PSICOLOGIA ANALÍTICA

EM BUSCA DO “EU”

Diversas regiões cerebrais participam do reconhecimento de nosso próprio rosto. Fenômenos complexos como memória, planejamento ou autoconsciência não podem ser encontrados numa única área, e os cientistas estão apenas começando a desvendar a sede do eu no cérebro.

Em busca do Eu

Pouco depois de ter iniciado meu trabalho com Gordon Gallup, em Albany, conheci Bruce McCutcheon. Como biopsicólogo da escola antiga ele havia trabalhado com roedores em laboratório e, além disso, era conhecido por seu detalhismo.  McCutcheon sabia de meu interesse por autoconsciência e técnicas de imageamento, já que eu tinha acabado de concluir uma pesquisa sobre o cérebro de jovens alcoólatras. Certa tarde, ele me levou ao seu escritório, e mostrou um gráfico e diversas tabelas num quadro negro. O gráfico tinha dois rostos e um cilindro. Ele se perguntava se com a ajuda de técnicas de neuroimagem desenvolvidas nos anos 90, a chamada “década do cérebro”, seria possível localizar as regiões relacionadas ao “eu”.

Segundo imaginara, alguém estaria deitado no interior do cilindro – que representava um tomógrafo por ressonância magnética funcional (fMRI) – e seria apresentado primeiro a uma imagem de seu próprio rosto e depois, como comparação, à de outro rosto. Se marcássemos as regiões cerebrais ativas enquanto essa pessoa observava seu, rosto e depois “subtraíssemos” as áreas ativas durante a observação de outro rosto, as regiões ativas restantes corresponderiam à autoconsciência. McCurcheon estava convencido de que a fMRI poderia nos ajudar a localizar o “cu” no cérebro, pelo menos inicialmente. No fim de sua explanação, meu colega, habitualmente circunspecto, estava entusiasmadíssimo e me perguntou minha opinião. Eu logo percebi que ele tivera uma ideia grandiosa.

Achamos melhor primeiramente confrontar os participantes do estudo com o próprio rosto. Concordamos em realizar um experimento por meio de fMRI no qual contrastássemos o estimulo de nosso interesse (o rosto do participante) com algo semelhante. Como nos interessava saber qual o efeito de X, queríamos comparar a atividade cerebral diante da visão de XYZ com a de YZ. A atividade restante poderia, portanto, ser associada exclusivamente a X. O objetivo era o isolamento das regiões responsáveis pelo reconhecimento do próprio rosto, diferentes daquelas encarregadas de reconhecer rostos de maneira geral.

A escolha de estímulos de controle (ou seja, imagens que não fossem do próprio rosto) não foi fácil. Para obter bons dados com fMRl, esses rostos deveriam ser apresentados diversas vezes no decorrer do experimento. Procuramos uma feição não muito emocional, mas ao mesmo tempo interessante.

Um rosto que despertasse muita emoção nos levaria à “área de sentimentos” do cérebro, em vez da região do “eu”. Outro muito inexpressivo, ao contrário, poderia nos levar ao “centro de monotonia”. Após alguns experimentos-piloto, escolhemos Einstein como rosto de controle. Ele tem fisionomia marcante e, em experimentos prévios, provocou reações que variaram pouco. Além disso, os participantes conseguiam se concentrar por um tempo mais longo em seu rosto.

VER, SIM – MAS E OUVIR?

Ao lado de Glenn Sanders, decidimos não ficar apenas em experimentos de reconhecimento do próprio rosto. Se há de fato uma região onde se forma a autoconsciência, então qualquer estímulo do “eu” deveria ativá-la. Assim confrontamos as pessoas com a própria voz e com a voz de outras pessoas durante a tomografia.

A experiência ocorreu na Universidade Médica da Carolina do Norte, em Charleston, no laboratório de Mark George. Duas pessoas foram confrontadas com a imagem do próprio rosto e do rosto de Einstein, assim como com gravações das vozes. Tudo correu sem problemas, mas a espera pelos resultados esgotou nossos nervos. Ao lado de George e sua equipe, tínhamos acabado de realizar o primeiro estudo sobre auto reconhecimento com a utilização de fMRI.

Constatamos que a visão do próprio rosto ativara regiões do hemisfério direito. Tais resultados coincidiram com as descobertas de outros pesquisadores de que o hemisfério direito reagia de forma bem mais intensa que o esquerdo ao próprio rosto. Constatamos que a região responsável pelo auto reconhecimento se situa possivelmente na parte anterior do córtex frontal direito. Os dados relativos à voz também mostraram atividade no hemisfério direito, no entanto, os resultados não eram tão claros. De qualquer forma, estávamos no melhor caminho para descobrir o significado do hemisfério direito no processamento da autoconsciência, ou melhor para redescobrir seu significado.

Paralelamente aos nossos estudos na Carolina do Sul, McCutcheon, Sander e eu, examinamos o mesmo fenômeno na Escola Médica de Albany, em Nova York. Em vez de Einstein, usamos Bill Clinton como rosto familiar.

Essa decisão –  tomada quando ainda não se falava em Mônica Lewisnky -, baseou-se na reação positivados participantes à foto do presidente.

Por sugestão de Glenn para reforçar ainda mais a autoconsciência dos participantes, modificamos o estímulo. Em vez de lhes mostrar apenas o próprio rosto e, como contraste, o de Clinton, escrevemos sobre a imagem do participante frases como “eu penso” ou “eu acredito”.  Na foto de Clinton estava escrito “ele pensa” e “ele acredita”. Durante a experiência, eles eram instruídos a se concentrar totalmente nas fotos e frases. Assim, como tinham de se concentrar no próprio rosto e, estimulados pelas frases, e seus próprios pensamentos, atingimos com alguma certeza um alto grau de autoconsciência.

Aqui também concluímos que as regiões da área frontal anterior direita do cérebro apresentavam sinais de ativação reagindo aos auto- estímulos com atividade mais intensa. Esse estudo indicava, assim como exames anteriores, que o hemisfério direito exerce importante papel no reconhecimento do próprio rosto.

Uma questão interessante no ato de reconhecermos o próprio rosto é ilustrada com o que chamo “efeito loja de departamentos”. Nesses locais, espelhos diversos são colocados em ângulos estranhos e, ao nos depararmos inesperadamente com um deles, por um curto espaço de tempo achamos que a imagem refletida é de outra pessoa. Logo percebemos que se tratada nossa própria imagem. Mas essa experiência pode nos deixar confusos.

