PSICOLOGIA ANALÍTICA

DO QUE AS CRIANÇAS SE LEMBRAM?

A forma como os pequenos aprendem os leva a criar mais recordações falsas e fantasias do que os adultos; novas maneiras de investigar o assunto, porém, têm trazido novas pistas sobre esse tema.

Do que as crianças se lembram

Crianças não são testemunhas muito confiáveis. A sabedoria popular diz que frequentemente “relembram” coisas que nunca aconteceram. Nos últimos anos, porém, vários cientistas discordaram dessa tese com base em alguns estudos segundo os quais adultos criam até mais memórias falsas do que os pequenos. Um novo estudo, porém, confirma a propensão infantil para confundir realidade e fantasia, e seus defensores alegam que experimentos anteriores podem simplesmente não ter utilizado o método de pesquisa mais adequado.

Tradicionalmente, em geral, para explorar falsas memórias, os cientistas apresentam aos pequenos voluntários uma lista de palavras (por exemplo, “lacrimejar”, “tristeza” e “molhado”) tematicamente relacionadas a um termo que não está na lista (nesse caso, “choro”) e, em seguida, perguntam aos participantes do que se recordam. Tipicamente, os adultos mencionam a palavra que falta com maior frequência do que as crianças. “Isso acontece possivelmente porque suas experiências de vida permitem traçar associações entre os conceitos mais facilmente”, diz o psicólogo forense Henry Otgaar, da Universidade de Maastricht, na Holanda, coautor do estudo, publicado no periódico científico Journal of Experimental Child Psychology.

Em vez de usar esse tipo de analogia para investigar o fenômeno, Otgaar e seus colegas mostraram aos voluntários imagens de cenas que se passavam numa sala de aula, num funeral ou numa praia. Depois de uma pequena pausa, perguntavam aos participantes se haviam notado certos objetos em cada figura. Em três experimentos, crianças de 7 e 8 anos relataram consistentemente terem visto mais detalhes inexistentes do que os adultos.

“Até então os estudos revelavam que os pequenos tendem a confiar na essência de uma memória quando fazem inferências”, salienta Otgaar. E não se trata de mentir. Por exemplo: se visualizaram uma sala de aula, podiam acreditar também que viram um lápis, um material comumente encontrado nesse ambiente. Esse processo de reconhecimento de padrões os ajuda a aprender mais rapidamente. Quando ficamos mais velhos, costumamos focar detalhes específicos que usamos para reconstruir uma cena. É provável que esse novo estudo, feito com imagens em vez de listas de palavras, tenha se aproximado um pouco mais de como falsas memórias ocorrem no cotidiano – afinal, a maioria de nós experimenta o mundo visualmente.

Os autores afirmam que o experimento pode fornecer pistas para colhermos testemunhos mais confiáveis tanto de crianças como de adultos, já que mudanças sutis no enquadramento poderiam alterar decisivamente nossas recordações. Ao falar com os pequenos, os advogados devem, por exemplo, tentar evitar dar dicas para reavivar a memória ou usar linguagem muito descritiva, pois isso pode desencadear a ativação do sistema cerebral padrão de decisões que contribui para a criação de falsas memórias.

 FRONTEIRAS DA MEMÓRIA

De 0 a 2 anos: bebês formam memórias curtas e esparsas

De 2 a 3: crianças começam a recordar fatos e eventos. No entanto, são efêmeros, porque o hipocampo (chave para memórias de longo prazo) ainda está amadurecendo

De 4 a 7: há o aperfeiçoamento da memória de curto prazo. A memória prospectiva (a capacidade de planejar e relembrar para executar um plano) começa a surgir

De 8 a 10: os pequenos já se esqueceram de aproximadamente dois terços de suas recordações antes dos 3 anos. Habilidades espaciais e lembranças de fatos se desenvolvem rapidamente

De 10 a 12: nos pré-adolescentes, o crescimento do hipocampo desacelera; as conexões começam a ser podadas nessa região; e as memórias de longo prazo se aperfeiçoam. A capacidade de suprimir recordações conscientemente também parece aumentar

De 13 a 21: em adultos jovens, o córtex temporal superior, que ajuda a integrar informações, e o córtex pré-frontal dorsolateral, envolvido na memória de curto prazo, continuam a amadurecer nos nossos 20 e poucos anos. Esse padrão pode explicar por que recordações se tornam mais ricas e complexas nesse período.

 QUAL A SUA PRIMEIRA MEMÓRIA?

Talvez você espere que sua lembrança mais remota seja um acontecimento emocionante. A verdade, porém, é que a maioria de nós se lembra de alguma situação bastante comum. Apenas aproximadamente 25% das pessoas relatam que a primeira memória envolve algum trauma, de acordo com estudos.

As crianças são mais propensas a se recordar de uma situação se solicitadas a falar sobre o assunto detalhadamente. Talvez isso ajude a entender por que o momento em que uma memória se fixa pela primeira vez varia de acordo com a cultura. Entre os maoris da Nova Zelândia, por exemplo, a maioria se recorda de eventos um ano mais antigos em comparação com crianças americanas. “Esse fenômeno está relacionado à cultura; é preciso considerar que o povo maori honra e discute constantemente sua história”, diz a psicóloga Carole Peterson, da Universidade Memorial de Newfoundland.

OUTROS OLHARES

O VALE DO SILÍCIO CHINÊS

A história de Shenzhen, a vila de pescadores que se transformou em uma metrópole de 12,5 milhões de habitantes, com PIB igual ao da Irlanda e que lidera a inovação no país asiático.

