PSICOLOGIA ANALÍTICA

INTERPRETANDO SORRISOS

Estudos sobre a capacidade de decifrar as nuances das expressões faciais mostram como o cérebro acessa memórias e decodifica gestos.

Interpretando o sorriso

As expressões faciais revelam muito sobre nossos interlocutores. Com base em mínimos indícios que às vezes escapam à consciência, somos capazes de avaliar em que medida expressões amigáveis são autênticas ou falsas, detectamos se um sorriso é espontâneo ou de conveniência, se uma risada é sincera ou forçada. Essas nossas competências derivam, pelo menos em grande parte, de duas questões geométricas. Sabemos intuitivamente que: 1. a expressão facial espontânea implica uma resposta simétrica das duas metades do rosto; 2. os diversos músculos faciais são ativados de modo simultâneo e rápido. Algo que fuja disso, portanto, costuma – ou pelo menos deveria – fazer piscar nosso “sinal vermelho interno”, avisando que algo ali não parece exatamente sincero.

No entanto, nem sempre somos capazes de avaliar objetivamente as expressões dos outros, principalmente quando queremos mentir para nós mesmos – por exemplo, quando contamos uma piada com tanta animação que não percebemos que quem está ouvindo demonstra estar se divertindo só por gentileza ou conveniência.

De que depende a capacidade de decifrar as expressões faciais? Hoje sabemos que o hemisfério direito tem papel central nessa forma de decodificação: a prova mais evidente é o fato de que as pessoas que sofreram uma lesão na metade direita do cérebro apresentam déficit relativo à compreensão das expressões faciais.

Quando o problema se refere especificamente às expressões de medo, a lesão é localizada na amígdala direita. Diante de gente de carne e osso ou de fotografias que retratam expressões de medo ou de terror, os pacientes com uma lesão nessa área cerebral demonstram não entender o significado das expressões faciais, como se fossem impermeáveis à mensagem visual, mesmo que possam descrevê-la com detalhes.

Também no que se refere à compreensão da expressão facial das emoções, foi observado o predomínio do córtex motor do hemisfério direito (que controla a metade esquerda do rosto, enquanto o córtex do hemisfério esquerdo controla os músculos faciais do lado oposto). Com um programa de computador capaz de revelar a dinâmica de uma expressão facial, é possível observar que em um sorriso forçado (ou dado após a pessoa receber um comando para que sorria) o hemisfério direito está mais capacitado para governar a “metade sorriso” da esquerda, enquanto o esquerdo se mostra menos capaz. Na prática, isso se traduz em maior artificialidade de expressão na metade direita do rosto.

Mas há uma questão a ser considerada: o fato de que, nas pessoas que sofreram lesão em qualquer lado do córtex motor, o sorriso comandado, controlado pelo córtex, ser obviamente limitado à parte do rosto que corresponde aos comandos do córtex saudável – da direita ou da esquerda – faz com que o sorriso seja, portanto, totalmente assimétrico. Essas mesmas pessoas podem, no entanto, sorrir ou rir de modo pleno, isto é, com as duas metades do rosto se a emoção for espontânea: isso ocorre graças à intervenção dos gânglios da base, núcleos nervosos localizados no interior do cérebro que têm a função de governar gestos automáticos e memórias processuais como caminhar, andar de bicicleta, rir e sorrir.

 FOCOS NA ATENÇÃO

Considere um paciente que sofre de diminuição das funções do cérebro após uma alteração da circulação do sangue (ictus), o que pode acarretar uma hemiparesia (interrupção parcial dos movimentos de um ou mais membros superiores, inferiores ou ambos conforme o grau do comprometimento). Se o pesquisador lhe pede que sorria ao seu comando ou por conveniência, para ser gentil, seu movimento será parcial. Mas, se a mesma pessoa encontra um amigo querido, o sorriso surge de forma normal, novamente simétrico, visto que é relacionado aos automatismos governados pelos gânglios da base, não atingidos. Em alguns casos, bastante raros, é possível observar uma lesão de meta- de dos gânglios da base (direita ou esquerda): nessa situação, o sorriso comandado emerge graças ao fato de o córtex motor estar íntegro, enquanto o espontâneo, devido aos gânglios da base, falha. Geralmente, porém, apenas as pessoas próximas percebem isso.

Mesmo para quem não tem nenhum problema em nenhum dos dois hemisférios cerebrais, talvez o mais indecifrável dos sorrisos seja o da Mona Lisa. Afinal, qual é o segredo que torna tão mutável a expressão da Gioconda retratada por Leonardo da Vinci? Em geral, as respostas baseiam-se no pressuposto de que a ambiguidade se deve à técnica do sfumato (“esfumado”, em italiano), que desfoca os cantos dos olhos e da boca dando ao quadro um ar de mistério. Mas a neurobióloga Margaret Livingstone, pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard, propôs uma explicação baseada nas diferenças da percepção da chamada “frequência espacial” no interior do nosso olho. Trata-se de uma medida de quanto é detalhada uma imagem: se para cada centímetro quadrado da tela de um computador há mais pixels (isto é, pontinhos que emitem luz), então a representação do objeto é mais nítida. Ou, em outras palavras, a frequência espacial é mais elevada. Quando utilizamos a visão central (mirando diretamente o objeto), apreciamos, sobretudo, as imagens nítidas (frequências elevadas), antes das mal definidas, enquanto a nossa visão periférica é mais apta a perceber os contornos esfumados.

