ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 21: 33-46

20180104_191605

A Parábola dos Lavradores Maus

Essa parábola define claramente o pecado e a destruição da nação judaica; os judeus e os seus líderes são os lavradores; e o que é dito para condená-los, é dito para advertir a todos os que desfrutam dos benefícios da igreja visível, para que não se limitem aos princípios elevados, mas ao temor.

 

I – Aqui temos os privilégios da nação judaica, representados pelo arrendamento da vinha aos lavrado­ res; eles eram como arrendatários de Deus, o Grande Pai de família, e sujeitos a Ele. Observe:

1. Como Deus estabeleceu uma igreja no mundo para si. O Reino de Deus sobre a terra é aqui comparado a uma vinha, dotada de todas as coisas necessárias para uma administração e aproveitamento vantajosos dela.

(1). Ele plantou uma vinha. A igreja é a “plantação do Senhor” (Isaias 61.3). A formação de uma igreja, por si só, é um trabalho, como a plantação de uma vinha, o que exige custos e cuidados. É a videira que a destra de Deus plantou (Salmos 80.15), que “a plantou de excelentes vides” (Isaias 5.2), uma “vide excelente” (Jeremias 2.21). A própria terra produz espinhos e arbustos espinhosos, mas as vinhas precisam ser plantadas. A existência de uma igreja se deve ao favor distinto de Deus, e à sua manifestação a alguns, e não a outros.

(2). Ele circundou-a de um valado. Observe que a igreja de Deus no mundo está sob a sua proteção especial. Assim como Jó estava cercado de todos os lados (Jó 1.10), há, ao redor da igreja, a vinha do Senhor, um valado, um muro de fogo (Zacarias 2.5). Onde Deus tiver uma igreja, esse é, e sempre será, um lugar merecedor de sua atenção especial. O concerto da circuncisão e a lei cerimonial eram uma cerca, ou um muro separador ao redor da nação judaica, e ele foi derrubado por Cristo. Além disso, o Senhor Jesus indicou uma ordem e uma disciplina do Evangelho que ser viriam como uma cerca de separação da sua igreja. Ele não desejava que a sua vinha fosse comunitária, mas queria impedir que aqueles que estivessem fora dela pudessem ter acesso a ela quando e como quisessem. O Senhor também não desejava que ela fosse isenta de regras, mas queria impedir que aqueles que estivessem dentro dela pudessem açoitá-la quando quisessem. Assim, Ele se preocupou em estabelecer limites ao redor desse monte santo.

(3). Ele “construiu nela um lagar, e edificou uma torre”. O altar dos holocaustos era o lagar, ao qual todas as ofertas eram trazidas. Deus instituiu regulamentações em sua igreja, para a devida supervisão e para a promoção da sua frutificação. O que mais poderia ter sido feito para torná-la mais conveniente?

2. A maneira como Ele confiou esses privilégios visíveis da igreja ao povo judeu, especialmente aos seus principais sacerdotes e anciãos: Ele a arrendou para eles, como lavradores, não porque Ele precisasse deles, da maneira como os fazendeiros precisam de arrendatários, mas porque assim poderia testá-los, e ser honrado por eles. Quando Deus foi conhecido em Judá, e o seu nome foi engrandecido, quando eles foram levados para serem seus, por povo, e por nome, e por louvor (Jeremias 13.11), quando Ele revelou a sua Palavra a Jacó (Salmos 147.19), quando o concerto da vida e da paz foi celebrado com Levi (Malaquias 2.4,5), então essa vinha foi arrendada. Veja uma simplificação desse arrendamento (Cantares 8.11,12). O Senhor da vinha teria “mil peças de prata” (compare com Isaias 7.13); o lucro principal seria dele, mas os arrendatários teriam duzentas, um incentivo competente e cômodo. E então, ele se ausentou para uma terra longínqua. Quando Deus, em uma manifestação visível, estabeleceu a religião judaica no monte Sinai, Ele também se afastou, de maneira similar; eles não tinham mais a visão aberta, mas tinham recebido a Palavra escrita. Eles também podem ter imaginado que Ele tivesse ido a uma nação distante, como Israel, quando fez o bezerro, imaginando que Moisés tivesse ido embora. Eles afastavam de si mesmos o dia mal, utilizando os recursos de que dispunham.

