PSICOLOGIA ANALÍTICA

POR QUE ESQUECEMOS NOSSOS PRIMEIROS ANOS?

O cérebro do bebê prioriza a aprendizagem em vez da formação e consolidação de recordações duradouras

Por que esquecemos os prmeiros anos

 Assim que nascemos, começamos a descobrir as coisas. Aprendemos a pedir refeições e a reclamar por fraldas limpas. E, entre um cochilo e outro, absorvemos um complexo sistema de linguagem. No entanto, nos lembramos pouco desses anos tão intensos. Agora, um estudo revela que o mesmo processo que permite que os bebês aprendam rapidamente também pode afetar as ligações neurais que codificam certos tipos de recordações, de acordo com um artigo recente publicado na Science.

O neurobiólogo Paul W. Frankland e seus colegas do Hospital for Sick Children, em Toronto, suspeitavam que o crescimento acelerado dos neurônios no cérebro infantil pudesse interferir na formação de memórias. Para testar a hipótese, eles aumentaram a produção de células neurais em ratos adultos logo depois de terem aprendido algo. Ao contrário do que ocorre com os jovens, nos mais maduros os neurônios crescem lentamente. O uso de medicamentos, como antidepressivos, ou a prática de atividade física, porém, aceleram esse processo. À medida que os camundongos adultos se exercitavam, depois de terem aprendido que determinada gaiola disparava um leve choque elétrico em suas patas, a recordação do incômodo diminuía. Depois, a equipe se concentrou no cérebro dos filhotes, que apresenta naturalmente crescimento neural acelerado. Esses animais raramente se lembravam da carga elétrica por mais de um dia. Quando os pesquisadores usaram uma droga para retardar a formação de células cerebrais, porém, os camundongos mais jovens mantiveram essa lembrança por uma semana.

Os resultados sugerem que novos neurônios rompem as conexões que constroem recordações. Em crianças de até aproximadamente 3 anos, o disparo no crescimento neural que permite aprender sobre o mundo impede que lembranças de eventos isolados se fixem. É verdade que os pequenos são capazes de formar memórias (um bebê de 18 meses pode se lembrar do cão que viu há poucos dias), mas, a menos que essa recordação seja reforçada, desaparecerá à medida que novos neurônios se desenvolvem. Depois dos 3 anos, em média, o crescimento neural diminui e a imagem do cachorro pode se fixar por toda a vida.

OUTROS OLHARES

A MORTE COMO PUNIÇÃO

A aplicação da pena de morte, quando pune o homicídio, comete o erro de tentar estabelecer justiça mediante o grave crime cometido pelo acusado, como se a execução dessa pessoa anulasse o seu erro original.

A morte como punição

Os meios de comunicação de massa noticiam, a cada dia, a ocorrência de crimes terríveis que são capazes de chocar mesmo as consciências mais embotadas, que de alguma forma já naturalizam em suas vidas a experiência do horror. A impressão generalizada é que se vive em uma selva de pedra desprovida de leis, de ordem, de segurança, de qualquer possibilidade de estabelecimento de um modo de vida tranquilo. As ameaças espreitam por todos os lados. Nunca talvez a filosofia política de Thomas Hobbes (1588-1679) tenha se apresentado tão atual.

Dentro dessa conjuntura social sufocante hiperbolizada pelos grandes aparatos midiáticos, um dos temas mais recorrentes em nossa agenda social consiste nos projetos de aplicação da pena de morte para a punição de crimes hediondos (dentro de um amplo espectro de possibilidades, pois conforme a interpretação muitos crimes podem receber tal imputação). Seus defensores, inflamados por uma agitação nervosa, suspendem momentaneamente a razão crítica em prol do afloramento das disposições mais rudimentares de sua consciência atormentada, não compreendendo que, se porventura a pena capital fosse efetivada em nosso País, apenas os sujeitos desprovidos de condições financeiras mais razoáveis para contratar um ótimo aparato jurídico sofreriam na carne a punição extrema. Talvez apenas a idiossincrática China aplique punições capitais para os cidadãos de tal quilate que atentem economicamente contra a coisa pública.

Podemos afirmar que a pena de morte nada mais é do que o assassinato legalizado pelo Estado, cumprindo não apenas o propósito de punir exemplarmente o criminoso para que outrem não cometa ações similares e vivencie assim o mesmo destino fatal, mantendo-se então o tecido social coeso sob um rígido controle moral, mas também atuando como uma vingança judiciária do poder estabelecido contra a pessoa. Os otimistas defendem que grande parte das penas capitais atualmente aplicadas são assépticas e distintas dos horríveis suplícios infamantes de tempos passados; contudo, toda execução é uma violação da dignidade humana, não importa sob qual método.