Passamos muitas horas olhando nosso rosto. Toda manhã nos barbeamos ou maquiamos, examinamos nossa roupa penteamos o cabelo. No decorrer do dia, sempre nos observamos e usamos tal informação para arrumar nossa aparência. Quando uma pessoa se deita em um tomógrafo, ela já tem grande experiência em se ver no espelho. Conseguir reconhecer a si mesmo significa ter a capacidade para a autoconsciência. No entanto, simplesmente olhar para própria imagem não significa ser autoconsciente.

Faça essa pequena experiência, tente se concentrar apenas em si mesmo cada vez que se olhar no espelho. Você provavelmente vai perceber que isso é muito difícil porque quando nos olhamos no espelho, nós nos observamos atentamente no início, mas então nossos pensamentos voam. Vamos para outro mundo, fazemos planos e imaginamos como seria bom dormir mais uma hora, por exemplo. Mark Weeler, da Universidade de Têmple, Filadélfia, descreveu tal experiência e observou que olhar-se no espelho ou reconhecer a si mesmo não implica necessariamente estar em estado de autoconsciência.

Uma coisa estava clara: se queríamos testar a autoconsciência das pessoas em função de seu próprio rosto, seria preciso assegurar que realmente estivessem em estado de “autoconsciência”. No entanto, pode levar até 30 segundos para se obter uma boa representação imagética do cérebro ativo com uma tomografia por ressonância magnética funcional. Sendo assim, os participantes tinham de observar a própria face atentamente durante 30 segundos e repetir até dez vezes tal procedimento.

Em nossas tentativas piloto em Albany, algumas pessoas se distraiam em pensamentos enquanto observavam seu rosto.

O problema foi solucionado quando pedimos que olhassem alternadamente o próprio rosto e lessem as legendas abaixo das imagens.

Algum as dessas possibilidades foram estudadas pelo grupo do neurologista Motoaki Sugiura por meio de tomografias por emissão de pósitrons (PEl). Em busca das regiões que participam do reconhecimento do próprio rosto, os pesquisadores examinaram dois tipos diferentes de auto reconhecimento, que denominaram “passivo” e “ativo”. Depois de fotografarem os participantes do estudo sob ângulos diversos, eles misturaram imagens de rostos desconhecidos, também tiradas de pontos diferentes. Durante o experimento, apresentaram as imagens sob três condições. Na situação controle, em que mostraram desconhecidos, na variante passiva, exibiram a própria face do participante, e pediram que descrevessem o ângulo do rosto mostrado. Como não sabiam que a imagem era do próprio rosto, as pessoas não tentavam encontra-lo expressamente.

Na variante ativa, os participantes foram informados de que seu rosto seria mostrado e que eles deveriam reagir cada vez que o vissem.

Sugiura e seus colegas realizaram diversas análises dos dados. Ao comparar o reconhecimento passivo do próprio rosto e a visão das feições de controle, perceberam que a área ativada no hemisfério direito era 1,26 vez maior. Portanto, apenas a observação passiva do próprio rosto gerava maior participação do lado direito do cérebro.

Na comparação da observação ativa com a situação controle, o grupo não encontrou nenhuma diferença significativa entre os hemisférios cerebrais, mas ao compararem as observações passiva e ativa do próprio rosto, constataram que a área ativa no hemisfério direito era 2,18 vezes maior. Aparentemente, portanto, foram ativadas mais regiões no hemisfério direito.

Como a PET permite que sejam examinadas regiões específicas do cérebro, o grupo definiu com seus experimentos as áreas que participavam das observações ativa e passiva. No hemisfério direito a região frontal direita, o giro do cíngulo e o chamado pulvinar do tálamo, núcleo que processa informações dos sentidos, eram responsáveis pela observação ativa do próprio rosto.

No hemisfério esquerdo foi registrada atividade no giro fusiforme, área que fica no fundo da parte posterior do cérebro e que tem grande participação geral no reconhecimento de rostos. Lesões nessa região podem levar à prosopagnosia, incapacidade de reconhecer rostos familiares. Nos homens, assim como nos primatas, essa espiral do cérebro se torna ativa quando se trata de diferenciar rostos. Não é de espantar que tal região apresente certa atividade durante uma tarefa de reconhecimento de rostos. No entanto, é pouco provável que o giro lusiforme tenha forte participação no reconhecimento do próprio rosto, pois as dificuldades decorrentes de uma lesão nessa área não se limitam à própria face.

O EQUILÍBRIO É TUDO

A partir dos estudos japoneses e dos resultados de nossas pesquisas, constatamos que o hemisfério direito é muito importante para o reconhecimento da própria face. Segundo os exames realizados por Sugiura, algumas regiões da área frontal do cérebro exercem importante função durante o reconhecimento ativo. Porém, diversas áreas do cérebro participaram ativamente também no reconhecimento passivo. Ao que tudo indica, não há uma única região especializada em tal tarefa. Assim, o órgão pensador pode ser comparado a um móbile em que o equilíbrio de uma parte depende das outras. Fenômenos complexos como memória, planejamento ou autoconsciência não podem ser encontrados em uma única área. Pode ser que, aparentemente, diferentes aspectos de cada uma dessas habilidades cognitivas existam isoladamente, mas na verdade eles dependem da função de outras regiões cerebrais.

Os experimentos de Bruno Preilowski, Sugiura e os meus forneceram, sem dúvida, indícios da dominância do hemisfério direito em processos relacionados ao “eu”. Porém, Roger Sperry e Preilowski demonstraram que ambos os hemisférios são capazes do auto reconhecimento, e Sugiura encontrou diferentes regiões que participam do processamento de si, o que também coincide com nossos resultados. Pode ser que o processamento ocorra predominantemente no hemisfério direito, mas é evidente que outras regiões participam desse processo.

Mesmo assim, todos esses resultados foram fascinantes. Aos poucos, os cientistas começam a desvendar os segredos que ocupam pesquisadores há séculos. Estávamos prontos para descobrir as regiões do cérebro em que surge a autoconsciência.

OUTROS OLHARES

CONTINUAMOS ESCRAVOS

130 anos após a abolição da escravatura, população negra permanece sofrendo com a desigualdade, a violência e o abandono social

Continuamos escravos

Passados exatos 130 anos da sanção da Lei Áurea pela princesa Isabel, em 13 de maio de 1888, os brasileiros ainda convivem com a escravidão ou com uma condição análoga a ela rotineiramente e a desigualdade entre negros e brancos continua escandalosa. A lei imperial 3.353 solucionou o grande problema da liberdade dos escravos, mas manteve os indivíduos das duas raças profundamente desiguais e sem condições de competir, com permanente desvantagem para os negros – empurrados para o ponto mais baixo da pirâmide social. O Brasil foi o último país americano a abolira escravidão – o penúltimo foi Cuba, em 1885. E também foi o lugar que mais recebeu escravos africanos ao longo de sua história. Calcula-se que entre 1550 e 1860 cerca de 4.8 milhões de pessoas tenham sido trazidas contra a vontade da África para o Brasil. As relações de poder do velho sistema se entranharam na cultura nacional e deixaram um passivo gigantesco de injustiça e preconceito, encoberto pelo mito da democracia racial, que até hoje não foi superado.