O vale do silício chinês

Há 20 anos, o jovem Hu Chao deixava seu vilarejo na provinda de Henan, no norte da China – como milhões ainda fazem – em busca de uma vida melhor no Sul, mais abastado. Mudou-se para Shenzhen, cidade portuária. Era a primeira Zona Econômica Especial (ZEE) do país. Hoje é um dos símbolos das reformas e da abertura econômica promovidas em 1978 pelo então presidente Deng Xiaoping. O aniversário de quatro décadas tem sido alardeado pelo governo chinês, que acaba de anunciar novas reformas rumo ao que o presidente Xi Jinping chamou de “nova era” do socialismo com características chinesas, pouco antes de inaugurar seu segundo mandato consecutivo e de receber o aval constitucional para ficar no comando da segunda maior economia do mundo pelo resto da vida. O fluxo de trabalhadores do Norte e do resto da China atrás de empregos em Shenzhen foi imenso nesses anos. A vila de pescadores, com cerca de 22 mil habitantes até 1970, viu sua população dar um salto para quase 2,5 milhões de pessoas quando Hu nela chegou. Hoje são 12,5 milhões – o equivalente à população do Grande Rio. O ritmo de crescimento da cidade, não apenas populacional, parece não ter limite. Shenzhen pisou no acelerador nos últimos anos e registrou uma das maiores taxas de crescimento da China: 8,8% no ano passado, quando seu Produto Interno Bruto (PIB) ultrapassou os US$ 338 bilhões, deixando para trás Cantão e Cingapura, vizinhos com quem compete – ao que tudo indica, será  maior do que Hong Kong até 20 25, Trata-se de mais ou menos o mesmo  tamanho da economia da Irlanda. que bateu os US$ 339 bilhões. Depois de décadas crescendo na casa dos dois dígitos, a China como um todo vem pisando no freio. A meta oficial está mantida em uma expansão de 6,5% ao ano – o novo normal, como vem insistindo o Partido Comunista, para evitar o nervosismo dos mercados. Estes, por sua vez, temem que o país já não tenha o mesmo fôlego de antes. A ideia é correr menos e garantir um crescimento mais sustentável. Um dos motivos para o ritmo mais acelerado de Shenzhen são os gastos com pesquisa e desenvolvimento, os mais elevados da China, que atingiram 4,3% de seu PIB somente no ano passado. Com o foco em inovação, a antiga vila – da qual existem poucos vestígios – se transformou em um hub tecnológico que ficou conhecido mundo afora como o Vale do Silício da China.

Hu ainda lembra quando o bairro de Huaqiangbei, onde está a famosa rua dos eletrônicos, tinha apenas uma fábrica, a Huaqian. Depois dela, vieram as outras que fizeram dali o maior fabricante de eletrônicos da Ásia. Pântanos e áreas rurais inteiras ganharam novas formas. Deram lugar a arranha-céus monumentais, muitos assinados por arquitetos de renome internacional e um punhado deles listado no ranking dos mais altos da China e do mundo. Hu, mais do que ninguém, acompanhou o fenômeno da construção d vi] nesse mercado que é hoje o que mais se valoriza no país. Foi esse o setor que abriu as portas da cidade para ele e permitiu que Hu tivesse um padrão de vida muito superior à média dos chineses. Sua história se mistura com a trajetória de Shenzhen. De família pobre, desembarcou ali para trabalhar como vendedor dos imóveis que saíam do papel rapidamente, a prova do enriquecimento da cidade que se tornou uma das joias do Vale do Rio da Pérola. Não havia corretores profissionais em Shenzhen quando chegou. Lembra que o metro quadrado no bairro de Nanshan, considerado nobre, custava 4 mil yuans (RS 2.200). Agora, sai a nada menos que 120 mil yuans (R$ 67.000), uma diferença de 2.900 %. Tanta gente fez fortuna com a especulação imobiliária que o governo local impôs barreiras para quem quiser comprar mais de um imóvel. Os preços são tão proibitivos, segundo Christopher Balding, professor da Escola de Negócios de Shenzhen da Universidade de Pequim, que quem tem dinheiro prefere comprar fora da cidade ou do pais.

Homem de visão. Hu soube ganhar dinheiro, mas não revela quanto lucrou. Apenas sorri e diz ter uma vida confortável, o que suas roupas de marca e seus músculos trabalhados em academia –    um hábito recente entre os chineses – parecem confirmar. Empresário, sócio de uma empresa de exportação, hoje entra e sai de Shenzhen quando quer. Viaja para o exterior sempre que dá vontade e quando o trabalho permite.

Como a maioria dos ”shenzhenianos”, Hu não é daqui. Essa é uma particularidade da cidade, uma das raríssimas da China que não usam as palavras ” local” ou ”forasteiro” (“bendiren” e “waidiren”, em chinês, respectivamente) “É uma cidade de migrantes, com gente de todas as partes da China. Por questões profissionais e pessoais, muitos vêm e vão. Muitos fazem fortuna aqui”, disse. Mas todos se sentem filhos de Shenzhen, sejam eles nascidos na China ou não. “Não há aquela competição que vemos pelo resto do país, em que alguém vai te dizer: ‘É muito bom, não é? Foi um local que fez’. Aqui, você se sente acolhido”, disse o empresário brasileiro Alessandro Nicolau, morador de Shenzhen há uma década. Muitas nacionalidades se misturam ao sotaque da cidade, que embora esteja na província de Guangdong, onde se fala o cantonês, usa mais o mandarim e o inglês como idioma franco. “Você vem para Shenzhen, você é de Shenzhen”, diz o cartaz logo no aeroporto.

A rua dos eletrônicos é um dos redutos dos rostos estrangeiros, uma longa avenida de pedestres cercada de prédios por onde clientes e engenheiros do mundo inteiro passam apressados, dividindo o espaço com os policiais que fazem a vigilância do local de bermudas, para enfrentar o clima quase tropical, montados em seus segways – veículo individual com uma pequena prancha para os pés e duas rodas paralelas. O entra e sai é contínuo. Centenas de pequenas lojas com tudo o que se pode imaginar, de led a pequenos aparelhos, e componentes eletrônicos, compartilham a área com estúdios e fábricas. A diversidade é tamanha que deu fama a Scotty, um americano que ficou conhecido por viajar até Shenzhen para provar que poderia montar seu próprio iPhone 6S com a ajuda dos vendedores de peças e com os engenheiros de plantão no mercado local. Ele conta a experiência em um vídeo em seu canal de Youtube. “Visitar Shenzhen, é como visitar o futuro”, disse. Sua história é vista com motivo de orgulho para os shenzhenianos. É esse espírito que faz da cidade uma Meca para aqueles que tem uma ideia na cabeça. Foi assim que se tomou também o berço chinês de um novo conceito de profissionais, originado nos Estados Unidos: os makers. Inicialmente eram apenas diletantes que faziam do ócio criativo a desculpa para criar. Mas se tornaram homens de negócios, categoria tão apreciada na China, que vê nesses inventores de engenhocas do século XXI o futuro.