 

II – A expectativa de Deus com o arrendamento a esses lavradores (v. 34). Era uma expectativa razoável, pois “quem planta a vinha e não come do seu fruto?” Observe que Deus espera os frutos daqueles que desfrutam dos privilégios da igreja, tanto os ministros quanto o povo, de maneira proporcional.

1. As suas expectativas não tinham pressa. Ele não exigiu um paga­ mento adiantado, embora tivesse tido tantos gastos com a vinha, mas esperou que chegasse o tempo dos frutos, como quando João pregava que era chegado o Reino dos céus. Deus espera para ter misericórdia, espera para nos dar tempo.

2. Eles não eram nobres, não mostravam ter uma moral elevada. Ele não exigiu que eles viessem, correndo perigos, sob pena de perder a concessão, caso se atrasassem, mas Ele lhes enviou os seus servos, para lembrá-los do seu dever, e do dia do pagamento, e para ajudá-los a colher os frutos e enviar-lhe a sua parte. Esses servos eram os profetas do Antigo Testamento, que foram enviados, algumas vezes diretamente, aos judeus, para repreendê-los e instruí-los.

3. Eles não eram pessoas difíceis; o problema era apenas “receber os frutos”. Ele não exigiu mais do que eles conseguiam produzir, mas apenas uma porção dos frutos, que Ele mesmo tinha plantado, em observância às leis e aos estatutos que Ele lhes tinha dado. O que poderia ser mais razoável? Israel era uma vinha vazia, ou melhor, ela tinha se tornado a planta degenerada, a vide estranha, e produzia uvas bravas.

 

III – A maldade dos lavradores ao maltratarem os mensageiros que lhes tinham sido enviados.

1. Quando Ele lhes enviou os seus servos, eles os maltrataram, embora os servos representassem o próprio senhor, e falassem em seu nome. Os chamados e as reprovações da Palavra, se não envolverem, irão apenas exasperar. Veja aqui o que aconteceu, na prática, com os fiéis mensageiros de Deus:

(1). Eles sofreram; foram perseguidos da mesma maneira como “os profetas” foram perseguidos. Estes foram odiados com ódio cruel. Não somente os desprezaram e censuraram, mas os trataram com o os piores malfeitores – eles os feriram, e os mataram, e os apedrejaram. Eles feriram Jeremias, mataram Isaías e apedrejaram Zacarias, o filho de Joiada, no Templo. Se aqueles que vivem devotamente em Cristo Jesus sofrem perseguições, muito mais aqueles que levam outros a esse tipo de vida. Uma disputa de Deus com os judeus estava relacionada à maneira como mal­ trataram os seus profetas (2 Crônicas 36.16).

(2). Competia a eles sofrer nas mãos dos arrendatários do seu Senhor. Os lavradores que os trataram dessa maneira eram os principais dos sacerdotes e os anciãos, que se sentavam na cadeira de Moisés, que professavam religião e relacionamento com Deus; eram os inimigos mais amargos dos profetas do Senhor, expulsando-os, e matando-os, e dizendo: “O Senhor seja glorificado” (Isaias 66.5; veja Jeremias 20.1,2; 26.11).

Considere:

[1]. Como Deus perseverou na sua bondade para com eles. Ele enviou outros servos, em maior número que os primeiros, mas esses também foram maltratados. Ele lhes tinha enviado João Batista, e eles o tinham decapitado; e ainda assim, Ele lhes enviou os seus discípulos, para preparar o seu caminho. Oh!, As riquezas da paciência e da tolerância de Deus, ao continuar com a sua igreja, em um ministério desprezado e perseguido!