Em alguns países, a punição capital se converte em um negócio altamente lucrativo. Traficantes de órgãos prosperam consideravelmente em negócios escusos com governos criminosos que realizam esses empreendimentos clandestinos. Há casos controversos de países que apresentam elevado índice de execuções anuais para fomentar esse negócio altamente lucrativo para esses governos corruptos, movimentando uma sórdida rede empresarial que prospera mediante a anulação existência de uma massa de miseráveis que não devem mais viver em prol da salvação das vidas de uma elite capaz de pagar altas taxas pela aquisição de um coração, de um fígado, de um rim. A despeito do arrogante sentimento de onipotência de muitos magistrados, o poder judiciário brasileiro, além de plutocrático e burocrático, é falho, não apenas por questões morais, mas também por fatores epistemológicos, em decorrência da incerteza latente e dos erros que acometem os juízos humanos, obscurecendo a precisão das suas decisões. Em caso de dúvida, é sempre mais sensato que se mantenha uma posição moderada acerca dos julgamentos. Por conseguinte, será que um ser humano possui capacidades razoáveis para decidir sobre a vida e a morte de outra pessoa? Levando em consideração essa questão, o jurista Pietro Verri (1728-1797) apontara que “mais valeria perdoar vinte culpados do que sacrificar um inocente”.

Ao longo da história da humanidade, diversas pessoas inocentes foram executadas a partir de indícios imprecisos de culpabilidade, muitas vezes sendo reconhecidas como inocentes pelos todo-poderosos magistrados, que mantiveram a sentença capital como forma de se proclamar a pretensamente infalível autoridade absoluta do sistema penal. Quantos homicídios travestidos como execuções legais praticadas pelo Estado detentor do monopólio legítimo da violência (e da morte) não ocorreram contra pessoas inocentes, sem que houvesse em tempo hábil revisão de pena, de modo a se evitar a efetivação dessa barbárie legalizada contra a vida do condenado? O renomadíssimo jurista Cesare Beccaria (1738-1794) considerava absurdo que “as leis, que são a expressão da vontade pública, que abominam e punem o homicídio, o cometam elas mesmas e que, para dissuadir o cidadão do assassínio, ordenem um assassínio público”

A caça às bruxas não ocorreu apenas em regiões contagiadas pela onda histérica de luta contra o Diabo, mas também se manifesta na conjuntura social da república laica, laica apenas na teoria, pois na prática impera o espírito supersticioso e reativo do homem de ressentimento que deseja impor sua visão de mundo doentia sobre todos os divergentes. Para essa massa raivosa, a passagem dos seus desejos homicidas para o ato só é bloqueada por uma tênue linha divisória, seja o medo da punição legal ou talvez o temor perante a punição divina. Contudo, esses “cidadãos de bem” não são verdadeiros homens religiosos, mas pessoas pobres de espírito que chafurdam afetivamente na miséria interior e querem colorir o mundo com suas tintas tenebrosas, para as­ sim esconder suas escórias.

 EXECUÇÃO NA INDONESIA

A opinião pública brasileira, ontologicamente reacionária, tripudiou o fato de a presidenta deposta Dilma Rousseff solicitar comutação de pena ao presidente indonésio Joko Widodo em prol de Marco Archer e de Rodrigo Gularte, condenados à pena capital por narcotráfico em  2015,  evidenciando mais uma vez sua tacanha falta de conhecimento jurídico acerca do Direito Internacional, mais precisamente, do conteúdo Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos,  adotado pela XXI Sessão da Assembleia­ Geral das Nações Unidas, em 16 de dezembro de 1966, ratificado inclusive pelo governo indonésio de então.

Vejamos os itens que nos interessam em nossa argumentação: PARTE III, ARTIGO 6, parágrafo 2: “Nos países em que a pena de morte não tenha sido abolida, esta poderá ser imposta apenas nos casos de crimes mais graves, em conformidade com legislação vigente na época em que o crime foi cometido e que não esteja em conflito com as disposições do presente Pacto, nem com a Convenção sobra a Prevenção e a Punição do Crime de Genocídio. Poder-se-á aplicar essa pena apenas em decorrência de uma sentença transitada em julgado e proferida por tribunal competente”. PARTE III, ARTIGO 6, parágrafo 4:”Qualquer condenado à morte terá o direito de pedir indulto ou comutação da pena. A anistia, o indulto ou a comutação da pena poderá ser concedido em todos os casos.” Em nome de sua pretensa soberania constitucional, o governo indonésio cometeu crimes contra a humanidade, devendo, portanto, ser responsabilizado juridicamente por isso. A então presidenta Dilma Rousseff, nas prerrogativas legais de seu cargo, fez o seu papel diplomático de interceder pela conservação da vida de cidadãos brasileiros submetidos a um processo jurídico prenhe de violações jurídicas, tal como diversos outros governantes de grandes nações o fizeram em relação a seus cidadãos que sofriam de mesma sorte.

