PSICOLOHGIA ANALÍTICA

MISTÉRIOS DO LADO ESQUERDO

 Vítimas de preconceito em muitas culturas, canhotos ainda enfrentam dificuldades em um mundo feito para a maioria de destros; cientistas discutem se o uso preferencial de uma mão ou de outra é determinado socialmente ou pelos genes.

Mistérios do lado esquerdo

Os antigos videntes romanos olhavam para o norte quando realizavam seus rituais mágicos. O Leste representava sorte e bons presságios. O Oeste à esquerda, era o domínio sombrio da morte. A Bíblia diz que no dia do juízo final as boas ovelhas encontrarão abrigo na mão direita do Senhor e os pecadores ficarão do outro lado, condenados à danação eterna.

Associada, respectivamente, ao bem e ao mal, a divisão entre direita e esquerda persiste nas expressões “entrar com o pé esquerdo” é começar mal, mas ser o braço direito significa ser fiel e prestativo. Depreciamos a esquerda, graças a séculos de menosprezo por parte da maioria de destra. Em diferentes culturas há nove destros para cada canhoto. Qual a causa da desproporção? A resposta pode estar nos hemisférios do cérebro.

A probabilidade de que duas pessoas destas tenham um filho canhoto é de apenas 9,5%. As chances aumentam para 19,5% se um dos pais for canhoto e para 26% caso ambos sejam. Mas a característica também pode ser explicada pela tentativa da criança de imitar os pais. Para testar a influência genética, a bióloga Marian Annet, da Universidade de Leicester lançou em 1970 a hipótese de que nenhum gene singular determina a preferência por uma ou outra mão. Em vez disso, durante o desenvolvimento fetal, um outro fator molecular ajuda a fortalecer o hemisfério esquerdo do cérebro, aumentando a probabilidade de que a mão direita seja dominante, já que o lado esquerdo do cérebro controla o direito e vice-versa. Na minoria de pessoas que carece desse fator, a preferência se desenvolve inteiramente ao acaso.

Pesquisas realizadas com gêmeos, porém, complicam essa hipótese. Em cada cinco grupos de gêmeos idênticos um tem um canhoto e outro destro, apesar de ambos terem o mesmo material genético. Os genes não são os únicos responsáveis pela característica.

A hipótese genética também é enfraquecida pelos resultados obtidos por Peter Hepper e sua equipe da Universidade Queens, em Belfast, Irlanda do Norte. Em 2004, os psicólogos usaram o ultrassom para mostrar que na 15ª semana de gravidez os fetos já têm preferência quanto ao dedo a ser chupado. Na maioria dos casos, ela se mantém após o nascimento. Com 15 semanas o cérebro, porém, não controla o movimento dos membros. Hepper especula que os fetos tendem a preferir o lado do corpo que está se desenvolvendo mais rápido e que seus movimentos influenciam o desenvolvimento cerebral. Não se sabe se essa preferência inicial é temporária ou persiste durante o desenvolvimento e a infância.

A determinação genética também é refutada pelo fato de que as crianças não se decidem pela direita ou pela esquerda até os 2 ou 3 anos. Isso nega a desacreditada teoria de que os canhotos tenham alguma lesão cerebral (tese que alguns cientistas ainda sustentavam há apenas duas décadas). Nos anos 20, os pesquisadores apontaram uma alta incidência de canhotos entre crianças que nasceram de parto difícil. Descobriram que muitos canhotos sofriam de transtornos de aprendizado e de epilepsia e que doenças neurológicas comuns predominavam nos gêmeos: ora, estes apresentam incidência mais alta de canhotos.

Em 1982, Norman Ceschwind sugeriu que a preferência por uma das mãos era determinada pelo sistema imunológico. A ideia ocorreu-lhe quando assistia a uma conferência sobre transtornos de leitura e escrita; as pessoas afetadas apresentavam alto índice de problemas imunológicos ou enxaquecas na família. Pesquisando mais, Ceschwind descobriu que os canhotos são 2,5 vezes mais suscetíveis a alergias, problemas na escrita e na leitura, anormalidades na estrutura óssea, gagueira e doenças na tiroide, uma constelação de eleitos chamada síndrome Ceschwind. Outros pesquisadores realizaram estudos similares, mas não detectaram tais vínculos, o que pôs em dúvida a teoria do neurologista.

Mesmo que as correlações sejam verdadeiras, elas não explicam o que toma uma pessoa canhota. Além disso, a especialização de um dos lados do corpo é comum entre animais. Os gatos privilegiam uma das patas quando querem pegar algo atrás do sofá. Alguns caranguejos se movem mais com as garras da esquerda ou da direita. Do ponto de vista evolutivo, enfatizar a força e a habilidade em um dos membros é mais eficiente que treinar igualmente dois, quatro ou oito membros. Entretanto, para a maioria dos animais, a preferência por um dos lados é aparentemente aleatória. O esmagador predomínio do lado direito está associado aos humanos.

Esse fato desloca nossa atenção para os hemisférios do cérebro e a linguagem, que na maioria das pessoas está claramente sediada em um ou outro hemisfério. Talvez haja desequilíbrio entre destros e canhotos porque as funções cerebrais estão divididas de forma assimétrica. Na vida cotidiana, essa distribuição desigual não é percebida, mas cada hemisfério possui forças e fraquezas próprias.

