PSICOLOGIA ANALÍTICA

GRANDES E DESORGANIZADOS

Déficit de atenção e hiperatividade são comuns em adultos. Dificuldade em gerenciar o próprio tempo é um dos sintomas.

Grandes e Desorganizados

Estima-se que varie entre 3% e 5% o contingente de pessoas que sofrem do chamado Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) na população de modo geral. Levando-se em conta que o Brasil tem cerca de 200 milhões de habitantes, o número de portadores do transtorno no país seria de pelo menos 4,3 milhões. Trata-se de um problema que costuma se manifestar em crianças, mas que a maioria dos pais, educadores e profissionais de saúde não estão preparados para identificar e dar suporte adequado ao seu tratamento.

“Em alguns locais, como nos grandes centros urbanos, o tema tem recebido uma atenção maior da mídia e tem sido possível fazer um bom diagnóstico e tratamento”, explica o psiquiatra Ênio Roberto de Andrade, diretor técnico do Serviço de Psiquiatria Infantil e da Adolescência do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. É preciso entender que a doença em si é relativamente estável. O que tende a se agravar com o tempo são os prejuízos que acarreta para a vida de seu portador e também de seus familiares.

 SINAIS PRECOCES

Em crianças, as consequências costumam ser a repetência escolar e a perda de amigos gerada por dificuldades de convivência e brigas constantes. Em situações mais críticas, também pode levar ao abuso de drogas e à repetição de comportamentos que coloquem em risco a própria integridade e a vida desses menores. Não há uma idade específica para os sintomas aparecerem. “Eu costumo brincar que o TDAH já nasce pronto. O que ocorre é que, hoje em dia, as etapas do desenvolvimento infantil parecem mais precoces porque os filhos vão para a escola mais cedo. É quando pais e educadores começam a perceber que o comportamento de determinada criança destoa das outras”, afirma Andrade. Se antes ela só adentrava o ambiente escolar por volta dos 7 ou 8 anos, atualmente o faz entre 4 e 6 anos.

Os primeiros sinais de TDAH costumam ser a dificuldade de concentração, principalmente de manter a atenção por um período prolongado, a inquietação e agitação constantes, além de falar em demasia, inclusive sem deixar o interlocutor completar seu discurso, e estar o tempo todo em atividade, correndo, sob intensa impulsividade e causando muitas brigas. A dificuldade para os profissionais de saúde é justamente avaliar quando esse tipo de comportamento é absolutamente normal e quando se trata de uma característica do distúrbio. Ênio de Andrade que, além de trabalhar num sistema de atendimento público também tem clínica particular, e, portanto, possui uma visão abrangente do universo da saúde pediátrica, observa que a maioria dos profissionais de saúde não especializados em TDAH não costuma fazer encaminhamentos e nem mesmo o diagnóstico. Ele conhece casos de pediatras que se opõem ao tratamento medicamentoso.

Por isso muitos pais ainda percorrem aquela famosa via-sacra de ir de médico em médico até finalmente descobrir o profissional mais habilitado para cuidar de seus filhos. O mais provável é que lá na ponta dessa via-crúcis acabem chegando ao consultório do neuropediatra ou do psicólogo. Se estes profissionais tiverem preparo e costume com o quadro podem indicar o tratamento adequado – no caso do neuropediatra – ou fazer o encaminhamento correto – no caso do psicólogo.

Mas dificilmente os pais procuram primeiro aquele que, ao lado do neuropediatra, costuma ser o profissional mais indicado para diagnosticar e tratar o TDAH: o psiquiatra. “Há ainda muita desinformação e preconceito. O psiquiatra assusta e é visto como médico de loucos, alguém que vai dopar a criança com remédios”, conclui Andrade. Por outro lado, como se fosse este o último recurso, muitos pais chegam ao consultório psiquiátrico desesperados, dispostos a acatar qualquer tratamento que seja proposto. “Enquanto isso, quem paga o preço é a criança porque é ela que continua sofrendo as consequências do transtorno”.

TRATAMENTO E ORIGEM

Descoberta a anatomia do problema, é preciso paciência. O tratamento tende a ser longo e exige acompanhamento prolongado mesmo após o controle dos sintomas. “Evidentemente isso varia de caso para caso. Quando os pais insistem em saber quanto tempo durará o tratamento; eu costumo dizer que vai durar no mínimo um ano mais o acompanhamento, que deve se estender por mais ou menos cinco anos”, afirma Ênio de Andrade. O que vai determinar a suspensão do tratamento é a supressão dos sintomas, ou remissão, como é expressa no jargão médico. Os especialistas acreditam ser delicado referir-se a “cura” porque o termo dá a impressão de que há um agente causador que foi eliminado e que nunca mais vai voltar. Na verdade, não existe este agente causador como se nos reportássemos a um vírus ou bactéria.

O TDAH parece se dever a uma conjunção de fatores, mas o principal deles é o genético. O fator ambiental pode piorar a intensidade dos prejuízos. Ou, em certos casos, até amenizá-los. É o que acontece, por exemplo, quando uma pessoa sabe de sua tendência à desatenção, mas compensa isso preparando um local calmo para estudar. Por outro lado, trabalhar em local estressante, barulhento, movimentado, repleto de estímulos, pode agravar ainda mais o TDAH.

