PSICOLOGIA ANALÍTICA

PANDORA

Força psíquica desconcertante, o inconsciente remete a uma caixa de Pandora que abriga sonhos proibidos, pesadelos e informação subliminar.

Pandora

Mas afinal o que é o inconsciente em termos neurobiológico? De que é feito, como se processa? Que mecanismos o engendram? Numa primeira aproximação, podemos dizer que o inconsciente é feito de todas as memórias armazenadas, porém não imediatamente acessíveis. Essa definição ampla inclui em primeiro lugar as memórias que sabemos ter adquirido ao longo da vida, mas nas quais não estamos pensando num dado momento de referência. Inclui também as memórias que não percebemos chegar, escondidas da consciência pela debilidade do estímulo ou por simples falta de atenção. O inconsciente abriga ainda memórias particularmente desagradáveis que tendemos a recalcar, isto é, suprimir ativamente. A composição do inconsciente faz dele uma força psíquica frequentemente desconcertante, uma caixa de Pandora que abriga sonhos proibidos, pesadelos horrendos e muita informação subliminar.

Sabe-se há décadas que as regiões do córtex cerebral dedicadas à visão se dividem em duas grandes vias de processamento, uma dorsal e outra ventral. Enquanto a via ventral é ativada pela percepção visual consciente de faces e outros objetos estáticos, experimentos com primatas e estudos neurológicos sugerem que a via dorsal processa informações visuais relacionadas a movimento (tais como o uso de ferramentas), com ou sem a consciência do sujeito. Utilizando imageamento por ressonância magnética funcional, pesquisadores da Universidade de Minnesota obtiveram pela primeira vez evidências diretas em humanos de que a via dorsal é ativada por imagens subliminares (Fang e He., “Cortical responses to invisible objects in the human dorsal and ventral pathways” (2005), Nature Neurocience 8,1380-1385).

O engenhoso experimento explorou o fenômeno da rivalidade binocular.

Foram apresentadas imagens distintas para cada olho: uma muito tênue representando objetos, e outra de alto-contraste contendo nítido visual amórfico. Nessas condições, a imagem de alto-contraste inibe a percepção da imagem de baixo-contraste, tornando invisíveis os objetos tênues apresentados a apenas um dos olhos. A ativação cerebral obtida durante a apresentação do objeto oculto e íntegro foi então comparada com a atividade neural registrada quando a imagem do objeto oculto era completamente embaralhada, pixel a pixel.

O resultado foi surpreendente. Ainda que, em ambos os casos fosse impossível ter qualquer percepção consciente do objeto, a via dorsal se ativou muito mais durante a apresentação de objetos ocultos íntegros que durante a apresentação de objetos ocultos embaralhados. Quando os experimentadores separaram os objetos ocultos íntegros em duas categorias, faces e ferramentas, verificou-se que a ativação da via dorsal por objetos ocultos ocorria seletivamente para ferramentas, mas não para faces.

Os achados de Fang e He têm implicações sociais abrangentes: se imagens subliminares produzem ativações corticais profundas e específicas para o tipo de objeto apresentado todo libelo contra a violência na televisão parece bem fundado na ciência. O estudo atualiza ainda a centenária constatação de Freud: a despeito de toda nossa lógica e razão, apesar de todas as conquistas da civilização humana, evoluímos de modo a captar conscientemente apenas uma pequena fração da realidade.

Em sua maior parte, o Real permanece invisível e premente, oculto e presente, completamente inconsciente, perigoso e rente, longe do que se pensa, mas não do que se sente… até que de repente escapa o evento impertinente: na forma de chiste, de sonho, de sintoma ou de acidente.

SIDARTA RIBEIRO –  é PHD em neurobiologia pela Universidade Rockefeller. Fez pós-doutorado na Universidade de Duke, investigando as bases moleculares e celulares do papel do sono e dos sonhos no aprendizado.

OUTROS OLHARES

VITÓRIAS CONTRA O CÂNCER DE MAMA

A medicina conhece a primeira mulher que usou suas células de defesa para evitar a progressão da doença e aplaude duas importantes pesquisas mostrando que boa parte das pacientes necessita de menos remédio. O caminho é a terapia personalizada.

Vitórias contra o câncer de mama

 

A maior parte dos avanços históricos contra o câncer é anunciada na reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, Asco, o mais importante encontro da especialidade do mundo. Na edição deste ano, realizada em Chicago, os destaques foram os avanços no tratamento do câncer de mama, o mais comum entre as mulheres na maioria dos países – no Brasil, perde apenas para o tumor de pele não-melanoma. Na raiz dos dois principais trabalhos apresentados sobre o tema está a boa notícia de que muitas das pacientes necessitarão de menos remédio do que o recomendado até agora. Isso significa menor exposição a efeitos colaterais como fadiga e diarreia constante e também economia nos gastos com o tratamento, questão vital para que o custeio das terapias seja viável.

A primeira boa novidade atinge cerca de 70% das mulheres com a doença. Elas apresentam o chamado subtipo luminal de tumor, caracterizado pela presença, nas células tumorais, de receptores hormonais femininos (estrógeno e progesterona). Hoje há alguns testes que avaliam as marcas genéticas da doença, informações atualmente determinantes para saber a chance de o tumor se disseminar e que resposta terá aos remédios. Na pesquisa anunciada na semana passada, 10,2 mil pacientes foram submetidas ao exame Oncotype CX, que analisa 21 genes associados ao tumor e indica o grau de risco em notas que vão de zero a 100. No estudo, considerou-se baixo risco até dez, intermediário de 10 a 25 e, acima disso, alto. “Para a maioria das 6,7 mil pacientes que compunham o risco intermediário ficou evidente que a quimioterapia é desnecessária após a cirurgia para retirada do tumor”, explica o médico Mário Alberto da Costa, da Oncoclínica Centro de Tratamento Oncológico, no Rio de Janeiro. O tratamento à base de hormônios é suficiente.

Antes, sabia-se que a quimioterapia não precisava ser usada apenas para pacientes com escore abaixo de dez. “A nova informação refina mais o tratamento pós-operatório”, afirma o oncologista Fernando Maluf, diretor médico associado do Centro Oncológico da BP – Beneficência Portuguesa de São Paulo. Para as pacientes, prescindir da quimioterapia significa não sofrer os efeitos adversos comuns aos remédios, que incluem náuseas, cansaço e perda de cabelo. Entre as mulheres que apresentaram risco entre 21 e 25 e que se encontravam na pré-menopausa, no entanto, a combinação entre a quimio e a terapia hormonal apresentou pequeno benefício.

AVALIAÇÃO GENÉTICA

O achado só foi possível graças ao salto no conhecimento sobre a genética do tumor e sua importância no combate à enfermidade observado na última década. Isso mudou tudo no tratamento do câncer. As informações genéticas extraídas de cada tumor mostraram que não basta apenas avaliar a localização do câncer e o estado clínico do paciente. É preciso considerar as características genéticas expressadas pelas células tumorais e também do paciente como um todo para que o tratamento seja mais eficaz (sabe-se, por exemplo, que uma mesma medicação pode funcionar para um doente e não para outro). É a união das informações que permite atualmente o desenho de terapias especificas. Não é por outra razão que a medicina viu disparar nos últimos anos o lançamento de drogas que atuam sobre subtipos muito próprios revelados por meio dos estudos genéticos.

 EXPERIMENTO PIONEIRO

O segundo experimento festejado na reunião deste ano também se deve a isso. Ele teve como alvo mulheres portadoras do subtipo HER-2 positivo, caracterizado pela presença de uma alteração genética do tumor que estimula as células doentes a produzir em excesso a proteína HER-2. Essa mutação toma a doença mais agressiva. O recomendado até hoje era que, para evitar a volta do tumor depois da cirurgia, as pacientes recebessem quimioterapia e uma das medicações que bloqueiam especificamente a atuação da proteína. No caso da pesquisa, o remédio usado foi o transtuzumabe. Os cientistas avaliaram a reação ao uso do medicamento durante seis e doze meses. A resposta demonstrou que a evolução e sobrevida entre os dois grupos é praticamente a mesma. “Além de poupar a mulher de efeitos colaterais causados pelo remédio, a informação resultará em uma economia enorme no tratamento”, diz o oncologista Sergio Simon, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica. Um dos riscos mais preocupantes decorrentes da utilização da droga é o dano cardíaco que pode provocar.

Outro experimento inovador também mexeu com a comunidade médica na mesma semana do encontro da Sociedade Americana de Oncologia e trouxe ainda mais esperança de novos recursos contra a doença. Em um artigo publicado na revista científica Nature Medicine – uma das mais res­ peitadas do mundo – pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos descreveram de que maneira conseguiram deixar livre do câncer de mama, pela primeira vez, uma paciente submetida a uma estratégia que usa as próprias células de defesa do doente como arma.

O caminho já foi usado, também com sucesso. para bloquear tumor de pele e de pulmão. A paciente é a engenheira americana Judy Perkins, 49 anos, moradora da Flórida. Seu prognóstico era de três meses de vida depois que o tumor originado em sua mama direita se espalhou para outras partes do corpo (metástase) e não respondia aos tratamentos. Os médicos a selecionaram para o estudo e, após dois anos, constataram que a doença havia sido contida.

Primeiro, os pesquisadores extraíram de seu organismo células do sistema de defesa capazes de localizar e matar o tumor. Depois, as multiplicaram em laboratório. Em seguida, o conteúdo foi injetado em Judy. Todas as lesões metastáticas desapareceram. “Foi uma resposta notável”, declarou o coordenador do trabalho, o médico americano Steven Rosenberg. Há um longo caminho antes de o recurso tomar-se disponível. Depois de terem a boa notícia com Judy, os médicos precisam, antes de tudo, saber se ela será replicada em mais pacientes. Eles estão confiantes que sim.

 Vitórias contra o câncer de mama2

OPÇÃO PARA MELANOMA

Novidades importantes foram apresentadas também contra o melanoma, o tipo mais agressivo de tumor de pele. Entre elas estão os resultados animadores do uso combinado de duas medicações (encorafenibe e binimetinibe) em casos nos quais o tumor se espalhou ou apresenta mutação no gene BRAF, algo que corresponde à metade dos casos, e não pode ser completamente retirado por cirurgia. A estratégia dobrou o tempo de sobrevida em comparação à utilização de apenas um dos remédios indicado para a doença (vemurafenibe). Além disso, houve melhora na qualidade de vida. “O tratamento é bem tolerado. Não observamos febre ou fotossensibilidade, por exemplo”, disse Reinhard Dummer, da Universidade de Zurique, principal autor do estudo que forneceu a conclusão.

 

GESTÃO E CARREIRA

MESTRE DAS MÁQUINAS

Com o avanço da inteligência artificial, cresce a demanda pelo profissional especializado em ensinar computadores a pensar como humanos.

Mestre das máquinas

Em vez de giz, lousa e cadernos, o professor de robôs usa algoritmos. Mesmo que você nunca tenha ouvido falar em machine learning (aprendizado de máquina”), com certeza já passou por uma situação que envolva essa tecnologia de inteligência artificial (AI). Serviços famosos de streaming, como Netflix e Spotify, por exemplo, preparam listas de sugestões para os usuários com base em seu gosto pessoal – e o robô responsável por essa façanha não aprende isso sozinho. Quem o ensina é o cientista (ou engenheiro) de dados. Esse profissional cria cálculos que simulam o processo de decisão do cérebro de quem assiste aos filmes ou escuta as músicas. Para isso, coleta dados, enxerga padrões e insere informações no sistema.

Luiz Braz, de 33 anos, formado em tecnologia da informação pela Fatec, em São Paulo, é um desses especialistas empenhados em educar os robôs. Ele ensina as máquinas do Vagas.com. Hoje, sua principal função é melhorar a correspondência entre os candidatos e as vagas oferecidas no portal. “Estamos ensinado a inteligência artificial a entender padrões no currículo que identifiquem com maior precisão se ele é adequado ou não a um cargo”, diz. De acordo com Luiz, uma das coisas mais importantes é tomar cuidado para não transformar as máquinas tendenciosas. ”Como ela aprende com os padrões de dados, se eles são carregados de preconceitos humanos, ela pode, por exemplo, julgar que deve oferecer certas vagas só para quem fez uma faculdade renomada”, diz Luiz. ”Nosso papel também é identificar quais são os vieses a ser evitados.”

Não existe no país uma graduação de machine learning, mas cursos como TI, matemática e engenharia da computação são indicados para quem deseja atuar como professor de AI numa empresa. Atualmente, a dificuldade está no plano de carreira. “Como é uma ocupação nova, é difícil dizer até onde se pode chegar. Tudo vai depender de como evoluir a tecnologia”, diz Diego Mariz, gerente sênior na Michael Page, empresa de recrutamento. Mas uma coisa é certa: a demanda por esse tipo de especialista não esgotará tão cedo.

 Mestre das máquinas.2

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 28: 16-20

Alimento diário

A Comissão Apostólica

Esse evangelista exclui várias outras aparições de Cristo relatadas por Lucas e João, e passa rapidamente a tratar daquilo que foi o evento mais solene, prometido e designado várias vezes antes de sua morte, e após a sua ressurreição. Considere:

 

I – Como os discípulos reagiram ao seu aparecimento, o que estava de acordo com a instrução que receberam (v. 16). Eles partiram para a Galileia, uma longa jornada a percorrer para uma única visão de Cristo, mas valeu a pena. Eles o haviam visto diversas vezes em Jerusalém, no entanto foram para a Galileia, para vê-lo ali.

1. Porque o Senhor os instruiu a fazer isso. Embora parecesse desnecessário ir para a Galileia – para ver o Senhor, a quem poderiam ver em Jerusalém, especialmente quando deveriam voltar tão cedo a Jerusalém, antes de sua ascensão-, eles tinham aprendido a obedecer às ordens de Cristo, e não se oporem a elas. Observe que aqueles que iriam manter uma comunhão com Cristo deveriam servi-lo no local que Ele designasse. Aqueles que o obedecem em uma ordenança, de vem obedecê-lo em outra; aqueles que o viram em Jerusalém, deveriam ir para a Galileia.

2. Porque essa deveria ser uma reunião pública e geral. Eles mesmos tinham visto o Senhor, e conversaram com Ele em particular. Mas isso não deveria servir como desculpa para que não comparecessem a uma reunião solene, onde muitos se reuniriam para vê-lo. Observe que a nossa comunhão com Deus, em nossa privacidade, não deve ultrapassar a nossa presença no culto público, conforme as oportunidades que tivermos; porque Deus ama as portas de Sião, e nós devemos fazer o mesmo. O lugar escolhido era uma montanha na Galileia, provavelmente a mesma montanha na qual o Senhor foi transfigurado. Ali eles se encontraram, em particular; o que talvez servisse para mostrar o estado exaltado no qual Ele entrou, e os seus avanços em direção ao mundo superior.

 

II –  Como eles foram afetados pelo aparecimento de Cristo a eles (v. 17). Agora temos o momento em que Ele foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos (1 Coríntios 15.6). Alguns pensam que eles o viram, a princípio, de uma certa distância, acima, no ar; Ele foi visto acima, por quinhentos irmãos (assim muitos leem essa passagem), o que deu ocasião para que alguns duvidassem, até que Ele se aproximou (v. 18), e então ficaram satisfeitos. Somos informados:

1. Que eles o adoraram; muitos deles fizeram isso, e parece que todos o fizeram, dando-lhe urna honra divina, que foi sugerida por algumas expressões externas de adoração. Observe que todos aqueles que veem o Senhor Jesus com um olhar de fé sentem-se obrigados a adorá-lo.

2. Mas alguns duvidaram, alguns que estavam presentes naquela ocasião. Observe que mesmo entre aqueles que adoraram havia alguns que duvidaram. Até mesmo a fé daqueles que são sinceros pode ser ainda muito fraca e inconstante. Eles duvidaram, eles ficaram em suspense, como os pratos da balança, quando é difícil dizer qual prepondera. Essas dúvidas foram depois disso removidas, e a fé deles cresceu até alcançar a plena convicção, o que foi uma honra para Cristo. Pois, uma vez que os discípulos duvidaram antes de crer, eles não poderiam ser chamados de crédulos, e dispostos a receber quaisquer imposições; porque eles primeiro questionaram, e provaram todas as coisas, e então perseveraram no que era verdadeiro, e no que descobriram que era verdadeiro.

III –  O que Jesus Cristo lhes disse (vv. 18-20): “E, chegando-se Jesus, falou-lhes”. Embora alguns tenham duvidado, Ele não os rejeitou; porque Ele não “trilhará a cana quebrada”. Ele não ficou de longe, mas se aproximou, e lhes deu provas convincentes de sua ressurreição quando estabilizou a balança oscilante, e fez com que a fé deles triunfasse sobre as suas dúvidas. E, chegando-se Jesus, falou-lhes familiarmente, como um amigo fala com o outro, para que eles ficassem totalmente satisfeitos com a incumbência que Ele estava prestes a lhes dar. Aquele que se aproximou de Deus para lhe falar a nosso favor, se aproxima de nós para nos falar a respeito de Deus. Cristo agora entregou aos seus apóstolos a grande carta-régia do seu Reino no mundo; estava enviando-os como os seus embaixadores, e aqui lhes dá as suas credenciais.

Ao abrirmos essa grande carta-régia, podemos observar duas coisas:

1. A comissão que o nosso Senhor Jesus recebeu de Deus Pai. Estando prestes a autorizar os seus apóstolos, se alguém perguntasse com que autoridade Ele faz as suas maravilhas, e quem lhe deu esta autoridade, aqui o Senhor nos diz: “É me dado todo o poder no céu e na terra”; uma palavra muito expressiva, que ninguém além dele poderia pronunciar. Aqui Ele afirma o seu domínio universal como Mediador, que é o grande fundamento da religião cristã. Ele tem todo o poder. Observe:

(1)  Qual é a origem desse poder. Ele não o assumiu, não o usurpou, mas lhe foi dado. Ele foi legalmente autorizado a utilizá-lo, e foi investido nele, por uma concessão daquele que é a Fonte de todo o ser, e, consequentemente, de todo o poder. Deus Pai estabeleceu o Senhor Jesus como o Rei (Salmos 2.6), fez com que Ele tomasse posse, e o entronizou (Lucas 1.32). Sendo Deus, igual ao Pai, todo o poder era original e essencialmente dele. Mas como Mediador, como Deus-homem, todo o poder lhe foi dado. Em parte, em recompensa pela sua obra (porque Ele se humilhou, portanto Deus assim o exaltou), e em parte como cumprimento de seu próprio desígnio. Ele teve esse poder que lhe foi dado sobre toda a carne, para que pudesse dar a vida eterna a todos quantos lhe foram dados (João 17.2), para a mais efetiva execução e aperfeiçoamento da nossa salvação. Era desse poder que Ele estava agora mais notoriamente investido; o poder da sua ressurreição (Atos 13.3). Sim, Ele tinha poder anteriormente, poder para perdoar pecados (cap. 9.6); mas agora todo o poder lhe foi dado. Ele agora receberá para si mesmo um reino (Lucas 19.12), para se sentar à mão direita de Deus (Salmos 110.1). Tendo-o comprado, nada lhe resta além de tomar posse; este Reino é dele para sempre.

(2)  Onde é que Ele tem esse poder; no céu e na terra, compreendendo o universo. Cristo é o único Monarca universal, Ele é o Senhor de tudo e de todos (Atos 10.36). Ele tem todo o poder no céu. Ele tem o poder do domínio sobre os anjos, todos eles são seus humildes servos (Efésios 1.20,21). Ele tem o poder da intercessão junto ao seu amado Pai, em virtude de sua satisfação e expiação. Ele intercede, não como um suplicante, mas como um requerente: “Pai, quero”. Ele também tem todo o poder na terra; tendo atendido as exigências de Deus, através do sacrifício da expiação, Ele persuade aos homens, e lida com eles como aquele que tem autoridade, através do ministério da reconciliação. Ele é, na verdade, em todas as causas e sobre todas as pessoas, o Supremo Mediador e Governador. Por Ele, os reis reinam. Todas as almas são dele, e a Ele todo coração e joelho devem se dobrar, e toda língua deve confessar que Ele é o Senhor. Isto, o nosso Senhor lhes diz, não só para satisfazê-los quanto à autoridade que Ele tinha para comissiona- los, e para conduzi-los na execução de sua comissão, mas para tirar a ofensa da cruz; eles não tinham motivos para se envergonhar do Cristo crucificado, quando o viram assim glorificado.

2. A comissão que Ele dá àqueles a quem Ele envia: “Portanto, ide”. Essa comissão é dada:

(1)  Primeiramente aos apóstolos, os principais ministros de estado no reino de Cristo, os arquitetos que colocaram o alicerce da igreja. Então aqueles que tinham seguido a Cristo na regeneração, assentaram sobre tronos (Lucas 22.30): “Ide”. Não se trata apenas de uma palavra de ordem, como aquela: Filho, vai trabalhar; mas uma palavra de ânimo: Ide, e não temais, não vos enviei? Ide, e fazei este trabalho. Eles não devem se fixar e convocar as nações a ouvi-los; mas devem ir, e levar o Evangelho às portas das nações: “Ide”. Eles demonstravam uma grande afeição pela presença física de Cristo, apoiavam-se nela, e nela edificavam toda s as suas alegrias e esperanças. Mas agora Cristo os desobriga de cuidarem de sua Pessoa, e os envia a outras terras para um outro trabalho. Como a águia desperta o seu ninho, move se sobre os seus filhos, para fazer-lhes voar (Deuteronômio 32.11), assim Cristo desperta os seus discípulos, para dispersá-los por todo o mundo.

(2)  Aos seus sucessores, os ministros do Evangelho, cuja missão é transmitir o Evangelho de geração em geração, até o fim do mundo, em termos cronológicos, assim como era a sua missão transmiti-lo de nação em nação, até o fim do mundo, em termos geográficos; e nenhuma dessas tarefas pode ser considerada menos necessária. A promessa do Antigo Testamento de um ministério do Evangelho é feita em termos de sucessão (Isaias 59.21); e isto deve ser assim entendido. Caso contrário, como Cristo poderia estar sempre com eles até à consumação do mundo? Cristo, em sua ascensão, não só “deu apóstolos e profetas, mas pastores e doutores” (Efésios 4.11). Então observe:

[1] Até que ponto a sua comissão é estendida: a todas as nações. “Ide, e ensinai todas as nações”. Não que eles devessem ir todos juntos a todo lugar, mas por consentimento deveriam se dispersar de modo a poderem melhor difundir a luz do Evangelho. Agora isso se mostra claramente como a vontade de Cristo. Em primeiro lugar, a aliança da peculiaridade, feita com os judeus, deveria agora ser cancelada e abolida. Essa palavra pôs abaixo o muro da divisão, que, por tanto tempo, havia excluído os gentios de uma igreja-estado visível; e, embora os apóstolos – quando foram enviados pela primeira vez – tenham sido proibidos de entrar no caminho dos gentios, agora eles foram enviados a todas as nações. Em segundo lugar, a salvação de Cristo deveria ser oferecida a todos, e ninguém seria excluído, a menos que alguém se excluísse por in­ credulidade e impenitência. A salvação que eles deveriam pregar é uma salvação comum; qualquer que quiser, venha, e aproveite o benefício da isenção; porque em Cristo Jesus não há nenhuma diferença entre judeus e gregos. Em terceiro lugar, o cristianismo deve estar entrelaçado com as constituições nacionais, de modo que os reinos do mundo se tornem reinos de Cristo.

[2] Qual é a principal intenção dessa comissão: ensinar todas as nações, fazei o máximo para fazer das nações, nações cristãs”; não: “Ide às nações, e proclamai o juízo de Deus contra elas, como Jonas a Nínive, e como os outros profetas do Antigo Testamento” (embora tivessem motivo suficiente para esperar por isso, devido à maldade demonstrada pelas nações), mas: “Ide, e ensinai-as”. Cristo, o Mediador, ao estabelecer um reino no mundo, traz os povos das nações para serem os seus súditos; estabelecendo uma escola, traz os povos das nações para serem os seus alunos; levantando um exército para a execução da guerra contra os poderes das trevas, alista as nações da terra sob a sua bandeira. A obra que os apóstolos tinham a fazer consistia em estabelecer a religião cristã em todos os lugares, e era um trabalho honrado; as conquistas dos heróis poderosos do mundo não eram nada quando comparadas a isso. Eles conquistaram as nações para si mesmos, e as tornaram infelizes; os apóstolos as conquistaram para Cristo, e as tornaram felizes.

[3] As instruções para executarem essa comissão. Em primeiro lugar, eles devem admitir discípulos pelo rito sagrado do batismo: “Entrem em todas as nações, preguem o Evangelho aos povos, operem milagres nelas, e persuadam-nas a fazer parte da igreja, trazendo consigo os seus filhos; e então admitam-nos na igreja, lavando-os com água”: seja mergulhando-os na água, derramando ou aspergindo água sobre eles. O mais apropriado parece ser o batismo por imersão, já que a palavra batismo significa imersão. O texto em Isaías 44.3 também é muito importante neste contexto: “Derramarei o meu Espírito sobre a tua posteridade”. O texto em Tito 3.5,6 também menciona o Espírito que o Senhor derramou abundantemente sobre nós. Ezequiel 36.25, fala da água pura que o Senhor derrama sobre nós. O texto em Isaías 52.15, parece ser uma profecia dessa comissão que consiste em alcançar as nações.

Em segundo lugar, esse batismo deve ser administrado em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo. Isto é:

1. Pela autoridade do céu, e não do homem; porque os seus ministros agem pela autoridade das três pessoas da Trindade. O Pai, o Filho, e o Espírito Santo concordam quanto à nossa criação, como também quanto à nossa redenção; eles têm a sua comissão sob o grande selo do céu, que coloca uma honra sobre a ordenança, embora ao olhar carnal não tenha forma nem beleza, como aquele que o instituiu.

2. Invocando o nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo. Todas as coisas são santificadas pela oração, e particularmente pelas águas do batismo. A oração da fé obtém a presença de Deus com a ordenança, que é o seu brilho e beleza, a sua vida e eficácia. Mas:

3. É no nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo. Este conceito foi estabelecido como a síntese dos primeiros princípios da religião cristã, e da nova aliança. E os credos antigos foram redigidos com base nesse conceito. Ao sermos batizados, professamos solenemente:

(1)  A nossa concordância com a revelação das Escrituras com relação ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Confessamos a nossa crença de que há um Deus, de que existe apenas um Deus, que na Divindade há um Pai, um Filho, e um Espírito Santo. Nós somos batizados, não em nomes, mas em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, o que claramente sugere que estes três são um, e o nome deles é um só. A citação distinta das três pessoas da Trindade, tanto no batismo cristão mencionado aqui como na bênção cristã (2 Coríntios 13.13), é uma prova plena da doutrina da Trindade. Muito tem sido feito para preservar essa doutrina pura e sadia durante todas as eras da igreja; porque nada é maior e mais majestoso do que ela nas assembleias cristãs.

(2)  O nosso consentimento com uma relação de aliança com Deus, o Pai, Filho, e o Espírito Santo. O batismo é uma ordenança, isto é, é um juramento. E um juramento de abjuração, pelo qual renunciamos ao mundo e à carne, declarando-os rivais de Deus que competem pelo trono em nossos corações; é um juramento de fidelidade, pelo qual abandonamos a nossa própria vontade e nos entregamos a Deus, para sermos seus. Isto significa que entregamos ao Senhor o nosso próprio ser, todo o nosso ser, corpo, alma e espírito, para sermos governados pela sua vontade, e sermos felizes desfrutando o seu favor. Assim nos tornamos homens e mulheres de Deus. É as­ sim que honramos ao Senhor. Portanto, o batismo é aplicado à pessoa, garantindo um título de posse que está relacionado às premissas, porque é a pessoa que é dedicada a Deus.

[1] O batismo é realizado em nome do Pai, pois cremos que Ele é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo (por que esta é a principal intenção aqui), e o nosso Pai. Como o nosso Criador, Sustentador e Benfeitor, a quem, portanto, entregamos a nós mesmos, como o nosso dono e proprietário absoluto, para nos impulsionar, e dispor de nós; como o nosso reitor e governador, para nos governar como agentes livres, por sua lei; e como o nosso principal bem, e o nosso fim mais elevado.

[2] É em nome do Filho, o Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, e correlato ao Pai. O batismo era, de uma maneira particular, administrado em nome do Senhor Jesus (Atos 8.16; 19.5). No batismo, concordamos, como fez Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (cap. 16.16), e consentimos, como fez Tomé: “Senhor meu, e Deus meu” (João 20.28). Aceitamos Cristo como o nosso Profeta, Sacerdote e Rei, e nos entregamos para sermos ensinados, salvos, e governados por Ele.

[3] É em nome do Espírito Santo. Crendo na Divindade do Espírito Santo, e em sua ação para executar a nossa redenção, nos entregamos à sua direção e operação, como o nosso santificador, mestre, guia e consolador.

Em terceiro lugar, aqueles que são assim batizados, e admitidos entre os discípulos de Cristo, devem ser ensinados (v. 20): “Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado”. Isso denota duas coisas:

1. O dever dos discípulos, de todos os cristãos batizados. Eles devem observar todas as coisas que Cristo ordenou, e, para esse fim, devem se sujeitar ao ensino daqueles que Ele envia. A nossa admissão na igreja visível tem um propósito maior. Quando Cristo nos ensinou, Ele não terminou o seu relacionamento conosco. Ele alista soldados que possam continuar a serem instruídos para o seu serviço.

Todos aqueles que são batizados são, portanto, obrigados:

(1)  A fazer da ordem de Cristo a sua regra. Há uma lei de fé, e nos é dito que devemos estar debaixo da lei de Cristo; pelo batismo, somos ligados, e devemos obedecer.

(2)  A guardar o que Cristo ordenou. A devida obediência aos mandamentos de Cristo requer uma observação diligente; corremos o risco de sofrer grandes prejuízos se não prestarmos uma boa atenção a eles. E em toda a nossa obediência, devemos guardar a ordem, e fazer aquilo que fazemos corno se estivéssemos fazendo algo para o Senhor.

(3)  A guardar todas as coisas que o Senhor Jesus ordenou, sem exceção; todos os deveres morais, e todas as ordenanças instituídas. A nossa obediência às leis de Cristo não será sincera se ela não for universal; devemos fazer a sua vontade de uma forma completa.

(4)  A se restringir aos mandamentos de Cristo, não diminuindo nem acrescentando nada a eles.

(5)  A aprender quais são os seus deveres – de acordo com a lei de Cristo – com aqueles a quem Ele designou para serem mestres em sua escola, pois foi para isso que entramos em sua escola.

2. O dever dos apóstolos de Cristo, e seus ministros; ou seja, falar dos mandamentos de Cristo, expô-los aos seus discípulos, expressar-lhes a necessidade de obediência, e auxiliá-los a aplicar os mandamentos gerais de Cristo a casos específicos. Eles devem ensinar os mandamentos, não as suas próprias invenções, mas aquilo que foi instituído por Cristo. Eles devem aderir religiosamente aos mandamentos, e os cristãos devem ser instruídos no conhecimento deles. Um ministério firme é aqui estabelecido na igreja, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à condição de varão perfeito (Efésios 4.11-13). Os herdeiros do céu devem estar sob os cuidados de tutores e governadores, até que cheguem à maioridade.

3. Aqui está a segurança que o Senhor concede de sua presença espiritual com eles, na execução dessa comissão: “E eis que eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos”. Esta promessa grandiosa e preciosa é apresentada com o termo “eis” para fortalecer a fé deles, e fazer com que a observem. “Observem isto: Vocês podem estar seguros dessa promessa, e agir com base nela”. Considere:

(1)  O favor que lhes foi prometido: “Eu estou convosco”. Não: Eu estarei convosco, mas: “Eu estou”. Assim como Deus enviou a Moisés, Cristo enviou os seus apóstolos, neste nome: “Eu sou”; pelo fato de Jesus Cristo ser Deus, para Ele o passado, o presente e o futuro são a mesma coisa. Veja Apocalipse 1.8. Ele então estava prestes a deixá-los. A sua presença física agora seria tirada deles, e isto os entristeceu; mas Ele lhes assegura da sua presença espiritual, que seria mais útil a eles do que a sua presença física poderia ser. “Eu estou convosco”, isto é, “o meu Espírito está convosco, o Consolador permanecerá convosco (João 16.7). Eu estou convosco, e não contra vós; convosco para vos ajudar, para estar ao vosso lado, e vos defender, como foi dito que Miguel, o nosso príncipe, faz (Daniel 10.21). Eu estou convosco, e não ausente de vós, não de longe; Eu sou o socorro bem presente” (Salmos 46.1). Cristo agora estava enviando-os para estabelecer o seu reino no mundo, o que seria uma grande tarefa. E então, no momento oportuno, Ele lhes promete a sua presença com eles:

[1] Para ajudá-los nas dificuldades que eles provavelmente enfrentariam. “Eu estou convosco, para vos sustentar, para pleitear a vossa causa; convosco em todos os vossos serviços, em todos os vossos sofrimentos, para salvar-vos com conforto e honra. Quando passardes pelo fogo ou pela água, Eu estarei convosco. No púlpito, na prisão, ‘eis que Eu estou convosco”‘.

[2] Para que sejam bem-sucedidos nessa grande tarefa: “‘Eis que eu estou convosco’, para tornar o vosso ministério eficaz no ensino das nações, para a destruição do domínio e das fortalezas de Satanás, e para que possais estabelecer um domínio mais forte para o Senhor Jesus”. Seria improvável que eles, por vontade própria, modificassem as constituições nacionais da religião, mudando os procedimentos que haviam sido adotados há tanto tempo; que eles estabelecessem uma doutrina tão diretamente contrária àquilo que era aceito na época, e persuadissem as pessoas a se tornarem os discípulos de um Jesus crucificado. Mas: “Eis que Eu estou convosco”, e, portanto, cumprireis vossa missão.