Assim, segundo Livingstone, quando não olhamos diretamente a boca da Mona Lisa, percebemos a parte “alegre” escondida nas baixas frequências, isto é, no esfumaçado dos lábios. Mas, se direcionamos o olhar para os lábios, perdemos uma parte de seu sorriso e temos a impressão de que a expressão muda.

No livro A expressão das emoções no homem e nos animais, de 1872, Charles Darwin buscou uma explicação do significado das expressões no reino animal, perguntando-se por que se apresentam em certas formas particulares. Segundo o pai da teoria da evolução, nos homens numerosas emoções têm uma expressão universal, isto é, são as mesmas independentemente de raça, cultura e nível de instrução. São inatas, e não adquiridas, mero produto do nosso caminho evolutivo. Nós, humanos, temos uma gama de expressões complexas cujo significado, ao longo do tempo, se imprimiu na nossa mente. De forma análoga, os animais possuem expressões que lembram as nossas: os répteis, por exemplo, emitem sinais quando abrem a boca mostrando os dentes.

No início do século 20, os behavioristas puseram em dúvida a universalidade das expressões faciais dos estados emocionais, mas depois dos anos 50 alguns estudos confirmaram, sem margem a dúvidas, a existência de expressões universais.

Em 1969, o anatomista Carl Hjortsjö descreveu em detalhe o efeito dos 23 músculos mímicos da face durante os estados emocionais. Com base nisso, ao fim dos anos 70, os psicólogos Paul Ekman e Vincent Friesen criaram o Facs (Facial Action Coding System, ou Sistema Codificador da Ação Facial), um conjunto de todas as ações musculares associadas à expressão de dada emoção, que inclui a medida da intensidade das contrações e da sua duração. Por exemplo, no caso de um sorriso de alegria, contraem-se o músculo zigomático maior, que ergue os cantos da boca, e o músculo orbicular do olho, que estreita as órbitas oculares.

 NÓ DE CONTATO

Ekman e Friesen usaram depois esses dados para medir o grau de concordância das expressões entre os membros da etnia fore, na Nova Guiné, e em americanos. Depois levaram em conta registros em vídeo e fotografias de expressões faciais efetuadas entre japoneses, brasileiros, chilenos e argentinos. Suas pesquisas confirmaram a concepção evolucionista de Darwin e constituíram a prova da universalidade para oito emoções: surpresa, tristeza, cólera, prazer, desprezo, nojo, vergonha e medo. Os estudos conduzidos nos últimos anos no campo das neurociências mostram que a amígdala, área do cérebro que representa um “nó de contato” entre os sinais cerebrais, contribui para o reconhecimento da sensação suscitada por uma face. Uma pessoa com essa estrutura em forma de amêndoa afetada não reage à visão de um rosto aterrorizado e é incapaz de reconhecer expressões em que emoções como felicidade e surpresa estão misturadas.

Ainda assim, a amígdala não seria essencial para identificar as emoções: segundo alguns experimentos efetuados com PET (tomografia por emissão de pósitrons), método de análise que permite visualizar o aluxo de sangue nas diversas estruturas do cérebro durante a execução de operações mentais, as faces alegres ou tristes provocam aumento de atividade do giro do cíngulo. Parece também que a amígdala, ao contrário do córtex, não reage às expressões de nojo. O riso e o sorriso nos revelam ainda algo mais geral sobre o funcionamento do cérebro: muitas vezes uma função não depende apenas de uma única estrutura, como no caso específico do córtex motor, mas do concurso de mais estruturas, o que nos permite compensar uma perda neurológica com o auxílio da reabilitação. Cabe, de qualquer modo, ao córtex frontal a maior parte das decisões conscientes: por exemplo, a interpretação de um sorriso que reclama discernimento – como o da Mona Lisa.

 Interpretando o sorriso2

 ALBERTO OLIVERIO – é neurobiólogo, professor de psicobiologia da Universidade La Sapienza, em Roma.

OUTROS OLHARES

O PROBLEMA DOS CÁLCULOS BILIARES

Aprenda como prevenir e tratar uma crise

O problema dos cálcullos biliares

Para uma parte do corpo tão pequena e pouco essencial, a vesícula biliar pode causar muita dor. Mais ou menos do tamanho e do formato de uma pera, o órgão fica no lado direito do abdome. Sua função é guardar a bile, líquido produzido pelo fígado que ajuda a digerir a gordura da alimentação. A vesícula libera o líquido no intestino delgado quando necessário.

