PSICOLOGIA ANALÍTICA

DO QUE VOCÊ TEM MEDO?

Esse sentimento resulta de processos tão básicos quanto a respiração ou a digestão; mesmo assim, compreender e descrever o que acontece em nosso cérebro quando algo nos apavora continua sendo um desafio para cientistas.

Do que você tem medo

O que é mais assustador: uma cobra venenosa serpenteando em sua direção numa trilha, ou observar uma queda de mil pontos na bolsa de valores? Embora os dois acontecimentos sejam de natureza bastante diversa, ambos são assustadores. “Medo é uma resposta para estímulos imediatos, que podemos sentir no corpo como sensação de vazio no estômago, aceleração do coração, suor nas mãos e a tensão muscular”, diz o neurocientista Joseph LeDoux, professor de neurociência e psicologia da Universidade de Nova York. Segundo ele, essas reações evidenciam que o cérebro está respondendo de forma pré-programada a uma ameaça muito específica. “Ver a bolsa de valores despencar mil pontos é a mesma coisa que observar uma cobra”, avalia LeDoux. “O medo, caraterizado pela sensação de vazio, aceleração do coração, palmas das mãos suadas e tensão é uma resposta para estímulos imediatos”, afirma o neurocientista. O pesquisador observa que, do ponto de vista neuroanatômico podemos assumir que nossas sensações diante de ameaças são semelhantes.

O medo afeta diferentes espécies de modo semelhante. “Viemos ao mundo sabendo como ter medo, pois nosso cérebro evoluiu para lidar com a natureza”. avalia LeDoux, observando que os cérebros de ratos e humanos respondem de maneiras semelhantes a ameaças, ainda que de naturezas distintas.

Para outros pesquisadores o medo é uma experiência muito pessoal. Enquanto algumas pessoas ficam apavoradas ao assistir a um filme de terror, outras podem ficar com muito mais medo ao se encaminharem para seus carros, em um estacionamento escuro, depois de assistir ao filme.

Se pedirmos para várias pessoas fazerem uma lista das coisas que mais as assustam, provavelmente cada uma fará uma lista bem diferente da outra, avalia Michael Lewis, diretor do Instituto de Desenvolvimento Infantil, da Faculdade de Medicina Robert Wood Johnson, em New Brunswick, Nova Jersey. “Intimamente, podemos concordar que o medo de uma auditoria do imposto de renda ou de um assalto pode se manifestar da mesma maneira. O problema é que não temos como obter uma boa medida fisiológica do medo ou de qualquer outra emoção”, considera Lewis.

Ele observa que o comportamento das pessoas que nos cercam influi nas nossas respostas a situações ameaçadoras. “Aprendemos a ter medo por experiências com fatos assustadores, ou com pessoas próximas, como nossos pais, irmãos, amigos”, observa Lewis. “O medo parece ter um componente contagiante, que faz com que o medo dos outros seja transmitido para nós. É um comportamento condicionado, como Pavlov e os cães que salivavam.”

Outros pesquisadores recorrem à tecnologia para ajudar a melhor entender o medo. “É muito difícil definir essa emoção em termos do sentimento que ela evoca”, argumenta Joy Hirsch, professora de neurorradiologia, neurociência e psicologia, bem como diretora do Programa para Ciências de Imageamento e Cognição, da Columbia University, em Nova York. “É possível definir dor? É possível definir a cor vermelha? Essas sensações extremamente pessoais são consideradas os problemas mais difíceis em neurociência.”

Para descobrir mais sobre o que nos faz perder o sono, Hirsch e sua equipe usam imageamento por ressonância magnética funcional (fMRI) para investigar como funcionam as conexões no nosso cérebro. “O circuito que comanda a sensação de medo é ativado imediatamente por meio de um estímulo específico”. observa Hirsch. Na pesquisa que ela desenvolve, uma fotografia do rosto de uma pessoa com expressão assustada é mostrada aos participantes. Uma biblioteca padrão de estímulos que evocam atividades assustadoras usa atores para criar expressões faciais que transmitem sensação de medo.

Na pesquisa com fMRI, a reação ao estímulo indutor de medo manifesta-se na amígdala, uma estrutura arredondada em forma de amêndoa, localizada abaixo do lobo temporal e também conhecida como centro cerebral do medo. Hirsch lembra que a amígdala é a primeira a responder a estímulos ameaçadores.