“A Lei Áurea foi uma lei muito breve, muito conservadora, não veio acompanhada de nenhum projeto de inclusão social e nem foi capaz de redimir desigualdades assentadas ou apagar hierarquias naturalizadas”, diz a historiadora Lilia Moritz Schwarcz, organizadora, junto com Flávio dos Santos Gomes, do “Dicionário da Escravidão e Liberdade” (Companhia das Letras), lançado a propósito da efeméride abolicionista.

“E o racismo estrutural que experimentamos hoje no Brasil não é só herança – novas formas de racismo estão sendo construídas e se expressam na educação, na saúde ou nos números da violência contra os jovens. “Em muitos aspectos, a Lei Áurea condenou uma grande parte da população a permanecer nas margens da sociedade. A condição de trabalho do liberto continuou extremamente precária e para o negro não houve nenhum tipo de proteção legal, trabalhista e social.

A situação atual do mercado de trabalho é exemplar da desigualdade entre brancos e negros e escancara um preconceito racial na ocupação das vagas de emprego, na distribuição dos cargos e na remuneração. Segundo os últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), os salários dos trabalhadores brancos são, em média, 80 % superiores ao dos negros. Considerando todas as ocupações, enquanto um branco tem um ganho real de R$ 2.660, a renda do negro é de R$ 1.461 e a dos pardos, R$ 1.480. Mais grave: a escolaridade não basta para equiparar renda de brancos e negros. Conforme ela aumenta, maior a diferença salarial, de acordo com pesquisa da Fundação Seade/Dieese. Entre os trabalhadores com ensino médio completo, na região metropolitana de São Paulo, por exemplo, os negros receberam 85 % do valor ganho pelos brancos. em 2016. Segundo o relatório “A distância que nos une”, realizado pela Oxfam, ONG dedicada ao combate da pobreza e da desigualdade no mundo, em 2017, 67 % dos negros brasileiros receberam até 1.5 salário mínimo, enquanto menos de 45 % dos brancos estão nessa faixa salarial. Mantido o ritmo de inclusão observado no período, a equiparação da renda média de brancos e negros acontecerá somente em 2089, duzentos anos depois da abolição.

 VIOLÊNCIA

“Além de acentuar desigualdades, o racismo também traz consequências violentas”, diz Tauá Pires, coordenadora de programas da Oxfam. Homens jovens e negros são as maiores vítimas de homicídios no país, segundo o Atlas da Violência 2017 produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública: de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. O feminicídio, o assassinato de mulheres por razões de gênero, atinge principalmente mulheres negras.

Negros e negras também são vítimas frequentes de ofensas e injúrias raciais. É o caso do empresário Luiz Henrique da Silva, 33 anos, que, em abril de 2017, foi com a família fazer compras em um mercado de Pirituba e foi violentamente ofendido. Ele vestia um agasalho da torcida Gaviões da Fiel e precisava comprar ingredientes para fazer cachorro quente na casa de amigos. Porém, os planos dele mudaram quando, na fila do caixa, ele foi xingado por urna mulher branca que estava na frente dele por ter supostamente batido o carrinho na perna dela. Ele pediu desculpas, mas isso não impediu que a mulher se virasse para a caixa do mercado e falasse: “Além de corintiano, é preto. “Depois de digitara senha, ela teria então, dito para ele: “Preto, macaco, filho da p…, ladrão.” A polícia foi chamada e Luiz registrou um boletim de ocorrência contra a mulher por injúria racial. Mais de um ano depois, o empresário afirma que o caso ainda o abala: “Me sinto como todos os negros do mundo: injustiçado. Não vejo a hora desse pesadelo acabar”, afirma.

Estima-se que 160 mil pessoas no Brasil sofram, atualmente, com condições de trabalho análogas à escravidão. Negros e pardos, de acordo com dados do Ministério Público do Trabalho, representam mais de 64 % das cerca de 43 mil pessoas que foram resgatadas dessa situação degradante entre 2003 e 2017. Segundo a procuradora da República Ana Carolina Roman, é possível identificar o trabalho escravo contemporâneo quando o trabalhador tem jornadas de trabalho exaustivas, servidão por dívidas, retenção de documentos, confusão do local de moradia como de trabalho, ameaças e muitas outras situações que tiram a dignidade do ser humano.

“Ainda há segmentos da sociedade que não consideram a população negra como humana. É por isso que a submete a condições de trabalho análogas à escravidão”, afirma Juarez Xavier, professor da Universidade Estadual Paulista, (Unesp), que vê no País uma situação de “apartheid social”. Essa visão é compartilhada por Leci Brandão (PC do B), segunda mulher negra na história a se eleger deputada estadual em São Paulo. “A princesa assinou a lei no dia 13 e no dia 14 os negros estavam com uma mão na frente e a outra atrás. Vai fazer o que sem condição nenhuma de política pública para que estivesse realmente liberta?”

A implantação do sistema de cotas foi um ponto importante na luta pelos direitos da comunidade negra. A Escola Politécnica da Universidade de São Paulo(USP), por exemplo, formou apenas sete mulheres negras em mais de 120 anos de existência. Larissa Mendes, que estuda na faculdade, faz parte da Poli Negra, grupo que trouxe a discussão sobre cotas para a instituição e mostrou por meio deum plebiscito que 70 % dos alunos as apoiavam em 2017. Por conta da iniciativa, no mesmo ano, o Conselho Universitário da USP aprovou cotas sociais e raciais. Segundo Larissa, a luta por cotas é uma forma de reparação histórica. “São medidas importantes para a gente conseguir se preservar com aquela chama de esperança que pelo menos através do conhecimento a gente pode chegar a alguma coisa”, afirma. Para a estudante. essa é uma solução temporária. “[As cotas] não têm como objetivo ser para sempre, mas é para durar enquanto a gente tiver uma diferença entre negros e brancos nas universidades e em todos os outros espaços da sociedade”, diz.

 Continuamos escravos2

GESTÃO E CARREIRA

O NEGÓCIO É FAZER ARTE

Para quem deseja complementar a renda ou aproveitar o momento de desemprego para empreender com flexibilidade, setor de artesanato se mostra promissor e cada vez mais valorizado.

