PSICOLOGIA ANALÍTICA

O INFERNO RECORRENTE DO TOC

Para o transtorno obsessivo-compulsivo, que leva o portador a cumprir tarefas repetitivas, medicamentos e psicoterapia cognitivo-comportamental são suficientes.

O inferno recorrente do toc

Pessoas que sofrem de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) em geral percebem que há algo errado consigo próprias. O diagnóstico preciso, porém, muitas vezes demora. E, depois de identificada a patologia, o caminho ainda é atribulado, o paciente esconde a doença ou não ousa falar dela, e os colegas não entendem seu sofrimento.

Existem diferentes tipos de TOC e modalidades diversas de tratamento. No quadro da terapia cognitivo-comportamental, por exemplo, o médico avalia, antes de mais nada, o tempo perdido nas tarefas repetitivas e prescreve algo para aliviar os sintomas. Tenta identificar as obsessões mais frequentes, anotando-as em uma escala de intensidade que vai de O a 100. Então, ensina o paciente a gerir as situações ansiogênicas, geradoras de obsessão, começando pelas mais “fáceis”.

Cerca de 10% da população sofre de TOC, e a incidência em homens e mulheres é semelhante. Para a maioria os primeiros sinais aparecem no final da adolescência ou no início da idade adulta, embora possa se manifestar em crianças. Segundo a gravidade dos sintomas, o transtorno terá repercussões importantes na vida cotidiana do indivíduo. Nos casos extremos, o dia todo é ocupado por obsessões e com pulsões reincidentes. Atividade profissional, estudos e relacionamento social ficam prejudicados. O transtorno se manifesta de maneiras bastante variadas. Laura teme matar o seu bebê desde o dia em que imaginou deixa-lo cair da sacada de seu apartamento. Ela não fica mais sozinha com a criança com medo de lhe fazer mal e verifica inúmeras vezes se as janelas estão bem fechadas. Gerson está obcecado com a ideia de ter sido amaldiçoado depois de desejar uma moça que viu na rua. Ele reza sempre que tem pensamentos obscenos. Beatriz toma um banho de uma hora ao voltar do restaurante onde trabalha como atendente, pois tem medo de contaminação. Daniel parou de dirigir porque quando guiava, ao menor barulho diferente pensava ter atropelado alguém. Em todos esses casos, o temor maior é ser responsável por alguma catástrofe.

O paciente de TOC é capaz de reconhecer que as obsessões são produto psíquico, e isso agrava seu tormento. Ideias, pensamentos, impulsos ou representações persistentes causam grande ansiedade e sofrimento.  As obsessões mais frequentes são medo de contaminação (infectar-se ao apertar a mão de alguém), dúvida impertinente (perguntar-se repetidas vezes se apagou a luz antes de sair), necessidade extrema de organização (sofrer se os livros estão desalinhados na estante ou fora de ordem alfabética), medo de sentir impulsos agressivos ou escandaloso ( fazer mal a um filho ou gritar obscenidades na igreja), recorrência de fantasias sexuais.

Todos temos obsessões, mas habitualmente, as afastamos e as esquecemos. No quadro de TOC, o paciente não consegue, Ele tenta neutralizar as obsessões com rituais compulsivos: o indivíduo atormentado pela dúvida de ter desligado corretamente o forno tenta dirimir a incerteza verificando repetidamente se o desligou mesmo.

As compulsões são comportamentos repetitivos (por exemplo, lavar as mãos 30 vezes por dia) ou atos mentais (contar ou repetir palavras várias vezes ao dia) que visam prevenir ou reduzir a ansiedade e o sofrimento, e não obter prazer ou satisfação. Na maior pane dos casos, a pessoa se sente impelida a realizar um ato compulsivo para reduzir o sofrimento que acompanha sua obsessão ou para prevenir o acontecimento temido, indivíduos maníacos por contaminação, podem aliviar sua angústia lavando as mãos até que fiquem em carne viva.

Mania de limpeza, contagem, obsessiva, necessidade de se reassegurar de algo, repetição de atos e organização de objetos em determinada ordem estão entre as mais frequentes compulsões.

