GESTÃO E CARREIRA

O NEGÓCIO É FAZER ARTE

Para quem deseja complementar a renda ou aproveitar o momento de desemprego para empreender com flexibilidade, setor de artesanato se mostra promissor e cada vez mais valorizado.

O Negócio é fazer arte

Quando se vive momentos de a perto financeiro, seja pelo desemprego, seja por uma crise econômica, a primeira alternativa de uma pessoa é explorar as suas aptidões para suprir a renda ou mesmo para complementar o seu orçamento. Ela procura transformar esse conhecimento em um negócio que, geralmente, está ligado a habilidades manuais.

De acordo com a gerente da Unidade de Atendimento Individual do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP), Adriana Rebecchi, em tempos de recessão financeira, a atividade de artesanato, por exemplo, é uma opção escolhida por cerca de dez milhões de brasileiros. Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), virou a principal fonte de renda deles, movimentando cerca de R$ 50 bilhões por ano.

Fazer artesanato então pode ser uma boa estratégia para conseguir pagar as contas? Na opinião de Adriana, sim! “É um mercado dinâmico, criativo, que se adequa rapidamente às necessidades dos clientes. O empreendedor pode colocar em prática as suas habilidades para as atividades manuais, seja fazendo uma receita de culinária elogiada pelos amigos ou desenvolvendo produtos que levam matérias-primas como madeira, tecido, folhas de árvores secas, sementes, etc.”, exemplifica.

Contudo, com a visibilidade que já conquistou, muito além de uma fonte de renda extra ou um negócio para pagar as contas, o artesanato pode ser também um empreendimento vantajoso e lucrativo, na opinião do empreendedor digital. idealizador do ArtesCon e criador do programa lnfoCriativo, Eder Machado. “No momento em que as pessoas começam a se interessar pela atividade de artesanato como um negócio, se elas buscarem conhecimento e capacitação para desenvolver um trabalho sério, vão descobrir que este é sim um negócio rentável e que, se bem administrado, pode ser altamente lucrativo”, aponta.

CAINDO DE PARA QUEDAS

Boa parte das trajetórias dos artesãos brasileiros é de pessoas que optaram pelo artesanato como atividade de terapia, ou porque quiseram fazer o enxoval da casa ou do filho, e até mesmo por um simples hobby. No entanto, essa ingênua escolha virou uma atividade de negócio que ele sequer imaginava. ”As pessoas começam pelo hobby e chega um vizinho ou um amigo que acaba se interessando por aquilo e quer encomendar. É daí que surge a pergunta: ‘quanto você cobra?”. Inicialmente a pessoa nem sabe a resposta, mas nesse momento é que se descobre um novo mundo e a possibilidade de ganhar dinheiro”, demonstra Eder Machado.

Um dos principais objetivos do especialista é exatamente o de ajudar esses artesãos e profissionais de artes manuais a desenvolver negócios rentáveis e lucrativos. Por meio de cursos, palestras e conteúdos digitais, ele dissemina essa ideia e auxilia para que o negócio dê certo, pois uns dos maiores problemas que muitos profissionais que decidem entrar nesse mercado enfrentam é a falta de capacitação e o conhecimento, que vai muito além das técnicas de trabalho.

Outro ponto que precisa ser melhorado é em relação à valorização do trabalho. Pois quem é artesão sabe que tem sempre um cliente que solta a velha frase de aterrorizar qualquer vendedor: “Tá muito caro, não tem como dar um desconto?”. Mas acontece como em qualquer outra atividade, quem vai valorizar o trabalho é o próprio profissional e como ele se porta diante do mercado. “O artesão que se capacita e se profissionaliza entende que o que ele está ofertando não é um conjunto de peças de matéria-prima, e sim o seu tempo e a sua habilidade. Quando ele mesmo enxerga isso e valoriza o que faz, o cliente também vai perceber esse valor agregado e começar a dar mais valor”, esclarece o empreendedor digital.

O próprio Ministério do Trabalho já admitiu que o artesanato é uma atividade muito importante para a economia e para a cultura do País, tanto que o Governo sancionou em 2015 a Lei n° 13.180, que regulamentou a atividade e trouxe a Carteira Nacional do Artesão.