O escâner de fMRI rastreia a alteração no fluxo sanguíneo para a amígdala. “Estamos à procura de mudanças de sinais em regiões específicas do cérebro”, argumenta Hirsch; “Esse sinal significa aumento da atividade neural.” O sinal de ressonância magnética responde à quantidade de sangue que está abastecendo uma determinada área. Durante o período de varredura da amígdala a foto de um rosto apavorado provoca um maior afluxo sanguíneo – intensificando o sinal da imagem – que um rosto com expressão neutra.

Críticos da pesquisa baseada na fMRI argumentam que nem sempre é claro o significado do afluxo de sangue em uma região cerebral. Mas Hirsch reba- te os adversários: “Usamos estímulos escolhidos de forma muito cuidadosa e que não necessariamente assustam as pessoas que estão sendo analisadas, mas que despertam sistemas envolvidos em sensações de medo, se você estiver assustado”. conclui. “A interpretação de outra face demonstrando medo estimula regiões neurais do observador que respondem ao medo.”

Hirsch observa que a amígdala responde a outros estímulos além de expressões faciais. “Se você estiver em um beco escuro e alguma coisa saltar de repente em cima de você, provocando um susto, ela adverte: “É a amígdala que vai fazer você sair correndo.”

OUTROS OLHARES

O DIREITO DE MATAR

Na sociedade do “eu mereço”, será proibido ter bebês deficientes?

O dIreito de matar

“Meu gladiador baixou o escudo e criou asas.” Dificilmente alguém terá feito um epitáfio mais comovente, ainda mais sendo um pai de apenas 21 anos que acabou de perder seu filhinho. A história do pequeno Alfie, que morreu antes de completar 2 anos, é espantosa. Vitimado por uma doença cerebral nunca exatamente diagnosticada, ele foi condenado à morte pela mão implacável do Estado. Os médicos mandaram desligar os aparelhos. A Justiça negou os recursos dos pais para levá-lo ao hospital do Vaticano oferecido pelo Papa Francisco. Ir para casa, passar as últimas horas com a família? Nem pensar.

Isso tudo aconteceu na Inglaterra, mas é chocante até para nós, brasileiros, tristemente acostumados a um mundo orwelliano em que predomina o exato contrário das placas nas portas dos “doutores”. Juízes pelo direito de chicanear, jornalistas pelo direito de não informar e advogados pelo direito de traficar são algumas das anomalias com as quais convivemos. Mas médicos pelo direito de matar só para mostrar que podem, num ato de reafirmação da autoridade suprema do Estado sobrea vida e a morte, expõem um desafio ético que só vai aumentar. Os avanços da genética, que vai juntando as letras para ler o infinitamente complexo código da vida, estão refinando escolhas estonteantes. Qual embrião vai viver e qual será “descartado”? O de olhos azuis, heterossexual? Com genes ligados à presença de tendências liberais e à ausência de câncer?

Abortar um feto com síndrome de Down já é um fato incorporado à sociedade. Nos Estados Unidos, dois terços das mulheres com teste positivo interrompem a gestação, a expressão light. Uma escolha torturante para muitas mães que a jornalista Ruth Marcus banalizou recentemente, num artigo em que dizia que teria abortado, nas duas vezes em que ficou grávida, se o exame fosse positivo, “porque não seria o filho que queria ter”. Uma declaração condizente com a sociedade da auto- indulgência acelerada, na qual a frase “eu mereço” é usada para justificar futilidades consumistas destinadas a mimar egos fracos. Bebês com Down não ficam bem no Instagram. Como todo mundo praticamente já decidiu que existem os bebês descartáveis, avançamos para o próximo estágio: surgiu uma “corrente” segundo a qual é antiético ter filhos com deficiências graves, mesmo que os pais queiram. Não é difícil imaginar o passo seguinte. Alfie Evans reproduziu em praticamente tudo o caso de outro bebê condenado, Charlie Gard.

