PSICOLOGIA ANALÍTICA

A VERDADE SOBRE A TERAPIA DE CHOQUE

Apesar de a eletroconvulsoterapia ser uma técnica ainda cercada de preconceitos, há casos em que pode ser uma solução razoavelmente segura para algumas doenças mentais graves.

A verdade sobre a terapia de choque

Um paciente agitado é levado à força para uma sala e contido em uma maca num hospital psiquiátrico. Punido por desafiar a autoridade sádica da enfermeira-chefe, é submetido – completamente acordado – à intervenção conduzida por um médico e outros membros da equipe, que colocam eletrodos em ambos os lados da cabeça e disparam uma rápida carga elétrica. Vários enfermeiros o seguram, enquanto o paciente se contorce de dor descontroladamente, caindo em seguida em estado de estupor. A cena do premiado Um estranho no ninho (1975), estrelado por Jack Nicholson como o paciente rebelde, provavelmente influenciou muito mais a percepção do público em geral sobre a terapia eletroconvulsiva (ECT) do que as descrições científicas. Como resultado, muitos leigos a consideram hoje um procedimento perigoso ou até mesmo cruel. No entanto, diversos dados sugerem que, quando administrado de forma correta e cuidadosa, o tratamento, utilizado em situações específicas, é relativamente seguro e pode ser benéfico para casos de depressão grave e outras formas de doença mental.

 OSSOS QUEBRADOS

O clássico dirigido por Randle Patrick McMurphy está longe de ser o único retrato negativo da ECT. Em uma pesquisa de 2001 com 24 filmes que abordam o tratamento, os psiquiatras Andrew McDonald, da Universidade de Sydney, e Garry Walter, da Central Coast Health do Norte de Sydney, em Nova Gales do Sul, apontam que as representações sobre o método são geralmente pejorativas e imprecisas. Na maioria dos casos retratados, a técnica é aplicada em pessoas totalmente conscientes e aterrorizadas, sem seu consentimento e, não raro, como castigo pela desobediência. Após os choques, os pacientes geralmente passam a dizer coisas incoerentes ou permanecem num estado de apatia. Em seis dos filmes analisados, pioram drasticamente ou morrem.

É muito provável que o modo como o assunto é tratado nos filmes colabore com atitudes negativas do público em geral sobre a ECT. Uma pesquisa de 2012, desenvolvida pelas psicólogas Annette Taylor e Patrícia Kowalski, da Universidade de San Diego, com 165 universitários do curso de psicologia (presumidamente mais informados sobre terapias para doença mental), demonstrou que aproximadamente 74% dos participantes concordavam que o procedimento é fisicamente perigoso. Outro estudo de 2006, com 1.737 suíços, coordenado pelo psicólogo Christoph Lauber, na época do Hospital Universitário de Psiquiatria em Zurique, revelou que 57% consideravam a ECT prejudicial; apenas 1,2% apoiavam a utilização.

Coloquialmente chamada de “terapia de choque”, a técnica foi introduzida em 1938 pelos neurologistas italianos Ugo Cerletti e Lucio Bini como um tratamento para a psicose. (Aparentemente, Cerletti se inspirou ao observar que vacas que iam para o abate ficavam sedadas depois de receberem uma carga elétrica.) O tratamento é simples: eletrodos são colocados na cabeça do paciente, por onde passa uma corrente elétrica que provoca mudanças na química e na atividade cerebral.

Assim como muitos temiam, de fato a intervenção era perigosa antes de meados dos anos 50. Na época, os pacientes permaneciam acordados durante a ECT. Os choques causavam convulsões e os movimentos produzidos eram tão bruscos que chegavam a quebrar seus ossos.

Hoje em dia, nos Estados Unidos e em outros países ocidentais, os pacientes recebem a ECT com relaxante muscular e anestesia geral, administrados para conter movimentos desordenados durante o episódio epilético (inerente ao uso da técnica) e diminuir o desconforto geral.