Na pior das hipóteses, somente uma nação que possuísse uma constituição impecável e cuja casta política apresentasse plena probidade administrativa na gestão pública poderia talvez conquistar legitimidade moral se porventura aplicasse a pena capital aos seus condenados, o que não é o caso da Indonésia. Um país que calcou sua história moderna através de governos tirânicos e que exerceu políticas imperialistas sobre seus vizinhos geográficos não possui qualquer legitimidade moral para aplicar a pena capital sob quaisquer circunstâncias. Cabe lembrar que entre 1975 a 1999, durante o controverso regime do ditador Suharto, a Indonésia espoliou politicamente o Timor-Leste, massacrando milhares de vidas em um regime de terror, destruição da qual até hoje esse país não se recuperou, sem receber qualquer tipo de indenização significativa para a reconstrução nacional. Quando ocorreu o tsunami de 2004, que arrasou o território indonésio, seus governantes não hesitaram em solicitar e aceitar ajuda humanitária internacional, e a comoção mundial pelo desastre fez que a opinião pública se esquecesse desse passado sombrio indonésio. O espírito de solidariedade da sociedade midiatizada escamoteia os delitos políticos de outrora. As leis trabalhistas indonésias se submetem piamente ao crivo neoliberal e permitem que seus trabalhadores sejam explorados até a última gota de sangue por multinacionais consagradas pelo mercado consumidor, que recebe o produto final adornado por seus encantos fetichistas que escondem sua trajetória brutal. No modus operandi jurídico indonésio, estupros são crimes que recebem mais condescendência legal do que os delitos do narcotráfico, circunstância que evidencia os preconceitos patriarcalistas do país e suas incoerências morais.

A morte como punição.2

A crucificação, pena capital muito utilizada durante o Império Romano, é um poderoso símbolo de terror e intimidação

INEFICÁCIA DA PENA CAPITAL

A aplicação da pena de morte suprime toda possibilidade de aprimoramento moral do condenado mediante arrependimento dos seus delitos, interrompendo bruscamente esse processo de transformação pessoal. Nos países democráticos, em que ainda se aplica a pena capital, o prisioneiro pode esperar por décadas para a efetivação da execução, que perde assim todo sentido moral, pois, após tantos anos, o efeito do crime, mesmo que talvez ainda ocasione problemas para o tecido social atingido e para os familiares da vítima, já sofreu desgastes em sua intensidade. É difícil esquecermos um delito terrível, mas a única possibilidade de nos libertarmos dos efeitos corrosivos do ressentimento é através da concessão magnânima do perdão ao criminoso que vivencia essa mudança radical no seu modo de ser. Se porventura o condenado vivencia um processo positivo de transformação interior, não faz mais qualquer sentido executá-lo, mesmo que não seja a função do Estado moralizar o cidadão, mas apenas impedi-lo de atentar novamente contra a ordem pública. Nessa lógica, a execução sumária de um condenado é, horresco referens, absurdamente mais coerente, pois o poder executor não visa obter qualquer reparação moral da pessoa, apenas lhe exercer o peso da justiça-vingança oficial do sistema jurídico pelos danos cometidos contra o Estado e seus cidadãos. Em casos que a gravidade do crime seja tão intensa e chocante, a prisão perpétua seria a melhor alternativa para manter o condenado isolado do convívio social, e se porventura houvesse efetiva mudança de comportamento do criminoso, o mesmo, após um período extenso de confinamento penitenciário, poderia vir a ser analisado por uma comissão de diversos profissionais em prol de sua possível libertação, sendo assim reintegrado ao seio social de modo a desenvolver novamente sua capacidade humana de relacionamento com as demais pessoas.

Um Estado realmente forte não necessita apelar para a aplicação de pena de morte em  determinados crimes, e se porventura recorre a tal expediente, é porque ele não encontra  capacidade suficiente para estabelecer os preceitos civilizacionais em sua jurisdição  territorial  e  promover a qualidade de vida plena para todos os seus membros, evidenciando sua decadência política, pois seu poder se consolida mediante os corpos profanados dos mortos assassinados por suas mãos frias. Friedrich Nietzsche (1844-1900) apresenta uma valiosa reflexão sobre esse problema: “O que faz com que toda execução nos ofenda mais que um assassinato?  É a frieza dos juízes, a penosa preparação, a percepção de que um homem é ali utilizado como um meio para amedrontar outros, pois a culpa não é punida, mesmo que houvesse uma; esta se acha nos educadores, nos pais, no ambiente, em nós –  não no assassino –  refiro-me às circunstâncias determinantes”.

