GESTÃO E CARREIRA

OS LIMITES DA EMPATIA

Pesquisadores descobriram que, praticada em excesso, essa habilidade pode causar esgotamento mental e prejudicar a carreira.

Os limites da empatia

Na década de 80, a americana Patrícia Moore, então com 26 anos, resolveu vivera rotina de uma senhora idosa durante três anos. Todos os dias a jovem aplicava camadas de látex no rosto para parecer enrugada, colocava óculos que embaçavam sua visão, tapava os ouvidos para escutar pouco e vestia bandagens e talas para diminuir a mobilidade. Com o resultado, Patrícia ficou mundialmente conhecida por revolucionar o design de eletrodomésticos (muito pesados na época) e torná-los mais inclusivas. De lá para cá, sua história é usada como referência para explicar a empatia, definida como a habilidade de se colocar no lugar do outro. Embora esse comportamento tenha uma importância inegável nos dias de hoje – principalmente ante a crescente intolerância, fomentada pelas redes sociais, estudos apontam que não é necessário, nem saudável, ser empático em excesso. De acordo com uma pesquisa publicada no início do ano pelo Departamento de Psicologia da Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos, existem dois Jeitos de manifestar empatia. O primeiro é se colocar no lugar de outra pessoa e assumir os sentimentos dela como seus.

O segundo é reconhecer os sentimentos desse indivíduo e tentar entender a perspectiva dele. Para chegar a essa conclusão, os professores recrutaram 212 voluntários para redigir uma carta com conselhos para alguém que estava com dificuldades financeiras. O detalhe é que essa pessoa, na verdade, era um personagem fictício inventado pelos pesquisadores. Mas ninguém sabia disso. Metade do grupo foi orientada a escrever o texto com distanciamento, pensando apenas sobre a perspectiva do personagem. A outra parte deveria redigir imaginando como se sentiria se es tivesse passando pela mesma situação. Quando mediram a frequência cardíaca e a pressão arterial dos participantes, a surpresa: no segundo grupo, esses índices estavam mais elevados do que no primeiro. A conclusão foi que a empatia, se não for utilizada de forma correta, pode levar a um quadro de estresse crônico no longo prazo. “Em profissões mais emocionalmente exigentes, como medicina, serviço social, psicologia ou coaching, o ônus de testemunhar o sofrimento pode levar ao esgotamento, o que, em alguns casos, impossibilita os indivíduos de seguir exercendo essas funções. É como se eles sentissem o tempo todo que o sofrimento que presenciam acontece em sua vida”, diz Michael Poulin, um dos autores do estudo.

QUESTÃO DE PERSONALIDADE

Muitos estudos de neurociência apontam que a maior parte das pessoas toma as próprias emoções como referência para demonstrar solidariedade. Ou seja, nossa tendência é nos colocar no lugar do outro caso já tenhamos experimentado uma situação parecida em algum momento da vida. “Nesses casos, a empatia vem naturalmente, porque você sabe ou imagina quão difícil determinado contexto pode ser, então é mais fácil se conectar com o sofrimento daquela pessoa”, diz Karen Vogel, psicóloga clínica e professora na The School of Life, de São Paulo. Porém, para alguns, o fato de já terem vivido um episódio semelhante pode fazer com que não consigam entender a fronteira entre seus sentimentos e os do outro, transformando a empatia num processo traumático para ambas as partes. ”Às vezes, adota-se um processo de transferência que faz com que você mergulhe no sofrimento alheio e, em vez de ajudar a outra pessoa a sair do fundo do poço, caia junto com ela”, diz Roberto Debski, psicólogo clinico e coach, de São Paulo.

O modo de lidar com as próprias emoções pode determinar quais serão os limites da empatia de uma pessoa. Um exemplo são indivíduos que tiveram os chamados “pais invalidantes”, que recriminavam manifestações como choro ou tristeza dos filhos. “Essas pessoas aprenderam que a emoção é algo que não se pode expressar, e não entendem quão importantes são os sentimentos. Ou podem buscar o modelo oposto e se tornarem excessivamente empáticas”, diz Karen. As mulheres costumam ser mais propensas a desenvolver uma empatia prejudicial. Isso porque, socialmente, são incentivadas a realizar atividades que envolvam o cuidado com terceiros. “Como a mulher tem esse comportamento estimulado, costuma acreditar que tem de dar conta de tudo sozinha, inclusive trazendo para si questões de outras pessoas, o que gera um estresse que pode desencadear quadros de esgotamento”, afirma.