O Negócio é fazer arte

Quando se vive momentos de a perto financeiro, seja pelo desemprego, seja por uma crise econômica, a primeira alternativa de uma pessoa é explorar as suas aptidões para suprir a renda ou mesmo para complementar o seu orçamento. Ela procura transformar esse conhecimento em um negócio que, geralmente, está ligado a habilidades manuais.

De acordo com a gerente da Unidade de Atendimento Individual do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP), Adriana Rebecchi, em tempos de recessão financeira, a atividade de artesanato, por exemplo, é uma opção escolhida por cerca de dez milhões de brasileiros. Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), virou a principal fonte de renda deles, movimentando cerca de R$ 50 bilhões por ano.

Fazer artesanato então pode ser uma boa estratégia para conseguir pagar as contas? Na opinião de Adriana, sim! “É um mercado dinâmico, criativo, que se adequa rapidamente às necessidades dos clientes. O empreendedor pode colocar em prática as suas habilidades para as atividades manuais, seja fazendo uma receita de culinária elogiada pelos amigos ou desenvolvendo produtos que levam matérias-primas como madeira, tecido, folhas de árvores secas, sementes, etc.”, exemplifica.

Contudo, com a visibilidade que já conquistou, muito além de uma fonte de renda extra ou um negócio para pagar as contas, o artesanato pode ser também um empreendimento vantajoso e lucrativo, na opinião do empreendedor digital. idealizador do ArtesCon e criador do programa lnfoCriativo, Eder Machado. “No momento em que as pessoas começam a se interessar pela atividade de artesanato como um negócio, se elas buscarem conhecimento e capacitação para desenvolver um trabalho sério, vão descobrir que este é sim um negócio rentável e que, se bem administrado, pode ser altamente lucrativo”, aponta.

CAINDO DE PARA QUEDAS

Boa parte das trajetórias dos artesãos brasileiros é de pessoas que optaram pelo artesanato como atividade de terapia, ou porque quiseram fazer o enxoval da casa ou do filho, e até mesmo por um simples hobby. No entanto, essa ingênua escolha virou uma atividade de negócio que ele sequer imaginava. ”As pessoas começam pelo hobby e chega um vizinho ou um amigo que acaba se interessando por aquilo e quer encomendar. É daí que surge a pergunta: ‘quanto você cobra?”. Inicialmente a pessoa nem sabe a resposta, mas nesse momento é que se descobre um novo mundo e a possibilidade de ganhar dinheiro”, demonstra Eder Machado.

Um dos principais objetivos do especialista é exatamente o de ajudar esses artesãos e profissionais de artes manuais a desenvolver negócios rentáveis e lucrativos. Por meio de cursos, palestras e conteúdos digitais, ele dissemina essa ideia e auxilia para que o negócio dê certo, pois uns dos maiores problemas que muitos profissionais que decidem entrar nesse mercado enfrentam é a falta de capacitação e o conhecimento, que vai muito além das técnicas de trabalho.

Outro ponto que precisa ser melhorado é em relação à valorização do trabalho. Pois quem é artesão sabe que tem sempre um cliente que solta a velha frase de aterrorizar qualquer vendedor: “Tá muito caro, não tem como dar um desconto?”. Mas acontece como em qualquer outra atividade, quem vai valorizar o trabalho é o próprio profissional e como ele se porta diante do mercado. “O artesão que se capacita e se profissionaliza entende que o que ele está ofertando não é um conjunto de peças de matéria-prima, e sim o seu tempo e a sua habilidade. Quando ele mesmo enxerga isso e valoriza o que faz, o cliente também vai perceber esse valor agregado e começar a dar mais valor”, esclarece o empreendedor digital.

O próprio Ministério do Trabalho já admitiu que o artesanato é uma atividade muito importante para a economia e para a cultura do País, tanto que o Governo sancionou em 2015 a Lei n° 13.180, que regulamentou a atividade e trouxe a Carteira Nacional do Artesão.

Lá fora, o artesanato brasileiro é ainda mais valorizado. “Depois da internet não houve mais barreiras, então conseguimos oferecer nossos artesanatos ao mundo todo. Além disso, existem até pessoas especializadas no exterior responsáveis em pegar os produtos aqui e ofertar lá fora como produto de alto valor agregado, especialmente os artesanatos voltados para a reciclagem”, conta Machado.

Por essas e outras, segundo ele, para quem quer empreender neste ramo, não existe mais espaço para amadorismo. “E aqui entra um ponto muito importante. Aquela pessoa que não se capacita, não busca informações para se desenvolver e conhecer melhor o seu negócio, não tem espaço”, alerta.

POR ONDE COMEÇAR

Uma boa ideia para quem decide empreender neste mercado, segundo Adriana Rebecchi do Sebrae-SP, é começar a atividade em casa. Eder Machado compartilha da mesma opinião: “Começar em casa é um caminho plausível e eu até indico, especialmente porque, quando a pessoa começa, não tem inicialmente uma grande demanda”, pontua.

No entanto, antes de começar o negócio, ele diz que é essencial fazer um planejamento, que envolve demanda e a sua capacidade de produção. “Esse é um grande problema do artesão, por mais que tenha mercado, ele tem um limite de produção. Então, essa é a primeira etapa do planejamento, se questionar sobre: até quantos clientes eu consigo atender? Se aumentar a demanda, até onde eu consigo produzir? Quanto eu consigo faturar com isso? E para fazer esse atendimento, eu preciso ter quanto de matéria­ prima em estoque?”.

Machado explica que o artesão deverá fazer um planejamento levando em conta um curto, médio e longo prazo. “Evidentemente você não vai comprar matéria-prima para mais de três anos. É apenas para um primeiro momento, por exemplo, para três meses. Mas você precisa desse planejamento para diminuir o seu risco e não acontecer de ter um monte de matéria-prima parada”, alerta. Material parado, na opinião do especialista, é dinheiro parado, que poderia estar sendo usado para outra coisa, como divulgação, cartão de visita, curso de capacitação, etc. “E tudo isso tem que estar no planejamento. Até chegar a um determinado ponto que ele vai avaliar se precisará contratar um funcionário, quanto mais de material precisará, se precisará de mais espaço ou deve parar naquela demanda que consegue ele mesmo atender”, argumenta.

Adriana Rebecchi aconselha que inicialmente é necessário investir também no desenvolvimento de amostras ou poucas peças para testar a aceitação do produto. “Daí em diante a produção crescerá de acordo com a demanda. E aos poucos ele pode diversificar, criando um mix de produtos de acordo com o interesse do cliente”, esclarece.