O interesse nos hemisférios data de pelo menos 1836, ano em que o médico francês Marc Dax relatou, em uma conferência em Montpellier, uma estranha característica comum a vários de seus pacientes. Durante anos de profissão, Dax encontrou mais de 40 homens e mulheres que apresentavam dificuldades na fala e todas elas tinham alguma lesão no lado esquerdo do cérebro. Em sua conferência, Dax sustentou que cada hemisfério cerebral é responsável por certas funções e que o lado esquerdo controla a fala. Outros especialistas, no entanto, mostraram pouco interesse pelas ideias do médico.

Cada vez mais, porém, os cientistas foram descobrindo evidências de pessoas com problemas na fala em razão de lesões no hemisfério esquerdo. Pacientes com danos no lado direito tendem a apresentar problemas de percepção ou de concentração. Os principais avanços na compreensão da assimetria cerebral foram feitos nos anos 60, graças à cirurgia de seccionamento do corpo caloso (feixe de nervos que liga os dois hemisférios). Durante a operação, desenvolvida para ajudar pacientes epiléticos, os médicos cortaram o corpo caloso. A separação das partes impediu que a descarga neurológica em um lado do cérebro –  o início de uma crise epilética – se transformasse em um distúrbio que causava terríveis ataques. Mas o corte também impossibilitou quase toda comunicação normal entre os hemisférios, dando aos pesquisadores a oportunidade de investigar a atividade de cada um dos lados.

Após vários experimentos com pacientes submetidos à cirurgia, os neuro­cientistas descobriram que os dois hemisférios percebem, aprendem e recordam de forma independente, embora o tipo de processamento e o nível de desempenho variem. O lado esquerdo é especialmente poderoso nas funções analíticas, como o processamento da linguagem, ao passo que o direito está mais capacitado para realizar tarefas espaciais e musicais. O hemisfério esquerdo processa sensações e pensamentos como se fossem elementos discretos, enquanto o direito interpreta tais dados como um todo.

TRABALHO CONJUNTO

Tornou-se cada vez mais claro que as diferenças entre os hemisférios pouco significam para as pessoas sãs. Cada fragmento de informação que penetra em um lado do cérebro está disponível para o outro por meio do corpo caloso. Para as funções superiores, como o aprendizado, os dois lados funcionam conjuntamente. A principal exceção diz respeito à linguagem.

Em 1949, o neurocirurgião japonês Juhn Wada descobriu uma fórmula de investigar a organização do funcionamento cerebral da linguagem, injetando um anestésico na artéria carótida esquerda ou direita, Wada paralisou temporariamente um dos lados de um cérebro são, o que lhe permitiu estudar de modo preciso as funções do outro lado. Baseados nesse método, Brenda Milner e Teodore Rasmussen, do Instituto Neurológico de Montreal publicaram, em 1975, um estudo que confirmava a teoria que Dax formulara quase 140 anos antes, em 96% dos destros, a linguagem é processada de forma muito mais intensa no hemisfério esquerdo. A correlação, entretanto, não é tão clara para os canhotos. Para dois terços deles, o hemisfério esquerdo é também o mais ativo processador da linguagem. Mas para o terço restante, ou o lado direito é predominante ou ambos os lados funcionam de forma igual, controlando diferentes funções relacionadas à linguagem.

O dado reduziu a aceitação da noção de que o predomínio dos destros se deve à maior importância do hemisfério esquerdo no processamento da linguagem. Não é claro porque o controle da linguagem deve envolver também os movimentos corporais. Alguns especialistas acreditam que o hemisfério esquerdo controla a linguagem porque os órgãos que processam a fala – a laringe e a língua – estão posicionados no eixo de simetria do corpo. Como essas estruturas são centradas, não é óbvio, do ponto de vista evolutivo, qual lado do cérebro deve controlá-las, e parece improvável que a operação conjunta facilite a atividade motora. Detalhes fisiológicos favorecem o hemisfério esquerdo, de tal modo que um impulso advindo daí alcance mais rapidamente a corda vocal; dando ao lado esquerdo uma vantagem na produção da linguagem.

Tanto a preferência por uma das mãos quanto a fala podem ter se desenvolvido por diferentes razões. Alguns pesquisadores, como o psicólogo evolutivo Michel C. Corballis, da Universidade de Auckland, Nova Zelândia, acreditam que os gestos estão na origem da linguagem. Os gestos são anteriores às palavras e ajudaram no seu surgimento. Se o hemisfério esquerdo dominou a fala, deve ter controlado também os gestos e, como ele controla o lado direito do corpo, a mão destra se desenvolveu mais.

 CRIATIVIDADE NAS MÃOS

Talvez saibamos mais em breve. Enquanto isso, podemos imaginar implicações que a preferência por uma das mãos acarreta para nossos talentos. A sabedoria popular afirma que os destros, pessoas nas quais o hemisfério cerebral esquerdo predomina, destacam-se no pensamento analítico e lógico. Os canhotos, que usam mais o hemisfério direito são considerados mais criativos e aptos para combinar as características emergentes dos dois hemisférios. Mas alguns neurocientistas sustentam que tudo isso não passa de especulação.