(2)  A continuidade do favor, sempre, até a consumação dos séculos.

[1] Eles terão a sua presença constante. Sempre, todos os dias, cada dia. “Eu estarei convosco aos sábados e nos dias da semana; nos dias bons e nos dias maus; nos dias de inverno e nos dias de verão”. Não há dia, nem hora do dia, em que o Senhor Jesus não esteja presente com a sua igreja e com os seus ministros; se houvesse esse dia, essa hora, os seus seguidores teriam um problema muito sério. Desde a sua ressurreição, Ele lhes havia aparecido de vez em quando, quem sabe uma vez por semana, e talvez apenas isso. Mas Ele lhes assegura de que eles terão a sua presença espiritual permanentemente consigo, sem qualquer interrupção. Onde quer que estejamos, a Palavra de Cristo estará perto de nós, em nossos lábios, e o Espírito de Cristo perto de nós, em nossos próprios corações. O Deus de Israel, o Salvador, é, às vezes, um Deus que se oculta (Isaias 45.15), mas nunca um Deus que se ausenta; às vezes, não podemos enxergá-lo, mas Ele nunca está longe de nós.

[2] Eles terão a sua presença perpétua, até “a consumação dos séculos”. Há um mundo diante de nós, que jamais terá fim, e o seu início está chegando apressadamente; e até lá, a religião cristã, em uma ou outra parte do mundo, será preservada, e a presença de Cristo será contínua com os seus ministros. Eu estou convosco “até à consumação dos séculos”; não apenas com a pessoa de cada um de vós, porque o ser humano morre rapidamente; mas, em primeiro lugar, convosco e com os vossos escritos. Há um poder divino acompanhando as Escrituras do Novo Testamento, não só preservando a sua existência, mas produzindo efeitos maravilhosos por meio deles, que continuarão até o fim dos tempos. Em segundo lugar, convosco e com os vossos sucessores; convosco e com todos os ministros do Evangelho nas várias épocas da igreja; com todos aqueles a quem essa comissão se estende; com todos os que, sendo devidamente chamados e enviados, as­ sim batizam e assim ensinam. Quando a consumação dos séculos chegar, e o reino for entregue a Deus, o Pai, não haverá então nenhuma outra necessidade de ministros e da sua ministração; mas até lá eles continuarão, e as boas intenções da instituição serão respondidas. Essa é uma palavra animadora para todos os ministros fiéis de Cristo, de que o que foi dito aos apóstolos, foi dito a todos eles: “Nunca te deixarei, nem te desampararei”.

Encontramos duas despedidas solenes que o nosso Senhor Jesus fez à sua igreja, e a sua palavra final em ambas é muito animadora. Uma delas ocorreu aqui, quando Ele concluiu a sua conversa pessoal com eles, e então a sua palavra final foi: “‘Eis que eu estou convosco todos os dias’. Eu partirei, mas ainda estou convosco”. A outra despedida ocorreu quando Ele encerrou o cânon das Escrituras pela composição de seu discípulo amado, e então a sua palavra final foi: “‘Certamente, cedo venho’. Eu vos deixo por pouco tempo, mas em breve voltarei para vós” (Apocalipse 22.20). Com isso, fica claro que o Senhor não partiu irado, mas com amor; e a sua vontade é que permaneçamos em nossa comunhão com Ele, mantendo a expectativa que temos em relação a Ele.

Resta ainda mais uma palavra que não deve ser ignorada, o ”Amém”. Ela não é uma escrita cifrada, com o único propósito de ser uma palavra de encerramento, como “fim” no término de um livro, mas ela tem o seu significado e a sua importância.

1. Ela revela a confirmação de Cristo em relação à sua promessa: “Eis que eu estou convosco”. É o seu Amém, em quem todas as promessas são Sim e Amém. Verdadeiramente, “Eu estou”, e estarei convosco. Eu, o Amém, a Testemunha fiel, vos asseguro disso. Ou:

2. Ela revela a concordância da igreja em seu desejo, oração e expectativa. É o Amém do evangelista – Assim seja, Senhor bendito. O nosso Amém, para as promessas de Cristo as transformam em orações. Cristo prometeu estar presente com os ministros, presente em sua palavra, presente nas reuniões do seu povo, mesmo que apenas dois ou três estejam reunidos em seu nome, e isso todos os dias, até à consumação dos séculos. Digamos Amém com muito entusiasmo; creiamos que será as­ sim, e oremos para que possa ser assim. Senhor, lembra-te desta palavra dada aos teus servos, na qual nos fizeste esperar.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

Igreja aprendendo a ser “Igreja”

O que a bíblia me ensinou

Uma outra demonstração de que a “Eklésia” cumpre o seu chamado está naquilo que nos é dado como missão, segundo o modelo ensinado por Jesus: Só seremos considerados “Igreja” quando cumprirmos nossa responsabilidade diante do próximo. Precisamos cumprir, como igreja, a função social para com a comunidade.
Os apóstolos compreenderam sua missão não somente quando andaram em meio aos pregando as boas novas, mas quando se preocuparam em repartir com os necessitados, assistiram as viúvas e os órfãos.
A preocupação em criar um corpo diaconal, descrita em atos 6, mostra quão importante era esse ministério que eles o faziam paralelo à pregação da palavra.
Precisamos hoje resgatar esses princípios e lembrarmos que a palavra de salvação, que é a expressão de nossa Fé, e nossas ações social e comunitária serão o elo definitivo para que possamos unir Fé e Obras.
Em Cristo,

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O NINHO CEREBRAL DOS DEMÔNIOS

No século XV, o Malleus maleficarum e manuais de exorcismo apontavam o ventrículo central como o local do cérebro onde se refugiavam os demônios.

O ninho cerebral dos demônios

O Malleus maleficarum ou “martelo das bruxas”, publicado dezenas de vezes desde 1484, além de justificar do ponto de vista teológico a caça às bruxas era um compêndio da doutrina tomista sobre os poderes dos demônios, notadamente o de dominar a mente das pessoas. É no Malleus, principalmente, que se baseia a teoria demonista da loucura, já que “além dos loucos naturais de que nos fala o evangelho”, existem as alienações causadas por um ou mais demônios.

Assim, alguns distúrbios das faculdades mentais podem resultar da obsessão diabólica, outros, muito mais graves, implicam a possessão. No primeiro caso, o demônio coage e perturba sua vítima como se a sitiasse, mas não a invade, não lhe corrompe a razão. (Mesmo hoje, um distúrbio obsessivo é visto como menos grave que a loucura, ou psicose; entra na categoria de neurose obsessiva compulsiva ou transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Graves são, segundo o Malleus, os casos de possessão, nos quais o demônio usurpa o controle total das funções mentais.

É quase um dogma na doutrina exorcística o princípio de que o demônio está sempre onde ele age. Se um homem repentinamente perde o movimento de um braço, é nesse braço que está o demônio. E é ali que o exorcismo deve atuar. Nos distúrbios mentais, o demônio encontra-se em alguma parte do cérebro responsável pela faculdade perturbada, num caso de amnésia, por exemplo, ele se instala na facultas memorativa. Mas nos casos de loucura, ou delírio, quando várias faculdades são perturbadas simultaneamente, mantida a ortodoxia doutrinária o demônio deve estar aninhado em alguma área de comunicação entre as diversas faculdades.

Além do Malleus, diversos manuais exorcísticos apontam, com base no conhecimento anatômico da época, o locus preciso do cérebro em que se aninham os demônios para causar o delírio. É no ventrículo central.

Eis o que diz o ‘Malleus:”…os demônios hão de encontrar-se na fantasia e nas percepções internas… eles são capazes de causar impressões nas faculdades internas… transpondo as imagens retidas nas faculdades correspondentes a um ou mais sentidos, assim como transferem, da memória, situada na parte posterior da cabeça, a imagem… para o meio da cabeça, onde estão as células da faculdade imaginativa e, daí, enfim, para [a região onde está] o sentido da razão, que se situa na frente da cabeça. Causam, assim, uma tal alteração e confusão, que tais imagens são percebidas como se fossem reais, diante dos nossos olhos”(Malleus, II, c.9).

Assim, instalados no ventrículo central, os demônios bloqueiam as informações da realidade, provindas dos sentidos, e abastecem a imaginação e a razão com imagens de percepções anteriores e com lembranças de experiências passadas. É assim que se explicam os absurdos do pensamento delirante.

Três ideias do Malleus perdurarão, na teoria ulterior do delírio: a da perda de coordenação entre funções cerebrais, a de bloqueio da percepção da realidade e a de que os conteúdos do pensamento delirante são, basicamente, resíduos de experiências anteriores, retidos na memória.  

 

ISAIAS PESSOTTI – é escritor e ex-professor titular de psicologia da Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto. É autor de Os Nomes da Loucura e O Século dos Manicômios.

OUTROS OLHARES

A VALORIZAÇÃO DA MATURIDADE

É importante educar crianças e jovens sobre as questões pertinentes ao valor e respeito que a terceira idade merece, fazendo com que tenham uma visão privilegiada sobre os idosos.

A valorização da maturidade

Envelhecer é um processo de enfrentamento de desafios. Algumas medidas que mexem com padrões das aposentadorias deram ainda mais instabilidade a esse quadro. Como lidar com essa fase da vida cheia de inseguranças relacionadas à saúde, às finanças, ao ninho vazio, às perdas, aos lutos etc.?

É inegável que envelhecer parece estar se tornando cada dia mais difícil. Além das dificuldades básicas inerentes a qualquer pessoa idosa, a situação atual do país, que mexe com os padrões da aposentadoria e com o direito à dignidade e sustento de muitos idosos, tem tornado essa fase da vida ainda mais sofrida para todos.

Pessoas honestas, que passaram a vida inteira trabalhando e honrando mensalmente suas despesas e impostos consideráveis, chegam à terceira idade sem o retorno adequado de todo o seu esforço.

Como fica a cabeça de um idoso assim? Como lidar com todas as angústias, inseguranças e a sensação de humilhação, abandono e descaso com que muitos deles convivem diariamente?

Após uma vida inteira ativa no sentido de trabalhar, sustentar suas famílias, criar seus filhos e por vezes a esposa, pais e/ ou sogros, provendo o sustento como uma base ou alicerce da família, eles mudam de posição e passam a depender de outras pessoas para realizar, em alguns casos, até tarefas muito simples.

Mostram-se inseguros e vacilantes diante da incapacidade de fazer as tarefas físicas ou mentais que até então realizavam. Muitas vezes, parte da incapacidade nem é real, trata-se apenas de uma crença limitante de que não conseguem mais fazer certas coisas e que acaba levando-os à limitação real por evitarem a dificuldade imaginada, em que sequer tentam realizar essas tarefas. E, assim, eles começam a se aniquilar e vão deixando pouco a pouco de interagir com o ambiente e as pessoas.

Dificuldades antes nunca imaginadas por eles passam a acompanhá-los em diversos setores de suas vidas. Na alimentação, por exemplo, já não conseguem mastigar alimentos duros ou morder uma maçã. Até a carne fica difícil de mastigar, dependendo do estado do idoso. As tarefas simples do dia a dia também ficam prejudicadas. Subir ou descer escadas, caminhar grandes distâncias, sentar ou levantar do chão ou assentos baixos já se tornam fonte de dor, constrangimento e dependência.

Para as mulheres, em geral, aceitar a ajuda de outros para a realização dessas pequenas tarefas não se torna um problema. Mas algumas mulheres, e grande parte dos homens, sentem-se constrangidas quando se percebem dependendo dos outros para tarefas rotineiras das quais sempre deram conta. Há quem se sinta um estorvo na vida de seus familiares e fique deprimido, desejando morrer e acabar logo com esse fardo.

A visão e a audição já não são mais as mesmas. O que os atrapalha tanto nos momentos de lazer (assistir tele­ visão, ler um livro, ouvir suas músicas favoritas ou fazer palavras cruzadas) quanto para a locomoção sem acompanhamento de alguém, pois correm o risco de serem atropelados, assaltados ou passarem por alguma situação delicada na rua.

O equilíbrio e o reflexo também já se encontram consideravelmente diminuídos e aliam-se muitas vezes a falhas cada vez mais constantes na memória. Senhas passam a ser esquecidas e tarefas como ida a um banco ou ao mercado podem se tornar fonte de frustração, ansiedade ou insegurança.

Com todas essas dificuldades, e tantas outras não citadas aqui, acaba-se notando um isolamento e introversão dos idosos. Há quem se mantenha mais calado e recolhido pela falta de interesse em estar num grupo e não conseguir acompanhar os assuntos e participar daquele momento devido à deficiência auditiva e visual. E quanto mais os idosos se recolhem e evitam utilizar seus canais sensoriais, mais parece que eles se atrofiam e encarceram ainda mais nossos idosos.

Imagine como deve ser sobreviver sem poder ouvir ou ver bem, sentir o gosto dos alimentos que ingere, os cheiros ruins que nos servem como alertas e os bons que nos motivam e agradam? Como deve ser difícil se sentir um estorvo, atrapalhando, na concepção do idoso, um passeio em família, em que todos se limitam a dar alguns passos lentos aguardando seu caminhar difícil e tendo que auxiliá-lo a sentar, levantar, comer etc. Mesmo em casos nos quais a família vive isso com zelo e gratidão, expressando seu prazer em cuidar e estar com seus idosos assim, precisamos aceitar que é triste e/ ou humilhante para muitos deles ter que se submeter aos cuidados constantes.

Essas limitações aliadas à diminuição dos reflexos, da memória, lentidão do raciocínio e aos inúmeros avanços tecnológicos fazem com que os idosos fiquem inseguros e passem a depender de ajuda para a tomada de decisões, resolução de alguns problemas, movimentação de suas contas bancárias, por exemplo, sob o risco de serem lesados ou prejudicados de alguma forma por algum estranho ou por algum equívoco que possam cometer.

Muitos idosos passam a evitar dirigir, sentem-se mais medrosos e cautelosos frente à violência e aos perigos que podem ocorrer nas ruas e começam a se enclausurar. Esse movimento pode estar associado, inclusive, à presença de distúrbios psicológicos, como os de ansiedade ou fobia social, por exemplo, desenvolvendo quadros sofridos e repetitivos de sofrimento diante de necessidades incontroláveis, tais como: trancar todas as portas da casa (inclusive as in­ ternas que ligam os cômodos), checar torneiras, fogão e geladeiras dia e noite, esconder objetos e valores pela casa e sofrer depois até que consiga encontrá-los novamente.

A convivência com cuidadores e ajudantes nas tarefas de casa muitas vezes se torna um grande   desafio para todos os envolvidos. Quando os idosos se comportam de forma agressiva e ranzinza, desconfiada, antipática ou arrogante, a família precisa lidar com a constante procura de novo funcionário. Esse jeito difícil de ser aliado a manias de perseguição, delírios e paranoias, por exemplo, faz com que esses idosos transformem a convivência em algo infernal e adoecedor. E quando eles mesmos não expulsam seus cuidadores, os cuidadores acabam largando o serviço.

 

O MOMENTO DO “NINHO VAZIO”

Considera-se que um dos primeiros grandes baques para um casal com filhos seja o momento no qual eles se emancipam e seguem a vida, deixando a casa vazia, silenciosa e, às vezes, triste.

Como lidar com essa situação na qual o casal fica sozinho novamente? Um momento em que o casal nem se lembra mais como se vive a dois. Momento que chega por vezes de repente, depois de os pais viverem por anos dedicando-se exclusivamente aos filhos.

Muitos casais, após receberem os filhos, perdem a configuração de casal. Os papéis de marido e mulher dão lugar aos papéis de pai e mãe daqueles filhos. Todo o seu tempo, os planos e esforços são direcionados para a satisfação e criação dos filhos. Seus interesses e preferências são comumente deixados de lado e substituídos pelos das crianças.

Há casais que deixam de cultivar sua relação amorosa, suas relações sociais e os momentos de lazer (individuais e do casal), abrindo mão de sua satisfação pessoal para conquistarem a satisfação de seus filhos. E passam tantos anos vivendo para os filhos que, quando estes vão embora, deixam o casal sentindo-se meio perdido. Não sabem mais o que fazer com suas vidas e o tempo livre que passam a ter. Quais são seus gostos? O que desejam fazer ou comer?

Conhecer-se novamente passa a ser um desafio grande para esse casal. Toda a sua rotina de vida, que se modificou para a chegada e criação dos filhos, muda bruscamente mais uma vez. Mais um momento de adaptação e aprendizado.

Muitos casais enfrentam dificuldades sérias para retomarem a vida de casal novamente e se mantêm tentando viver a vida dos filhos. Apegados a eles, cobram suas ligações, sua atenção e sua presença constante. Há casos em que esse apego é tão excessivo que, por mais que o filho ligue e apareça, nunca parece ser suficiente. Com isso, correm o risco de interferir negativamente na vida do novo casal, causando desgastes e embates.

São casais que desaprenderam a se olhar, se cuidar e a tentar satisfazer seus próprios desejos. Muitos nem sabem se ainda desejam algo. Sentem como se não desejassem mais nada, além da função de cuidar da alegria e satisfação de seus filhos.

Dessa forma, um momento que deveria ser de retomada da vida do casal e busca por uma vida a dois mais tranquila e prazerosa torna-se uma vida angustiante, mal aproveitada e sem sentido.

 

A HORA DE SE APOSENTAR

Outro momento crítico na vida de uma pessoa é quando chega a hora de ela se aposentar. Depois de uma vida inteira cumprindo aquele papel profissional, sendo reconhecida como tal, chega a hora de deixar aquilo para trás.

Muitos postergam a aposentadoria pela necessidade de complementar a renda mensal da família. E mesmo que o corpo e a mente já não aguentem mais trabalhar, eles precisam continuar no emprego, numa espécie de tortura diária que afeta seu bem-estar, bom humor e prazer de viver.

Outros a adiam pela dificuldade de abrir mão daquele hábito diário e do status que o trabalho lhe dá. Quem passa a ser reconhecido como dr./dra. Ou mesmo quem ganha a fama de “João do Pastel’ por exemplo, enfrenta grande dificuldade de abrir mão disso. Mesmo cansados e podendo ou precisando se aposentar, eles estendem o máximo que podem seu tempo de serviço.

E, ao consumarem a aposentadoria, muitos são os casos de pessoas que adoecem e perdem o sentido de suas vidas. Parece que essas pessoas não conseguem desapegar do papel que cumpriram por anos e simplesmente seguir, honrando e aceitando o encerramento desse ciclo.

Casos em que a pessoa se despersonaliza totalmente, passando a ser exclusivamente o profissional, total­ mente identificado com o papel profissional empenhado e desqualificando o seu papel pessoal e/ou social. E quando o doutor deixa de estar em cena, não resta mais nada.

Isso pode vir da incapacidade dessas pessoas se relacionarem. Depois de passarem uma vida inteira alimentando seu ego e investindo na área mais confortável, em que ela se sentia mais apta e segura, como deixar a vida profissional e retomar a vida pessoal, que nunca conseguiu ser nutrida e fortalecida?

 

Mais uma etapa difícil e desafiadora que chega, geralmente inaugurando a fase da terceira idade. Etapa esta que influencia a vida do idoso e de toda a família, que sofre as consequências de sua insatisfação ou inapetência.

 

VIVÊNCIA DE MUITOS LUTOS

Outro ponto difícil para os que chegam à terceira idade é a fase na qual os idosos se dão conta de que muitos de seus familiares e amigos já morreram. Deparar-se com a reta final da vida não parece ser uma coisa fácil. Para alguns, a proximidade de descendentes queridos ou amigos próximos alivia e distrai dessa fase. Para outros, a constatação de que todos ou quase todos os entes queridos que nasceram até sua época já se foram acelera ainda mais esse momento final.

É comum se deprimir e encerrar a sua vida antes mesmo que ela termine, numa postura de reclusão e entrega. Tudo parece perder o sentido e eles deixam de fazer coisas que antes lhes proporcionavam bem-estar e alegria, e vivem por viver, dia após dia. Como que se negando a viver o resto de vida que ainda têm.

É uma fase delicada e doída, que exige o desapego de muitas coisas. Casas, e pessoas que coisas construíram suas vidas se foram. E, mesmo assim, você se vê obrigado a seguir com poucas coisas significativas. Quase tudo do seu passado se desfez. E é realmente muito difícil seguir adiante assim.

A valorização da maturidade.3

SAÚDE NA TERCEIRA IDADE

Nessa fase da vida é inevitável que apareçam diversos problemas de saúde. Além das limitações físicas naturais da idade, a maioria dos idosos precisa conviver diariamente com dores em várias partes do corpo. Muitas patologias aparecem como reflexo, ou não, de seus hábitos alimentares ou posturais de uma vida inteira. Atividades ou funções que ele se impôs ou que exigiram dele por muitos anos e que agora apresentam resultados danosos e irreversíveis, mentalmente ou fisicamente falando. Problemas nas articulações, coluna, coração, mente acelerada, ansiedade, depressão, muitas consequências que a vida dura acaba trazendo para a terceira idade.

Alguns penam por falta de consciência da consequência dos danos que serão provocados no futuro e outros por falta de opção de outro tipo de atividade de sustento. Mas todos os idosos levarão minimamente as marcas do desgaste do corpo físico e da velhice que chega após uma vida inteira de esforço e dedicação.

E o que fazer quando se alia um custo de vida muito alto, com um plano de saúde que pratica valores absurdos, versus uma aposentadoria extremamente baixa?

Na época em que o sujeito mais precisa do plano de saúde, que muitos pagam uma vida inteira sem sequer terem tempo disponível para utilizar, vê-se obrigado a dispor de valores altíssimos para se manter associado. Se por algum motivo o idoso não possuía plano de saúde e tem necessidade de ingressar em algum, provavelmente terá seu pedido negado, já que as companhias de plano de saúde não aceitam novos associados com idade avançada e problemas de saúde preexistentes.

Parece engraçado, para não dizer triste ou vergonhoso, especular que as companhias que oferecem plano de saúde preferem pessoas com saúde, que não necessitam utilizar o serviço por eles oferecido. Em sendo assim, qual se­ ria a finalidade de um plano de saúde? Promover e prezar pela saúde dos asso­ ciados, que se associam pela necessidade de buscar ou manter uma boa saúde, ou somente aceitar clientes com boa saúde para evitar despesas excessivas com os serviços prestados por eles?

Os idosos que têm a “sorte” de poder dispor de um plano de saúde, na hora que precisam de atendimento, ou na hora da realização de algum exame ou tratamento, sofrem, inicialmente, com a enorme dificuldade para agendar um horário. E sofrem mais ainda depois, com a espera desumana e longa em antessalas cheias e desconfortáveis para a efetivação do mesmo.

Afirmo que são desumanas, pois é comum vermos idosos com dificuldade de deslocamento sendo jogados para lá e para cá na tentativa de realizar um exame importante ou aguardando sua vez que nunca chega, enquanto sofrem com a fome do jejum necessário para o exame ou com o constrangimento horrível de não conseguir segurar a urina após ter bebido vários copos de água e não ter sido prontamente atendido.

É muito duro ver nossos idosos passando por situações tão difíceis numa fase da vida na qual eles deveriam ter um refresco, um alento, um retorno de tudo que eles construíram e significaram em sua existência. E vemos que, in­ dependentemente do papel que tenham cumprido ou da classe social a que pertencem, seu final de vida tende a parecer injusto e difícil.

Entendo que a necessidade dos mais novos sobreviverem, e darem conta de tudo o que aquele idoso proporcionou a eles um dia, tira deles por vezes a capacidade de valorizar e aproveitar seus idosos por mais tempo. Muitas vezes, só quando os perdemos nos damos conta de que poderíamos ter aproveitado mais a presença deles. Nossas crianças poderiam ter tido mais tempo junto deles, para ouvir suas histórias e receber muito aprendizado. Nós os deixamos ir sem perguntar muitas coisas que podiam ter sido perguntadas. Mas nos envolvemos tanto com as responsabilidades e dificuldades da vida que tantas vezes mal podemos honrar nossos antepassados como mereciam ser honrados.

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O VALOR DA TERCEIRA IDADE

Um dos sinais que indicam que um país é desenvolvido é o nível de consciência e valorização que se tem acerca da importância da população de terceira idade. Após uma vida inteira servindo a sua família e, de alguma forma, a sua pátria, um idoso deveria ter o direito a uma velhice tranquila e digna, na qual ele pudesse ter acesso à saúde com respeito e dignidade e pudesse dispor de instituições dedicadas a ele no sentido de ter atividades e ocupações saudáveis. Ocupações as quais talvez nunca tenham tido t empo e oportunidade de realizar, pela vida corrida e produtiva que levaram. Mas agora, com a disponibilidade de tempo, eles podem experimentar e descobrir prazeres, habilidades e até se sentirem úteis na realização de trabalhos nos quais podem compartilhar sua experiência e sabedoria adquirida na escola da vida. É um desperdício deixarmos nossos idosos se calarem e se isolarem, levando informações preciosas sobre nossa história e nosso passado. Talvez se enxergássemos seu valor e os respeitássemos como parte fundamental de nossas vidas e nossa história os idosos pudessem envelhecer de forma mais digna. Que possamos repensar esse tema e educar nossas crianças e jovens sobre as questões pertinentes ao valor e respeito que a terceira idade merece.

A valorização da maturidade.4 

AS PERDAS

A perda do companheiro de vida é uma das situações mais dolorosas na vida dos idosos. Após compartilhar uma trajetória inteira com alguém. fica muito difícil seguir sem ele. Mesmo nos casos nos quais a convivência não era fácil ou casos nos quais um dos cônjuges estava adoecido, a perda não é sinônimo de alívio e sim de vazio e dor. Não é difícil ver o cônjuge que permaneceu vivo definhar até morrer.

A valorização da maturidade.5 

ESTATÍSTICAS

No Brasil, a chamada terceira idade cresceu aproximadamente 11 vezes nos últimos 60 anos. saltando de 17 milhão para 18.5 milhões de pessoas nessa faixa etária. Segundo projeções em 2025 serão 611 milhões e, em 2050, um em cada três brasileiros será idoso. Por todos esses fatores é fundamental que as próximas gerações entendam a importância de respeitar essa população

 

DANIELE VANZAN – é psicóloga e especialista em Psicologia Jurídica. Formou-se posteriormente em Terapia de Vida Passada (Terapia Regressiva) e Constelação Sistêmica. Atualmente, atende e ministra cursos para terapeutas interessados nessas áreas de atuação. Autora de dois livros infantis pela Editora Boa Nova: Não Consigo Desgrudar da Mamãe, que versa sobre a ansiedade de separação, e Eu Sou o Rei de Todo o Mundo, que aborda a problemática das crianças que têm dificuldade de aceitar limites. São livros destinados a crianças e adultos que necessitam de informações e orientações acerca desses temas.

GESTÃO E CARREIRA

O FOCO SUSTENTA A CARREIRA

O foco sustenta a carreira

Na hora de escolher um investimento em educação ou aceitar uma proposta de trabalho, com frequência discutimos se a melhor estratégia de carreira é ter um foco específico ou ser um generalista. Porém, quando observo o mercado, não tenho dúvida de que o profissional é favorecido quando tem um eixo funcional definido.

Uma pesquisa conduzida pelas universidades Colúmbia e Tulane revelou que mais de 400 alunos de MBAs que atuavam no setor financeiro, mas que haviam se graduado em áreas distintas, obtiveram um bônus 15% maior se comparado ao dos que tinham formação específica em finanças. Os generalistas eram os preferidos; os especialistas, os castigados. Entretanto, mesmo que a formação acadêmica seja um fator de diferenciação, nenhum deles precisou migrar para outro departamento.

Thomas Malone, professor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, explica em seu livro O Futuro dos Empregos (Editora M. Books) a “hiperespecialização” das carreiras. Ele afirma que não só as organizações, mas também todas as atividades da sociedade moderna necessitam de pessoas altamente especializadas. Isso ocorre porque a alta complexidade dos negócios, a redução elas estruturas e a pressão por resultados exigem o foco e conhecimentos consolidados.

Precisamos compreender que área-foco significa um conjunto de atividades que compõe o eixo funcional de carreira. Por exemplo, para se especializar em RH é preciso ter experiência em recrutamento, seleção, remuneração e desenvolvimento. Navegar dentro de um setor é saudável e não significa perder a concentração.

Além de construir uma especialidade, é importante complementar a carreira com uma visão sistêmica, principalmente para posições de liderança. Focalizar um eixo funcional e compreende as áreas são os alicerces da trilha profissional.

Estamos diante da transformação dos modelos tradicionais de trabalho. Uma das iniciativas contemporâneas é a criação de hubs, ou grupos que contribuem com diversas atividades da organização, sem hierarquia e sem necessariamente as pessoas estarem em seu setor de origem. Esses modelos flexíveis serão necessários para oxigenar as carreiras e permitir movimentos não lineares.

Mas é importante não se iludir. Acompanhar as mudanças da área e se manter atualizado são antídotos contra o envelhecimento e darão sustentação no longo prazo, independentemente da forma como as organizações se ajeitem.

 

RAFAEL SOUTO – é fundador e CEO da Consultoria Produtive, de São Paulo. Atua com planejamento e gestão de carreira, programas de demissão responsável e de aposentadoria

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 28: 11–15

Alimento diário

A Ressurreição

Para mais provas da ressurreição de Jesus Cristo, temos aqui a confissão dos soldados que estavam de guarda; e há duas coisas que fortalecem esse testemunho – que eles foram testemunhas oculares, e eles mesmos viram a glória da ressurreição, algo que ninguém mais viu. Além disso, eles eram inimigos, colocados ali para se oporem e obstruírem a sua ressurreição. Agora observe aqui:

I – Como esse testemunho foi dado aos príncipes dos sacerdotes (v. 11): quando as mulheres estavam indo levar a notícia aos discípulos, que iria encher os seus corações de alegria, os soldados foram levar a mesma notícia aos príncipes dos sacerdotes, o que iria encher os seus rostos de vergonha. Alguns da guarda, provavelmente aqueles que estavam no comando, chegando à cidade, levaram para aqueles que os haviam empregado o relatório de seu desapontamento. Eles anunciaram aos príncipes dos sacerdotes todas as coisas que haviam acontecido; contaram-lhes sobre o terremoto, a decida do anjo, a remoção da pedra, e a saída do corpo de Jesus vivo de dentro do túmulo. Assim, o sinal do profeta Jonas foi levado para os príncipes dos sacerdotes com a mais clara e incontestável evidência que poderia existir; e assim os maior es meios de convicção lhes foram apresentados; nós bem podemos imaginar como essa notícia foi uma mortificação para eles, e que, como os inimigos dos judeus, eles se abateram muito em seus próprios olhos (Neemias 6.16). Poderia se esperar justamente que eles agora cressem em Cristo, e se arrependessem de tê-lo matado; mas eles eram obstinados em sua infidelidade, e permaneceram assim.

II – Como o fato foi encoberto e sufocado por eles. Eles convocaram uma reunião, e consideraram o que deveria ser feito. Da parte deles, estavam resolvidos a não crer que Jesus havia ressuscitado; mas a preocupação deles era impedir que outros cressem, e impedir que eles fossem envergonhados por causa de sua incredulidade. Eles o entregaram à morte, e não havia nenhum modo de justificar o que haviam feito; assim, nada mais lhes restava, a não ser confrontar as evidências de sua ressurreição. Desse modo, aqueles que se venderam para operar a maldade descobrem que um pecado atrai outro, e que eles mergulharam a si mesmos em uma vil necessidade de acrescentar iniquidade à iniquidade, algo que faz parte da maldição dos perseguidores de Cristo (Salmos 69.27).

O resultado da conversa deles foi que aqueles soldados deveriam ser subornados de qualquer maneira, para que não contassem a verdade.

1. Eles colocaram dinheiro nas mãos dos soldados. E qual é a maldade que os homens não farão por amor ao dinheiro? Eles deram aos soldados muito dinheiro, provavelmente uma quantia muito maior do que deram a Judas. Esses príncipes dos sacerdotes amavam o seu dinheiro, assim como a maioria das pessoas, e estavam relutantes a se indisporem dele; no entanto, para darem prosseguimento a seu plano malicioso contra o Evangelho de Cristo, eles foram bastante generosos. Eles provavelmente deram aos soldados o que eles pediram, e os soldados sabiam como tirar proveito de uma situação como essa. Os soldados receberam muito dinheiro para divulgar o que sabiam ser uma mentira, enquanto muitos relutam a dar pouco dinheiro para que seja divulgado o que sabem ser a verdade, mesmo tendo uma promessa de serem recompensados na ressurreição dos justos. Não sejamos avarentos em relação a uma boa causa, ao vermos uma causa má ser apoiada tão generosamente.

2. Eles colocaram uma mentira na boca dos soldados (v. 13). “Dizei: Vieram de noite os seus discípulos e, dormindo nós, o furtaram” ; uma manobra lamentável é melhor do que nenhuma, mas essa manobra foi realmente desprezível.

(1)  Essa história inventada era ridícula, trazendo consigo a sua própria contestação. Se eles dormiram, como poderiam saber alguma coisa do que aconteceu, ou dizer quem foi até o sepulcro? Se qualquer um deles estivesse acordado para observar o que aconteceu, sem dúvida alguma teria acordado todos os demais para impedir que os discípulos fizessem algo; pois essa era a única missão deles. Era totalmente improvável que um grupo de homens pobres, fracos, amedrontados e desanimados fosse se expor em uma atividade tão impensada quanto resgatar um corpo morto. Por que as casas onde eles moravam não foram cuidadosamente vasculhadas, e outros meios usados para descobrir o corpo morto? Mas essa era uma mentira tão fraca que qualquer pessoa a poderia desmascarar facilmente. Mas, se ela alguma vez tivesse sido plausível:

(2)  Foi uma atitude perversa desses sacerdotes e anciãos contratar os soldados para contar uma mentira deliberada (como se essa tivesse sido uma questão de tão pequena importância), contra as suas consciências. Aqueles que levam outros a cometer um pecado premeditado não sabem o que fazem; pois isso pode corromper a consciência, e ser uma porta de entrada para muitos outros pecados. Mas:

(3)  Considerando que essa atitude teve a intenção de destruir a grande doutrina da ressurreição de Cristo, esse foi um pecado contra o último remédio, e foi, com efeito, uma blasfêmia contra o Espírito Santo, pois imputaram à malícia dos discípulos aquilo que foi feito pelo poder do Espírito Santo.