CAUSAS FISIOLÓGICAS

A causa precisa desse distúrbio é ignorada. Fatores genéticos podem desempenhar papel importante, mas não parecem determinantes. Diversos estudos apontam para a participação de anomalias em certos circuitos cerebrais, outros sugerem predisposições ligadas a elementos de personalidade. É bem provável que não exista uma única causa. A hipótese mais aceita para a motivação dos transtornos é a combinação de fatores fisiológicos, psicológicos e sociais.

Do ponto de vista fisiológico, ocorre diminuição da quantidade de neurotransmissores, notadamente a serotonina. Certa predisposição psicológica ou personalidade vulnerável podem contribuir para que os sintomas apareçam. Problemas de relacionamento social (isolamento e dificuldade de fazer amigos) completam o quadro de motivações. O cruzamento desses três tipos de fatores expõe o indivíduo ao risco de desenvolver TOC. No âmbito dos distúrbios psíquicos é raro que o quadro da doença esteja ligado a uma única causa. Guilherme, por exemplo, tem antecedentes familiares de depressão, consome álcool com frequência e perdeu o emprego recentemente. O ambiente age sobre o indivíduo e influi em comportamentos e reações.

A abordagem escolhida pelo psiquiatra, psicoterapeuta ou psicólogo precisa considerar o paciente de maneira global. Devem ser levados em conta fatores fisiológicos, relações sociais e interações entre emoção, comportamento e história pessoal. Cada um dos três componentes (fisiológico, psicológico e social) demanda atenção particular. Estudos mostram que tratamentos apenas psicoterapêuticos ou exclusivamente medicamentosos não dão resultado satisfatório.

A melhor maneira de tratar o TOC é a prescrição de medicamentos, que agem sobre o componente fisiológico do distúrbio associada a terapia individual ou em grupo. Diagnóstico precoce e tratamento adaptado ao caso aliviam o sofrimento e ajudam o paciente a gerir ele próprio o transtorno. Abordagem adequada evita depressão (comum devido ao caráter limitador dos sintomas) e favorece a manutenção da vida social do indivíduo.

Infelizmente, o TOC com frequência é mal diagnosticado. Isto se deve em parte ao fato de que muitas pessoas atingidas têm vergonha de sua condição e a dissimulam, ou nem mesmo acreditam estar doentes. Clínicos gerais nem sempre conhecem o problema. Medicamentos e terapia cognitivo-comportamental, conjuntamente costumam surtir efeito. Antidepressivos permitem aumentar a concentração de serotonina em algumas regiões do cérebro, e a terapia cognitiva visa trabalhar comportamentos recorrentes e pensamentos obsessivos.

A terapia procura expor progressivamente o indivíduo às situações que causam ansiedade. No início, pede-se ao paciente que imagine situações que poderiam desencadear a compulsão. Ele começa com cenas que causam angústia moderada e passa a situações que tenha cada vez mais dificuldades de suportar. A cada etapa, com a ajuda do terapeuta a pessoa ganha capacidade de lidar com a ansiedade. Em seguida, é exposta a situações reais, segundo o mesmo princípio progressivo. Aos poucos, aprende a resistir às compulsões e a controlar a angústia.

O trabalho cognitivo permite modificar crenças e imagens psíquicas. Crenças podem ser conscientes ou inconscientes, e são frequentemente ligadas a quadros de culpa e responsabilidade. O terapeuta chama a atenção do paciente para certos pensamentos e o ajuda a modificá-los. O caráter irracional das convicções do indivíduo é sublinhado. Finalmente, o sujeito enfrenta a realidade, a fim de se dar conta de que seus medos eram injustificados (“apesar de não lavar as mãos 30 vezes seguidas, não fui contaminado”).

O TOC pode ter consequências muito negativas na vida social e moral do indivíduo, sobretudo quando ignoramos que se trata de doença frequente na população, mas que pode ser tratada. O TOC não é sinal de fraqueza ou defeito. Diagnóstico preciso é o primeiro passo para a abordagem adequada do problema e o retorno à vida normal.

 

JERÓME PALAZZOLO – é psiquiatra do centro hospitalar Sainte-Marie, em Nice, França, e professor de antropologia social da saúde da Universidade Senghor, em Alexandria, Egito.

