PSICOLOGIA ANALÍTICA

NADA COMO UM BOM AMIGO

A rede social do indivíduo está fortemente ancorada em seu funcionamento cerebral. Amigos propiciam bem-estar, asseguram saúde psíquica e prolongam a vida.

Nada como um bom amigo

Amigo é a melhor coisa do mundo. Nada mais verdadeiro, confirmam os psicólogos. Segundo estudos recentes, relações estáveis entre pessoas estimulam a saúde mental e física e até mesmo prolongam a vida.

Contatos sociais parecem ter colaborado para que, na evolução, nosso cérebro se transformasse em órgão de alta capacidade. Robin Dunbar, da Universidade de Liverpool, já havia chegado a essa conclusão há alguns anos. O antropólogo e psicólogo evolucionista percebera que, nos macacos, havia relação entre o tamanho do cérebro e o número de integrantes do grupo, quanto mais elementos tivesse o bando de uma espécie, mais volumoso seria o córtex dos animais.

A partir daí, Dunbar criou uma hipótese sobre o “social brain”(cérebro social), segundo a qual o desenvolvimento das estruturas sociais teria impulsionado a evolução do cérebro. Pois, de acordo com ele, quanto maior o grupo, tanto mais informações sobre os outros indivíduos têm de ser processadas pelo cérebro para que o convívio social possa funcionar. Sendo assim, porém, a capacidade de processamento do cérebro também limitaria o tamanho de nosso círculo social – segundo Dunbar, aproximadamente 150 pessoas.

Há milhares de anos esse número está presente em grupos humanos, das sociedades de caçadores e coletores às vilas de agricultores da Indonésia e da América do Sul. O mesmo vale para os militares, no exército romano, as unidades básicas eram os chamados ‘manípulos”, com aproximadamente 150 soldados; e o tamanho das companhias atuais varia de 120 a 150 homens. Nas indústrias modernas também se verifica que uma estrutura organizacional relativamente informal só funciona se tiver, no máximo, 150 trabalhadores. Se o número for maior, é necessária uma hierarquia mais severa, pois, caso contrário, sabe-se, por experiência, que a produtividade total cai, a pressão do grupo como incentivo à produção individual deixa de funcionar devido ao maior anonimato, e, no lugar dela, surgem o controle e as orientações formais.

Há pouco tempo, Dunbar, junto com outros colegas dos Estados Unidos e da França, retomou diversos estudos que tratam de redes sociais a fim de examiná-las mais de perto. O resultado geral das observações: nosso ambiente social parece estar sempre estruturado hierarquicamente. Dunbar classifica os 150 conhecidos de uma pessoa em um sistema de anéis concêntricos, segundo o qual a distância do centro indica a intensidade da relação. Ao redor de alguns amigos muito próximos, organiza-se um círculo de bons conhecidos que, por sua vez, está circundado por um número ainda maior de contatos superficiais.

Psicólogos já sabem que o anel mais próximo do centro, composto dos amigos mais íntimos, é o mais decisivo para o nosso bem-estar psíquico. Um estudo atual de Lynne Giles, da Universidade de Flinders, Austrália, acrescenta ainda que este círculo de amizades intimas ajuda até mesmo a prolongar a vida.

Os pesquisadores analisaram dados do Australian Longitudinal Study of Aging (Estudo longitudinal australiano do envelhecimento), iniciado em 1992. A pesquisa, de longo prazo, se concentrou em ambiente social, estado de saúde, estilo de vida e na idade de morte de 1.477 pessoas acima de 70 anos. Os participantes foram questionados sobre a frequência e a quantidade dos contatos que costumavam ter com amigos, filhos, parentes ou conhecidos. Em dez anos, os pesquisadores mantiveram sempre um quadro atualizado da situação dos participantes.

Durante a análise dos dados, os cientistas perceberam, para seu espanto que as amizades aumentavam muito mais a expectativa de vida do que, por exemplo, o contato íntimo com filhos e parentes – independentemente de fatores como o status sócio econômico, a saúde e o estilo de vida. E isso continuava valendo, mesmo quando os amigos se mudavam para outra cidade, por exemplo.

Qual será a base desse efeito de longevidade? Aparentemente não é apenas o apoio mútuo entre conhecidos que faz diferença, mas o fato de ele ser voluntário, ocorre por prazer e não apenas por obrigação ou convenção. Decisivo, portanto, é o fato de as pessoas poderem escolher os seus amigos (ao contrário do que acontece com os indivíduos da própria família).

Manter contato com pessoas que nos consideram importantes e nos dão valor, segundo os pesquisadores australianos, tem efeito positivo sobre a nossa saúde tanto física quanto mental, o estresse e tendências depressivas são reduzidos e comportamento relevantes para a saúde – como o mau costume de beber ou fumar – sofrem influências benéficas. Principalmente em tempos de crise, os amigos podem melhorar o humor e a auto estima, assim como sugerir estratégias para a resolução de problemas.

Realmente, os efeitos práticos médico, psicológicos de tais contatos sociais já foram comprovados, por exemplo em casos de doenças cardiovasculares, pressão alta ou problemas gastrointestinais. Eric Loucks, da Escola de Saúde Pública de Harvard, em Boston, descobriu, por exemplo, que a circulação de interleucina-6 no sangue de homens idosos com um grande círculo de amizades é bem menor do que no sangue daqueles que são sozinhos. Essa substância causadora de inflamações é considerada um fator de risco para doenças cardiovasculares, pois aparentemente estimula a arteriosclerose – a temida “calcificação das artérias”.

Quem tem bons amigos e conhecidos, portanto, se diverte com mais frequência e aumenta suas chances de uma vida longa. Motivo suficiente para cultivar as amizades – e quem sabe até mesmo reativar alguns contatos esquecidos do tempo da adolescência e da faculdade.