Mas, para que os soldados não fossem objetos da penalidade que eles sofreriam pela lei romana por dormirem durante uma guarda, pena que era muito severa (Atos 12.19), os judeus prometeram interceder junto ao governador: “Nós o persuadiremos e vos poremos em segurança”. Nós usaremos os nossos próprios interesses, de forma que ele não perceba a gravidade do fato; e eles, de fato, descobriram como poderiam manipulá-lo facilmente. Se esses soldados realmente tivessem dormido, permitindo assim que os discípulos roubassem o corpo, como o mundo teria que acreditar, os sacerdotes e anciãos teriam sido os primeiros a solicitar junto ao governador que os soldados fossem punidos pela sua traição. Dessa forma, o cuidado deles pela segurança dos soldados mostra claramente que eles divulgaram uma mentira. Eles se comprometeram a protegê-los da espada da justiça de Pilatos, mas não poderiam protegê-los da espada da justiça de Deus, que paira sobre a cabeça daqueles que amam a mentira, e mentem. Eles prometem mais do que podem cumprir ao se comprometerem a salvar um homem de qualquer dano, depois de cometerem um pecado premeditado.

Pois bem, assim o complô foi executado. Mas, que sucesso isso teve?

[1] Aqueles que estavam dispostos a enganar, pegaram o dinheiro e fizeram como foram instruídos. Eles se importavam tão pouco com Cristo e sua religião quanto os príncipes dos sacerdotes e anciãos; e os homens que não têm nenhuma religião poderiam ficar bastante satisfeitos se vissem o cristianismo ser destruído, e até mesmo ajudariam a destruí-lo, se fosse necessário, para servir à ocasião. Eles pegaram o dinheiro. Era isso a única coisa que os interessava, e nada mais. Observe que o dinheiro é uma isca para a tentação mais maligna; as línguas mercenárias venderão a verdade por ele.

O grande argumento para provar que Cristo é o Filho de Deus é a sua ressurreição. E ninguém poderia ter provas mais convincentes disso do que esses soldados; eles viram o anjo descer do céu, viram a pedra ser removida, viram o corpo de Cristo sair do túmulo, a menos que a consternação que sentiram os tenha impedido. No entanto, eles estavam tão longe de serem convencidos por tudo isso que foram contratados para desacreditá-lo, e impedir que outros cressem nele. Note que sem a operação conjunta do Espírito Santo, nem mesmo as evidências mais sensatas convencerão os homens.

[2] Aqueles que estavam predispostos a ser enganados não só acreditaram, mas propagaram a história. E foi divulgado esse dito entre os judeus, até o dia de hoje. A história falsa foi bem aceita, e atendeu ao seu propósito. Os judeus, que persistiam em sua infidelidade, quando ouviram o argumento da ressurreição de Cristo, ainda tinham esta resposta pronta: “Os seus discípulos vieram, e o roubaram”. A narrativa solene teve esse propósito (como Justino Mártir menciona em seu diálogo com Trifo, o judeu): o grande sinédrio divulgou essa mentira a respeito desse assunto a todos os judeus da dispersão, estimulando-os a uma resistência vigorosa ao cristianismo – disseram que quando eles o haviam crucificado e sepultado, os discípulos vieram à noite, e o roubaram do sepulcro. Assim, planejavam não só derrubar a verdade da ressurreição de Cristo, mas tornar os discípulos odiados no mundo, como os maiores vilões da natureza. Quando uma mentira é levantada, ninguém sabe até onde ela será divulgada, nem por quanto tempo ela irá durar, nem que malefício ela irá provocar. Alguns dão um sentido diferente a essa passagem. “E foi divulgado esse dito”, isto é, “apesar do artifício dos príncipes dos sacerdotes, desse modo imposto sobre o povo, a trama que havia entre eles e os soldados, e o dinheiro que foi dado para apoiar a trapaça, foi divulgada e sussurrada entre os judeus”. Pois, de um modo ou de outro, a verdade sempre é revelada.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

Igreja aprendendo a ser “Igreja”

O que a bíblia me ensinou

A missão da “Eklésia”, cujo significado é “chamados para fora” é:

“E sereis minhas testemunhas…”
Testemunhar de Cristo não é tão somente pregar as boas novas; é necessário que os que estão ”do lado de fora” da igreja percebam as transformações que por si só testifiquem a genuína conversão dos que antes eram pecadores e que, agora, são chamados de salvos exatamente porque suas ações mostram semelhança com o salvador.
Testemunho representa as qualidades de Cristo manifestas em nós: Paz, Amor, Misericórdia, Mansidão, Domínio Próprio, Temperança, Zelo pelo Senhor e por tudo o que diz respeito ao Criador. Lembre-se: as pessoas não crerão no que ouvirem se o próprio espírito de Deus não testificar o que professamos nem os perdidos perceberão em nosso caráter o caráter do próprio Cristo.

Pensemos nisto,

PSICOLOGIA ANALÍTICA

FORMAS FABRICADAS

Por trás da busca obsessiva de um corpo escultural, a clínica psicanalítica revela traços de desorganização, experiências de vazio e estados melancólicos depressivos.

Formas fabricadas

Todos os dias, a mídia nos oferece uma legião de pessoas sorridentes, bonitas e bem-humoradas que exibem beleza, poder, inteligência, dinheiro. São cidadãos do mundo que viajam, valorizam seus dotes, cultivam seu corpo, enaltecem seus feitos e divulgam fórmulas de sucesso. Convidam à admiração, suscitam inveja, capitalizam sua marca, alimentam especulações em torno de sua vida, fazendo a fortuna de uma verdadeira indústria de produtos e imagens de celebridades. Parecem felizes ao exibir uma satisfação aparentemente sem fim. Sofreriam também?

Para alguns, trata-se de vaidade. Para outros, de auto – estima elevada ou ainda, simplesmente da sensação de “estar de bem com a vida”. Sem dúvida, é bom sentir-se bem consigo mesmo, com o corpo, com a vida social e profissional, sonhar e fazer projetos, ter sucesso em realizações. Mas chama a atenção o excesso: a exuberância e a insistência de sorrisos que parecem nunca se desfazer, de biografias que não registram derrotas, dúvidas nem decepções. Uma felicidade plastificada, impermeável às intempéries da vida.

Mais que a própria satisfação, essas pessoas solicitam permanentemente o reconhecimento e a admiração do outro. Porém, mesmo quando a recebem, a admiração esperada logo se revela insuficiente, provocando uma busca duradoura de superação de seus atributos.

Vislumbramos em cenas como essas as tramas nas quais, desde o nascimento, se tecem as relações do humano com seu semelhante. As marcas de satisfações e prazeres, os traços narcísicos, as forças pulsionais no Inter jogo com seus objetos de satisfação, os anseios e inspirações que forjam a subjetividade, as dinâmicas identificatórias, a busca por um lugar satisfatório no mundo e nas relações sociais. A luta para existir para si e existir para o outro.

As características físicas, a inteligência, as habilidades, o poder, o dinheiro são apenas alguns dos meios através dos quais o homem busca ser reconhecido por seu semelhante e por si mesmo. Entre esses atributos, o corpo e as experiências a ele relacionadas ocupam um lugar especial como referência para a apreensão das relações com o mundo, com os outros, consigo mesmo.

Matriz da subjetividade, o corpo guarda as marcas de nossa chegada ao mundo, da acolhida e dos cuidados pelo outro, do reconhecimento, da satisfação ou da frustração de nossos desejos. O corpo é nosso principal capital. Nem todos podem oferecer ao olhar do outro o poder, os sinais de status, o dinheiro. Mas, em busca do reconhecimento, oferecemos o corpo a esse olhar. Da mesma forma, somos solicitados pelo corpo do outro a reconhecê-lo com nosso olhar.

O corpo é nosso primeiro universo. Ele nos concebe, abriga, registra as primeiras impressões que temos do mundo: cheiros, sabores, luzes, sons, calor, frio. São estados e movimentos do corpo que estabelecem as primeiras formas de comunicação, muito antes do pensamento e da linguagem. Nele se constrói uma história marcada por sensações, movimentos, percepções e traços do encontro com o desconhecido do mundo. É o corpo, ainda, o último reduto ao qual nos recolhemos nos momentos de dificuldade, tristeza, desamparo. Reconhecemos, assim, uma verdadeira dimensão hipocondríaca de nossa relação com o mundo, para sempre presente no humano.

Não surpreende, portanto, encontramos o corpo na linha de frente das formas de expressão do modo de existir contemporâneo, e, particularmente, como porta-voz privilegiado, das dificuldades do sujeito em lidar com o outro, com suas expectativas, com sua própria condição de vida.

Insatisfeitos com a degradação da qualidade de vida, com a violência crescente no mundo, inseguros quanto à situação econômica, solitários e empobrecidos por relações pessoais e sociais esgarçadas e vazias, incapazes de considerar a importância de valores e símbolos para nos situarmos, uma vez mais, buscamos o reconforto em nosso corpo. Porém, surpreendentemente, nesses tempos em que, como nunca, se promove o culto a exibição e o cuidado do corpo, também ele nos decepciona. É fato: estamos de mal com nosso corpo.

Uma pesquisa realizada pelo Observatoire Cidil des Habitudes Alimentaires (Ocha) na França, em 2003, num universo de mil mulheres, revelou que 86% delas se dizem insatisfeitas com suas formas anatômicas. Apenas 14% afirmaram sentir-se bem com seu corpo sem terem para isso utilizado qualquer procedimento de modificação. No Brasil, o quadro não é diferente. Pesquisas divulgadas pela revista Veja em 2014 revelam que somos o segundo país do mundo em número de cirurgias plásticas, 400 mil em 2013, metade delas puramente estéticas (40% lipoaspiração, 30% mamas, 20% face), na maioria realizadas entre os 20 e 34 anos. Dos 12.477 entrevistados pelo Instituto lnterScience, 90% das mulheres e 65% dos homens afirmam sonhar com mudanças no próprio corpo; 5% já tinham feito alguma plástica, e 90% pretendiam fazer outra. Entre os que nunca fizeram uma cirurgia plástica, 30% declararam que esperavam criar coragem para realizá-la.

Dos simples tratamentos cosméticos às cirurgias mais radicais, é ampla a gama de recursos utilizados para tentar ficar de bem com o próprio corpo. Adereços, roupas, maquiagens, tatuagens, piercings, atividades esportivas, musculação, cirurgias plásticas buscam dar conta de um mal-estar que, mesmo que referido ao corpo, geralmente tem pouco a ver com ele. Tentativas muitas vezes vãs de aplacar inquietações, angústias e experiências mais profundas de vazio que apenas no corpo encontram um porta-voz de mensagens incompreensíveis, de pedidos de socorro que não conseguem se fazer ouvir de outra forma. Diante da dificuldade de encontrar em si mesmo uma imagem que satisfaça, busca-se no olhar do outro, no social a imagem que possa agradar.

É frequente a experiência de cirurgiões plásticos que vêm pacientes chegar ao consultório com um retrato de uma atriz pedindo para ficar igual a ela. Diante deles, desfilam mulheres que anseiam poder encontrar no espelho reflexos de corpos que não são o seu, os seios turbinados de Daniele Winnits, o delicado nariz de Vera Fischer, toda a exuberância de Angelina Jolie. Muitos cirurgiões plásticos consideram com naturalidade esses pedidos, lembrando que a beleza, hoje, é um componente essencial no competitivo mercado de trabalho, nos negócios e na sociedade.

Para responder a expectativas e a ideais de beleza, não se medem esforços, despesas e, menos ainda, riscos físicos e psíquicos implicados em tais transformações. Cada vez mais, homens e mulheres procuram os tratamentos estéticos e a cirurgia plástica. Também adolescentes e até crianças vêm se preocupando com as formas e as condições de seu corpo, querendo adequá-lo a padrões estéticos e culturais, apesar de ainda estarem em transformação, o número de jovens que colocaram próteses para “turbinar seus peitos aumentou 300% nos últimos dez anos segundo reportagem publicada pela Folha de São Paulo.

Nesse ponto, é importante lembrar a distinção entre os procedimentos estéticos e reparadores. É inegável que os progressos da traumatologia, da medicina estética, da reabilitação e da cirurgia plástica propiciam para milhões de pessoas recuperações significativas de sequelas de catástrofes, guerras, malformações congênitas e de características anatômicas nocivas. Porém, em muitos casos, a dificuldade em compreender a natureza do “sofrimento emocional” que acompanha o desejo de uma plástica nubla essa distinção.

MAL ESTAR NO CORPO

Cientes dessas questões, alguns profissionais mais sensíveis convidam seus pacientes à reflexão sobre o exagero de muitas solicitações que lhes são dirigidas, ponderando sobre a necessidade de levar em conta a singularidade e a estrutura anatômica de cada paciente. Eles reconhecem que cirurgia plástica não faz milagres, não salva casamentos, nem sempre acaba com a angústia, tampouco com a depressão. Porém, diante da insistência dos pedidos que lhes são feitos, muitas vezes cedem às solicitações, inclusive por saber que não será difícil para o paciente encontrar um colega que se disponha a realizar a operação, mesmo que descabida.

Os ímpetos de transformação corporal alcançam ainda manifestações extremas. Sintonizada com o espírito dos tempos, a mídia transforma em espetáculo os dramas humanos. A rede americana ABC exibe semanalmente o programa Extreme makeover, que mostra a transformação radical de pessoas que se submetem a cirurgias, tratamentos, dietas, ginástica, aulas de moda e cabeleireiros para apagar todo e qualquer defeito que viam em seu corpo. Além das clássicas imagens de “antes” e “depois”, são minuciosamente exibidas também as etapas da “transformação”: a ação do bisturi sobre os tecidos, detalhes de manipulações cirúrgicas, inchaços, expressões de dor, lágrimas de sofrimento e de encantamento diante dos “milagres” operados, a reação de surpresa e fascínio de familiares e amigos.

Outro programa, The swan, promove um concurso em que as participantes passam por todos os recursos estéticos existentes, sem poder jamais se olhar no espelho durante o processo. Ao final, a ganhadora pode contemplar sua nova imagem. Nesse momento, é frequente as participantes declararem: “Essa não sou eu”. Do ponto de vista psicanalítico, podemos reconhecer nesse comentário um insight.

Descobrir-se, de súbito, num corpo radicalmente diferente daquele com o qual sempre se conviveu, coabitar, de repente, com um estranho em si: naquele programa, aparentemente, não ocorre estranhamento, medo, horror, apenas prazer, alegria, espetáculo. Na legitimação coletiva das fantasias mais onipotentes, na banalização de complexos desejos e da prática médica, no insidioso convite à despersonalização, todos parecem encontrar satisfação: os participantes, o público, muitas clínicas de estética e, naturalmente, as redes de televisão que ainda se comprazem com a imagem de fada madrinha que propicia a realização de desejos para quem não tinha condições de realizá-los. Nada de novo. A mídia continua preenchendo os vazios, formatando até mesmo a carne das vacilantes formas de subjetivação contemporâneas.

A experiência clínica nos convida a suspeitar de mundos encantados como esses. À radicalidade de todas essas manifestações e à tentativa de banalizar a violência de tais procedimentos, devem corresponder, no interior de cada personagem dos dramas da transformação corporal, fenômenos de brutalidade e violência comparáveis aos que são negados e que, mesmo contidos e silenciados, fermentam seu potencial nocivo, desorganizador e algumas vezes letal. Com efeito, longe dos palcos, das câmeras, dos holofotes, na intimidade dos consultórios, entre sofrimento e vergonha, muitas vezes não são felizes as lágrimas que brotam ao contato com os estranhos que alguns pacientes descobrem em seu próprio corpo.

Como as lágrimas de repulsa de uma mulher que, após uma plástica mamária considerada perfeita pelo médico, impedia qualquer aproximação do marido; as de solidão e de arrependimento daquela adolescente que, depois de muita insistência junto aos pais, realizou uma plástica no nariz  e passou a se sentir “uma intrusa” na família, na qual muitos parentes, de geração em geração, possuíam o formato característico do nariz que operara, ou ainda as lágrimas que acompanhavam as intensas crises de angústia e alguns episódios delirantes que mantinham reclusa em sua casa uma bela mulher submetida a uma cirurgia de  redução de estômago. Apesar de desaconselhada por duas equipes de gastrenterologia, ela encontrou uma terceira que aceitou operá-la. Perdeu os 20 quilos que desejava, mas passou a não conseguir mais se olhar no espelho para ver o corpo que tanto imaginara.

CORPOS SÃOS?

Na busca pela perfeição do corpo, também a atividade esportiva se vê marcada por dinâmicas semelhantes. Para alcançar formas socialmente valorizadas, frequentemente o esporte é esvaziado de sua dimensão lúdica, de prazer e de vivência coletiva tornando-se um imperativo social e estético, malhar horas a fio na academia, praticar esportes radicais, submeter-se a regimes draconianos, tudo isso complementado com a utilização de anabolizantes, esteroides e outras substâncias para a modelagem da massa muscular e para o aumento das performances esportivas. Uma legião de “sarados” e “bombados” vem cada vez mais povoando as cenas do cotidiano. Impulsionadas por doses crescentes da testosterona natural da juventude e pela adrenalina – não tão natural, mas intensamente secretada pela vida urbana – essa legião muitas vezes se aglutina em torcidas organizadas, gangues como skinheads e pitboys, e facções criminosas, sempre em busca de objetos para a descarga da poção explosiva que combinaram em si.

Porém, ao lado de corpos olímpicos, com habilidades e conquistas invejáveis, observamos também lesões, ligamentos que se rompem, articulações que se desgastam, repetidas cirurgias para corrigi-las, desrespeito pelo tempo de recuperação, noites mal dormidas antes e depois das competições. Os corpos-máquina acabam por revelar sua verdadeira natureza, limitada e frágil, nem sempre confiável. Constatação insuportável para muitos que, no anseio por mais uma partida, vitória ou recorde cedem à tentação de produtos dopantes para tentar superar tais fragilidades com mais riscos e sacrifícios do próprio corpo.

Diferentemente da anatomia imaginária revelada pela histeria, que mostra um corpo marcado por fantasias, prazeres e dores, muitas vezes aqueles belos corpos esculpidos por fármacos e exercícios extenuantes carecem de sonhos, de fantasias, encontrando-se anestesiados para tais afetos, pura massa, puro volume, força bruta, sem essência, sem alma. Para além das miragens de corpos esculturais revelam-se paisagens desérticas.

Marcada pelo excesso, essa ânsia pela busca do corpo ideal e as formas de alcançá-lo constitui apenas uma das pontas de um imenso iceberg que pode ser caracterizado como uma “psicopatologia do corpo na vida cotidiana”, como sugere Maria Helena Fernandes no livro Corpo. Ou seja, manifestações que evidenciam a precariedade de organizações subjetivas com dificuldade para manifestar o sofrimento em tempos psíquicos, que desafiam não apenas a clínica psicanalítica ou psicoterapêutica, mas, sobretudo, a clínica médica à escuta e à compreensão de fenômenos primitivos, aquém da palavra, impelindo terapeutas e pacientes a atuações sem fim.

O desenvolvimento humano visa a superação de dimensões automáticas e programadas da ordem biológica para alcançar funcionamentos mais abstratos e complexos da ordem psíquica. Esse processo ocorre segundo movimentos de organização progressiva de estruturas, funções e comportamentos, das mais simples às mais complexas, simultaneamente a movimentos de desorganização, de sentido oposto. Todas as etapas e todos os níveis de funcionamento anatômicos, fisiológicos, sensoriais, motores, afetivos e psíquicos – são marcados por essas dinâmicas.

A anatomia, a fisiologia, as funções sensório-motoras e psíquicas obedecem a esses princípios, marcados pelas dinâmicas organizadoras e desorganizadoras das pulsões de vida e de morte. A partir do nascimento, por exemplo, observamos no bebê a integração progressiva de movimentos e funções antes desorganizados, a convergência ocular, a coordenação motora, a discriminação auditiva, o reconhecimento e a distinção entre seres familiares e estranhos, o desenvolvimento da linguagem e do pensamento, entre outros mecanismos. Experiências traumáticas podem provocar a perda da especificidade e da complexidade dessas mesmas funções (desorganização psíquica, regressões psíquicas e motoras, perturbação do sistema imunológico etc.).

FUNÇÃO MATERNA

Nos primeiros tempos de vida, a sobrevivência e o desenvolvimento da criança dependem da presença de outro ser humano, bem como da qualidade dessa presença. A mãe (ou aqueles que exercem essa função) busca propiciar não apenas a satisfação das necessidades vitais do bebê, mas também estimular seu desenvolvimento. Ela também funciona como uma espécie de “película” de proteção contra os estímulos internos e externos que a criança ainda não é capaz de assimilar. Denominado por Freud de “para-excitações”, esse recurso tem um papel essencial nos processos de organização e desenvolvimento da criança. A qualidade dessa presença materna determina a possibilidade de aquisição e a qualidade de competências específicas, da autonomia e dos recursos mais evoluídos e harmônicos de funcionamento.

É também a qualidade dessas relações que determina a passagem da vivência biológica para a experiência do corpo erógeno, do instinto para a pulsão, da necessidade para o desejo, da excitação para a angústia, do sono fisiológico para o sonho. As relações objetais primitivas marcam também a qualidade do desenvolvimento do narcisismo e de todas as instâncias e funções do aparelho psíquico, bem como do equilíbrio entre as pulsões de vida (organizadoras) e de morte (desorganizadoras).

Nesse contexto, forjam-se também as representações do próprio corpo e as possibilidades de experimentá-lo como fonte de prazer para si e para o outro. Para além de critérios estéticos e de atributos anatômicos, a representação da beleza do corpo é também construída pelas experiências de satisfação e frustração, prazer e desprazer, de acolhimento e de rejeição que, no encontro com o semelhante e com o ambiente, o corpo pôde experimentar. A partir dessas experiências, configura-se um corpo imaginário, caixa de ressonância privilegiada das relações com o outro e com o mundo.

Desde a experiência do desamparo, prototípica do nascimento, somos permanentemente solicitados por estímulos e excitações internos (fisiológicos, instintivos e pulsionais) e externos (realidade, outras pessoas), fonte de desprazer, de traumas e conflitos. As manifestações orgânicas, da motricidade e psíquicas (normais ou patológicas) são recursos para alcançar um equilíbrio entre tais solicitações. Segundo P. Marty, os recursos psíquicos, mais evoluídos e complexos, são aqueles que, economicamente, melhor se prestam para lidar com solicitações às quais o ser humano é submetido. Porém, diante da impossibilidade de utilização das funções mais organizadas e hierarquizadas, muitas vezes esse equilíbrio só é alcançado por meio de funcionamentos anacrônicos, primitivos e insatisfatórios.

Falhas do desenvolvimento, determinadas por elementos congênitos, pela precariedade das relações parentais primitivas e do ambiente, por experiências traumáticas e desorganizadoras comprometem a estrutura e o funcionamento psicossomático, de forma duradoura ou temporária. Diante de deficiências estruturais ou funcionais dos recursos psíquicos podem ser mobilizadas tentativas de reorganização através de descargas motoras e comportamentais, ou ainda, no extremo, de manifestações e desorganizações orgânicas, como as doenças. É no contexto de tais deficiências que as manifestações corporais marcadas por excesso, repetição, fragilidades narcísicas e identificatórias e pelo vazio representativo fazem sua aparição.

 OS GALÉS VOLUNTÁRIOS

Houve um tempo em que as “galeras eram outras. Na Antiguidade, as galeras eram embarcações de guerra impulsionadas por cerca de 15 a 30 grandes remos por bordo, cada um manejado por até cinco homens. Os remadores eram em geral escravos ou pessoas sentenciadas a trabalhos forçados. Acorrentados a seus postos, os galés remavam de 12 a 16 horas por dia, às vezes mais.

Em nossos dias, uma multidão de homens e mulheres, apesar de livres e sem grilhões, parece condenada a uma permanente repetição para além do princípio do prazer. Como aponta G. Szwec, essas pessoas, galés voluntários, parecem fascinadas por uma espécie de robotização de seu corpo e de sua vida.

Apresentam modos de funcionamento que carecem de sentido e de prazer, frequentemente buscando utilizá-los como anteparos a situações de perigo e de desamparo.

A atividade esportiva, a música estridente e ritmada, os esportes de risco, os filmes de “adrenalina” e mesmo comportamentos cotidianos como bater

portas, dirigir bruscamente no trânsito ou o tabagismo podem, exercera função de descargas automáticas do nível de tensão, mesmo que, paradoxalmente, promovam também aumento da tensão. Essas atividades geralmente se realizam em um clima imperativo de urgência, exigindo constante repetição.

Esses procedimentos, denominados “auto- calmantes”, são fruto da precariedade da organização subjetiva, carente de recursos psíquicos para lidar com as exigências da vida. Eles “curto-circuitam” a via representativa e de fantasia, utilizando a realidade de forma específica, bruta, factual, operatória, sem carga simbólica. Eles se caracterizam por comportamentos motores ou perceptivos, passando pela dor, podem, inclusive, chegar a automutilações. Manifestam-se também em pessoas que procuram e se excitam com situações de perigo que colocam em risco sua integridade física e mesmo suas vidas.

Os procedimentos auto – calmantes são tentativas de trazer a calma ao aparelho psíquico empreendidas por um ego fragilizado e carente de um recurso de “para-excitações” autônomo. Ocorrem quando o ego é ameaçado pelo potencial traumático do excesso de excitações. Eles se assemelham a tentativas da mãe que procura acalmar seu bebê a qualquer custo, sem, no entanto. propiciar-lhe experiências de satisfação que poderiam verdadeiramente tranquilizá-lo, abrindo caminho para a autonomia psíquica e subjetiva.

Carências nas relações primitivas podem promover na criança a internalização da excitação de apaziguamento do embalo, calmante não gratificante da mãe, como forma de evitar as experiências depressivas do vazio, vividas a partir do próprio amparo da criança, mas também, muitas vezes, no contato com a depressão e o vazio maternos. A aproximação ou o contato com os núcleos primitivos de desamparo ou com experiências de vida desorganizadoras podem desencadear tentativas de reduzir a tensão resultante pela exacerbação da excitação materna internalizada. Essas tentativas são, entretanto, frustradas pela incapacidade de prescindir da presença real do corpo materno, ou de seus sucedâneos, como objeto calmante. Tanto nas experiências da mãe com o bebê, como nos procedimentos auto calmantes, os comportamentos são esvaziados de fantasia e de prazer.

Percebemos a intimidade dessa constelação com as que encontramos em alguns estados-limite, em condutas aditivas (toxicomanias, transtornos alimentares etc.) e nas “neonecessidades” descritas por D. Braunschweig e M. Fain. Estas se caracterizam como urna tentativa persistente da mãe de propiciar satisfações ao bebê independentemente da existência de uma necessidade a ser satisfeita, evidenciando muito mais o desejo da mãe de acalmar seu filho a qualquer preço do que de realmente satisfazê-lo. Cria-se assim na criança uma falsa necessidade, imperativa como as que caracterizam os instintos de auto – conservação, marcada por uma dependência acentuada do sujeito ao objeto real de satisfação, em detrimento da experiência alucinatória. Ficam perturbados a formação de um objeto materno satisfatório, o desenvolvimento do auto – erotismo e dos recursos representativos.

A precariedade do mundo interno e das representações resulta na hiper valorização da realidade e a grande dependência do sujeito dos objetos externos de satisfação. Agradar os outros, satisfazê-los, corresponder a suas expectativas e a seus ideais é vivido muitas vezes como uma questão de sobrevivência.

É perturbadora, impensável a possibilidade de desafiá-los ou contradizê-los. O sujeito torna- se refém de pessoas, ou mesmo de instituições, investidas de um poder que beira a onipotência. Com facilidade, ele se torna refém dos ideais de tais pessoas e instituições, refém dos ideais sociais de beleza, de modas, comportamentos, valores culturais dominantes, consumo etc.

LUTA INGLÓRIA

A fragilidade narcísica, a precariedade de recursos internos e a extrema dependência formam uma combinação explosiva que torna o sujeito presa fácil de qualquer imagem ou produto que lhe prometa a possibilidade de afastar-se da proximidade perigosa de seus terrores, de suas dores, de seu sofrimento. Presa fácil de qualquer um que lhe ofereça uma identidade, um corpo, uma vida que mascare seu desamparo e suas dolorosas feridas narcísicas.

A criação, a aquisição e a ostentação de sinais socialmente valorizados que favoreçam o reconhecimento e a aceitação do sujeito pelo outro torna­ se imperativa. A manutenção a todo custo de uma aparência que corresponda aos ideais do grupo, excluindo qualquer coisa que possa sugerir o vazio existencial ou a castração, vira uma questão de sobrevivência. A possibilidade de que uma falha se revele nessa complexa, mas frágil montagem torna-se insuportável.

Vive assim o sujeito uma luta inglória, sem fim, na qual – por melhor que seja a aparência – é sempre insatisfatória e qualquer nova conquista, insuficiente. Uma escalada na qual, a cada vez, algo mais deve ser acrescentado, apresentado, consumado, sacrificado, um novo carro, um novo milhão, uma nova mulher, um novo corpo, um novo recorde.

Em meio à excitação e à angústia inesgotáveis, acelera-se cada vez mais esse circuito infernal, impossível de ser interrompido pelo próprio sujeito. Como o jogador que, para bancar suas apostas, nada mais tem a oferecer a seus parceiros, esses escravos da excitação oferecem a seus tiranos, que não podem afrontar sua liberdade, sua alma, sua carne, sua vida.

Formas fabricadas.2 

RUBENS MARCELO VOLICH – é psicanalista. Doutor pela Universidade de Paris VII e professor do curso de psicossomática do Instituto Sedes Sapientiae, é autor de Psicossomática De Hipócrates à psicanálise, Hipocondria Impasses da alma, desafios do corpo e, co-organizador e autor dos livros da série Psicossoma, todos editados pela Casa do Psicólogo.

OUTROS OLHARES

FORA DA FESTA

Desemprego baixo nos EUA esconde o aumento do número de trabalhadores em situação precária, sem moradia ou que dependem de ajuda oficial para comer.

Fora da festa

À primeira vista, é irónico pensar que Anthony Stevens trabalha em uma empresa de demolição que só existe por causa da especulação imobiliária, e não tem casa para morar. Mas este nova-iorquino de 56 anos natural do Brooklyn, não pensa assim: ele se acostumou a ver sua cidade se expandir, gentrificar(aburguesar-se), mudar de forma dinâmica, reinventar-se, o que ele considera paradoxal é seu salário não permitir mais que ele pague por um aluguel minimamente decente na metrópole. “Nos anos 1980, 90 só era sem-teto quem tinha desilusão amorosa, problema com álcool e mental, ou tudo isso junto. Agora, qualquer um pode ser sem-teto em Nova York, até quem tem emprego. O preço dos imóveis sempre foi alto aqui, sempre subiu. “A novidade é que os salários ficaram para trás”, disse ele.

Depois de passar o dia trabalhando em Nova Jersey – a expansão imobiliária em Nova York busca lugares cada vez mais distantes de Manhattan, como do outro lado do Rio Hudson e no bairro do Queens -, Stevens encontra abrigo no The Bowery Mission, entidade que acolhe homeless desde 1879 em Lower Manhattan, a poucas quadras do hypado SoHo. E cada vez mais seus colegas de abrigo são trabalhadores como ele. Isso reflete os problemas econômicos que se escondem por baixo do desemprego de apenas 3,8%, menor patamar para os Estados Unidos em cinco décadas. A economia americana está uma festa, comemorada por Donald Trump, mas ela não é para todos: especialistas afirmam que, se fossem se fossem considerados os subocupados e os que desistiram de procurar ocupação por desalento, essa taxa poderia estar rondando os 10%.

Stevens afirmou que precisaria pagar, ao menos U$$ 1.000 mensais para encontrar “um canto habitável na Grande Nova York, lar de 20,3 milhões de pessoas. Mas, como trabalha por empreitada, pode faturar U$$ 4 mil em um mês ou apenas USS 600 em outros. Stevens não recebe pelo “teto de sua remuneração” há pelo menos um ano, pois, como sua empresa tem muitos empregados cadastrados, existe um revezamento de “colaboradores”, como são chamados. Faz seis meses que ele nem sequer faz U$$ 2 mil por mês – e chegou a viver com o “piso de U$$ 600 de sua remuneração ao menos uma vez no período.

“Não sou mais um garoto, e cada vez mais me deixam de lado”, disse ele, indicando que, nesta época de uberização” do trabalho, há sempre mão de obra disponível a um clique ou uma ligação, fazendo com que todos se sintam ocupados, mas sem remuneração adequada – uma das explicações do baixo do desemprego e dos baixos. Nova York mudou muita. É a maior cidade do mundo. Mas não é mais a melhor cidade do mundo. Antes, se você tinha um emprego, tinha tudo. “Hoje não é mais assim”, afirmou, sem deixar de elogiar o abrigo que frequenta. “Aqui é bem limpo, a comida é boa, o chuveiro é bom. Não tem confusão”.