OUTROS OLHARES

O PERIGO DOS REMÉDIOS FALSOS

Cerca de10% dos fármacos vendidos em países pobres e em desenvolvimento, como o Brasil, são adulterados, segundo a OMS. O uso desses medicamentos provoca sérios danos à saúde.

O perigo dos remédios falsos

Um em cada dez medicamentos comercializados em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento é de qualidade inferior ou falsificado. É o que aponta o relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre os fármacos mais adulterados estão os de combate à malária e os antibióticos.

O número é alarmante e chama atenção para um mercado clandestino que cresce e movimenta cerca de US$ 30 bilhões por ano no mundo. No Brasil, as apreensões de remédios irregulares pela Policia Federal são frequentes, mas nenhum órgão envolvido na questão, incluindo aqui a própria PF e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), sabem dizer qual o tamanho do problema A única referência que se tem por aqui vem de um relatório da OMS de 2015. Segundo a entidade, 19 % dos produtos farmacêuticos vendidos no País são ilegais: ou são falsos ou adulterados, ou seja, ineficazes, ou roubados, o que na maioria dos casos quer dizer que podem ter sido violados ou estão com validade vencida, por exemplo,

O uso de produtos assim agrava doenças e pode levar à morte. De acordo com a OMS, 72 mil mortes de crianças por pneumonia podem ser atribuídas ao uso de antibióticos com atividade reduzida, total que sobe para 169 mil mortes se os remédios forem inócuos. Além disso, alguns componentes adulterados podem provocar alergias graves. ”Criminosos utilizam corantes como o iodo para amarelar os remédios”, afirma Anthony Wong, diretor médico do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas de São Paulo. ‘Isso é extremamente tóxico.”

Depois de anos de atrasos, em 2016 foi sancionada no Brasil urna nova lei de rastreabilidade de remédios, permitindo o acompanhamento pela Anvisa do caminho das medicações de sua fabricação até o consumidor. A legislação estabeleceu o prazo de quatro anos e oito meses para inicio do programa a partir de sua regulamentação, ocorrida só em agosto de 2017. “Há muita demora nesses prazos de adequação”, critica José Luís Miranda, coordenador da assessoria técnica do Conselho Federal de Farmácia. “O sistema atual é sujeito a fraudes e permite um número alto de falsificação”, lamenta.

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GESTÃO E CARREIRA

AS 6 CONFUSÕES QUE OS PROFISSIONAIS NÃO PODEM COMETER NA EMPRESA

As 6 confusões

Quem não quer trabalhar em uma empresa legal, divertida, com ambiente bacana, clima acolhedor e cheia de energia e oportunidades? Existem empresas assim, mas o que não lhe contaram é que ainda é a minoria. Na maioria das empresas (aquelas por onde tramito todos os dias) o clima diário é um pouco diferente dos posts da internet.

Ultimamente observo muitos jovens buscando esse tipo de ambiente para dedicar seu precioso tempo de trabalho. Isso não tem nada de errado, porém vejo também que há uma enorme falta de clareza sobre a vida real que todos temos que enfrentar hoje em dia.

É crescente o número de profissionais que esperam das empresas, dos chefes, dos clientes, do mundo uma compreensão quase como a de um pai super protetor ou de uma mãe carinhosa.

Só que o mundo corporativo não funciona assim! A frustração tem sido resultado na vida profissional de muitos jovens que vêm me procurar para fazer processo de coaching em uma atitude desesperada para entender por que o mundo não os vê com os mesmos olhos de seus pais.

Vamos voltar ao básico do trabalho do que realmente significam algumas regras que não estão escritas em nenhum lugar, mas que regem o ambiente de trabalho quando falamos sobre relacionamento e comportamento:

1. NÃO CONFUNDA CHEFE BOM COM CHEFE BOBO: Sim! Conheço inúmeros chefes bons por aí. Chefe bom é aquele que tem empatia, o ouve, compreende suas dificuldades, cobra e ensina você. Muitos profissionais (e não me refiro somente aos jovens) confundem essa bondade do chefe e abusam, não entregando resultados na empresa. Funcionário está na empresa para facilitar a vida do chefe e vice-versa: o chefe também está lá para facilitar que desempenhe bem seu trabalho. Se cada um assumisse essa responsabilidade, não teríamos tantos problemas no dia a dia.