[2]. Como eles persistiram na sua maldade. A esses servos, eles fizeram a mesma coisa que tinham feito aos primeiros. Um pecado abre caminho para outro do mesmo tipo. Aqueles que estão embriagados com o sangue dos santos, acrescentam a embriaguez à sede, a ainda pedem: Dá, dá.

2. Por fim, Ele lhes enviou o seu Filho. Nós vimos a bondade de Deus, nos seus envios, e a maldade dos lavradores, ao maltratar os servos; mas no final, os dois lados se excederam.

(1). Nunca a graça pareceu mais graciosa do que ao enviar o Filho. Isto foi feito no final. Observe que todos os profetas foram precursores e arautos de Cristo. Ele foi enviado por último; pois se nada mais funcionasse com eles, certamente isso funcionaria; por isso, Ele foi deixado para o último recurso. “Terão respeito a meu filho”, e por isso Eu o enviarei. Observe que é razoável esperar que o Filho de Deus, quando viesse aos seus, fosse reverenciado; e reverenciar a Cristo seria um princípio poderoso e efetivo de produtividade e de obediência, para a glória de Deus. Se eles apenas reverenciassem o Filho, o objetivo teria sido alcançado. “Terão respeito a meu filho”, pois Ele vem com mais autoridade que os servos; àquele a quem todos os homens honrarem se deverá o juízo (veja João 5.22,23). Há maior perigo em rejeitá-lo do que em desprezar a lei de Moisés.

(2). O pecado nunca havia se manifestado de uma forma tão terrível quanto o seria através da atitude de maltratar o Filho de Deus, o que deveria acontecer dentro de dois ou três dias. Considere:

[1]. Como tudo foi planejado (v. 38). Eles planejaram tudo quando viram o Filho, quando veio aquele que o povo reconhecia e seguia como o Messias, que receberia o arrendamento, ou tomaria os bens; isto atingia a sua propriedade (a propriedade que eles tinham arrendado), e eles decidiram dar um golpe ousado para defendê-la, e para preservar a sua riqueza e grandeza, removendo do caminho aquele que era o único obstáculo para eles, o seu único rival. “Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo”. Pilatos e Herodes, os príncipes deste mundo, não sabiam disso, pois se tivessem sabido, “nunca crucificariam ao Senhor da glória” (1 Coríntios 2.8). Porém, os principais dos sacerdotes e os anciãos sabiam que esse era o herdeiro, pelo menos alguns deles; e por isso disseram: “Vinde, matemo-lo”. Muitos são mortos devido àquilo que possuem. A razão principal por que tinham inveja dele, e por isto o odiavam e temiam, era o seu interesse pelo povo e as suas hosanas. Se Ele fosse eliminado, eles esperavam que esses louvores fossem direcionados para si mesmos. Eles pensaram que Ele deveria morrer para salvar o povo dos romanos (João 11.50); mas, na verdade, Ele deveria morrer para salvar o povo da hipocrisia e da tirania daqueles líderes religiosos. O esperado reino do Messias certamente traria esta libertação. Ele expulsa os compradores e vendedores do Templo; por isso, “matemo-lo”. E, como em um caso desses o direito sobre as propriedades certamente deve passar a pertencer àqueles que as ocupam, “apoderemo-nos da sua herança”. Eles pensaram que, se pelo menos conseguissem se livrar desse Jesus, conduziriam a todos na igreja, sem qualquer controle, poderiam impor as tradições que desejassem e forçar as pessoas a se sub­ meterem ao que quisessem. Assim, eles “juntos se manco­ munam contra o Senhor e contra o seu ungido”; mas aquele que está no céu ri por vê-los atirando contra si mesmos; pois, enquanto eles pensavam em matá-lo, e tomar a sua herança, Ele foi receber, por meio da sua cruz, a sua coroa, e Ele os esmigalhará com uma vara de ferro, e se apoderará da sua herança (Salmos 2.2,3,6,9).

