar para provar a sua diligência. “Mostra-me a tua fé pelas tuas obras”. Quem for um bom homem, que o mostre (Tiago 3.13). Se formos cuidadosos na administração dos nossos dons espirituais, isto logo ficará visível, e as nossas obras nos seguirão (Apocalipse 14.13). Não que os santos, no grande dia, venham a fazer menção às suas grandes obras. Não, Cristo o fará por eles (v. 35). Mas isto sugere que aqueles que aprimorar em fielmente os seus talentos terão confiança no dia de Cristo (1 João 2.28-4.17). E é notável que aquele que tinha apenas dois talentos prestou contas com a mesma disposição que aquele que tinha cinco; pois o nosso consolo, no dia da prestação de contas, será de acordo com a nossa lealdade, e não de acordo com a nossa utilidade; de acordo com a nossa sinceridade, e não com o nosso sucesso; com a retidão dos nossos corações, e não de acordo com o grau das nossas opo1tunidades.

[2] A aceitação do mestre, e a aprovação da prestação de contas (vv. 21,23).

Em primeiro lugar, o mestre os elogiou: “Bem está, servo bom e fiel”. Observe que a diligência e a integridade daqueles que se mostram os bons e fiéis servos de Jesus Cristo certamente se acharão “em louvor; e honra, e glória” na sua revelação (1 Pedro 1.7). Àqueles que reconhecem e honram a Deus agora, Ele irá reconhecer e honrar em breve.

1. Eles serão aceitos: “Servo bom e fiel”. Aquele que conhece agora a integridade dos seus servos, será testemunha dela no grande dia, e aqueles que forem considerados fiéis, assim serão chamados. Talvez eles fossem censurados pelos homens, por serem demasiadamente justos; mas Cristo lhes declarar á o seu devido caráter, como servos bons e fiéis.

2. O que eles fizeram será aceito: “Bem está”. Cristo assim ir à chamar àqueles bons servos, que trabalharam bem, e somente àqueles; pois é através da “perseverança em fazer bem” que procuramos esta “glória e honra” (Romanos 2.7); e se procurarmos, iremos encontrar; se fizermos o que é bom, e o fizermos bem, nós teremos o louvor devido. Alguns mestres são tão mal-humorados que não elogiamos seus servos, ainda que eles realizem muito bem o seu trabalho. Acreditam que não desaprovar já seja uma atitude suficiente. Mas Cristo irá elogiar os seus servos que trabalharem bem; quer os elogios a eles venham dos homens ou não, serão sempre dele. E se tivermos uma boa palavra do nosso Mestre, não importará tanto o que os nossos conservos digam a nosso respeito. Se ele disser: “Bem está”, nós ficaremos felizes, e o julgamento dos homens representará muito pouco para nós; mas, pen­ sando na situação contrária, só será aprovado aquele que o Senhor elogiar, e não aquele que elogiar a si mesmo, ou que for elogiado por seus vizinhos e amigos.

Em segundo lugar, o Senhor os recompensa. Os servos fiéis de Cristo não serão dispensados com elogios limitados. Não, todo o seu trabalho e toda a sua obra de amor serão recompensados.

 Essa recompensa está aqui expressa de duas maneiras:

(1)  Com uma expressão de acordo com a parábola: “Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei”. É usual, nas cortes dos príncipes e nas famílias de homens poderosos, promover para cargos mais elevados aqueles que foram leais nos cargos mais baixos. Observe que Cristo é um Mestre que irá preferir aqueles seus servos que se portarem bem. Cristo tem uma honra guardada para aqueles que o honram, uma coroa (2 Timóteo 4.8), um trono (Apocalipse 3.21), um Reino (cap. 25.34). Aqui, eles são pobres; no céu, serão governantes. Os justos terão o domínio. Todos os servos de Cristo são príncipes.

Observe a desproporção entre o trabalho e a recompensa. Existem poucas coisas nas quais os santos são úteis para a glória de Deus, mas existem muitas coisas nas quais eles serão glorificados com Deus. Qualquer missão que recebemos de Deus, qualquer obra que realizamos para Deus neste mundo, é muito pouco, em comparação com o gozo que nos está proposto. Considere todo o nosso serviço, todos os nossos sofrimentos, todos os nossos aperfeiçoamentos, todo o bem que fazemos aos outros, tudo o que fazemos de bom a nós mesmos, e serão apenas umas poucas coisas, quase nada. Estas coisas não são dignas de serem comparadas, nem é adequado que sejam mencionadas, tendo em vista a glória que há de ser revelada.