Os dois teriam a alternativa de ser levados para hospitais no exterior, numa prorrogação de vida mantida por aparelhos. Não agravariam os custos da combalida saúde pública na Inglaterra. Os bem-pensantes horrorizaram-se com as manifestações em frente aos hospitais, onde grupos de mulheres rezavam, numa desprezada exibição de fé. Alfie e Charlie tinham de morrer, mais do que por suas doenças, exatamente como os detentores da verdade, e do poder sobre o corpo das crianças, determinaram. Acostumada a elogiar o papa por qualquer bobagem anti­capitalista que diga, a revista The Economist considerou que seu papel no caso de Alfie foi “lamentável”. Para quem?

GESTÃO E CARREIRA

OS ROBÔS QUE INVESTEM POR VOCÊ

Entenda como funciona o aconselhamento financeiro via inteligência artificial e descubra se vale a pena aplicar seu dinheiro com a ajuda da tecnologia.

Os robôs que investem por você.

O robô Ueslei começou a trabalhar com gestão de investimentos no fim de julho de 2016. Na época, administrava 16 milhões de reais. Agora já faz o gerenciamento de uma carteira de 260 milhões de reais. Sua inteligência artificial lhe possibilita desenvolver estratégias e recomendações de aplicações de acordo com o perfil de cada cliente. Ueslei também realiza operações financeiras de compra e venda de papéis e monitora as cestas de investimentos.

Desenvolvido pela Vérios, uma das primeiras plataformas a oferecer esse serviço por aqui, Ueslei não está sozinho. Nos últimos anos houve uma proliferação de robôs investidores em empresas como Magnetis, Monetus e Warren – esta última, criada por quatro ex- executivos da XP, acumulou 20.000 clientes e 10 milhões de reais sob sua gestão desde que surgiu, em janeiro de 2017. “Existe um mercado enorme no Brasil que não é atendido por planejadores financeiros, porque esse serviço ainda é visto como caro e exclusivo. Essas fintechs estão chegando para, de certa forma, democratizar o acesso ao aconselhamento e aos fundos de investimento”, diz Luís Fernando Affonso, professor do programa avançado de finanças no lnsper de São Paulo e membro do conselho da CFA Society Brazil, associação responsável pela certificação de agente financeiro CFA. Para ter uma ideia, enquanto um plano de aconselhamento financeiro custa cerca de 2.500 reais ao ano, o trabalho de um robô é calculado sobre o valor aplicado: se investir 10.000 reais, o preço cobrado será, em média, de 100 reais.

Paulo Medeiros, de 30 anos, servidor público, de Brasília, é um dos que resolveram experimentar esse tipo de tecnologia. Há cerca de dois anos ele começou a investir o capital que sobrava em CDBs, mas não tinha disciplina. “Sempre que gastava mais no cartão de crédito, resgatava tudo”, diz. Por conta própria, começou a consultar corretoras e a estudar o mercado. Descobriu que havia robôs capazes de fazer aplicações financeiras e investigou sobre o serviço no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que regula o mercado de capitais no país, para verificar quais plataformas eram registradas. “Como eram empresas novas, pesquisei muito e decidi pela que tinha mais avaliações positivas no Facebook”, afirma Paulo. Ele fez um aporte para testar o serviço e, depois de um mês, transferiu 95% de seu capital de aplicações para lá. “Apesar de ser um serviço automatizado, o que eu gostei foi da rapidez na resposta do atendimento ao cliente.”

 CONFIANÇA NA TECNOLOGIA

As plataformas robóticas de investimento já existem há dez anos nos Estados Unidos. No Brasil, seguem o modelo de duas empresas americanas, a Betterment, fundada em 2008, e a Wealthfront, lançada em 2011. Ambas cobram taxas baixíssimas de administração (0,25% ao ano) e exploram um mercado que, segundo estimativas da Bloomberg, tem potencial para chegar a 2,2 trilhões de dólares até 2020.

Assim como nos Estados Unidos, a aceitação da tecnologia tende a ser promissora no Brasil. Segundo o relatório “O Surgimento do Aconselhamento por Robôs” (numa tradução livre), da consultoria Accenture, 84% dos brasileiros estariam dispostos a ouvir orientações de inteligências artificiais. Para 33% deles, a razão para essa opção é a simplicidade do sistema. Para outros 31%, o mais atraente nesse tipo de ser viço é não haver um ser humano tentando empurrar algo visando aos próprios Interesses. Foi a percepção de receber uma oferta livre de segundas intenções que levou a paulistana Mariana Assis, gerente de sucesso do cliente do LinkedIn, de 33 anos, a investir nessa modalidade.