A determinância do fator genético fica clara quando há irmãos compartilhando o mesmo problema. Se o pai ou a mãe carregarem o TDAH, a probabilidade dos filhos também desenvolverem o transtorno é quatro a sete vezes maior que numa família em que eles são isentos do problema. Se ambos sofrerem do transtorno, a chance de as crianças reproduzirem o quadro aumenta para 12 vezes. Pela relevância que a carga genética assume, fica difícil falar em prevenção. Mas há sim cuidados que as mulheres podem tomar durante a gestação e que podem diminuir esse risco, como não fumar, não tomar bebidas alcoólicas e não usar drogas, pois se sabe que substâncias como nicotina e álcool podem desencadear a doença.

MAIORIDADE

Até alguns anos atrás, muitos especialistas acreditavam que o TDAH simplesmente desaparecia com o passar do tempo e não acompanhava o indivíduo na idade adulta. Hoje já se sabe que não é exatamente assim. Muitas pessoas que receberam ou não tratamento durante a infância podem chegar à vida adulta com o problema. A possibilidade de o transtorno voltar a se manifestar é de no mínimo 30%, consideram os profissionais ouvidos nesta reportagem.

“De modo geral, não há muita diferença com relação ao que acontecia na infância. O que ocorre é que o contexto da vida adulta é muito mais complexo e sofisticado. Por isso as dificuldades podem aumentar, mas as queixas de desatenção, hiperatividade e comportamento impulsivo se mantêm basicamente as mesmas”, compara o médico psiquiatra Mário Rodrigues Louzá Neto, coordenador do Projeto de Déficit de Atenção e Hiperatividade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo (SP).

O que esses sintomas em geral acarretam é uma grande dificuldade em gerenciar a própria vida. O que costuma imperar é a desorganização, refletida até nas coisas mais prosaicas, como uma mesa de trabalho absolutamente caótica. Há dificuldade em manter a atenção nas atividades do dia-a-dia, especialmente se for por um longo período de tempo. “A pessoa não consegue manter o foco durante o tempo necessário para concluir uma tarefa. Ela até consegue realizar as partes mais interessantes desta atividade, mas no trecho mais sem graça, digamos assim, ela abandona ou posterga a tarefa”, descreve Mário Louzá. Também é bastante provável que se atrapalhem no gerenciamento do tempo e percam com facilidade compromissos e objetos. Esse conjunto de situações costuma ser primeiramente notado pelo cônjuge, que é a pessoa mais próxima. O rendimento profissional também tende a ficar aquém do esperado.

HERANÇA INFANTIL

A maioria dos adultos com TDAH não teve o diagnóstico quando criança. É preciso saber, entre outras coisas, se na infância o indivíduo trocou muitas vezes de escola, se houve várias repetências, se não ia bem nas provas por motivo de distração. Quando o paciente é jovem, é possível remontar o histórico com a ajuda dos pais e dos boletins escolares.

Constatado o transtorno, do ponto de vista medicamentoso, as abordagens são praticamente iguais às da criança. O tratamento pode se iniciar com psicoestimulantes ou antidepressivos. Os menores se beneficiam de recursos psicopedagógicos, exercícios de psicomotricidade e terapia comportamental cognitiva. No adulto, a psicoterapia pode também melhorar as habilidades sociais, facilitando o dia-a-dia.

Outro problema resultante da falta de diagnóstico na infância é que, ao chegar à idade adulta, a pessoa já vem carregando uma série de frustrações que pode ter abalado sua auto­ estima. Afinal, a criança cresceu ouvindo que era chata, bagunceira, e só estragava a brincadeira dos colegas. É esse o histórico que carrega. Algo com reflexo direto no seu rendimento afetivo. Mas não é só o aspecto psicológico e comportamental que precisa ser cuidado. O tratamento medicamentoso é essencial. No Brasil só há um psicoestimulante disponível para tratar o TDAH. É o metilfenidato, comercializado aqui por dois diferentes laboratórios e conhecido pelos nomes comerciais de Ritalina e Concerta, mesmo tipo de medicamento indicado para crianças. São as drogas mais estudadas e também as mais eficazes para o controle do transtorno.

Principalmente nos adultos, o TDAH pode desencadear simultaneamente quadros de depressão ou ansiedade. Como é preciso abordar as duas doenças juntas, pode ser indicado o uso de antidepressivos, pelo menos inicialmente. Apesar dos estudos já acumulados nesta área, os especialistas são unânimes em apontar a falta de conhecimento da comunidade. No senso comum existe a ideia de que essas pessoas sempre foram assim. Por isso acredita-se que este é “um jeito de ser” e não se reconhece o quadro como uma patologia capaz de atrapalhar o rendimento profissional e o convívio social.

 ADESÃO

Por outro lado, pode ser desanimador para muitos pacientes descobrir em si um transtorno que exige cuidados que devem perdurar, teoricamente, a vida toda. Como este tende a ser um quadro estabilizado na fase adulta, muitos acabam rejeitando o tratamento. Louzá aponta, ainda, outra incógnita. Não se sabe se é o tratamento prolongado que faz a pessoa melhorar ou se ela de fato melhoraria com o tempo, mesmo sem o tratamento. “Como precisaríamos deixar um grupo de pacientes para produzir esse escudo, eticamente não há como responder essa pergunta”, ele pondera.