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ANEIS DA AMIZADE

Segundo o modelo criado por Robin Dunbar para representar o alcance dos relacionamentos de um indivíduo, o círculo de amigos mais íntimos (com três, quatro ou, no máximo, cinco pessoas) forma o anel interno. Sentimo-nos emocionalmente muito próximos desses amigos, com os quais também compartilhamos interesses, valores e pontos de vista comuns. Na crise, eles ajudam e nos aconselham em situações pessoais, emocionais ou financeiras. Mantemos contato com esse “grupo de apoio” pelo menos uma vez por semana.

O círculo seguinte é composto de 12 a 20 pessoas, com ligação mais tênue. A relação com eles não é tão forte emocionalmente, mas se mantém por simpatia e interesse. O nível hierárquico mais externo corresponde ao que costumamos chamar de “círculo de conhecidos”. Esse terceiro âmbito da rede social comporta aproximadamente 30 a 50 pessoas e a ligação com eles é da claramente mais solta. No entanto, existe um contato regular com essas pessoas, mesmo que em períodos mais espaçados. Nas sociedades de caçadores e coletores tradicionais, o terceiro anel corresponderia a um clã, segundo Dunbar. Além desses ele inclui ainda pelo menos mais dois outros círculos com contatos ainda mais frouxos.

Paralelamente aos seus estudos, Dunbar deparou com uma conexão espantosa: de um anel para outro, o círculo de conhecidos aumenta quase sempre três vezes. Essa regra também ocorre em outras formações sociais. Assim, em muitos países, a menor unidade de um exército é formada por 10 a 15 soldados, um pelotão por 35, uma companhia por 120 a150 homens e assim por diante.

 

 KLAUS MANHART – é filósofo e cientista social.

OUTROS OLHARES

UMA ZONA NEBULOSA PARA CRIANCAS

Vídeos de influenciadores mirins para promover bonecas viralizam junto ao público infantil e alertam para a falta de controle sobre a publicidade no YouTube.

Uma zona nebulosa para as crianças

Praticamente desconhecida até o começo de 2017, a boneca L.O.L se tornou o brinquedo mais vendido nos Estados Unidos no ano passado – e a febre chegou ao Brasil no último Natal As L.O.L. são bonecas de apenas sete centímetros vendidas dentro de bolas coloridas. Alguns pais ficaram revoltados – e não apenas pelo preço, que pode chegar a R$ 160 por aqui. O motivo de preocupação é que as bonecas se tornaram populares graças a 06 vídeos divulgados no YouTube, feitos por influenciadores mirins que seguem um mesmo roteiro, desembrulhando as várias camadas de embalagem até chegar ao brinquedo. A prática é conhecida pelo termo em inglês “unboxing” e ocupa uma área cinzenta em que o entretenimento se confunde com publicidade.

Enquanto as regras que determinam o que pode ou não ser usado como propaganda para crianças são reguladas de forma rígida em outras plataformas, no YouTube a situação é nebulosa. Em teoria, não existe na lei distinção entre internet, TV ou rádio. “Qualquer espécie de publicidade, seja qual for o meio que a veicule, inclusive plataformas digitais, deve seguir as recomendações da ética publicitária”, diz Gilberto C. Leifert, Presidente do Conar, por meio de nota. Mas no caso dos vídeos de ‘unboxing”, a situação raramente é muito clara. “Há contratos publicitários, mas a relação comercial é velada”, diz Renato Godoy, assessor de assuntos governamentais do Instituto Alana, responsável por programas como Criança e Consumo. Nessa discussão, as críticas não são dirigidas aos youtubers mirins, mas às empresas. “Multas vezes, elas se valem da vulnerabilidade do público e do emissário”, afirma Godoy.

Evitar que os pequenos sejam contaminados pela necessidade de consumir é uma tarefa que exige dos pais um monitoramento maior dos hábitos digitais de seus filhos. “Precisamos, de tempos em tempos, ficar Junto com as crianças para entender o que as fascina no YouTube”, diz Fernanda Furia, mestre em psicologia de crianças e adolescentes e fundadora da consultoria Playground da inovação. E, segundo a psicóloga, é importante ajudar as crianças mais velhas a desenvolver uma inteligência emocional digital, ou seja, entender sobre os próprios hábitos tecnológicos e comportamentos nas redes sociais”. afirma

FENOMENO DIGITAL

O YouTube oferece uma liberdade aos pequenos que poucas vezes eles têm longe da tela do computador. Falar para a câmera e participar desse universo também é importante para o desenvolvimento delas no momento atual. “Essa maneira de se expressar favorece a sociabilidade da criança na internet. “É um processo natural”, afirma Godoy.

O caso específico das bonecas L.O.L é bastante expressivo porque elas são ótimas representantes da cultura do “unboxing”. Elas podem até ser pequenas, mas o tamanho não importa para as crianças. Oque vale é a experiência de abrir cada uma das sete camadas que cobrem o brinquedo, revelando pequenas surpresas, roupas e adesivos para a boneca “Eu amo puxar cada zíper das camadas, o suspense de abrir a minha própria L.O.L. e colecionar, mas também é muito legal ver os vídeos e acompanhar a surpresa e a empolgação de quem está abrindo. “Isso tudo me diverte multo”, diz Luiza Sorrentino, do canal Crescendo com Luluca. Seu vídeo da boneca L.O.L. Já teve 788 mil visualizações – o que confirma o fenómeno “Unboxing”.

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GESTÃO E CARREIRA

AUTOCONFIANÇA: DUVIDE DE SÍ MESMO

Embora estimulada pelo ambiente corporativo, a autoconfiança em excesso pode trazer prejuízos para avida profissional. Veja quais cuidados você precisa tomar para não cair nessa armadilha.

Autocinfiança - Duvide de si mesmo

Em 1995, o americano McArthur Wheeler foi preso enquanto assaltava um banco na cidade de Pittsburgh, na Pensilvânia. O detalhe curioso da história é que o ladrão não fazia o mínimo esforço para esconder o rosto durante os crimes e, quando pego, somente conseguia repetir que “havia passado o suco”. A frase, aparentemente sem nexo, foi explicada mais tarde, quando McArthur afirmou à Polícia que acreditava que, ao aplicar suco de limão no rosto, conseguiria burlar as câmeras do sistema de segurança das instituições.