“Isto aqui é o paraíso dos engenheiros. Temos capital, temos todos os equipamentos e o espaço para produzir”, afirmou Saw Yee Ping, jornalista de Hong Kong, que trabalha com a conexão entre makers, clientes e o mercado para a Hong Kong Innovation Services (HKIS), uma estação de makers que conta com o apoio integral do governo chinês. “Sou uma superconectora”, disse ela, pouco antes de exibir o imenso peixe-robô de design coreano, de utilidade duvidosa, que custa USS 80 mil a unidade.

Do outro lado da rua, os concorrentes da empresa Trouble Makers criaram outro espaço criativo para quem desembarca em Shenzhen atrás de um sonho. “Tudo é possível”, disse Henk Werner, o dono do lugar. Jovens chineses e de outros países se instalam ali pelo tempo que for necessário. Não tem dinheiro? Sem problemas, porque não é necessário pagar aluguel nem luz para montar seu estúdio. Há apenas o compromisso de que, se o protótipo for para a fábrica e encontrar o cliente, o dono da ideia paga 15% de seus ganhos para a Trouble Makers. Henk disse que precisa que 20 startups funcionem ali por três meses para que seu negócio gire. O americano David Henning saiu de Atlanta, sua cidade natal, quatro anos atrás. Trabalhava com Hot Rods, carros antigos ‘turbinados”. Foi parar na China por gostar de viajar. Ia passar três semanas. Acabou pedindo demissão do emprego e hoje é sócio do ex-chefe, que continua nos Estados Unidos. Ele não é engenheiro de formação, mas usa sua capacidade de desenvolver os motores e alterações nos automóveis para criar outras coisas na Trouble Makers. Tem 11 projetos em andamento, entre eles uma churrasqueira a carvão controlada pelo telefone celular – acessório mais útil aos americanos que preparam churrasco com cozimento de até dez horas, do que aos brasileiros. Por meio dos makers, o governo de Xi Jinping pretende dar o grande salto tecnológico da “nova era”. Seu habitat são essas estações de makers, às vezes andares inteiros de um prédio, subdividas em pequenas salas, com uma área comum descontraída e com cantinas, cafés, varandas, mesas de sinuca e pingue­ pongue, onde essas cabeças que não param de criar se encontram para trocar experiências e fazer seu “guanxi” (ou rede de contatos, uma das primeiras palavras que quem quer entrar no mundo dos negócios chinês deve aprender. Muitas delas contam com algum tipo de subsídio do Estado. E esses endereços são muito valorizados hoje”, destacou Hu.

A cidade está na rota dos farejadores de novidades de sites de compras como a americana Amazon ou a chinesa Taobao. Os olheiros dessas companhias vão atrás de gadget. ou boas ideias com potencial para incrementar suas vendas on-line. Encontram fabricantes, pedem uma “adaptação” aqui ou ali para agradar aos clientes e até se oferecem para fazer embalagens mais apropriadas ou atraentes. É exatamente isso o que querem os makers: que seus produtos sejam descobertos. Muita gente vive de fazer essa ponte entre eles e o mundo exterior.

Isso porque nem tudo o que é feito ali oferece a desejada qualidade internacional. Há muitos produtos falsificados, os chamados copycat. Empresas de dentro e fora da China recorrem à variedade dos componentes disponíveis em Shenzhen e à mão de obra especializada para montar telefones, caixas e outros produtos exatamente como os de marcas conhecidas, porém bem mais baratos. Há até eufemismos usados por quem é da área para evitar a palavra ”cópia”. São os acréscimos mínimos” ou os “produtos ligeiramente mais evoluídos.

Isso explica por que empresas grandes ou pequenas guardam a sete chaves os segredos de seus negócios. Nas graúdas, os funcionários não podem frequentar as fábricas com seus telefones ou suas câmeras. Shenzhen é o quartel-general de algumas das principais empresas de tecnologia da China, como a BYD, a maior fabricantes de baterias recarregáveis do mundo, que lançou um carro elétrico hibrido em 2011; ou a Huawei, uma das maiores fabricantes de equipamentos de comunicação; e a Tencent, a gigante da internet, que produz games, aplicativos on-line e software, além de ser dona do WeChat (um cruzamento de  WhatsApp e Facebook anabolizado), que tem nada menos que 900 milhões de usuários ativos. Também estão baseadas em Shenzhen a ZTE, a gigante das comunicações, e a DJI, maior fabricante global de drones civis.

GESTÃO E CARREIRA

AMANHÃ EU FAÇO

Pesquisadores estimam que 20% da população mundial seja formada por procrastinadores crônicos, pessoas que adiam realizações em diversas áreas da vida. O problema pode ser resolvido com autoconhecimento e vontade de mudar.

Amanhâ eu faço

Todos nós já deixamos alguma tarefa para o dia seguinte. Isso é um traço humano que pode estar relacionado a diferentes motivos, como ter mais tempo para tomar uma decisão, precisar resolver algo mais urgente primeiro ou necessitar de mais subsídios para concluir o assunto. É uma atitude totalmente natural. Mas, quando esse “deixar para depois” se torna um hábito (e é aplicado em mais de uma esfera da vida), o problema é mais grave. Segundo Joseph Ferrari, professor de psicologia na De Paul University, em Chicago, nos Estados Unidos, se a marca registrada de alguém é postergar decisões e atividades, esse Indivíduo se tornou um procrastinador crônico. “Essas pessoas com frequência demoram para iniciar e concluir tarefas, na vida pessoal e na profissional”, diz o especialista, que estuda o tema há mais de 20 anos e tem quatro livros publicados sobre o assunto.

Ao contrário da procrastinação comum, que se deve, na maioria dos casos, à má administração do tempo, a crônica acontece por causa de uma reunião de aspectos psicológicos e comportamentais, como desorganização mental, ansiedade, impulsividade e falta de energia. “Se você atrasa tarefas quase todos os dias, pelo menos durante a metade de suas atividades, há grande possibilidade de que seja um procrastinador crônico”, disse Julia Elen Haferkamp, psicóloga da Universidade Munster, na Alemanha, numa reportagem do jornal americano The New York Times sobre a Procrastination Research Conference, que chegou à sua décima edição em 2017.