Além disso, há outras implicações. O risco de abuso de álcool e drogas aumenta entre os pacientes de TDAH. As chances de abusar de substâncias químicas neste caso são de três a cinco vezes maior que nos outros indivíduos. Uma das grandes preocupações do tratamento é evitar estragos como esse. A adesão ao tratamento é muito variável, mas rende a ser difícil, pelas próprias características da doença. Interromper os cuidados significa voltar ao estado basal constatado antes de seu início. Muitos se acomodam a esta situação, ou o ganho obtido não é o esperado. Nesses casos o paciente pode optar por simplesmente conviver com os danos do TDAH. Mas não é comum nesses casos o repetido abandono e retomada do tratamento.

 ESCLARECIMENTO E APOIO

As dúvidas e desorientações de pacientes portadores de TDAH e seus familiares são tantas que continuam insuficientes os recursos da saúde para abarcá-las. A Associação Paulista de Medicina (APM) há cinco anos procura dar sua contribuição pelo menos para o contingente de pessoas que reside em São Paulo. Promove, por meio de seu Comitê Multidisciplinar de Adolescência, a formação de grupos que recebem o apoio de profissionais de saúde especializados neste tipo de atendimento. O esforço, no entanto, tem resultado insuficiente. Tanto que, a fim de atender à longa lista de espera de interessados pelo serviço, a APM passou dois anos sem divulgar o serviço. Voltou a fazê-lo no início de 2006, informando a abertura de inscrições para o grupo que o receberia atendimento a partir do fim de março.

Cada grupo tem a duração de um semestre. “Os pais, principalmente, chegam desesperados. Eles já buscaram vários tipos de ajuda, mas costumam apresentar-se bastante desinformados”, diz o psiquiatra Wimer Bottura Jr., presidente do Comitê. Um dos grupos inicia suas atividades no fim de março, e outro deve se formar e entrar em atividade a partir de agosto. Mas nem todo mundo que ali busca atendimento sofre de TDAH. Todos chegam com essa suspeita, mas alguns acabam descobrindo não ser este o caso. O diagnóstico é feiro durante o trabalho da APM.

Um dos objetivos principais do grupo de apoio, segundo Bottura Jr., é proporcionar aos portadores do transtorno informação e incentivo suficientes para uma maior adesão ao tratamento – a falta de adesão, por sua vez, decorre principalmente de desconhecimento e preconceito. Situações inversas também se verificam. No limite, existem pessoas que estão em tratamento para o TDAH sem que o diagnóstico exista. “As sequelas do transtorno são bem conhecidas. Estão relacionadas ao comportamento, à propensão ao uso de drogas e às dificuldades na escola. Por isso é muito fácil achar que determinados quadros reportam ao TDAH”, explica o médico.

Há também pacientes e famílias que chegam a alimentar a fantasia de que o TDAH será a solução para os conflitos em casa. Eles buscam uma explicação para tantas brigas e competição na convivência doméstica. O diagnóstico poderia servir, neste caso, como uma justificativa válida. Se o transtorno existe de fato, Wimer Bottura Jr. considera o uso de medicamentos imprescindível, mas ressalta a importância de o tratamento ser complementado com orientação familiar e psicoterapia. Só deixa o alerta: “se o TDAH for genuíno, sem o medicamento nada funciona”.

A certeza só vem com exames clínicos realizados por profissionais muito bem preparados para isso. Outros tipos de exame, mesmo as mais avançadas técnicas de mapeamento cerebral, não servem para o diagnóstico, mas para excluir outras hipóteses. A confirmação do transtorno ocorre segundo orientações do DSM-IV, Manual de Diagnóstico e Estatística das Doenças Mentais elaborado pela Associação Psiquiátrica Americana.

Para os pais de crianças com o transtorno, o esforço do grupo de cinco psiquiatras e uma psicóloga que integram o serviço oferecido pela APM é conscientizar sobre a importância da atuação deles para que o tratamento seja efetivo. Para os pacientes adultos é preciso oferecer uma alternativa de convivência com a doença que permita o resgate da auto -estima.

Treinar a classe médica e educadores para o diagnóstico ou encaminhamento adequados seria uma questão ainda em aberto.

DISTRAÍDOS POR NATUREZA

Não é apenas o TDAH o responsável por nos tirar do foco de uma ação e causar dispersão. Todos têm lá seus momentos de dispersão e uma tendência à distração se acentua com o passar do tempo. Isso ocorre em virtude de mudanças no funcionamento do cérebro, percebidas com o avançar da idade. A descoberta de cientistas da Universidade de Toronto e do Rotman Research lnstitute, registrada recentemente pelo Journal of Cognitive Neuroscience e reproduzida por periódicos brasileiros, foi o primeiro registro do modo como a idade altera a capacidade cerebral de ignorar interrupções irrelevantes no dia-a-dia, o que costumamos chamar de distração.

A coordenadora do estudo, Cheryl L. Grady, de 52 anos, especialista em efeitos cognitivos do envelhecimento, partiu da auto­ observação para tentar explicar o fenômeno. Ela e sua equipe coletaram imagens do cérebro de pessoas jovens, de meia-idade e idosas e conseguiram constatar que ocorre uma falência gradual nos circuitos cerebrais que mantêm o equilíbrio normal da atenção. As falhas nessas estruturas se intensificam por volta dos 40 anos e os indícios são de alterações em regiões específicas do cérebro, especificamente o córtex pré-frontal e áreas correlatas no lóbulo frontal medial.