Leonardo da Vinci talvez seja o canhoto mais famoso. Os pesquisadores discutem sobre até que ponto essa característica orientou sua criatividade. Alguns apontam que ele tinha propensão a pintar cenas holísticas e simétricas, agrupando as pessoas em estruturas centradas e piramidais. No famoso afresco A última ceia ele arranjou os apóstolos em torno da mesa de tal forma que o observador percebe o grupo como um todo integrado. A postura dos apóstolos faz os olhos dele convergir para o meio, onde Jesus está sentado. Artistas destros como Rembrandt, ao contrário, parecem preferir estruturas mais assimétricas, agrupando, por exemplo, árvores no canto inferior esquerdo da tela e pintando uma paisagem montanhosa no direito.

Tais observações talvez sejam apenas ousadas especulações. Menciona-se especialmente a história de Alan Turing, matemático considerado o fundador da moderna teoria do computador. Alguns o apontam como o principal exemplo da visão do psicólogo Ceschwind, segundo a qual a qualidade de canhoto e a criatividade matemática associada resultam de uma disfunção do sistema imunológico. Turing era extremamente alérgico ao pólen e costumava usar máscara para se proteger quando ia de bicicleta à Universidade de Cambridge.

Poucos cientistas estão dispostos a afirmar que o fato de ser canhoto significa maior potencial criativo. Mas os canhotos prevalecem entre artistas, compositores e grandes pensadores políticos. Se essas pessoas estão entre os canhotos cujas habilidades linguísticas são uniformemente distribuídas entre os hemisférios, o intenso intercâmbio demandado poderá levar a talentos mentais fora do comum.

Talvez alguns canhotos se tornem altamente criativos apenas porque precisam ser mais inteligentes para se sair bem em nosso mundo de destros. Essa batalha, que começa nos estágios iniciais da infância, pode estabelecer o fundamento para realizações excepcionais. Assim, é provável que os canhotos com processamento bilateral da linguagem representem novo avanço evolutivo para o Homo sapiens, em que constelações criativas entre os hemisférios estão sendo testadas. Os canhotos deveriam mencionar isso da próxima vez que forem menosprezados pelos destros.

Misterios do lado esquerdo

SEU FILHO É CANHOTO?

A Natureza talvez decida se seremos canhotos ou destros, mas o meio influencia a disposição genética. A criança pode adotar mão privilegiada pelos pais, mesmo que isso seja contrário a suas inclinações genéticas.

Muitos pais desejam descobri que mão o filho privilegia e acreditam que podem fazê-lo desde cedo observando o modo pelo qual a criança estende o braço para pegar objetos ou segura uma colher. Mas é fácil se equivocar. As crianças às vezes experimentam com uma mão durante um tempo, depois com a outra. Os especialistas dizem que só aos 2 ou 3 anos um dos lados é favorecido de forma consistente. Algumas crianças permanecem ambidestras até os 5 ou 6 anos e só então escolhem um dos dois.

 

DETLEF B. LINKE – é professor de neurofisiologia clínica e de reabilitação neurocirúrgica da Universidade de Bonn, Alemanha.

SABINE KERSEBAUM – é canhota e editora de Gehim & Geist

OUTROS OLHARES

SEU MASCOTE NA ERA DIGITAL

Aplicativos que facilitam a rotina de quem tem pet chegam para disputar um mercado de R$19 bilhões.

Seu mascote na era digital

Com uma população de cães domésticos estimada em 52 milhões, o Brasil é hoje o terceiro maior mercado de produtos pet do mundo, atrás dos Estados Unidos e do Remo Unido. O faturamento do setor em 2016 foi de R$18,9 bilhões – o que equivale a um gasto médio de R$300 por mês para cada mascote, segundo a Abinpet (Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação). Até bem pouco tempo, as compras se limitavam às lojas físicas especializadas – que entre 2014 e 2016 cresceram 80% apenas na cidade de São Paulo, saltando de 726 para 1298 estabelecimentos. Apesar das cifras que movimenta, o segmento demorou para entrar na era digital. Exceto as grandes redes, com seus próprios sites, há no País mais de 50 mil pet shops que não contam com estrutura de venda ou entrega em domicílio.

Foi de olho nessa oportunidade que o libanês radicado no Brasil Rabih Hanna investiu na criação do Dot Pet, uma plataforma recém-lançada que conecta o dono do animal a praticamente tudo o que o pet precisa. É possível comprar ração, medicamento, roupas, brinquedos, agendar banho e tosa, vacinação, consulta no veterinário e aulas com o adestrador. “Eles podem colocar seus produtos e serviços na nossa plataforma digital”, diz Hanna.

A fotógrafa Leda Rodrigues já descobriu a comodidade dos sites para cuidar de Prince, border collie de 4 anos. “Compro quase tudo pela internet. É muito mais prático: pesquiso preço, pago com cartão e recebo em casa, sem ter que sair para fazer as compras”, afirma.

 TRADUTOR DE LATIDOS

Enquanto o comércio eletrônico para pets avança, os aficionados por tecnologia começam a descobrir aplicativos para smartphones que facilitam a rotina de quem tem animal doméstico, caso do Pet Phone e do MyPets – PetManager. Ambos foram criados para organizar informações sobre os bichos de estimação, permitindo armazenar dados sobre medicações e consultas realizadas, salvar os números de telefones de veterinários e até alertas para vacinas. Para tornar ainda mais divertida a interação com os bichos, há aplicativos com funções que vão desde o mapeamento dos passeios diários, como faz o MapMyDogWalk (gratuito para IOS e Android) até a “tradução” dos latidos, uma brincadeira proposta pelo app Tradutor de Cães, disponível para IOS e também gratuito. É o app do au au.