Autodidata em investimentos, há quatro anos ela procurou um planejador financeiro, começou a estudar a bolsa de valores e abriu uma conta numa corretora. “Mas eu sentia que era enganada pelos agentes autônomos, porque eles ganham por comissão e, multas vezes, oferecem um produto financeiro por causa do valor que receberiam com esse investimento”, afirma A ausência de emoções humanas (que, no limite, pode prejudicar a estratégia) ao oferecer um produto animou Mariana a migrar todo o seu dinheiro para uma plataforma de robot advice poucos meses depois. “Se for para confiar nos cálculos de juro e risco de uma pessoa ou de uma máquina, prefiro a máquina”, diz a gerente. A cada seis meses Mariana faz uma reunião de reavaliação das metas com seu planejador financeiro – ela continua com ele para revisar sua estratégia financeira de longo prazo, coisa que o robô não faz. O expediente de unir o desempenho robótico ao humano coma orientação do especialista já rendeu conquistas como a compra de um carro à vista e a primeira viagem internacional. E você, delegaria seus investimentos às decisões de um robô?

Os robôs que investem por você.2

 QUEM JÁ OFERECE

As principais empresas que fazem o serviço hoje no Brasil

MAGNETIS

O robô, lançado em 2015, acompanha milhares de tipos de investimento e monta a combinação ideal de acordo com o perfil do investidor. O CEO, Luciano Tavares, foi vice-presidente da Merryl Lynch no Brasil. (magnetts.com.br)

Aplicação mínima: 10.000 reais

Taxa: 0,4% ao ano do valor investido

WARREN

Tem um processo com etapas bem definidas: conversa com o robô, estabelecimento de objetivos, análise das sugestões de investimento, aplicação do dinheiro e acompanhamento em tempo real do desempenho. (warren.com)

Aplicação mínima:100 reais

Taxa:0,8% ao ano do patrimônio total

ALKANZA

Desenvolvida no vale do silício, foi lançada aqui pela corretora Rico em 2016. Analisa centenas de investimentos e seleciona as melhores opções de acordo com o objetivo. Limitação: O cliente precisa ter conta atrelada a corretora. (rico/alkanza.com.br)

Aplicação mínima: 5.000 reais

Taxa:0,5% ao ano do valor investido.

VÉRIOS

Otimiza a rentabilidade comum modelo matemático que faz rebalanceamento automático da carteira para melhorar o retorno. (verios.com.br)

Aplicação mínima:12.000 reais para clientes novos ou 5.000 reais se houver recomendações de amigos.

Taxa: 0,95% ao ano do valor investido.

MONETUS

A plataforma vende a simplificação como diferencial: É só criar a conta, transferir o dinheiro e, a partir daí acompanhar os rendimentos. Daniel Calonge; cofundador, trabalha com gestão de fortunas em Belo Horizonte. (wmonetus.com.br).

Aplicação mínima: 100 reais

Taxa:0,5% ao ano do valor investido.

SMARTTBOT

Primeira plataforma de robôs traders no Brasil. Nela, os algoritmos enviam ordens para a corretora na qual o cliente tem conta. É possível acompanhar entradas e saídas e métricas de retorno. (smattbot.com).

Aplicação mínima:10.000 reais.

Taxas: Começam em 100 reais mensais para contratar dois robôs, com capacidade de negociar 10.000 reais por dia.

Fontes: ANBINA, CVM, CFA, SOCIETY BRASIL E EMPRESAS

 

POR DENTRO DA TECNOLOGIA

Qual é a lógica por trás dos robôs de investimentos.

O QUE É: Serviço de investimento baseado em algoritmos que automatizam cálculos, decisões e análises. O robô, na verdade, um software que pode só recomendar ou também fazer gestão de portfólio. Esse serviço ajuda quem não tem conhecimento a diversificar aplicações, diz Luiz, do INSPER.

COMO FUNCIONA: O investidor preenche um formulário on line para definição de objetivos e perfil de risco. A partir daí o software faz simulações com diferentes carteiras, seguindo padrões estabelecidos pelo investidor. O robô advisor acompanha o desempenho da carteira e, se necessário, faz reorganizações.