(2)  Em outra expressão, que sobressai da parábola para aquilo que ela representa: “Entra no gozo do teu Senhor”. Observe:

(1) A condição do bem-aventurado é uma situação de alegria, não somente porque todas as suas lágrimas serão, então, enxugadas, mas porque todas as fontes de consolo lhe serão abertas, e as fontes de alegria arrebentarão e jorrarão. Onde estiverem a visão e a concretização das esperanças que temos em Deus, uma perfeição de santidade, e a sociedade dos bem-aventurados, não pode deixar de haver abundância de alegria.

(2)  Este gozo é o gozo do seu Senhor; o gozo que Ele mesmo lhes propiciou; o gozo dos redimidos, comprado com o sofrimento do Redentor. É o gozo que Ele mesmo possui, e que era o seu objetivo quando Ele “suportou a cruz, desprezando a afronta” (Hebreus 12.2). É o gozo de que Ele mesmo é a fonte e o centro. É o gozo do nosso Senhor, pois é o gozo no Senhor, que é o nosso gozo supremo. Abraão não estava disposto a permitir que o mordomo da sua casa, embora fiel, fosse o seu herdeiro (Genesis 15.3), mas Cristo admite os seus servos fiéis no seu gozo, para serem co-herdeiros com Ele.

(3)  Os santos glorificados entrarão nesse gozo, tomarão a posse completa dele, como faz o herdeiro quando atinge a maioridade, tomando posse das suas propriedades, ou como aqueles que estão preparados e entram na festa das bodas. Aqui o gozo do nosso Senhor entra no coração dos seus santos, no fervor do Espírito. Em breve, eles entrarão nele, e estarão nele por toda a eternidade, como em seu próprio lugar.

(2) A má prestação de contas do servo negligente. Observe:

[1] As suas desculpas (vv. 24,25). Embora tivesse recebido apenas um talento, ele deve prestar contas por aquele talento. O fato de nós recebermos pouco não nos isenta de prestar contas. Ninguém será chamado a prestar contas de mais do que recebeu; porém todos nós de­ veremos prestar contas daquilo que tivermos.

Em primeiro lugar, veja em que ele confia. Ele vem prestar contas com uma dose de segurança, confiando na explicação que tinha para apresentar, e foi capaz de dizer: “‘Aqui tens o que é teu’. Se eu não aumentei o que me foi entregue, como os outros fizeram, pelo menos isto eu posso dizer: Também não diminuí”. O servo pensa que isso poderá servir para isentá-lo, se não com elogio, pelo menos com segurança.

Observe que muitos vão ao julgamento com muita segurança, supondo a validade da defesa, que será rejeitada por ser vã e frívola. Os crentes negligentes, que têm receio de fazer demais por Deus, ainda assim esperam sair-se tão bem como aqueles que se empenharam muito na obra de Deus. “Mais sábio é o preguiçoso a seus olhos do que sete homens que bem respondem” (Provérbios 26.16). Este servo pensou que a sua prestação de contas seria bem aceita, porque ele pôde dizer: ”Aqui tens o que é teu”. “Senhor eu não desperdicei os bens, não perdi o meu tempo, não me opus aos bons ministros e à boa pregação. Senhor, eu nunca ridicularizei a minha Bíblia, nunca coloquei a minha inteligência para desafiar o Evangelho, nunca abusei do meu poder para perseguir algum homem bom; eu nunca sufoquei as pessoas à minha volta, nem incentivei as criaturas de Deus à perdição na embriaguez ou na glutonaria, e nunca, no meu entender, feri qualquer corpo”. Muitos que são chamados de cristãos nutrem grandes esperanças em relação ao céu, com base na sua capacidade de produzir uma prestação de contas assim; mas tudo isso não representará nada além de ”Aqui tens o que é teu”; como se nada mais fosse exigido, ou pudesse ser esperado.

Em segundo lugar, o que esse servo negligente confessa. Ele reconhece que enterrou o seu talento:

“Escondi na terra o teu talento”. Ele fala como se isso não fosse uma falta grave; ou melhor, como se ele merecesse um elogio, pela sua prudência em guardar o talento em um lugar seguro, e não correr nenhum risco que envolvesse os recursos de seu senhor. Observe que é comum que as pessoas deem pouca importância àquilo que será a sua condenação no grande dia. Ou ainda, se ele estava consciente de que esta era uma falha sua, isto sugere com que facilidade os servos negligentes serão condenados no juízo; eles não precisarão que se procure por provas, pois as suas próprias línguas os acusarão.