O caso absurdo do ladrão serviu de ponto de partida para a tese de David Dunning e Justin Kruger, professor e aluno de psicologia na Universidade Cornell, também nos Estados Unidos, que ficou popularmente conhecida como a “síndrome do idiota confiante”. Publicado em 1999, após uma série de testes, o estudo apontou que os indivíduos com pior desempenho foram aqueles que também tiveram a menor capacidade de avaliar as próprias habilidades e que acreditavam ter resultados melhores do que efetivamente obtiveram. Os pesquisadores chegaram à conclusão do que ficou chamado de “efeito Dunning-Kruger”: algumas pessoas se sentem autoconfiantes sobre assuntos nos quais têm conhecimento limitado, ou nenhum conhecimento. ”Todos nós somos vulneráveis a esse fenômeno, pois tudo o que é preciso para agir assim é incompetência ou desconhecimento sobre algo. Exatamente por não entender a complexidade, você não consegue perceber quão irreal e desconexa pode ser sua crença sobre o tema’, diz o professor David Dunning.

No ambiente corporativo, onde muitas vezes a palavra predominante é “competitividade”, é grande o risco de reproduzir comportamentos como esse. “Existe o mito do indivíduo que precisa ter sempre resposta para tudo e que deve ser proativo em qualquer situação, por isso muitos profissionais acabam compelidos a tomar atitudes e a dar respostas de qualquer jeito, mesmo que não estejam preparados”, afirma Anderson Sant’anna, professor na Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais. “Algumas empresas, inclusive, valorizam os perfis que são mais exibicionistas e atirados, o que estimula ainda mais quem já tem uma tendência a ser autoconfiante em excesso.” Com a internet e a facilidade de acesso às informações, a possibilidade de superestimar o conhecimento também se amplia. Segundo outro es tudo, dessa vez da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, as pessoas tendem a se achar muito mais inteligentes depois de apenas alguns cliques na rede. Para comprovar essa teoria, os pesquisadores realizaram nove experimentos com voluntários americanos. Em um deles, foi solicitado ao primeiro grupo que buscasse na internet a resposta para algumas perguntas. Para o segundo grupo, não foi dada a possibilidade de pesquisas online. Na etapa seguinte, pediu-se aos dois grupos que avaliassem sua capacidade de responder por conta própria a outras questões sobre o tema. O grupo que pôde acessar a internet foi muito mais otimista ao medir os próprios conhecimentos em comparação àqueles que não tiveram acesso à internet. Nas empresas, não é raro perceber as consequências desse efeito Google. “Com a entrada de novas gerações e a diminuição da hierarquia, é muito comum vermos estagiários dando palpites, muitas vezes de forma exagerada, em assuntos da presidência, por exemplo. Ignoram anos de experiência e acreditam que, por meio de alguns tutoriais, já são mais entendidos do negócio do que executivos com anos de carreira”, afirma Raphael Falcão, diretor da Hays Experts, divisão de recrutamento de média e alta gerência da Hays, de São Paulo.

 TÃO BOM ASSIM?

Na vida profissional, o excesso de autoconfiança, quando não está aliado a competências reais, pode cobrar um preço alto. “Além de gerar custos com retrabalho, pode criar problemas com a equipe”, afirma Anderson. Isso porque, geralmente, pessoas narcisistas inibem as demais, não conseguem criar discussões amplas e tomam decisões apressadas com base em achismos.

O paulista Gustavo Andare, de 36 anos, sofreu com os efeitos nocivos do excesso de confiança. Formado em eletrônica, logo no primeiro emprego em uma multinacional, percebeu que desejava empreender. Com 22 anos e sem muita experiência, decidiu se juntar a alguns amigos e abrir uma casa noturna na Vila Olímpia, bairro de São Paulo que estava atraindo diversos estabelecimentos desse estilo na época. “Não foi nada planejado, simplesmente decidimos que queríamos trabalhar com isso.

Pura molecagem”, afirma Gustavo. Surpreendentemente, a empreitada deu certo e, em menos de seis meses, o empreendimento dava lucro. Com a exposição, Gustavo recebeu uma proposta para começar um segundo negócio em Maresias, no litoral norte de São Paulo. “Dessa vez a sorte não foi suficiente”, diz. Empolgado pelo sucesso, Gustavo deixou a parte financeira sob responsabilidade do sócio recém-conhecido. Um belo dia acordou e descobriu que o parceiro havia sumido e deixado um rombo de 80.000 reais nas contas do estabelecimento. “Meus pais e colegas já haviam me alertado, mas eu acreditava que sabia muito e que não precisava me preocupar”, a firma.

De volta a São Paulo, Gustavo teve de vender a porcentagem no bar para pagar as dívidas do negócio malfadado e recomeçar. Vendeu esculturas de madeira nas ruas, fez outra faculdade e, alguns anos depois, decidiu que era hora de tentar de novo. Foi aí que fundou, em 2012, a Esmalteria Nacional, rede de franquias de serviços de manicure. E o antigo fracasso fez com que ele mudasse de atitude em relação ao empreendedorismo. ”Pesquisei, fui a diversos salões e quis entender a fundo esse mercado e o que eu traria de diferente.” Com outras 270 unidades e quatro negócios que faturam 2,5 milhões de reais, ele acredita que não estaria onde está se não tivesse revisado sua autoconfiança. “Aquela experiência me tornou mais ponderado e humilde.”

SUPERIORIDADE ILUSÓRIA

Assim como Gustavo, muita gente pode perceber que está errando a mão no marketing pessoal quando já é tarde demais, porém, nem todos conseguem mudar de atitude. “algumas pessoas entram em um processo ilusório que se retroalimenta. Quando começa a dar certo uma, duas vezes, você vai se convencendo de que é aquilo e vai criando uma máscara”, diz Aristides Brito, neurocientista e diretor da consultoria Marca Pessoal Treinamentos, de São Paulo. Mas o trauma pode ser grande quando um fracasso acontece. “Quando fracassam, esses indivíduos tendem a ficar com uma crise enorme de autoestima e entrar em um processo destrutivo.”