PERFIL DO INVESTIDOR: “Esse tipo de serviço é em geral, indicado para quem deseja aplicar para sacar no médio e longo prazo e não tem condições nem vontade de estudar o mercado a fundo ou de contratar um agente autônomo para fazer isso por ele”, diz a planejadora financeira Fabiana Góes, de São Paulo.

APLICAÇÃO MINIMA: O valor de aplicação varia de 100 a 12.000 reais, de acordo com a plataforma. Por isso, o capital inicial é um fator determinante na escolha do robô.

TAXAS: Como realiza operações simultâneas e consegue atender muitos clientes ao mesmo tempo, o sistema é bem mais barato do que um assessor de carne e osso. As taxas variam de 0,4% a 0,95% ao ano.

RISCO: É controlado, já que a tolerância é definida segundo o perfil investidor. Os produtos de renda fixa são segurados pelo fundo garantidor de crédito (CVM). Vale verificar se o serviço tem registro no site da CVM e se o algoritmo é consultor ou gestor. Se for a primeira opção, ele só sugere investimentos/ se for a segunda, poderá operar a carteira.

TIPOS DE ROBÔ: Além do advisor, há o robô trader, que começa a se popularizar no Brasil nessa modalidade. Serve para quem deseja aplicar em renda variável e tem conhecimento de mercado ou auxílio de um especialista para criar estratégias.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 21:  28-32

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A Parábola dos Dois Filhos

Assim como Cristo instruía os seus discípulos por meio de parábolas (o que tornava mais fácil a instrução), algumas vezes Ele também convencia os seus adversários por meio de parábolas. Isso aproxima a reprovação e faz com que os homens, pelo menos aqueles que estão conscientes, censurem a si mesmos. Dessa maneira, Natã convenceu Davi por meio de uma parábola (2 Samuel 22.1), e a mulher de Tecoa o surpreendeu da mesma maneira (2 Samuel 14.2). As parábolas de reprovação recorrem às próprias pessoas que erraram, e as julgam a partir das suas próprias bocas. Pelo que podemos entender das primeiras palavras, isto é o que Cristo pretende aqui (v. 28): “Mas que vos parece?”

Nesses versículos, temos a parábola dos dois filhos enviados para trabalhar na vinha, cujo objetivo é mostrar que aqueles que não reconheciam que o batismo de João era de Deus envergonhavam-se diante, até mesmo, dos publicanos e das meretrizes, que o sabiam e que o reconheciam. Aqui está:

 

I – A parábola, que representa dois tipos de pessoas. Aqueles que provam ser melhores do que se esperava, representados pelo primeiro dos filhos; e outros, que prometem ser melhores do que provam ser, representados pelo segundo filho.

1. Eles tinham o mesmo pai, o que significa que Deus é o Pai comum de toda a humanidade. Existem dádivas que todos nós, de igual maneira, recebemos dele, e obrigações que todos nós, de igual maneira, temos para com Ele. “Não temos nós todos um mesmo Pai?” Sim, e ainda assim existe uma imensa diferença entre as personalidades dos homens.

2. Os dois receberam a mesma ordem: “Filho, vai trabalhar hoje na minha vinha”. Os pais não devem criar seus filhos na ociosidade; nada é mais agradável, e também mais pernicioso, para a juventude, do que isso (Lamentações 3.27). Deus quer que os seus filhos trabalhem, embora todos eles sejam seus herdeiros. Esta ordem é dada a cada um de nós. Considere:

(1). O trabalho da religião, em que nós devemos nos envolver, por vocação, é um trabalho na vinha, elogiável, lucrativo e agradável. Devido ao pecado de Adão, nós fomos expulsos para trabalhos comuns, e para comer as ervas dos campos; mas com a graça do nosso Senhor Jesus, nós somos convocados para trabalhar outra vez na vinha.

(2). O chamado do Evangelho para trabalhar na vinha exige obediência imediata: “Filho, vai trabalhar hoje”, enquanto ainda é hoje, porque “a noite vem, quando ninguém pode trabalhar”. Nós não fomos enviados ao mundo para estar ociosos, nem recebemos a luz do dia para brincarmos; por isso, se temos a intenção de fazer alguma coisa por Deus e pelas nossas almas, por que não agora? Por que não hoje?