Lá fora, o artesanato brasileiro é ainda mais valorizado. “Depois da internet não houve mais barreiras, então conseguimos oferecer nossos artesanatos ao mundo todo. Além disso, existem até pessoas especializadas no exterior responsáveis em pegar os produtos aqui e ofertar lá fora como produto de alto valor agregado, especialmente os artesanatos voltados para a reciclagem”, conta Machado.

Por essas e outras, segundo ele, para quem quer empreender neste ramo, não existe mais espaço para amadorismo. “E aqui entra um ponto muito importante. Aquela pessoa que não se capacita, não busca informações para se desenvolver e conhecer melhor o seu negócio, não tem espaço”, alerta.

POR ONDE COMEÇAR

Uma boa ideia para quem decide empreender neste mercado, segundo Adriana Rebecchi do Sebrae-SP, é começar a atividade em casa. Eder Machado compartilha da mesma opinião: “Começar em casa é um caminho plausível e eu até indico, especialmente porque, quando a pessoa começa, não tem inicialmente uma grande demanda”, pontua.

No entanto, antes de começar o negócio, ele diz que é essencial fazer um planejamento, que envolve demanda e a sua capacidade de produção. “Esse é um grande problema do artesão, por mais que tenha mercado, ele tem um limite de produção. Então, essa é a primeira etapa do planejamento, se questionar sobre: até quantos clientes eu consigo atender? Se aumentar a demanda, até onde eu consigo produzir? Quanto eu consigo faturar com isso? E para fazer esse atendimento, eu preciso ter quanto de matéria­ prima em estoque?”.

Machado explica que o artesão deverá fazer um planejamento levando em conta um curto, médio e longo prazo. “Evidentemente você não vai comprar matéria-prima para mais de três anos. É apenas para um primeiro momento, por exemplo, para três meses. Mas você precisa desse planejamento para diminuir o seu risco e não acontecer de ter um monte de matéria-prima parada”, alerta. Material parado, na opinião do especialista, é dinheiro parado, que poderia estar sendo usado para outra coisa, como divulgação, cartão de visita, curso de capacitação, etc. “E tudo isso tem que estar no planejamento. Até chegar a um determinado ponto que ele vai avaliar se precisará contratar um funcionário, quanto mais de material precisará, se precisará de mais espaço ou deve parar naquela demanda que consegue ele mesmo atender”, argumenta.

Adriana Rebecchi aconselha que inicialmente é necessário investir também no desenvolvimento de amostras ou poucas peças para testar a aceitação do produto. “Daí em diante a produção crescerá de acordo com a demanda. E aos poucos ele pode diversificar, criando um mix de produtos de acordo com o interesse do cliente”, esclarece.

De início, além dos amigos e familiares, o criador do programa lnfoCriativo aconselha o artesão também a captar clientes através da internet. “Esse é o principal canal para esse tipo de negócio hoje. E a entrega você pode trabalhar com serviços de motoboy, correios, transportadoras, etc. Acerta com o cliente o valor de entrega e a partir de então você abre um leque enorme de consumidores. Conheço pessoas que trabalham em casa e nem pensam em abrir um ponto comercial porque, dependendo do negócio, não vale a pena”, afirma e diz ainda que se a demanda aumentar, talvez vai valer mais a pena a pessoa investir em um espaço maior dentro da própria casa do que montar uma loja. ”A internet hoje permite isso, se ela não existisse você precisaria estar em algum ponto para que as pessoas chegassem ao seu produto, mas com ela não é mais necessário”, acredita.

CAPACITAÇÃO

Para quem quer aprender artesanato, Adriana do Sebrae-SP diz que existem vários cursos de técnicas no mercado oferecidos pelo Senai, Marketplaces como Elo 7, Sutaco, entre outros, inclusive cursos on-line. No entanto, para quem busca capacitação nessa área em termos de administrar, ainda são poucas escolas. “É um problema que temos no mercado brasileiro de artesanato. Temos muita capacitação na área técnica, em que se consegue fazer peças lindas e maravilhosas, porém não existe capacitação para fazer uma boa oferta, uma precificação correta do produto, uma boa divulgação, uma boa gestão do negócio”, informa o especialista Eder Machado.