Em um sistema jurídico regido pelo espírito burocrático, esperarmos pelo perdão é uma disposição talvez utópica, mas a clemência é a maior prova de poder de um Estado, representando a sua capacidade de, mesmo nas ocasiões em que suas instituições são atingidas pela ação da violência individual, permanecer incólume. Conforme o argumento de Jean-Marie Guyau (1854-1888), “O que está feito, está feito; o mal moral permanece, apesar de todo mal físico que se pode acrescentar a ele. […] é irracional buscar a punição ou a compensação do crime”.

A estupidez reacionária que clama pela aplicação da pena de morte em nome da justiça, da ordem e da pureza social estabelece distinções de classe em suas aspirações, criminalizando a pobreza como o vilipêndio por excelência, ainda que muitos defensores da pena de morte sejam eles mesmos economicamente desfavorecidos, que não se reconhecem como tais. A pior servidão voluntária é a do sujeito oprimido que assimila o discurso do opressor. Não vemos essa gente clamar pela execução de políticos e mandatários corruptos, bastando então que essas “pessoas especiais” sejam privadas de sua liberdade, não de suas vidas preciosas (apesar de que, na histeria “anticomunista” que vigora, muitos revoltosos fascistas defenderam as execuções de importantes nomes políticos da esquerda). Esses discursos extremistas são perigosos, pois alimentam a sanha truculenta e fascista dos parlamentares associados aos grupos sociais que chancelam a violência oficializada do Estado, como policiais e forças armadas. Aliás, já não deixa de existir uma espécie de pena de morte no Brasil, que atende pelo nome de auto de resistência perpetrada pelas forças policiais contra os suspeitos que não possuem mais direito de viver, onde o executor atua também como juiz, situação ainda mais absurda do que a execução sumária praticada em alguns países, conforme destacamos anteriormente. Não é raro ouvir estudantes de Direito e de Serviço Social, cursos cujas bases axiológicas estão comprometidas com a dignidade incondicional da vida humana e dos seus direitos inalienáveis, defenderem, em casos de crimes violentos de grande comoção social, a aplicação da pena de morte para os seus praticantes, mas jamais vi revoltas virulentas desses estudantes alienados contra a corrupção na política, contra as arbitrariedades policiais, contra as especulações bancárias, dentre outras situações, crimes tão hediondos como os sanguinários. A mesma colocação pode ser feita em relação a alguns segmentos direitistas do alunado do curso de Administração, desvinculados de maiores preocupações sociais, mas apenas aos paradigmas mercadológicos perante os quais estão submetidos. A truculência do mundo corporativo dissolve a humanidade dos seus participantes, inoculando-lhes o veneno do esnobismo perante os males concretos da sociedade cindida.

Há crimes terríveis que afetam talvez dezenas de vítimas, há crimes ainda muito mais graves que afetam milhões de cidadãos, e nesses casos os meliantes sequer sofrem os rigores legais na carne. A consciência massificada, reacionária, dejeta sua virulência apenas nos crimes hediondos realizados pela base da pirâmide social, se esquecendo de que os piores crimes são os praticados pelos meliantes de colarinho branco, pois estes afetam diretamente todo o tecido social e suas ações indébitas retiram das camadas populares os benefícios legais que deveriam receber para que adentrem na condição de cidadãos de fato. Nesse ponto, a reflexão de Adam Smith (1723-1790) é surpreendentemente atual: “A violência e a injustiça de grandes conquistadores são frequentemente vistas com tola admiração e assombro, as dos ladrões, assaltantes e assassinos, em todas as ocasiões, com desprezo, ódio e até horror. As primeiras, ainda que cem vezes mais danosas e destrutivas, se alcançam êxito, passam amiúde por façanhas de heroica magnanimidade. As últimas são sempre vistas com ódio e aversão, como as loucuras e os crimes dos piores e mais baixos seres humanos”.

Comumente, cristãos afastados do espírito evangélico primordial, quando impressionados pelo impacto social de um crime hediondo, clamam pela pena de morte contra o agente da violência, dando vazão aos pecaminosos sentimentos de ira e de vingança, totalmente incompatíveis com a beatitude crística; mais ainda, ousam julgar, quando em verdade jamais deveriam julgar. Melhor seria se renunciassem efetivamente ao credo cristão, pois moralmente já não fazem mais parte dessa comunhão religiosa, não obstante toda proclamação contrária.