GESTÃO E CARREIRA

O LADO BOM DA CRISE

Os anos difíceis de crise exigem o desenvolvimento de habilidades que serão cada vez mais requisitadas pelo mercado. Descubra quais são e como usá-las para crescer profissionalmente.

O lado bom da crise

A crise sempre tem um legado positivo. E um deles é o desenvolvimento de competências que, muitas vezes, são exigidas na marra. De repente, é preciso ser ainda mais produtivo, inovador e resiliente para enfrentar o momento difícil, fazer mais com menos e entregar resultados excepcionais. O lado bom dessa terapia de choque é que os profissionais conseguem acumular novos conhecimentos que representarão uma vantagem competitiva nos momentos de bonança – que podem demorar, mas ainda virão. Confira a seguir algumas competências que ganharam mais relevância nos últimos anos e podem fazer a diferença para quem quiser crescer e aproveitar oportunidades que surgirão.

 INOVAÇÃO

A inovação, que já era importante, em tempos de crise virou exigência em todas as áreas. “É preciso antecipar o que pode dar errado e romper padrões paradigmas que já não servem mais”, diz Sérgio Gomes, sócio da Ockam, consultoria de transformação organizacional, de São Paulo. Primeiro, descubra quais são os problemas em sua área; depois, busque a causa; e, então, proponha inovações para resolvê-los, mas não sozinho. Em um cenário de mudanças, junte-se a pessoas com habilidades e competências diferentes para estimular a colaboração, o compartilhamento de ideias e o potencial criativo de cada um. Assim fica mais fácil encontrar as melhores soluções.

 INSPIRAR PESSOAS

Essa competência é essencial para lidar com uma demanda geral: fazer mais com menos. “Hoje, com poucos recursos, quem é líder deve ter em mente que, se os empregados fizerem apenas o mínimo, o time poderá ficar para trás. Mas, quando os funcionários estão engajados, entregam o máximo possível mesmo em condições distantes do ideal, o que não é obrigatório, é voluntário”, afirma Sérgio. Quem inspira as equipes são os gestores que colocam a mão na massa e mostram aos liderados porque cada um deles é importante para que a empresa atinja seus grandes objetivos. “Essa conexão, quando é profunda, verdadeira e bem conduzida, inspira a todos”, diz Sérgio.

ENTENDER AMBIGUIDADES

Ambiguidades é uma mensagem que desperta dúvidas. No universo corporativo, se refere a complexidade que dificultam a tomada de decisão e exigem grandes habilidades dos profissionais – os quais, na crise, aprenderam a caminhar no escuro. Nessas situações, é necessário manter o foco no presente e definir prioridades, deixando de lado metodologias do passado. O dia a dia pode trazer previsões que, muitas vezes, nenhuma pesquisa imaginou. Por isso, quando tomar uma decisão, pense nos aspectos contraditórios da situação que você está enfrentando, analise as probabilidades e entenda que nem sempre terá todas as respostas.

ATITUDE DE DONO

Trabalhar como se fosse o dono do negócio é importante em períodos incertos, pois, além de assumir responsabilidade, o profissional com perfil empreendedor costuma motivar os colegas e buscar novas soluções para os problemas, de modo a tornar a organização competitiva. “É importante ter a capacidade de assumir e cumprir os compromissos e objetivos propostos e acordados”, diz Denys. Para isso é preciso analisar cenários e buscar novas oportunidades.

 FLEXIBILIDADE

Alguns são mais dispostos a aceitar novas atribuições e a enfrentar mudanças, outros não. Nessa onda de corte de custos e de readequação de equipes, tarefas foram acumuladas e os profissionais se adaptaram ao novo cenário e se destacaram. “Quem tiver a capacidade de se ajustar as novas situações e as novas responsabilidades certamente terá mais chance de ser reconhecido, principalmente se garantir a concretização dos objetivos,” afirma Denys.

AUTOGESTÃO

Essa habilidade diz respeito ao conhecimento dos próprios pontos fortes e fracos. É com base nessa consciência que os profissionais ficam motivados, se disciplinam, cobram e se avaliam. Na crise, ter consciência de suas fortalezas e limitações ajuda a atuar de maneira inteligente, cercando-se de pessoas que completam suas deficiências. Ao admitir que não somos suficientes em determinada área nem excelente em outra é uma das qualidades de profissionais desse tipo – algo necessário na crise e na bonança.

PRIORIZAÇÃO DE TAREFAS

A recessão trouxe as empresas ao encontro de dois opostos: a meta de crescimento e a busca da redução de custos. Os profissionais tiveram de se adaptar a essa realidade e desenvolver a priorização de tarefas. Felipe Battistela, de 42 anos, diretor de pós-vendas do Grupo Volvo américa latina, em Curitiba, faz esse exercício. “Precisei de mais rigidez na definição das prioridades, o que, aliás, tem sido um processo contínuo de mudança na forma de trabalhar”, diz. “Aprenda a priorizar as atividades que, de fato, serão utilizadas por alguém e que trarão melhores resultados, sejam eles financeiros ou de satisfação dos clientes”. Para isso, o executivo costuma questionar bastante. “Só assim é possível saber se aquela tarefa ainda é relevante. Afinal, o ambiente de negócios pode ter mudado.”