Com esses traços, concluir objetivos propostos torna-se muito mais difícil – e o fracasso na realização costuma gerar muito sofrimento. “Há ansiedade, arrependimento, angústia e autoestima baixa, sem falar nos prejuízos à carreira, aos estudos e aos relacionamentos”, diz Joseph. Uma pesquisa sobre o tema, feita em 2016 em Israel, Áustria, Austrália, Canadá, Grécia, Irlanda, Itália, Japão, Coreia, Peru, Polônia, Arábia Saudita, Espanha, Reino Unido, Estados Unidos e Venezuela, detectou que 20% da população de cada um desses países é formada por procrastinadores crônicos, o que leva a crer que essa seja a média mundial. Outro estudo concluiu que esse problema é muito mais comum entre profissionais do mundo corporativo do que entre trabalhadores fabris – maior flexibilidade e maior autonomia são algumas das explicações para esse dado.

Mesmo sem conhecera fundo uma pessoa, os recrutadores e líderes conseguem ter pistas se ela pode ou não ter propensão a atrasos e adiamentos. “Em processos de seleção que envolvem dinâmica de grupo, um candidato que tem problemas para administrar o tempo destinado às atividades, fica indeciso sobre por onde começar ou pula as tarefas mais complicadas provavelmente temesse perfil”, diz Márcia Almstron, diretora de recursos humanos, estratégia e talentos do Manpower Group, de São Paulo. Para ela, o perigo desse tipo de comportamento é a espiral de frustração que pode criar. “Quando se fala em procrastinação crônica, quanto mais o hábito se repete, mais desmotivado o profissional fica e mais tende a procrastinar”, afirma.

 MEDO DE ERRAR

A maioria dessas pessoas não tem claro por que protela tudo. Mesmo os especialistas definem o fenômeno como resultado de uma conjunção de fatores: falta de motivação e de energia, desorganização, preguiça, ausência de preparo. “O medo de entrar em contato com as próprias limitações e fraquezas também faz muita gente justificar o desempenho ruim e o insucesso com o excesso de tarefas”, diz Pamela Magalhães, psicóloga clínica, de São Paulo.

A professora universitária de ciência da computação Rosa Cândida Cavalcanti, de 61 anos, de Recife, ficava incomodada quando ouvia dos amigos que deveria trabalhar menos. “Sabia que minha agenda não estava mais cheia do que o normal, mas me sentia sempre afogada nas pendências. A época crítica foi durante o doutorado: deixei de caminhar e meditar, coisas que me dão prazer, e cheguei a ficar três noites sem dormir tentando colocar trabalho e estudos em dia”, diz. Depois de fazer um curso de produtividade e passar um pente-fino na rotina, listando tudo o que faltava concluir e destrinchando quanto tempo gastava em cada atividade, Rosa descobriu a origem do problema. “Percebi que assumia responsabilidades que não eram minhas e as passava na frente do que tinha de ser feito, talvez por medo de que as entregas dos demais não atendessem à minha expectativa de perfeição”, afirma. Não foi fácil, mas a professora garante que aprender a dizer “não” e criar processos para a realização de tarefas, em casa e no trabalho, fez a diferença para retomar as rédeas do próprio tempo. “Hoje acordo antes das 6 da manhã e produzo o dia inteiro cheia de disposição. Quando você para de empurrar para a frente e encara o que precisa resolver, começa a viver de verdade.”

FORÇA DE VONTADE

Numa pesquisa realizada via internet com 3.100 pessoas que resultou no livro Equilíbrio e Resultado (Sextante), o especialista em gestão de tempo e produtividade pessoal Christian Barbosa descobriu que 61% dos entrevistados costumam procrastinar porque se perdem na internet, navegando em sites, blogs e mídias sociais. Esse foi o caso de Luísa Nader, de 23 anos, advogada da GT Lawyers, de São Paulo. O desperdício de tempo na internet contribuiu, por exemplo, para que ela fosse reprovada na primeira tentativa de passar no exame da Ordem dos Advogados do Brasil. “Sempre que sentava para estudar e uma página demorava para carregar ou deparava com uma tarefa difícil de realizar, eu aproveitava para checar minha timeline ou responder a uma mensagem no WhatsApp, achando que estava, na verdade, aproveitando o tempo. Só que os 2 minutos que eu deveria levar acabavam virando meia hora sem que eu percebesse. Depois, retomar a concentração era multo mais difícil”, diz. Quando notou que esse comportamento estava gerando prejuízos, tentou mudar a rotina e ajustar o foco para concluir as tarefas. “Mas ainda tenho dificuldade no durante: fico ansiosa e perco a atenção temporariamente. Só quando estou em cima do prazo consigo completar o que preciso”, afirma.

Compreender a fundo a própria atitude, como fizeram as personagens desta reportagem, é o ponto de partida para vencer a procrastinação – e isso vale também para os que têm o comportamento crônico. Mas esse desejo tem de vir de dentro. Num artigo publicado em 2017 na Enciclopédia da Personalidade e das Diferenças individuais, Joseph Ferrari e Thomas Tibetti (pesquisador do departamento de psicologia da Texas A&M University) dizem que, “já que a procrastinação é primordialmente um problema de motivação, forçar procrastinadores a administrar seu tempo não se traduzirá, para eles, em uma filosofia própria. A ruptura de um mau hábito não pode ser efetivamente mantida apenas pela motivação extrínseca.” Por isso, é tão importante olhar para dentro, identificar o que está atrapalhando e tentar romper com esses padrões negativos – seja sozinho, seja procurando ajuda especializada de um psicólogo ou de um coach. E é melhor não deixar esse exercício para amanhã.

CHEGA DE PROTELAR

Descubra algumas atitudes que ajudam a ultrapassar os obstáculos que atrapalham suas entregas.

SAIBA COMO VOCÊ FUNCIONA

Investir em autoconhecimento é a chave para entender o que leva a procrastinar e para evitar permanecer numa rotina improdutiva. Por exemplo, se você chega com sono ao escritório e só começa a raciocinar depois do almoço, desista de agendar reuniões ou tarefas mentais de manhã. Deixe esse momento para responder a e-mails e para finalizar pendências da véspera, por exemplo, reservando energia para o resto do dia.