(3). A exortação para ir trabalhar hoje na vinha, que “argumenta conosco como filhos” (Hebreus 12.5): “Filho, vai trabalhar”. Esta é a ordem de um Pai que traz consigo autoridade e, ao mesmo tempo, afeto, um Pai que se compadece dos seus filhos, e conhece a sua estrutura, e não os sobrecarrega (Salmos 103.13,14), um Pai que “poupa a seu filho que o serve” (Malaquias 3.17). Se trabalharmos na vinha do nosso Pai, trabalharemos para nós mesmos.

3. Os dois filhos tiveram comportamentos muito diferentes.

(1). Um dos filhos fez melhor do que tinha prometido, provou ser melhor do que se esperava. A sua resposta foi má, mas as suas ações foram boas.

[1].  Aqui está a resposta exterior que esse filho deu ao seu pai; ele disse claramente: “Não quero”. Veja a que estágio de imprudência chega a natureza corrupta de um homem, a ponto de dizer: “Não quero”, como res­ posta à ordem de um Pai. A recusa a uma ordem como essa, de um Pai como esse, mostra que eles são filhos insolentes e teimosos. Aqueles que não se curvam, certamente não se envergonharão; se eles tivessem algum grau de modéstia em si mesmos, não poderiam dizer: “Não quero” (Jeremias 2.25). As desculpas são más, mas as negações diretas são piores; porém, essas recusas categóricas frequentemente se chocam com os chamados do Evangelho. Em primeiro lugar, alguns gostam do seu conforto, e não querem trabalhar; eles vivem no mundo como leviatã nas águas, para folgar (Salmos 104.26); eles não gostam de trabalhar. Em segundo lugar, os seus corações se preocupam tanto com os seus próprios campos, que eles não estão propensos a ir trabalhar na vinha de Deus. Eles gostam mais dos negócios do mundo do que dos negócios da sua fé. Assim, alguns, pelas delícias dos sentidos, e outros, pelas atividades do mundo, são impedidos de realizar aquela grande obra para a qual foram enviados ao mundo, e dessa maneira, passam o dia inteiro ociosos.

[2]. Vemos aqui a feliz mudança de ideia, e da conduta do primeiro filho, depois de pensar um pouco: “Mas, depois, arrependendo-se, foi”. Observe que há muitas pessoas que no início são más, teimosas, voluntariosas e pouco promissoras, mas que posteriormente se arrependem e se corrigem, e caem em si. Há alguns que Deus escolheu, e que são tolerados por muito tempo em sua rebelião; alguns dentre nós foram assim (1 Coríntios 6.11). Estes se destinam a padrões de grandes sofrimentos (1 Timóteo 1.16). Depois, ele se arrependeu. O arrependimento é metanoia um pensamento posterior; e metameleia uma preocupação posterior. Antes tarde do que nunca. Observe que quando ele se arrependeu, ele foi; este é um “fruto digno de arrependimento”. A única evidência do arrependimento da nossa resistência anterior é concordar imediatamente e partir para o trabalho; e então, o que passou será perdoado, e tudo ficará bem. Veja que Pai bondoso Deus é; Ele não se ressente da afronta das nossas recusas, como poderia fazê-lo, justamente. Aquele que disse ao seu pai, face a face, que não faria o que ele lhe pedia, merecia ser atirado para fora de casa e deserdado; mas o nosso Deus “espera para ter misericórdia”, e, apesar das nossas antigas tolices, se nós nos arrependermos e nos corrigirmos, Ele irá nos aceitar de uma forma bastante favorável. Bendito seja Deus, nós estamos sob uma aliança que dá lugar a esse tipo de arrependimento.

(2). O outro filho disse melhor do que fez, prometeu ser melhor do que provou ser; a sua resposta foi boa, mas as suas ações, más. O pai, “dirigindo-se ao segundo, falou-lhe de igual modo” (v. 30). O chamado do Evangelho, embora muito diferente, é, na realidade, o mesmo para todos nós, e nos é transmitido com o mesmo teor. Todos nós temos as mesmas ordens, os mesmos compromissos, os mesmos incentivos, embora para alguns eles sejam “cheiro de vida para vida”, para outros, “cheiro de morte para morte”. Considere:

[1]. Como esse segundo filho prometeu corretamente. “Respondendo ele, disse: Eu vou, senhor”. Observe que é conveniente que os filhos falem de maneira respeitosa com seus pais. Isto é parte daquela honra que o quinto mandamento exige. Ele professa uma obediência imediata: “Eu vou”; ele não diz: “Eu irei daqui a pouco”, mas: “Imediatamente, senhor, pode confiar nisso, eu vou agora mesmo”. Esta é a resposta que nós devemos dar, do fundo do coração, sinceramente, a todos os chamados e mandamentos da Palavra de Deus (veja Jeremias 3.22; SI 27.8).