Uma vez que a lógica de espetacularização da vida absorve todas as performances sociais, não seria de estranhar de se, no futuro não muito distante, conglomerados televisivos recebessem autorização legal para a exibição de execuções de condenados mediante pagamento de assinatura da parte de espectadores interessados em contemplar esses eventos macabros. Certamente essas redes de televisão conquistariam grandes somas para os seus cofres, pois são bilhões de pessoas dominadas pela concupiscência do olhar que tanto seduz perante cenas mórbidas.

 PENA DE MORTE NÃO INSTITUCIONALIZADA

Usualmente se repete o discurso de que já temos uma pena de morte informal em nossa estrutura social, intrinsecamente necrófila. As forças policiais, axiologicamente associadas ao espírito fascista, matam diariamente pessoas desprovidas de dignidade humana em decorrência de sua condição social e fazem desse exercício de brutalidade uma cerimônia de autoglorificação dos seus atos (vide os brasões de armas dessas corporações), encontrando na massa social o apoio moral para essas mortes. Eficiência policial não significa aumento no índice de letalidade contra os marginais sociais, mas sim a capacidade de prevenir os delitos associada a uma política pública efetivamente democrática que garanta a emancipação social dos sujeitos alheados da cidadania plena dando-lhes empoderamento e autonomia na construção das suas histórias de vida.

 A morte como punição.3

RENATO NUNES BITTENCOURT – é doutor em filosofia pelo PPGF-UFRJ, professor da FACC-UFRJ.

e-mail: renatonunesbittencourt@gmail.com

GESTÃO E CARREIRA

CUSTOMIZE SEU TRABALHO

Essa habilidade diz respeito a conhecer outros departamentos da empresa, colaborar com projetos de áreas diferentes da sua e construir novas formas de atingir resultados.

Customize seu trabalho

Todos os dias somos bombardeados por mudanças e pressionados por cenários que mostram um mundo com menos empregos, comandados por máquinas e empresários do setor de tecnologia usando roupas pretas e vocabulário espacial.

Não acredito nas teorias apocalípticas, e sim na transformação do trabalho e na mudança do conceito de emprego. Se olharmos os movimentos do mercado, perceberemos que surgem possibilidades a todo o tempo. Novas atividades e mudanças nas profissões antigas. Por isso, proponho uma reflexão baseada na abundância, e não na escassez.

Nesse sentido, um dos conceitos que impulsionam essa transformação chama-se job crqfting. A ideia foi desenvolvida pelas pesquisadoras americanas Amy Wraesnlewski e Jane Dutton, em 2001, e ganha mais força nos períodos de crise. A expressão quer dizer “customização do trabalho”, no sentido que atribuímos a ele e na forma de realizar as atividades. Fazer job crafting significa fazer ajustes na rotina e no jeito de completar as tarefas. Num mercado em que as estruturas estão enxutas, customizar é essencial. Entregar e reorganizar o que é feito. Ajustar, pensar e ampliar.

Podemos ter restrições de estrutura interna. Mas temos fartura de informações e de possibilidades no mercado. Aquele que customiza sua rotina profissional encontra mais possibilidades de cumprir suas metas e ser feliz no trabalho.

O job crqfting está relacionado como protagonismo. O indivíduo que fica esperando que a empresa, o chefe ou a área de recursos humanos conduzam sua evolução profissional está fadado ao insucesso.

A ideia de crescimento por meio de um plano de carreira predeterminado morreu. Isso faz parte do passado. O modelo de carreira baseado na descrição de cargos é engessado e limitante. O novo conceito é a colaboração, sendo a customização uma maneira de contribuir fora da descrição do cargo. Isso significa construir novas formas de atingir resultados, envolver­ se com o negócio e não apenas coma atividade prevista para a posição. Além de conhecer outras áreas e atuar em projetos para os quais é possível contribuir.

Para obtermos saltos significativos nesse rumo, precisamos de duas transformações: líderes que caminhem na direção do diálogo e permitam que seu time busque espaço e colabore; e profissionais que percebam ganhos e compreendam que seu papel está além do silo ao qual pertencem.

Agora, se você pensa que participar de projetos vai apenas gerar mais trabalho e se mantém à espera da tradicional promoção de cargo e salário, cuidado! Seu modelo mental está obsoleto. E, aí, ficará fácil substitui-lo por urna máquina que reclame menos.

 

RAFAEL SOUTO – é fundador e CEO da Consultoria Produtive, de São Paulo. Atua com planejamento e gestão de carreira, programas de demissão responsável e de aposentadorias.

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 21: 12-17

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Os Profanadores do templo são castigados

Quando Cristo veio a Jerusalém, Ele não subiu à corte ou ao palácio, embora entrasse como um rei, mas foi ao “templo”. Pois o seu reino é espiritual, e “não é deste mundo”; é nas coisas santas que Ele governa, e é no templo de Deus que Ele exerce autoridade. O que Ele fez ali?