De início, além dos amigos e familiares, o criador do programa lnfoCriativo aconselha o artesão também a captar clientes através da internet. “Esse é o principal canal para esse tipo de negócio hoje. E a entrega você pode trabalhar com serviços de motoboy, correios, transportadoras, etc. Acerta com o cliente o valor de entrega e a partir de então você abre um leque enorme de consumidores. Conheço pessoas que trabalham em casa e nem pensam em abrir um ponto comercial porque, dependendo do negócio, não vale a pena”, afirma e diz ainda que se a demanda aumentar, talvez vai valer mais a pena a pessoa investir em um espaço maior dentro da própria casa do que montar uma loja. ”A internet hoje permite isso, se ela não existisse você precisaria estar em algum ponto para que as pessoas chegassem ao seu produto, mas com ela não é mais necessário”, acredita.

CAPACITAÇÃO

Para quem quer aprender artesanato, Adriana do Sebrae-SP diz que existem vários cursos de técnicas no mercado oferecidos pelo Senai, Marketplaces como Elo 7, Sutaco, entre outros, inclusive cursos on-line. No entanto, para quem busca capacitação nessa área em termos de administrar, ainda são poucas escolas. “É um problema que temos no mercado brasileiro de artesanato. Temos muita capacitação na área técnica, em que se consegue fazer peças lindas e maravilhosas, porém não existe capacitação para fazer uma boa oferta, uma precificação correta do produto, uma boa divulgação, uma boa gestão do negócio”, informa o especialista Eder Machado.

Por conta disso, ele acredita que muitos negócios nessa área acabam estagnados, não se tornam rentáveis e não dão certo. Porém, com a grande visibilidade, esse cenário começa a mudar, mesmo que em doses homeopáticas. “Os artesãos têm muita falta de confiança de empreender neste mercado. E como você elimina isso? Obtendo informação e conhecimento. Não existia capacitação nenhuma nesse sentido, mas agora existe, mesmo que pequena. Isso começou a mudar especialmente por causa da internet. Há profissionais que estão disseminando seus conhecimentos quanto a isso. Em relação ao custo do seu produto, divulgação, ou seja, capacitação e informação, que são primordiais para a alavancagem desse tipo de negócio”, pontua.

PECULIARIDADES

Outro ponto importante que o artesão precisa conhecer melhor na hora de investir neste mercado é sobre o público-alvo. “Existe um público que está interessado em um objeto único e exclusivo, esse sim é o produto do artesão”, demonstra Eder Machado.

Em sua opinião, esse também tem sido outro problema a ser enfrentado, pois alguns profissionais querem concorrer com shoppings, lojas, inclusive nos preços, e não tem como. “Esse não é o público dele. O público do artesão é diferente, é aquele que gosta de exclusividade, de peças únicas, que quer presentear um amigo ou parente com algo inovador. Que quer decorar a sua casa com algo que não vai ver nas grandes lojas. Então não tem como ele concorrer com varejistas, muito menos em preço”, afirma.

Investir em um tipo de artesanato só porque está na moda também não dá certo. Por exemplo, de acordo com Adriana, o reaproveitamento de material para atividade artesanal está em alta, como as biojoias, que nasceram do reaproveitamento de cápsulas de café expresso. “Evidentemente existem ondas e períodos que determinadas técnicas e produtos vão estar mais em alta. Se um ator na novela das oito utiliza crochê, existirá uma onda muito forte nesse segmento. A mesma coisa acontece com penteado, biscuit, etc. Mas quando a onda diminuir, não quer dizer que o trabalho saturou, ele teve uma queda, mas não vai parar, principalmente por causa da internet”, explica Machado.

O empreendedor digital volta a dizer que qualquer profissional que começar a utilizar a internet como ferramenta de trabalho não está limitado à sua região geográfica e, portanto, o mercado para a venda de seus produtos se tornará gigante. “E não terá como existir uma saturação, sempre terá aquele artesanato que estará na moda, mas o público que gosta desse tipo de produto nunca deixará de comprar quando a moda passar. Tem espaço para todos, só não pode querer concorrer com produto industrializado”, enfatiza.

Ele recomenda, no entanto, sempre tentar inovar nas próprias peças que produz trazendo algo novo. “Qualquer inovação nos produtos, tecidos, madeiras, palhas, etc., são bem-vindas. Mas uma coisa interessante é que o artesão é criativo, então isso sempre o leva à inovação. Uma característica muito boa dele”, elogia Machado que ensina também que uma boa estratégia é focar em um único tipo de público, mas utilizando várias técnicas. “Por exemplo, você foca em lembrancinhas para bebê, mas com diversas técnicas. Existem muitas possibilidades, cabe ao artesão ficar atento e sempre se atualizar, ver o que está acontecendo no mercado, os conteúdos, participar de feiras, etc. Com isso, ele descobre nichos de mercado que não estão sendo explorados”, orienta.

HORA DE OUSAR MAIS

Na opinião de Adriana do Sebrae­ SP, à medida que o negócio cresce e necessita aumentar a capacidade produtiva gerando emprego e renda, a participação em feiras permite ampliar a divulgação e cria oportunidade de venda para lojistas também. “Participar de feiras de artesanato representa grande oportunidade de mostrar sua arte. Em São Paulo, por exemplo, aconteceu a primeira edição da Feira de Artesanato Brasil Original, em outubro, no Anhembi, com a participação de 31 expositores de todo o Brasil, gerando mais de 2,9 milhões em negócios em quatro dias de evento”, mostra.

Segundo ela, o processo de curadoria aconteceu em todo o Brasil para seleção dos artesãos expositores “Com critérios bem definidos, selecionamos 24 expositores de São Paulo, a partir de análise de técnicas e materiais empregados no artesanato que retrate a cultura das cidades participantes”, afirma.

Eder Machado diz que toda exposição é válida, sim. Mas o que o empreendedor precisa avaliar é o retorno sobre esse investimento. Se a feira tiver um custo de R$1.000,00 e o retorno for de R$900,00, não vale a participação. Mas se resultar em R$1.100,00 já valerá, pois, o retorno é baixo, mas a divulgação é um ponto positivo. “Dependendo do custo, para aquele que está começando, participar de feiras grandes poderá ser oneroso. Mas se for uma feira local no bairro, vale a pena. Tem que avaliar caso a caso”, indica.

Panfletos, redes sociais, feiras, jornais locais, blog e WhatsApp também são boas formas de divulgação. Além disso, firmar parcerias com lojas no bairro, salões de beleza ou com amigos não é uma ideia ruim. Mas é preciso avaliar se todos sairão ganhando.