Embora associemos esse comportamento a pessoas que acreditam muito nas próprias qualidades, esses perfis também podem esconder, no fundo, uma baixa autoestima. “Algumas pessoas, mesmo quando se superestimam, o fazem por falta de confiança. Precisam se provar tanto para elas quanto para quem está ao redor. Os homens, principalmente, devido a uma pressão social maior, tendem a se esconder atrás de uma suposta autoconfiança exacerbada”, afirma Roberto Debski, psicólogo clínico, de São Paulo. Para quem está em posições de liderança, essa superioridade ilusória é ainda mais nociva – e mais fácil de acontecer. ”Com o poder, as pessoas acabam acreditando que são, e não que estão líderes. Por estarem cercados de gente que quer agradá-los e não tem coragem de apontar erros, alguns líderes ficam fechados em uma torre de marfim e se creem invencíveis”, diz Ana Pliopas, do Hudson lnstitute of Coaching, de São Paulo.

Nesse contexto, quem tem autocrítica leva vantagem em relação a quem nem se quer enxerga suas limitações.

Por isso, no quadro oposto, a chamada “síndrome do impostor” – aquela sensação constante de ser uma fraude e de não merecer estar no lugar que ocupa -, quando bem dosada, pode ser benéfica. “Se a pessoa trabalhar a inteligência emocional, essa autocrítica vai levá-la ao crescimento. O ideal é que ela não se coloque para baixo nem se iluda sobre suas reais capacidades”, afirma Roberto.

 DOSE CERTA

O engenheiro de dados Luiz Filipe Santos, de São Paulo, fez as pazes com sua patrulha interna e usa o excesso de autocrítica a seu favor. “Na empresa em que trabalhava anteriormente eu me achava uma fraude. Havia entrado como analista e, dois anos depois, passei a gerenciar as pessoas que começaram comigo. Esse crescimento rápido me fez duvidar de mim mesmo”, afirma. Com a ajuda de amigos, Luiz Filipe estudou o assunto e hoje, aos 37 anos, lida melhor com a desconfiança interna – e até aposta que ela o ajude a tomar boas decisões. ”Passei a ser uma pessoa analítica e ponderada. Não fico mais deprimido com meus fracassos, mas entendo que aquilo faz parte do meu crescimento, diz.

Por outro lado, assim como a auto­ crítica, se bem dosada, a autoconfiança também é benéfica. “Quando você não sabe a complexidade daquilo que vai fazer e encara o desafio mesmo assim, demonstra coragem e é estimulado a conquistar mais. Há uma curva de aprendizado e maturidade quando você se depara com obstáculos”, afirma Ana Pliopas. O segredo, então, é o equilíbrio: nem a humildade em demasia (que cria profissionais tímidos e incapazes de mostrar suas potencialidades); nem a autoconfiança em excesso (que impede que o indivíduo ouça as pessoas que estão ao redor e reconheça as próprias limitações). Na dúvida, escolha o caminho do meio.

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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 23: 1-12

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Os escribas e os fariseus são condenados

Não vemos Cristo, em todas as suas pregações, tão severo com outras pessoas quanto com esses “escribas e fariseus”. A verdade é que nada está em oposição mais direta ao espírito do Evangelho do que o temperamento e os costumes daquela geração de homens, que mascaravam orgulho, materialismo e tirania, sob um manto e pretexto de religiosidade. Mas esses eram os ídolos e os queridos do povo, que pensava: Se apenas dois homens forem ao céu, um deles deve ser um fariseu. Então Cristo orienta o seu discurso à multidão, e aos seus discípulos (v.1), para corrigir os seus enganos a respeito desses escribas e fariseus, mostrando como eles realmente eram, e, dessa maneira, removendo o preconceito que alguns, entre as multidões, tinham alimentado contra Cristo e a sua doutrina, porque ela era combatida por aqueles homens da sua igreja, que se chamavam de guias do povo. Note que é bom conhecer o verdadeiro caráter dos homens, para que não nos impressionemos com nomes poderosos, títulos e pretensões ao poder: As pessoas precisam saber dos “lobos” (Atos 20.29,30), dos “cães” (Filipenses 3.2), dos “obreiros fraudulentos” (2 Coríntios 11.13), para que possam saber como levantar as suas defesas. E não somente a multidão, mas até mesmo os discípulos precisam desses avisos, pois os bons homens podem ter seus olhos deslumbrados com a pompa mundana

Nesse discurso:

I – Cristo permite o trabalho deles, de explicar a lei: “Os escribas e fariseus” (isto é, todo o sinédrio, que estava à frente do governo religioso, do que eram todos chamados escribas, e alguns deles, fariseus) estão assentados “na cadeira de Moisés” (v. 2), como professores públicos e intérpretes da lei; e sendo a lei de Moisés a lei civil do seu Estado, eles eram como juízes, ou como um tribunal de juízes – ensinar e julgar pareciam ser equivalentes, comparando 2 Crônicas 17.7,9 com 2 Crônicas 19.5,6,8. Eles não eram os juízes itinerantes, que faziam o circuito, mas o tribunal que deliberava nas apelações, nos veredictos especiais ou nas decisões enganosas, pela lei; eles estavam assentados na cadeira de Moisés, não no seu papel de mediador entre Deus e Israel, mas somente no seu papel de presidente da suprema corte (Êxodo 18.26). Ou ainda podemos aplicar essas palavras não ao sinédrio, mas aos outros fariseus e escribas, que explicavam a lei e ensinavam as pessoas como aplicá-la a situações particulares. O “púlpito de madeira”, assim como tinha sido feito para Esdras, que realmente foi um “escriba” na lei de Deus ( Neemias 8.4), aqui é chamado de “cadeira de Moisés”, porque Moisés tinha um deles em cada cidade (esta é a expressão em Atos 15.21), e naqueles púlpitos era lido; este era o seu trabalho, e era justo e honrado; era necessário que houvesse alguns em cuja boca as pessoas pudessem buscar a lei (Malaquias 2.7). Considere:

1. Muitos bons lugares estão cheios de homens maus; não é novidade que os mais vis dos homens sejam exaltados, até mesmo na cadeira de Moisés (Salmos 12.8), e, quando isto acontece, os homens não são tão honrados pela cadeira quanto a cadeira é desonrada pelos homens. Todavia, aqueles que se assentavam na cadeira de Moisés eram tão indignamente degenerados, que era tempo que surgisse o grande Profeta, alguém como Moisés, para erigir outra cadeira.