 

I – Ele expulsou os que vendiam e compravam no Templo. Os abusos devem, antes de mais nada, ser extirpados, e as plantas que não pertencem à plantação de Deus precisam ser desarraigadas, antes de se poder estabelecer o que é correto. O grande Redentor aparece como um grande Reformista, que afasta a impiedade e a depravação (Romanos 11.26). Aqui vemos:

1.  O que Ele fez (v. 12): Ele “expulsou todos os que vendiam e compravam no templo”. Ele já tinha feito isso antes (João 2.14,15), mas surgiu a oportunidade de fazê-lo outra vez. Observe que os compradores e vendedores que foram expulsos do Templo irão retornar e se fixar ali novamente, se não houver um cuidado e uma supervisão contínuos para evitar isso, e se essa atitude de vigilância não for seguida e frequentemente repetida.

(1). O abuso consistia de comprar, vender e trocar dinheiro no Templo. Observe que as coisas lícitas, na ocasião e no lugar errados, podem se tornar coisas ilícitas. Aquilo que era suficientemente decente em outro lugar, e não apenas lícito, mas elogiável, em outra ocasião e lugar contamina o santuário e profana o sábado. Essas atividades de comprar, vender e trocar dinheiro, embora

fossem empregos seculares, ainda tinham a desculpa de serem para fins espirituais. Eles vendiam animais para sacrifício, para a conveniência daqueles que tinham mais facilidade para trazer o seu dinheiro do que os seus animais. Eles também trocavam dinheiro para aqueles que queriam o meio ciclo, que era o seu imposto anual, ou o dinheiro de redenção. É possível que eles incluíssem esse imposto anual nas despesas dos viajantes, de modo que isso pudesse passar por um negócio externo à casa de Deus; mas Cristo não permitiria esse procedimento. Grandes corrupções e abusos sobrevém à igreja pelas práticas daqueles que obtêm os seus ganhos através da piedade, ou seja, das práticas daqueles que fazem dos ganhos deste mundo o objetivo da sua santidade, e fazem da falsa santidade a sua maneira de obter ganhos mundanos (1 Timóteo 6.5): ”Aparta-te dos tais”.

(2). A purgação desse abuso. Cristo “expulsou todos os que vendiam e compravam no templo”. Ele fez isso com “um azorrague de cordéis” (João 2.15); mas Ele também o fez com um olhar, com uma expressão severa, com uma palavra de ordem. Alguns opinam que esse foi o menor dos milagres de Cristo, pelo fato de Ele mesmo ter limpado o Templo, e não ter recebido a oposição daqueles que com essas atividades ganhavam a vida, e para isso contavam com o apoio dos sacerdotes e dos anciãos. Esse é um exemplo do seu poder sobre o espírito dos homens, e do controle que Ele tem sobre eles, sobre as suas próprias consciências. Esse foi o único ato de autoridade real e de poder coercivo que Cristo realizou nos dias da sua carne. Ele iniciou assim (João 2), e assim concluiu. Diz a tradição que o seu rosto resplandecia e raios de luz eram lançados dos seus benditos olhos, o que assombrou essas pessoas do mercado, e as obrigou a render-se ao seu comando. Se foi assim, as Escrituras se cumpriram (Provérbios 20.8): ”Assentando-se o rei no trono do juízo, com os seus olhos dissipa todo mal”. Ele “derribou as mesas dos cambistas”. Ele não apanhou o dinheiro para si, mas o espalhou, atirando-o ao chão, que era o melhor lugar para ele. Os judeus, na época de Ester, não estenderam a sua mão ao despojo (Ester 9.10).

2.  O que Jesus disse, para se justificar e para condená-los (v. 13): “Está escrito”. Observe que, na reforma da igreja, devemos prestar atenção às Escrituras, que devem ser aceitas como a regra, o padrão que foi dado no monte; e não devemos ir além da seguinte expressão, para podermos nos justificar: “Está escrito”. A reforma estará no curso certo quando o cerimonial corruptível for reduzido à sua instituição fundamental.