2. NÃO CONFUNDA SEU CHEFE COM SEU AMIGO: Ter bom relacionamento é uma coisa, e eu recomendo a todos, porém amizade são “outros quinhentos”. Amigo é aquele que está do seu lado não importa o que aconteça. Seu chefe é aquele que está lá para gerar resultado com seu trabalho não importa o que aconteça. É possível ser amigo do chefe? Claro que sim! Se esse for o seu caso, parabéns, saiba que é um privilegiado.

3. NÃO CONFUNDA SEU CHEFE COM SEU INIMIGO: O papel do seu chefe é gerar resultado através das pessoas. Para isso, controle, organização e cobrança serão necessários. Isso não quer dizer que ele seja seu inimigo, ele só está cumprindo seu papel. Seu chefe joga com você e não contra você! Ele jamais saberá de tudo no trabalho e por isso que você faz parte da equipe. Ajudem uns aos outros.

4. NÃO CONFUNDA COBRANÇA COM ASSÉDIO MORAL: Há confusão insana que qualquer coisa dita pelo chefe na empresa que desagrade ao funcionário é assédio moral. Mas é só quando há exposição dos trabalhadores a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções. A cobrança de um trabalho é função do líder, e sua obrigação como colaborador é entregar o trabalho conforme combinado.

5. NÃO CONFUNDA SEU TRABALHO COM O CLUBE DOS AMIGOS: Não os escolhemos e não importa de quem gostamos no trabalho, precisamos trabalhar com eles.

O risco que corre de achar que a empresa é um clube é de tropeçar na carreira por considerar que o “gostar” entra nas relações corporativas. Já vi profissionais prejudicarem suas próprias carreiras recusando-se a cooperar com pessoas às quais têm aversão, também já observei inúmeras vezes líderes não contratarem pessoas das quais não gostam.

No ambiente de trabalho, temos apenas conhecidos, indivíduos com quem podemos ter uma boa relação de trabalho, mas lembre-se: a palavra-chave aqui é trabalho.

6. NÃO CONFUNDA COMPETIÇÃO COM INIMIZADE: Dentro da empresa é necessário cooperar ao invés de competir. Apesar de competirmos com a concorrência, de certa forma também competimos internamente na empresa, mas isso não significa levarmos para o lado da inimizade. Sabe aquele colega de trabalho que fica ao seu lado? Pois bem, ele, assim como você, está buscando cargo melhor na empresa. Não sei se já reparou, mas não existem lugares de diretores e presidentes para todo mundo! Mesmo que o clima seja de competição, não leve para o lado pessoal.

Saber o ponto de equilíbrio entre relacionar-se bem, manter-se focado no resultado trabalhando com qualquer pessoa (independentemente se gosta dela ou não) pode ser segredo para o sucesso. Confundir essas questões comportamentais é receita infalível para o fracasso.

 

DANIELA DO LAGO – é especialista em comportamento no trabalho, mestre em administração, coach de carreira, palestrante e professora na área de liderança e gestão de pessoas. http://www.danieladolago.com.br

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 23: 13-33 – PARTE III

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Os Crimes dos Fariseus 

 

VII – Eles fingiam sentir muito carinho pela lembrança dos profetas que estavam mortos, enquanto odiavam e perseguiam aqueles que estavam com eles. Isso é deixado para o final, porque era a pior característica do seu caráter. Deus zela pela sua honra nas suas leis e cerimônias, e se ressente se elas forem profanadas e deturpadas, mas Ele frequentemente expressa um zelo igual pela sua honra nos seus profetas e ministros, e se ressente ainda mais se alguém os trata mal ou os persegue; portanto, quando o nosso Senhor Jesus chega a esse ponto, Ele fala mais completamente do que sobre qualquer outro (vv. 29-37); pois o que toca um de seus ministros, toca o seu ungido, e “toca na menina do seu olho”. Aqui, observe:

1. O respeito que os escribas e fariseus fingiam sentir pelos profetas que já estavam mortos (vv. 29,30). Este era o verniz, aquilo que lhes dava a aparência exterior de justos.