2. Trabalhos e poderes bons e úteis não devem, portanto, ser condenados e abolidos porque, às vezes, caem em mãos de homens maus, que os usam mal. Por isso, não devemos derrubar a cadeira de Moisés porque escribas e fariseus se apoderaram dela; em vez de fazer isso, deve-se deixar “crescer ambos juntos até à ceifa” (cap. 13.30).

Aqui Ele conclui (v. 3): “Observai, pois, e praticai tudo o que vos disserem”. Enquanto eles estiverem assentados na cadeira de Moisés, isto é, lendo e pregando a lei que foi dada por Moisés” (que, como antes, continuava em pleno vigor, força e virtude), “e julgando de acordo com aquela lei, devereis dar ouvidos a eles, pois eles vos recordam a palavra escrita”. Os escribas e fariseus viviam de estudar as Escrituras, e estavam familiarizados com a sua linguagem, história e costumes, e o seu estilo e fraseologia. Cristo queria que o povo fizesse uso da ajuda que eles lhe davam para compreender as Escrituras, e agisse de maneira correspondente. Enquanto os seus comentários realmente exemplificassem o texto, e não o corrompessem; enquanto eles deixassem claro, e não vazio, o mandamento de Deus, eles deveriam ser observados e obedecidos, mas com precaução e com um juízo de sabedoria. Note que não devemos pensar mal das boas verdades que estão sendo pregadas por maus ministros; nem de boas leis que são executadas por maus magistrados. Embora seja mais desejável ter o nosso alimento trazido por anjos, ainda que Deus nos envie o alimento por intermédio de corvos, se ele for bom e íntegro, nós devemos tomá-lo e agradecer a Deus por ele. O nosso Senhor Jesus disse isso para evitar a objeção que muitos estariam dispostos a fazer às suas palavras seguintes, como se, ao condenar os escribas e os fariseus, Ele desejasse desprezar a lei de Moisés e afastar as pessoas dela; pois Ele não veio para destruir a lei, mas para cumpri-la. Observe que é sábio evitar as exceções que podem ser feitas com reprovações justas, especialmente quando existe oportunidade de distinguir entre os trabalhado­ res e o seu trabalho, para que o “ministério não seja censurado”, quando os ministros o são.

II – Ele condena os homens. Ele tinha ordenado que a multidão fizesse o que escribas e fariseus diziam; mas aqui Ele anexa um aviso para não fazer o que eles faziam, para que se acautelassem do seu fermento. “Não pro­ cedais em conformidade com as suas obras”. Suas tradições eram suas obras, eram seus ídolos, as obras de seu capricho. Ou: “Não procedais de acordo com seu exemplo”. As doutrinas e os costumes são coisas que devem ser experimentadas, e, se houver oportunidade, devem ser cuidadosamente separadas e distinguidas; e da mesma maneira como não devemos aceitar doutrinas corruptas, em nome de quaisquer práticas louváveis daqueles que as ensinam, também não devemos imitar nenhum mau exemplo, em nome de doutrinas plausíveis daqueles que as definem. Os escribas e fariseus se orgulhavam tanto da bondade das suas obras quanto da ortodoxia dos seus ensinamentos, e esperavam ser justificados por isso; era a oração que eles faziam (Lucas 18.11,12). Mas essas coisas, que eles valorizavam tanto, eram abominações aos olhos de Deus.

Aqui, como também nos versículos seguintes, o nosso Salvador especifica diversas particularidades das obras dos escribas e fariseus, mostrando que não devemos imitá-los. De maneira geral, eles são acusados de hipocrisia, dissimulação ou fraude na religião; um crime que não pode ser levado ao tribunal dos homens, porque nós podemos julgar somente de acordo com a aparência externa; mas Deus, que sonda o coração, pode condenar de hipocrisia, e nada lhe é mais desagradável, pois Ele deseja a verdade.

Nesses versículos, eles são acusados de quatro transgressões.

1. O que eles faziam e o que eles diziam eram duas coisas diferentes. O que eles faziam não estava de acordo, de maneira nenhuma, com a sua pregação ou com a sua profissão: “porque dizem, e não praticam”. Eles ensinam, da lei, aquilo que é bom, mas a sua conduta perpetra a mentira, e eles parecem ter encontrado outro caminho para o céu, para si mesmos, que não é o caminho que mostram aos outros. Veja isso exemplificado e demonstrado a eles, Romanos 2.17-24. Os pecadores mais imperdoáveis são aqueles que se permitem os pecados que condenam nos outros, ou piores. Isto toca especial­ mente os maus ministros, que seguramente terão a sua parte destinada com os hipócritas (cap. 24.51). Pois será que pode haver hipocrisia maior do que ensinar aos outros aquilo que deve ser crido e feito, se quem o ensina não crê naquilo, e desobedece, destruindo no seu comportamento aquilo que edificam na sua pregação? Quando no púlpito, pregam tão bem que é uma pena que tenham que sair de lá; mas fora do púlpito, vivem de maneira tão má que é uma pena que tenham que subir ao púlpito; como sinos, que chamam os outros à igreja, mas eles mesmos não vão; ou postes com lâmpadas de mercúrio, que indicam o caminho aos outros, mas ficam parados. Estes serão julgados a partir das suas próprias bocas. Isto se aplica a todos aqueles que dizem e não fazem; que fazem uma profissão de fé plausível, mas não vivem de acordo com aquela profissão; que fazem boas promessas, mas não as cumprem; que estão cheios de palavras bonitas, e podem apresentar a lei a todos os que estão ao seu redor, mas não possuem boas obras; grandes oradores, porém maus praticantes. ”A voz é a voz de Jacó, porém as mãos são as mãos de Esaú”. Eles falam bem: “Eu vou, senhor”; mas não se pode confiar neles, pois “sete abominações há no seu coração”.