[2]. Como ele fracassou em realizar o que tinha pro­ metido: “e não foi”. Observe que existem muitos que proferem boas palavras, e fazem, na religião, boas promessas que se originam de boas motivações para o presente; porém, ficam apenas nisso, não vão mais além e, dessa forma, não fazem nada. Dizer e fazer são duas coisas diferentes. E há muitos que dizem e não fazem; esta é uma acusação específica aos fariseus (cap. 23.3). Muitos, com a sua boca, mostram muito amor, mas os seus corações vão em outra direção. Eles (os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo) tinham uma boa intenção em serem religiosos, mas se deparavam com alguma coisa que devia ser feita, que era difícil demais, ou com alguma coisa de que deviam se separar; que era querida demais, e desta forma os seus objetivos não levavam a nenhum resultado. Botões e flores não são frutos.

 

II –  Uma pergunta geral sobre a parábola: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” (v. 31). Ambos tiveram as suas falhas, um deles foi rude, e o outro foi falso – a variedade de respostas que os pais, às vezes, encontram nos diferentes espíritos dos seus filhos, e têm a necessidade de uma grande dose de sabedoria e graça para saber qual é a melhor maneira de manejá-los. Mas a pergunta é: Qual dos dois foi o melhor, e o que menos falhou? E isto se resolveu prontamente; o primeiro, por­ que as suas ações foram melhores que as suas palavras, e o seu final, melhor que o seu começo. Isto eles tinham aprendido com o bom senso da humanidade; é muito melhor lidar com alguém que, na prática, será melhor que a sua palavra, do que com alguém que não será capaz de cumprir a sua palavra. E, com este objetivo, eles (os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo) tinham aprendido com o relato que Deus faz da regra do seu julgamento (Ezequiel 18.21-24): “Se o ímpio se converter de todos os seus pecados”, ele será perdoado; e se o homem justo se afastar da sua justiça, ele será rejeitado. O conteúdo de todas as Escrituras nos permite compreender que são aceitos, como realizando a vontade do Pai, aqueles que, após compreenderem que não entenderam ou não obedeceram a sua vontade, arrependem-se e então fazem o melhor que podem.

 

III – Uma aplicação particular ao assunto em questão (vv. 31,32). O principal objetivo da parábola é mostrar como os publicanos e as meretrizes, que nunca falavam do Messias e do seu reino, ainda assim aceitavam a doutrina e se sujeitavam à disciplina de João Batista, o precursor de Jesus, ao passo que os sacerdotes e os anciãos, que estavam cheios de expectativas do Messias, e pareciam muito dispostos a estar de acordo com o que Ele determinava, desprezaram João Batista, e foram contrários aos desígnios da missão de Jesus. Mas a parábola tem um outro alcance; os gentios, às vezes, eram desobedientes, tendo sido, por muito tempo, filhos da desobediência, da mesma maneira que o filho mais velho (Tito 3.3,4); porém, quando o Evangelho lhes foi pregado, eles se tornaram obedientes à fé, enquanto os judeus, que diziam: “Eu vou, Senhor”, faziam boas promessas (Êxodo 24.7; Josué 24.24), mas não iam; eles somente lisonjeavam a Deus com os seus lábios (Salmos 78.36).