(1). Ele mostra, com a citação de uma profecia das Escrituras, o que o Templo deveria ser, e o seu propósito: ”A minha casa será chamada casa de oração”, uma citação de Isaías 56.7. Observe que todas as instituições cerimoniais deveriam ser subservientes às obrigações morais. A casa de sacrifícios deveria ser uma casa de oração, pois essa era a essência e a alma de todos os serviços. O templo era, de uma maneira especial, santificado para ser uma casa de oração, pois ele não apenas era o lugar para a adoração, mas o seu meio, de modo que as orações feitas naquela casa, ou voltadas a ela, tinham uma promessa de aceitação especial (2 Crônicas 6.21), como sendo uma tipificação de Cristo. Por isso Daniel olhava naquela direção em oração; e, nesse sentido, nenhuma casa, ou nenhum lugar, é, agora, e nem pode ser, uma casa de oração, pois Cristo é o nosso templo; mas, de alguma maneira, os lugares indicados para as nossas reuniões religiosas podem ser chamados de “lugares de oração” (Atos 16.13).

(2). Jesus mostra, com uma repreensão das Escrituras, como eles tinham usado mal o Templo, e tinham corrompido o seu objetivo. “Vós a tendes convertido em covil de ladrões” – uma citação de Jeremias 7.11: “É, pois, esta casa, que se chama pelo meu nome, uma caverna de salteadores aos vossos olhos?” Quando a piedade dissimulada se torna o manto e o disfarce da iniquidade, pode-se dizer que a casa de oração se torna um covil de ladrões, onde estes espreitam e se escondem. Os mercados frequentemente são covis de ladrões, tantos são os costumes corruptos e as trapaças que existem na compra e venda; mas os mercados no templo certamente o são, pois os que roubam de Deus a sua honra são os piores ladrões (Malaquias 3.8). Os sacerdotes viviam, e com abundância, do altar; mas, não satisfeitos com isso, encontraram outras maneiras e outros métodos para extrair dinheiro das pessoas; e por isso aqui Cristo os chama de ladrões, pois eles extorquiam o que não lhes pertencia.

 

II – Ali, no Templo, Ele curou os cegos e os coxos (v. 14). Quando havia expulsado do Templo os que compravam e vendiam, Ele convidou os cegos e os coxos a entrar nele, pois Ele “enche de bens os famintos, mas despede vazios os ricos”. Cristo, no seu Templo, com as suas palavras ali pregadas, e em resposta às orações ali feitas, cura aqueles que são espiritualmente, e também fisicamente, cegos ou coxos. É bom ir ao Templo quando Cristo está ali, Ele que, ao mostrar-se zeloso pela honra do seu Templo, ao expulsar aqueles que o profanam, também se mostra gracioso com aqueles que o buscam humildemente. Os cegos e os coxos foram impedidos de entrar no palácio de Davi (2 Samuel 5.8), mas foram admitidos na casa de Deus, pois a pompa e a honra do seu Templo não estão naquelas coisas de que, supostamente, consiste a magnificência dos palácios dos príncipes. Dos palácios, os cegos e os coxos devem manter distância, mas do Templo de Deus, somente os ímpios e os profanos. O Templo foi profanado e mal utilizado ao ser transformado em mercado, mas recebeu graça e honra quando foi transformado em hospital; fazer o bem na casa de Deus é mais honroso e mais conveniente do que ter algum lucro financeiro ali. A cura de Cristo foi uma resposta verdadeira à pergunta: “Quem é este?” As obras de Jesus testificam mais dele do que as hosanas; e as curas realizadas por Ele, no Templo, foram o cumprimento de uma promessa das Escrituras: ”A glória desta última casa será maior do que a da primeira”.

Ali também Ele calou as queixas que os principais dos sacerdotes e os escribas fizeram quanto à aclamação com que Ele foi saudado (vv.15,16). Aqueles que deveriam ter sido os mais dispostos a honrar Jesus, eram os seus piores inimigos.

(1). Eles estavam intimamente irritados com as obras maravilhosas que Ele fazia. Eles não podiam negar que se tratavam de verdadeiros milagres, e por isso foram francos em sua indignação, como em Atos 4.16; 5.33. As obras que Cristo fazia testemunhavam à consciência de todos os homens. Se eles tivessem algum bom senso, não deixariam de admitir o quanto eram milagrosas; e se tivessem alguma boa natureza, não poderiam deixar de louvar a sua misericórdia; mas, como estavam decididos a se oporem a Ele, por causa dessas obras, eles o invejaram e se indignaram contra Ele.

(2). Eles questionaram abertamente as hosanas que os meninos clamavam no Templo. Eles pensavam que essa honra dada a Ele fosse uma honra que não lhe pertencia, e que parecia ostentação. Os homens orgulhosos não podem suportar que qualquer pessoa, além deles mesmos, receba honra, e ficam inquietos apenas com os elogios justos a homens que os merecem. Assim, Saul invejou Davi devido aos cânticos das mulheres; e “quem parará perante a inveja?” Quando Cristo é mais honrado, os seus inimigos ficam mais profundamente insatisfeitos.