2. Eles eram muito severos ao impor aos outros aquelas coisas às quais eles não estavam dispostos a submeter-se (v. 4): “atam fardos pesados e difíceis de suportar”, não apenas insistindo sobre as mínimas circunstâncias da lei, que é chamada de “jugo” (Atos 15.10), e obrigando a sua observância com mais rigidez e severidade do que o próprio Deus o fez, mas também fazendo acréscimos à sua palavra, e impondo as suas próprias invenções e tradições, sob as mais pesadas punições. Eles se compraziam em mostrar a sua autoridade e exercer a sua faculdade dominante, governando sobre a herança de Deus e dizendo à alma dos homens: ”Abaixa-te, para que passemos sobre ti”. Eles testemunham os seus muitos acréscimos à lei do quarto mandamento, com que tornaram o sábado um fardo sobre os ombros dos homens, quando deveria ser a alegria de seus corações. Assim, com “rigor e dureza”, estes pastores dominam o rebanho, como antigamente (Ezequiel 34.4).

Mas veja a sua hipocrisia: “Eles, porém, nem com o dedo querem movê-los”.

(1) Eles não praticavam aquelas coisas que impunham sobre os outros; eles obrigavam o povo a uma rigidez na religião à qual eles mesmos não se curvavam; mas, secretamente, transgrediam as suas próprias tradições, que publicamente obrigavam. Eles eram indulgentes com o seu próprio sentimento de orgulho por ensinarem a lei aos outros; mas quando se tratava do seu comportamento, procuravam a sua própria comodidade. Assim foi dito, para censura dos sacerdotes papistas, que eles jejuam com vinho e alimentos deleitosos, enquanto obrigam o povo a jejuar com pão e água, e se esquivam das penitências que impõem aos leigos.

(2) Eles não aliviavam as pessoas, no que dizia respeito a essas coisas, nem moviam um dedo para aliviar a sua carga, mesmo vendo que era excessiva. Eles eram capazes de fazer adições frívolas à lei de Deus, e ensiná-la assim, e não diminuíam nada das suas próprias imposições, nem perdoavam sequer as menores falhas, nos menores detalhes. Eles não permitiam que nenhum tribunal diminuísse a rigidez da sua lei comum. Como era contrária a isso a prática dos apóstolos de Cristo, que permitiam aos outros o uso da liberdade cristã e, em benefício da paz e da edificação da igreja, negavam-na a si mesmos! Eles não colocavam nenhuma carga além das necessárias; pelo contrário, procuravam diminuí-las (Atos 15.28). Com que cuidado Paulo poupa aqueles a quem escreve! (1 Coríntios 7.28; 9.12).

3. Tudo o que faziam na religião era para exibição, e não pelo seu conteúdo (v. 5): “fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens”. Nós devemos fazer obras tão boas que aqueles que as veem possam glorificar a Deus; mas não devemos proclamar as nossas boas obras, com o objetivo de que os outros as vejam e nos glorifiquem, que é a acusação que o nosso Salvador aqui faz aos fariseus, de maneira geral, como já tinha feito antes, nos exemplos particulares de oração e esmolas. Tudo o que eles queriam era ser objeto de louvor dos homens, e, portanto, os seus esforços deviam ser vistos pelos homens, para fazer um bom espetáculo para a carne. Nos deveres da religião que estavam diante dos olhos dos homens, ninguém era tão constante e abundante quanto eles; mas naquilo que estava entre Deus e as suas almas, no isolamento de suas câmaras, e nos recessos de seus corações, eles dispensavam a si mesmos da mais pura obediência. A religiosidade lhes dava um nome para viver, que era tudo o que eles queriam, e por isso não se preocupavam com o poder dela, que é essencial para a vida. Aquele que faz tudo para ser visto, não faz nada adequado.

Jesus especifica duas coisas que eles faziam para que os homens vissem.

(1). “Trazem largos filactérios” – pequenos rolos de papel ou pergaminho, onde estavam escritos, com grande delicadeza, quatro parágrafos da lei (Êxodo 13.2-11; 13.11-16; Deuteronômio 6.4-9; 11.13-21). Eram costurados com couro, e eram usados sobre suas cabeças e braços esquerdos. Era uma tradição dos anciãos que tinha a sua referência em Êxodo 13.9 e Provérbios 7.3, onde as expressões parecem ser figurativas, sugerindo nada além de nós termos que ter em mente as coisas de Deus tão cuidadosamente como se elas estivessem entre os nossos olhos. Os fariseus faziam esses filactérios grandes, para que pudessem parecer mais santos, rígidos e entusiasmados pela lei do que os outros. É uma ambição graciosa cobiçar ser realmente mais santo que os outros, mas é uma ambição arrogante cobiçar parecer assim. É bom sentir bastante piedade verdadeira, mas não exceder as suas demonstrações externas, pois o exagero é, corretamente, considerado como sendo um plano (Provérbios 27.14). É o pretexto da hipocrisia que faz mais tumulto do que é necessário no serviço externo; mais do que é necessário para provar ou aprimorar os bons afetos e as disposições da alma.

(2). ”Alargam as franjas das suas vestes”. Deus ordenou que os judeus fizessem franjas nas vestes (Números 15.38), para distingui-los das outras nações, e para lembrá-los de que eram um povo peculiar; mas os fariseus não estavam satisfeitos em ter as suas franjas iguais às das outras pessoas (o que poderia servir ao desígnio de Deus), mas as suas deviam ser mais largas do que as normais, para atender ao seu desejo de serem observados; como se eles fossem mais religiosos do que os outros. Mas aqueles que aumentam os seus filactérios e as franjas das suas vestes enquanto os seus corações se encolhem e se esvaziam do amor a Deus e ao seu próximo, embora possam então enganar os outros, só enganarão, no final, a si mesmos.