Quando o delicado equilíbrio químico da bile se altera – não sabemos direito como nem por quê-, seus componentes podem se cristalizar. Com o tempo, esses cristais se combinam para formar cálculos (colelitíase), pequenos como grãos de areia ou grandes como bolas de golfe. Em pelo menos 75% dos casos, os cálculos biliares não causam sintomas nem complicações e, portanto, não exigem tratamento. No entanto, caso um cálculo obstrua temporariamente um dos dutos da bile que entram e saem da vesícula, o resultado é um surto súbito e rápido de dor intensa no abdome, na área das costelas e/ou nos ombros. Isso não causa problemas duradouros, mas é bom ir ao médico para confirmar se é mesmo a vesícula, e não outro problema, como uma úlcera.

A obstrução prolongada ou permanente dos dutos pode provocar complicações graves, como infecções e inflamações. Vá ao médico imediatamente se tiver icterícia, febre, arrepios ou dor incessante.

Os cálculos biliares são mais comuns em mulheres com mais de 40 anos e em pessoas com histórico familiar da doença. O principal fator de risco passível de correção é a obesidade, diz o Dr. Stephen Ryder, consultor médico do British Liver Trust. Mas ele é contra emagrecer depressa demais, pois isso pode dar início à formação de cálculos ou provocar sintomas; ”portanto, é melhor um emagrecimento controlado”; diz ele.

Se você já tem cálculos biliares sintomáticos, e os ataques são leves, é possível controlar seus efeitos com analgésicos; uma alimentação com baixo teor de gordura também faz uma modesta diferença. Se os sintomas forem graves e frequentes, o único tratamento eficaz é a remoção cirúrgica da vesícula.

É possível viver sem ela, pois o fígado continua a produzir bile, que passa direto ao intestino delgado em vez de se acumular primeiro na vesícula. Depois da cirurgia, cerca de um em dez pacientes sofre diarreia ocasional enquanto o sistema digestivo se adapta à liberação contínua da bile. Isso pode durar de semanas a anos, mas medicamentos chamados sequestradores de ácidos biliares ajudam a controlar o problema. Mas, para a maioria, a diferença entre ter ou não vesícula é imperceptível.

GESTÃO E CARREIRA

CONTRATAR SEM OLHAR A QUEM

 Os processos seletivos estão mudando para evitar as armadilhas dos preconceitos inconscientes. Como isso afeta as entrevistas de trabalho e por que todos ganham com as novidades.

Contratar sem olhar a quem

Até os anos 70, as principais orquestras dos Estados Unidos possuíam menos de 5% de mulheres em seu quadro. Nessa época, era comum escutar que isso acontecia porque as instrumentistas teriam uma técnica menos apurada ou porque “seriam mais instáveis e temperamentais”; afinal, os testes de seleção avaliavam algo bastante objetivo: a habilidade de tocar um instrumento. Mas, por causa da provocação de que fatores culturais poderiam estar induzindo uma preferência por músicos do sexo masculino, algumas dessas sinfônicas, como a Filarmônica de Nova York e a Orquestra da Filadélfia, passaram a adotar audições às cegas para selecionar seus novos integrantes. Nesse método, os candidatos se apresentam atrás de uma tela ou cortina, de modo que os jurados não possam ver quem está tocando. O resultado foi surpreendente: mesmo quando esse expediente era usado apenas na rodada preliminar, a chance de uma mulher chegar à final das seletivas crescia 50%. Diante desses números, algumas dessas orquestras foram além e passaram a exigir que os músicos subissem ao palco descalços, para que não fosse passível identificar seu gênero pelo som do salto dos sapatos. Graças a essas mudanças, concluiu um estudo das universidades de Harvard de Princeton, o percentual de mulheres nas grandes orquestras americanas já havia chegado a 35% em meados dos anos 90. Esse exemplo mostra que, apesar de acreditar estar fazendo uma análise totalmente neutra, baseada apenas na qualidade da música que ouviam, o júri era vítima do chamado “viés inconsciente” – padrão de pensamento que reproduzimos de forma automática, sem nos dar conta, e que pode resultar em decisões preconceituosas e pouco racionais.

A cada segundo, somos inundados por 11 milhões de bits de informação. No entanto, nosso cérebro consciente só consegue processar 40 bits de dados nesse intervalo. É graças às associações rápidas feitas por nossa mente, com base em nosso aprendizado pregresso, nas emoções e nas experiências pessoais, que conseguimos administrar todo esse volume de estímulos e tomar decisões imediatas sobre coisas tão banais quanto quais vias utilizar no caminho de casa; correr ou não para entrar no vagão do metrô; e pisar ou desviar da tampa de um bueiro ao caminhar pela rua. O problema é que há contextos em que essas decisões automáticas nem sempre são as mais eficientes.

“O viés acontece quando a escolha feita de forma inconsciente está em dissonância com seu real objetivo”, afirma Carla Tieppo, neurocientista e professora na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Foi o que aconteceu no exemplo que demos no início desta reportagem: os vieses inconscientes fizeram com que os recrutadores optassem por candidatos que correspondiam ao seu conceito do que um músico deveria ser, em vez de selecionar os profissionais mais habilidosos.