[2]. Como esse plano de conspiração foi executado (v. 39). Eles estavam tão decididos a matá-lo, procurando cumprir o seu objetivo de garantir a sua própria pompa e o seu poder, e Ele estava tão decidido a morrer, para cumprir o seu desígnio de derrotar Satanás e salvar os seus eleitos, que não é de admirar que eles o prendessem dentro de pouco tempo, e o assassinassem, quando fosse chegada a sua hora. Embora o poder romano o condenasse, a culpa ainda é dos principais dos sacerdotes e dos anciãos, pois eles foram não apenas os promotores, mas os agentes principais, e cometeram o maior pecado. “Tomando-o vós” (Atos 2.23). Considerando-o indigno de viver, pois não desejavam que Ele vivesse, eles o arrastaram para fora da vinha, para fora da santa igreja, cuja chave, supostamente, eles tinham, e para fora da cidade santa, pois Ele “padeceu fora da porta” (Hebreus 13.12). Tudo se passou como se aquele que era a maior glória do seu povo, Israel, tivesse sido a vergonha e are­ provação da nação. Assim, aqueles que perseguiram os servos, perseguiram o Filho; os homens tratam os ministros de Deus assim como também tratariam o próprio Cristo, se Ele estivesse em seu meio.

 

IV – Aqui é mencionada a ruína dos lavradores maus, pela própria boca dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos do povo (v. 40,41). Jesus lhes pergunta: “Quando, pois, vier o Senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?” Ele lhes pergunta, para a condenação ainda mais severa deles, para que, “conhecendo a justiça de Deus” contra aqueles que fazem tais coisas, eles pudessem ser ainda mais inescusáveis. Observe que os procedimentos de Deus são tão irrepreensíveis, que é necessário apenas um apelo aos próprios pecadores a respeito da justiça de tais procedimentos. Deus é justificado quando fala. Eles puderam prontamente responder: “Dará afrontosa morte aos maus”. Observe que muitos podem, com facilidade, prever as funestas consequências dos pecados dos outros, mas não ver qual será o seu próprio fim.

1. O nosso Salvador, na sua pergunta, diz que o “Senhor da vinha” virá e acertará as contas com eles. Deus é o “Senhor da vinha”; a propriedade é dele, e Ele fará com que saibam disto aqueles que agora governam sobre a sua herança, como se pertencesse a eles. O Senhor da vinha virá. Os perseguidores dirão, no seu íntimo: Ele retarda a sua vinda, Ele não está vendo, Ele não exige nada. Mas eles irão descobrir que, embora Ele os tolere bastante, Ele não os tolerará sempre. O consolo dos santos e dos ministros maltratados é o fato de que o Senhor está próximo, de que o “Juiz está à porta”. Quando Ele vier, o que fará com aqueles que vivem de forma carnal? O que Ele fará com os cruéis perseguidores? Eles serão chamados para o ajuste de contas; esse será o dia deles, mas Ele “vê que vem chegando o seu dia”.

2. Na sua resposta, eles imaginam que será um acerto de contas terrível; o crime parece ser muito sério, vocês podem ter certeza de que:

(1). Ele “dará afrontosa morte aos maus”; o destino deles é a sua destruição. Que os homens nunca esperem fazer o mal, e se saírem bem. Isto se cumpriu com os judeus, naquela infeliz destruição que lhes foi trazida pelos romanos, e que aconteceu aproximadamente depois de quarenta anos; e uma destruição sem paralelos, em que houve as mais tristes circunstâncias agravantes. Isto se cump1irá sobre aqueles que andam na iniquidade; o inferno é a destruição eterna, e será uma destruição pior do que todas as demais. Imagine a situação daqueles que desfrutaram a maior par­ te dos privilégios da igreja, e se descuidaram da sua própria salvação. Os hipócritas e os perseguidores sofrerão terrivelmente no inferno.