Em terceiro lugar, qual é a desculpa que ele apresenta: “Eu conhecia-te, que és um homem duro, e atemorizado. Bons pensamentos sobre Deus produziriam amor, e este amor nos tornaria diligentes e fiéis; mas maus pensamentos sobre Deus produzem medo, e este medo nos torna negligentes e desleais. A sua desculpa evidencia:

1. Os sentimentos de um inimigo: “Eu conhecia-te, que és um homem duro”. Isto foi como aquelas más palavras ditas pela casa de Israel: “O caminho do Senhor não é direito” (Ezequiel 18.25). Assim, a sua defesa resulta no seu crime. ”A estultícia do homem perverterá o seu caminho” (Provérbios 19.3), e então, como se isto pudesse consertar a situação, o seu coração se ira contra o Senhor. Isto é disfarçar o pecado, como Adão, que implicitamente atribuiu a culpa ao próprio Deus: ”A mulher que me deste por companheira”. Note que os corações carnais são capazes de conceber opiniões falsas e maldosas a respeito de Deus, e com elas, persistir com os seus maus costumes. Observe com que confiança ele diz: “Eu conhecia-te”. Como ele poderia conhecê-lo tanto? Que injustiça nós ou os nossos pais encontraram nele? (Jeremias 2.5). Quando Ele nos cansou com o seu trabalho, ou nos enganou com os seus salários? (Miqueias 6.3). Por acaso Ele foi para nós um deserto ou um lugar de trevas? Por tanto tempo Deus governou o mundo, e muitos podem perguntar, com mais razão do que o próprio Samuel: ”A quem defraudei?” ou: ”A quem tenho oprimido?” Será que o mundo todo não sabe do contrário, que Ele está tão longe de ser um Mestre duro, que a terra está cheia da sua bondade; tão longe de colher o que Ele não se­ meou, que Ele semeia muito onde não colhe nada? Pois Ele faz com “que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos”, e enche “de mantimento e de alegria” o coração daqueles que dizem ao Todo-Poderoso: “Retira-te de nós”. Esta sugestão evidencia a reprovação comum que as pessoas pecadoras lançam a Deus, como se toda a culpa pelos seus pecados e pela sua desgraça estivesse à porta do Senhor, como se o Deus precioso lhes negasse a sua graça. Mas o certo é que ninguém que tenha aprimorado fielmente a graça que possuía, tenha perecido por lhe faltar uma graça especial. Ninguém pode demonstrar que algo mais poderia ter sido feito por uma vinha improdutiva, além do que Deus fez por ela. Deus não age como o Faraó, que exigia a produção de tijolos sem fornecer a palha necessária. Não, qualquer coisa que seja exigida na aliança é prometida na própria aliança, de modo que, se nós perecermos, pereceremos devido às nossas próprias atitudes.

2. O estado de espírito de um servo: ”Atemorizado”. Este mau sentimento em relação a Deus nasceu das suas falsas noções sobre Ele, e nada é mais indigno de Deus, nada é maior obstáculo ao nosso dever para com Ele, do que o medo deste servo. Aqui há escravidão e tormento, e se opõe diretamente àquele amor integral que o grande comandante exige. Note que os maus pensamentos a respeito de Deus nos afastam do seu serviço, e nos limitam em relação a Ele. Aqueles que pensarem que é impossível agradar a Deus, e que é inútil servi-lo, não farão nada com o objetivo de promover o Evangelho.

[2] A resposta do seu Senhor a esta desculpa. Isto não lhe terá nenhuma utilidade. Esta desculpa será rejeita­ da, ou melhor, se voltará contra ele, e ele emudecerá; pois aqui nós temos a sua acusação e a sua condenação.