(1)  Eles honravam os restos mortais e relíquias dos profetas, edificavam os seus túmulos e adornavam os seus sepulcros. Aparentemente, os lugares onde estavam enterrados eram conhecidos, e a sepultura de Davi estava entre eles (Atos 2.29). Havia um título sobre a “sepultura do homem de Deus” (2 Reis 23.17), e Josias julgou que era suficientemente respeitoso não mover os seus ossos (v. 18). Mas eles faziam mais que isso, eles reconstruíam e adornavam os sepulcros. Considere, então:

[1] Como um exemplo da honra dada aos profetas mortos, que, enquanto viviam, eram considerados párias, e era dito falsamente, a seu respeito, todo o tipo de coisas ruins. Note que Deus pode arrancar, até mesmo de homens maus, um reconhecimento da honra da piedade e da santidade. Deus honrará aqueles que o honram; e às vezes o Senhor usará, para isto, aqueles de quem só se pode esperar o desprezo (2 Samuel 6.22). A memória dos justos é abençoada, enquanto os nomes daqueles que os odiavam e perseguiam é coberto de vergonha. A honra da constância e da determinação no caminho do dever será uma honra duradoura; e aqueles que agirem de acordo com a vontade de Deus serão manifestados na consciência daqueles que estão ao seu redor.

[2] Como um exemplo da hipocrisia dos escribas e fariseus, que lhes prestavam respeito. Observe que as pessoas carnais podem facilmente honrar as lembranças dos ministros fiéis que morreram, porque não podem censurá-los, nem perturbá-los, quanto aos seus pecados. Os profetas mortos eram videntes que não viam, e isso eles toleravam bem; eles não atormentavam os escribas e fariseus, como as testemunhas vivas o faziam, aquelas que dão testemunho com uma voz viva (Apocalipse 11.10). Eles podem respeitar os escritos dos profetas mortos, que lhes dizem o que eles deveriam ser: Que haja santos, mas que não vivam aqui. O respeito extravagante que a igreja de Roma presta à lembrança dos santos mortos, especialmente aos mártires, dedicando dias e lugares aos seus nomes, guardando os seus restos como relíquias, orando a eles e fazendo ofertas às suas imagens, enquanto se embriagam com o sangue dos santos da sua época, é uma prova manifesta de que eles não apenas sucederam, mas superaram os escribas e fariseus numa religião hipócrita e falsificada que edifica os sepulcros dos profetas, mas detesta a doutrina deles.

(2)  Eles protestaram contra o assassinato dos profetas (v. 30): “Se existíssemos no tempo de nossos pais, nunca nos associaríamos com eles”. Eles nunca teriam consentido em silenciar Amós, e aprisionar Micaías, ou prender Hanani ao tronco, e Jeremias na masmorra, apedrejar Zacarias, zombar de todos os mensageiros do Senhor e maltratar os seus profetas. Não. Não eles. Eles antes prefeririam perder suas mãos direitas a fazer qualquer dessas coisas. “Que é teu servo, que não é mais do que um cão?” E ainda assim, nessa ocasião, eles estavam planejando assassinar a Cristo, de quem todos os profetas haviam testificado. Eles pensavam que se tivessem vivido na época dos profetas, os teriam ouvido e obedecido alegremente, mas eles se rebelaram contra a luz que Cristo trouxe a este mundo. Porém é certo que um Herodes e uma Herodias para João Batista teriam sido como um Acabe e uma Jezabel para Elias. Note que a falsidade dos corações pecadores aparece muito no fato de que, embora eles acompanhem a corrente dos pecados da sua própria época, eles imaginam que teriam nadado contra a corrente dos pecados de antigamente. Apoiavam-se no fato de que, se tivessem tido as oportunidades de outras pessoas, as teriam aproveitado com mais lealdade; se tivessem passado pelas tentações de outras pessoas, teriam resistido a elas mais vigorosamente; mas eles não aproveitam as oportunidades que têm, nem resistem às tentações que sofrem. Às vezes, pensamos que se tivéssemos vivido quando Cristo estava na terra, nós o teríamos seguido com constância; não o teríamos desprezado e rejeitado, como eles fizeram. Mas Cristo, por meio do seu Espírito, da sua Palavra, e dos seus ministros, ainda não foi mais bem tratado.