Se apertasse muito seu orçamento, Stevens talvez pudesse tentar pagar um teto todos os meses, de forma constante. Mas ele precisa escolher entre fazer gastos básicos para um “trabalhador normal”, correndo o risco de ficar sem dinheiro para outras coisas, e ficar em um abrigo para conseguir poupar algum dinheiro para o futuro. “Não me preocupo. Sabe por quê? Porque tenho um plano secreto: eu acredito em Deus”, disse, rindo, para depois completar: “Eu posso não ter casa, mas não deixo de pagar meu social security (Previdência Social). Vou me aposentar. E daí vou voltar para a Carolina do Norte. Lá é a terra de origem de minha mãe. Já passei uma temporada lá. A vida é boa, muito mais barata, mas não tem emprego.

Stevens, que não tem filhos e está atualmente sem namorada, também não gosta de incomodar os dois irmãos, um vivendo no Brooklyn e a outra no Queens. “Eles têm a vida deles, família. Não posso ser um estorvo, sempre me sustentei”, disse. Visita pouco seus parentes. Nas horas vagas, gosta de conversar com as pessoas e visitar a biblioteca pública do Lower East Side. Gosto de ler livros, mas meu predileto é a Bíblia”

Segundo John D. Stiver, professor da Universidade de Notre Dame (no estado de Indiana), os salários americanos estão praticamente estagnados desde o ano 2000 e não têm conseguido acompanhar os custos com a habitação, principal item de despesa da família americana. “Por todas as contas que fazemos, os preços da moradia dobraram nos 18 anos desde o ano 2000 (que se traduz em cerca de 4% ao ano, o dobro da taxa de inflação global.

Essa realidade ocorre na maior parte das cidades e dos estados mais ricos e que mais crescem nos Estados Unidos, uma comprovação de que a riqueza não está favorecendo a criação de oportunidades – embora também haja muitos empregos qualificados e bem pagos sendo criados, sobretudo no setor de tecnologia e no mercado financeiro, o que amplia as desigualdades. No ano passado o número de sem-teto nos EUA cresceu 4%, enquanto desemprego atingiu marcas históricas. Esse fenômeno foi muito mais intenso na próspera Califórnia, com 13,7% de alta no número de sem-teto, e na dinâmica Nova York, onde a população de pessoas sem casa beira os 100 mil, justamente os locais onde a economia também “bombou”.

Às vezes, não é apenas o teto que falta: há trabalhadores que têm dificuldade para garantir a comida. Atualmente, cerca de 52 milhões de americanos recebem algum tipo de benefício alimentar, os famosos food stamps, que conservam o nome de “cupom de alimentos”, mas cada vez mais se assemelham a um vale-alimentação em cartão magnético, aceito por restaurantes e supermercados. A grande maioria dos cupons de alimentos é destinada a trabalhadores; afinal, o desemprego atinge, “oficialmente”, apenas 6,4 milhões.

“As vezes, nem sei como fecho o mês”, disse Maria Cruz, dominicana de 58 anos que vive há três décadas em Atlantic City, a cidade que tentou ser a “Las Vegas da Costa Leste”, mas sofre uma profunda decadência com o fechamento de cassinos, inclusive o que pertencia a Donald Trump, “Ganho USS 350 por semana como camareira (em um hotel de uma grande cadeia internacional). Gasto com aluguel, luz, água, essas coisas, USS 1.500 por mês.”

O que lhe permite fechar as contas, além das gorjetas que variam de USS 50 a USS 75 por semana, são os US$ 300 por mês de food stamps e a cesta básica que recolhe no Exército da Salvação. A filha de 16 anos também começou a estagiar em um hotel da região e passou a ajudar em casa. Ela vive a duas quadras da praia, em um bairro popular e degradado, entre o Tropicana, o maior cassino da região, e os esqueletos do Taj Mahal – que pertenceu a Trump. “Isto aqui já foi muito rico. Já vimos tudo acabar, mas agora dizem que novos cassinos vão abrir. Seria ótimo”, disse ela, que aparenta menos idade do que tem.

Mesmo que os cassinos voltem com força, Maria Cruz acredita que a vida será mais difícil para seus filhos, AIya e Hector, que foram passar uma temporada com os parentes em Santo Domingo. Segundo ela, só quem tem dinheiro recebe oportunidades. “Antes, as pessoas vinham paro cá, enriqueciam com o trabalho. Hoje, lutam para sobreviver”, disse ela. Sua desesperança tem razões econômicas, mas também políticas. “É por isso que não voto, não gosto dessas coisas. Nada melhora para a gente, esteja quem estiver no governo.”

Os números do desemprego mostram que há 5 milhões de trabalhadores em tempo parcial que gostariam de estar ocupados em tempo integral. As estatísticas, porém, não captam os trabalhadores desalentados, que se sentem alijados do crescimento econômico e, sem qualificação para os dias atuais, simplesmente desistiram de procurar emprego. É um fenómeno que tende a se repetir em outros locais do mundo, inclusive no Brasil.

“Vemos um nível de pobreza muito maior agora que no ano 2000. Isso se relaciona com o mercado de trabalho. Talvez ainda seja consequência da recuperação da grande recessão (a recessão de zoo8, que deixou os trabalhadores em posição mais fraca nas negociações)”, afirmou William Darity, professor de economia da Escola Sanford de Políticas Públicas da Duke University.

Uma pesquisa do Fed, o banco central americano, publicada no fim de maio, aponta que 40% dos trabalhadores americanos não teriam, hoje, US$ 400 disponíveis se tivessem uma emergência. Mas Trump tenta usar o baixo desemprego a seu favor. Em uma série de tuítes, afirmou que a economia nunca esteve tão bem e reivindica para si esses avanços – ignorando os excluídos do mercado de trabalho e esquecendo que parte da melhoria do desempenho da economia é resultado de ações da era Obama, que deu incentivos para tirar os EUA do atoleiro de 2008. Trump tenta manter a fidelidade de seus eleitores, embora os problemas no mercado de trabalho afetem justamente a base de seu apoio – homens, em geral brancos do interior, com baixa instrução e na meia-idade.

No estado de Ohio, 8ª economia dos EUA, lar de 11,5 milhões de pessoas, parte do chamado “cinturão da ferrugem” – por causa do declínio das indústrias que fizeram a riqueza da região – um em cada dez trabalhadores recebe food stamps. Foi lá, em Cleveland, que Donald Trump fez sua convenção, o que garantiu sua vitória no estado em 2016, pavimentando seu caminho rumo à Casa Branca. Também lá 11.560 funcionários do Walmart e 9.962 do McDonald ‘s – dois ícones americanos – recebem auxílio-alimentação estatal.

Segundo Darity, da Duke University, a situação está tão degradada que o baixo desemprego não tem gerado inflação. Para ele, isso expõe um conceito equivocado – não é obrigatório que bons salários gerem automaticamente alta nos preços -, assim como demonstra que a maior parte dos novos postos gerados desde a crise de 2008 não é decente”. “Quarenta por cento dos trabalhadores hoje ganham menos de USS 13 por hora”, disse ele. O professor da Duke defende uma bandeira que começa a ganhar mais e mais adeptos entre os senadores democratas: a instituição de uma lei para garantir que nenhum trabalhador receba menos que o valor que delimita a linha da pobreza. O projeto embrionário funcionaria como uma espécie de “Bolsa Família”, em que haveria uma complementação salarial. Ele, porém, dificilmente alcançará a curto prazo, ainda mais com Trump na Casa Branca e republicanos no controle das duas casas do Congresso americano.

Se a situação já é ruim para quem tem uma ocupação, pode ser pior para os que nem sequer entram nas estatísticas, como é o caso de Angelina Santoro, de 40 anos, que não tem emprego – e nem está procurando. “Eu era taxista, parei de trabalhar quando estava louca nos opioides. Agora faz dois anos que parei de me drogar, estou limpa, mas ainda não consigo pensar em trabalho. Ando muito deprimida e com um problema na perna”, disse ela, que vive com um namorado em Filadélfia, principal cidade da Pensilvânia, estado tradicionalmente democrata, mas que em 2016 votou por Donald Trump. Mas tenho confiança de que logo vou voltar.”

Mais que um caso isolado, Santoro representa um fenômeno que altera totalmente o desemprego americano e ajuda a explicar o motivo por que, apesar de a taxa de desocupados estar historicamente baixa no país, não há uma sensação de boom econômico e nem mesmo de bem-estar na população. Vivendo da caridade e dos programas sociais do governo, ela tem sempre um sorriso no rosto e bom humor. Santoro só demonstrou apreensão ao pensar no filho de 16 anos, que vive com o pai, e que ela não via havia meses. ”Foi melhor para ele ficar com o pai”, disse ela, cabisbaixa. Depressão é algo sério, mas estou medicada e logo vou vê-lo.”

John O. Stiver, da Notre Dame, afirmou que a taxa de desemprego só é baixa porque menos trabalhadores, assim como Santoro, estão buscando emprego.  No ano 2000, quando a taxa de desemprego chegou a 3.9%, em pleno boom da internet, 67% da população com idade economicamente ativa estava no mercado de trabalho – ocupando ou procurando um posto. Hoje, com a taxa de desemprego um pouco menor, a participação é de 62.,8%. “Se contássemos as pessoas em idade produtiva que não participam do mercado de trabalho e não figuram nas estatísticas, como desempregados, a taxa de desemprego seria de cerca de 10 %”, disse ele.

Muitas teorias explicam essa baixa participação na força de trabalho. Uma delas é a crise dos opioides, que mata mais de 64 mil pessoas por ano nos EUA e deixa um exército de excluídos da vida social e, por consequência, do mercado de trabalho. O economista Austin Krueger, do Brookings lnstitution, descobriu que, desde 2016, 50% dos homens entre 25 e 54 anos que não estão na força de trabalho tomam analgésicos diariamente. Os opioides são responsáveis por 20% da redução da força de trabalho americana, como ocorre com Angelina Santoro.

Outra teoria é a do desalento: com baixos salários e poucas perspectivas em um mundo em transformação, uma legião de pessoas, em geral de meia-idade, simplesmente desistiu de buscar uma ocupação. Em geral, são eleitores de Trump que perderam o bonde da economia. Os brasileiros também sentem isso. Há cerca de dois anos, quando migrou de São Paulo para a região metropolitana de Washington, que inclui a capital americana e fatias dos estados de Virgínia e Maryland, Carlos (nome fictício, pois seu visto de turista venceu há tempos) pensava que seria fácil “conquistar a América”. “Eu via aqueles filmes, pensava que era cortar uma graminha na vizinhança e fazer dinheiro – disse ele, sorrindo. Aos 25 anos, tomou a decisão de abandonar seu posto de representante comercial no Brasil para tentar a sorte como imigrante ilegal. Hoje vejo que é muito mais puxado. “Lá no Brasil trabalhava seis horas por dia. Aqui trabalho no mínimo 12 horas, limpando supermercado de madrugada e depois como motorista de Uber.”

Apesar disso, Carlos não pensa em voltar. Se pensava em conquistas financeiras, agora é a segurança e a cultura americana que o fazem ficar. Ele aprendeu a dar mais valor ao planejamento, pois sabe que, nos meses de inverno, será mais difícil completar sua renda de USS 4 mil mensais, que menos pessoas irão aos bares e, assim, haverá menos chamadas para o Uber.

“A gente tem de trabalhar mais duro para ganhar bem. O custo de vida aqui é alto, sobra muito pouco. Quando digo a meus amigos como é a vida aqui, eles não acreditam. Acham que eu estou tentando desanimá-los. Eles falam: ‘Ah, você reclama, mas não volta’. É verdade, mas é por outras razões, não é por trabalho e dinheiro, que é muito mais puxado que eu imaginava”, disse ele. Seu maior receio é a perspectiva de nunca mais voltar ao Brasil. “Meu primo estava aqui (como imigrante sem documentação) quando minha tia ficou doente e faleceu. Ele não pôde estar com ela em seus últimos momentos.

GESTÃO E CARREIRA

SOLTE SUAS FERAS

Novos estudos mostram que não é a felicidade que garante a saúde e o bem-estar, e sim a capacidade de lidar bem com todos os sentimentos que existem, inclusive a raiva.

Solte suas feras

Sabe aquela história de que pessoas felizes vivem mais e melhor? Esqueça. Uma recente pesquisa publicada pela Associação Americana de Psicologia e pelo jornal Emotion mostra que a felicidade não é a responsável por evitar mal-estar e doenças inflamatórias no corpo – e, sim, a habilidade de lidar com as diversas emoções existentes.

A pluralidade de sentimentos, a que os cientistas chamam de “emodiversidade”, baseia-se em paralelos com as ciências naturais. Um ambiente na natureza é saudável quando várias espécies cumprem seus papeis. “É a mesma coisa com as emoções, já que cada uma delas ajuda a regular o comportamento para adaptar-se a determinada situação”, escreveu Jordi Quoidbach e seus colegas autores do estudo, representantes de universidades como Yale, Harvard e Cambridge. Em síntese: o mais importante para a saúde não é a felicidade, mas a variedade e a frequência de emoções que sentimos.

Isso não é carta branca para fazer como o paranaense José Buffo há 14 anos, quando chefiava a agencia de publicidade Heads, da qual era sócio. Ele admite que naquele tempo era irritante, neurótico, centralizador e mal-educado. “Eu era tudo o que um líder não pode ser, afirma José. Certo dia, frustrado com a quantidade de vezes que a impressora apresentava defeito, ele pegou o equipamento, levou até o jardim da casa onde ficava a sede da empresa (na cidade de Curitiba) e ateou fogo.

Embora tenha extravasado a raiva, isso não fez bem nem a ele nem à equipe – sem falar no prejuízo com a perda da máquina. Naquele ano, José decidiu tirar um período sabático. Em 2004, foi a centros de meditação na Índia em busca de autoconhecimento e adotou uma dieta macrobiótica. “Antigamente, depois que passava o nervosismo, eu pedia desculpas, só que o estrago já estava feito”, diz. ”Agora consigo cobrar, que é importante para o gestor, e sei que isso pode ser feito com respeito e carinho.” Talvez ainda mais importante: ele vendeu sua parte na agência, abriu negócio de apoio a novos empreendedores e passou a decidir em quais projetos se envolver. Hoje, José pode até trabalhar mais, mas tem menos estresse, o que lhe permite controlar melhoras emoções.

 

O ALFAIATE E O ALFINETE

O reconhecido psicólogo Steven Hayes, à frente do departamento de análise do comportamento na Universidade de Nevada, nos Estados Unidos, reforça que expressar os sentimentos é bom, embora isso precise ser feito de forma apropriada e na hora adequada. Ele é irredutível, porém, quanto à importância de dar vazão a todas as emoções. Para Hayes, ao evitar certas reações no trabalho, agimos corno um alfaiate que entorpece os dedos para evitar urna alfinetada dolorosa. Isso pode driblar a dor no curto prazo, mas, com o tempo, os danos causados pelas picadas serão ainda mais prováveis e ele não produzirá uma boa peça. O risco aumenta e a probabilidade de eficácia diminui. “Tudo para evitar sentimentos difíceis”, diz Hayes.

A fuga pode resultar até mesmo em problemas de saúde. Diante de um chefe fechado, avesso a novas ideias e com medo de alguém da equipe o substituir, o administrador Luís Guilherme de Oliveira, hoje com 28 anos, começou a se sentir infeliz sob a influência de tanta negatividade. Como era jovem e estava no começo da careira, demorou para reagir à emoção e sua imunidade acabou baixando. Portador de toxoplasmose desde o nascimento, ele notou o protozoário incubado e inativo aproveitar-se da oportunidade e entrar em ação pela primeira vez, fazendo com que perdesse mais de 30% de sua visão.

Para a psicóloga Beatriz Brandão é saudável pôr para fora todos os sentimentos, sobretudo os ruins. “Senão o corpo direciona as emoções para outras áreas e a pessoa desenvolve transtornos, dores de estômago e ansiedade”, afirma.

Apesar de agir com educação ser algo bem-visto em nossa sociedade, extravasar é bom e há países incentivando esse comportamento. O inglês Luke Treglown, um dos autores do estudo “O lado obscuro da resiliência e da moderação”, publicado na revista Harvard Business Review, indica que algumas empresas no Reino Unido encorajam deixar que as emoções venham à tona. “Em ambientes de alta pressão e ritmo acelerado, os funcionários que são assertivos, diretos ou contundentes geralmente são vistos como os melhores naquilo que fazem”, diz Treglown.

Sair do controle pode ter um resultado positivo. Quando atuava em uma empresa que presta serviços de controle e monitoramento de bagagens para a Virgin Atlantics Always, a paranaense Gabriela Gaertner protagonizou um “barraco”. Vendo a gerente da companhia contratante maltratar sistematicamente um colega, mesmo quando ele não havia feito nada de errado, ela explodiu e, na frente de seu chefe, levantou o dedo para a mulher e disse – sem palavrões – que aquilo que ela fazia era errado. “Tive certeza de que seria demitida quando me chamaram logo depois para a sala da direção”, lembra. No entanto, para sua surpresa, o superior perguntou se ela gostaria de ser promovida a coordenadora da equipe em que trabalhava.

“As emoções negativas têm de existir para nos mostrar que é preciso fazer alguma coisa diante de determinadas situações”, afirma Flora Victoria, presidente da Sociedade Brasileira de Coaching. Segundo ela, explodir é melhor do que ficar remoendo, mas o ideal é ter estratégias para compensar os sentimentos ruins e voltar a se sentir bem – inclusive para, no auge do problema, não estourar de forma a perder a razão. Entre as táticas mais conhecidas está praticar a respiração diafragmática e a meditação. Mas atitudes simples, como levantar e ir ao banheiro ou tomar água, também auxiliam no momento da explosão. Sereno, o profissional consegue acessar o racional por meio de emoções positivas. “Gosto da analogia de mudar de marcha, que aqui significa mudar o estado emocional de forma cada vez mais rápida”, diz Flora.

O administrador catarinense Cleomar Piola, por exemplo, chegou a quebrar telefones durante suas necessidades de extravasar no trabalho. Com o tempo, adotou uma daquelas bolinhas usadas por quem tem tendinite nas mãos. “Eu fechava a porta da minha sala e jogava a bola com força na parede, porque sabia como era importante colocar certas emoções para fora”, lembra. Agora, gerente corporativo da rede de supemercados Caitá, com experiência, acompanhamento terapêutico e maternidade, ele levanta, caminha por uma das lojas da rede ou dirige até outra unidade, sem que ninguém note seu estado.

 Solte suas feras.3

DE VOLTA AO CONTROLE

Estudos mostram que tudo bem sentir várias emoções, o importante é retomar a calma o mais rápido possível. Veja algumas dicas para isso:

 RESPIRAÇÃO DIAFRAGMÁTICA

O QUE É: Respirar usando o músculo que fica entre o pulmão e a barriga

O QUE FAZ: Ajuda a restaurar a sensação de relaxamento.

CAMINHADA

O QUE É: Mudar de cenário, ir ao banheiro ou tomar água.

O QUE FAZ: Direciona a energia do momento para outros lugares e outras pessoas, arejando o cérebro

MEDITAÇÃO

O QUE É: Exercício mental de concentração num objeto, numa atividade ou num pensamento.

O QUE FAZ: Oxigena a mente para que a pessoa se concentre mais no presente e não altere demais suas emoções.

 Solte suas feras.2

 

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 28: 1-10 – PARTE III

Alimento diário

A Ressurreição

IV – A saída das mulheres do sepulcro, para anunciar aos discípulos (v. 8). E observe:

1. Em que estrutura e estado de espírito elas estavam. Elas saíram “com temor e grande alegria”. Uma mistura estranha, temor e alegria ao mesmo tempo, na mesma alma. Ouvir que Cristo havia ressuscitado foi um motivo de alegria; mas ser levada para dentro do seu túmulo, e ver um anjo, e falar com ele sobre isso, só poderia causar temor. Era uma boa notícia, mas elas estavam com medo de que fosse bom demais para ser verdade. Mas observe que isto foi dito da alegria delas, que era uma grande alegria; não é dito isso quanto ao seu temor.

Considere:

(1)  O temor santo vem acompanhado de alegria. Aqueles que servem ao Senhor com reverência, servem-no com alegria. (

2)  A alegria espiritual é misturada com tremor (Salmos 2.11). É somente o amor e a alegria perfeitos que afastam todo temor.

2. Com que pressa elas agiram. Elas correram. O temor e a alegria agilizaram o ritmo delas, e acrescentaram asas ao seu movimento. O anjo ordenou que fossem imediatamente, e elas correram. Aqueles que são enviados em uma missão de Deus não devem demorar, ou perder tempo; onde o coração está dilatado com as notícias alegres do Evangelho, os pés correrão o caminho dos mandamentos de Deus.

3. Que missão elas receberam. Elas correram a anunciá-lo aos seus discípulos. Não duvidando que essas notícias seriam alegres para eles, as mulheres correram, para consolá-los com os mesmos confortos com que elas mesmas foram consoladas por Deus. Os discípulos de Cristo devem estar dispostos a transmitir uns aos outros as suas experiências de doce comunhão com o céu; devem dizer aos outros o que Deus tem feito por suas almas, e lhes falado. A alegria em Cr isto Jesus, como o unguento na mão direita, irá se revelar, e encher com os seus odores todos os lugares dentro das linhas de sua comunicação. Quando Sansão achou mel, ele o levou para os seus pais.

 

V –  O aparecimento de Cristo às mulheres, para confirmar o testemunho do anjo (vv. 9,10). Essas mulheres boas e zelosas não só ouviram a boa notícia a respeito dele, mas foram as primeiras a vê-lo depois da sua ressurreição. O anjo instruiu aqueles que o veriam a ir para a Galileia. Mas, antes que esse dia chegasse, mesmo aqui, eles buscavam aquele que vive e os vê. Jesus Cristo é frequentemente melhor do que a sua Palavra, mas nunca pior. Ele frequentemente se antecipa, mas nunca frustra as expectativas confiantes do seu povo.

Aqui está:

1. O aparecimento de surpresa de Cristo para as mulheres. “E, indo elas, eis que Jesus lhes sai ao encontro”. As visitas bondosas de Cristo geralmente nos encontram no caminho do dever, e aqueles que usam o que possuem para o benefício dos outros, receberão ainda mais. Essa entrevista com Cristo foi completamente inesperada (Cantares 6.12). Cristo está mais perto de seu povo do que eles imaginam. Elas não precisaram descer às profundezas para buscar a Cristo, como se Ele estivesse ali. Ele não estava ali, já havia ressuscitado. Também não precisariam subir aos céus, porque Ele ainda não havia subido; mas Cristo, mesmo estando tão elevado, está bem perto de cada um de nós.

2. A saudação com a qual Ele se dirige a elas: “Eu vos saúdo”. Essa era uma antiga saudação, desejando toda a saúde para aqueles que encontramos; esse é o significado de “Eu vos saúdo”, e é uma expressão grega de saudação, que corresponde à expressão hebraica “Paz seja convosco”. Ela indica:

(1)  A boa vontade de Cristo em relação a nós e à nossa felicidade, mesmo depois que Ele entrou em seu estado de exaltação. Embora Ele esteja à frente, sempre nos deseja o melhor; e se preocupa muito com o nosso conforto.

(2)  A liberdade e a familiaridade santa que o Senhor Jesus usou em seu relacionamento com os seus discípulos; porque Ele lhes chama de amigos. Mas a palavra grega significa “Regozijai-vos”. Elas foram tomadas de temor e alegria; o que Ele lhes disse estimulou a alegria delas (v. 9). Elas poderiam se regozijar, e silenciar o seu temor (v. 10): “Não temais”. Note que a vontade de Cristo é que o seu povo seja um povo alegre, e a sua ressurreição lhes proporcione uma alegria abundante.

3. O respeito afetuoso que elas lhe prestaram: “E elas, chegando, abraçaram os seus pés e o adoraram”.

Desse modo, elas expressaram:

(1)  A reverência e a honra que elas tinham por Ele; elas se lançaram aos seus pés, colocaram-se em uma posição de adoração, e o adoraram com humildade e temor piedoso, como o Filho de Deus agora exaltado.

(2)  O amor e a afeição que elas tinham por Ele; elas o detiveram (Cantares 3.4). Quão suaves eram os pés do Senhor Jesus para elas! (Isaias 52.7).

(3)  A situação de alegria em que elas estavam, agora que tinham mais essa confirmação de sua ressurreição; elas abraçaram essas notícias. Assim, devemos abraçar a Jesus Cristo, que nos é oferecido através do Evangelho. Com reverência devemos nos lançar aos seus pés, pela fé devemos nos agarrar a Ele, e com amor e alegria devemos colocá-lo em nossos corações.

4. As palavras encorajadoras que Cristo lhes disse (v. 10). Não encontramos que elas tenham dito qualquer coisa a Ele; seus abraços afetuosos, bem como a sua terna adoração, falaram de um modo suficientemente claro; e o que Ele lhes disse não foi mais do que o anjo já havia dito (vv. 5,7); porque Ele confirmará a palavra dos seus mensageiros (Isaias 44.26). E o seu modo de confortar o seu povo é falar pelo seu Espírito várias vezes aos seus corações a mesma mensagem que eles ouviram anteriormente através dos seus anjos, os seus mensageiros. Agora observe aqui:

(1)  Como o Senhor censura o temor delas: “Não temais”. Elas não devem temer esses avisos repetidos de sua ressurreição, nem temer qualquer dano a partir do ressurgimento de alguém dentre os mortos; porque a notícia, embora estranha, era tanto verdadeira como boa. Note que Cristo ressuscitou dos mortos para silenciar os temores do seu povo, e a notícia da sua ressurreição traz o suficiente para silenciá-los.

(2)  Como o Senhor repete a mensagem: “Ide dizer a meus irmãos” que eles devem se preparar para uma viagem à Galileia, e “lá me verão”. Se houver qualquer comunhão entre as nossas almas e Cristo, é Ele quem marca o encontro, e Ele observará o compromisso. Jerusalém havia perdido a honra da presença de Cristo, e era uma cidade tumultuada; portanto, o Senhor transferiu o encontro para a Galileia. “Vem, ó meu amado, saiamos ao campo” (Cantares 7.11). Mas o que é especialmente observável aqui é que Jesus chama os seus discípulos de seus irmãos. “Ide dizer a meus irmãos”; não só àqueles que eram seus consanguíneos, mas a todos os demais, pois todos eles são seus irmãos (cap. 12.50). Mas Ele nunca os chamou assim antes, fazendo-o apenas depois da sua ressurreição, tanto nessa passagem como em João 20.17. Tendo Ele mesmo, por sua ressurreição, declarado ser o Filho de Deus com poder, todos os filhos de Deus foram assim declarados como sendo seus irmãos. Sendo o Primogênito dos mortos, Jesus se tornou o primogênito entre muitos irmãos, de todos aqueles que são reunidos na semelhança da sua ressurreição. Cristo agora não conversava tão constante e familiarmente com os seus discípulos, como havia feito antes de sua morte; mas, para que não pensassem que Ele havia se tornado um estranho para eles, Ele lhes dá esse título carinhoso: “Ide a meus irmãos”. E assim se cumprem as Escrituras que, falando de sua entrada em seu estado exaltado, dizem: ”Anunciarei o teu nome aos meus irmãos”. Eles o haviam desertado vergonhosamente no momento de seus sofrimentos; mas, para mostrar que Ele poderia perdoar e esquecer, e para nos ensinar a fazer o mesmo, o Senhor não só dá continuidade ao seu propósito de se encontrar com eles, mas os chama de irmãos. Sendo todos seus irmãos, eles eram irmãos uns dos outros, e deveriam se amar como irmãos. O fato de o Senhor os considerar como seus irmãos coloca uma grande honra sobre eles, mas também há um grande exemplo de humildade em meio a essa honra.

 

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

Igreja aprendendo a ser “Igreja”

O que a bíblia me ensinou

Quando nos referimos a igreja, estamos falando da “eklesia” como o corpo de Cristo cumprindo sua função no IDE…ou seja, o que somos dentro do corpo precisa refletir e influenciar os que estão fora dele!

A primeira missão dada a “Eklesia”, como “Chamados para fora” foi dada pessoalmente pelo Senhor Jesus quando da ressurreição em Mateus 28:19 constituindo a missão dos salvos que é:

1- Pregar as Boas Novas de Salvação e mostrar a necessidade que o pecador tem de se arrepender de seus maus caminhos e, principalmente, de ter um Salvador pessoal para redimir sua alma da morte eterna;

2 – O Ensino é a segunda missão dos salvos para que, ao tomar conhecimento da verdade, não enrede por falsos ensinamentos/falsas doutrinas.

3 – O Batismo nas águas só então se torna possível, haja visto, o mesmo só se consuma com o pleno conhecimento da importância deste no mundo físico (para os que se achegaram à Fé), e o Espiritual (para que suas batalhas sejam coroadas de vitória contra as tentações do inimigo).

Graça e Paz

PSICOLOGIA ANALÍTICA

BASES BIOLÓGICAS DA AGRESSIVIDADE

No substrato dos comportamentos agressivos, há um complexo mecanismo molecular. Mas, seria correto considerar a violência uma doença passível de ser curada com medicamentos?

Bases biológicas da agressividade

Em Boston, há uma lanchonete onde, antes de comer é preciso brigar. Trata-se de uma caixa de plexiglás transparente dentro da qual duas drosófilas disputam um pratinho de levedo em meio a golpes de patas e investidas furiosas. Os encontros deste bizarro clube de lutas, administrado por Edward Kravitz, neurobiólogo da Faculdade de Medicina de Harvard, são meticulosamente registrados em vídeo. O objetivo é estudar as bases biológicas da agressividade, uma das pulsões mais antigas e comuns a todas as espécies, mas cujos mecanismos desencadeantes permanecem um enigma.

Os modelos animais ajudaram pesquisadores a compreender patologias como câncer e diabetes e são hoje indispensáveis no desenvolvimento de todos os tratamentos modernos. No entanto, só nos últimos anos adquiriram importância na pesquisa sobre o comportamento humano. Isso porque as novas tecnologias de análise molecular, trazendo à luz a complexa rede de circuitos bioquímicos por trás de cada pulsão, permitem identificar pontos comuns a várias espécies.

“À primeira vista, a drosófila é muito diferente do homem”, observa Kravitz, “mas é um ótimo ponto de partida para isolar as moléculas que suscitam comportamentos agressivos porque conhecemos todo o mapa do seu DNA e muitos dos seus genes encontram correspondência no genoma humano. Fáceis e econômicas de criar, essas moscas-das-índias têm também a vantagem de apresentar comportamentos diferentes conforme o sexo, tanto que machos e fêmeas combatem de maneiras distintas, com esquemas reconhecíveis com base nos movimentos de cada um.

Numa pesquisa publicada recentemente nos Procedings of the NationaI Academy of Sciences, Kravitz demonstrou que, modificando geneticamente os neurônios de um inseto macho, podiam ser atribuídas ao seu cérebro as características cerebrais de uma fêmea em idade adulta. Muitos dos comportamentos dessas moscas alteradas, desde os sexuais aos rituais de corte, mudavam para assemelhar-se àqueles femininos. Apesar disso, seu modo de combater permanecia o mesmo.

 RAÍZES ANTIGAS E COMUNS

“É a primeira prova experimental de que, modificando um gene, se influi também sobre um comportamento”, observa Bruce Baker, biólogo da Universidade Stanford. Com o colega Kravitz, Baker estuda o papel da galanina, um dos principais neurotransmissores envolvidos no estímulo de agressividade e galanteio. “Mas significa também que a agressividade é um traço extremamente conservado ao longo do processo evolutivo, e depende de mecanismos que se desenvolvem muito cedo, antes mesmo da determinação do sexo. Os comportamentos podem ser muito diferentes de uma espécie para outra, mas parece claro que as moléculas na base desses estímulos são as mesmas.”

Os pesquisadores empregam técnicas de engenharia genética para obter animais knock–0ut –  privados de um gene de que sequer estudara função -, ou knock-in, quando a sequência de DNA é aumentada. No entanto, o alvo verdadeiro não são simplesmente os genes. A bem da verdade, a ideia de que existam “genes da violência” hoje está descartada, e vem sendo dada mais atenção para um grupo de neurotransmissores que têm como característica comum a presença, no interior da própria estrutura molecular, do aminoácido triptoíano. A agressividade parece se originar por moléculas diversas, mas há muitas outras que contribuem na modulação da intensidade da resposta agressiva.

Klaus Miczek, da Universidade Tufts, e Craig C. Ferris, da Universidade de Massachusetts, concentraram a atenção em dois neurotransmissores: serotonina e vasopressina. Em muitas espécies, entre elas o homem, baixos níveis de serotonina correspondem a comportamentos agressivos. Os ratos, por exemplo, atacam muito mais facilmente outro animal depois de consumirem substâncias que influem nos receptores da serotonina, impedindo o cérebro de absorver essa molécula. Ao contrário, fármacos como a fenfluramina, que aumenta o nível de serotonina, ou estimulam os receptores cerebrais que ligam esse neurotransmissor, diminuem a frequência dos comportamentos agressivos nesses animais. Os mesmos princípios são conhecidos e usados em nível farmacológico no homem. A fluoxetina, naturalmente presente no cérebro e utilizada em forma sintética em alguns antidepressivos, impede que os neurônios se liberem da serotonina produzida.

Se saturar os receptores de serotonina reduz a agressividade, a vasopressina, ao contrário, a alimenta, agindo diretamente sobre o hipotálamo, região do cérebro onde têm origem muitos estímulos comportamentais. Na década de 90, estudos clínicos conduzidos por Emil F. Coccaro, da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia, mostraram que também no homem uma escassa secreção de serotonina é acompanhada de comportamentos agressivos.