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Se controlar as emoções já é difícil durante a bonança, tudo piora em meio a crise. Para lidar com isso, é preciso inteligência emocional – competência muito valorizada porque traz uma dimensão humana para a solução dos problemas. “As pessoas sofreram com as incertezas políticas, a inflação, o desemprego, as demissões, os ajustes – no meio disso tudo, fez melhor quem não deixou o moral cair”, diz Denys Monteiro, CEO no Brasil da ZRG Partner, empresa de recrutamento executivo. Para desenvolver essa habilidade, tente não se abater com os cenários sombrios, pense positivo e seja assertivo para impor limites aos outros.

RESILIÊNCIA

Essa é a capacidade de superar adversidades sem ser afetado de modo negativo e permanente, uma competência que surge e se desenvolve em situações difíceis. “As pessoas conseguem manter a eficiência em momentos de estresse”, afirma Denys. Antecipar tendências, conhecer a dimensão dos problemas, entender que imprevistos acontecem e aproveitar os momentos instáveis para transforma-los em oportunidades de aprendizagem são práticas indicadas para desenvolver essa habilidade.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 23: 13-33 – PARTE II

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Os Crimes dos Fariseus

IV – O fato de procurarem os seus próprios benefícios mundanos e a sua própria honra, mais que a glória de Deus, os colocava cunhando uma distinção falsa e não justificável, com a qual eles conduziam as pessoas a enganos perigosos, particularmente na questão dos juramentos; o que, como uma evidência de um sentido universal de religião, era, por todas as nações, considerado sagrado (v. 16): “Condutores cegos!” Observe que:

1. É triste pensar em quantos estão sob a orientação de pessoas que são, elas mesmas, cegas, que se responsabilizam por mostrar aos outros aquele caminho que elas mesmas, voluntariamente, ignoram. Todos “os seus atalaias são cegos” (Isaias 56.10), e muito frequentemente as pessoas adoram que seja assim, e dizem a quem vê: Não vejam. Mas a situação piora quando os líderes do povo o conduzem ao erro (Isaias 9.16). 2. Embora seja muito triste a situação daqueles cujos guias são cegos, a dos próprios guias cegos é ainda mais lamentável. Cristo profere um “ai” para os guias cegos, que têm de responder pelo sangue de tantas almas.

Para provar a cegueira deles, Ele fala especificamente da questão dos juramentos, e mostra que eles eram uns casuístas corruptos.

(1) Ele apresenta a doutrina que eles ensinavam.

[1] Eles permitiam juramentos por criaturas, desde que estivessem consagradas ao serviço de Deus e tivessem um relacionamento especial com Ele. Eles permitiam juramentos pelo templo e pelo altar, que, embora fossem obras das mãos dos homens, eram destinados a ser instrumentos para a honra de Deus, e eles, como humanos, não poderiam compartilhar dela. Um juramento é um apelo a Deus, à sua onisciência e justiça; e fazer este apelo a qualquer criatura é colocar essa criatura no lugar de Deus. Veja Deuteronômio 6.13.

[2] Eles faziam diferença entre um juramento “pelo templo” e um juramento “pelo ouro do templo”; um juramento pelo altar e um juramento pela oferta sobre o altar; faziam os últimos obrigatórios, mas não os primeiros. Aqui havia uma dupla maldade. Em primeiro lugar, havia alguns juramentos que eles dispensavam e dos quais faziam pouco, e reconheciam que um homem não era obrigado a afirmar a verdade nem cumprir uma promessa. Eles não deveriam jurar pelo Templo nem pelo altar, mas, se jurassem, seriam enganados pelas palavras da sua boca. Uma doutrina que infringe as regras da fé em algum aspecto ou ocasião não pode ser uma doutrina do Deus da verdade. Os juramentos são instrumentos afiados, e não se deve brincar com eles. Em segundo lugar, eles preferiam o ouro ao Templo, e a oferta ao altar, para incentivar as pessoas a trazerem ofertas ao altar, e ouro aos tesouros do Templo, com o que eles esperavam lucrar. Aqueles que tinham feito do ouro a sua esperança, e cujos olhos estavam cegos pelas ofertas em segredo, eram grandes amigos do Corbã, e sendo o lucro a sua santidade, por meio de mil artifícios eles faziam a religião submeter-se aos seus interesses mundanos. Os guias corruptos fazem as coisas serem pecados ou não, conforme servirem aos seus objetivos, e colocam uma ênfase muito maior naquilo que diz respeito ao seu próprio ganho do que naquilo que é para a glória de Deus e para o bem das almas.

(2)  O Senhor mostra a tolice e o absurdo dessa diferença (vv. 17-19): “Insensatos e cegos!”. É no sentido de uma repreensão necessária, e não uma repreensão irada, que Cristo os chamou de insensatos. Deve nos bastar a palavra de sabedoria para mostrar a tolice das opiniões e dos procedimentos pecaminosos. Mas quanto à atribuição do caráter de pessoas em particular, deixemos isso a Cristo, que conhece o que há no homem, e nos proibiu de chamar alguém de “louco”, ou seja, de insensato.