Por fim, o especialista diz que o artesanato está no começo de um novo tempo, passando por transformações muito positivas. “Está deixando de lado o amadorismo. E aquele que não se profissionalizar, não buscar o diferencial, seja na sua técnica, no se u trabalho ou na gestão do seu negócio, vai ficar para trás. Por isso, para quem tem esse sonho, vale a pena, comece, busque o seu objetivo, coloque-o em prática e trabalhe para isso”, conclui.

6 PASSOS PARA QUEM QUER ABRIR UM NEGÓCIO COM ARTESANATO

 1 – Obtenha segurança para começar a empreender, por meio de informação e conhecimento. Pesquise o mercado.

2 – Faça um teste inicial dos seus produtos para avaliar se as pessoas gostam e o que pode aprimorar. Comece a produzir oferecendo para amigos e familiares.

3 – Faça um planejamento básico, apenas para definir as ações iniciais, como a forma que vai trabalhar, quanto pretende faturar no início, quanto precisa de matéria, quanto consegue produzir por dia (horas x dia).

4 – Faça acontecer, coloque em prática definitivamente. Monte o espaço em casa, vá à compra dos produtos, etc. Às vezes, não acaba fazendo por postergar demais.

5 – Supere as adversidades. Erros vão acontecer, mas entenda que isso faz parte do processo de aprendizado. Quem vence é aquele que, mediante a falha, não desiste, mas busca alternativas.

6 – Empenhe-se sempre. Se não o fizer, não terá resultados. E não deixe o pessimismo acabar com a sua motivação. Esteja cercado por pessoas que valorizam o seu trabalho, essas ações resultam em resultados positivos. Não adianta ter dinheiro se tem a falta de motivação.

 

COMO COBRAR PELO SEU TRABALHO

TÉCNICAS COM BAIXÍSSIMO CUSTO DE MATÉRIA-PRIMA

Nesse caso é aplicado quando a técnica trabalhada possui baixo custo com matéria-prima (exemplo: tricô e crochê). Aqui o artesão deve definir quanto vale a sua hora de trabalho (o que varia em função de sua experiência, capacitação, habilidade, reconhecimento no mercado, etc.) e cobrar em função das horas trabalhadas.

OUTRAS TÉCNICAS

Nesse caso o artesão deve considerar, basicamente, o custo variável, fixo e lucro desejado. O custo variável é o custo que terá em função da quantidade de peças produzidas. Ou seja, quanto mais peças fizer, mais linha, tecido, massa, entre outros, irá gastar. O custo fixo é o custo existente independentemente de peças produzidas. Exemplo: Hospedagem mensal da loja virtual e aluguel do ateliê.

O lucro é a porcentagem de ganho em cada peça. Essa margem vai variar em função da técnica, concorrência, preço de mercado.

Obs.: Um erro comum dos artesãos que trabalham em casa é acharem que não têm custos fixos, na verdade, o custo existe, só que geralmente ele não está pagando (o custo entra nas despesas da casa).

 

EDER MACHADO – Facilitador do processo de empreendimentos artesanais.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 23: 34-39

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A Culpa e a destruição de Jerusalém

Nós deixamos os guias cegos caídos na vala, sob a condenação de Cristo, na condenação do inferno; vejamos o que acontecerá com os seguidores cegos do povo judeu, e em especial, com Jerusalém.

I –  Jesus Cristo deseja ainda testá-los com os meios da graça: “Eu vos envio profetas, sábios e escribas”. A conexão é estranha. “Vós sois uma ‘raça de víboras’, provavelmente não escapareis “da condenação do inferno”; poderíamos pensar que a seguir viria: “Portanto, nunca mais haverá um profeta enviado a vós”. Mas não: “Portanto, ‘eu vos envio profetas’, para ver se finalmente ainda podeis ser transformados, ou para vos considerar imperdoáveis e para justificar a Deus, que vos designará a ruína”. Portanto, aqui está a introdução com uma observação: “eis que”. Considere que:

1. É Cristo quem os envia: “eu vos envio”. Com isso, Ele declara que é Deus, que tem poder para dotar e comissionar profetas. É um ato de Rei. Ele os envia como embaixadores, para tratar conosco dos problemas das nossas almas. Depois da sua ressurreição, Ele cumpriu essa promessa, quando disse que estava enviando os discípulos (João 20.21). Embora, naquele momento, o Senhor estivesse revestido de uma aparência humilde, a Ele havia sido confiada essa grande autoridade.

2. Ele os enviou primeiro aos judeus: “Eis que eu vos envio”. Eles começaram em Jerusalém e, aonde quer que fossem, eles observavam esta regra, de estender a oferta da graça do Evangelho primeiro aos judeus (Atos 13.46).

3. Aqueles que Ele envia são chamados de “profetas”, “sábios” e “escribas”. Nomes do Antigo Testamento para agentes do Novo Testamento; para mostrar que os ministros enviados a eles então não seriam inferiores aos profetas do Antigo Testamento, nem ao sábio Salomão, nem a Esdras, o escriba. Os ministros extraordinários, que, nos primeiros tempos, eram inspirados divinamente, eram como os profetas comissionados diretamente do céu; os ministros normalmente nomeados, que existiam naquela época, e ainda continuam na igreja, e continuarão até o fim dos tempos, são como os sábios e escribas, para guiar e instruir as pessoas nos assuntos de Deus. Ou podemos interpretar os apóstolos e evangelistas como sendo os profetas e sábios, e os pastores e professores como sendo os escribas, “instruídos acerca do Reino dos céus” (cap. 13.52), pois o ofício de um escriba era honroso até que os homens o desonraram.

II – Jesus prevê e prediz o mau tratamento que os seus mensageiros irão encontrar entre os escribas e fariseus. “‘A uns deles matareis e crucificareis’. E ainda assim, Eu os enviarei”. Cristo sabe de antemão como os seus servos serão maltratados e ainda assim Ele os envia, e atribui a cada um a sua medida de sofrimentos. Mas Ele não os ama menos, para expô-los dessa maneira, pois Ele deseja glorificar a si mesmo através dos sofrimentos deles, e assim eles também serão glorificados com Ele. Ele irá contrabalançar os sofrimentos, embora não os evite. Observe:

1. A crueldade desses perseguidores: ”A uns deles matareis e crucificareis”. Eles não têm sede de nada além do sangue, o sangue da vida; o seu desejo não se satisfaz com nada, exceto a destruição daqueles enviados por Deus (Êxodo 15.9). Eles mataram os dois Tiagos, crucificaram Simão, o filho de Clopas, e espancaram Pedro e João; assim os membros participaram dos sofrimentos da Cabeça. Jesus foi morto e crucificado, e eles também. Os cristãos devem esperar “resistir até ao sangue”.