(2). Ele “arrendará a vinha a outros lavradores”. Observe que Deus terá uma igreja no mundo, apesar da falta de merecimento e da oposição de muitos que recebem os seus privilégios. A falta de fé e a reprovação do homem não tornarão a Palavra de Deus sem efeito. Se alguém não a aceitar, outro o fará. As migalhas dos judeus eram o banquete dos gentios. Os perseguidores podem destruir os ministros, mas não podem destruir a igreja. Os judeus imaginavam que, sem dúvida, eles eram o povo de Deus, e assim a sabedoria e a santidade lhes pertenciam. E se eles fossem desarraigados, para que Deus precisaria de uma igreja neste mundo? Mas quando Deus usa qualquer pessoa para sustentar o seu nome, não é porque Ele precise desta pessoa, nem porque Ele esteja em dívida para com ela. Ainda que fôssemos destruídos, tornando-nos um motivo de espanto, Deus poderia edificar uma igreja próspera sobre as nossas ruínas, pois Ele nunca se confunde quanto ao que deve fazer pelo seu grandioso nome, a despeito daquilo que possa acontecer conosco, com o nosso lugar, e com a nossa nação.

 

V – O exemplo e a aplicação desse conceito pelo próprio Cristo, dizendo-lhes, com efeito, que tinham julgado de forma correta.

1. Jesus dá um exemplo, referindo-se a uma passagem das Escrituras que assim foi cumprida (v. 42): “Nunca lestes nas Escrituras”. Sim, sem dúvida, eles as liam e cantavam frequentemente, mas não as tinham levado em consideração. Nós perdemos o benefício daquilo que lemos por falta de reflexão. A passagem citada por Jesus é Salmo 118.22,23, o mesmo contexto de onde os meninos tomaram as suas hosanas. A mesma palavra que traduz louvor e consolo aos amigos e seguidores de Cristo, transmite condenação e terror aos seus inimigos. A Palavra de Deus é uma espada de dois gumes. Esta passagem: “A pedra que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo”, exemplifica a parábola anterior, especialmente na parte que se refere a Cristo.

(1). A rejeição da pedra pelos edificadores é a mesma coisa que os maus tratos dos lavradores ao Filho que lhes foi enviado. Os principais dos sacerdotes e os anciãos eram os edificadores, e tinham a supervisão da religião dos judeus, que era o edifício de Deus; e eles não iriam conceder um lugar a Cristo no seu edifício, não iriam aceitar a sua doutrina nem as suas leis na sua constituição; eles o deixaram de lado, como um vaso quebrado e desprezado, uma pedra que serviria somente como pedra de tropeço.

(2). O fato de essa pedra chegar a ser cabeça de esquina é a mesma coisa que arrendar a vinha a outros lavradores. Aquele que foi rejeitado pelos judeus foi aceito pelos gentios, e por aquela igreja onde não existe distinção entre circuncisão e incircuncisão, onde “Cristo é tudo em todos”. A sua autoridade sobre a igreja cristã, e a sua influência sobre ela, o fato de Ele governar sobre ela, como a sua Cabeça, e de que a une, como a Cabeça de Esquina, são os grandes símbolos da sua exaltação. Assim, apesar da maldade dos sacerdotes e dos anciãos, Ele dividiu uma porção com os grandes (“Com os poderosos, repartirá ele o despojo”), e recebeu o seu reino, embora eles não desejassem que Ele reinasse sobre eles.