Embora ainda passem por essa crise, permanecem inconscientes durante o procedimento e não sentem dor nem enfrentam convulsões observáveis. Além disso, as ondas cerebrais e outros sinais vitais são monitorados para assegurar o bem-estar da pessoa.

Esses avanços tornaram a ECT mais segura e menos assustadora. Em uma pesquisa de 1986, com 166 pacientes submetidos a eletroconvulsoterapia, os psiquiatras C.P.L. Freeman e R.E. Kendell, da Universidade de Edimburgo, relataram que 68% dos voluntários descreviam a experiência como não mais perturbadora do que uma visita ao dentista. Para os outros, era mais desagradável, porém indolor.

No entanto, o tratamento não é livre de perigos. Em alguns países, muitos médicos ainda administram a ECT como em 1950. Em um estudo de revisão de 2010, o psiquiatra Worrawat Chanpattana e seus colegas, do Hospital Samitivej Srinakarin, em Bangkok, apontam que 56% dos pacientes de 14 países asiáticos receberam o tratamento sem relaxante muscular ou anestésico. Mas, é preciso considerar que, independentemente do país e do método, a ECT pode causar efeitos negativos, como desorientação temporária, e mais seriamente, amnésia retrógrada, o que faz com que a pessoa se esqueça de eventos que ocorreram algumas semanas ou até mesmo meses antes do tratamento. Os efeitos colaterais são menores quando os eletrodos são colocados somente em um dos lados da cabeça. Tecnologias recentes, como máquinas de pulsos breves que permitem calibrar com mais cuidado a dose de energia elétrica, minimizam a extensão da amnésia. No entanto, alguns problemas de memória quase sempre acompanham quem passou pelo procedimento. Além disso, estudos sugerem que a ECT pode, em casos raros, levar a perdas cognitivas permanentes. Embora os dados que sustentam essa hipótese ainda não sejam definitivos, é importante considerar essas informações.

MISTERIOSOS MECANISMOS

Devido aos efeitos adversos na memória, a ECT deve ser considerada somente como último recurso de tratamento. No entanto, muitas pesquisas sugerem que o tratamento pode ser eficaz no alívio de sintomas de várias doenças mentais, como depressão grave e mania no transtorno bipolar. Além disso, parece amenizar a catatonia, uma condição associada à esquizofrenia e ao transtorno bipolar, caracterizada por alterações marcantes do movimento, como permanecer em posição fetal ou gesticular repetidamente.

Argumentos a favor da intervenção seriam ainda mais fortes se os pesquisadores pudessem determinar exatamente como o tratamento funciona. Em uma revisão feita em 2011, o psiquiatra Tom Bolwig do Hospital Universitário de Copenhague observou que a ECT pode aumentar a secreção de determinados hormônios, um processo prejudicado na depressão. Outros pesquisadores sugerem que a eletricidade estimula o crescimento neural e ajuda a reconstruir áreas do cérebro que protegem contra o distúrbio. Uma terceira hipótese é de que as próprias convulsões redefinem fundamentalmente a atividade cerebral, o que pode trazer alívio, conclui Bolwig.

A ECT também pode ajudar no tratamento de algumas patologias, alterando a sensibilidade dos receptores de neurotransmissores, como a serotonina. No entanto, nenhuma dessas teses foi suficiente para que os cientistas conseguissem apoio para pesquisa. À medida que aprendemos mais sobre essa intervenção mal compreendida, podemos reinar nossos métodos de aplicação e os efeitos negativos da ECT. E é importante que os profissionais de saúde tenham em mente que, mesmo em sua forma atual, o tratamento não se trata de um castigo cruel, como muitas vezes retratado. Em determinadas circunstâncias, quando tudo mais falha, vale a pena considerá-lo como opção para aliviar um intenso sofrimento psicológico.

 

SCOTT O. LILIENFELD – é professor de psicologia na Universidade de Emory.

HAL ARKOWITZ – é professor-associado de psicologia na Universidade do Arizona.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.