A boa notícia do estudo patrocinado pelo Instituto Canadense de Pesquisa Médica é que levanta a possibilidade de que pessoas mais jovens, hoje na faixa dos 20 anos e que cultivam uma rotina de contato constante com mensagens instantâneas enviadas pela internet e com outras tecnologias da atualidade, muitas vezes simultaneamente, talvez adquiram maior capacidade de se manter concentrados quando atingirem a velhice.

Grandes e Desorganizados2

OUTROS OLHARES

VALE A PENA SER FELIZ

Vale a pena ser feliz

Um grande susto ligado á saúde: foi disso que Kaye Newton, de 48 anos, precisou para se transformar em uma pessoa mais feliz. Antes da doença, Kaye, escritora que mora em Nashville, Estados Unidos, se descrevia como hipocondríaca, sempre preocupada com as armadilhas que se esconderiam em seu futuro. Mas, depois de enfrentar uma adversidade real, ela aprendeu a mudar seu ponto de vista.

”A cirurgia me ajudou a perceber que me preocupar com a saúde não me protege de doenças nem me prepara para uma cirurgia’: diz Kaye. ”Hoje me preocupo menos. Sou mais feliz e, conscientemente, presto mais atenção ao que está acontecendo:’

Seu livro Incision Decisions (”Decisões sobre incisões”) fala de como permanecer positiva depois de cirurgias.

Quanto mais vivemos, mais provável é que sejamos felizes. Incontáveis pesquisas já mostraram que, no decorrer da vida, a felicidade forma uma curva em U: somos mais felizes na infância e na velhice. No início da idade adulta, o nível de felicidade se reduz sem parar e chega ao mínimo entre os 40 e os 50 anos. Aos 50, o nível de felicidade volta a subir.

A queda na curva da felicidade é compreensível, dados o estresse e as mudanças importantes que ocorrem na vida aos 20, 30 e 40 anos: trabalhar muitas horas, estabelecer-se em uma carreira, casar-se, criar filhos pequenos, guardar dinheiro para o futuro.

E a melhora da curva da felicidade? Após viver 45 ou 50 anos, a experiência acumulada nos ajuda a ver melhor a situação. ”Depois de seis décadas ou mais, a maioria já viu que a vida tem pontos altos e baixos’; diz Lisa F. Carver, professora adjunta do Departamento de Sociologia da Universidade Queen’s, em Kingston, Ontário, Canadá. ”O otimismo da juventude, que pode refletir o pensamento mágico de que o sucesso na vida é inevitável, é substituído pela realidade de que nem tudo é bom. No entanto, há também a compreensão de que o bem pode vir do mal”.

Aprender a ver com bons olhos os eventos da vida nos ajuda a ser mais felizes quando envelhecemos. E vale a pena ser feliz: temos benefícios nos relacionamentos, no trabalho, na saúde, na atitude e em outros aspectos da vida.

FELICIDADE E RELACIONAMENTOS

Você tem amigos ou parentes em quem possa confiar? Se tiver, automaticamente é mais feliz do que quem não tem a quem recorrer em busca de conselhos ou companhia. ”A satisfação nos relacionamentos é o previsor mais forte de felicidade que temos’; diz Meik Wiking, presidente executivo do Instituto de Pesquisa da Felicidade, em Copenhague, Dinamarca. ”Ela surge o tempo todo nos dados sobre felicidade. A solidão é um dos maiores desafios”; em toda parte. A pesquisa mostra que pessoas casadas ou que vivem com parceiros tendem a ser mais felizes do que as solteiras simplesmente porque têm menos probabilidade de sentir solidão. ”Quem tem alguém com quem contar em situações difíceis é mais feliz do que quem não tem”; diz John Helliwell, pesquisador da felicidade, assessor do Instituto de Pesquisa da Felicidade e professor aposentado de Economia da Universidade da Colúmbia Britânica, em Vancouver, no Canadá. ”É mais provável que os casados, diferentemente dos solteiros, tenham com quem contar:”

A pesquisa de Helliwell constatou que o casamento aumenta a felicidade a longo prazo, de tal modo que sua queda na meia-idade não é tão acentuada entre os casados. Os mais felizes de todos são os que consideram o cônjuge seu melhor amigo. A pesquisa de Helliwell é a primeira a examinar a interseção entre casamento e amizade e seu efeito sobre a felicidade. ”Chamar o cônjuge de melhor amigo é outra maneira de dizer “Tenho um casamento feliz”; diz Helliwell. ”Se pensarmos bem, eles são felizes por estarem casados:”

Carol Gee, de Atlanta, Geórgia, nos Estados Unidos, está casada há 44 anos com o mesmo homem. ”Percebo que sou realmente feliz. Não estou mantendo o relacionamento só porque investimos muito tempo nele”; diz ela. ”Não acredito em não ser feliz:”

 FELICIDADE E TRABALHO

Os pesquisadores estudaram características dos empregos que levam à felicidade e à maior satisfação na vida. A maioria prefere, acima de tudo, um bom equilíbrio entre vida e trabalho. ”A variedade e o aprendizado de coisas novas são importantes, mas menos do que o equilíbrio entre vida e trabalho”; diz Jan-Emmanuel De Neve, professor associado de Economia e Estratégia da Escola de Administração Said da Universidade de Oxford. ”Quem sente que o emprego o impede de dedicar seu tempo à família ou ao parceiro, quem se preocupa com problemas profissionais mesmo quando não está trabalhando, ou quem fica cansado demais depois do trabalho para apreciar outras coisas, sofre um efeito imenso sobre seu bem-estar:”