2. O seu esforço incansável. “E os perseguireis de cidade em cidade”. A medida que os apóstolos iam de cidade em cidade, para pregar o Evangelho, os judeus os desviavam, e perseguiam, e suscitavam perseguição contra eles (Atos 14.9; 17.13). Aqueles que não criam, na Judéia, eram inimigos mais amargos do Evangelho que qualquer outro incrédulo (Romanos 15.31).

3. O pretexto de religião nessas atividades: ”A outros deles açoitareis nas vossas sinagogas”. A sinagoga era o seu lugar de adoração, onde eles mantinham as suas cortes eclesiásticas; assim, eles faziam como se fosse um serviço religioso; expulsavam-nos e diziam: “O Senhor seja glorificado” (Isaias 66.5: João 16.2).

III – O Senhor lhes atribui os pecados dos seus pais, porque eles os imitavam: “Para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra” (vv. 35,36). Embora Deus tolere por muito tempo uma geração perseguidora, Ele não a tolerará para sempre. O abuso da paciência produz uma ira muito maior. Quanto mais tempo os pecadores vierem acumulando tesouros de iniquidade, mais profundos e completos serão os tesouros da ira; e a sua destruição será como a destruição das fontes profundas.

Considere:

1. A extensão dessa atribuição: ela inclui todo o sangue dos justos, derramado sobre a terra, isto é, o sangue derramado em nome da justiça, que foi todo acumulado no tesouro de Deus, e nem uma gota dele se perdeu, pois é precioso (Salmos 72.14). Ele começa o registro com “o sangue de Abel, o justo”, pois então esta era de mártires começou; ele é chamado de ”Abel, o justo”, pois ele “alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons” (Hebreus 11.4). Como o martírio entrou cedo no mundo! O primeiro que morreu, morreu pela sua religião, e “depois de morto, ainda fala”. O seu sangue não somente gritou contra Caim, mas continua a gritar contra todos os que trilham o caminho de Caim, e odeiam e perseguem o seu irmão, porque as suas obras são justas. Ele acrescenta a ele o “sangue de Zacarias, filho de Baraquias” (v. 36), não o profeta Zacarias (como alguns interpretaram), embora ele fosse filho de Baraquias (Zacarias 1.1), nem Zacarias, o pai de João Batista, como dizem outros; mas, como é mais provável, Zacarias, o filho de Joiada, que foi morto “no pátio da casa do Senhor” (2 Crônicas 24.20,21). O seu pai é chamado Baraquias, que tem o mesmo significado que Joiada, e é usual entre os judeus que a mesma pessoa tenha dois nomes: “que matastes”, ou seja, os desta nação, embora não desta geração. Isto é especificado, porque essa exigência foi especificamente mencionada (2 Crônicas 24.22), como também no caso da de Abel. Os judeus imaginavam que o cativeiro tinha sido suficiente para expiar a culpa, mas Cristo lhes comunica que esta ainda não havia sido completamente expiada, e assim permanecia a contagem de anos. E alguns pensam que isso é mencionado com uma indicação profética, pois houve um Zacarias, o filho de Baruque, de quem Josefo falou (War, liv. 5, cap. 1), que foi um homem bom e justo, e que foi morto no Templo pouco antes da sua destruição pelos romanos. O arcebispo Tillotson opina que Cristo faz uma alusão à história do primeiro Zacarias, das Crônicas, e, ao mesmo tempo, prevê a morte desse posterior, mencionado por Josefo. Embora o segundo tenha sido assassinado pouco antes que viesse a destruição, é verdade que eles o teriam assassinado, de modo que tudo deve ser computado em conjunto, desde o primeiro até o último.

2. O efeito: “Todas essas coisas hão de vir”; toda a culpa desse sangue, todo o seu castigo, tudo isto virá sobre esta geração. A desgraça e a ruína que viriam sobre eles seriam tão grandes que, embora considerando o mal dos seus próprios pecados, pareceriam um somatório geral de toda a maldade dos seus ancestrais, especialmente das suas perseguições, com as quais Deus declara que essa ruína tem uma relação especial. A destruição será tão terrível, que será como se Deus os tivesse, de uma vez por todas, condenado, por todo o sangue dos justos que foi derramado no mundo. “Todas essas coisas hão de vir sobre esta geração”, o que dá a entender que virão rapidamente; alguns deles estariam vivos para ver isso. Observe que, quanto mais doloroso e próximo estiver o castigo do pecado, mais alto será o chamado para o arrependimento e a correção.

IV – Jesus lamenta a maldade de Jerusalém, e corretamente os lembra dos muitos tipos de ofertas que Ele lhes tinha feito (v. 37). Veja com que preocupação Ele fala da cidade: “Jerusalém, Jerusalém”. A repetição é enfática, e evidencia abundância de compaixão. Um dia ou dois antes disso, Cristo havia chorado por Jerusalém, agora Ele suspirava e gemia por ela. Jerusalém, o lugar de Paz (que é o que o nome significa), seria lugar de guerra e confusão. Jerusalém que tinha sido “o gozo de toda a terra”, seria então um assobio, e um espanto, e um provérbio. Jerusalém, que tinha sido uma cidade unida, seria então destruída pelos próprios tumultos internos. Jerusalém, o lugar que Deus tinha escolhido para ali colocar o seu nome, seria abandonada à pilhagem e aos ladrões (Lamentações 1.1; 4.1). Mas por que o Senhor irá fazer tudo isso a Jerusalém? Por quê? “Jerusalém gravemente pecou” (Lamentações 1.8).