MOLÉCULAS DE POTENCIALIZAÇÃO

Os instintos agressivos seriam, portanto, simplesmente provocados pela carência de uma molécula? A química da violência parece bem mais complexa. A serotonina desempenha papel central no controle da agressividade em todos os neurotransmissores desempenha papel de controle em todos os mamíferos, e conhecemos pelo menos 14 receptores diferentes no cérebro humano”, observa Robert Sapolsky, da Universidade Stanford. Ao lado de Lysa Share, o neurobiólogo estuda a biologia da agressividade nos macacos. “Mas muitas outras moléculas potencializam o comportamento agressivo. Entre elas a dopamina – ligada ao prazer e à busca de novas sensações – a adrenalina e a noradrenalina, que aumentam o metabolismo e a força. Também a testosterona contribui, mas em medida muito menos importante que usualmente se pensa. Nas fêmeas, é muito importante a relação entre progesterona e estrogênio liberados no sangue.” Nos mamíferos de ambos os sexos, além disso, altos níveis de estrogênio podem alterar o equilíbrio do eixo do stress, constituído por hipófise, hipotálamo e glândulas suprarrenais responsáveis pela secreção de glicocorticoides, conhecidos como hormônios do stress.

Em 2004, os estudos conduzidos com gatos por Alan Siegel, neurologista da Universidade de Nova Jersey, demonstraram que também algumas moléculas do sistema imunológico, como as citocinas, são capazes de potencializar o comportamento agressivo, da mesma forma que outros neurotransmissores como o ácido gama aminobutírico (GABA) e diversos neuropeptídios. A serotonina permanece, de qualquer modo, o detonador principal de cada resposta agressiva, e por isso as pesquisas se concentram sobre ratos, que têm receptores cerebrais extremamente semelhantes aos humanos.

Hoje é também possível criar roedores geneticamente modificados que apresentam traços típicos de problemas psiquiátricos complexos como a depressão e a esquizofrenia, mas os resultados destas pesquisas devem ser interpretados com cuidado.” Desenvolver modelos animais para estudar os distúrbios humanos é um instrumento muito importante para compreender as bases dos distúrbios psiquiátricos, mas os resultados obtidos em fase de pesquisa pré-clínica devem ser interpretados com cautela, explica Alessandro Bartolomucci, do Instituto de Neurociências do Conselho Nacional de Pesquisa de Roma, que estuda a resposta ao stress nos ratos. De acordo com ele, o estudo dos neurotransmissores e dos genes implicados em tais distúrbios podem dar apenas indicações sobre os mecanismos biológicos de base na espécie estudada. Dada a semelhança de estruturas e funções existentes entre os vertebrados, é provável que tais mecanismos sejam altamente conservados também no homem, mas isso deve ser verificado experimentalmente. No que diz respeito aos raios transgênicos, por sua vez, modificar um ou mais genes produziria animais com características análogas às de um paciente psiquiátrico, mas quase nunca podemos reduzir uma síndrome complexa à disfunção de um só gene”.

DO ESTADO AO COMPORTAMENTO

A própria definição de agressividade ainda não foi estabelecida pela comunidade científica. Nos animais, a agressividade é tipicamente medida pela frequência dos ataques dirigidos a um intruso que ultrapasse os limites do seu território. Mas é uma medida indireta, porque a agressão é um comportamento, enquanto a agressividade é o estado motivacional, o conjunto das alterações neuroquímicas e fisiológicas que estão na base da agressão”, diz Bartolomucci.

O limite conceituai é evidente também no Manual diagnóstico e estatístico de transtornos (DSM-IV), que cita os comportamentos agressivos como sintoma de vários distúrbios psiquiátricos, mas não dá uma definição convincente da agressividade, como acontece para a depressão. O debate sobrea definição da agressividade é muito intenso, observa Bartolomucci. Está claro que estamos diante de um fenômeno complexo que pode ser desencadeado por razões diversas, que evoluiu como resposta a pressões seletivas muito diferentes, da defesa do território à sexualidade, mas é também modulado e atenuado por fatores sociais. Além disso, e felizmente, a agressividade pode ser inibida e não desembocar em comportamentos violentos.”

Nos países anglo-saxões, há uma grande atenção para o excesso de agressividade de crianças e adolescentes, muitas vezes descrito com a expressão inglesa bullying, que remete as atitudes agressivas a experiências sociais nos primeiros anos de vida do indivíduo. No entanto, estudos recentes indicam que também as relações sociais no interior de uma comunidade de idade adulta contam muito. As pesquisas de Sapolsky e Share com alguns grupos de macacos silvestres mostraram que depois da morte por doença dos machos dominantes e mais violentos, as fêmeas preferiam aqueles menos agressivos. Além disso. os pesquisadores constataram que, depois de dois anos da ausência dos mais agressivos, o grupo repudiava novos indivíduos muito violentos.

A PÍLULA DA MANSIDÂO

“A medida que se vão esclarecendo as bases biológicas da agressividade, aventa-se também a hipótese de tratar e controlar os comportamentos muito violentos com uma nova classe de fármacos, os serenics (agonistas do receptor de serotonina, por exemplo). Hoje, a atenção é dirigida aos inibidores seletivos de recaptação da serotonina, até agora utilizados como antidepressivos. O objetivo é modular a agressividade de maneira específica, sem induzir os pacientes a um estado de apatia. A fluoxetina já se demonstrou eficaz em alguns casos, assim como outras moléculas que agem sobre o receptor 1B da serotonina, mas ainda com muitos efeitos colaterais.

A possibilidade de expandir o emprego desses inibidores entrou, porém, em compasso de espera no fim do ano passado, quando a FDA, a agência americana de controle de alimentos e fármacos, verificou uma ligação entre o uso de fluoxetina e a frequência dos suicídios em adolescentes tratados por síndromes depressivas.

O freio principal aos investimentos de pesquisa farmacológica nesse campo deriva, porém, da impossibilidade de registrar novas moléculas para regular a agressividade. A FDA aprova, de fato, somente fármacos destinados à cura de patologias específicas e reconhecidas, mas, como já se disse, o DSM- IV não dá uma definição da agressividade como distúrbio patológico. O único estudo clínico específico iniciado por uma empresa farmacêutica é aquele sobre o uso da eltoprazina para controlar a agressividade de pacientes paranoicos e esquizofrênicos efetuado pela Solvay, que, porém, arquivou o projeto em 1994.

Se as empresas não investem, os pesquisadores parecem, porém, mais otimistas. Sapolsky recentemente propôs uma terapia gênica voltada para modificar a secreção de CRH, o hormônio que induz a hipófise a liberar o cortisol ou hormônio do stress e influencia consequentemente, o equilíbrio dos estrogênios. Segundo o pesquisador americano, seria tecnicamente possível inserir genes ativáveis por meio de fármacos em alguns neurônios, a fim de controlar a resposta ao stress e também a agressividade.

Seja qual for o caminho tomado pela pesquisa para novos tratamentos, os cientistas são os primeiros a lembrar que o controle farmacológico da agressividade é um terreno minado do ponto de vista ético. Quem sofre de agressividade patológica poderia beneficiar-se, mas o risco é que se crie uma zona cinzenta e se termine por encorajar o tratamento de um número sempre maior de pessoas cujo comportamento agressivo é determinado não por disfunções bioquímicas, mas por fatores sociais.

 O TEMPO DOS VALENTÔES

Entre as tantas formas de agressividade, uma em particular tomou conta das escolas: aquela que, na literatura internacional, ficou conhecida pelo termo inglês bullying. O pioneiro dos estudos sobre o bullying foi o psicólogo norueguês Dan Olweus, que, no início dos anos 70, na esteira de um grave incidente registrado pela crônica policial, começou a ocupar-se sistematicamente do fenômeno. A ele se deve a primeira definição: o aluno é objeto de ações de bullying, ou, de fato, é abusado ou vitimizado, quando é exposto, repetidamente, às ações ofensivas postas em prática por parte de um ou de mais colegas.

Na raiz dos comportamentos do “valentão” há quase sempre a vontade de intimidar e dominar, um abuso de poder que se manifesta com modalidades diversas. Aquela física, na qual se agride a vítima com socos e chutes, ou também se busca invalidar suas realizações pessoais. Aquela verbal, em que se ridiculariza, se insulta, se escarnece repetidamente. Enfim, há também uma modalidade indireta (registrada com mais frequência entre as meninas): o agressor difunde fofocas incômodas, pequenas calúnias, excluindo a vítima dos grupos de convivência social.

Os “valentões” que não modificam as suas modalidades de interação serão, quando adultos, pessoas com forte risco de comportamentos anti sociais, ou desviantes. As vítimas frequentemente perdem auto estima e se culpam, reações que comportam perda de concentração e rendimento escolar.  Em alguns casos, há somatização, com dores de cabeça, de estômago, ataques de ansiedade, pesadelos: todos distúrbios que podem ter consequências psicológicas também em idade adulta. Para subtrair-se aos comportamentos do “valentão”, ou dos “valentões”, as vítimas chegam a deixar a escola, a não sair mais de casa, e em casos extremos, ao suicídio.

Foi um caso de triplo suicídio que levou o governo norueguês a encarregar Olweus de estudar o fenômeno. Nos anos 80, a análise e as medidas para combater o bullying chegaram aos outros países escandinavos, e dali aos Estados Unidos, Canadá, Japão Holanda e Reino Unido.

O agressor ataca no trajeto entre casa e instalações escolares e nos banheiros de escolas, mas o lugar principal da agressão é dos mais insuspeitos: a sala de aula. Isto é, sob os olhos mais ou menos conscientes dos adultos.

OUTROS OLHARES

DIVERSIDADE FAMILIAR

As novas configurações da família moderna impõem inúmeras alterações comportamentais que transformam os perfis convencionais de pai e mãe.

Diversidade familiar2

Era uma vez a história da fundação de Roma. Os gêmeos Rómulo e Remo são cuidados (e amamentados) por uma loba. Essa é a história mítica de dois bebês que, criados por um outro animal mamífero não humano, sobrevivem, se tomam humanos, crescem e fundam Roma.

Por mais que se respeite as lobas, nos diz Donald Winnicott, pediatra e psicanalista, esse mito só não se sustenta… Um bebê não pode existir por si só, mas é parte essencial de uma relação humana (1988). Para se ter um bebê humano é necessário que um outro ser humano cuide dele, na melhor das possibilidades, exista uma mãe e ela seja um membro de uma família nuclear?

Para alguns estudiosos a família atual está mais sólida do que nunca. Com o nascimento do anonimato urbano e na ausência de qualquer comunidade profissional estável, a família se tornou hoje o único referencial e o único lugar onde ficar, repousar e ser compreendido. Para outros, muito pelo contrário, trata-se aí apenas de reações sintomáticas a uma crise profunda da família moderna: casais separados, famílias monoparentais ou recompostas, incompetência crescente dos pais na educação dos filhos, o declínio da imagem social do pai, o celibato prolongado das mulheres ou a postergação do nascimento dos filhos por motivo profissional etc. (Burd, 2015).

A família na atualidade se reinventou, como os cuidados ditos “maternos”, também se reinventaram. Só a mãe biológica pode maternar? Ou haveria outras pessoas que poderiam exercer essa função? Há possibilidades de terceirizar a maternagem?

“Essa é a nossa questão de hoje: Existe uma nova forma de maternagem e quem atualmente desempenha essa função?”

Vamos tentar responder essa pergunta porque hoje, (como na época de Rómulo e Remo, precisaremos de mais do que uma loba para isso. “Um bebê e alguém mais…”

Estamos no transcurso do século XXI e a função de maternar não se coloca especificamente na figura da mãe biológica, uma mulher que engravidou, gestou, deu à luz o seu bebê e cuidou dele. Através do panorama da evolução dos costumes e papéis sociais constata-se a caminhada das mulheres ao mercado de trabalho e dos homens aos cuidados com os filhos e a casa. As avós (e já vemos também as bisavós) estão ajudando a criar seus netos (e bisnetos). Outras vezes, a mulher posterga a maternidade para depois da universidade, da consolidação no trabalho, da sua independência financeira e, como o seu relógio biológico para engravidar vai se extinguindo, ela precisa recorrer à reprodução assistida. Por vezes não há o desejo de engravidar, a mulher (ou o casal) quer apenas adotar uma criança.

A colocação das crianças nas creches e escolinhas desde muito cedo e por períodos de tempo muito longos é uma alternativa aos pais que trabalham fora em regime de tempo integral. Outra possibilidade são as babás que cuidam das crianças. E essa terceirização do cuidado das crianças pode se estender ao celular, ao tablet, ao laptop, com filmes e jogos eletrônicos, da câmara de vídeo que monitoriza casa e a deixa à mostra em tempo e hora, sem falar da TV que foi e ainda é uma “babá eletrônica.

Estamos assistindo também à formação de novas configurações familiares. Casais homoafetivos, tanto masculinos quanto femininos, estão se formando e desejam ter filhos, biológicos ou adotados. Famílias separadas estão se recompondo com outros parceiros e os filhos de um se unem aos do outro e os filhos de ambos se reúnem numa mesma casa formando uma família recomposta e extensa.

UMA GRANDE CONTRIBUIÇÃO

Winnicott, pediatra e psicanalista, depositava grande confiança na capacidade natural das mães para a maternagem. Sua preocupação era de que esse talento inato não fosse prejudicado. As expressões de winnicottianas “mãe devotada comum “e “mãe suficientemente boa” criaram um ambiente aberto no qual a mãe passa a ter mais possibilidades de se sentir livre o suficiente para ser ela mesma. Ele dizia que passado o período da  “preocupação materno-primária”, no qual o bebê é o centro de tudo para ela, começa a existir um período de desilusão gradativa, necessária à construção do self interior do bebê e do mundo objetal à sua volta, e que a mãe, em contrapartida, tenha um espaço próprio para buscar outras satisfações e ineresses que não o bebê ou o ser exclusivamente mãe.

Isso quer dizer, em última análise, que a mãe não pode ser perfeita, pois corre o risco de não favorecer o desenvolvimento físico-psicológico do filho. A mãe (ou quem a substitua) não pode superproteger o bebê nem ser negligente. Isso também quer dizer que o “bebê cria a mãe”, ela começa a perceber que, apesar da importância da maternagem, o conhecimento das suas imperfeições é parte do processo do par cuidador e que isso constitui um momento mais liberador do que opressivo.

A mãe winnicottiana é empática, embora ainda preocupada consigo. Ela quer proporcionar cuidados, prazer e brincadeiras a seu filho, mas sabe que o mundo e a vida exigem limites, restrições, frustrações e desilusões graduais. A mãe dentro dessa ótica é uma pessoa comum que faz coisas comuns: segurá-lo (dar o holding), ter um bom manejo (o handling) que dê acalento ao filho, e ter a sensibilidade necessária para a “apresentação do objeto (o mundo) no momento ideal.

O bebê winnicottiano é a criança que descobre o mundo dessa forma e se torna a tempo preparada para receber bem as surpresas que o mundo oferece. Winnicott acreditava que, sendo uma mãe zelosa, ela pode evitar que o mundo (e ela própria) invada demais a criança antes que ela o descubra. Ele denomina a mãe e o bebe como o “par cuidador’; e os pais devem desempenhar um papel fundamental na proteção desse par contra as adversidades. O pai winnicottiano é necessário pelos seus próprios direitos e não como uma réplica da mãe. Winnicott sabia que “há certos pais que efetivamente seriam melhores mães que sua esposa” e que “homens maternais podem ser muito úteis. Quando não há o pai é preciso que alguém tome a si o papel protetor – que assuma a função paterna. O papel do pai é “abrir o mundo para a criança”, que o vê através de um novo par de olhos.

A família winnicottiana é o grupo que normalmente proporciona à criança segurança e força (um ambiente sustentador e um “grupo transicional”) que facilitam a individualização da criança, sua separação da família e adaptação à sociedade. O ambiente humano, para Winnicott, deve ser “suficientemente bom”, é adaptativo da forma correta, apropriado, de acordo com as necessidades do bebé. Winnicott diz em relação aos gêmeos Rómulo e Remo que alguém que era humano encontrou e cuidou dos bebês…

“A princípio éramos absolutamente dependentes, e por sorte fomos satisfeitos pela devoção comum (1988).

 CONSTELAÇÃO

Daniel Stern, outro psicanalista, fala da “constelação da maternidade” (1997), e enumera quatro temas que, na nossa cultura, surgem quando alguém que cuida de um bebe deve se perguntar:

Serei capaz de manter a vida e o crescimento do bebe? Serei capaz de me envolver emocionalmente com o bebê, de maneira pessoalmente autêntica, e será que esse envolvimento psíquico assegurará o desenvolvimento psíquico que se quer para o bebê? Saberei como criar e prover os sistemas de apoio necessários ao cumprimento dessas funções? Serei capaz de transformar a auto identidade para permitir e facilitar essas funções?

A constelação da maternidade não é universal e inata. Em outras épocas, histórias e culturas, esses temas não seriam tarefas da mãe, seriam diferentes ou quase inexistentes. Os homens poderiam elaborar uma nova constelação da maternidade quando as condições se mostrassem propicias. Além das influências hormonais, ou melhor, psicobiológicas, que preparam a mãe para cuidar de seu bebê, as condições socioculturais, também parecem dominantes em como e se essas vão agir.

Na nossa sociedade, nos diz Stern (1997), as condições culturais importantes na moldagem da forma final da constelação da maternidade conforme nós a conhecemos incluem os seguintes fatores:

“A sociedade atribui um grande valor aos bebês, à sua sobrevivência, bem-estar e desenvolvimento ótimo; supõe-se que o bebê seja desejado; a cultura atribui um grande valor ao papel maternal, e a mãe (ou quem a substitua) é, em parte, avaliada como pessoa por sua participação e sucesso no papel maternal; a responsabilidade básica pelos cuidados com o bebê é colocada na mãe {ainda o é hoje), mesmo que ela delegue grande parte das tarefas a outras pessoas; é esperando que a mãe ame o bebê; é esperado que o pai e outros proporcionem um contexto apoiador em que a mãe possa desempenhar seu papel maternal por um período inicial. Quanto aos pais, Stern distingue os “pais tradicionais” e os “novos pais”. Os primeiros não vivem muito a constelação da maternidade, podem até dar o apoio prático; os segundos podem participar de todas as tarefas de cuidados e do apoio prático. O “novo marido” é deixado com metade do trabalho e, se sentir gratificado no seu papel parental, deve apoiar a mãe.

Cada pessoa que cuida do bebe (mãe biológica ou quem o substitua) desenvolverá uma constelação de maternidade própria.

Daniel Stern (1997) se pergunta:

“E se o pai for o cuidador primário, será que ele também vai desenvolver uma constelação da maternidade? Afinal de contas, seu cuidador primário foi sua mãe (com toda a probabilidade), ou sua necessidade de se identificar com o pai vai alterar essa situação?”

 NOVAS CONFIGURAÇÕES

 

ADOÇÃO

Adotar significa acolher, por meios legais e de livre e espontânea vontade, uma criança, como se filho fosse essa criança, que estaria ora desamparada pelos pais legítimos, dando-lhe o direito que um filho natural teria. Quando alguém decide se tornar pai ou mãe, um desejo de adoção coloca­se em ato. Esse ato é uma declaração pública que diz sim à responsabilidade de ostentar um processo particular de filiação/adoção.

Na adoção, o cuidado necessário de uma criança pode ser exercido por qualquer indivíduo que supra essas necessidades, não sendo mais função exclusiva da mãe biológica. A maternagem, nesse caso, é entendida como uma vinculação de qualidade, de alguém que tenha a função do cuidar e de uma criança a ser acolhida. Tem base psicológica e é construída ao longo do tempo através das relações estabelecidas com os objetos escolhidos.

Paro que uma adoção seja bem-sucedida, o desejo de ser mãe ou pai deve estar presente, sendo essencial que haja capacidade de compreensão, disponibilidade e doação para com o outro.

 ADOÇÃO POR CASAIS HETEROSSEXUAIS

Para os pais adotantes, ter um filho por meios não naturais, ou seja, adotar, seria apenas um meio diferente, já que a ansiedade pela espera do filho, o sexo, saúde, preocupações com a educação, de comportamento, entre outros são os mesmos que se teria com um filho natural. Para Françoise Dolto (1998), a relação mãe-bebê vai além da herança genética e perpassa também pelo vinculo estabelecido entre eles, pois é na cultura e na linguagem que essa relação se estrutura. Laços consanguíneos não garantem o amor entre pais e filhos, pois este é construído e conquistado.

ADOÇÃO POR CASAIS HOMOAFETIVOS

Conforme a legislação, não há impedimento para que pessoa homossexual adote uma criança. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no seu art. 42, menciona que a adoção pode ser realizada tanto por homem, quanto por mulher, de forma “conjunta ou não”, estando ausente a necessidade de enlace matrimonial.

A educação de crianças por pais homossexuais não é novidade, embora a estabilidade do relacionamento entre pessoas do mesmo sexo e o desejo de terem filhos ainda despertem a curiosidade de muitos. Pesquisas recentes revelam que aqueles que foram adotados e criados por pessoas homossexuais tiveram vida digna e feliz, da mesma forma que os filhos adotados por pessoas heterossexuais. Os interesses dos menores estarão mais bem protegidos se as famílias homoafetivas forem vistas sem preconceitos, sem temores e sem mitos.

As mães lésbicas são capazes de exercer perfeitamente o papel materno. Precisam se preocupar em cercar a criança de figuras masculinas adequadas para a identificação (irmãos, tios, avô). Estudos realizados demonstraram que crianças educadas por pais homossexuais desenvolvem identidade sexual apropriada e assumem atitudes heterossexuais, como aquelas criadas em lares de mães e pais heterossexuais.

 REPRODUÇÃO ASSISTIDA

 

POR CASAIS HETEROSSEXUAIS

Em 1984 foi anunciado o nascimento do primeiro bebê de proveta brasileiro, seis anos depois de ter nascido o primeiro bebê de proveta do mundo, na Inglaterra. As novas tecnologias de reprodução; no seu início, eram medicamente definidas como tratamentos da infertilidade e teriam sido desenvolvidas em função de uma demanda preexistente: o desejo de filhos, de continuidade pela reprodução, portanto uma demanda dirigida à “vida de fato, sem o desejo de filhos não há infertilidade.

POR CASAIS HOMOAFETIVOS

Cada vez mais, os casais homoafetivos tem procurado clínicas de reprodução assistida. As novas normas aprovadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) devem beneficiar um número maior de mulheres e homens homossexuais que desejam ter filhos biológicos. A medida permite que a técnica seja desenvolvida, independentemente do estado civil ou orientação sexual ou seja, pessoas do mesmo sexo e / ou mulheres solteiras.

No caso de mulheres homossexuais não se pode utilizar o sêmen de um familiar (irmão) de uma das parceiras para fertilizar os óvulos da companheira dessa forma. O especialista esclarece que o doador não pode ser um irmão, familiar ou conhecido da paciente, pois os doadores não devem conhecer a identidade dos receptores e vice-versa. Obrigatoriamente, é mantido o anonimato.

Nos casais de homens, o processo envolve mais pessoas, pois é necessário o óvulo de uma doadora desconhecida e depois uma mulher da família que possa gerar o bebê. Eles dependem dos óvulos de doadora desconhecida e da gestação do útero, que, ao contrário dos óvulos doados deve ser de parente próxima, irmã ou mãe (que nem sempre aceitam gerar um bebê). O procedimento só é permitido em uma mulher parente do casal homossexual – a chamada “barriga solidária”.

MUDANÇAS

Os homens (tanto heterossexuais como homossexuais) estão cada vez mais participantes dos primeiros contatos com o bebê, como coparticipantes das atividades antes consideradas apenas atributos femininos. Na medida em que esse processo se dá, podemos falar de pais “suficientemente bons”. Todas as estruturas familiares são capazes de promover o desenvolvimento positivo da criança, desde que o ambiente seja afetuoso, estimulante e livre de conflitos e estresse.

O bebê humano nasce dependente de cuidados de maternagem e esses cuidados devem ser compartilhados pelas pessoas que cuidam dele; a mãe que amamenta ao seio, os homens que trocam fraldas e preparam a alimentação do bebê etc. São funções de ordem prática que possuem uma série de diferentes atributos, de acordo com a fase de desenvolvimento da criança, e são exercidas por adultos tutelares (mãe e pai, biológico ou adotivo).

A dinâmica por meio da qual atualizam-se as funções materna e paterna se organiza a partir de um Inter jogo de fatores conscientes e inconscientes. Portanto, as funções materna e paterna vão além dos papéis de pai e mãe.

Desde os primórdios da vida percebemos que essas funções se constituem numa relação dual – os pais formam os filhos/os filhos os tornam pais. O fato de descobrir e ir aprendendo ao viver a experiência nos remete à noção de processo: tomar-se mãe e tornar-se pai.

Tradicionalmente a função materna é exercida principalmente pela mãe biológica, mas não necessariamente é da quem a exerce. Em alguns casos, outras pessoas assumem o exercício dessa função. Nas novas configurações familiares, ela é, em geral, compartilhada pelos membros próximos da família e, eventualmente, por profissionais e funcionários de instituições. Entretanto, ao executar tais tarefas, os homens ainda são comparados com a mãe e frases como “esses pais que são verdadeiras ‘mães’ são usuais para definir os novos interesses masculinos. Isso já está mudando.

É fundamental, no entanto, que exista uma pessoa que seja a principal cuidadora do bebê, que represente uma referência constante e seguro. Essa pessoa deve, além de ser responsável pelos cuidados básicos de saúde, higiene e alimentação do bebê, nele investir emocionalmente. Isso significa que deve haver vínculo afetivo entre essa pessoa e o bebê de que ela cuida.

Diz a lenda que Roma foi fundada no ano 753 a.C. por Rômulo e Remo, filhos gêmeos do deus Marte e da mortal Rea Sílvia. Ao nascer, os dois irmãos foram abandonados junto ao rio Tibre e salvos por uma loba, que os amamentou e protegeu.

Um pastor de ovelhas os recolheu e lhes deu os nomes Rômulo e Remo.

Ele foi esse alguém mais na vida dos gêmeos humanos.

E não foi uma mãe!

WINNICOTT

Donald Woods Winnicott desenvolveu sua Psicanálise com base nas relações familiares entre a criança e o ambiente. Todo ser humano, segundo o pediatra inglês, tem um potencial para a evolução. Contudo, para tornar esse potencial algo real, o ambiente se faz necessário. Inicialmente, esse ambiente é a mãe – ou alguém que exerça a função materna – apoiada especialmente pelo pai.

SER PAI E MÃE

Ser pai e ser mãe na ótica psicanalítica não implica apenas paternidade biológica, demanda também, sentimentos e atitudes de adoção que decorrem do desejo pelo filho. O exercício da função materna e o exercício da função paterna são considerados necessários para a estruturação e desenvolvimento do psiquismo da criança.

 Diversidade familiar3

MIRIAN BURD – é psicóloga com experiência em atendimento clínico e autora de diversos artigos científicos em revistas especializadas.

 

 

GESTÃO E CARREIRA

TRABALHAR SEM PERDER A QUALIDADE DE VIDA

Trabalhar sem perder a qualidade de vida

Ter equilíbrio entre a área pessoal e a profissional é algo fundamental, mas nem todos conseguem isso. Encontrar a harmonia entre essas duas esferas não é função exclusiva do empregado. As 150 Melhores Empresas para Trabalhar e as 35 Melhores Empresas para Começar a Carreira, listados nos guias publicados por VOCÊ S.A., sabem bem disso. Para que seus funcionários tenham satisfação tanto no emprego quanto fora dele, 61% das melhores evitam que as pessoas fiquem mais tempo no escritório do que o combinado, desligando sistemas de trabalho em horários predeterminados, por exemplo. Como resultado, 87% dos profissionais que atuam nessas companhias afirmam que a jornada deles permite conciliar a carreira com questões familiares.  Apesar de estar na vanguarda, as melhores ainda precisam desenvolver alguns pontos: apenas 8% delas oferecem licença – paternidade superior a dez dias e somente 17% têm instalações para cuidado dos filhos dos empregados.

Trabalhar sem perder a qualidade de vida.2

 

Trabalhar sem perder a qualidade de vida.3

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 28: 1-10

Alimento diário

A Ressurreição – Parte II

III – A mensagem que esse anjo entregou às mulheres (vv. 5-7).

1. Ele as encoraja contra os seus medos (v. 5). Aproximar-se de túmulos e sepulturas, especialmente em silêncio e solidão, tem algo de assombroso. Quanto mais para aquelas mulheres, que encontraram um anjo no sepulcro; mas logo ele as tranquiliza, dizendo: “Não tenhais medo”. Os guardas ficaram assombrados e como mortos, mas: “Não tenhais medo”. Deixe que os pecadores em Sião tenham medo, porque há razão para isso; mas: Não temas, Abraão, nem qualquer um da semente de Abraão. Por que deveriam as filhas de Sara, que fazem o bem, temer algum espanto? (1 Pedro 3.6). “Não tenhais medo. Não permitais que a notícia que eu tenho para vos dar seja uma surpresa para vós, porque vos foi dito anteriormente que o vosso Mestre ressuscitaria; não permitais que isso seja um terror para vós, porque a sua ressurreição será a vossa consolação; não temais, pois não vos farei qualquer dano, nem tenho más notícias para vós. ‘Não tenhais medo, pois eu sei que buscais a Jesus’. Eu sei que tendes simpatia pela causa. Eu não venho para vos assombrar, mas para vos encorajar.” Note que aqueles que buscam a Jesus não têm motivo para ficar com medo; porque, se eles o buscarem diligentemente, o acharão, e o acharão como o seu Redentor generoso. Todas as nossas indagações a respeito do Senhor Jesus, na fé, são observadas e registradas no céu. “Eu sei que buscais a Jesus”; e certamente receberão uma resposta, como essas receberam, com boas palavras, e palavras de conforto. “Buscais a Jesus, que foi crucificado”. Ele menciona o fato de Jesus ter sido crucificado, com a intenção de elogiar o amor que elas sentem por Ele. Em outras palavras: “Vós ainda o buscais, embora Ele tenha sido crucificado; mesmo assim, retendes a vossa bondade por Ele”. Observe que os verdadeiros crentes amam e buscam a Cristo, não só embora Ele tenha sido crucificado, mas pelo fato de ter sido crucificado.

2. Ele lhes assegura sobre a ressurreição de Cristo. E havia o suficiente nisso para acalmar os seus temores (v. 6). “Ele não está aqui, porque já ressuscitou”. Ouvir que Ele não estava ali não seria uma notícia bem-vinda para aquelas que o buscavam, se não tivesse sido acrescentada a frase: porque “já ressuscitou”. Note que é uma questão de conforto para aquelas que buscavam a Cristo, e não o encontravam onde esperavam, o fato de que Ele já tivesse ressuscitado; não o encontramos em um repouso, como poderíamos esperar, porém Ele já ressuscitou. Não devemos dar atenção àqueles que dizem: Cristo está aqui, ou: Ele está ali, porque Ele não está aqui ou ali; Ele já ressuscitou. Em todas as nossas indagações a respeito de Cristo, devemos nos lembrar de que Ele já ressuscitou; e devemos buscá-lo como aquele que ressuscitou.

(1)  Não com pensamentos totalmente carnais a respeito dele. Havia aqueles que conheciam a Cristo segundo a carne; mas, de agora em diante, não o conhecem mais assim (2 Coríntios 5.16). É verdade que Ele tinha um corpo completamente humano; mas agora o seu corpo é um corpo glorificado. Aqueles que fazem retratos e imagens de Cristo se esquecem de que Ele não está aqui, porque já ressuscitou; a nossa comunhão com Ele deve ser espiritual, pela fé em sua Palavra (Romanos 10.6-9).

(2) Devemos buscá-lo com grande reverência e humildade, e uma imensa consideração por sua glória, porque já ressuscitou. Deus o exaltou sobremaneira, e lhe deu um nome que está acima de todo nome, e, portanto, todo joelho e toda alma deve se dobrar diante dele.

(3) Devemos buscá-lo com o nosso pensamento nas coisas celestiais. Quando estivermos prontos para fazer deste mundo o nosso lar, e dizer: “Bom é estarmos aqui”, lembremo-nos de que o nosso Senhor Jesus não está aqui, porque já ressuscitou, e assim não deixemos que os nossos corações estejam aqui, mas deixemos que eles ressuscitem também, e busquemos as coisas que são do alto (Colossenses 3.1-3; Filipenses 3.20).

Duas coisas que o anjo menciona a essas mulheres, para a confirmação de sua fé, no tocante à ressurreição de Cristo.

[1] Sua palavra agora cumprida, da qual elas poderiam se lembrar: “Já ressuscitou, como tinha dito”. Isto ele afirma como o próprio objeto de fé: “Ele disse que iria ressuscitar, e vocês sabem que Ele é a própria Verdade; portanto, vocês tinham motivos para esperar que Ele ressuscitasse. E por que seriam relutantes em crer naquilo que Ele disse que ocorreria?” Nunca consideremos estranho aquilo de que a palavra de Cristo tem levantado as nossas expectativas, seja quanto aos sofrimentos do tempo presente, ou à glória que está para ser revelada. Se nos lembrarmos do que Cristo nos disse, não ficaremos surpresos com o que Ele faz conosco. Ao dizer: “Ele não está aqui, porque já ressuscitou”, esse anjo está indicando que não está anunciando um outro Evangelho diferente daquele que eles já haviam recebido, porque ele se refere à palavra de Cristo como sendo suficiente para confirmar: “já ressuscitou, como havia dito”.