Como era de esperar, a aposentadoria aumenta a felicidade da maioria dos adultos. ”Isso se deve a duas coisas”; diz De Neve. ”Uma está ligada a poder fazer mais, porque o equilíbrio vida-trabalho pende mais para o lado da vida. Há mais tempo para o lazer. A outra coisa é que as pessoas passam a adaptar suas expectativas, que talvez fossem altas demais quando começaram a trabalhar. Elas aceitam o resultado da vida:”

 

FELICIDADE E SAÚDE

Viva o suficiente e provavelmente você enfrentará doenças ou incapacidade. Mas, com a atitude certa, esses reveses não afetarão seu nível de felicidade. ”Com os participantes de nosso estudo, aprendemos que envelhecer com perdas e doenças são desafios que trazem novas ideias e apreciação da vida”; diz Lisa Carver.

Pesquisadores da Itália descobriram que as pessoas com percepção positiva do envelhecimento são mais felizes do que quem tem percepção negativa. ”A percepção positiva do envelheci­ mento nem sempre está ligada à boa saúde’; diz Ligia Dominguez, especialista em geriatria da Universidade de Palermo e um dos autores do estudo. ”Em nossa prática clínica cotidiana, vemos exemplos tocantes dessa capacidade humana de resiliência em muitos idosos que, de forma independente ou com o apoio social ou da família, mantêm uma boa qualidade de vida e declaram se sentir bem, apesar dos problemas de saúde:”

FELICIDADE E CUIDADOS PESSOAIS

O otimismo e a resiliência podem ajudar você a ser feliz na velhice. ”O mecanismo da associação entre otimismo e envelhecimento bem-sucedido talvez seja que os idosos otimistas têm capacidade de lidar com os golpes da vida”; diz Carver. ”Eles são resilientes. Exprimem satisfação com a vida, apesar das perdas e dos planos frustrados, porque adaptaram suas expectativas e aceitaram que eventos considerados negativos podem ter resultado positivo:”

A vida levou Maggie Georgopoulos, de 46 anos, moradora de Glasgow, na Escócia, a um caminho sinuoso por vários empregos e continentes. No entanto, ela encontrou felicidade na vida que tem. ”Minha felicidade vem de dentro de mim”; diz ela. ”Como criei um caminho para a vida que gostaria de ter, fico bem quando algo dá errado, porque posso ver o bem que está por vir:”

DICAS DE FELICIDADE NA VIDA

Para quem pretende permanecer feliz até o fim de seus dias, os pesquisadores recomendam o seguinte:

1.  Ajuste sua atitude – Talvez você não seja capaz de controlar o que lhe acontece, mas pode controlar sua reação. ”É possível desenvolver o hábito de ver o lado positivo das coisas”; diz Ligia Dominguez. ”Muita gente se queixa de não ser feliz, mas não faz nada para mudar a situação.”

2.  Aprender a ser mais otimista é um bom primeiro passo. ”Comece reconhecendo os pensamentos negativos assim que surgirem e questione-os”; diz ela. ”Por exemplo, a situação é tão ruim quanto parece? Haverá outra maneira de abordá-la? O que posso aprender com essa experiência para aplicar no futuro?”

3.  Interaja com seu cônjuge de outra maneira – Depois de passar décadas juntos, muitos maridos e mulheres estão tão acostumados um com o outro que não são tão gentis quanto deveriam. Isso pode causar infelicidade no casamento, o que afeta o nível de felicidade cotidiana. ”Não é justo tratar o cônjuge tão mal quanto você se trata’; diz John Helliwell. ”Pergunte-se: esse é o tipo de comportamento que eu teria com um bom amigo? Se você tratar seu cônjuge como se fosse um amigo, isso envolverá me­ nos pressupostos e mais positividade.”’

4. Concentre-se no que já tem – Se você está mais fraco ou menos ágil do que há alguns anos, agradeça por ainda estar lúcido, quando tantos outros sofrem com demência e perda de memória. ”Esse é um exemplo excelente de pessoa positiva e otimista, que aprecia o que tem em vez de se concentrar no que não tem”; diz Dominguez. ”Ser grato faz parte do cultivo de uma atitude positiva: procurar oportunidades de saborear os pequenos prazeres da vida cotidiana e concentrar-se nos aspectos positivos daquele momento, e não nas sombras do passado nem nos maus pensamentos que podem estragar tudo.”

5.  Retribua – Depois de se aposentar, você terá mais propósito na vida e mais razões para se ligar aos outros regularmente se fizer trabalho voluntário em sua comunidade. ”É benéfico se envolver mais”; diz Meik Wiking, ”principalmente naquele estágio em que o trabalho fica para trás e a identidade da pessoa não se liga mais à profissão:’ Encontre uma causa ou entidade que seja importante para você e descubra como ajudar. ”Acho que muita gente vê o trabalho voluntário como bom para os outros, mas desdenha o benefício que podemos obter”; diz Wiking. ”Esse é um modo de fazer e conhecer novos amigos. Talvez também ajude as pessoas a se tornarem mais gratas pelo que têm, porque certos tipos de trabalho caritativo nos expõem a como vive quem recebe a caridade.

 Vale a pena ser feliz2

GESTÃO E CARREIRA

REDESENHE SUA CARREIRA

Como usar a metodologia do design thinking para realizar mudanças em sua vida profissional e ser mais feliz no trabalho.