4. Eles gostavam da proeminência e da superioridade, e se orgulhavam extremamente delas. O orgulho era o pecado reinante dos fariseus, o pecado que mais facilmente os assediava, e contra o qual o Senhor aproveitava todas as oportunidades para testemunhar.

(1) O Senhor descreve o orgulho deles (vv. 6,7). Eles amavam e cobiçavam:

[1]. Os lugares de honra e respeito. Em todas as aparições públicas, como ceias, e nas sinagogas, eles esperavam e recebiam, para alegria dos seus corações, os primeiros lugares e as primeiras cadeiras. Eles tomavam os lugares dos outros, e tinham precedência, como pessoas de grande mérito. E é fácil imaginar a complacência que recebiam, eles amavam ter a proeminência (3 João 9). O que é condenado não é possuir os primeiros lugares, ou sentar-se nas melhores cadeiras (alguém precisa se sentar nelas), mas gostar disso; entretanto, muitos homens valorizam uma cerimônia tão pequena quanto sentar-se nos lugares mais visíveis, entrar primeiro, ficar junto à parede, ou do melhor lado, com o objetivo de se valorizarem. Eles procuram conseguir essas coisas, e sentem ressentimentos quando não as conseguem; isto nada mais é do que fazer um ídolo de si mesmo. Cair de joelhos e adorar este ídolo é o pior tipo de idolatria! Isto seria ruim em qualquer lugar, mas especialmente nas sinagogas. Aqueles que procuram a honra para si mesmos quando comparecem para dar glória a Deus, e para se humilhar diante dele, realmente desprezam a Deus, em vez de servi-lo. Davi preferiria estar à porta da casa de Deus; ele estava assim distante de cobiçar o principal lugar ali (Salmos 84.10). É uma evidência de orgulho e hipocrisia quando as pessoas não se preocupam em ir à igreja, a menos que possam parecer elegantes e marcar presença ali.

[2]. Títulos de honra e respeito. Eles amavam “as saudações nas praças”, amavam ver as pessoas tirando os chapéus para saudá-los, e mostrando-lhes respeito quando os encontravam nas ruas. Oh! Como isso os contentava, e alimentava seu humor vão, ser apontados, e ter isto dito deles: Este é ele, ter o caminho aberto para eles entre a multidão na praça: ”Abram caminho, um fariseu está vindo!”, e ser saudados com o título pomposo de “Rabi, Rabi!”. Isto era comida e bebida e guloseima para eles; e eles tinham tanta satisfação com isso quanto Nabucodonosor teve com o seu palácio, quando disse: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei?” As saudações não teriam lhes feito tanto bem, se não tivessem estado nas praças, onde todos podiam ver o quanto eram respeitados, e o quanto eram considerados na opinião das pessoas. Foi pouco tempo antes da época de Cristo que os mestres judeus, os mestres de Israel, tinham adotado o título de Rabi, Rab, ou Raban, que significa grande, ou muito, e era interpretado como Doutor; ou, Meu senhor. E eles enfatizavam tanto o título, que criaram uma máxima que dizia que “aquele que saúda o seu mestre e não o chama de Rabi, faz com que a divina majestade se afaste de Israel”. Eles colocavam muita religiosidade naquilo que era apenas uma questão de boas maneiras! O fato de aquele que é instruído na Palavra demonstrar respeito àquele que lhe ensina representa um elogio suficiente por parte daquele que demonstra o respeito; mas o fato de aquele que ensina a gostar disso, e exigir isso, inchando-se de orgulho com isso e se desagradando se isso for omitido, é pecaminoso e abominável; e, em vez de ensinar, ele precisa aprender a primeira lição da escola de Cristo, que é a humildade.

(2) Jesus aconselha os seus discípulos para que não sejam como eles; nisso, eles não devem seguir as suas palavras. “Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre” (v. 8).

Aqui está:

[1] Uma proibição do orgulho. Eles aqui são proibidos:

Em primeiro lugar, de exigir títulos de honra e autoridade para si mesmos (vv. 8-10). Isto se repete duas vezes: “não queirais ser chamados Rabi… nem vos chameis mestres”; não que seja ilícito prestar respeito civil àqueles que estão acima de nós no Senhor; na verdade, trata-se de um exemplo da honra e da estima que temos obrigação de mostrar a eles; mas:

1. Os ministros de Cristo não devem apreciar o nome Rabi, ou Mestre, para se diferenciarem das demais pessoas. Não está de acordo com a simplicidade do Evangelho, o fato de eles cobiçarem ou aceitarem a honra que têm os que estão nos palácios dos reis.

2. Eles não devem pressupor a autoridade e o domínio sugeridos nesses nomes, eles não devem ser imperiosos nem dominantes sobre seus irmãos, nem sobre a herança de Deus, como se tivessem controle sobre a fé dos cristãos. Todos devem receber deles aquilo que eles receberam do Senhor; mas, em outras coisas, eles não devem tornar as suas opiniões e vontades uma regra e um padrão para todos os demais, e não devem apresentá-los como se trouxessem, de forma implícita, a necessidade de obediência. As razões para essa proibição são:

(1). “Um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo” (v. 8), e outra vez no versículo 10. Observe que:

[1] Cristo é o nosso Mestre, nosso professo1 nosso guia. George Herbert, quando mencionava o nome de Cristo, normalmente acrescentava: Meu Mestre.

[2] Somente Cristo é nosso Mestre, os ministros são apenas aceitos na escola. Somente Cristo é o Mestre, o grande Profeta, a quem devemos ouvir, e por quem devemos ser governados, cuja palavra deve ser um oráculo e uma lei para nós. “Em verdade, eu vos digo” deve ser suficiente para nós. E uma vez que somente Ele é o nosso Mestre, se os seus ministros se estabelecerem como ditadores, e pretende­ rem ter uma supremacia e uma infalibilidade, estarão praticando uma usurpação ousada daquela honra de Cristo, que Ele não dará a ninguém mais.