[2] Seu túmulo agora vazio, para o qual elas poderiam olhar: “‘Vinde e vede o lugar onde o Senhor jazia’. Com­ pare o que ouviste com aquilo que estais vendo; juntando essas coisas, crereis. Vede que Ele não está aqui, e lembrando-se do que Ele disse, podeis ficar satisfeitas pelo fato de Ele já ter ressuscitado. Vinde e vede o lugar, e vereis que Ele não está ali, vereis que Ele não poderia ser roubado dali, e, portanto, deveis concluir que Ele já ressuscitou”. Note que pode ser útil para nos afetar, e pode ter uma boa influência sobre nós, vir e, com um olhar de fé, ver o lugar onde o Senhor jazia. Vejam ali as marcas do seu amor que Ele tem ali deixado ao rebaixar-se tanto por nós; vejam com que facilidade Ele fez essa cama, e com que alegria, por nós, deitou-se nela. Quando olhamos para dentro do túmulo onde sabemos que teremos de nos deitar, podemos remover o terror que sentimos olhando para dentro do túmulo onde o Senhor jazia; ou, como diz o texto Siríaco, o lugar onde o “nosso Senhor” jazia. Os anjos o têm como seu Senhor, assim como nós; porque toda a família, tanto no céu como na terra, recebe o nome dele.

3. Ele as orienta para que levem a notícia do que aconteceu aos seus discípulos (v. 7): “Ide, pois, imediatamente, e dizei aos seus discípulos”. É provável que elas desejassem ficar ali com a visão do sepulcro e conversar com os anjos. Era bom estar ali, mas elas tinham recebido uma outra incumbência; esse é um dia de boas notícias, e, embora elas tenham a posse principal do conforto, sendo as primeiras a desfrutar de notícias tão agradáveis, elas não devem ter o monopólio delas, não devem reter a paz deles, assim como aqueles leprosos (2 Reis 7.9). Elas devem ir contar aos discípulos. Observe que a utilidade pública que beneficia os outros deve ser preferida ao nosso próprio prazer e comunhão particular com Deus; porque é mais bem-aventurado aquele que dá, em comparação com aquele que recebe. Observe:

(1)  Os discípulos de Cristo devem receber primeiro a notícia. A ordem não é: Ide, dizei aos príncipes dos sacerdotes e aos fariseus, para que eles possam ficar perplexos; mas: Dizei aos seus discípulos, para que eles sejam confortados. Deus antecipa mais a alegria de seus amigos do que a vergonha de seus inimigos, embora esteja reservado para a vida eterna a plena realização de ambos. “Dizei aos seus discípulos”; pode ser que eles não acreditem em vosso relato, no entanto dizei-lhes:

[1] Para que eles possam se sentir encorajados sob as suas tristezas e dispersões presentes. Eles sofreram um período terrível, entre a dor e o medo. Que vivificante seria para eles, agora, ouvir que o seu Mestre ressuscitou!

[2] Para que eles mesmos pudessem dar prosseguimento às suas indagações. Esse alarme lhes foi enviado para despertá-los daquela estranha estupidez que os havia agarrado, e para aumentar as suas expectativas. Isso deveria fazer com que buscassem a Cristo, preparando-os para a ocasião em que o Senhor lhes apareceria. As indicações gerais nos levam a buscas mais intensas e profundas. Eles agora ouvirão a respeito dele, porém muito em breve o verão. Cristo se revela gradualmente.

(2)  As mulheres são enviadas para lhes anunciar, e assim foi feito; elas foram como apóstolos para os próprios apóstolos. Esta foi uma honra colocada sobre elas, e uma recompensa pela sua fidelidade constante e afetuosa ao Senhor Jesus, na cruz e no túmulo, e uma censura aos discípulos que o abandonaram. Mesmo assim, Deus ainda escolhe as coisas fracas do mundo para confundir as poderosas, e coloca o tesouro, não só em vasos de barro, mas aqui em vasos mais frágeis. Assim como a mulher, sendo enganada pelas sugestões de um anjo mal, caiu em transgressão (1 Timóteo 2.14), essas mulheres, sendo devidamente informadas pelas instruções de um anjo bom, foram as primeiras a crer na redenção da transgressão pela ressurreição de Cristo. Para que a reprovação por serem do sexo feminino pudesse ser afastada, colocando-as no mesmo nível dos homens, o que é o louvor perpétuo delas.

(3)  Elas receberam a ordem de cumprir essa missão imediatamente. Por que, que pressa havia? A notícia não se esfriaria, e seria bem recebida por eles a qualquer momento, não é? Sim, mas eles estavam agora tomados de pesar, e Cristo lhes mandaria apressadamente essa notícia vivificante; quando Daniel estava se humilhando diante de Deus por causa do pecado, o anjo Gabriel voou rapidamente com uma mensagem de conforto (Daniel 9.21). Devemos estar sempre prontos e dispostos:

[1] A obedecer às ordens de Deus (Salmos 119.60).

[2] A fazer o bem aos nossos irmãos, levando-lhes conforto, como aqueles que se compadecem de suas aflições. Não podemos dizer: “Vai e torna, e amanhã to darei”; mas devemos ajudar a quem pudermos agora, imediatamente.

(4)  Elas foram instruídas a informar aos discípulos de que deveriam encontrá-lo na Galileia. Houve outras aparições de Cristo a eles antes dessa ocasião na Galileia. Elas foram repentinas e de surpresa; mas o Senhor teria um encontro solene e público, e lhes avisou com antecedência. Então, a Galileia foi designada como o local desse encontro geral, a cerca de 130 ou 160 quilômetros de Jerusalém:

[1] Como um gesto de bondade para com os seus discípulos que permaneceram na Galileia, e não subiram (talvez por não poderem subir) até Jerusalém. Ele iria, portanto, para aquela terra, para manifestar-se aos seus amigos ali. “Eu conheço as tuas obras, e onde habitas”. Cristo sabe onde os seus discípulos habitam, e os visitará ali. Observe que a exaltação de Cristo não faz com que Ele se esqueça dos seus discípulos aparentemente mais insignificantes e mais pobres, mas Ele se manifestará com bondade até mesmo para aqueles que estão distantes da sepultura.

[2] Em consideração à fraqueza dos seus discípulos – que estavam agora em Jerusalém, que estavam no momento com medo dos judeus, e que não ousavam aparecer publicamente -, esse encontro foi transferido para a Galileia. Cristo conhece todos os nossos temores, e considera a nossa estrutura. Assim sendo, Ele marcou o seu encontro em um lugar onde haveria um risco muito menor de ocorrência de algum distúrbio.

Por fim, o anjo solenemente afirma, através da sua palavra, a verdade do que lhes havia relatado: “‘Eis que eu vo-lo tenho dito’, podeis estar certas disso, e depender disso. Eu vo-lo tenho dito, e não ousaria dizer uma mentira”. A palavra falada pelos anjos permaneceu firme (Hebreus 2.2). Deus havia estado habituado, anteriormente, a tornar o seu pensamento conhecido ao seu povo através da ministração de anjos, como na entrega da lei; mas, como Ele planejou nos tempos do Evangelho deixar de lado esse modo de comunicação (pois não foi aos anjos que Ele sujeitou o mundo por vir, nem os designou para serem os pregadores do Evangelho), esse anjo foi enviado agora para certificar os discípulos da ressurreição de Cristo, e assim deixar nas mãos deles o anúncio ao mundo (2 Coríntios 4.7). Ao dizer: “Eis que eu vo-lo tenho dito”, ele se exime da culpa da incredulidade delas, caso não recebessem esse relato, e lança toda a responsabilidade sobre elas: “Eu cumpri a minha missão, e de modo fiel entreguei a minha mensagem; agora vocês precisam olhar para ela e crer nela, assumindo a completa responsabilidade por suas decisões; quer vocês creiam, quer vocês se abstenham, eu lhes tenho dito”. Observe que os mensageiros de Deus que cumprem a sua responsabilidade fielmente podem ter o conforto que resulta dessa atitude, seja qual for o resultado (Atos 20.26,27).

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE A VIDA ESPERA DE NÓS

A busca por sentido é uma necessidade fundamentalmente humana e pode estar relacionada a muitas aflições que hoje lemos como transtornos.

O que a vida espera de nós

Muitos gostam de frequentar academias e enxergam vantagens nas ergométricas e esteiras. Eu sempre vou preferir uma caminhada pelo bairro. Os benefícios físicos vêm de bónus, raramente são os principais motivadores. É um exercício, acima de tudo, de atenção ao mundo de fora; de admiração à vida que nos cerca e que as ocupações e preocupações não nos deixam perceber.

As caminhadas são recompensadas com cheiro das plantas e de gramados recém-cortados, frutas colhidas do pé, cantos de pássaros, cumprimentos de vizinhos – humanos e caninos – e, – algumas boas histórias. Sem falar nos registros, com a câmera do celular, de cores, cenas e fotogénicos gatos que nos espiam desconfiados, de alguns abrigos improváveis – como a branquinha aninhada em uma casinha de cachorro, no terreno de uma casa desocupada.

Quando me agachei para fazer a foto, fui surpreendida pela simpatia de um senhor que vinha trazer comida para ela. Foi então que descobri que se tratava de uma fêmea, particularmente arisca, que ele conseguiu conquistar depois de muito tempo de convivência. Revelou que a pequena morada de telhado azul, que havia comprado especialmente para a gatinha, pode ser puxada para perto da grade por um sistema de roldanas que inventou,

Mas a parte mais interessante da visita vem sempre depois de saciada a fome da amiguinha felina. É quando ele estende um pano branco no chão e se deita no meio da calçada para brincar e acariciar a Mimi. “Ela precisa disso”, explicou. Ela e os outros gatos que, mesmo vivendo na rua e dormindo em casinhas em terrenos desocupados, tiveram o privilégio de serem adotados por esse mecânico de coração grande, que divide a casa com 11 cachorros tirados da rua.

Os animais que estão sob sua responsabilidade lhe dão trabalho e lhe trazem preocupação: a principal delas, confessou, é que na sua falta, voltem a viver na rua, correndo o risco de serem maltratados ou de passarem fome. Mas eles não são os únicos a se beneficiar dessa relação: o homem precisa dos afagos da gatinha, assim como ela precisa dele. A retribuição oferecida pelos bichos pode parecer insignificante para muitos, mas para aquele senhor é o propósito de sair de casa em um dia chuvoso, de deitar­ se na calçada com a disposição de uma criança e de voltar com a sensação de missão cumprida. Não é movido por necessidade financeira, auto cobranças ou pressões externas, mas por uma busca por sentido. Algo que, para o psicanalista e filósofo alemão Erich Fromm, está no fundamento da condição humana, apesar de muitas vezes ser reprimido, ao custo do que podemos chamar de mente saudável. Uma das formas de reprimir essa tendência é seguir compulsivamente o que ele chama de “rotina de fuga”.

Décadas depois de escritas suas obras, o consumo e a produtividade continuam sendo algumas das principais rotas dessa fuga, facilitada recentemente pelo sedutor universo virtual que carregamos nos bolsos. Em Modern Mans Pathogy of Normaley (“A patologia da normalidade do homem moderno”) escreve: “Nós não conseguimos suportar viver apenas saciando a fome e a sede sem dar um sentido à existência. Temos que encontrar alguma resposta ao mistério da vida e essa resposta deve ser tanto teórica como prática. Refiro-me ao fato de precisarmos de uma estrutura    referencial que nos dê orientação, que de alguma forma torne significativo o processo da vida e nossa posição dentro dele”

Para Fromm, esse propósito não é necessariamente produto de um planejamento ou de justificativas intelectuais, mas consiste em um objeto de devoção – “algo para o qual dedicamos nossas energias, para além da finalidade de produzir ou de reproduzir”

Lançados em 1953, esses ensaios trazem uma reflexão incrivelmente atual sobre os parâmetros que utilizamos para definir os estados mentais –  critérios que estão cada vez mais estreitos, traçados por uma sociedade que parece estar perdendo as referências de normalidade; que em sua determinação de encontrar explicações simplificadas isola a biologia dos outros âmbitos que compõem o ser humano como o social e o espiritual. Aí se encontram a necessidade de vínculos e de servir a um propósito de fazer parte de algo maior que nós.

Fromm não foi o único a escrever sobre a busca pelo sentido e sua relação com a saúde mental. Para o psiquiatra austríaco Victor Frankl é isso que nos move – e não o prazer ou o poder, como se havia sugerido. Após um período em campos de concentração nazistas, concluiu que é possível encontrar propósito mesmo nos períodos mais difíceis, e que a falta desse motivador pode levar a excessos e compensações – hoje associados a diversos tipos de transtornos. Na obra Em Busca de Sentido (Editora Vozes), ele conta que durante a guerra tinha que ensinar àqueles sem esperança “que não importava o que eles esperavam da vida, mas sim o que a vida esperava deles”. A busca por sentido, portanto, só leva a algum lugar quando nos damos conta de que nós é que nós é que somos questionados pela vida e não o contrário.

Frankl cita Nietzsche ao lembrar que “aqueles que têm um porquê” podem suportar praticamente qualquer “como”. Esse porquê, sugere o psiquiatra, pode vir de diferentes fontes: flexibilidade diante de situações que não podemos mudar; auto expressão e criatividade; e amor, ao interagirmos de forma significativa com outros e com o ambiente. Essa foi a fonte de propósito do senhor que acolhe os animais e de todos os que se preocupam com a falta que, um dia, farão a alguém.

Em uma época em que um dos produtos mais lucrativos do merendo editorial é um grosso manual de diagnósticos psiquiátricos, reflexões que abordam as necessidades humanas de forma abrangente, e não as reduzem à biologia, fazem-se ainda mais urgentes. Conforme esses pensadores já haviam deixado claro mesmo antes da era das pílulas, 11e1n todas as respostas são encontradas em laboratórios e nem todas as soluções estão nas farmácias. A cultura na qual vivemos, nossas escolhas, as responsabilidades que abraçamos, a forma como compomos nossos dias e como interagimos são componentes básicos de quem somos e podem esconder a causa e a cura de muitas aflições.            

  

MICHELE MULLER – é jornalista pesquisadora especialista em Neurociências, Neuropsicologia Educacional e Ciências da Educação. Pesquisa e aplica estratégias para o desenvolvimento da linguagem. Seus projetos e textos estão reunidos no site – http://www.michelemuller.com.br

OUTROS OLHARES

AS DUAS MATEMÁTICAS

Infelizmente, ensinamos a abstrata –  e não a aplicada.

As duas matemáticas

Seja no Pisa, seja nas provas tupiniquins de matemática, os resultados são igualmente lastimáveis. Os alunos dominam menos de 10% do esperado. Diante de tal situação, abundam diagnósticos. Com toda a modéstia, vai o meu.

Ao longo de muitos séculos, convivemos com duas matemáticas. Primeiro, nasceu a prática de contar e medir. Quantos cântaros de vinho? Quantas barricas de trigo? Cobraram-se impostos. Tudo muito concreto e visual.

Mas, no curso do seu desenvolvimento histórico, a matemática foi ganhando estrutura e notações próprias, e se tomando, ao mesmo tempo, mais abstrata. A invenção do zero constituiu-se em um grande salto da imaginação: um número para medir uma quantidade ausente. Aos poucos, a abstração matemática passou a ter vida própria. Somam-se 5 + 7, não importa se laranjas ou inimigos abatidos.

Mediu-se que o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos. Mas o achado se metamorfoseia no Teorema de Pitágoras, expresso por símbolos e demonstrado formalmente. Cada vez mais, abstração e formalização correm em paralelo ao mundo real.

Desencarnada do concreto, a matemática ganha asas e voa pelos espaços do intelecto humano. Suas formulações são de uma beleza indescritível. Um teorema elegante é uma obra de arte, e a resolução de uma equação, um deleite. Mas atenção: abstrato não quer dizer inútil. A matemática é poderosa.

Os lindos roseirais matemáticos, contudo, têm espinhos pontiagudos. O fato de que a matemática pode prescindir do mundo real para desabrochar e crescer não significa que a maioria das pessoas consiga aprendê-la longe dele. Com efeito, pesquisas mostram que são poucos os que tiram proveito de uma matemática despida de suas aplicações práticas. Nos Estados Unidos, menos da metade dos alunos do ensino médio entende essa matemática elegantíssima e abstrata. Mas também se descobriu que o caminho para dominá-la começa com a velha matemática, lidando com coisas que se contam e medem. Encarnada no mundo real, os alunos a compreendem. É a chamada contextualização.

Infelizmente, ensinamos a matemática abstrata – e não a aplicada. Um levantamento do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) mostrou que nenhum livro de ensino médio brasileiro contextualizava a matemática. Em vez disso, eles expunham a versão abstrata – incompreensível para a maioria, que deixava de lidar com a matemática de resolver problemas quantitativos do mundo real, esta, sim, compreensível para quase todos. Ainda que o objetivo final deva ser a segunda matemática, o caminho passa pela primeira.

Ao contrário do que se faz nos países de primeira linha, nossos livros de matemática não a contextualizam, e ela se torna inexpugnável para a maior parte dos estudantes. Vai daí, eles decoram suas fórmulas sem entender como usá-las ou nem sequer saber para que servem.

A matemática nasceu no mundo real para resolver problemas concretos. E é somente assim que a maioria dos alunos consegue entendê-la. A versão dessa ciência abstrata não é inteligível para eles antes que aprendam a contextualizada. A tragédia mostrada nos testes, pelo menos em parte, deve-se a esse equívoco pedagógico.

GESTÃO E CARREIRA

O QUE FAZ UM CEO?

Ele tem um salário 270 vezes maior do que o de um trabalhador comum, passa até 15 horas no escritório e se submete à sabatina de investidores e jornalistas.

 

O que faz um CEO

Muita gente sonha em alcançar a presidência de uma empresa. Afinal, os CEOs recebem uma fortuna, decidem o futuro dos negócios e são admirados no mercado. Alguns ganham status de celebridade, viram influencers nas redes sociais e arrastam milhares de seguidores.

O salário dos executivos caiu nos últimos quatro anos, é verdade. Mas, de acordo com um relatório publicado pelo Instituto de Políticas Econômicas dos Estados Unidos, ainda permanece estratosfericamente superior aos ganhos dos seres humanos convencionais. Os presidentes das maiores empresas americanas contam com uma receita anual média 271 vezes maior do que a de um típico trabalhador.

Levando em conta a evolução desde 1978, a remuneração anual desse executivo apresentou um crescimento de até 937% (dependendo de como se contabilizam os ganhos com opções de ações). Lawrence Mishel e Jessica Schieder, autores da publicação, chamam a atenção para o fato de esse aumento ser 70% maior do que o do mercado de ações e “dolorosamente acima” dos 11% que um funcionário comum recebeu no mesmo período.

Eles valem mesmo o que ganham? O que, de fato, faz um CEO? Como é sua rotina? Que tipo de decisão ele toma? E, mais importante, quais as características de um bom Chief Executive Officer?

Perguntamos isso aos presidentes Juliana Azevedo, da fabricante de bens de consumo P&G; Theo van der Loo, da química Bayer; Denise Soares, do hospital de Beneficência Portuguesa; e José Magela Bernardes, da empresa de logística Prumo. “Os funcionários esperam que você os lidere em todas as situações: não somente no ambiente de negócios”, diz José, que já enfrentou desde greves de sindicatos até desastres naturais em regiões como México, Bolívia e África Ocidental.

Para tudo que acontece de certo ou de errado na companhia, é o presidente que se coloca na linha de frente, quem responde às críticas e se submete ao escrutínio dos grandes investidores e da imprensa. A cada três meses, em corporações listadas na bolsa, é ele ou ela quem geralmente enfrenta a sabatina dos analistas de grandes bancos sobre os resultados dos negócios.

Uma pesquisa com 1.000 executivos de seis países mostra que, em média, o CEO passa um quarto do dia sozinho, o que inclui ler e escrever e­ mails.  Mais da metade de seu tempo é gasto em reuniões, em geral planejadas com antecedência. As áreas com as quais interage, segundo o estudo, são produção (35%), marketing (22%) e finanças (17%). Fora da corporação, ele passa mais tempo com clientes (10%) do que com fornecedores (7%). Denise, da Beneficência Portuguesa, participa diariamente de quatro ou cinco reuniões internas, que duram cerca de 1 hora e meia cada uma. Theo, da Bayer, procura limitar os encontros a 40 minutos, no máximo, para ganhar eficiência.

José, da Prumo, mantém uma agenda rígida. Toda segunda-feira reúne ­ se com o comitê executivo durante 2 horas. Ao longo do resto da semana, encontra-se com stakeholders, administradores públicos, controladores e funcionários. Afinal, além de tratar de negócios com seus subordinados diretos, os líderes desprendem boa parte das horas gerenciando pessoas. Denise, de 49 anos, dedica cerca de um quinto do tempo para conversar com alguns dos 3.000 médicos e dos demais 7. 500 empregados que formam o quadro do hospital. ”Também destino um tempo para falar com as pessoas que não respondem diretamente para mim”, diz Juliana, da P&G. Esse costume serve para os presidentes “sentirem a temperatura” da empresa e trabalharem a comunicação e a retenção de profissionais.

Outra parte importante da jornada do CEO é gasta com viagens (8%). Juliana, por exemplo, passa 48 horas por mês em aviões. “Meu marido e meu filho de 8 anos ainda estão nos Estados Unidos”, afirma a executiva de 42 anos, que voltou para o Brasil há apenas três meses, depois de ter sido expatriada.

Somado a isso, o smartphone, aliado ao WhatsApp, faz do executivo quase um servidor de alto desempenho: disponível, 24/7 (24 horas por sete dias da semana). “Tento limitar meu tempo no escritório a 9 horas, mas, com tanta tecnologia, é difícil apontar exatamente quantas horas são trabalhadas”, afirma Juliana.

MEIO ESTRATÉGICO, MEIO OPERACIONAL

Sobra pouco tempo para o líder apreciar a vista da janela de seu escritório solitário. ”Nós tendemos a imaginar o CEO sentado em uma torre de marfim, deliberando o que a organização fará e, então, boom, ele toma uma decisão e a decisão acontece – e todos ficam felizes”, afirmou a economista e professora na Escola de Negócios Harvard Raffaella Sadun, ao podcast Freakonomics. Mas, segundo ela, as companhias ainda falham em aplicar conceitos básicos de administração, o que faz com que dificilmente as coisas funcionem de maneira tão simples.

Quem aspira virar presidente imagina a estratégia como algo primordial na agenda executiva. Afinal, é a estratégia que estabelece como uma empresa responde à concorrência, ou à mudança de preferência do consumidor, ou à transformação digital. Na prática, esse líder mantém um olho na estratégia e outro nos “processos operacionais que definem como os produtos ou serviços são feitos ou entregues, como a qualidade é controlada e como o desempenho dos funcionários é medido”, afirma Raffaella. Depois de analisar os dados de 12.000 companhias, a pesquisadora concluiu que a estratégia até contribui com uma fração significativa para o sucesso de um negócio, mas o maior desafio de um CEO é alcançar a excelência operacional.

A pressão por eficiência e resultados se soma à agenda política dos executivos – que têm de lidar com cinco a seis “partidos”. Existem os acionistas (os reais donos do negócio), os bancos e os detentores de títulos de dívida. Como empregador, há a preocupação de que a empresa seja atraente para os melhores talentos e que os empregados recebam treinamentos adequados. E, como detentor da reputação corporativa, é do presidente o papel de assegurar que a organização mantenha bons indicadores de sustentabilidade e seja bem vista na sociedade.

José Bernardes, ao assumir o comando da Prumo em 2015, recebeu a missão de redesenhar a estratégia de modo a transformar o Porto do Açu e os demais ativos controlados pela companhia em operações rentáveis – a despeito do cenário de crise que assombrava os negócios e o país. (A Prumo é um dos antigos negócios do empresário Eike Batista, preso no ano passado por corrupção e lavagem de dinheiro, e que foi comprada pelo grupo americano EIG em 2013) “A vantagem é que, com a economia desaquecida, encontramos muita gente talentosa disponível no mercado”, diz o executivo de 57 anos. Entre os principais desafios embutidos no desenvolvimento do complexo portuário, localizado no norte do estado do Rio de Janeiro, a 330 quilômetros da capital, está a responsabilidade social e ambiental, o que torna obrigatória a ida de José ao local pelo menos uma vez por mês para conversar com a população e entender suas necessidades.

MODO DE SOBREVIVÊNCIA

Ser um chief execlltive officer é mais complexo hoje do que no passado. O revés econômico de 2015, do qual o Brasil ainda tenta se reerguer, impôs grandes desafios a esses profissionais. Eles foram obrigados a enxugar estruturas, demitir em massa, renegociar dívidas e lidar com novos sócios em fusões e aquisições. Com a reestruturação, tiveram de colocar a mão na massa e liderar pelo exemplo – já que precisam cobrar resultados rápidos, sem poder pagar bônus nem aumentar salários. E, claro, devem manter as pessoas motivadas e altamente produtivas, e ainda lidar com funcionários de diferentes gerações, dos 20 aos 60 anos de idade.

“O CEO entrou em modo de sobrevivência, com prioridades de curto prazo e uma agenda mais intensa em número de horas”, diz Fernando Andraus, diretor executivo para a América Latina da Page Executive, especializada no recrutamento de executivos de alto escalão. O grau de complexidade das decisões, ante à agilidade da transformação digital, também se aprofundou.

Denise Soares chegou a trabalhar 15 horas por dia enquanto repensava a imagem da Beneficência Portuguesa. Foi uma resolução difícil: o projeto, iniciado em 2014, previa a troca da tradicional cruz de malta – o emblema da organização durante seus 158 anos de história – por um design mais moderno: desenhado com as iniciais “BP”. A transformação, concluída em 2016, acompanhou ainda um reposicionamento do modelo de atendimento do hospital, mirando a segmentação dos serviços médicos oferecidos, o resgate da reputação como hospital de alta complexidade e o crescimento. Nas mãos de Denise o BP viu a receita sair do vermelho e chegar a 1,5 bilhão de reais em 2018.  “Meu principal desafio é construir um legado que dure mais 158 anos.” Foi a primeira vez que Denise se envolveu em uma mudança de marcas e, para solucionar as tantas questões envolvidas ela recorreu a amigos. ”Eu precisei conversar com milhares de profissionais em vários setores para decidir como conduzir o projeto.”

Mesmo com a correria do dia a dia. Theo arruma tempo para o networking. “A boa relação com colegas dentro da empresa é importante. Fora dela, é mais ainda”, diz. “Numa crise, você poderá contar como apoio dessas pessoas, tanto no engajamento para cumprir metas quanto no aconselhamento estratégico”. Theo é o primeiro brasileiro a ocupar o cargo de CEO da Bayer Brasil:  antes dele, só estrangeiros sentavam na principal cadeira. Essa troca de experiências tem servido de referência para o executivo de 63 anos buscar conhecimentos que permitam adequar-se às mudanças no mercado. “Quando me formei, em 1979, ninguém falava sobre responsabilidade social, mas, hoje, a geração dos millennials cobra esses valores”, afirma Theo, que tem se empenhado em melhorar a diversidade na corporação, levantando uma bandeira a favor da inclusão racial. “Cada vez mais, o presidente precisa assumir múltiplos papéis”, diz Marilda Peres, professora de liderança na escola de negócios Insper, em São Paulo.

O BOM CEO

Por mais de uma década, um grupo de 14 pesquisadores das universidades de Chicago e Copenhague estudaram o desempenho de 17.000 executivos do chamado C level, incluindo 2.000 líderes – dos mais variados setores e tamanhos de empresas. Batizado de Genoma CEO, o projeto revelou algumas curiosidades. Por exemplo, todos os presidentes já haviam cometido, no passado, erros com implicações materiais; e 45% deles tiveram pelo menos uma explosão que custou sua carreira ou foi prejudicial para o negócio.

A descoberta mais importante talvez seja a que indica que o executivo de sucesso tem em seu DNA quatro comportamentos específicos. Eles decidem com rapidez e convicção, engajam pelo impacto, adaptam-se proativamente e entregam de forma confiável. Diferentemente do que se imagina, esses super-heróis não se destacam por tomar grandes decisões o tempo todo, “eles se distinguem por serem mais decisivos”.

De acordo com os pesquisadores, a liderança não requer “traços inalteráveis” nem “pedigree inatingível”. Ao contrário, não há nada de exótico nas características de um bom CEO: capacidade de decisão, habilidade de envolver os interessados, adaptabilidade e confiabilidade. O caminho está aberto para os próximos candidatos.

O que faz um CEO.2

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 28: 1-10 – PARTE I

Alimento diário

A Ressurreição

Para a prova da ressurreição de Jesus, temos aqui o testemunho do anjo, e do próprio Mestre, no que diz respeito à ressurreição. Agora podemos pensar que teria sido melhor se o fato tivesse sido organizado assim, que um número competente de testemunhas tivesse estado presente, e tivesse visto a pedra sendo tirada pelo anjo, e o corpo morto revivendo, como as pessoas viram Lázaro sair do túmulo, e então o assunto não seria objeto de disputa. Mas não estabeleçamos algo para a Infinita Sabedoria, que ordenou que as testemunhas de sua ressurreição devessem vê-lo ressuscitado, mas não vê-lo ressuscitar. A sua encarnação foi um mistério; como também foi essa ressurreição, esta nova formação do corpo de Cristo, para o seu estado exaltado. Ele foi, portanto, formado em segredo. “Bem-aventurados aqueles que não viram, e creram”. Cristo deu provas de sua ressurreição que foram comprovadas pelas Escrituras, e pela palavra que Ele havia falado (Lucas 24.6,7-44; Marcos 16.7); porque aqui devemos “andar por fé, e não por vista”. Aqui temos:

I – A ida das mulheres bondosas ao sepulcro. Observe:

1. Quando elas foram: no fim do sábado, quando já despontava o primeiro dia da semana (v. 1). Isto fixa o dia da ressurreição de Cristo.

(1) Ele ressuscitou ao terceiro dia após a sua morte. Esse foi o dia em que Ele frequentemente havia pré-estabelecido, e manteve a sua palavra. Ele foi sepultado na noite do sexto dia da semana, e ressuscitou na manhã do primeiro dia da semana seguinte, de forma que permaneceu no túmulo por cerca de trinta e seis ou trinta e oito horas. Ele ficou ali portanto tempo, para mostrar que estava real e verdadeiramente morto; e não mais tempo que isso, para que não visse a corrupção. Ele ressuscitou ao terceiro dia, como resposta à tipificação do profeta Jonas (cap. 12.40), e para cumprir aquela profecia (Oseias 6.2): “Ao terceiro dia, nos ressuscitará, e viveremos diante dele”.

(2)  Ele ressuscitou depois do sábado judaico, e aquele era o sábado de Páscoa. Ele permaneceu no túmulo durante todo aquele dia, o que significava a abolição das festas judaicas e as outras partes da lei cerimonial, e que o seu povo deveria eliminar essas observâncias, e não dar atenção a elas, assim como Ele fez quando jazia na sepultura. Cristo, no sexto dia, terminou a sua obra. Ele disse: “Está consumado”. No sétimo dia, Ele descansou, e então no primeiro dia da semana seguinte, agiu como se estivesse começando um mundo novo, e entrando em uma nova obra. Não permitamos, portanto, que homem algum nos julgue agora com respeito a luas novas, ou sábados judaicos, que eram, na verdade, uma sombra das coisas boas que estavam por vir; pois a essência delas era Cristo. Podemos, além disso, observar que o tempo que os santos ficam no túmulo é, para eles, o equivalente a um sábado (assim como era o sábado judaico, que consistia principalmente de descanso físico), porque ali eles repousavam de suas obras (Jó 3.17); e isso se deve a Cristo.

(3)  Ele ressuscitou no primeiro dia da semana. No primeiro dia da primeira semana, Deus ordenou que a luz brilhasse na escuridão; nesse dia, portanto, aquele que viria a ser a Luz do mundo brilhou nas trevas da sepultura; e o sábado do sétimo dia, sendo sepultado com Cristo, ressurgiu no sábado do primeiro dia, que é chamado de Dia do Senhor (Apocalipse 1.10). A partir daí, nenhum outro dia é mencionado em todo o Novo Testamento com o mesmo sentido deste. Este dia é frequentemente mencionado como o dia que os cristãos observavam religiosamente nas assembleias solenes, para a honra de Cristo (João 20.19,26; Atos 20.7; 1 Coríntios 16.2). Se a libertação de Israel da terra do Norte ultrapassou a lembrança da saída do Egito (Jeremias 23.7,8), muito mais a nossa redenção por Cristo eclipsa a glória das primeiras obras de Deus. O sábado foi instituído como lembrança do aperfeiçoamento da obra da criação (Genesis 2.1). O homem, através dessa revolta, causou uma ruptura naquela obra perfeita, que nunca foi perfeitamente reparada até que Cristo ressuscitasse dos mortos, e os céus e a terra fossem outra vez terminados, e as suas hostes desordenadas, realinhadas, e que o dia no qual isso foi feito fosse corretamente abençoado e santificado, e a partir daí seria o sétimo dia. Aquele que nesse dia ressuscitou dos mortos é o mesmo por quem, e para quem, todas as coisas foram no princípio criadas, e agora são criadas outra vez.

(4)  Ele ressuscitou quando começou o amanhecer daquele dia. Tão logo se poderia dizer que o terceiro dia havia chegado, o dia pré-determinado para a sua ressurreição, Ele ressuscitou. Depois de sua retirada do meio do povo, Ele retorna com toda a velocidade conveniente, e interrompe a obra, em justiça, tão bruscamente quanto pode. Ele havia dito aos seus discípulos que, embora por pouco tempo não o veriam, eles o tornariam a ver em breve, e Jesus abreviou esse intervalo tanto quanto possível (Isaias 54.7,8). Cristo ressuscitou quando já despontava o dia, porque então o oriente do alto outra vez nos visitou (Lucas 1.78). A sua paixão começou à noite. Quando Ele foi pendurado na cruz, o sol se escureceu. Ele foi colocado no túmulo no cair da noite. Mas o Senhor ressuscitou quando o sol estava quase nascendo, porque Ele é a resplandecente Estrela da manhã (Apocalipse 22.16), a verdadeira Luz. Aqueles que cedo, pela manhã, se dedicam aos serviços religiosos do sábado cristão, para que possam aproveitar o dia que está à sua frente, seguem assim o exemplo de Cristo, e o exemplo ele Davi: “Cedo te buscarei”.