São vários os estudos demonstrando as consequências nocivas desse comportamento no mercado de trabalho. Num deles, de 2005, pesquisadores das universidades Harvard e de Chicago responderam a diversos anúncios de emprego enviando currículos idênticos, que diferiam por um detalhe – alguns tinham nomes de origem europeia, como Brendan, Emily e Anne, e outros traziam nomes de origem árabe, como Tamika, Aisha ou Rasheed. O resultado foi que os currículos dos candidatos com nomes europeus receberam 50% mais ligações dos recrutadores do que os dos concorrentes com nomes não ocidentais. “Isso acontecia porque os recrutadores se recusavam a entrevistar alguém chamado Aisha? Provavelmente não. É possível que tenha ocorrido porque esses avaliadores fazem associações inconscientes sobre como são as pessoas que têm nomes como esses”, diz Brian Welle, diretor de people analytics do Google e responsável pelos treinamentos de viés inconsciente da companhia.

No Brasil, uma pesquisa recente realizada pelo economista Leonardo Monasterio, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (lpea), com base no cruzamento de 71 000 sobrenomes com dados de remuneração de 46 milhões de trabalhadores disponíveis na Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho, constatou que os maiores salários pagos no Brasil estão associados a nomes estrangeiros. Para ter uma percepção – que faz com que avaliemos determinados povos como mais dignos de admiração do que outros”, diz Carla Tieppo. “Julgamentos inconscientes, baseados em impressões, são decisões primevas que se formam antes da análise objetiva dos fatos”, diz a neurocientista.

DECISÕES PIORES

No mundo do trabalho, informações tão básicas quanto sotaque, idade e até endereço geram uma série de pré-julgamentos sobre a capacidade, a produtividade e a ética de uma pessoa. Um efeito que pode não ser percebido por quem recruta ou avalia, masque é sentido por quem sofre suas consequências. Um exemplo vem do estudo Preconceito e Visão de Mundo nas Favelas, realizado em 2013 pelo Instituto Datafavela com 2000 moradores de 63 comunidades brasileiras. A pesquisa concluiu que, embora 81% deles afirmem gostar de viver nesses locais, um em cada quatro prefere omitir onde mora em certas situações, como uma entrevista de emprego.

De acordo com os especialistas, não existe situação em que nossas ações e escolhas não sejam influenciadas por nossas vivências ou experiências aprendidas – aquelas que nos foram contadas por nossos pais e avós e repetidas por pessoas de nosso entorno cultural. O problema é que, no ambiente profissional, todos esses filtros emocionais e sociais podem nos levar a decisões piores, contratando, premiando ou promovendo segundo fatores subjetivos – o que, além de injusto, gera prejuízos para as empresas.

Para mudar isso, o primeiro passo é tomar consciência de que nossa capacidade de avaliação não é tão objetiva quanto parece. O segundo é criar protocolos para desviar das armadilhas trazidas pelo viés inconsciente. “Para mudar uma percepção negativa, é preciso nos expor a experiências positivas, que rompam com a crença anterior. Alguém que acredite que as mulheres são más motoristas só vai mudar de opinião após diversas experiências tranquilas como passageiro em carros dirigidos por mulheres”, diz Carla Tieppo. “Dar a importância das cotas nas empresas, que proporcionam a possibilidade de ter experiências positivas com funcionários de perfis diversos em posições antes ocupadas apenas por homens brancos, por exemplo.”

 PROTOCOLOS

Algumas companhias em operação no Brasil já estão criando os próprios protocolos para fugir do viés inconsciente. Na Cargill, por exemplo, multinacional do agronegócio, o processo seletivo do programa de estágio passou a omitir a Informação sobre a universidade frequentada pelos candidatos. “O objetivo era fazer com que os gestores das vagas focassem as habilidades do estudante, e não a reputação da faculdade”, afirma Daniella Câmara, gerente de Talent Acquisition da Cargill.

Um dos 150 estagiários admitidos nesse novo sistema foi Guilherme José Vaz de Oliveira, de 23 anos, de Ibiúna (SP), contratado para atuar na área de produtividade da empresa, na unidade de Mairinque (SP). Estudante de engenharia de produção na Faculdade de Engenharia de Sorocaba, no interior paulista, ele chegou a ficar empatado com outro candidato durante a seleção, mas acabou sendo escolhido por seu desempenho superior. Ao fim do processo, descobriu-se que o concorrente dele vinha de uma escola de primeira linha. “Talvez, se tivéssemos a informação sobre a universidade dos estudantes, teríamos feito a opção mais habitual. A ausência desse dado fez com que avaliássemos puramente as competências do candidato para tomada de decisão”, afirma Ana Clara Aguiar, supervisora de produtividade e gestora do estagiário. Guilherme, por sua vez, acredita que a omissão da instituição de graduação tornou o processo mais justo e contribuiu para seu bom desempenho. “Sabendo que o impacto do nome da faculdade seria menor, eu me senti mais seguro e tive um desempenho melhor”, diz.