1. Ela perseguiu os mensageiros de Deus: “Matas os profetas e apedrejas os que te são enviados”. Jerusalém é especialmente acusada desse pecado, porque ali ficava o sinédrio, ou o grande conselho, que considerava as questões da igreja, e por isso um profeta não poderia morrer fora de Jerusalém (Lucas 13.33). É verdade que eles não tinham então o poder de condenar nenhum homem à morte, mas eles matavam os profetas em meio a tumultos, cercavam-nos, como fizeram com Estêvão, e mobilizavam as autoridades romanas para matá-los. Em Jerusalém, onde o Evangelho foi pregado pela primeira vez, também ali foi perseguido pela primeira vez (Atos 8.1), e naquele lugar estava o quartel-general dos perseguidores; dali, eram emitidas ordens a outras cidades, e para ali, os santos eram trazidos presos (Atos 9.2). O “apedrejamento” era uma sentença de morte usada somente entre os judeus. Segundo a lei, os falsos profetas e os enganadores deviam ser apedrejados (Deuteronômio 13.10), e usando a mesma lei, eles levavam à morte os verdadeiros profetas. Observe que o artifício de Satanás sempre foi voltar contra a igreja a mesma artilharia que foi originalmente plantada em defesa dela. Marque os verdadeiros profetas como sendo enganadores, e os que professam verdadeiramente a religião como sendo hereges e cismáticos, e será fácil persegui-los. Havia abundância de outros tipos de maldade em Jerusalém, mas esse era o pecado que mais se evidenciava, e o pecado mais visado por Deus ao trazer sobre eles a destruição, como visto em 2 Reis 24.4; 2 Crônicas 36.16. Observe que Cristo fala no tempo presente do verbo: “matas… e apedrejas”; pois tudo o que eles tinham feito, e tudo o que ainda iriam fazer, era do conhecimento de Cristo.

2. Ela recusou e rejeitou a Cristo, e às ofertas do Evangelho. Essa primeira atitude era um pecado sem remédio; a segunda, era o mesmo que agir contra o remédio. Aqui temos:

(1)  A maravilhosa graça de Cristo para eles: “Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas”. As ofertas da graça do Evangelho são assim generosas e condescendentes, até mesmo para os filhos de Jerusalém; embora esta cidade fosse má, os seus habitantes, os pequeninos, não foram excluídos.

[1] A graça proposta era a reunião dessas pessoas. O desejo de Cristo é reunir as pobres almas, reuni-las, removendo-as de suas perambulações, trazê-las para casa, para si, como o centro da unidade, pois “a ele se congregarão os povos”. Ele teria levado toda a nação judaica à igreja, e assim os teria reunido a todos (assim como os judeus costumavam falar de prosélitos) sob as asas da Divina Majestade. Isto é aqui exemplificado por uma analogia simples: “como a galinha ajunta os seus pintos”. Cristo os teria reunido, em primeiro lugar, com um afeto terno, como o da galinha, que tem, por instinto, uma preocupação particular pela sua cria. O desejo de Cristo de reunir as almas vem do seu amor (Jeremias 31.3). Em segundo lugar, com o mesmo objetivo. ”A galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas”, para a proteção e a segurança deles, assim como calor e conforto. As pobres almas têm em Cristo abrigo e também alívio. Os pintinhos, quando são ameaçados por aves de rapina, correm naturalmente para a galinha, à procura de abrigo; talvez Cristo se refira a esta promessa (Salmos 91.4): “Ele te cobrirá com as suas penas”. Cristo trará salvação “debaixo das suas asas” (Malaquias 4.2); isto é mais do que a galinha pode fazer pelos seus pintinhos.

[2] A presteza de Cristo em conceder essa graça. As suas ofertas são, em primeiro lugar, inteiramente gratuitas. “Quis eu”. Jesus Cristo está verdadeiramente disposto a receber e salvar as pobres almas que vêm até Ele. Ele não deseja a sua destruição, mas se alegra com o seu arrependimento. Em segundo lugar, muito frequentes. “Quantas vezes”. Cristo frequentemente vinha a Jerusalém, pregando e realizando milagres ali. E o significado de tudo isso era que Ele gostaria de tê-los reunido. Ele registrou quantas vezes os seus chamados foram repetidos. Cada vez que ouvimos o som do Evangelho, cada vez que sentimos os esforços do Espírito, também podemos entender que Cristo está nos trazendo para mais perto de si.

[3] A rejeição voluntária da graça de Jesus por parte de Jerusalém: “Tu não quiseste!” Com que ênfase a sua teimosia se opõe à misericórdia de Cristo! “Quis eu… e tu não quiseste”. Ele desejava salvá-los, mas eles não queriam ser salvos por Ele. Observe que o fato de os pecadores não serem reunidos sob as asas do Senhor Jesus se deve exclusivamente às suas más intenções. Eles não gostaram dos termos nos quais Cristo se propôs a reuni-los; eles adoravam os seus pecados e também tinham certeza de que eram justos; eles não se sujeitariam nem à graça de Cristo, nem ao seu governo, e assim se rompeu a tentativa de acordo.

V – Ele fala do destino de Jerusalém (vv. 38,3 9): “Eis que a vossa casa vos ficar á deserta “. Tanto a cidade quanto o Templo, a casa de Deus e as casas dos habitantes, tudo seria arrasado. Mas o significado particular diz respeito ao Templo, de que eles se orgulhavam e que lhes tinha sido confiado; aquele monte sagrado, que os fazia tão arrogantes. Observe que aqueles que não forem reunidos pelo amor e pela graça de Cristo serão consumidos e espalhados pela sua ira: “Quis eu… e tu não quiseste”. “Israel não me quis. Pelo que eu os entreguei aos desejos do seu coração” (Salmos 81.11,12).

1. A casa deles ficará deserta: ”A vossa casa vos fica­ rá deserta”. Cristo estava então saindo do Templo, e nunca mais voltou a ele, mas, com essas palavras, o entregou à destruição. Eles teriam aquele Templo para si mesmos. Cristo não tinha lugar ali, nem se interessavam por Ele. “Bem”, disse Jesus, “o Templo então fica com vocês; façam bom proveito dele; nunca mais terei alguma coisa a ver com ele”. Eles tinham feito do Templo uma “casa de vendas”, e um “covil de ladrões”, e assim sendo, ficaria para eles. Pouco tempo depois disso, ouviu-se a voz no Templo: “Vamos partir daqui”. Quando Cristo partiu, “Icabô, foi-se a glória”. A cidade também foi deixada para eles, destituída da presença e da graça de Deus. Ele já não era mais um muro de fogo ao redor deles, nem a glória entre eles.

2. Ela ficará desolada: ” vos ficará deserta”. Ela ficará ermos um deserto.

(1)  Imediatamente depois da partida de Cr isto, o Templo se tornou, aos olhos de todos aqueles que não estavam fora de si, um lugar muito triste e melancólico. A partida de Cristo transforma o lugar mais bem enfeitado e abastecido em um deserto, mesmo em se tratando do Templo, o lugar para onde afluía o maior número de pessoas. Pois que consolo pode haver em um lugar onde Cristo não está? Embora possa haver ali uma multidão com outros contentamentos, se a presença espiritual especial de Cristo não estiver ali, aquela alma, aquele lugar, se torna um deserto, uma terra de trevas, como as próprias trevas. Isto é o resultado dos homens rejeitando a Cristo, e afastando-o de si.