(3). A mão de Deus estava em tudo isso: “Pelo Senhor foi feito isso”. Até mesmo a sua rejeição pelos edificadores judeus se deu com o conselho e o conhecimento prévio de Deus Pai. Ele permitiu e ordenou isso; o Senhor Jesus também assumiu a posição de Pedra Angular. A sua mão direita e o seu santo braço fizeram tudo isso acontecer; foi o próprio Deus que “o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome”; e “é coisa maravilhosa aos nossos olhos”. A maldade dos judeus que o rejeitaram é espantosa. Como é que os homens podem ter tamanho preconceito contra os seus próprios interesses! (veja Isaias 29.9,10,14). A honra que lhe foi dada pelo mundo gentílico, apesar dos maus tratos que o seu próprio povo lhe dirigiu, é algo maravilhoso. O mesmo ocorre com o fato de que aquele que os homens desprezaram e abominaram foi adorado por reis! (Isaias 49.7). Mas “foi o Senhor que fez isto”.

2. Jesus aplica a parábola a eles, e a aplicação é a vida da pregação.

(1). Ele aplica a sentença que os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo tinham determinado (v. 41), voltando-a contra eles mesmos; não a sua primeira parte, que dizia respeito à infeliz destruição dos lavradores (Ele não queria falar disto ), mas a sua parte final, sobre arrendar a vinha a outros; porque embora ela parecesse má aos judeus, ela era boa para os gentios. Perceba:

[1]. Que os judeus ficarão sem igreja: “O Reino de Deus vos será tirado”. Esta demissão dos lavradores representa a mesma destruição que a destruição da vinha “para que sirva de pasto” (Isaias 5.5). Aos judeus, por muito tempo, tinham pertencido a adoção e a glória (Romanos 9.4), a eles foram confiadas as “palavras de Deus” (Romanos 3.2), o depósito sagrado da religião revelada, e o privilégio de serem o povo que se chama pelo nome de Deus no mundo (Salmos 76.1,2). Mas já não será mais assim. Eles não eram apenas improdutivos, no uso dos seus privilégios, mas, com essa desculpa, se opunham ao Evangelho de Cristo, e desta maneira perderam tais privilégios, não tardando muito até que eles fossem removidos. Observe que é justo o fato de Deus remover os privilégios da igreja daqueles que não apenas pecam contra eles, mas que pecam tendo estes privilégios (Apocalipse 2.4,5). O Reino de Deus foi removido dos judeus, não somente pelos julgamentos temporais que lhes aconteciam, mas também pelos julgamentos espirituais a que estavam sujeitos, pela sua cegueira de espírito, pela sua insensibilidade de coração, e pela sua indignação com o Evangelho (Romanos 11.8-10; 1 Tessalonicenses 2.15).

[2]. Que os gentios serão aceitos. Deus não precisa nos pedir permissão para que Ele tenha uma igreja no mundo; embora a sua vinha seja desarraigada de um lugar, Ele encontrará outro para plantá-la, que produzirá frutos. Aqueles que não eram um povo, e não tinham obtido misericórdia, se tornaram os favoritos do Céu. Este é o mistério que tanto influenciou o bem-aventurado Paulo (Romanos 11.30,33), e que tanto revoltou os judeus (Atos 22.21,22). Com a primeira plantação de Israel, em Canaã, a der­ rota dos gentios foi a riqueza de Israel (Salmos 135.10,11), e, portanto, na sua extirpação, a queda de Israel foi a riqueza dos gentios (Romanos 11.12). Ele a dará “a uma nação que dê os seus frutos”. Cristo sabe, de antemão, quem irá produzir frutos usando os meios do Evangelho; por­ que toda a nossa produtividade é um trabalho das suas próprias mãos, e todas as suas obras são conhecidas de Deus Pai. Eles produzirão frutos melhor do que os judeus o fizeram. Deus recebeu mais glória da igreja do Novo Testamento do que da sua congregação do Antigo Testamento. Porque quando Ele modifica alguma coisa, não a modifica para que tenha perdas.