Por conta disso, ele acredita que muitos negócios nessa área acabam estagnados, não se tornam rentáveis e não dão certo. Porém, com a grande visibilidade, esse cenário começa a mudar, mesmo que em doses homeopáticas. “Os artesãos têm muita falta de confiança de empreender neste mercado. E como você elimina isso? Obtendo informação e conhecimento. Não existia capacitação nenhuma nesse sentido, mas agora existe, mesmo que pequena. Isso começou a mudar especialmente por causa da internet. Há profissionais que estão disseminando seus conhecimentos quanto a isso. Em relação ao custo do seu produto, divulgação, ou seja, capacitação e informação, que são primordiais para a alavancagem desse tipo de negócio”, pontua.

PECULIARIDADES

Outro ponto importante que o artesão precisa conhecer melhor na hora de investir neste mercado é sobre o público-alvo. “Existe um público que está interessado em um objeto único e exclusivo, esse sim é o produto do artesão”, demonstra Eder Machado.

Em sua opinião, esse também tem sido outro problema a ser enfrentado, pois alguns profissionais querem concorrer com shoppings, lojas, inclusive nos preços, e não tem como. “Esse não é o público dele. O público do artesão é diferente, é aquele que gosta de exclusividade, de peças únicas, que quer presentear um amigo ou parente com algo inovador. Que quer decorar a sua casa com algo que não vai ver nas grandes lojas. Então não tem como ele concorrer com varejistas, muito menos em preço”, afirma.

Investir em um tipo de artesanato só porque está na moda também não dá certo. Por exemplo, de acordo com Adriana, o reaproveitamento de material para atividade artesanal está em alta, como as biojoias, que nasceram do reaproveitamento de cápsulas de café expresso. “Evidentemente existem ondas e períodos que determinadas técnicas e produtos vão estar mais em alta. Se um ator na novela das oito utiliza crochê, existirá uma onda muito forte nesse segmento. A mesma coisa acontece com penteado, biscuit, etc. Mas quando a onda diminuir, não quer dizer que o trabalho saturou, ele teve uma queda, mas não vai parar, principalmente por causa da internet”, explica Machado.

O empreendedor digital volta a dizer que qualquer profissional que começar a utilizar a internet como ferramenta de trabalho não está limitado à sua região geográfica e, portanto, o mercado para a venda de seus produtos se tornará gigante. “E não terá como existir uma saturação, sempre terá aquele artesanato que estará na moda, mas o público que gosta desse tipo de produto nunca deixará de comprar quando a moda passar. Tem espaço para todos, só não pode querer concorrer com produto industrializado”, enfatiza.

Ele recomenda, no entanto, sempre tentar inovar nas próprias peças que produz trazendo algo novo. “Qualquer inovação nos produtos, tecidos, madeiras, palhas, etc., são bem-vindas. Mas uma coisa interessante é que o artesão é criativo, então isso sempre o leva à inovação. Uma característica muito boa dele”, elogia Machado que ensina também que uma boa estratégia é focar em um único tipo de público, mas utilizando várias técnicas. “Por exemplo, você foca em lembrancinhas para bebê, mas com diversas técnicas. Existem muitas possibilidades, cabe ao artesão ficar atento e sempre se atualizar, ver o que está acontecendo no mercado, os conteúdos, participar de feiras, etc. Com isso, ele descobre nichos de mercado que não estão sendo explorados”, orienta.

HORA DE OUSAR MAIS

Na opinião de Adriana do Sebrae­ SP, à medida que o negócio cresce e necessita aumentar a capacidade produtiva gerando emprego e renda, a participação em feiras permite ampliar a divulgação e cria oportunidade de venda para lojistas também. “Participar de feiras de artesanato representa grande oportunidade de mostrar sua arte. Em São Paulo, por exemplo, aconteceu a primeira edição da Feira de Artesanato Brasil Original, em outubro, no Anhembi, com a participação de 31 expositores de todo o Brasil, gerando mais de 2,9 milhões em negócios em quatro dias de evento”, mostra.