Na aplicação que Cristo fez dessa parábola, observe:

1. Como Ele prova que o batismo de João era do céu, e não dos homens. “Se vocês não disserem”, diz Cristo, “devem ao menos saber que poderiam dizer”:

(1). O objetivo do seu ministério: “João veio a vós no caminho de justiça”. Para saber se João recebeu do céu a sua comissão, basta recordar a regra do teste: “Pelos seus frutos os conhecereis”; os frutos das suas doutrinas, os frutos elas suas obras. Observe apenas os seus métodos, e você poderá acompanhar tanto a sua ascensão como a sua tendência. Era evidente que João tinha vindo “no caminho de justiça”. No seu ministério, ele ensinava as pessoas a se arrependerem, e a realizar obras de justiça. Nas suas palavras, ele era um grande exemplo de severidade, de seriedade, e de desprezo pelo mundo, renunciando-se a si mesmo, e fazendo o bem a todos. Por isso Cristo se submeteu ao batismo de João, porque lhe convinha “cumprir toda ajustiça”. Se João veio, dessa maneira, no caminho da justiça, poderiam eles ignorar que o seu batismo era do céu, ou ter qualquer dúvida disso?

(2). O sucesso do seu ministério: “Os publicanos e as meretrizes o creram”.  João Batista fez um enorme bem entre os piores tipos de pessoas. O apóstolo Paulo prova o seu apostolado com o selo do seu ministério (1 Coríntios 9.2). Se Deus não tivesse enviado João Batista, Ele não teria coroado as suas obras com um sucesso tão maravilhoso, nem teria sido tão essencial, como foi, para a conversão das almas. Se os publicanos e as meretrizes acreditavam no que João dizia, certamente a mão de Deus estava com ele. O benefício das pessoas é o melhor testemunho de um ministro.

2. Como Ele os reprova pelo seu desprezo ao batismo de João, que, por temerem a multidão, não estavam dispostos a reconhecer. Para repreendê-los, Ele coloca diante deles a fé, o arrependimento e a obediência dos publicanos e das meretrizes, o que piorava a sua descrença e a sua impenitência. Como o Senhor mostra em Mateus 11.21, os menos prováveis se arrependeriam. Aqui também os menos prováveis se arrependeram realmente.

(1). Os publicanos e as meretrizes eram como o primeiro filho na parábola, de quem se esperava pouca religiosidade. Eles não prometiam nenhum bem, e aqueles que os conheciam não esperavam deles nenhum bem. Em geral, o seu temperamento era rude, e as suas palavras, depravadas e corruptas; e, ainda assim, muitos deles foram transformados pelo ministério de João, que veio no espírito e no poder de Elias (veja Lucas 7.29). Estes impuros representavam o mundo gentílico; pois os judeus, em geral, classificavam os publicanos junto com os pagãos; e os pagãos eram representados, pelos judeus, como meretrizes, e homens nascidos de prostituição (João 8.41).

(2). Os escribas e os fariseus, os principais dos sacerdotes e os anciãos, e, na verdade, a nação judaica de maneira geral eram como o outro filho, que disse boas palavras. Eles faziam uma profissão especial da religião; ainda assim, quando o reino do Messias lhes foi trazido, pelo batismo de João, eles o desprezaram, deram-lhe as costas – na verdade, levantaram os sapatos para esmagá-lo. Um hipócrita é convencido e convertido com mais dificuldade do que um pecador inveterado; se alguém se mantiver apoiado em uma aparência de santidade, esta se tornará uma das fortalezas de Satanás, pela qual ele se oporá ao verdadeiro poder da santidade. Estes eram agravos da sua falta de fé:

[1]. O fato de João ser uma pessoa tão excelente, que veio a eles “no caminho de justiça”. Quanto melhores os meios, maior será o resultado, se não perfeito.

[2]. O fato de que, quando viram os publicanos e as meretrizes entrarem antes deles no Reino dos céus, eles não se arrependeram nem creram, nem mesmo posteriormente. Eles não eram, de maneira nenhuma, incitados a uma santa emulação (Romanos 11.14). Os publicanos e as meretrizes receberão graça e glória, e nós não as compartilharemos? Aqueles que são inferiores a nós serão mais santos e mais felizes do que nós? Eles não tinham a inteligência e a graça que tinha Esaú, que foi levado a tomar providências adicionais às que tinha tomado, pelo exemplo do seu irmão mais jovem (Genesis 28.6). Esses sacerdotes orgulhosos, que se diziam líderes, não desejavam seguir as instruções do Senhor, em­ bora assim pudessem entrar no Reino dos céus, mesmo que após os publicanos. “Por causa do seu orgulho”, eles não procuravam seguir a Deus e a Cristo (Salmos 10.4).