 VÁ POR PARTES

Só de pensar no projeto complexo que precisa ser entregue até o fim da semana bate aquela preguiça? É humano, mas não se deixe paralisar por isso. Em vez de focar a entrega numa tacada só, desmembre a tarefa em partes menores e complete uma por vez. “Você minimiza o risco de desistir no meio do caminho e fica fortalecido pela sensação boa de cada meta alcançada, afirma Pamela Magalhães, psicóloga de São Paulo.

 ELIMINE DISTRAÇÕES

O sinalizador de chegada de e-mail ou o alerta de mensagem do celular tiram o foco quando você está mergulhado numa tarefa. A simples presença do aparelho por perto, mesmo desligado, desconcentra e atrapalha o raciocínio, como concluiu a Universidade do Texas, nos Estados Unidos, numa pesquisa com mais de 800 pessoas. Deixe a caixa de e-mails fechada e, sempre que possível, mantenha o celular longe de seu campo de visão.

CRIE UMA ROTINA

Determinar horários fixos para as atividades diárias é libertador, e não uma prisão, como muita gente imagina. “É uma maneira de automatizar a mente e não precisar depender da força de vontade para agir”, afirma André Franco, coach, de São Paulo. “Afinal, uma das principais razões pelas quais as pessoas adiam tarefas é o trabalho que dá pensar no que precisa ser feito”, diz ele.

 ESCOLHA UMA FERRAMENTA DE PRODUTIVIDADE

Pode ser um aplicativo para smartphone (como Trello ou Evernote), uma agenda de papel ou um bullet journal (diário em que você anota o andamento das tarefas assumidas). A ideia é liberar o espaço mental que seria usado para lembrar o que precisa ser feito – causa comum de ansiedade e fadiga -, organizar o tempo e reforçar o compromisso coma realização.

 COMPARTILHE SEUS PLANOS

“Contar aos outros o que precisa fazer cria um compromisso que o procrastinador não vai querer frustrar”, diz Emerson Weslei Dias, diretor de liderança e gestão de pessoas da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade, de São Paulo. Vale comemorar cada etapa completada – isso ativa o centro de recompensa do cérebro e faz desejar repetir a sensação.

Amanha eu faço

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 22: 23-33

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A Questão a respeito do Casamento

Encontramos aqui a discussão de Cristo com os saduceus a respeito da ressurreição; isso aconteceu no mesmo dia em que Ele foi atacado pelos fariseus sobre o pagamento do tributo. Satanás estava então mais ocupado do que nunca, para irritá-lo e perturbá-lo; esta foi uma hora de tentação (Apocalipse 3.10). A verdade, assim como ela é em Jesus, ainda encontra contradições, em um lugar ou outro. Considere aqui:

 

I – A oposição que os saduceus faziam a uma grande verdade da religião. Eles diziam: Não existe ressurreição, da mesma maneira como há alguns tolos que dizem: Não existe Deus. Esses hereges eram chamados saduceus, por causa de um homem chamado Sadoque, um discípulo de Antígono Sochaeus, que viveu cerca de duzentos e oitenta e quatro anos antes do nascimento do nosso Salvador. Eles eram fortemente censurados, por autores da sua própria nação, como homens de palavras vis e corrompidas, às quais os seus princípios os conduziram. Eles eram, em número, a menor entre todas as seitas dos judeus, mas geralmente eram pessoas de posição. Assim como os fariseus e os essênios pareciam seguir Platão e Pitágoras, também os saduceus tinham muito do gênio de Epicuro. Eles negavam a ressurreição; diziam que não existe um estado futuro, que não existe uma vida após esta. Diziam que, quando o corpo morre, a alma é aniquilada, e morre com ele; diziam que não existe condição de recompensas nem de punição no outro mundo; nenhum julgamento vem do céu ou do inferno. Sustentavam que não existe espírito (exceto Deus, Atos 23.8), nada além de matéria e movimento. Eles não podiam admitir a inspiração divina dos profetas, como também nenhuma revelação do céu, exceto aquilo que o próprio Deus falou, no Monte Sinai. Então, a doutrina de Cristo trazia aquela grande verdade da ressurreição e de uma condição futura, muito além do que já tinha sido revelado, e por isso os saduceus, de uma maneira particular, se colocavam contra ela. Os fariseus e os saduceus eram antagônicos, porém, juntos, se aliavam contra Cristo. O Evangelho de Cristo sempre sofreu com os hipócritas e invejosos cerimoniais e supersticiosos, de um lado, e os deístas e descrentes profanos, do outro. Os primeiros maltratavam, e os últimos desprezavam a divindade, mas ambos negavam o seu poder.

 

II – A objeção que fizeram contra a verdade, que foi tomada de um suposto caso de uma mulher que teve sete maridos sucessivamente. Então, eles assumem que, se houver uma ressurreição, deve haver um retorno ao estado em que estamos agora, e às mesmas circunstâncias, como o ano platônico imaginário. Se isto for verdade, será um absurdo intransponível para essa mulher, numa condição futura, ter sete maridos; ou ainda um problema insuperável, pois de qual deles ela seria esposa? Daquele que foi o seu primeiro marido, ou daquele que foi o último? Daquele a quem ela mais amou, ou daquele com quem viveu mais tempo?

1. Eles sugerem a lei de Moisés nessa questão (v. 24). “Se morrer alguém, não tendo filhos, o seu irmão se casará com a viúva” (Deuteronômio25.5); isto era praticado (Rute 4.5). Era uma lei política, baseada na constituição particular da nação judaica, para preservar a distinção de famílias e heranças, pois as duas coisas eram de especial preocupação para aquele governo.

2. Eles propuseram um caso sobre esse estatuto. Não é relevante se era um caso verídico, ou se era somente uma pergunta hipotética. E se não tinha realmente ocorrido, era possível que ocorresse. Era o caso de sete irmãos que se casaram com a mesma mulher (vv. 25-27). Esse caso supõe:

(1). A desolação que algumas vezes a morte provoca em famílias quando o assunto é comissão. Com que frequência uma fraternidade inteira é destruída em pouco tempo; raramente (como acontece nesse caso) de acordo com a idade (a terra das trevas não respeita nenhuma ordem), mas montões sobre montões; ela reduz famílias que tinham se multiplicado muito (Salmos 107.38,39). Onde havia sete irmãos crescidos e adultos, na condição de homens, havia uma família com grandes possibilidades de ser edificada; e, ainda assim, esta numerosa família não deixa filhos nem sobrinhos, nem algum remanescente nas suas moradas (Jó 18.19). Podemos então dizer: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que edificam”. Que ninguém tenha de antemão a certeza do progresso e da perpetuidade de seus nomes e de suas famílias, a menos que possam fazer um concerto de paz com a morte, ou ter um acordo com a sepultura.