(2). Ele aplica as Escrituras que tinha citado (v. 42) para o terror deles (v. 44). Esta “pedra que os edificadores rejeitaram” está destinada “para a queda de muitos, em Israel”. E temos aqui a destruição de dois tipos de pessoas cujas quedas estão comprovadamente ligadas a Cristo.

[1]. Alguns, por ignorância, tropeçam em Cristo devido ao seu estado de humilhação. Quando essa Pedra está na terra, onde os edificadores a deixam, eles, com a sua cegueira e com os seus descuidos, caem sobre ela, e se destroem. A ofensa que dirigem a Cristo não o ofenderá mais do que o ferimento que uma pedra sofre por parte daqueles que nela tropeçam. Mas eles ferirão a si mesmos; eles cairão, e serão quebrantados, e enlaçados, e presos (Isaias 8.14; 1 Pedro 2.7,8). A incredulidade dos pecadores será a sua destruição.

[2]. Outros, por meio da maldade, se opõem a Cristo e o desafiam no seu estado de exaltação, quando essa Pedra já é cabeça de esquina; e neles ela cairá, pois eles a colocam sobre suas próprias cabeças, como os judeus fizeram com este desafio: “O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos”; e isto os reduzirá a pó. A primeira parte parece referir-se ao pecado e à destruição de todos os infiéis. Este é o pecado maior, e a pior ruína, dos perseguidores, que vão contra tudo e persistem neste comportamento. O reino de Cristo será uma pedra pesada para todos aqueles que tentarem se livrar dela, ou tirá-la do seu lugar (veja Zacarias 12.3). Essa Pedra, cortada do monte sem o auxílio de mãos, rompeu e esmiuçou todo o poder de oposição (Daniel 2.34,35). Alguns entendem isso como uma alusão ao costume dos judeus de apedrejar até à morte. Os criminosos eram, primeiramente, atirados com violência, de uma plataforma elevada, sobre uma grande pedra, o que deveria feri-los muito; mas depois os judeus atiravam outra grande pedra sobre eles, o que deveria esmagá-los, reduzindo-os a pedacinhos. De uma maneira ou de outra, Cristo irá destruir completamente todos aqueles que lutarem contra Ele. Se eles forem tão intrépidos, a ponto de a queda sobre a pedra não os destruir, ainda assim outra pedra irá cair sobre eles, e os destruirá. Ele ferirá os reis, encherá as nações de cadáveres (Salmos 110.5,6). Jamais alguém endureceu o seu coração contra Deus e, ainda assim, prosperou.

Finalmente, consideremos a recepção que essas palavras de Cristo tiveram entre os principais dos sacerdotes e os anciãos que ouviam as suas parábolas.

1. Eles ”entenderam que falava deles” (v. 45), e que naquilo que tinham dito (v. 41), eles tinham somente descrito a sua própria destruição. Observe que uma consciência culpada não precisa de acusador, e, às vezes, irá poupar um ministro do dever de dizer: “‘Tu és este homem”. Tão rápida e poderosa é a Palavra de Deus, e ela discerne tão bem os pensamentos e as intenções do coração, que é fácil para os homens maus (se a consciência não estiver insensibilizada) perceber que ela está falando deles.

2. Eles pretenderam prender a Jesus. Quando aqueles que ouvem a reprovação do mundo percebem que ela está falando deles, se isso não lhes fizer bem, certamente lhes causará muitas mágoas. Se eles não se compungirem em seus corações com convicção e contrição (Atos 2.37), eles se enfurecerão com indignação (Atos 5.33).

3. Eles não o fizeram por receio do povo, que consideravam Jesus um profeta, embora não o considerassem como o Messias. Isto serviu para assustar os fariseus. O medo que sentiam do povo os tinha impedido de falar mal de João (cap. 5.26), e aqui, de fazer mal a Jesus. Observe que Deus tem muitas maneiras de restringir a ira, como também de fazer com que a ira do homem redunde em seu louvor (Salmos 76.10).

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.