Graças à mudança na metodologia, a Cargill contratou em 2017 três vezes mais estudantes de faculdades com classificação inferior a cinco ou quatro estrelas, segundo a avaliação do MEC, em relação a 2016. “Nosso foco é no potencial e no talento do estagiário, e não na instituição onde ele estuda”, afirma Daniella.

 CONCORRÊNCIA EQUILIBRADA

Na farmacêutica Roche, uma série de cuidados é tomada já na etapa de divulgação das vagas para evitar a predisposição por perfis predominantes de candidatos. “Sabemos que anúncios que incluem palavras como “competitivo” e “agressivo” costumam afastar as mulheres. Elas se identificam mais com palavras como ‘cuidado’ e ‘colaboração’, afirma Denise Horato, diretora de RH da Roche, em São Paulo. Nas entrevistas, foi adotado um roteiro padronizado, de modo que todos os concorrentes respondam às mesmas perguntas, na mesma ordem. “O objetivo é garantir o foco nas competências necessárias à função, e não nas diferenças entre os participantes”, diz Denise.

Desde 2015, a farmacêutica adota a prática de ter 50% de candidatas concorrendo a todas as vagas para garantir chances equilibradas para os dois grupos. O resultado é que hoje 62% dos cargos gerenciais da companhia são ocupados por mulheres. Nos postos de direção, elas são 32%, bem acima da média mundial do mercado, de 15%.”Agora queremos estender essas boas práticas a outros grupos, aumentando, por exemplo, a quantidade de negros nos processos seletivos”, afirma a diretora de RH.

No Google, os profissionais são entrevistados por um painel composto de pessoas com diferentes perfis, cargos e experiências, de modo a reduzir o impacto dos vieses individuais. Além disso, o dossiê com as respostas de cada concorrente é avaliado por um comitê de executivos seniores para evitar que o gestor da vaga, que tem pressa em preenchê-la, seja vítima de alguma predisposição ao tomar uma decisão rápida. “Esse cuidado previne armadilhas como os vieses de primeira impressão e de comparação com o ex-ocupante da vaga”, afirma Daniel Borges, gerente de atração de talentos do Google para a América Latina. A gigante de tecnologia também realiza treinamentos em que os funcionários representam diferentes papéis, como o do chefe, o do RH e o de uma funcionária avaliada para uma promoção, por exemplo. “As discussões trazem à tona questionamentos como: qual o problema de uma gravidez? Ela afeta a competência?”, diz Daniel. Desde a criação do workshop Un­consoious Bias (“Viés Inconsciente”), em 2013, mais de 26000 empregados da companhia receberam o treinamento em todo o mundo.

Na Dow, multinacional da indústria química, todos os lideres passam por um workshop obrigatório sobre o assunto. O treinamento inclui responder a um questionário, formulado pela Universidade Harvard, sobre uma sequência de imagens, apontando quais conteúdos lhes causam estranheza. A ideia é apurar contra quais elementos há um preconceito inconsciente. Depois, exibem-se vídeos sobre situações variadas do dia a dia de trabalho em que os chefes precisam tomar decisões relacionadas a gestão de pessoas. Numa delas, por exemplo, devem decidir qual o funcionário mais preparado para uma promoção, sendo que um deles é uma mulher com dois filhos pequenos.

Nessa situação, inicialmente, muitos gestores assumem que a colaboradora não será a melhor escolha por deduzir que ela terá menos disponibilidade para a nova função – um raciocínio que não se aplica da mesma forma a um funcionário com dois filhos pequenos e que desconsidera a possibilidade de a candidata ter suporte familiar para assumir novas responsabilidades profissionais. “Após a discussão, as pessoas acabam concluindo que caberia ao líder empoderar essa subordinada para que ela se veja como alguém capaz”, afirma Mariana Orsini, gerente de assuntos institucionais da Dow em São Paulo.

O treinamento visa fazer com que os gestores fiquem mais conscientes de seus vieses e sejam capazes de tomar decisões melhores relativas a contratações, promoções e recompensas – um grande ganho para os profissionais e para os negócios. “Ter equipes diversas enriquece o repertório de visões e de soluções possíveis e permite às empresas reagir mais rapidamente diante das constantes mudanças de cenário do mundo moderno”, diz Carla Tieppo.

 

RETRATO COM FILTRO

Entenda alguns tipos de vieses que comprometem a objetividade na tomada de decisão no ambiente de trabalho.

DE AFINIDADE – Tendência de avaliar melhor um candidato com quem compartilhamos alguma afinidade, como ter frequentado a mesma faculdade ou crescer na mesma cidade.

DE SIMILARIDADE – Probabilidade de buscar, para preencher uma vaga, alguém parecido com quem já a ocupava ou com outras pessoas da organização.

DE PERCEPÇÃO – Tendência a acreditar e reforçar estereótipos sem nenhuma base em fatos concretos. Um exemplo são as generalizações que associam alguns povos a comportamentos como pontualidade, organização e disciplina e outros a características como preguiça, incompetência ou desonestidade.