Segundo ela, o processo de curadoria aconteceu em todo o Brasil para seleção dos artesãos expositores “Com critérios bem definidos, selecionamos 24 expositores de São Paulo, a partir de análise de técnicas e materiais empregados no artesanato que retrate a cultura das cidades participantes”, afirma.

Eder Machado diz que toda exposição é válida, sim. Mas o que o empreendedor precisa avaliar é o retorno sobre esse investimento. Se a feira tiver um custo de R$1.000,00 e o retorno for de R$900,00, não vale a participação. Mas se resultar em R$1.100,00 já valerá, pois, o retorno é baixo, mas a divulgação é um ponto positivo. “Dependendo do custo, para aquele que está começando, participar de feiras grandes poderá ser oneroso. Mas se for uma feira local no bairro, vale a pena. Tem que avaliar caso a caso”, indica.

Panfletos, redes sociais, feiras, jornais locais, blog e WhatsApp também são boas formas de divulgação. Além disso, firmar parcerias com lojas no bairro, salões de beleza ou com amigos não é uma ideia ruim. Mas é preciso avaliar se todos sairão ganhando.

Por fim, o especialista diz que o artesanato está no começo de um novo tempo, passando por transformações muito positivas. “Está deixando de lado o amadorismo. E aquele que não se profissionalizar, não buscar o diferencial, seja na sua técnica, no se u trabalho ou na gestão do seu negócio, vai ficar para trás. Por isso, para quem tem esse sonho, vale a pena, comece, busque o seu objetivo, coloque-o em prática e trabalhe para isso”, conclui.

6 PASSOS PARA QUEM QUER ABRIR UM NEGÓCIO COM ARTESANATO

 1 – Obtenha segurança para começar a empreender, por meio de informação e conhecimento. Pesquise o mercado.

2 – Faça um teste inicial dos seus produtos para avaliar se as pessoas gostam e o que pode aprimorar. Comece a produzir oferecendo para amigos e familiares.

3 – Faça um planejamento básico, apenas para definir as ações iniciais, como a forma que vai trabalhar, quanto pretende faturar no início, quanto precisa de matéria, quanto consegue produzir por dia (horas x dia).

4 – Faça acontecer, coloque em prática definitivamente. Monte o espaço em casa, vá à compra dos produtos, etc. Às vezes, não acaba fazendo por postergar demais.

5 – Supere as adversidades. Erros vão acontecer, mas entenda que isso faz parte do processo de aprendizado. Quem vence é aquele que, mediante a falha, não desiste, mas busca alternativas.

6 – Empenhe-se sempre. Se não o fizer, não terá resultados. E não deixe o pessimismo acabar com a sua motivação. Esteja cercado por pessoas que valorizam o seu trabalho, essas ações resultam em resultados positivos. Não adianta ter dinheiro se tem a falta de motivação.

 

COMO COBRAR PELO SEU TRABALHO

TÉCNICAS COM BAIXÍSSIMO CUSTO DE MATÉRIA-PRIMA

Nesse caso é aplicado quando a técnica trabalhada possui baixo custo com matéria-prima (exemplo: tricô e crochê). Aqui o artesão deve definir quanto vale a sua hora de trabalho (o que varia em função de sua experiência, capacitação, habilidade, reconhecimento no mercado, etc.) e cobrar em função das horas trabalhadas.

OUTRAS TÉCNICAS

Nesse caso o artesão deve considerar, basicamente, o custo variável, fixo e lucro desejado. O custo variável é o custo que terá em função da quantidade de peças produzidas. Ou seja, quanto mais peças fizer, mais linha, tecido, massa, entre outros, irá gastar. O custo fixo é o custo existente independentemente de peças produzidas. Exemplo: Hospedagem mensal da loja virtual e aluguel do ateliê.

O lucro é a porcentagem de ganho em cada peça. Essa margem vai variar em função da técnica, concorrência, preço de mercado.

Obs.: Um erro comum dos artesãos que trabalham em casa é acharem que não têm custos fixos, na verdade, o custo existe, só que geralmente ele não está pagando (o custo entra nas despesas da casa).

 

EDER MACHADO – Facilitador do processo de empreendimentos artesanais.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.