Em primeiro lugar, a sua acusação (vv. 26,27). Ele é acusado de duas falhas:

1. Negligência: “Mau e negligente servo”. Observe que os servos negligentes são maus servos, e assim serão reconhecidos pelo seu Mestre, pois aquele que é “o negligente na sua obra”, e negligencia o bem que Deus lhe ordenou, é “irmão do desperdiçador”, fazendo o mal que Deus proibiu (Provérbios 18.9). Aquele que é descuidado na obra de Deus, é parente próximo daquele que se ocupa da obra do diabo. Não fazer o bem é trazer sobre si mesmo uma culpa muito grave. As omissões são pecados, e devem ser julgadas; a negligência abre caminho para a maldade; todos se tornaram imundos, pois “não há quem faça o bem” (Salmos 14.3). Quando a casa está desocupada, o espírito imundo se apossa dela, levando consigo outros sete espíritos piores do que ele. Aqueles que são ociosos nos assuntos da sua alma, não são apenas ociosos, mas algo pior (1 Timóteo 5.13). Quando os homens dormem, o inimigo semeia ervas daninhas.

2. Autocontradição (vv.26,27): “Sabes que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei; devias, então, ter dado o meu dinheiro aos banqueiros”. Observe que os maus pensamentos que os pecadores têm a respeito de Deus, embora falsos e injustos, estão tão longe de justificar a sua maldade e negligência, que somente irão agravar e aumentar a culpa deles. Isto pode ser interpretado de três maneiras:

(1) “Se você supunha que eu fosse um mestre tão severo, você não deveria, por isso, ter sido mais diligente e cuidadoso para me agradar? Se não fosse por amor que fosse por medo. E por essa razão, você não deveria ter se preocupado com o seu trabalho?” Se “o nosso Deus é um fogo consumidor”, devemos nos empenhar para servi-lo. Ou deste modo:

(2) “Se você me julgava um mestre severo, e por isso não negociou você mesmo com o dinheiro, por medo de perdê-lo, e ter de arcar com a perda, ainda assim você poderia tê-lo colocado nas mãos dos cambistas, ou dos ourives, poderia tê-lo levado ao banco, e então, na minha chegada, se eu não pudesse ter o melhor lucro através do comércio (como com os demais talentos), pelo menos poderia ter algum lucro, com menor vantagem, e poderia ter recebi­ do o que é meu, com juros” – o que, aparentemente, era um costume comum naquele tempo, e não reprovado pelo nosso Salvador. Note que se não pudermos, ou não quisermos, fazer o que devemos, ainda assim esta desculpa não nos servirá quando se demonstrar que não fizemos o que podíamos e devíamos fazer. Se nós não pudermos encontrar, em nossos corações, a coragem para nos aventurarmos em serviços mais difíceis e arriscados, isto nos justificará por evitarmos aqueles que são mais seguros e fáceis? Alguma coisa é melhor que nada. Se deixarmos de demonstrar a nossa coragem nas iniciativas ousadas, ainda assim precisaremos dar testemunho da nossa boa vontade através de esforços honestos; e o nosso Mestre não desprezará o dia das coisas menores. Ou deste modo:

(3) “Se você supunha que eu colho onde não semeei, ainda assim isto não significaria nada para você, pois eu semeei em você, e o talento foi o meu dinheiro que lhe foi confiado, não somente para guardar, mas para negociar”. Observe que no dia da prestação de contas, os servos maus e negligentes serão deixados sem desculpas; as defesas frívolas serão rejeitadas, e toda boca será fechada. E aqueles que agora confiam tanto nas suas próprias justificativas, não terão nenhuma palavra para dizer em sua própria defesa.

Em segundo lugar, a sua condenação. O servo negligente é condenado a:

1. Ser privado do seu talento (vv. 28,29): “Tirai-lhe, pois, o talento”. Primeiramente, o senhor dispôs dos talentos como o proprietário absoluto, mas então Ele dispunha deles como um juiz. Ele tira o talento do servo desleal, para puni-lo, e o entrega àquele que foi eminentemente fiel, para recompensá-lo. E nós temos o significado dessa parte da parábola, em razão da sentença (v. 29): ”A qualquer que tiver será dado”. Isto pode ser aplicado:

(1) Às bênçãos da riqueza e das possessões terrenas desta vida. Elas nos são confiadas para serem usadas para a glória de Deus, e para o bem dos que nos rodeiam. Aquele que tem essas coisas, e as usa com essa finalidade, terá abundância; talvez abundância dessas próprias coisas, ou, pelo menos, abundância de consolo nelas, e de coisas melhores. Mas daquele que não as tem, isto é, que tem essas coisas como se não as tivesse, como se não tivesse a capacidade de se alimentar delas, ou de fazer o bem com elas, elas lhe serão tiradas. Salomão explica isso (Provérbios 11.24): ”Alguns há que espalham, e ainda se lhes acrescenta mais; e outros, que retêm mais do que é justo, mas é para a sua perda”. Dar aos pobres é negociar com o que temos, e o retorno será grande. O Senhor irá multiplicar a farinha da panela e o azeite da botija. Mas aqueles que são sórdidos, e avarentos, e pouco generosos, irão descobrir que as 1·iquezas que assim foram obtidas “se perdem por qualquer má aventura” (Eclesiastes5.13,14). Às vezes, a Providência, estranhamente, transfere propriedades daqueles que não fazem nenhum bem com elas para aqueles que fazem; aqueles que assim agem “ajunta-as para o que se compadece do pobre” (Provérbios 28.8). Veja Provérbios 13.22; Jó 27.16,17; Eclesiastes 2.26.

(2) Aos meios da graça. Àqueles que são diligentes ao aproveitar as oportunidades que têm, Deus irá aumentá-las, irá colocar diante deles uma porta aberta (Apocalipse 3.8). Mas aqueles que não conhecem o dia da sua visitação, terão as coisas que pertencem à sua paz ocultas dos seus olhos. Como prova disso, veja o que Deus fez a Siló (Jeremias 7.12). (3) Aos dons comuns do Espírito. Aquele que os tem, e faz o bem com eles, terá abundância. Esses dons aumentam quando usados, e resplandecem quando são exercitados; quanto mais nós fizermos, mais poderemos fazer pelo Evangelho. Mas aqueles que não despertam o dom que há neles, que não se exercitam de acordo com a sua capacidade, terão os seus dons oxidados, decadentes, e extintos, como um fogo negligenciado. Daquele que não tem um princípio vivo de graça na sua alma lhe serão removidos os dons comuns que possui, da mesma maneira como as virgens loucas saíram, com falta de azeite (v. 8). Assim, o braço do pastor inútil, que ele negligentemente dobrou no seu colo, se secará completamente, e o seu olho direito, que ele descuidada ou voluntariamente fechou, se escurecerá inteiramente, conforme a ameaça descrita em Zacarias 11.17.

2. Ele é condenado a ser lançado “nas trevas exteriores” (v. 30). Nesse trecho:

(1) O seu caráter é o de um “servo inútil”. Note que os servos negligentes serão considerados como servos improdutivos, pois não fazem nada com o propósito da sua vinda ao mundo, nada que corresponda à finalidade do seu nascimento ou batismo; não são, de nenhuma maneira, úteis para a glória de Deus, para o bem dos outros, ou para a salvação das suas próprias almas. Um servo negligente é um membro definhado no corpo, uma árvore infrutífera na vinha, um zangão ocioso na colmeia, ou seja, ele não serve para nada. De certa maneira, todos nós somos “servos inúteis” (Lucas 17.10); não somos de nenhum proveito a Deus (Jó 22.2). Mas para os outros, e para nós mesmos, é necessário que sejamos de algum proveito, pois se não o formos, Cristo não nos reconhecerá como seus servos. Não é suficiente não fazer o mal; nós devemos fazer o bem, devemos produzir frutos, e ainda que Deus não tenha tido proveito nisto, pelo menos Ele será glorificado (João 15.8).

(2) A sua condenação é ser lançado ” nas trevas exteriores”. Nesse ponto, como também naquilo que foi dito aos servos fiéis, o nosso Salvador, imperceptivelmente, se afasta da parábola para entrar no que ela pretendia ensinar, e isto serve como uma chave para o conjunto todo; pois as trevas exteriores, onde há pranto e ranger de dentes, é, nos sermões de Cristo, a perífrase comum para a desgraça dos condenados no inferno. A sua condição é:

[1] Muito funesta. São as trevas exteriores. As trevas são desconfortáveis e aterradoras; elas foram uma das pragas do Egito. No inferno, há cadeias de escuridão (2 Pedro 2.4). Nas trevas, nenhum homem consegue trabalhar, uma punição adequada para um servo negligente. São as trevas exteriores, que estão fora da luz do céu, fora do gozo do seu Senhor, no qual os servos fiéis são aceitos; fora do banquete. Compare com Mateus 8.12 e 22.13. [

2] Muito triste. Ali há “pranto”, o que evidencia grande tristeza, e “ranger de dentes”, que evidencia grande irritação e indignação. Esta será a parte que caberá ao servo negligente.