EFEITO DO CASCO FENDIDO – Com vase em uma informação que não aprovamos, contaminamos nossa opinião sobre o desempenho de uma pessoa em outras áreas. É o que acontece, por exemplo, quando um candidato fala devagar; por causa disso, o recrutador assume que ele será lento em suas tarefas e terá dificuldades em cumprir prazos, ou quando avalia como desleixada a maneira como alguém se veste e presume a partir disso, que a pessoa será pouco comprometida com o trabalho.

EFEITO AURÉOLA – Propensão de avaliar uma pessoa positivamente com base em uma única informação agradável recebida anteriormente. Um exemplo é, ao sabermos que determinado candidato passou por uma faculdade ou empresa que admiramos, assumir que ele terá desempenho em todas as outras competências que se espera dele.

CONFIRMATÓRIO – Disposição em só dar importância a informações que confirmem nossa hipótese de ignorar dados que deponham contra elas. No mercado de trabalho, esse viés pode fazer com que alguns gestores tomem decisões piores, valorizando e promovendo apenas pessoas que concordem com eles.

DE COMPARAÇÃO

Comparar os candidatos uns com os outros, em vez de analisar sua adequação à vaga. Também se refere a fazer julgamentos sobre o concorrente com vase nas próprias características. Por exemplo: avaliar que alguém não está apto a um cargo superior ao seu só porque ele é mais jovem do que você.

DE CONFORMIDADE – Tendência a seguir a opinião e o comportamento do grupo. Ao tomar uma decisão, se a maioria tem uma opinião diferente da nossa, é grande a probabilidade de acreditarmos que o grupo está certo e nós errados. Há estudos que mostram que, nessas condições, 75% das pessoas tendem a mudar a própria posição para seguir os demais. Esse efeito pode fazer com que uma mulher, presente no conselho de uma empresa, não tenha força para propor e aprovar medidas importantes para, por exemplo, aumentar a presença feminina nos postos de gestão.

DE BELEZA  – Propensão a acreditar que as pessoas de melhor aparência são asa mais competentes. Por incrível que pareça, esse viés tem grande impacto nas promoções. Um reflexo disso é que 60% dos CEOs dos Estados Unidos têm mais de 1,85 metros, altura que corresponde a 15% da população daquele país. E chega a 36% a proporção de presidentes com 1,90 metro, altura compartilhada só por 4% dos americanos.

 

ENTREVISTA À PROVA DE PRECONCEITO

Alguns cuidados que ajudam a minimizar a influência do viés inconsciente durante o recrutamento e a seleção.

 

ESCOLHA DE PALAVRAS

Algoritmos em sites de empregos mostram que anúncios de vagas com termos e expressões como “agressividade”, “capacidade comprovada” e “trabalho sob pressão” espantam candidatas. As mulheres respondem melhor a “trabalho em equipe”, “colaboração” e “flexibilidade”.

FOCO NAS COMPETÊNCIAS

O primeiro passo para evitar o viés em uma seleção é descrever os pré-requisitos da função. Sabendo de antemão o que procura, o recrutador fica menos sujeito a selecionar alguém com quem apenas simpatiza mais.

ATENÇÃO AOS MODELOS

É obrigatório para um diretor de vendas ter perfil agressivo? Ou a habilidade de engajar o time pode gerar os mesmos resultados? Ao informar os critérios da vaga, o recrutador deve questionar se está listando as aptidões necessárias ou reproduzindo o perfil dos últimos ocupantes da posição.

 

PREPARAÇÃO DOS ENTREVISTADORES

Gestores que atuam como entrevistadores devem ser treinados para se conscientizar dos próprios vieses e evitar que fatores como idade, aparência ou classe social afetem as decisões.

ROTEIRO PREDETERMINADO

Um roteiro-padrão para a entrevista, com as mesmas perguntas, ajuda a manter o foco na apuração das competências do candidato, e não em aspectos pessoais que possam influenciar o recrutador.

EQUILÍBRIO DE REPRESENTANTES

Um estudo da Universidade do Colorado mostra que quando só há um negro ou uma mulher entre os finalistas de uma vaga, estatisticamente, a chance deles serem escolhidos é zero. Mas, quando há pelo menos duas mulheres, a chance de uma delas ser escolhida aumenta 79 vezes. Se houver dois negros, a chance deles cresce 193 vezes. A presença equilibrada de candidatos evita que negros, mulheres e outros grupos sejam descartados automaticamente.