Redesenhe sua carreira

O que é uma vida bem projetada? Segundo Bill Burnett e Dave Evans, professores de design na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e autores do livro o Design da Sua Vida (Rocco, 49,50 reais), isso acontece quando há alinhamento entre quem você é, aquilo em que acredita e o que pratica.

A definição pode até parecer simples. Mas o fato é que, para alcançar essa simplicidade, é preciso esforço. Os acadêmicos americanos perceberam isso ao notar que seus estudantes saiam da universidade com a vida desorganizada e cheios de dúvidas quanto ao futuro profissional. Para ajudá-los nessa jornada, eles criaram, em 2.006, o curso Design de Vida, que une as ferramentas visuais do design ao planejamento dos próximos passos na carreira e que já atraiu cerca de 3000 alunos de todo o mundo e tem lista de espera.

No Brasil, essa sensação de inquietude em relação à trajetória profissional também acontece. De acordo com uma pesquisa de 2.015 da Isma­Brasil (International Stress Management Association), 72 % da população está insatisfeita com o trabalho. As explicações podem passar por problemas coma chefia ou pelo excesso de atividades, mas o fato é que, para Bill, a maioria se sente assim porque se deixou levar pelo acaso sem refletir, com calma, sobre o que realmente gostaria de fazer. “Há muitas vozes que ficam martelando na cabeça. Pode ser a dos pais, dos amigos ou até de desconhecidos. A única que importa é a sua própria voz. Mas nem todos a escutam e, depois, se sentem decepcionados com a carreira”, diz o professor de Stanford.

No fundo, a infelicidade ocorre porque existe a sensação de desalinhamento entre o que sequer e o que se “pode viver”. Mas essa discrepância muitas vezes resulta de crenças equivocadas que fazem com que as pessoas pensem, por exemplo, que só se é feliz ganhando muito dinheiro ou que o diploma determina, necessariamente, as escolhas profissionais – uma percepção que já caiu por terra nos Estados Unidos, onde cerca de três quartos dos profissionais têm uma carreira diferente de sua área de formação, de acordo com uma análise do Federal Bank Reserve de Nova York, de 2013, com base em dados do Censo americano. “A crença disfuncional é um mito que impede muita gente de projetar e viabilizar a vida que quer para si”, dizem os autores num trecho do livro.

A questão é que essas percepções mentais – desenvolvidas durante nosso crescimento e que atuam de forma inconsciente – podem embaçar nossa visão de futuro e até, em casos mais graves, nos deixar paralisados para tentar algo novo. “Ficamos pensando que não há o que fazer, pois “é assim que o mundo funciona”, diz David Sender, psiquiatra, do Rio de Janeiro. “Permitir que essas crenças se renovem é difícil e exige dedicação.” E é que entra o design thinking.

 EXPERIMENTAÇÃO

Ao contrário do que diz o senso comum, que crê que a principal habilidade dos designers é fazer coisas bonitas, para Tim Brown, presidente da Ideo, um dos maiores escritórios de design do mundo, o que diferencia esses profissionais é sua capacidade de buscar soluções criativas e funcionais com a formulação de perguntas e a experimentação. Foi esse raciocínio que o levou a difundir o termo design thinking pelo Vale do Silício, com o lançamento do livro Design Thinking -Uma Metodologia Poderosa para Decretar o Fim de Velhas Ideias. O objetivo é fazer com que as pessoas tenham o olhar de “solucionadoras de problemas” do cotidiano. “A metodologia incentiva a explorar alternativas”, disse Tim numa palestra do TED.

Basicamente, o design thinking se apoia em três grandes pilares: empatia (resolver um problema com base em uma necessidade humana); colaboração (que pode ser entre pequenos ou grandes grupos); e experimentação (os testes são essenciais para a metodologia). “A beleza do design é transformar dados em informação visual relevante, e o protótipo permite errar e aprender rapidamente”, afirma Hilton Menezes, sócio- fundador da consultoria de inovação Kyvo, de São Paulo.

Construir para pensar. Esse conceito tem obtido tanto sucesso por fazer uma inversão de lógica: em vez de “pensar para construir”, como faz a indústria, aqui é preciso construir para pensar”. “Dominar esse pensamento aumenta a sensação de controle, pois ajuda a identificar o problema e oferecer soluções adaptáveis a eventuais mudanças ao longo do caminho”, diz Bill, da Diversidade de Stanford.

No Brasil, no entanto, o mundo dos negócios ainda está apegado ao tradicional “pensar para construir”. “Vemos as pessoas replicando padrões e resultados de coisas que deram certo no passado para tentar dar o próximo passo”, diz Juliana Proserpio, fundadora da Echos, laboratório de inovação que usa a técnica do design thinking, de São Paulo. Mas é preciso fazer algo novo se quisermos resultados diferentes – e, para isso, deve-se ter uma visão menos cartesiana dos processos. “Somos os designers de nossa vida. Nós nos esquecemos de que nós mesmos podemos construir um caminho mais desejável”, afirma Juliana.