Encontrar um equilíbrio para a empatia tem sido um desafio na carreira do paulistano Thiago Valadares, de 36 anos. Formado em administração e em relações públicas, ele tem facilidade em se relacionar e escutar demandas alheias. “Faço trabalho voluntário com moradores de rua e sempre me coloquei na posição de ouvir e me colocar no lugar do outro”, afirma. Mas, quando se tornou líder, isso virou uma questão delicada. À frente da Seven Grupo Digital, misto de agência de marketing e aceleradora de startups da qual é sócio, ele percebeu que algumas pessoas tentam tirar vantagem de sua empatia excessiva. “Elas sabem que me sensibilizo e que tenderei a dar permissão para uma demanda. Então, preferem falar comigo na hora de justificar uma falta, por exemplo. Acham que vai ser mais fácil”, diz. Para contornar esse comportamento, Thiago passou a delegar esse tipo de conversa para seu sócio, Fernando Cywinski, diretor financeiro da empresa “Sei que, para o negócio, não é saudável ser assim. Por isso, procuro ajuda. Assim, escapo da minha dificuldade de dizer não.”

 DISTANCIAMENTO

No ambiente profissional, pessoas que não conseguem adotar a medida correta da empatia também podem ficar sobrecarregadas, porque tendem a trazer para si a missão de resolver os problemas dos outros. E o pior é que isso ainda pode ser mal interpretado. “A empatia é confundida com intrometimento. Quando as pessoas estão num momento difícil, querem alguém que as ouça, mas que as deixe descobrir sozinhas o próprio caminho”, afirma Karen.

Além disso, no mundo dos negócios é preciso fazer o balanço entre a perspectiva externa e as necessidades da empresa Só assim é possível tomar decisões racionais e não cair no perigo de justificar uma escolha ruim apenas por pena de alguém da equipe – postura que, aliás, pode ser vista como diferenciação no tratamento aos funcionários. “No trabalho é preciso ser equânime, olhar para todos da mesma maneira”, diz Roberto. Na liderança, a empatia deve ser usada como um recurso para ajudá-lo a conquistar uma visão sistêmica. Para isso, primeiro você tem de entender a si mesmo. Depois, compreender o outro. E, no final, buscar uma visão de fora, de alguém não envolvido com a situação, para criar um contexto geral e fazer julgamentos mais equilibrados. O economista Rubens Augusto Junior, de 59 anos, procura praticar esse distanciamento na presidência da rede de franquias e pizzarias Patroni, de São Paulo, que tem 300 funcionários e um faturamento de 370 milhões de reais. Por trabalhar ao lado dos filhos e da irmã na companhia, de origem familiar, ele diz que procura manter certa frieza para evitar favoritismos e não deixar que a emoção se misture aos negócios. “Não posso deixar de lado a empatia porque somos uma empresa de serviços, porém, tento me afastar e refletir para tomar a decisão correta – chego a demorar um mês em alguns casos”, diz.

CAMINHO DO MEIO

Uma alternativa para exercitar a empatia sem sobrecarregar a si próprio é recorrer à compaixão – sentimento de pesar conectado ao desejo de confortar alguém. Além de ativar áreas do cérebro associadas à recompensa e à Integração a um grupo social, o que desencadeia sensações de bem-estar, a compaixão é útil para se blindar do sofrimento. “É uma maneira de entrar em sintonia. Você percebe a questão do outro e ouve o problema, mas não perde a capacidade de pensar de forma racional”, afirma Roberto.

O Importante é adotar um caminho do meio para usar a empatia de forma saudável. “É preciso ampliar a consciência de nós mesmos, de nossos traumas e conflitos para não cair em modelos de comportamento que nos prejudiquem”, diz Roberto. Ou seja, a chave é não apontar para nós mesmos as armas que poderiam ser usadas a favor dos demais.

 VOCÊ ESTÁ EXAGERANDO?

Os sinais de que você pode estar abusando da empatia.

1 –   Quando alguém compartilha um momento difícil, você automaticamente se imagina no lugar daquela pessoa.

2 – Em vários momentos, você se sente responsável por resolver os problemas dos outros – mesmo que eles não tenham nada a ver com sua vida.

3 – Quase sempre você deixa de fazer coisas por si mesmo porque sente que as outras pessoas necessitam de mais atenção.

4 – Os problemas alheios o afetam emocional e fisicamente. Assim, é comum sentir ansiedade, tristeza e estresse quando alguém lhe conta algo ruim.

5 – Você tende a relevar falhas das outras pessoas com facilidade, preocupando-se com os sentimentos alheios mais do que com os seus.

 

 

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.