PAINEL VARIADO

Julgamentos rápidos são mais sujeitos a vieses. Por isso, processos mais longos reduzem esse risco. Compartilhar a decisão com outros avaliadores de perfis variados minimiza esse impacto.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 21: 18-22

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A Maldição sobre a Figueira Estéril

Considere:

 I –  Cristo retornou a Jerusalém pela manhã (v. 18). Alguns pensam que Ele saiu da cidade à noite, porque, por temor aos homens poderosos, nenhum dos seus amigos ali podia recebê-lo; mas, tendo trabalho para realizar ali, Ele voltou. Nunca podemos ser afastados do nosso dever, seja pela maldade dos nossos adversários, seja pela aspereza dos nossos amigos. Embora Jesus soubesse que nessa cidade a prisão e o sofrimento o esperavam, nenhuma dessas coisas o impediu. Paulo fez como Ele, quando foi para Jerusalém “ligado pelo Espírito” (Atos 20.22).

 II – Ao voltar, Ele “teve fome”. Ele era um homem, e sujeito às fraquezas da natureza; era um homem ativo, e tão decidido a realizar o seu trabalho, que negligenciava o seu alimento, e saía em jejum; pois o zelo pela casa de Deus realmente o consumia, e o seu alimento e a sua bebida eram fazer a vontade do seu Pai. Ele era um homem pobre, e não tinha suprimentos; era um homem que não se preocupava com a sua satisfação, pois Ele estaria disposto a comer figos verdes crus como café da manhã, quando seria mais adequado que tivesse comido alguma coisa quente.

Portanto, Cristo teve fome, para ter a oportunidade de realizar esse milagre, amaldiçoando e secando a figueira estéril, e para poder nos dar um exemplo da sua justiça e do seu poder, duas coisas muito instrutivas.

1. Observe ajustiça de Jesus (v. 19). Ele dirigiu-se à figueira esperando encontrar frutos, porque ela tinha folhas; mas, ao não encontrar nenhum fruto, Ele a condenou a uma esterilidade eterna. Esse milagre tinha o seu significado, assim como outros dos seus milagres. Todos os milagres de Cristo, até aqui, tinham sido realizados para o bem do homem, e provavam o poder da sua graça e da sua bênção (a entrada dos demônios nos porcos foi apenas uma permissão); tudo o que Ele fazia era para o bem e para o consolo dos seus amigos, nada para o terror ou o castigo dos seus inimigos; mas então, por fim, para mostrar que a Ele compete todo o julgamento, e que Ele é capaz não somente de salvar, mas também de destruir, Ele deu um exemplo do poder da sua ira e maldição; porém, não sobre nenhum homem, ou mulher, ou criança, porque o grande dia da sua ira ainda não era chegado, mas sobre uma árvore inanimada. Isto é dado como exemplo: ”Aprendei, pois, esta parábola da figueira” (cap. 24.32). O escopo é o mesmo da parábola da figueira (Lucas 13.6).

(1).  Essa maldição sobre a figueira estéril representa a condição dos hipócritas em geral, e por isso nos ensina:

[1]. Que o fruto das figueiras é o que se pode esperar daquelas que têm folhas. Cristo procura o poder da religião naqueles que a professam; o gosto por ela, naqueles que a demonstram. Quanto às uvas da videira que é plantada numa colina frutífera, Ele as anseia, a sua alma deseja os primeiros frutos maduros.

[2]. As expectativas justas de Cristo em relação aos mestres eminentes são frequentemente frustradas e desapontadas. Ele vem a muitos, procurando frutos, e somente encontra folhas; e Ele descobre isso. Muitos dizem estar vivos, mas não estão realmente vivos. Adoram a forma da santidade, mas negam o seu poder.

[3]. O pecado da não-frutificação é punido, com justiça, com a maldição e com a praga da esterilidade: “Nunca mais nasça fruto de ti”. Assim como uma das principais bênçãos, e que foi a primeira, é: “Frutificai”, também uma das mais tristes maldições é: “Nunca mais nasça fruto de ti”. Assim, o pecado dos hipócritas se transforma na sua punição; eles não produzem o bem, e, portanto, não produzirão nada. Aquele que não produzir frutos, e continuar assim, perderá a sua honra e o seu consolo.

[4]. Uma profissão falsa e hipócrita normalmente seca neste mundo, e esse é o efeito da maldição de Cristo; a figueira que não tinha frutos, logo perdeu as suas folhas. Os hipócritas podem parecer plausíveis durante algum tempo, mas, não tendo princípios, não tendo raízes em si mesmos, a sua profissão resulta em nada; os dons se secam, a graça entra em decadência, o crédito da profissão declina e se afunda, e a falsidade e a tolice do fingidor ficam evidentes a todos os homens.

(2). Isso representa a situação da nação e do povo judeu em particular. Eles eram uma figueira plantada no caminho de Deus, como uma igreja. Considere:

[1]. O desapontamento que eles trouxeram ao nosso Senhor Jesus. Ele veio entre eles esperando encontrar frutos, algo que pudesse satisfazê-lo. Ele ansiava por isso. Não que desejasse um presente, Ele não precisava disso, mas sim de frutos que pudessem ser abundantes para uma boa causa. Mas as suas expectativas foram frustradas; Ele encontrou somente folhas. Eles chamavam Abraão de seu pai, mas não faziam as obras de Abraão; eles professavam estar esperando o Messias prometido, mas, quando Ele veio, eles não o receberam.