Para condená-los por sua insensatez, Jesus pergunta aos escribas e fariseus, “qual é maior: o ouro [os vasos e ornamentos de ouro, ou o ouro do tesouro] ou o templo, que santifica o ouro…, a oferta ou o altar, que santifica a oferta?”. Qualquer pessoa diria – Tudo deve ser qualificado da maneira como as coisas são qualificadas, e com a intensidade adequada. Aqueles que juravam pelo ouro do Templo o encaravam como sendo sagrado. Mas o que é que o tornava sagrado, exceto a santidade do Templo, para cujo serviço ele era apropriado? E por isso o Templo não pode ser menos sagrado do que o ouro, mas deve ser mais sagrado; pois “o menor é abençoado pelo maior” (Hebreus 7.7). O Templo e o altar eram definitivamente dedicados a Deus, o ouro e as ofertas, apenas secundariamente. Cristo é nosso altar (Hebreus 13.10), nosso templo (João 2.21); pois é Ele que santifica todas as nossas ofertas e as considera agradáveis (1 Pedro 2.5). Aqueles que colocam as suas próprias obras no lugar da justiça de Deus, na justificação, são culpados dos absurdos dos fariseus, que preferiam a oferta ao altar. Cada cristão fiel é um templo vivo, e em virtude disso as coisas comuns são santificadas a ele: “todas as coisas são puras para os puros” (Tito 1.15), e “o marido descrente é santificado pela mulher” (1 Coríntios 7.14).

(3)  Ele corrige o engano (vv. 20-22) reduzindo todos os juramentos que eles tinham inventado ao verdadeiro objetivo de um juramento, que é expressar algo em nome do Senhor. Desse modo, um juramento pelo Templo, ou pelo altar, ou pelo céu, será formalmente mau, mas ainda assim obrigará a pessoa que jurar. Compromissos que não deveriam ter sido assumidos, ainda assim, quando feitos, são obrigatórios. Um homem nunca irá se beneficiar do seu próprio erro.

[1] Aquele que jura pelo altar, não deve pensar em remover a obrigação do juramento, dizendo: “O altar é apenas madeira, e pedra, e bronze”, pois o seu juramento será interpretado mais fortemente contra si mesmo, porque ele era culpável, e a obrigação do juramento será preservada; a obrigação é fortalecida, e não destruída. Portanto, um juramento pelo altar será interpretado como um juramento não só pelo altar, mas por todas as coisas que fazem parte dele. Pois os direitos são transmitidos juntamente com o principal. Jurar pelas coisas que são oferecidas a Deus sobre o altar é o mesmo que chamar o próprio Senhor Deus como testemunha, pois trata-se do altar de Deus; e aquele que vai ao altar, vai a Deus (Salmos 43.4; 26.6).

[2] Aquele que jura pelo Templo, se compreender o que está fazendo, não pode deixar de compreender que a base para o respeito ao Templo não é a beleza do Templo, mas o fato de o Templo ser a casa de Deus, dedicada ao seu serviço, o lugar em que Ele escolheu colocar o seu nome. Portanto, quando alguém jura pelo Templo, está jurando por aquele que ali habita. Ali Ele se agradou de uma maneira peculiar, para manifestar-se, e dar sinais da sua presença, de modo que aquele que jurar pelo Templo, jura por aquele que disse: “Este é o meu repouso… aqui habitarei”. Os bons cristãos são templos de Deus, o Espírito de Deus habita neles (1 Coríntios 3.16; 6.19), e Deus assume o que é feito a eles como sendo feito a si mesmo. Aquele que entristece uma alma graciosa, entristece também o Espírito que nela habita (Efésios 4.30).

[3] Se um homem jura pelo céu, ele peca (cap. 5.34), mas não será liberado da obrigação do seu juramento. Não. Deus o fará saber que o céu por que ele está jurando é o seu trono (Isaias 66.1); e aquele que jura pelo trono, apela para aquele que está assentado sobre ele. Da mesma maneira como Ele se ressente da afronta que lhe é feita sob a forma do juramento, certamente também irá vingar a afronta maior que lhe é feita pela violação do juramento. Cristo não permite a evasão de um juramento solene, por mais plausível que seja.

 

V – Eles eram muito rígidos e precisos nos menores detalhes da lei, mas descuidados e relaxados nas questões mais importantes (vv.23,24). Eles eram “parciais na aplicação da lei” (Malaquias 2.9, versão RA), escolhiam o seu dever segundo estivessem interessados ou fossem afetados. A obediência sincera é universal, e aquele que, com um princípio correto, obedece a qualquer dos preceitos de Deus, terá respeito a todos eles (Salmos 119.6). Mas os hipócritas, que agem na religião por si mesmos, e não por Deus, não farão mais na religião do que servir a si mesmos. A parcialidade dos escribas e fariseus aparece

aqui, em dois exemplos:

1. Eles observavam os deveres menores, mas omitiam os maiores; eles eram muito precisos no pagamento de dízimos, pagando até mesmo os da “hortelã, do endro e do cominho”, cuja exatidão não lhes custaria muito. Assim apregoavam a sua própria justiça. Os fariseus se orgulhavam disso, dizendo: “Dou os dízimos de tudo quanto possuo” (Lucas 18.12). Mas é provável que eles tivessem os seus próprios fins para servil e encontrassem nestes a sua própria satisfação; pois os sacerdotes e os levitas, a quem os dízimos eram entregues, estavam defendendo os seus próprios interesses, e sabiam quando e como retribuir as gentilezas recebidas. Pagar dízimos era a sua obrigação, e o que a lei exigia. Cristo lhes diz que eles não devem deixar de fazer isso. Observe que todos devem, em suas posições, contribuir para o sustento e a manutenção de um ministério permanente; reter os dízimos é roubar a Deus (Malaquias 3.8-10). Aqueles que são instruídos na Palavra, e não transmitem àqueles que os ensinam que amam um “evangelho barato”, são até mesmo piores que os fariseus.