(2). A obediência à lei daqueles sete irmãos, embora tivessem o poder de recusa, sob pena de uma censura (Deuteronômio 25.7). Observe que as providências desanimadoras não devem nos impedir de cumprir o nosso dever, porque nós devemos ser regidos pelas leis, não pelos acontecimentos. Muitos diriam que o sétimo, que se arriscou a casar-se por último com a viúva, era um homem valente. Eu diria que, se ele fez isso puramente por obediência a Deus, era um homem bom, e alguém que tinha consciência do seu dever.

Mas, no final, a mulher também morreu. A sobrevivência é apenas um adiamento; aqueles que vivem mais tempo, e enterram os seus amigos e vizinhos, um após o outro, não adquirem a imortalidade. Não, o seu dia chegará. O cálice amargo da morte prossegue, e, mais cedo ou mais tarde, todos nós deveremos beber dele (Jeremias 25.26).

3. Eles propõem uma dúvida nesse caso (v. 28): “Na ressurreição, de qual dos sete será a mulher?”. Como se dissessem: “Você não pode dizer de qual deles ela será, e por isso devemos concluir que não existe ressurreição”. Os fariseus, que professavam crer na ressurreição, tinham noções muito grosseiras e carnais a respeito dela, e a respeito da condição futura. Eles esperavam encontrar ali, como os islâmicos, no seu paraíso, as delícias e os prazeres da vida animal, o que talvez levasse os saduceus a negar a sua existência; pois nada dá maior vantagem ao ateísmo e à infidelidade do que a natureza carnal daqueles que fazem da religião, seja nas suas profissões ou nas suas expectativas, um servo dos seus apetites sensuais e dos seus interesses seculares. Enquanto aqueles que estão errados negam a verdade, aqueles que são supersticiosos a traem. Então, fazendo essa objeção, eles passam à hipótese dos fariseus. Não é estranho que as mentes carnais tenham noções muito falsas a respeito de coisas espirituais e eternas. O homem natural não compreende essas coisas, porque lhe parecem loucura (1 Coríntios 2.14). Que a verdade esteja sob uma forte luz, e apareça em sua força plena.

 

III – A resposta de Cristo a essa objeção. Reprovando a ignorância, e corrigindo o engano daqueles homens, Ele mostra que a objeção é fraudulenta e pouco convincente, além de não ser conclusiva.

1. Ele reprova a ignorância deles (v. 29): “Errais”. Erram profundamente, no julgamento de Cristo, aqueles que negam a ressurreição e uma condição futura. Cristo reprova aqui com a mansidão da sabedoria, e não é rígido com eles (qualquer que seja o seu motivo), como algumas vezes foi com os principais dos sacerdotes e os anciãos: “Errais, não conhecendo as Escrituras”. A ignorância é a causa do erro. Aqueles que estão nas trevas, perdem o caminho. Os padrões de erro, portanto, resistem à luz, e fazem o que podem para afastar a chave do conhecimento. “Errais, não conhecendo as Escrituras”. A ignorância é a causa do erro sobre a ressurreição e a condição futura. O que há nesses exemplos particulares, os mais sábios e os melhores não conhecem; não aparece o que nós seremos, é uma glória que ainda será revelada; quando nós falamos da condição de almas separadas, da ressurreição do corpo, e da felicidade e infelicidade eternas, estamos logo perdidos. Não conseguimos ordenar as nossas palavras, por causa das trevas, mas isto é algo em que nós não somos deixados nas trevas. Bendito seja Deus, nós não somos; e aqueles que negam isso são culpados de uma ignorância grosseira e voluntária. Parece que havia alguns saduceus, alguns tolos como esses, entre os cristãos que professavam a fé: “Como dizem alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos?” (1 Coríntios 15.12), e alguns que realmente negaram que ela existe, transformando-a em uma alegoria, dizendo que a ressurreição já havia ocorrido. Considere:

(1). Eles não conhecem o poder de Deus. Isso levaria os homens a concluírem que poderia haver uma ressurreição e uma condição futura. Observe que a ignorância, a descrença ou a crença fraca no poder de Deus está no fundo de muitos erros, particularmente no caso daqueles que negam a ressurreição. Quando aprendemos sobre a existência da alma, e a sua condição durante a separação do corpo, e especialmente de um corpo morto, que está há muito tempo no túmulo, e se transforma em uma poeira comum e indistinta, que ressuscitará transformado em um corpo glorioso (1 Coríntios 15.35-38), e viverá, e se moverá, e agirá outra vez, estamos prontos para dizer: Como isso pode acontecer? A natureza expressa tudo isso numa máxima: Os hábitos ligados a uma condição de existência se extinguem, irremediavelmente, com a própria condição. Se um homem morre, ele viverá outra vez? Ho­ mens vãos, por não compreenderem como isso pode acontecer, questionam a verdade; ao passo que, se nós crermos firmemente em Deus Pai todo-poderoso, se crermos que nada é impossível para Deus, todas essas dificuldades desaparecerão. Devemos nos apegar, portanto, em primeiro lugar, ao fato de que Deus é onipotente, e pode fazer aquilo que Ele desejar; e não haverá, então, lugar para dúvidas, pois Ele fará aquilo que prometeu. E, sendo assim, por que deveria ser algo incrível o fato de Deus ressuscitar os mortos? (Atos 26.8). O poder dele excede, em muito, o poder da natureza que Ele mesmo criou.

(2). Eles não conhecem as Escrituras, que decididamente afirmam que haverá uma ressurreição e uma condição futura. O poder de Deus, determinado e empenhado na sua promessa, é a base sobre a qual se edifica a fé. As Escrituras falam, claramente, que a alma é imortal, e que existe outra vida depois desta; este é o escopo tanto da lei quanto dos profetas, “que há de haver ressurreição de mortos, tanto dos justos como dos injustos” (Atos 24.14,15). Jó sabia disso (Jó 19.26), Ezequiel previu isso (Ezequiel 37.12), e Daniel predisse isso claramente (Daniel 12.2). Cristo ressuscitou, de acordo com as Escrituras (1 Coríntios 15.4), e nós também ressuscitaremos. Aqueles, portanto, que negam isso, não analisaram as Escrituras, ou não creem nelas, ou não aceitaram o seu verdadeiro sentido e significado. A ignorância em relação às Escrituras traz o crescimento dos enganos, que se tornam abundantes.