Adotar esse raciocínio é importante, também, para pensar sobre o futuro e estar preparado para as transformações internas e externas. “Em tempos de mudanças, como a flexibilização do trabalho, precisamos revisar nossas escolhas, porque as soluções existentes são ultrapassadas”, diz Anderson Sant’Anna, professor na Fundação Dom Cabral, em Nova Lima (MG). Ou seja, com as ferramentas certas, é possível criar uma nova vida ou fazer pequenos ajustes de rota. Não é preciso esperar o alinhamento dos astros para que sua vida entre nos eixos. Você mesmo pode redesenhá-la – a qualquer hora e em qualquer lugar.

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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 21: 1-11

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A Entrada de Cristo em Jerusalém

Todos os quatro evangelistas registram essa passagem da entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, cinco dias antes da sua morte. A Páscoa ocorria no décimo quarto dia do mês, e esse era o décimo, o dia que a lei indicava, que deveria ser tomado o cordeiro pascoal (Êxodo 12.3) e consagrado para esse culto. Nesse dia, portanto, Cristo, o nosso Cordeiro, que seria sacrificado por nós, seria exibido publicamente. De modo que esse foi o prelúdio à sua Paixão. Ele havia se hospedado, por algum tempo, em Betânia, uma aldeia não muito distante de Jerusalém; ali, na ceia, na noite anterior, Maria tinha ungido os seus pés (João 12.3). Mas, como é usual com os embaixadores, Ele adiou a sua entrada pública até algum tempo depois da sua chegada. O nosso Senhor Jesus viajava muito, e o seu costume era viajar a pé da Galileia até Jerusalém, algumas dezenas de milhas, o que era, ao mesmo tempo, cansativo e humilhante; além de cansativas, as viagens se davam em meio a muita poeira. Ele passava por todos esses desconfortos quando andava “fazendo o bem”. Como é inconveniente que os cristãos se preocupem com a sua própria comodidade e bem-estar, quando o seu Mestre tinha tão pouco disso! Mas, pelo menos uma vez em sua vida, Ele cavalgou em triunfo; foi quando entrou em Jerusalém para sofrer e morrer, como se aquele fosse o prazer e a satisfação que Ele cortejava; e assim Ele começava a parecer grandioso.

Aqui, temos:

 I – A provisão que foi feita para essa solenidade; e ela foi muito pobre e simples, e de maneira a evidenciar que o seu reino não era deste mundo. Não houve arautos, nem soou nenhuma trombeta diante dele, nenhum carro de estado, nenhuma vestimenta de cerimônia; tais coisas não estariam de acordo com a sua situação atual de humilhação, mas seriam completamente superadas na sua segunda vinda, para a qual a sua aparência magnífica está reservada, quando a última trombeta soará, os anjos gloriosos serão seus arautos e servos, e as nuvens, os seus carros. Mas nessa aparição pública:

1.  A preparação foi repentina e improvisada. Para a sua glória no outro mundo, e a nossa com Ele, a preparação foi feita antes da fundação do mundo, pois essa era a glória à qual Ele estava ligado. Para a sua glória neste mundo, Ele estava morto, e, portanto, embora a tivesse em perspectiva, Ele não fez previsões relativas a ela, mas quanto ao que viria depois. Eles tinham vindo a Betfagé, que ficava na periferia de Jerusalém, e era considerada (dizem os doutores judeus), em todos os aspectos, como uma rua comprida e esparsa que ficava junto ao Monte das Oliveiras. Quando ali chegou, Ele enviou dois dos seus discípulos – alguns opinam que foram Pedro e João – para lhe conseguirem uma jumenta, pois Ele não tinha nenhum animal preparado para si.

2. Isso era muito simples. Ele mandou buscar somente uma jumenta e o seu jumentinho (v. 2). Os jumentos eram muito usados para as viagens naquela região; somente homens importantes possuíam cavalos, e eram usados para a guerra. Cristo poderia ter convocado um querubim para levá-lo (Salmos 18.10), mas, embora pelo “seu nome Jeová”, que diz que Ele é Deus, Ele cavalgue as nuvens, pelo seu nome Jesus, “Emanuel, Deus conosco”, nessa condição de humilhação, Ele cavalga uma jumenta. Alguns opinam que Ele fazia referência, aqui, ao costume em Israel, de que os juízes cavalgassem jumentas brancas (Juízes 5.10), e os seus filhos, jumentos (Juízes 12.14). E Cristo, dessa forma, entrou, não como um Conquistador, mas como o Juiz de Israel, que veio a este mundo para julgar.

3. O animal não era de Jesus, mas emprestado. Embora Ele não tivesse uma casa própria, poderia se pensar que Ele fosse como alguns viajantes que se hospedavam com os seus amigos; assim Ele poderia ter tido uma jumenta, para levá-lo de um lugar a outro; mas, por amor de nós, Ele “se fez pobre” (2 Coríntios 8.9). Diz-se normalmente que “os que vivem de coisas emprestadas, vivem na dor”; nesse aspecto, portanto, assim como em outras coisas, Cristo era um “homem de dores”, pois Ele não tinha nada dos bens deste mundo, exceto o que lhe era dado ou emprestado.