Mas aquilo de que Cristo os condena aqui é o fato de eles desprezarem as questões mais importantes da lei, “o juízo, a misericórdia e a fé”; e a sua disposição de pagar os dízimos era, se não uma reparação diante de Deus, pelo menos uma desculpa com o objetivo de mitigar aos homens a omissão naquelas questões. Todas as coisas da lei de Deus são importantes, porém as mais importantes são aquelas que mais expressam a santidade interior no coração – é nos exemplos de renúncia a si mesmo, de desprezo pelo mundo, e de resignação a Deus que está a vida da religião. Juízo e misericórdia em relação aos homens e a fé em relação a Deus são as questões mais importantes da lei, as coisas boas que o Senhor nosso Deus exige de nós (Miqueias 6.8): “Que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques ajustiça, e ames a beneficência, e andes humildemente com o teu Deus?” Esta é a obediência que é melhor do que o sacrifício ou o dízimo; o juízo é preferível ao sacrifício (Isaias 1.11). Ser justo com os sacerdotes no seu dízimo, e trapacear e enganar a todos os demais, é apenas zombar de Deus, e enganar a nós mesmos. A misericórdia também é preferível ao sacrifício (Oseias 6.6). Alimentar aqueles que engordam com a oferta ao Senhor e, ao mesmo tempo, fechar as entranhas da compaixão a uma irmã ou irmão que está nu e privado do alimento diário, pagar o dízimo da hortelã ao sacerdote e negar uma migalha a Lázaro é ficar aberto àquele julgamento sem misericórdia, que é a recompensa daqueles que pretenderam julgar, e não mostraram misericórdia; nem o julgamento e a misericórdia irão servir sem a fé na revelação divina; pois Deus deseja ser honrado nas suas verdades, bem como nas suas leis.

2. Eles evitavam pecados menores, mas cometiam os maiores (v. 24): “Condutores cegos!” Assim Jesus os tinha chamado antes (v. 16), pelos seus ensinamentos corruptos; aqui Ele os chama assim pela sua vida devassa, pelo exemplo que estavam dando, assim como pela sua doutrina; e nisto também eles eram cegos e parciais: “Coais um mosquito e engolis um camelo”. Na sua doutrina, eles coavam mosquitos, advertindo as pessoas contra as menores violações da tradição dos anciãos. Na sua prática, eles coavam mosquitos, arremessados contra eles, com um aparente temor, como se detestassem enormemente o pecado, e tivessem medo dele, em última instância; mas eles não criavam problemas com aqueles pecados que, em comparação, eram como um camelo em relação a um mosquito – quando eles devoravam as casas das viúvas, eles realmente engoliam um camelo; quando deram a Judas o preço do sangue inocente, e ainda tiveram escrúpulos de colocar o dinheiro devolvido no tesouro (cap. 27.5); quando não entraram na audiência, por medo de serem contaminados, mas ficaram à porta e gritaram contra o santo Jesus (João 18.28); quando discutiam com os discípulos, por comerem com as mãos por lavar, e para cumprir o Corbã, ensinavam as pessoas a infringir o quinto mandamento. Eles coavam mosquitos, ou coisas menores, e engoliam camelos. Não é o receio de um pequeno pecado que Cristo reprova aqui; se é um pecado, ainda que seja apenas um mosquito, deve ser coado. Mas Cristo reprova o fato de que faziam isto e então engoliam um camelo. A hipocrisia aqui condenada consiste em ser supersticioso nas menores questões da lei e ser profano nas maiores.

 

VI –  Eles eram dedicados a uma religiosidade exterior, e não a uma religiosidade interior. Eles eram mais desejosos e solícitos para parecer piedosos aos homens do que para obter uma aprovação junto a Deus. Isto é exemplificado por duas coisas semelhantes.