Recentemente, vimos Cristo preferindo os cegos e os coxos aos compradores e aos vendedores; aqui, nós o vemos (v. 16) tomando o partido das crianças, contra os sacerdotes e os escribas.

Observe que:

(1). As crianças estavam no Templo, talvez brincando. Não é de admirar, quando os administradores fazem dele um “mercado”, que as crianças façam dele um lugar de entretenimento; mas nós preferimos pensar que muitas delas estivessem adorando ali. Observe que é bom levar as crianças desde cedo à casa de oração, pois delas é o Reino dos céus. Devemos ensinar as crianças a acompanhar os costumes da santidade, pois isso será útil para conduzi-las ao poder da santificação. Cristo tem ternura pelas ovelhas do seu rebanho.

(2). Elas clamavam “Hosana ao Filho de Davi”. Elas tinham aprendido isso com os adultos. As crianças dizem e fazem aquilo que ouvem os outros dizerem, e veem os outros fazerem; elas imitam com muita facilidade, e por isso deve-se tomar muito cuidado, para dar-lhes bons exemplos, e não maus. O nosso relacionamento com as crianças deve ser conduzido com extremo cuidado. As crianças irão aprender com aqueles que convivem com elas, seja amaldiçoar e praguejar, seja orar e louvar. Os judeus, desde cedo, ensinavam os seus filhos a carregar ramos na Festa dos Tabernáculos, e a cantar Hosana; mas Deus os ensina a aplicar isso a Cristo. Observe que a expressão de louvor “Hosana ao Filho de Davi” é muito adequada às bocas das criancinhas, que de­ vem aprender, desde jovens, a linguagem de Canaã.

(3). O nosso Senhor Jesus, não somente permitiu, mas ficou muito satisfeito com a aclamação, e citou uma passagem das Escrituras que se cumpria nesse momento (Salmos 8.2), e que era adequada: “Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?”. Alguns acreditam que esta citação seja uma referência às crianças se unindo às aclamações do povo, e aos cânticos das mulheres com que Davi foi honrado quando voltou do massacre dos filisteus, e por isso é muito adequadamente aplicados aqui às hosanas com as quais era saudado o Filho de Davi, agora que estava iniciando o seu conflito com Satanás, aquele Golias. Considere que:

[1]. Cristo está tão longe de se sentir embaraçado com a adoração das criancinhas, que Ele as nota (e as crianças gostam muito de ser notadas), e fica satisfeito com elas. Se Deus pode ser honrado por meninos e criancinhas de peito, que são, na melhor hipótese, a esperança, muito mais pelas crianças que já cresceram, se tornaram adultos, alcançaram a maturidade, e assim já têm uma boa capacidade.

2]. O louvor é perfeito quando vem dessas bocas. Há algo especial no louvor e na glória oferecida a Deus quando as criancinhas participam de sua exaltação. O louvor seria considerado deficiente e imperfeito se elas não participassem dele. Isso constitui um incentivo para que as crianças sejam boas desde cedo, e também para que os seus pais lhes ensinem uma importante lição: o trabalho de nenhuma delas será inútil. No Salmo 8.2, está escrito: “Tu suscitaste força”. Observe que Deus aperfeiçoa o louvor; suscitando força às bocas dos meninos e criancinhas de peito. Quando grandes coisas são produzidas por instrumentos fracos e improváveis, Deus é muito honrado, pois o seu “poder se aperfeiçoa na fraqueza”. A insegurança dos meninos e das criancinhas de peito é amparada pelo poder divino. Aquilo que se segue no salmo, “para fazeres calar o inimigo e vingativo”, era muito aplicável aos sacerdotes e aos escribas; mas Cristo não fez essa aplicação, deixando que eles mesmos a fizessem.

Por fim, Cristo, tendo dessa maneira silenciado os principais dos sacerdotes e os escribas, “deixou-os” (v. 17). Ele os deixou prudentemente, para que eles não o prendessem antes que fosse chegada a sua hora. E Ele os deixou com justiça, porque eles tinham ignorado o favor da sua presença. Com a nossa insatisfação aos louvores dedicados a Cristo, o afastamos de nós. Ele os deixou, porque eram incorrigíveis, e foi para a cidade de Betânia, que era um lugar mais calmo e afastado; não tanto para poder dormir sem ser perturbado, mas para poder orar sem ser perturbado. Betânia ficava a aproximadamente dois quilômetros de Jerusalém; para lá, Ele se dirigiu a pé, para mostrar que, quando cavalgava, Ele o fazia apenas para cumprir as Escrituras. Ele não se exaltou com as hosanas do povo, mas, como se as tivesse esquecido, logo retornou à sua maneira simples e cansativa de viajar.