[2]. A maldição que Ele lhes infligiu: que nenhum fruto cresceria entre eles, ou seria colhido deles, como uma igreja ou como um povo, desde então e para sempre. Nenhum bem jamais veio deles (exceto das pessoas que, entre eles, tinham fé) depois que rejeitaram a Cristo. Eles se tornaram cada vez piores; a cegueira e a insensibilidade os acometeram, e cresceram entre eles, até que foram banidos do templo, despovoados e destruídos, e a sua casa e a sua nação, arrancadas; a sua beleza se desfigurou, os seus privilégios, os seus ornamentos, o seu templo e o sacerdócio e os sacrifícios e as festas, e todas as glórias da sua religião e da sua condição, caíram, como folhas no outono. Como a figueira secou imediatamente, depois que eles tinham dito: “O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos”! E o Senhor, uma vez mais, foi justo a esse respeito.

2. Observe o poder de Cristo. O versículo anterior está ligado ao exemplo, mas é mais amplamente explicado. Cristo pretende orientar os seus discípulos no uso dos seus poderes.

(1). Os discípulos admiraram o efeito da maldição de Cristo (v. 20): “maravilharam-se”. Nenhum poder poderia ter feito isso, exceto o dele, que falava e realizava. Eles se maravilharam com a prontidão. “Como secou imediatamente a figueira?” Não havia causa visível para a figueira murchar; mas tinha sido uma destruição secreta, um verme na sua raiz; não somente as suas folhas secaram, mas todo o corpo da árvore; ela murchou imediatamente e ficou como uma madeira seca. As maldições do Evangelho são, por isso, as mais terríveis, pois trabalham de maneira imperceptível e silenciosa, como um fogo não espalhado, mas efetivamente.

(2). Cristo capacitou os discípulos a fazerem a mesma coisa, pela fé (vv. 21,22), quando disse (João 14.12): “fará as obras que eu faço e as fará maiores do que estas”.

Considere:

[1]. A descrição dessa fé que realiza maravilhas: “Se tiverdes fé e não duvidardes”. Duvidar do poder e da promessa de Deus é a grande transgressão que deteriora a eficiência e o sucesso da fé. Alguns interpretam essa frase como: “Se tiverem fé, e não discutirem; não discutirem entre si mesmos, não discutirem com a promessa de Deus; se não duvidarem da promessa” (Romanos 4.20); pois, se agirmos de outra forma, a nossa fé será deficiente. A promessa de Deus é certa, e a nossa fé deve ser tão certa quanto a promessa; devemos ter fé e confiança.

[2]. O poder e a superioridade dessa verdade expressos de maneira figurada: “Se a este monte disserdes” – o monte das Oliveiras -: “ergue-te… assim será feito”. Existe uma razão particular para Jesus falar dessa maneira sobre esse monte, pois havia uma profecia de que o monte das Oliveiras, que está diante de Jerusalém, seria fendido pelo meio e removido (Zacarias 14.4). Qualquer que fosse o objetivo dessas palavras, deve haver a mesma expectativa de fé, por mais impossível que pareça. Mas esse é um provérbio, dando a entender que nós devemos crer que nada é impossível a Deus, e, portanto, que aquilo que Ele prometeu certamente se realizará, embora, para nós, pareça impossível. Entre os judeus, havia um elogio aos seus rabinos cultos, segundo o qual eram “removedores de montanhas”, isto é, eles podiam solucionar as maiores dificuldades; então isso poderia ser feito pela fé na Palavra de Deus, que faz acontecer coisas maravilhosas e estranhas.

[3]. A maneira e os métodos de exercer essa fé, e de fazer o que deve ser feito com ela: “Tudo o que pedirdes na oração, crendo, o recebereis”. A fé é a alma, e a oração é o corpo; juntas, elas deixam o homem completo para qualquer serviço. A fé, se correta, irá estimular a oração; e a oração não será correta se não se originar da fé. Esta é a condição para receber o que pedimos: orar e crer – “tudo o que pedirdes na oração, crendo, o recebe­ reis”. Os pedidos feitos em oração não devem ser negados; as expectativas da fé não serão frustradas. Nós temos muitas promessas a esse respeito proferidas pelos lábios do nosso Senhor Jesus, e todas incentivam a fé (que é a principal graça de um cristão) e a oração (que é o principal dever de um cristão). Basta pedir e receber, crer e receber. E o que mais? Observe que a promessa abrange todas as coisas que pudermos pedir (“tudo o que pedirdes”); isto é, como cada uma das condições de um contrato. O texto se refere a todas as coisas, em geral; porém, seja qual for a petição em questão, ele está se referindo às coisas em particular. Embora o geral inclua o particular, ainda assim tal é a tolice da nossa falta de fé que, embora pensemos que estamos de acordo com as promessas em geral, fugimos quando o assunto são os detalhes em particular. Assim, para que possamos ter “a firme consolação”, isto é expresso de modo copioso: “tudo o que pedirdes”.