2. O Senhor Jesus corrige o engano (v. 30) e essas ideias grosseiras que eles tinham sobre a ressurreição e a condição futura, e fixa essas doutrinas sobre uma base verdadeira e duradoura. A respeito da condição, observe:

(1). Não é como a condição em que nós estamos agora, sobre a terra: “nem casam, nem são dados em casamento”. Na nossa situação atual, o casamento é necessário; ele foi instituído em inocência; a despeito de qualquer intromissão ou negligência que tenha havido por parte de outras instituições, ele nunca foi deixado de lado, nem o será, até o fim dos tempos. No mundo antigo, eles se casavam e eram dados em casamento; os judeus, na Babilônia, mesmo quando eram proibidos de ter outros rituais, ainda tinham que tomar suas esposas (Jeremias 29.6). Todas as nações civilizadas tiveram um senso da obrigação do concerto de casamento, que é o requisito para a satisfação dos desejos, e para a correção das limitações da natureza humana. Mas na ressurreição, não há oportunidade para o casamento, pois nos corpos glorificados não haverá nenhuma distinção de sexos, que alguns curiosamente defendem (os antigos estão divididos em suas opiniões a esse respeito). Porém, se houver ou não uma distinção, certamente não haverá conjunção. Onde Deus será tudo, não é necessário haver nenhuma outra ajuda; o corpo será espiritual, e não terá desejos carnais que precisem de satisfação. Quando o corpo místico estiver completo, não haverá mais oportunidades para se procurar uma semente de piedosos, que foi uma das finalidades da instituição do casamento (Malaquias 2.15). No céu, não haverá decadência de indivíduos, e, portanto, não haverá comida nem bebida, não haverá decadência das espécies, e, portanto, não haverá casamento; onde não haverá mais morte (Apocalipse 21.4), não haverá a necessidade de mais nascimentos. O estado conjugal é uma composição de alegrias e preocupações. Aqueles que nele entram são ensinados a considerá-lo como sujeito a mudanças, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença; e por isso ele é adequado a este mundo misto e mutante. Mas no inferno, onde não há alegria, a voz do esposo e a voz da esposa não serão mais ouvidas. E também no céu, onde tudo é alegria, e não há preocupação, nem dor, nem problemas, não haverá casamento. No céu, as alegrias dessa condição são puras e espirituais, e surgem do casamento de todos eles com o Cordeiro; mas não haverá casamentos entre os salvos.

(2). É como a condição dos anjos que estão agora no céu; os salvos “serão como os anjos no céu”. Serão, isto é, sem dúvida serão assim. Eles já são assim em Cristo, sua Cabeça, que os levou assentados consigo nos lugares celestiais (Efésios 2.6). Os espíritos dos homens justos já aperfeiçoados pertencem à mesma corporação dos muitos milhares de anjos (Hebreus 12.22,23). O homem, na sua criação, foi feito menor que os anjos (Salmos 8.5), mas na sua completa redenção e renovação, será como os anjos; puro e espiritual, como os anjos, conhecedor e amoroso, como esses abençoados serafins, sempre louvando a Deus como eles, e com eles. Os corpos dos santos ressuscitarão incorruptíveis e gloriosos, como os veículos, não compostos, daqueles espíritos puros e santos (1 Coríntios 15.42 etc.), rápidos e fortes como eles. Por isso, devemos desejar e nos esforçar para fazer a vontade de Deus, como os anjos fazem no céu, porque esperamos, em pouco tempo, ser como os anjos, que estão sempre contemplando o rosto do nosso Pai. Ele não diz nada sobre o estado dos maus na ressurreição, mas, como consequência, estes deverão ser como os demônios, cuja vontade realizaram.

 

IV – O argumento de Cristo que confirma essa grande verdade da ressurreição e de um estado futuro. Como a questão é de grande importância, Ele não julga suficiente (como em outras discussões) descobrir a falácia e a astúcia da objeção, muito menos a sua sofisticação. Antes, o Senhor respalda a verdade com um sólido argumento. Pois Cristo traz o julgamento à verdade, assim como à vitória, e capacita os seus seguidores a darem uma razão para a esperança que está neles. Considere:

1. De onde Ele tomou o seu argumento? Das Escrituras; elas são o grande armazém, ou arsenal, de onde podemos nos equipar com armas espirituais, ofensivas e defensivas. Nela está escrito sobre a espada de Golias. Não tendes lido o que Deus vos declarou? Observe:

(1). Aquilo que as Escrituras dizem é o que Deus diz.

(2). O que foi dito a Moisés, foi dito a nós; foi dito e escrito para o nosso aprendizado.

(3). É nosso interesse ler e ouvir o que Deus disse, porque Ele está falando conosco. Foi dito a vocês, judeus, em primeiro lugar, pois a vocês foram confiados os oráculos de Deus. O argumento é retirado dos livros de Moisés, pois eram os únicos que os saduceus aceitavam, como alguns pensam, ou, pelo menos, aceitavam principalmente esses livros como escrituras canônicas. Cristo, portanto, tomou a sua prova dessa fonte indiscutível. Os últimos profetas têm provas mais expressas de uma condição futura do que a lei de Moisés; pois embora a lei de Moisés suponha a imortalidade da alma e uma condição futura como princípios daquilo que é chamado religião natural, nenhuma revelação expressa é feita pela lei de Moisés, porque grande parte daquela lei era peculiar a este povo, e, portanto, era guardada como leis municipais, com promessas e ameaças temporais, e a revelação mais expressa de um estado futuro estava reservada para os últimos dias. Mas o nosso Salvador encontra um argumento muito sólido a favor da ressurreição, até mesmo nos textos de Moisés. Há muitas Escrituras “sob o solo” que devem ser “escavadas”.

2. Qual foi o seu argumento (v. 32): “Eu sou o Deus de Abraão”. Esta não era uma prova expressa em tantas palavras, e ainda assim era um argumento conclusivo. As consequências das Escrituras, se corretamente deduzidas, devem ser compreendidas como Escrituras, pois foram escritas para aqueles que têm o uso da razão.