2. Quem eram aquelas que foram ao sepulcro: Maria Madalena e a outra Maria, as mesmas que compareceram ao funeral, e se sentaram à entrada do sepulcro, como antes haviam se sentado ao pé da cruz. Ainda assim, elas procuraram expressar o amor que sentiam por Cristo. Ainda assim, estavam procurando saber mais a respeito dele. Nós o conheceremos cada vez mais, desde que perseveremos em conhecê-lo. Nenhuma citação é feita sobre a possibilidade de a Virgem Maria estar com elas; é provável que o discípulo amado, que a havia levado para a sua própria casa, tenha impedido que ela fosse para o sepulcro para chorar ali. O fato de elas terem ido não só até o sepulcro buscar a Cristo, mas terem entrado no sepulcro, representa o cuidado que o Senhor tem por aqueles que são seus quando esses passam a ter as suas camas nas trevas. Assim como Cristo, no túmulo, foi amado pelos santos, os santos, no túmulo, são amados por Cristo; porque a morte e a sepultura não podem afrouxar o laço de amor que existe entre eles.

3. O que elas foram fazer. Os outros evangelistas dizem que elas foram ungir o corpo. Mateus diz que elas foram ver o sepulcro, ver se estava como elas o haviam deixado. Ouvindo, talvez, mas não tendo certeza, que os príncipes dos sacerdotes haviam colocado guarda no sepulcro. Elas foram para mostrar a sua boa vontade em uma outra visita aos caros restos mortais de seu amado Mestre, e talvez não sem alguns pensamentos sobre a sua ressurreição, porque elas poderiam não ter esquecido de tudo o que Ele tinha dito sobre isso. Visitas ao túmulo são de grande utilidade para alguns cristãos, e ajudam a torná-lo familiar a eles, e remover o terror dele, especialmente visitas à sepultura do nosso Senhor Jesus, onde podemos ver o pecado enterrado fora da vista, o padrão da nossa santificação, e a grande prova do amor redentor brilhando intensamente mesmo nesta terra de trevas.

 

II – O aparecimento de um anjo do Senhor para elas (vv. 2-4). Temos aqui um relato do modo da ressurreição de Cristo, pelo menos quanto ao que nos era conveniente saber.

1. Houve um grande terremoto. Quando Jesus morreu, a terra que o recebeu agitou-se em temor. Agora que Ele ressuscitou, a terra que o resignou saltou de alegria em sua exaltação. Esse terremoto foi como se as amarras da morte fossem soltas, os grilhões do túmulo se abrissem, e o “Desejado de todas as nações” fosse introduzido (Ageu 2.6,7). Esse foi o sinal da vitória de Cristo; por meio dele, foi anunciado que, quando os céus se regozijassem, a terra também poderia se alegrar. Era um modelo do terremoto que se dará na terra por ocasião da ressurreição geral, quando montanhas e ilhas serão removidas, de forma que a terra não possa mais ocultar os seus mortos. Houve um ruído e um rebuliço no vale, quando os ossos se juntaram, cada osso ao seu osso (Ezequiel 37.7). O reino de Cristo, que agora se estabeleceria, fez a terra tremer; e a abalou terrivelmente. Aqueles que são santificados, e desse modo elevados a uma vida espiritual privilegiada, encontram, enquanto isso acontece, um terremoto em seu próprio seio, como Paulo, que tremeu e ficou espantado.

2. O anjo do Senhor desceu do céu. Os anjos frequentemente serviram ao nosso Senhor Jesus, em seu nascimento, em sua tentação, em sua agonia; mas na cruz não encontramos nenhum anjo servindo-o. Quando o seu Pai o desamparou, os anjos se afastaram dele; mas agora que Ele está retomando a sua glória que tinha antes da fundação do mundo, então, os anjos do céu o adoram.

3. Ele veio, e removeu a pedra da entrada, e sentou-se sobre ela. O nosso Senhor Jesus poderia, Ele mesmo, remover a pedra por seu próprio poder, mas preferiu que isso fosse feito pelo anjo. Isto significa que, tendo se assegurado de ter feito o pagamento pelos nossos pecados, que foram imputados a Ele, e tendo estado sob prisão em conformidade com essa imputação, Ele não fugiu da prisão, mas teve uma libertação legal e justa, obtida do céu. Ele não fugiu da prisão, mas um oficial foi enviado com o propósito de remover a pedra, e assim abrir a porta da prisão, o que nunca teria sido feito, se Jesus não tivesse feito um pagamento total. Mas, sendo liberto das nossas ofensas, para completar a libertação, Ele foi ressuscitado para a nossa justificação. Ele morreu para pagar a nossa dívida, e ressuscitou para obter a nossa quitação. A pedra dos nossos pecados foi rolada para a entrada do túmulo do nosso Senhor Jesus (revolver uma grande pedra significava assumir uma culpa, 1 Samuel 14.33). Mas para demonstrar que ajustiça divina foi satisfeita, um anjo foi comissionado para remover a pedra; não que o anjo o tenha ressuscitado dos mortos, da mesma forma que aqueles que retiraram a pedra do túmulo de Lázaro não o ressuscitaram, mas assim ficou patente o consentimento do Céu para a sua libertação, e a alegria do céu na Pessoa de Jesus Cristo. Os inimigos de Cristo haviam selado a pedra, resolvendo, como a Babilônia, não abrir a casa dos seus prisioneiros. “Tirar-se-ia a presa ao valente?” Porque essa era a hora deles; mas todos os poderes da morte e das trevas estão sob o controle do Deus da luz e da vida. Um anjo do céu tem poder para quebrar o selo, embora fosse o grande selo de Israel, e é capaz de remover a pedra, embora seja muito grande. Assim, os cativos dos poderosos são libertados. O fato de o anjo se assentar sobre a pedra, quando ele a havia removido, é notável, e revela um triunfo seguro sobre todos os obstáculos à ressurreição de Cristo. Ali ele se sentou, desafiando todos os poderes do inferno para rolar a pedra para o túmulo outra vez. Cristo eleva o seu lugar de repouso e o seu trono de juízo acima da oposição dos seus inimigos; o Senhor se assenta sobre as águas. O anjo se sentou como um guarda do túmulo, tendo afugentado para longe os guardas ímpios dos inimigos; ele se sentou, esperando as mulheres, e pronto para lhes dar a notícia da ressurreição do Senhor.

4. Que o seu aspecto era como um relâmpago, e as suas vestes, brancas como a neve (v.3). Essa foi uma representação visível – que classificamos como esplêndida e célebre – das glórias do mundo invisível, que não conhece diferença de cores. A aparência do anjo sobre os guardas era como relâmpagos; o Senhor vibra os seus raios, e dissipa-os (Salmos 144.6). A brancura de suas vestes era um emblema não só de pureza, mas de alegria e triunfo. Quando Cristo morreu, a corte do céu se entristeceu, e esse fato foi representado pelo escurecimento do sol; mas quando ele ressuscitou, eles colocaram novamente as vestes de louvor: A glória desse anjo representou a glória de Cristo, para a qual Ele então havia ressuscitado, porque essa é a mesma descrição dele, que foi dada em sua transfiguração (cap. 17.2). Mas quando Ele conversou com os seus discípulos após a sua ressurreição, Ele ocultou isso, e anunciou a glória dos santos na ressurreição deles, quando serão como os anjos de Deus no céu.

5. Que os guardas, com medo dele, ficaram muito assombrados e como mortos (v. 4). Eles eram soldados que se consideravam insensíveis em relação ao medo. No entanto, a própria visão de um anjo os encheu de temor. Portanto, quando o Filho de Deus se levantou para julgar, os ousados de coração foram despojados (Salmos 76.5,9). Note que, assim como a ressurreição de Cristo é a alegria dos seus amigos, ela também é o terror e a confusão dos seus inimigos. Eles ficaram muito assombrados. Quando a terra tremeu, esses filhos da terra, que tinham a sua porção nela, tremeram também; porém, aqueles que têm a sua felicidade nas coisas do alto não sentem qualquer temor mesmo que a terra seja removida. Os guardas ficaram como mortos, quando aquele a quem eles guardavam tornou-se vivo, e aqueles contra quem eles montavam guarda reviveram com ele. Eles foram tomados de terror ao verem a si mesmos frustrados no tocante à sua missão ali. Eles foram colocados ali para manter um homem morto em seu túmulo – certamente, o serviço mais fácil que lhes poderia ter sido atribuído; e, mesmo assim, isso se mostrou difícil demais para eles. Eles foram informados de que deveriam esperar ser atacados por um grupo de discípulos fracos e desanimados, que, por medo deles, logo ficariam muito assombrados e como mortos, mas se sentiram surpreendidos quando se acharam atacados por um anjo poderoso, cujo rosto não ousaram olhar. Assim Deus frustra os seus inimigos, assombrando-os (Salmos 9.20).

PSICOLOGIA ANALÍTICA

A PSICOLOGIA DAS FAKE NEWS

Nos tornamos uma sociedade tecnológica atrás da velocidade alucinante de informações, muitas vezes questionáveis, mas que são aceitas sem filtro e ganham repercussão.

A psicologia das fake news

Fake news significa, de forma literal, “notícias falsas”. Indubitavelmente, somos inundados nessa sociedade tecnológica, em ritmo constante, por reportagens correntes e informações no mínimo questionáveis. Não importa a área, seja política, religião, clima, saúde, dentre tantas outras, a internet tornou-se cenários propício à proliferação das fake news. Waldrop (2017) menciona em seu artigo que o ano de 2005 foi o momento em que explodiram os spams (lixo informativo) na internet. Porém, além das inúmeras publicidades que aparecem em nossas telas sem aviso prévio, outro movimento ganhou força ao longo dos anos, segundo o pesquisador; a expansão de mentiras pela internet. Segundo o autor, em 2014 diversos casos preocuparam vários países: imigrantes carregando o vírus do ebola, Hillary Clinton (antiga candidata à Presidência dos Estados Unidos) vendendo armas para o Estado Islâmico ou o papa apoiando a candidatura de Donald Trump são alguns exemplos. E o mais interessante: muitos aceitam essas informações sem discernir se são verdadeiras. Então, quais os aspectos psicológicos das fake news?  Existem motivos para que estas mentiras sejam aceitas sem filtro?

A problemática está em diversos níveis: individual, institucional e societal.

Os interesses políticos, por exemplo, estão presentes desde o começo da civilização, porém, atualmente, é uma tríade de dificuldades. Primeiramente a tecnologia, ou seja, qualquer um pode acessar a internet e ser um proliferador de informações falsas e, para obter a atenção de outros, basta saber alcançar um ponto de interesse da população: isso já é suficiente para viralizar (diga-se de passagem, não é uma ação tão difícil enganar o próximo). Segundo, estamos inundados de informações, e a grande questão é que não temos tempo para separar fatos de falsas notícias (é praticamente impossível filtrar uma informação mentirosa em um primeiro momento). Terceiro, as pessoas buscam informações que estejam relacionadas a suas crenças, e esse é um grande desafio: a variedade de mídias sociais em nossa cultura significa que aquilo que é lido está vinculado com o que queremos ler, Então, é possível pensar que as fake news são, na realidade, ilustrações de pensamentos que não são socialmente aceitos e possuem o perfeito álibi por meio delas?

Diversas questões podem ser geradas neste momento: quais tipos de personalidades são mais suscetíveis às notícias falsas? Repetir notícias falsas as tornam verdadeiras? Pior, será que as fake news também podem contaminar os periódicos científicos e as conferências académicas? (Darbyshire, 2017). Esse último ponto está se tornando cada vez mais comum na ciência, que é a disseminação de notícias falsas e, após um curto período de tempo, um pronunciamento baseado na verdade. Esse tipo de mecanismo torna uma das áreas mais importantes do conhecimento humano pouco transparente. Esse fenômeno, diga-se de passagem, vem preocupando a comunidade científica. Basta pensarmos em dados que são publicados incorretamente em periódicos científicos por análises estatísticas incorretas. Pensemos: é possível calcular o maleficio que notícias falsas podem gerar?

De acordo com Oliveira e figueira (2017), a grande dificuldade para a prevenção da criação de fake news é que bloquear a origem da informação colide diretamente com a liberdade de expressão. Porém, os pesquisadores mencionam, já existem algoritmos que podem lidar com grandes dados da internet e verificar a origem de algumas informações. Porém, em paralelo, é necessário também compreender a consciência pública. Como dito anteriormente, a interpretação dos sujeitos sobre as temáticas, tendo como base seu sistema de crenças, é um grande dificultador na filtragem dessas notícias. Muitos aguardam apenas uma brecha para atacar terceiros ou reforçar suas distorções cognitivas, não importando se a priori, são fake News ou não. Portanto, quando se fala no comportamento da sociedade tecnológica, a questão está mais relacionada aos aspectos   emocionais e psíquicos do que à busca pelo conhecimento verdadeiro.   

 

IGOR LINS LEMOS – é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela Universidade de Pernambuco (UPE). É psicoterapeuta cognitivo-comportamental, palestrante e pesquisador das dependências tecnológicas. E-mail: igorlemos87@hotmail.com

OUTROS OLHARES

ADEUS, QUIMIOTERAPIA

Novo estudo elimina o duro tratamento contra um tipo de câncer de mama em fase inicial e diz que um remédio que bloqueia a ação de um hormônio é suficiente para a cura.

Adeus, quimioterapia

A quimioterapia costuma ser um processo exaustivo, que abate o paciente e provoca uma série de efeitos colaterais, como queda de cabelo, fortes enjoos, fraqueza e até problemas cardíacos. Infelizmente, boa parte das pessoas que sofrem de câncer ainda precisa enfrentar isso. Para um grupo de mulheres, porém, uma nova pesquisa traz enorme alento: a quimioterapia já pode ser eliminada do tratamento de um tipo de tumor de mama muito comum e pouco agressivo, classificado como receptor hormonal. Ele acomete quatro de cada dez mulheres com a doença. O estudo, apresentado na convenção anual da prestigiosa Sociedade Americana de Oncologia Clínica, afirma que, quando esse tumor está em fase inicial (com até 5 centímetros de diâmetro e não se espalhou para os linfonodos), o caminho menos doloroso – e, claro, eficaz – é a ingestão de um remédio que bloqueia a ação de um hormônio. “O impacto do estudo é extraordinário”, diz o mastologista Antônio Frasson, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Publicada no The New England Journal of Medicine, a pesquisa é uma das mais amplas já realizadas sobre a doença. Foram recrutadas 10.000 mulheres com idade entre 18 e 75 anos, todas com o câncer em fase inicial. Elas passaram por um exame genético para definir a agressividade do tumor com precisão. Depois, submeteram-se a cirurgia ou radioterapia. O passo seguinte para banir as células que não tivessem sido eliminadas pelos procedimentos era a quimioterapia associada a um medicamento que tem o papel de bloquear a ação do hormônio estrógeno – este um alimento para as células doentes, uma vez que pode fazê-las crescer e se disseminar. Há diversos tipos de remédio com esse efeito. O mais conhecido é o tamoxifeno, existente desde a década de 70.

O estudo separou as voluntárias em dois grupos: o primeiro foi tratado de forma convencional, com quimioterapia combinada à hormonioterapia, enquanto o outro, apenas à base do remédio. A boa notícia veio mais tarde. A média de acompanhamento foi de sete anos – dois anos além do tempo definido como seguro para afirmar que uma pessoa está livre do câncer. Os pesquisadores observaram que os resultados em ambos os grupos foram estatisticamente idênticos. A sobrevida entre as mulheres que ingeriram o medicamento e seguiram com a químio foi de 93,9%; daquelas que tomaram só o remédio, 93,8% estavam livres da doença. Por sua eficácia indiscutível, a quimioterapia era até então utilizada como regra nos cuidados desse gênero de tumor, embora, além de todos os danos colaterais, atacasse também as células saudáveis. A possibilidade de suprimi-la é um tremendo avanço da ciência, que vem acumulando nos últimos anos conhecimento valioso sobre o câncer de mama, um dos mais estudados. Há apenas cinco anos a doença passou a ser agrupada em cinco grandes subtipos principais. Assim, cada um deles pode ser tratado de forma diferente – e mais certeira.

 NOS ESTADOS UNIDOS: 260.000 são os casos de câncer de mama por ano; destes, mulheres têm o diagnóstico da doença por ano; destes, 60.000 não precisarão mais ser tratados com quimioterapia.

NO BRASIL: 60.000 mulheres têm o diagnóstico da doença por ano; destas, 15.000 estarão livres da quimioterapia.

GESTÃO E CARREIRA

O PODER E O ASSÉDIO SEXUAL

O poder e o assédio sexual

Continuam saindo notícias sobre assédio, sexismo e ambientes de trabalho tóxicos para mulheres na indústria de tecnologia. Histórias de comentários obscenos e de investidas sexuais chegam de empresas como Uber, Google e companhias de capital de risco. Trabalho regularmente com executivas e suspeito que esses incidentes não se restringem ao setor de TI. Também não acredito que esse seja um fenômeno específico sobre como os homens veem as mulheres e reagem a elas. Em vez disso, minha pesquisa sugere ser um fenômeno de duas vertentes que se origina tanto da forma como as pessoas no poder se sentem liberadas para lidar com outras de menor poder quanto das normas sociais que foram propagadas ao longo do tempo.

Passei boa parte de minha carreira como pesquisadora, examinando de que forma a autoridade leva indivíduos a se sentirem invencíveis, a assumirem riscos, a não considerarem as perspectivas dos outros. Num de meus estudos com mais de 1.500 profissionais, descobri que os poderosos eram mais propensos a se envolver em atividades sexuais fora de suas relações porque se consideravam mais atraentes e desejáveis para o sexo oposto. Parte interessante desse projeto foi o fato de não termos encontrado diferenças de gênero. Entretanto, na maioria dos casos, quem detém o poder são homens. Dito isso, há uma diferença entre infidelidade e assédio sexual. A primeira ocorre entre dois adultos que consentem; a segunda, quando há investidas indesejáveis em direção ao outro. Penso que o domínio desempenha um papel central nesses casos, mas, ao mesmo tempo, não creio que a igualdade de gênero vista na infidelidade representada nos poderosos se aplique ao assédio sexual. Por quê? Nos negócios, certas regras insidiosas sobre o comportamento dos homens se propagaram. Quem está no comando define as normas aceitáveis e inaceitáveis e, como a maioria da liderança é formada por homens, essas normas ainda não mudaram. A sociedade considera menos aceitável que mulheres assediem ou façam comentários depreciativos a respeito dos homens.

Devido à natureza corruptora do poder, a questão sobre como isso afeta o comportamento e as percepções em relação aos menos influentes – independentemente de seu gênero – precisa ser confrontada, discutida e monitorada.

Há algumas vítimas em tudo isso. As mais óbvias são as mulheres. Mas os homens à parte desses comportamentos também o são. Vários executivos hesitam tratar da mesma forma homens e mulheres talentosos por temer que seus motivos sejam vistos como falsos ou que exista uma agenda oculta por trás de seu comportamento.

A solução é difícil. Enquanto o desequilíbrio de gênero permanecer tão grande no topo da hierarquia, será complicado equilibrar o poder.

 

JENNIFER JORDAN – é psicóloga social, professora de liderança e comportamento organizacional no IMD, na Suíça.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 27: 57 – 66

Alimento diário

O Sepultamento de Cristo

Temos aqui um relato do sepultamento de Cristo, bem como da maneira e das circunstâncias em que foi realizado, e é possível observar:

1. A gentileza e a boa vontade de seus amigos, que o colocaram no sepulcro.

2. A maldade e a má vontade de seus inimigos, que foram muito solícitos em mantê-lo ali.

 I –  Seus amigos lhe proporcionaram um sepultamento decente. Observe:

1. De forma geral, que Jesus Cristo foi sepultado; quando a sua preciosa alma partiu para o paraíso, o seu corpo bendito foi depositado nas câmaras do sepulcro, para que correspondesse à tipificação de Jonas, e cumprisse a profecia de Isaías: “E puseram a sua sepultura com os ímpios”. Assim, Ele era como os seus irmãos, em todos os aspectos, exceto no que diz respeito ao pecado (pois Ele jamais pecou), e à questão do retorno ao pó. Ele foi sepultado para que a sua morte fosse ainda mais evidente, e a sua ressurreição fosse ainda mais notável. Pilatos não queria entregar o seu corpo para ser sepultado até que tivesse a plena certeza de que Ele estava realmente morto; enquanto as testemunhas não fossem sepultadas, haveria esperanças quanto a elas (Apocalipse 11.8). Mas Cristo, a Grande Testemunha, está como alguém que é livre e que está entre os mortos, como a vítima de assassinato que descansa na sepultura. Ele foi sepultado, para que pudesse destruir o terror que o ser humano sente em relação ao sepulcro, tornando-o confortável para nós, e assim Ele aqueceu e perfumou para nós aquela cama fria e fétida, e também o fez para que possamos ser sepultados com Ele.

2. As circunstâncias peculiares de seu sepultamento são aqui relatadas.

(1)  A hora em que foi sepultado: quando a tarde chegou; a mesma tarde em que Ele morreu, antes do pôr-do-sol, como é comum ao sepultar-se malfeitores. O seu sepultamento não foi postergado até o dia seguinte, pois era sábado; pois enterrar os mortos não é uma ocupação adequada para um dia de descanso ou para um dia de regozijo, como é o sábado.

(2)  A pessoa que cuidou do funeral foi José de Arimatéia. Todos os apóstolos haviam fugido e nenhum apareceu para demonstrar respeito pelo seu Mestre, o que os discípulos de João mostraram por este, depois que foi decapitado, quando tomaram o seu corpo e o sepultaram (cap. 14.12). As mulheres que o seguiram não ousaram entrar no sepulcro; então Deus encorajou esse bom homem a fazê-lo; pois Deus encontrará as pessoas certas para cada trabalho que deve ser feito. José era um homem adequado, pois:

[1] El e possuía recursos para fazê-lo, por ser um homem rico. Muitos dos discípulos de Deus eram homens pobres e, dessa forma, estavam mais adaptados a sair pelo país para pregar o Evangelho; mas aqui estava um homem rico pronto para ser empregado em uma tarefa que requeria um homem de posses. Note que a riqueza terrena, embora seja para muitos um obstáculo no caminho da fé, em algumas tarefas na obra de Cristo é uma vantagem e uma oportunidade. E aqueles que a possuem devem ser misericordiosos, utilizando-a para a glória de Deus.

[2] José de Arimatéia era muito ligado ao nosso Senhor Jesus, era seu discípulo, e cria nele, embora não o declarasse abertamente. Note que Cristo tem mais discípulos secretos do que sabemos; o Senhor tinha sete mil em Israel (Romanos 11.4).

(3)  A doação do cadáver conseguida junto a Pilatos (v. 58). José foi até Pilatos, a pessoa a quem era necessário recorrer nesse caso, pois dispunha do corpo; pois, nas coisas que dizem respeito ao poder do magistrado, deve-se manter a devida consideração a esse poder; e nada deve ser feito para desrespeitá-lo. Tudo aquilo que fizermos de bom deverá ser feito pacificamente, e não com tumulto. Pilatos queria entregar o corpo a alguém que o sepultasse de um modo decente. Ele desejava fazer algo que pudesse expiar a culpa de que a sua consciência o acusava, por condenar um inocente. No pedido de José, e na pronta entrega do corpo por Pilatos, uma grande honra foi prestada a Cristo, e ali foi dado um testemunho de sua absoluta integridade.

(4)  O envolvimento do corpo em sua mortalha (v.59). Embora fosse um senador honrado, ele mesmo tirou o corpo, ao que parece com seus próprios braços, do infame e amaldiçoado madeiro (Atos 13.29); pois, onde há o verdadeiro amor a Cristo, nenhum trabalho será considerado muito baixo ou humilhante. Após apanhá-lo, José de Arimatéia o envolveu em um lençol fino e limpo; pois sepultar em linho era, na época, a prática de praxe, e José a seguiu. Note que devemos cuidar dos cadáveres dos homens justos, pois há uma glória planejada para eles na ressurreição, e devemos dar testemunho de nossa crença nisso, sepultando os cadáveres de um modo que indique que há um lugar melhor como destino. Este simples ato humanitário, se feito com um propósito de fé, pode ser um exemplo cristão muito bem-vindo.

(5)  A colocação do corpo no sepulcro (v. 60). Nesse ponto, não há nada da pompa e solenidade com que os grandes do mundo são levados ao túmulo e sepultados (Jó 21.32). Um funeral privado seria mais adequado àquele Rei cujo Reino chegou sem qualquer pompa.

[1] O Senhor Jesus foi enterrado em um sepulcro emprestado, no sepulcro de José; assim como Ele não teve um lugar que fosse seu, onde pudesse reclinar a sua cabeça enquanto vivia, também não teve o seu próprio sepulcro, em que pudesse descansar o seu corpo quando morresse, o que era uma amostra de sua pobreza mate­ rial neste mundo. Até nisso pode haver algum tipo de mistério. A sepultura é a herança peculiar do pecador (Jó 24.19). Não há nada que podemos chamar de realmente nosso, a não ser os nossos pecados e os nossos sepulcros: “Eles tornam para sua terra” (Salmos 146.4). Quando vamos para o túmulo, vamos para o lugar que é nosso; mas o nosso Senhor Jesus, que não tinha pecado, não tinha o seu túmulo. Ao morrer pelos pecados que lhe foram imputados, era adequado que Ele fosse sepultado em um túmulo emprestado; os judeus  determinaram que Ele tivesse a sua sepultura com os ímpios, que fosse sepultado com os ladrões  com quem fora crucificado; mas Deus Pai indeferiu esse tipo de plano, determinando que o Senhor Jesus tivesse um sepulcro rico (Isaias 53.9).

[2] Ele foi colocado em um sepulcro novo, o qual José, provavelmente, planejara para si mesmo; entretanto, não haveria problema que o Senhor o utilizasse, pois ressuscitaria rapidamente. Melhor ainda, nele descansou aquele que mudou a característica da sepultura e certamente deu-lhe uma nova forma, transformando-a de uma cama de especiarias em uma cama de descanso para todos os santos.

[3] Em um sepulcro que foi talhado na rocha. O solo nas redondezas de Jerusalém era geralmente rochoso. Sebna teve seu sepulcro cavado em uma rocha (Isaias 22.16). A Providência determinou que o sepulcro de Cristo fosse em uma rocha, para que não houvesse espaço para suspeitar-se que os seus discípulos tivessem acesso a ele através de alguma passagem subterrânea ou abrissem caminho através de sua parede traseira, para roubar o corpo; pois não havia acesso a ele, a não ser através da porta frontal, que era vigiada.

[4] Uma grande pedra foi rolada para a porta do seu sepulcro; isto também estava de acordo com o costume dos judeus ao enterrarem seus mortos, como entendemos pela descrição do túmulo de Lázaro (João 11.38), indicando que aqueles que estão mortos ficam separados e desligados de todos aqueles que vivem; se o túmulo era a sua prisão, agora a porta da prisão estava trancada com um ferrolho. A rolagem da pedra para a entrada do sepulcro era, para eles, o equivalente a encher a cova com terra, como fazemos; isso finalizava o funeral. Tendo, assim, depositado em silêncio e com tristeza o que fora o corpo de nosso Senhor Jesus no túmulo, era hora de todos os vi­ vos voltarem para casa, e eles saíram sem qualquer de­ mora. A circunstância mais melancólica nos funerais de nossos amigos cristãos, após colocarmos seus corpos no túmulo escuro e silencioso, é irmos para casa deixando-os para trás; mas ai de nós, pois não somos nós que vamos para casa e os deixamos para trás; não, são eles que partiram para uma casa melhor e nos deixaram para trás.

(6)  O grupo que acompanhou o funeral. Era muito pequeno e aparentemente inexpressivo. Aqui não estava presente nenhum dos parentes enlutados para acompanhar o cadáver; não houve qualquer formalidade para honrar a solenidade, mas algumas mulheres virtuosas que estavam realmente de luto, como Maria Madalena e a outra Maria (v. 56). Estas, assim como o haviam acompanhado até a cruz, também o seguiram até o túmulo; como se tivessem se preparado para lamentar, elas assentaram-se defronte do sepulcro, não tanto para encher os seus olhos com a visão do que havia sido feito, mas para esvaziá-los através de rios de lágrimas. Note que o verdadeiro amor a Cristo nos levará a extremos para segui-lo. Nem mesmo a morte é capaz de apagar esse fogo divino (Cantares 8.6,7).

 

II – Seus inimigos fizeram o que puderam para impedir a sua ressurreição; aquilo que eles fizeram nesse lugar ocorreu no dia seguinte ao dia da preparação (v. 62). Aquele era o sétimo dia da semana, o sábado judeu, ainda não expressamente chamado assim, mas descrito por essa perífrase, porque estava agora a ponto de dar lugar ao sábado cristão, que começava no dia seguinte. Então:

1. Durante todo aquele dia, Cristo permaneceu deitado no túmulo; tendo trabalhado por seis dias e realizado todo o seu trabalho, no sétimo dia Ele descansou e se revigorou.

2. Naquele dia, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus, quando deveriam estar em suas devoções, pedindo perdão pelos pecados da semana passada, estavam negociando com Pilatos sobre o trancamento do sepulcro e assim acrescentando rebelião ao seu pecado. Eles, que haviam tão frequentemente discutido com Cristo pelos atos de grande misericórdia naquele dia, estavam agora ocupados com um ato repleto da maior maldade e malícia. Observe aqui:

(1)  A abordagem deles diante de Pilatos; eles estavam irritados pelo fato de o corpo ter sido dado a alguém que o sepultaria decentemente; mas, já que deveria ser assim, eles queriam que fosse colocada guarda junto ao sepulcro.

[1] A apresentação do pedido deles: “que aquele enganador” (assim eles chamam aquele que é a própria verdade) havia dito: “Depois de três dias, ressuscitarei”. Ele dissera isso e os seus discípulos se lembravam dessas palavras com exatidão, como a confirmação da sua fé; mas os seus perseguidores as lembravam pela provo­ cação à sua ira e iniquidade. Assim, a mesma palavra de Cristo para uns tinha o sabor de vida para a vida, e para outros, de morte para a morte. Veja como eles cumprimentam Pilatos com o título de senhor, enquanto acusam a Cristo com o título de enganador. Assim, os maiores caluniadores dos homens justos são, comumente, os mais sórdidos bajuladores dos poderosos.

[2] Isso expõe mais detalhadamente a inveja deles: “Não se dê o que os seus discípulos vão de noite, e o furtem, e digam: Ressuscitou”.

Em primeiro lugar, o que eles realmente temiam era a ressurreição dele; aquilo que é a maior glória de Cristo e alegria do seu povo é o maior medo dos seus inimigos. Aquilo que enfureceu os irmãos de José contra ele era o presságio de sua elevação e de seu domínio sobre eles (Genesis 37.8); e tudo que eles pretendiam e fizeram contra ele teve a finalidade de impedir isso. “Vinde”, dizem eles, “e matemo-lo, e veremos o que será de seus sonhos”. Da mesma forma, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus se esforçaram para destruir as predições da ressurreição de Cristo, falando dele como fizeram os inimigos de Davi (Salmos 41.8): “E, pois que está deitado, não se levantará mais”; se ele ressuscitasse, todas as medidas deles seriam destruídas. Note que os inimigos de Cristo, mesmo tendo alcançado o seu objetivo, estão com medo de perdê-lo novamente. Talvez os sacerdotes estivessem surpresos com o respeito demonstrado pelo cadáver de Cristo por José e Nicodemos, dois homens ilustres, e consideraram isso como um presságio ruim; também não conseguem se esquecer de que Ele ressuscitou Lázaro dos mortos, o que lhes causava tanta perplexidade.

Em segundo lugar, eles demonstraram temer que os seus discípulos talvez viessem durante a noite, e o roubassem, o que era algo muito improvável, pois:

1. Eles não tinham tido a coragem de confessar o Senhor enquanto Ele estava vivo, quando podiam ter feito algo de bom por Ele e por si mesmos; e não era provável que a morte dele instilasse a coragem naqueles que se mostraram tão covardes.

2. Que esperança lhes daria roubai· o corpo do Senhor e fazer o povo acreditar que ressuscitou? Pois, caso Ele não ressuscitasse, poderia ser considerado um enganador: Os seus discípulos, que haviam abandonado tudo neste mundo por Ele na confiança de uma recompensa no mundo vindouro, seriam os que mais sofreriam com a fraude, e teriam motivos para atirar a primeira pedra contra o Nome dele. Que proveito lhes traria dar andamento a uma trapaça contra si mesmos, roubando o corpo dele e dizendo: “Ressuscitou”, quando, se Ele não ressuscitasse, a fé deles seria vã e eles seriam os mais infelizes de todos os homens? Os príncipes dos sacerdotes temiam que se a doutrina da ressurreição de Cristo fosse pregada e aceita, o último erro seria pior do que o primeiro. Esta expressão proverbial não insinuava nada mais do que isto: Seremos todos arruinados. Eles pensaram ter sido um erro o fato de serem, por tanto tempo, coniventes com a pregação e os milagres de Jesus, erro que eles pensavam ter corrigido ao causarem a sua morte; mas, se as pessoas fossem persuadidas de sua ressurreição, isso estragaria tudo novamente. O interesse do povo por Ele reviveria com Ele, e os interesses daqueles que o haviam tão barbaramente assassinado, naufragariam. Observe que aqueles que se opuserem a Cristo e ao seu Reino não apenas verão as suas tentativas destruídas, mas eles próprios estarão desgraçadamente confusos e envergonhados, pois a sucessão de seus erros, cada um pior do que o outro, terá um erro derradeiro que será o pior de todos (Salmos 2.4,5).