(2). “Todos vós sois irmãos”. Os ministros são irmãos, não somente entre si, mas de todo o povo; e por isso é ruim que eles sejam mestres, uma vez que não há ninguém para ser dominado por eles, exceto seus irmãos; sim, e todos nós somos jovens irmãos, caso contrário os mais velhos poderiam reivindicar ser “os mais excelentes em alteza e poder” (Genesis 49.3). Mas para evitar isso, o próprio Cristo é “o primogênito entre muitos irmãos” (Romanos 8.29). “Vocês são irmãos”, como são também todos discípulos do mesmo Mestre. Os colegas de escola são irmãos, e, como tal, devem ajudar-se, uns aos outros, para aprender a lição, mas isto não significa, de maneira nenhuma, permitir que um dos alunos suba ao lugar do Mestre, e conduza a escola. Se nós somos todos irmãos, não devemos, muitos de nós, ser mestres (Tiago 3.1).

Em segundo lugar, eles são proibidos de atribuir tais títulos a outros (v. 9): “A ninguém na terra chameis vosso pai”. Que ninguém seja o pai da sua religião, isto é, o seu fundador, autor, diretor e governador. Os nossos pais segundo a carne devem ser chamados de pais, e, como tais, devemos prestar-lhes reverência; mas somente Deus deve ser considerado o Pai do nosso espírito (Hebreus 12.9). A nossa religião não deve se originar de nenhum homem, nem depender de qualquer homem. Nós nascemos de novo para a vida espiritual e divina, “não de semente corruptível, mas… pela palavra de Deus”; não “da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus”. A vontade do homem não é a origem da nossa religião, e também não deve ser o que a governa. Não devemos aos ditames de nenhuma criatura, nem que se trate da mais sábia, nem da melhor, nem prender a nossa fé à manga de qualquer homem, porque não sabemos corno ele a conduzirá. O apóstolo Paulo se chama de pai para aqueles de cuja conversão ele foi um instrumento (1 Coríntios 4.15; Filemom 10), mas ele não deseja ter domínio sobre eles, e usa esse título para sugerir, não autoridade, mas afeto: por isso, ele não os considera devedores, mas seus “filhos amados” (1 Coríntios 4.14).

[1]. A razão dada é: “Um só é o vosso Pai, o qual está nos céus”. Deus é o nosso Pai, e Ele é tudo na nossa religião. Ele é a sua fonte, e o seu fundador; a sua vida, e o seu Senhor; somente dele, como origem, deriva a nossa vida espiritual, e somente dele ela depende. Ele é o “Pai das luzes” (Tiago 1.17), aquele que é “um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos” (Efésios 4.6). Tendo Cristo nos ensinado a dizer: “Pai nosso, que estás nos céus”, não chamemos de pai a nenhum homem sobre a terra; nenhum homem, porque o homem é um verme, e o filho do homem é um bicho, talhado da mesma rocha que nós. Isto ocorre especialmente sobre a terra, pois o homem sobre a terra é um verme pecador. Não existe um só homem sobre a terra que faça o bem e que não peque; por isso, ninguém está apto para ser chamado de pai.

[2]. Aqui está um preceito de humildade e de submissão mútua (v.11): “O maior dentre vós será vosso servo”. Não somente se chamará assim (sabemos que existe aquele que se intitula Servo dos servos de Deus, mas age corno Rabi, e pai, e mestre, e – O Senhor nosso Deus, porém não o é) mas o será. Interprete isto como uma promessa: Será considerado o maior, e estará mais elevado na graça de Deus, aquele que for mais submisso e servil. Ou corno um preceito: Aquele que subir a qualquer lugar de dignidade, confiança e honra, na igreja, seja seu servo (algumas cópias apresentam esta em lugar de estar); que ele não pense que essa patente de honra seja urna ordem de comodidade. Não. Aquele que é maior não é um senhor, mas um ministro. O apóstolo Paulo, que conheceu o seu privilégio tão bem corno um dever, embora “sendo livre para com todos”, ainda assim se fez “servo de todos” (1 Coríntios 9.19). E o nosso Mestre frequentemente insistiu com os seus discípulos para que fossem humildes e renuncias­ sem a si mesmos, que fossem moderados e condescendentes, e que fossem abundantes em todos os ofícios do amor cristão, embora fossem simples, e os mais simples de todos, e disso Ele nos deu o exemplo.

[3]. Aqui está urna boa razão para tudo isso (v. 12). Considere:

Em primeiro lugar, a punição destinada aos orgulhosos: “O que a si mesmo se exaltar será humilhado”. Se Deus lhes der o arrependimento, eles serão humilhados aos seus próprios olhos, e se detestarão por isso; se não se arrependerem, mais cedo ou mais tarde serão humilhados perante o mundo. Nabucodonosor, do auge do seu orgulho, foi levado para junto dos animais. Herodes, para ser um jantar para os vermes. E a Babilônia, que se sentava como rainha, para ser espanto entre as nações. Deus tornou “desprezíveis e indignos” os sacerdotes orgulhosos e ambiciosos (Malaquias 2.9), e o profeta que ensina a falsidade, “a cauda” (Isaias 9.15). Mas se os homens orgulhosos não tiverem sinais de humildade colocados sobre si neste mundo, chegará o dia em que eles ressuscitarão “para vergonha e desprezo eterno” (Daniel 12.2). “O Senhor… retribui com abundância aos soberbos” (Salmos 31.23). Em segundo lugar, a dignidade e a honra que são direcionadas ao humilde. “O que a si mesmo se humilhar será exaltado”. A humildade é um ornamento “precioso diante de Deus”. Neste mundo, os humildes têm a honra de serem aceitos pelo Deus santo, e respeitados por todos os homens bons e sábios; de serem qualificados, e frequentemente chamados para os mais honrosos serviços; pois a honra é como a sombra, que foge daquele que a persegue e tenta agarrá-la, mas segue aqueles que fogem dela. No entanto, no outro mundo, com o seu Deus, e com a condescendência dos seus irmãos, os humildes serão exaltados, para herdar o trono da glória. Eles não serão apenas reconhecidos, mas coroados diante dos anjos e dos homens.