1; Eles são comparados a um recipiente que está limpo do lado de fora, mas todo sujo por dentro (vv. 25,26). Os fariseus mesclavam a religião com aquilo que, na melhor hipótese, era apenas uma questão de decência, como, por exemplo, a limpeza dos copos (Marcos 7.4). Eles tinham o cuidado de comer as suas refeições em copos e pratos limpos, mas não se preocupavam com o fato de conseguirem o seu alimento por extorsão, e, diga-se de passagem, pelas maiores extorsões possíveis. Que tolice seria para um homem lavar somente o exterior de um copo, que será olhado, deixando sujo o interior, que será usado; assim fazem aqueles que somente evitam pecados escandalosos, que manchariam a sua reputação entre os homens, mas se permitem uma maldade de coração, que os torna odiosos ao Deus puro e santo. Com referência a isso, observe:

(1)  O costume dos fariseus. Eles limpam o exterior. Naquilo que poderia ser observado pelo povo, eles pareciam muito exatos, e realizavam as suas intrigas maldosas com tamanha habilidade, a ponto de a sua maldade não levantar suspeitas; as pessoas geralmente os consideravam como homens bons. Mas por dentro, nos recessos dos seus corações e na intimidade das suas vidas, eles estavam cheios “de rapina e de iniquidade”; de violência e libertinagem, isto é, injustiça e intemperança. Embora pudessem parecer devotos, não eram nem equilibrados nem justos. O seu íntimo era verdadeiras maldades (Salmos 5.9); somos realmente aquilo que somos interiormente.

(2)  A regra que Cristo dá, em oposição a esse costume (v. 26), é dirigida aos cegos fariseus. Eles pensavam que eram os que viam na terra, mas (João 9.39) Cristo os chama de cegos. Note que, na opinião de Cristo, são cegos aqueles que (por mais que enxerguem bem em outras coisas) são estranhos, e não inimigos, à maldade dos seus próprios corações; que não veem, e não odeiam o pecado secreto que habita ali. A ignorância de si mesmo é a ignorância mais vergonhosa e prejudicial (Apocalipse 3.17). A regra é: “Limpa primeiro o interior do copo e do prato”. O principal cuidado de cada um de nós deveria ser lavar os nossos corações da malícia (Jeremias 4.14). Note que o principal de um cristão está no seu interior, e ele deve estar limpo da sujeira do espírito. Afetos e tendências corruptos, os desejos secretos que se escondem na alma, sem ser vistos e observados, estes devem ser mortificados e dominados em primeiro lugar. Os pecados que sondam o coração, dos quais o olho de Deus é apenas uma testemunha, devem ser conscientemente evitados.

Observe o método prescrito: “Limpa primeiro o interior”; não apenas o interior, mas este primeiro. Se for tomado o devido cuidado a este respeito, o exterior também ficará limpo. Motivos externos e incentivos podem manter limpo o exterior, enquanto o interior está sujo. Mas se a graça renovadora e santificadora limpar o interior, isto terá uma influência sobre o exterior, pois o princípio que comanda o ser está no interior. Se o coração estiver bem limpo, tudo está bem, pois dele procedem as saídas da vida; as erupções serão eliminadas naturalmente; se o coração e o espírito se renovarem, haverá uma renovação de vida; aqui, portanto, cada um de nós deve começar consigo mesmo; primeiramente, devemos limpar o que está dentro de nós. Somente após esta etapa é que seremos realmente bem-sucedidos.

2. Eles são comparados a “sepulcros caiados” (vv. 27,28).

(1)  Eles são bonitos por fora, como os sepulcros, “que por fora realmente parecem formosos”. Alguns interpretam isto como uma referência ao costume dos judeus de caiar os sepulcros, somente para chamar a atenção sobre eles, especialmente se estiverem em lugares incomuns, para que as pessoas os evitem, por causa da contaminação cerimonial contraída ao tocar um sepulcro (Números 19.16). E fazia parte da incumbência dos supervisores dos caminhos reparar essa caiação quando estivesse decaindo. Os sepulcros eram, assim, visíveis (2 Reis 23.16.17). A formalidade dos hipócritas, pela qual eles estudam para serem elogiados pelo mundo, apenas faz com que os homens sábios e bons tomem mais cuidado para evitá-los, por medo de serem contaminados por eles. “Guardai-vos dos escribas” (Lucas 20.46). Na verdade, isto é uma alusão ao costume de caiar os sepulcros das pessoas importantes, para seu embelezamento. Está dito aqui (v. 29) que os escribas e fariseus adornavam “os monumentos dos justos”; assim como para nós é usual erigir monumentos sobre os sepulcros das pessoas importantes, e espalhar flores sobre os túmulos de amigos queridos. Mas a justiça dos escribas e dos fariseus era como os adornos de um sepulcro, ou o vestir de um cadáver, somente para exibição. O ponto alto da sua ambição era parecer justos diante dos homens e ser aplaudidos e admirados por eles. Mas:

(2)  Eles eram sujos por dentro, como os sepulcros, “cheios de ossos de mortos e de toda imundícia”. Tão vis são os nossos corpos quando a alma os abandona! Assim estavam eles, “cheios de hipocrisia e de iniquidade”. A hipocrisia é a pior de todas as iniquidades. É possível que aqueles que têm os corações cheios de pecado tenham a vida livre de culpas, e pareçam ser muito bons. Mas de que irá nos ajudar ter a boa palavra dos nossos companheiros servos, se o nosso Mestre não disser: “Bem está?” Quando todos os outros sepulcros estiverem abertos, o interior desses sepulcros caiados será visto, e os ossos dos mortos, e toda a imundícia, serão trazidos para fora e expostos diante do exército do céu (Jeremias 8.1,2). Pois chegará o dia em que Deus irá julgar, não as exibições, mas os segredos dos homens. E será de pouco consolo, para aqueles que têm a sua parte com os hipócritas, lembrarem-se da maneira louvável e plausível como foram para o inferno, aplaudidos por todos os seus conhecidos.