[3] Levando isso em consideração, eles humildemente propõem a colocação de uma guarda junto ao sepulcro até o terceiro dia. “Manda, pois, que o sepulcro seja guardado com segurança”. Pilatos ainda deve ser escravo deles, e o seu poder civil e militar deve estar comprometido em servir à iniquidade deles. Poderia se pensar que os prisioneiros da morte não precisassem mais de guardas, e que o túmulo fosse, em si, seguro o suficiente para contê-los. Mas o que não temerão aqueles que estão conscientes tanto de sua culpa quanto de sua impotência ao resistirem ao Senhor e ao seu Ungido?

(2)  A resposta de Pilatos a esse discurso (v. 65). “Tendes a guarda; ide, guardai-o como entenderdes”. Pilatos estava pronto para agradar aos amigos de Cristo dando-lhes o corpo, e aos seus inimigos, colocando uma guarda em seu sepulcro. Alguns pensam que Pilatos, desejando agradar a todos, talvez risse consigo daquela situação; ao causar tanto alvoroço, de um lado e do outro, a respeito do cadáver de um homem, quem sabe considerasse as esperanças de um lado e os temores do outro, classificando-os igualmente como ridículos. “Tendes a guarda”; ele quer dizer a guarda permanente que era mantida na torre de Antônia. Como resultado disso, ele lhes permite destacar quantos soldados quisessem para esse propósito, como se estivesse envergonhado de se ver envolvido em algo assim. Pilatos deixa que os líderes judeus cuidem totalmente da situação. Penso que esta frase: “Guardai-o como entenderdes”, se parece com uma provocação, ou esteja relacionada:

[1] Com os medos deles: “Estejam certos de colocar uma forte guarda para o morto”. Ou, preferivelmente:

[2] Com as esperanças deles: “Façam o pior que puderem, testem a sua sagacidade e força ao máximo; mas, se Ele veio da parte de Deus, Ele ressuscitará, apesar de vocês e de todos os seus guardas”. Estou inclinado a pensar que, nessa hora, Pilatos teve uma conversa com o centurião, seu próprio oficial, a quem ele estaria inclinado a perguntar como aquele Justo, a quem ele havia condenado com tanta relutância, morrera. O centurião lhe fez um relato das coisas que o haviam levado a concluir que, verdadeiramente, este era o Filho de Deus; e Pilatos daria mais crédito a ele do que a mil daqueles sacerdotes vingativos, que chamavam o Senhor de enganador: E, se for assim, não é de admirar que ele tacitamente ridicularize o projeto deles, pensando em dar segurança ao sepulcro daquele que havia tão recentemente fendido as rochas e feito a terra tremer. Tertuliano, falando sobre Pilatos, diz: – Em sua consciência, ele era um cristão. E é possível que ele pudesse ter tal convicção naquela hora, com base no relato do centurião, e ainda assim jamais estar inteiramente convencido de ser um cristão, como ocorreu com Agripa ou Félix.

(3)  O cuidado formidável que eles tomaram, logo em seguida, para dar segurança ao sepulcro (v. 66). Eles selaram a pedra; provavelmente, com o grande selo do seu sinédrio, com o qual eles contrapunham a autoridade que possuíam, pois quem ousaria romper o selo do estado? Mas não confiando muito nisso, também estabeleceram uma guarda, para evitar que os discípulos do Senhor o roubassem e, se possível, impedissem que Ele saísse do túmulo. Assim eles pretendiam, mas Deus Pai tirou disso algo de bom: aqueles que foram colocados para se oporem à sua ressurreição tiveram a oportunidade de observá-la. Eles o fizeram e contaram o que observaram aos príncipes dos sacerdotes, que com isso se tornaram ainda mais indesculpáveis. Aqui estavam todos os poderes da terra e do inferno combinados para manter Cristo como prisioneiro. Mas todos esses recursos foram vãos quando a sua hora chegou; a morte e todos aqueles filhos e herdeiros da morte não conseguiam mais segurá-lo, não tinham mais domínio sobre Ele. Guardar o sepulcro contra os pobres e fracos discípulos era um disparate, porque era desnecessário; mas pensar em guardá-lo contra o poder de Deus era um disparate muito maior, por ser uma atitude inútil e sem propósito; e ainda assim aqueles iníquos pensaram que haviam procedido sabiamente.

O QUE A BÍBLIA ME ENSINOU

DONS MINISTERIAIS PARA A IGREJA.

Dons ministeriais para a igreja

Efésios 4: 11–16

Tem havido muito debate sobre a relação precisa entre missão original e sem restrições dos apóstolos e evangelistas, por um lado, e o ministério local permanente dos pastores e mestres, governadores e auxílios, por outro lado. Essa última classe, segundo parece, sempre era nomeada pela primeira; mas se Atos 6 puder ser considerado como passagem que descreve uma ordenação típica, então a eleição popular desempenhava papel na escolha dos candidatos.
Em sua forma mais antiga, o ministério cristão é carismático, isto é, depende de um dom espiritual ou dote natural, cujo exercício testificava sobre a presença do Espírito Santo na igreja. Assim é que profecia e glossolalia acorreram quando Paulo impôs suas mãos sobre alguns crentes comuns, após haverem sido batizados (At 19: 6); e as palavras ali empregadas subtendem que a ocorrência até certo ponto foi uma repetição da experiência pentecostal no início da igreja (At 2). Três listas são providas nas epístolas paulinas acerca das várias formas que tal ministério poderia assumir, e é notável que em cada lista são incluídas funções mais claramente espirituais. Em Rm 12: 6-8 encontramos profecia, ministério, (diakonia), ensino, exortação, contribuições, governo e “exercício de misericórdia” (? Visitação aos enfermos e pobres). I Co 12: 28“Assim, na igreja, Deus estabeleceu primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois os que realizam milagres, os que têm dons de curar, os que têm dons de administração e os que falam diversas línguas. O Apóstolo Paulo relaciona; apóstolos, profetas, mestres, juntamente com aqueles dotados de poder de operar milagres, curar os enfermos, prestar auxílio, governar ou falar em línguas.
Os vários dons alistados nessas passagens são funções ou maneiras diferentes de servir, e não ofícios regulares e estereotipados; um indivíduo podia e ainda pode agir em diversas capacidades ao mesmo tempo, porém, sua habilidade para cumprir qualquer uma delas dependia e sempre dependerá do preparo proporcionado pelo Espírito Santo.

APÓSTOLOS:
O Título “Apóstolo” se aplica a certos líderes cristãos no NT. Não apenas os doze foram incluídos no apostolado, mas igualmente Paulo, Barnabé, Tiago, o irmão do Senhor e Andrônico e Júnias. A qualificação primária de um “apóstolo” era que tivesse sido testemunha ocular do ministério terreno de Cristo, particularmente da ressurreição, e sua autoridade dependia do fato que de alguma forma tivesse sido comissionado por Cristo, quer nos dias de sua carne, quer depois dele haver ressuscitado dentre os mortos. O verbo “apostello” significa enviar alguém em missão especial como mensageiro e representante pessoal de quem o envia. O título é usado para Cristo, os doze discípulos escolhidos por Jesus, o apóstolo Paulo e outros
O termo “apóstolo” no NT em sentido geral, para um representante designado por uma igreja, como, por exemplo, os primeiros missionários cristãos. Logo no NT o termo se refere a um mensageiro nomeado e enviado como missionário ou para alguma responsabilidade especial. Eram homens de reconhecida e destacada liderança espiritual, ungidos com poder para defrontar-se com os poderes das trevas e confirmar o Evangelho com milagres. Cuidavam do estabelecimento de igrejas segundo a verdade e pureza apostólicas. Eram servos itinerantes que arriscavam suas vidas em favor do nome do nosso Senhor Jesus Cristo. E da propagação do evangelho.
Hoje no sentido geral, os “apóstolos” continuam sendo essenciais para o propósito de Deus na igreja. Pois se as igrejas cessarem de treinar, observar, discernir e enviar pessoas assim, cheias do Espírito Santo, a propagação do evangelho em todo o mundo ficará estagnada, paralisada. Logo enquanto a igreja estiver contextualizada com essa obrigação de produzir e enviar tais pessoas, estará cumprindo assim, sua tarefa missionária, e, permanecerá fiel à grande comissão do Senhor. O ministério apostólico referente àqueles que viram Jesus após a sua ressurreição, e que foram comissionados por Ele, é exclusivo e restrito, não há repetição, pois, os apóstolos originais do NT, não têm sucessores.

PROFETAS:
Os profetas eram homens que falavam sob o impulso direto do Espírito Santo, e cuja motivação, e, interesses principais eram a vida espiritual e pureza da igreja, transmitindo sempre uma mensagem da parte de Deus ao seu povo.
É o porta-voz de Deus. É aquele que movido pelo Espírito Santo, transmite mensagens da parte do Senhor. “Há realmente muita confusão a respeito do dom de profecia e o ministério profético; muitos acham que o ministério de profecia é o mesmo ministério de pregação, porém, entre eles há uma grande diferença”.
É certo que um pregador pode profetizar durante sua pregação, mas a pregação é diferente de uma mensagem profética. O pregador fala a mensagem iluminada, segundo a graça de Deus, de acordo com Sua palavra e “ninguém pode resistir”
A profecia, porém, é uma mensagem inspirada da parte de Deus; o profeta fica constrangido sob a mensagem, controlado pelo Espírito Santo.
O ministério profético no Novo Testamento é inteiramente diferente do ministério dos profetas do Velho Testamento, porque no Velho testamento a mensagem vinha a eles como está escrito: “Veio a mim a palavra do Senhor”. Enquanto que nos profetas do Novo Testamento, a palavra ou a mensagem são anunciadas inspiradamente pelo poder do Espírito Santo.
Os profetas, tanto do Antigo como do Novo Testamento não são infalíveis visto estarem sujeito a serem julgados pela Palavra de Deus. O ministério profético foi como um esteio na Igreja cristã primitiva. Contudo os dons proféticos não foram reconhecidos como regra guiadora para orientar ou dirigir a igreja ou ao seu pastor. Quem guiava era a palavra de Deus, a única regra para orientar e guiar a igreja. “Infelizmente, muitos não sabem guiar-se pela palavra de Deus, e por essa razão aparecem tantos absurdos doutrinários”.
Toda e qualquer revelação ou profecia devem ser submetidas à prova junto ao ministério da Palavra de Deus.
Existem três fontes das quais podem surgir as mensagens proféticas:
1- A fonte divina (Jr 23: 28, 29)
2- Fonte humana; mensagem do coração do próprio profeta (Ne 6:12; Jr 23:16,30-32).
3- A fonte demoníaca; mensagem que vem através de um demônio ou de um crente desobediente (I Tm 4: 1-3). “Daí pode surgir muita perturbação, dada a maioria dos crentes mais simples acreditarem mais no profeta, na realidade mais em profecias, do que no pastor, ou no dirigente da igreja”.
“Na edificação da igreja há necessidade dos dons proféticos, pois eles são como andaimes” na construção. Mas esses “andaimes”, devem estar bem firmados pelas armas e pregos da doutrina dos mestres da congregação. Deus não diz em sua palavra, que o seu povo foi destruído só por que lhe faltava profecia, e sim, por que lhe faltou conhecimento da palavra de Deus. Os 4: 6. Em João 8: 32 está escrito: “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.
Portanto, não devemos consultar profetas como se fazia no tempo do Velho Testamento. O caminho seguro é orar a Deus e Ele revelará o que for necessário.
A lei e os profetas duraram até João, significando que até então o povo era guiado pela lei e pelos profetas (conferir na resposta de Abraão ao rico da parábola do rico e Lázaro.
A profecia visava naqueles dias e ainda hoje; exortar, admoestar, animar, consolar e edificar.

EVANGELISTAS:
São os mensageiros de boas novas. O evangelista desempenha a obra de um missionário, levando o Evangelho a lugares onde ainda é lugar desconhecido. É essencial no propósito de Deus para a igreja. A igreja que deixar de apoiar e promover esse ministério cessará de ganhar almas, e resgatá-las da perdição eterna.
Caberá a igreja local identificar e separar os evangelistas para o ministério, mas é o Senhor quem concede o dom de Sua graça a cada um para o ministério que for útil.
Paulo falando ao evangelista Timóteo, disse: “Faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério”.
Qual será então a obra de um evangelista?
Segundo a palavra de Deus é:
a) Despertar o ânimo ou acordar as almas dormentes, através da mensagem da fé.
b). Fazer a obra de pioneiro em campos virgens, colocando o marco da fé cristã, promover o trabalho de avivamento espiritual nas igrejas a convite do pastor local;
Filipe em suas viagens missionárias, evangelizou todas as cidades até chegar a Cesaréia, em todas as cidades deixou a semente plantada. Portanto, a credencial mais bonita de um evangelista é a operação da graça, na conversão das almas como fruto da sua pregação.
Filipe deu prova de um bom evangelista e seu ministério; estava sob o controle divino (At 8: 39, 40): Depois de um grande avivamento, e, despertamento partiu e deixou a cidade de Samaria e seguiu a direção que o Senhor lhe mostrou; creio que para o deserto At 8: 26. Acredita-se que nunca mais voltou ali a não ser em visita. É lamentável dizer que; muitos evangelistas abrem as portas à pregação e eles mesmos as fecham, dificultando o trabalho para outros que venham depois deles.
Infelizmente há uma grande “onda de evangelistas” em nossos dias, dos quais podemos dizer sem medo de errar, que são perturbadores do ministério como pode? Lm 3: 22, mas é o Senhor que concede o dom de sua graça a cada um para o ministério em que for útil (I Co 12.7; Rm12: 5-8), quantos sofrimentos tem causado esses obreiros na seara do Senhor. Somente no dia de Cristo é que tudo será revelado.

PASTORES:
Homem que apascenta as ovelhas
O ministério pastoral é o mais conhecido e o mais necessário entre todos os ministérios. Nosso Senhor Jesus Cristo é o perfeito exemplo, pois Ele disse: “Eu sou o bom pastor” e acrescentou: “O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas”. No Sl 23 encontramos o verdadeiro modelo para o ministério pastoral, cujas qualidades são:
1 – Apascentador, é, levar as ovelhas aos pastos verdejantes e saudáveis;
2 – Suavizador, isto é, levar as ovelhas ao refrigério espiritual e refrescar, aplicando o bálsamo divino. Infelizmente, muitos ministram soda cáustica ao invés de aplicar o bálsamo da doutrina bíblica. Nesse sentido Paulo disse: “Não espancador”;
3 – Disciplinador, isto é, cortar a lã sem ferir as ovelhas; quando as ovelhas não são tosquiadas, sentem-se mal, ficam com excesso de lã, sem contar que ficam feias. (má aparência espiritual)
Neste estado ficam geralmente enfastiadas, não vão aos cultos, perdem o desejo de contribuir e tornam-se queixosas.
No Velho Testamento era considerado pastor o guia espiritual do povo: Tanto podia ser um profeta como Samuel, um rei como Davi ou um sacerdote como Josué.
As igrejas primitivas tiveram em suas congregações presbíteros, que juntamente com os apóstolos e pastores, os quais foram designados para pastorearem, isto é, cuidarem do rebanho.
Alguns funcionaram como pastores, segundo a chamada direta do Senhor At 20:17-28.
Na palavra de Deus, encontramos pastores e presbíteros muito entrelaçados no apascentamento, assim Pedro testifica (I Pe 5: 1-4).
Só há uma diferença; e que o pastor além de responsável pelo rebanho é o anjo da igreja, colocado pelo Senhor, onde deve permanecer fiel, para não perder a linha espiritual de seu ministério.
Já os presbíteros eram eleitos ou designados pelos pastores ou pelos apóstolos.
A Palavra de Deus nos fala de presbíteros com honra dobrada; eram os que presidiam uma comunidade; esses eram naturalmente considerados pastores juntamente no ministério. Deve e precisa ser muito respeitado, com a mesma honra que se dá a um pastor.
O pastor está velando por uma obra que não é sua, da qual, um dia dará contas ao legítimo dono.
O pastor tem que ser:
a). Bom crente e andar com verdadeiro exemplo de sinceridade; b). Ser bom esposo; c). Ser bom pai; d). Ser bom companheiro; e). Ser bom cidadão, obediente às autoridades; f) Ser também um bom irmão.
As atividades do pastor englobam as funções de:
a). De pastor, b). De pregador, c). De administrador, d). De educador, e). De conselheiro.
Existem três coisas que elevam o pastor no desempenho das suas funções:
1- A experiência necessária; 2- O conhecimento geral daquilo que ele desempenha; 3- Maturidade: Ser longânimo: nunca precipitado em assuntos que envolvam o seu ministério.

DOUTORES OU MESTRES:
Pode ser chamado de homem que tem habilidade para o ensino.
São aqueles que têm de Deus um dom especial para esclarecer, expor e proclamar a palavra de Deus, a fim de edificar o corpo de Cristo. O ministério de mestre é realmente muito valioso no ensino da Palavra de Deus, enquanto se conservar aos pés do Senhor Jesus, o divino Mestre.
Os mestres são essenciais ao propósito de Deus para a igreja. A igreja que rejeita, ou se descuida do ensino dos mestres e teólogos consagrados e fiéis à revelação bíblica, não se preocupará pela autenticidade e qualidade da mensagem bíblica nem pela interpretação correta dos ensinos bíblicos. A Igreja onde, mestres e teólogos estão calados não terá firmeza na verdade. Tal igreja aceitará inovações doutrinárias sem objeção; e nela, as práticas religiosas e ideias humanas serão de fato o guia no que tange à doutrina, padrões e práticas dessa igreja, quando se deveria ser a verdade bíblica. Por outro lado, a igreja que acata os mestres e teólogos piedosos e aprovados terá seus ensinos, trabalhos e práticas regidos pelos princípios originais e fundamentais do evangelho. Princípios e práticas falsas serão desmascarados, e a pureza da mensagem original de Cristo será conhecida pelos seus membros. Paulo disse: “Aquele que está entre vós, não pense em si mesmo mais do que convém saber, mas que saiba com temperança, conforme a medida da fé que Deus repartiu a cada um. Alguém que com esse extraordinário dom ministerial de ensinar, mas por causa da exaltação perder a graça e continuar a ensinar, o fará, porém, sem autoridade na Palavra, dando alimentação não substancial.
O ministério de ensino ou de mestre funciona como ajudador na obra do Senhor, podendo por meio do ensino, edificar a obra do Senhor.
A missão dos mestres bíblicos é defender e preservar, mediante a ajuda do Espírito Santo, o evangelho que lhes foi confiado (II Tm1: 11-14). Têm o dever de fielmente conduzir a igreja à revelação bíblica e à mensagem original de Cristo e dos apóstolos, e nisso perseverar. Tg 1: 22ª “E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes”… II Tm 2:15 “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não têm de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade”.
Se verdadeiramente somos a “Igreja”, devemos observar os preceitos dados a nós pelas Santas Escrituras que é, essencialmente, nossa regra de FÉ e PRÁTICA…
Nisto pensemos e isto vivamos!

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE OS PSICOPATAS DESEJAM?

O enfoque tradicional na pesquisa em neurociência da psicopatia é o foco em falta de sensibilidade à punição ou na ausência do medo, variáveis que estão associadas ao comportamento antissocial.

O que os psicopatas desejam

Tradicionalmente, a pesquisa em Neurociências enfoca a psicopatia como estando fundamentada em uma deficiência em certos circuitos cerebrais ligados ao controle dos impulsos, ou o aprendizado de consequências negativas. A falta de sensibilidade à punição tem sido apontada como uma das hipóteses de um substrato neural da psicopatia. Outras investigações apontam que não só a falta de medo, mas, consequentemente, as dificuldades de aprendizado com as experiências de medo são traços que estão por trás da psicopatia.

No entanto, até o momento, esses traços não se mostraram particularmente úteis para prever violência ou comportamento criminal. Uma nova linha de investigação sugere que pode ocorrer no cérebro de psicopatas uma forte tendência para a recompensa, e que isso tem sido negligenciado pela pesquisa convencional nessa área. Os indivíduos com traços de psicopatia têm de fato um forte impulso pela busca de recompensa, e esse impulso talvez supere o senso de risco ou a preocupação com as consequências negativas de determinado comportamento.

Para testar essa hipótese, foi realizado um experimento no qual indivíduos com psicopatia e pessoas sem essa característica recebiam uma droga e tinham seus cérebros submetidos a escaneamento para obtenção de imagens do funcionamento neural. O objetivo foi verificar como o cérebro das pessoas reagem a estimulantes, no caso um tipo de anfetamina chamado em língua inglesa speed, conhecido por suas propriedades de liberação de dopamina.

A dopamina é a moeda da recompensa no cérebro. Quando as moléculas desse neurotransmissor, provenientes da área tegmentar ventral atingem receptores na região do núcleo accumbens, o organismo sente prazer e desejo de repetir a experiência que levou ao estímulo dopaminérgico. Esse é o chamado sistema de recompensa do cérebro.

No experimento realizado, o que chamou atenção dos pesquisadores foi que pessoas com altos níveis de traços de psicopatia têm quatro vezes mais dopamina liberada em resposta à anfetamina do que as pessoas normais. Em uma segunda parte do estudo, os sujeitos tinham os cérebros escaneados enquanto ganhavam uma recompensa financeira por fazer uma tarefa em laboratório. Como no primeiro estudo, os psicopatas mostraram uma liberação muito maior de dopamina e níveis mais altos de atividades em antecipação ao ganho da recompensa.

Talvez pelo fato de ter uma resposta exagerada da dopamina, quando um psicopata foca na possibilidade de ganhar uma recompensa torna-se incapaz de alterar sua atenção até que consiga obter a gratificação. Esse escudo sugere que o cérebro do psicopata tem a circuitaria organizada para buscar fortemente recompensas, embora sem pesar o custo dessa procura.

Se o cérebro dos psicopatas libera quatro vezes mais dopamina em resposta a recompensas do que o de pessoas normais, podemos imaginar quanto prazer esses indivíduos podem ter ao atingir seus objetivos. Normalmente pensamos que psicopatas são pessoas de sangue frio, e que querem tomar o que desejam sem pensar nas consequências. Esse estudo mostra que um sistema de recompensa dopaminérgica hiperativo pode ser fundamento de alguns dos mais problemáticos comportamentos associados com psicopatia, como crimes violentos, reincidências e uso de drogas e álcool. Pensando na realidade brasileira. Podemos também imaginar o quanto a antevisão de prazer pode ser extraída a partir da simulação mental do recebimento de propinas e dinheiro de corrupção na mente de psicopatas, o que, infelizmente, torna mais tentadores os comportamentos que levam a essas recompensas.

 

MARCO CALLEGARO – é psicólogo, mestre em Neurociências e Comportamento, diretor do Instituto Catarinense de Terapia Cognitiva (ICTC) e do Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva (IPTC). Autor do livro premiado O Novo Inconsciente Como a Terapia Cognitiva e as Neurociências Revolucionaram o Modelo do Processamento Mental.

OUTROS OLHARES

O PECADO DAS CURTIDAS

O escândalo envolvendo o uso de dados do Facebook mostra que perdemos o controle das informações publicadas no ambiente online. Aí surge um dilema: sair da rede, ou aceitar os riscos.

O pecado das curtidas

O polêmico uso de dados do Facebook para influenciar a campanha presidencial americana em 2016 ganhou dimensão global e escancarou a forma como os indivíduos perderam o controle sobre o que postam na internet. Cerca de 87milhões de usuários nos Estados Unidos tiveram suas informações vazadas pela empresa de análise de dados políticos Cambridge Analytica. Os dados foram inicialmente coletados por um aplicativo de testes de personalidade na rede social e, segundo investigações, comprados pela consultoria que trabalhou na campanha do candidato republicano Donald Trump. Em posse da informação, a Cambridge Analytica previu o comportamento eleitoral dos usuários e os bombardeou com propaganda a favor de Trump, que venceu. Há indícios que o mesmo método tenha sido aplicado para influenciar a votação do Brexit, no mesmo ano, quando os britânicos optaram que o Reino Unido deixasse a União Europeia.

O auê foi tamanho que, no mês passado, o fundador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, foi chamado a dar explicações no Congresso americano. Em depoimento de 5 horas, ele negou a comercialização de dados. O escândalo, no entanto, derrubou o valor de mercado do Facebook em quase 60 bilhões de dólares em menos de uma semana. E se engana quem pensa que o problema foi isolado.

O Brasil também coleciona uma série de casos recentes. Em abril, a operadora de telefonia celular Vivo foi acusada pelo Ministério Público de vender dados de 73 milhões de clientes. No mesmo mês, a Uber foi convocada pelo Ministério Público em Brasília para esclarecer a exposição de dados de 176.000 brasileiros, após a própria companhia revelar que informações de usuários e motoristas haviam sido roubadas. O mesmo ocorreu com a Netshoes, que perdeu dados de 2 milhões de clientes para cibercriminosos; e com a Porto Seguro, de onde os hackers levaram informações pessoais e bancárias dos segurados.

Para piorar, especialistas alertam para a tendência de abrirmos cada vez mais sobre nós sobretudo no varejo, que mapeia o comportamento do cliente que compra pela internet. O protótipo perfeito desse Big Brother é a Amazon Go, primeira loja física da Amazon, aberta em Seattle, nos Estados Unidos, em janeiro. Lá, não há atendentes e não são utilizados dinheiro ou cartão. O estabelecimento usa inteligência artificial e centenas de micro câmeras para rastrear os clientes e os itens escolhidos. Ao sair com os produtos, eles não passam pelo caixa, simplesmente recebem um recibo de compra (debitado no crédito) minutos depois. A experiência é incrível, mas o preço, alto: até os movimentos (e as emoções) dos clientes são filmados. Outro exemplo: o Google direciona a publicidade de lojas e marcas com base no que “escuta” de seus usuários (pelo microfone do celular).  De fato, perdemos o domínio de nossos dados.

Mas os usuários não parecem muito preocupados com isso. Um Estudo realizado pela empresa de segurança digital Kaspersky chamou a atenção para a falta de cuidado dos internautas. Segundo a pesquisa, apenas três em cada dez pessoas leem o contrato antes da instalação de um aplicativo. Como elas têm, em média, 66 aplicativos em seu aparelho Android – sendo que 95% deles começam a funcionar sem que o usuário os inicie e 83% têm acesso a dados confidenciais -, a exposição é enorme.

CÉREBRO EM METAMORFOSE

Mas por que somos negligentes com informações no ambiente digital? Para a professora Andrea Jota, do Laboratório de Estudos de Psicologia, Tecnologia, Informação e Comunicação da PUC de São Paulo, há duas razões. A primeira é a falta de informação. Como a indústria de tecnologia não costuma ser transparente sobre suas políticas de dados e serviços, uma parcela considerável desconhece os riscos. “E a única maneira de se proteger é lendo manuais e ajustando as configurações de privacidade”, diz a psicóloga. O problema é que, na ânsia de usar o serviço, quase ninguém lê as letras miúdas dos contratos. Em geral, clica-se no “Li e aceito” ou no “Permitir acesso a fotos, vídeos …” sem saber o que isto significa exatamente.

Um segundo motivo para o compartilhamento excessivo, segundo a psicóloga, é que o ser humano precisa alimentar sua persona social. No universo digital, isso significa exibir familiares, viagens e até mesmo as refeições. “A internet, e tudo relacionado a ela, se fundiu ao nosso cotidiano”, diz Andrea.

A neurocientista britânica Susan Greenfield, autora de livros corno Mind Change: How Digital Technologies Are Leaving Their Mark: on Our Brains (sem tradução no Brasil), vai além. “O ambiente digital está alterando nosso cérebro”, escreve ela no livro. Entre outras ideias, Susan afirma que as redes sociais e as novas tecnologias estão nos tornando menos empáticos e mais dependentes do “aqui e agora” e fragilizando nossa noção de quem somos. De acordo com ela, quando constroem sua identidade no ciberespaço, as pessoas não se preocupam com passado ou futuro. O que vale é tirar proveito do momento.

Mas a postura imediatista exige reflexão. Pense num site de busca de empregos. Ou no próprio Linkedin, rede social essencial para fazer networking no mundo do trabalho. Quanto mais informações o profissional passa, maior a chance de ser visto por um recrutador e conseguir uma boa vaga. Mas será seguro revelar tanto de si mesmo? E se uma informação aparentemente boba, que o indivíduo não dimensionou no momento da postagem, um dia vir à tona e prejudicá-lo?

Bem, aparentemente, isso faz parte do mundo moderno. E especialistas advertem que será preciso aprender a lidar – e a prever – os efeitos colaterais de seus rastros digitais.

Rodrigo Tafner, coordenador do curso de sistemas de informação da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), é taxativo: não existe privacidade no ambiente digital. A empresa coleta dados e, em troca, oferece contrapartidas (como a possibilidade de encontrar um bom emprego). Se você deseja sua intimidade preservada integralmente, precisa manter-se offline. “Para se proteger 100%, o indivíduo precisa deixar de usar celular e computador. Mas isso é andar para trás”, afirma o especialista.

Como diz o ditado, “quem não é visto, não é lembrado”, e excluir-se das redes é praticamente não existir na sociedade atual. Quem fizer isso terá de abrir mão de seus contatos no Facebook, das pesquisas no Google (e todas as suas ferramentas, como Gmail, Google Maps e Google Tradutor), nas mensagens instantâneas do WhatsApp, das fotos do Instagram, dos filmes da Netflix, das músicas no Spotify e das compras online. Isso sem falar do aplicativo de trajetos Wase, do Uber, das notícias em sites, das vagas de emprego. A lista é grande.

A solução ideal, recomendam os estudiosos do assunto, é buscar o caminho do meio, minimizando os riscos. Rodrigo lembra que aplicativos escutam o que estamos falando e são capazes de saber até se estamos fazendo exercícios ou deitados na cama com o abajur desligado. Quem aceita tamanha exposição deve ler com atenção o termo de uso antes de baixar qualquer plataforma. Apesar de chato, é essencial analisar o que dizem os contratos, saber quais ferramentas precisam ser desabilitadas e entender o que não devemos dividir com ninguém, nem lojas nem redes sociais.

Especialista em direito digital, o advogado Leandro Bissoli, sócio da Peck Advogados, afirma que a primeira medida antes de informar um dado é entrar na página de Política de Privacidade da organização e analisar o quão exposta essa informação ficará. “Muitas vezes, é como se colocássemos uma faixa sobre nós na rua”, afirma Leandro. Nesse tipo de relatório está descrito o que a plataforma coleta de dados, o que faz com eles e como os descarta. O documento, em geral, é longo e mal escrito, mas necessário.

Qualquer pessoa que tenha rede social pode ter recebido nos últimos tempos uma mensagem do administrador avisando sobre mudanças nas medidas de segurança, na tentativa de deixá-las mais fortes. De acordo com Leandro, isso acontece porque as mídias sociais foram impactadas por um novo conjunto de regras aprovado pela União Europeia para proteção de privacidade de dados, que entrou em vigor no dia 25 de maio.

A legislação, conhecida como Regulamentação Geral para Proteção de Dados (GDPR, na sigla em inglês), é considerada a maior reformulação online desde o surgimento da internet. Incluir, excluir e corrigir dados a qualquer momento passa a ser um direito do usuário e as companhias são obrigadas a fornecer ferramentas explícitas que garantam essa liberdade. Além disso, empresas que armazenam informações das pessoas terão de comprovar que têm sistemas adequados para garantir tudo guardado a sete chaves.

“No Brasil, não temos regulamentação específica para tratar dados pessoais, somos lanterninhas da América Latina”, afirma o especialista da Peck Advogados, citando que há dois projetos em andamento nesse sentido – um na Câmara e outro no Senado.

A boa notícia é que, finalmente, autoridades e estudiosos têm questionado a balança desigual dessa relação. Os usuários fornecem dados preciosos de graça, enquanto as gigantes de tecnologia se locupletam com uma valiosa base de dados. Cresce o movimento contrário, e empresas começam a mudar suas políticas. Poucos meses atrás, o Facebook anunciou a expansão de seu programa que promete recompensas a quem denunciar aplicativos que fazem uso indevido das informações dos usuários. O prêmio chega a 100.000 dólares. Resta saber se isso será suficiente para dar às pessoas um pouco mais de alento digital.

 

MELHOR PREVENIR DO QUE REMEDIAR

Confira dicas dos especialistas para se proteger:

BLINDE-SE DAS ARMADILHAS VIRTUAIS

Jamais acesse links estranhos que surgem na tela de aplicativos, são enviados por e-mail ou por redes sociais. Em geral, esses links chegam como se fossem instituições financeiras ou mensagem de um contato pessoal. Quando você o acessa, o vírus se instala no dispositivo e passa a roubar seus dados. Na dúvida, não clique.

 LIMPE OS COOKIES PERIODICAMENTE

Cookies nada mais são do que informações trocadas entre seu navegador e o servidor de páginas acessadas. Eles ficam registrados num arquivo de texto no computador, o que permite que o site reconheça o visitante e saiba suas preferências – com isso, vai construindo um perfil do usuário.

LEIA OS TERMOS DE SERVIÇO E PRIVACIDADE

Antes de clicar em “aceito os termos e condições”, leia as informações básicas. Quem pode ter acesso aos dados? Alguém ou a plataforma pode utilizar as informações de sua conta? O controle do que é postado é totalmente seu? Se não tiver as respostas para essas perguntas, melhor abrir mão do serviço.

 ATENÇÃO AOS APLICATIVOS

Cerca de 20% deles não são confiáveis. Quando baixar qualquer um deles, não saia dando permissão para que acessem fotos, vídeos e outros arquivos, principalmente se estiver no sistema Android, mais vulnerável do que o IOS. Se não estiver claro, clique em “não permitir”. Se o uso do app depender disso, leia os termos de privacidade, e informe-se se pode desabilitar o recurso.