2. A inimizade e oposição dos escribas e fariseus a Cristo e ao seu Evangelho, apesar disso, e a destruição que traziam a si mesmos e à sua geração (vv. 31-33). Considere:

(1)  A acusação provada: “Vós mesmos testificais”. Observe que os pecadores não podem esperar escapar ao julgamento de Cristo por falta de provas contra eles, quando é fácil encontrá-los testemunhando contra si mesmos; e as suas próprias alegações não somente serão rejeitadas, mas transformadas para a sua condenação, e as suas próprias línguas se voltarão “contra si mesmos” (Salmos 64.8 ).

[1] Pela própria confissão deles, a maior maldade dos seus antepassados foi matar os profetas; de modo que eles conheciam esse pecado, e foram culpados da mesma coisa. Observe que aquele que condena o pecado nos outros, e apesar disso permite o mesmo pecado, ou pior, em si, é, de todos os outros, o mais imperdoável (Romanos 1.32-2.1). Eles sabiam que não deviam ter sido parceiros dos perseguidores, contudo eram seus seguidores. Estas contradições agora irão se somar às condenações do grande dia. Cristo coloca outra construção sobre a edificação que fizeram nos sepulcros dos profetas, diferente da que eles pretendiam; pois, ao embelezar os sepulcros, eles esperavam estar justificando os seus assassinos (Lucas 11.48), porém estavam persistindo no pecado.

[2] Pela própria confissão deles, esses perseguidores notórios eram seus ancestrais: “Sois filhos dos que mataram os profetas”. Eles não queriam dizer nada além do fato de que eram seus filhos, por sangue e por natureza. Mas Cristo volta isso contra eles, pois eles o eram por espírito e disposição: Vocês são filhos desses pais, e assim satisfarão os desejos deles. Eles são, corno vocês dizem, seus pais, e vocês se parecem com seus pais, e este pecado é o que corre no sangue de vocês. “Vós sois como vossos pais” (Atos 7.51). Eles vieram de uma raça perseguidora, eles eram uma “semente de malignos” (Isaias 1.4), levantados em lugar de seus pais (Números 32.14). A maldade, a inveja e a crueldade nasciam com eles, e eles as tinham adotado como princípio, como seus pais tinham feito (Jeremias 44.17). E aqui se observa (v.30) com que cuidado eles mencionam a relação: “Eles eram nossos pais, que mataram os profetas, e eram homens de honra e poder, cujos filhos e sucessores somos nós”. Se eles tivessem detestado a maldade dos seus ancestrais, como deviam ter feito, não teriam se preocupado tanto em chamá-los de seus pais; pois não existe crédito em ser parente de perseguidores, embora eles tenham muita dignidade e domínio.

(2)  A condenação que eles recebem. Aqui:

[1] Cristo passa a entregá-los ao pecado, como pessoas incorrigíveis (v. 32): “Enchei vós, pois, a medida de vossos pais”. Se Efraim se uniu aos ídolos, e não deseja ser transformado, que seja abandonado. “Quem está sujo suje-se ainda”. Cristo sabia que eles estavam tramando a sua morte e que em poucos dias isto se realizaria. “Bem”, disse Ele, “continuai com o vosso plano, segui o vosso caminho, caminhai no caminho do vosso coração e segundo o que os seus olhos veem, e vede qual será o resultado. ‘O que fazes, faze-o depressa’. Vós apenas enchereis a medida da culpa, que irá transbordar num dilúvio de ira”. Observe que, em primeiro lugar, existe uma medida de culpa para ser preenchida, antes que a completa destruição caia sobre as pessoas e as famílias, as igrejas e as nações. Deus tolera muito tempo, mas chegará a ocasião em que Ele não mais poderá suportar (Jeremias 44.22). Nós lemos sobre a medida dos amorreus que devia ser cheia (Genesis 15.16), sobre a seara da terra já madura para a foice (Apocalipse 14.15-19), e sobre os pecadores tratando perfidamente, e acabando perfidamente tratados (Isaias 33.1). Em segundo lugar, os filhos enchem a medida dos pecados dos seus pais, depois de mortos, quando persistem no mesmo comportamento. Aquela culpa nacional que traz a destruição nacional é feita do pecado de muitos, em diversas épocas, e nas sucessões das sociedades existe um placar em andamento; pois Deus adequadamente examina a iniquidade dos pais nos filhos que seguem os seus passos. Em terceiro lugar, perseguir a Cristo, e ao seu povo e aos seus ministros, é um pecado que enche a medida da culpa de uma nação mais depressa que qualquer outro. Foi isto que trouxe a ira sem remédio sobre os pais (2 Crônicas 36.16), e a máxima ira também sobre os seus filhos (1 Tessalonicenses 2.16). Essa era a quarta transgressão, da qual, quando acrescida às outras três, o Senhor “não retirará o castigo” (Amós 1.3,6,9,11,13). Em quarto lugar, é justo que Deus entregue essas pessoas aos desejos dos seus próprios corações, aquelas que tão obstinadamente persistem na gratificação desses desejos. Quanto àqueles que se precipitam à destruição, que as suas rédeas sejam enroladas aos seus pescoços, sendo esta a condição mais triste que um homem pode ter nesta vida, antes de ir para o inferno.

[2] O Senhor Jesus continua a entregá-los à destruição como irrecuperáveis, a uma destruição pessoal no outro mundo (v. 33): “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?” Estas eram palavras estranhas saídas da boca de Cristo, de cujos lábios se derramava a graça. Mas Ele pode falar de terror, e o fará, e nessas palavras Ele explica e resume os oito “ais” que tinha denunciado contra os escribas e fariseus.

Aqui está, em primeiro lugar, a sua descrição: “Ser­ pentes!” Cristo dirige insultos? Sim, mas isso não nos permite fazer o mesmo. Ele sabe, infalivelmente, o que há no homem, e sabia que eles eram sutis como serpentes, abrindo caminho sobre a terra, alimentando-se de pó; eles tinham uma aparência plausível, mas interiormente eram malignos, tinham veneno sob suas línguas, a semente da velha serpente. Eles eram uma “raça de víboras”, eles e os que tinham vindo antes deles. Eles e os que os acompanhavam eram uma geração de adversários envenenados, enfurecidos e malévolos de Cristo e do seu Evangelho. Eles amavam que os homens os chamassem “Rabi, Rabi”, mas Cristo os chama de “serpentes” e “víboras”, pois Ele dá aos homens as suas reais personalidades, e se alegra de desprezar os orgulhosos.

Em segundo lugar, a sua destruição. Jesus representa a condição deles como sendo muito triste, e de certa maneira, desesperada: “Como escapareis da condenação do inferno?” O próprio Cristo pregou o inferno e a destruição, pelo que os seus ministros sempre foram censurados por aqueles que não queriam ouvir falar deste assunto. Considere que:

1. A condenação do inferno será o temido fim de todos os pecadores impenitentes. Essa condenação vinda de Cristo era ainda mais terrível do que vinda de todos os profetas e ministros que já tinham vivido, pois Ele é o Juiz em cujas mãos estão “as chaves da morte e do inferno”. Ao dizer que eles estavam condenados, Ele os estava condenando.

2. Existe uma maneira de escapar dessa condenação, e está sugerida aqui; alguns serão salvos da ira futura.

3. Dentre todos os pecadores, aqueles que têm o espírito dos escribas e fariseus são provavelmente os que menos escaparão dessa condenação. Pois o arrependimento e a fé são necessários para escapar. E como é que o arrependimento e a fé serão trazidos a essas pessoas, que têm a si mesmas em tão elevado conceito, e têm tanto preconceito contra Cristo e o seu Evangelho? Como poderão ser curados e salvos, se não podem suportar que a sua ferida seja examinada, nem que o bálsamo de Gileade seja aplicado sobre ela? Os publicanos e as meretrizes, que conheciam a sua doença e procuravam o Médico, tinham mais probabilidade de escapar à condenação do inferno do que aqueles que, embora estivessem no caminho expresso para o inferno, estavam certos de que estavam a caminho do céu.