O argumento tem a finalidade de provar:

(1). Que existe uma condição futura, outra vida depois desta, na qual o justo será verdadeira e constantemente feliz. Isto é provado através daquilo que Deus disse: “Eu sou o Deus de Abraão”.

[1]. Deus, para ser o Deus de alguém, pressupõe alguns privilégios e felicidade muito extraordinários; a menos que nós conheçamos plenamente o que Deus é, não poderemos compreender as riquezas destas palavras: “Eu vos serei por Deus”, isto é, um Benfeitor, com todo o meu poder. O Deus de Israel é Deus para Israel (1 Crônicas 17.24), um Benfeitor espiritual, pois Ele é o Pai dos espíritos, e abençoa com bênçãos espirituais. Ele é o Benfeitor suficiente, o Deus que é suficiente, o Deus completo, e o Benfeitor eterno, pois Ele é o Deus eterno, e será, para aqueles que estão em concerto com Ele, o Deus eterno. Estas palavras, Deus dizia frequentemente a Abraão, Isaque e Jacó; e elas tinham a função de ser uma recompensa pela sua fé e obediência singular, ao deixarem a nação, atendendo ao chamado de Deus. Os judeus tinham um profundo respeito por esses três patriarcas, e estenderiam ao máximo a promessa que Deus lhes tinha feito.

[2]. É evidente que esses bons homens não tiveram uma felicidade extraordinária, nesta vida, como poderia ser o cumprimento de palavras tão grandes quanto essas. Eles foram estrangeiros na terra das promessas, vagando, atormentados com a fome; eles não tiveram um pedaço de chão que fosse seu, exceto um sepulcro, o que os levou a procurar alguma coisa além desta vida. Nas alegrias presentes, eles ficaram muito aquém dos seus vizinhos, que eram estranhos ao concerto. O que havia neste mundo que os distinguia, tanto a eles como aos herdeiros da sua fé, de outras pessoas, algo mínimo, proporcional à dignidade e à distinção desse concerto? Se nenhuma felicidade estivesse reservada a esses grandes e bons homens, no outro lado da morte, aquelas palavras melancólicas do pobre Jacó, quando já velho (Genesis 47.9) “poucos e maus foram os dias dos anos da minha vida” teriam sido uma reprovação eterna à sabedoria, à bondade e à fidelidade daquele Deus que tinha, tão frequentemente, chamado a si mesmo de Deus de Jacó.

[3]. Por isso, certamente deve existir um estado futuro, no qual, assim como Deus irá viver para sempre, para ser eternamente recompensado, também Abraão, Isaque e Jacó viverão para serem recompensados eternamente. O que o escritor aos Hebreus disse (Hebreus 11.16) é uma chave para esse argumento. Ele estava falando da fé e da obediência dos patriarcas na terra da sua peregrinação. Ele acrescenta, portanto, que Deus não se envergonha de ser chamado de seu Deus, porque Ele lhes deu uma cidade, uma cidade celestial, dando a entender que se Ele não tivesse lhes provido tão bem no outro mundo, considerando como eles viveram neste, Ele se envergonharia de se chamar de seu Deus. Mas o Senhor não está envergonhado, pois fez muito por eles; e isso mostra a verdadeira intenção do Senhor, e a completa extensão de suas bênçãos.

(2). Que a alma é imortal, e o corpo ressuscitará novamente, para se unir a ela. Se a questão anterior foi esclarecida, esta vem em seguida; mas, da mesma maneira, isto pode ser provado, considerando a época em que Deus o disse. Foi para Moisés na sarça, muito tempo depois que Abraão, Isaque e Jacó estavam mortos e enterrados, e Deus não disse: “Eu fui”, nem: “Eu era”, mas: “Eu sou” o Deus de Abraão. “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos”. Ele é um Deus vivo, e transmite influências vitais àqueles para quem Ele é Deus. Se, quando Abraão morreu, o seu ser tivesse sido aniquilado, da mesma maneira teria havido um fim na relação de Deus com ele, como seu Deus. Mas naquela época, quando Deus falou com Moisés, Ele era o Deus de Abraão, e, portanto, Abraão devia estar vivo, o que prova a imortalidade da alma em um estado de bênção. E isto, por consequência, sugere a ressurreição do corpo, pois existe uma inclinação da alma humana para o seu corpo, como para tornar uma separação final e eterna inconsistente com a bênção daqueles que têm a Deus como o seu Deus. O conceito dos saduceus era de que a união entre o corpo e a alma é tão íntima que, quando o corpo morre, a alma morre com ele. Sob a mesma hipótese, se a alma vive, como certamente ela vive, o corpo deve, em alguma época, viver com ela. Além disso, o Senhor é para o corpo, que é uma parte essencial do homem; existe um concerto com o pó, que deve ser recordado, caso contrário o homem não será feliz. A preocupação que os patriarcas mortos tinham com os seus ossos, na fé, é uma evidência de que tinham alguma expectativa da ressurreição dos seus corpos. Mas essa doutrina estava reservada para uma revelação mais ampla, depois da ressurreição de Cristo, que foi feito as primícias dos que dormem.

Por fim, temos o resultado dessa discussão. Os saduceus emudeceram (v. 34), e se envergonharam. Eles pensaram que, com a sua sutileza, poderiam envergonhar a Cristo, quando estavam, na realidade, preparando a vergonha para si mesmos. Mas a multidão ficou maravilhada “da sua doutrina” (v. 33).

3. Porque era novidade para eles. Observe como foi a exposição das Escrituras para eles, quando ficaram maravilhados com ela, como se fosse um milagre ouvir a promessa fundamental aplicada a essa grande verdade; eles tinham escribas lamentáveis, pois se não o fossem, isso não teria sido novidade para eles.

4. Porque havia algo de muito bom e grandioso nessas palavras. A verdade frequentemente se mostra mais brilhante, e é mais admirada, quando sofre oposição. Observe que muitos opositores se silenciam, e muitos ou­ vintes se maravilham, sem serem convertidos pelos opositores; mas até mesmo no silêncio e na maravilha das almas não-santificadas Deus engrandece a sua lei, engrandece o seu Evangelho e torna ambos honoráveis.