Os discípulos que foram enviados para tomar emprestada uma jumenta para Jesus foram instruídos a dizer: “O Senhor precisa deles”. Aqueles que estão em necessidade não devem se envergonhar da sua própria necessidade, nem dizer, como o mordomo injusto: “De mendigar tenho vergonha” (Lucas 16.3). Por outro lado, ninguém deve explorar a generosidade de seus amigos, indo implorar ou tomar emprestado se não tiver necessidade. No empréstimo dessa jumenta:

(1). Nós temos um exemplo do conhecimento de Cristo. Embora a situação fosse completamente casual, ainda assim Cristo podia dizer aos seus discípulos onde poderiam encontrar uma jumenta presa e um jumentinho com ela. A sua onisciência se estende até a menor das suas criaturas, jumentas e os seus jumentinhos, e o fato de estarem soltos ou presos. “Tem Deus cuidado dos bois?” (1 Coríntios 9.9). Sem dúvida, Ele cuida, e não pôde ver a jumenta de Balaão espancada. Ele conhece todas as criaturas, e elas servem aos seus propósitos.

(2). Nós temos um exemplo do seu poder sobre os espíritos dos homens. Os corações dos menores súditos, assim como os dos reis, estão na mão do Senhor. Cristo afirma o seu direito de usar a jumenta, pedindo aos discípulos que a tragam a Ele: toda a terra é do Senhor. Mas Ele prevê algum obstáculo que os discípulos poderão encontrar nesse serviço; eles não devem reivindicar os animais, mas à vista do proprietário; tampouco devem fazê-lo pela força e com armas, mas com o consentimento do proprietário, pois Ele se responsabiliza pelo que eles vão tomar emprestado: “Se alguém vos disser alguma coisa, direis que o Senhor precisa deles”. O Senhor Jesus Cristo nos ajudará em todas as coisas que Ele nos designar a fazer. Ele também nos equipa­ rá com as respostas às objeções a que poderemos estar repentinamente sujeitos, fazendo-nos prevalecer, como ocorreu, por exemplo, nesse episódio: “E logo os enviará”. Cristo, ao solicitar a jumenta para o seu ser­ viço, mostrou que Ele é o Senhor dos exércitos; e, para o influenciar o proprietário a lhe enviar o animal sem maiores garantias, mostrou que Ele é o “Deus dos espíritos de toda carne”, e que pode fazer com que os corações dos homens se curvem.

(3). Aqui temos um exemplo de justiça e honestidade. O Senhor Jesus não usou a jumenta sem o consentimento do dono, ainda que ela lhe fosse prestar um serviço tão pequeno, como cavalgar por uma rua ou duas. Segundo a interpretação de alguns, a sentença final nos dá uma regra de justiça: “Direis que o Senhor precisa deles; e logo os enviará” (isto é, o Senhor os enviará), “e cuidará para que eles sejam entregues em segurança ao proprietário, assim que acabar de usá-los”. Observe que aquilo que emprestamos, nós precisamos devolver no devido tempo, e em boas condições, pois “o ímpio toma emprestado e não paga”. Devemos tomar cuidado com as coisas emprestadas, para que elas não sejam danificadas. “Ai! Meu senhor! Porque era emprestado.”

 II – A predição que foi cumprida (vv. 4,5). O nosso Senhor Jesus, em tudo o que fez e sofreu, tinha em vista o cumprimento do que havia sido dito nas Escrituras: “Para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta”. Assim como os profetas esperavam ansiosamente por Ele (todos deram testemunho dele), também Ele os levava em consideração, para que todas as coisas que tinham sido escritas sobre o Messias pudessem se cumprir nele com exatidão. Isto se refere, particularmente, ao que foi escrito sobre Ele (Zacarias 9.9), onde se inicia uma grande pregação do reino do Messias: “Dizei à filha de Sião: Eis que o teu Rei aí te vem”. Tudo isso deveria se cumprir. Considere aqui:

1.  Como é predita a vinda de Cristo: “Dizei à filha de Sião” – a igreja, o monte santo-: “Eis que o teu Rei aí te vem”. Observe:

(1). Jesus Cristo é o Rei da igreja, um dos nossos irmãos, igual a nós, de acordo com a lei do reino (Deuteronômio 17.15). Ele é ungido Rei sobre a igreja (Salmos 2.6). Ele é aceito como Rei pela igreja; a filha de Sião jura lealdade a Ele (Oseias 1.11).

(2). Cristo, o Rei da sua igreja, veio à sua igreja, mesmo neste mundo inferior; Ele vem a vocês, para governá-los, para incluí-los, para reinar por vocês; Ele é a “cabeça da igreja”, constituído acima de todas as coisas. Ele viria de Sião (Romanos 11.26), para que a lei pudesse sair de Sião. Pois a igreja e os seus interesses estavam concentrados no Redentor.

(3). A igreja foi avisada de antemão sobre a vinda do seu rei: “Dizei à filha de Sião”. Observe que a vinda de Cristo seria esperada ansiosamente, e os seus súditos estariam cheios de expectativas sobre ela: “Dizei às filhas de Sião”, que elas podem sair e contemplar o rei Salomão (Cantares 3.11). As notícias da vinda de Cristo normalmente são introduzidas com um “Eis que”. Uma observação que implica tanto em atenção como em admiração: “Eis que o teu Rei aí te vem”; contemplem-no, e maravilhem-se com Ele, contemplem-no, e lhe deem as boas-vindas. Existe um progresso real verdadeiramente admirável. Pilatos, da mesma maneira como Caifás, disse o que não sabia, naquela incrível frase (João 19.14): “Eis aqui o vosso Rei”.

2. Como a sua vinda é descrita. Quando um rei vem, alguma coisa grande e magnífica é esperada, especial­ mente quando ele vem para tomar posse do seu reino. O Rei, o Senhor dos exércitos, tinha sido visto “sobre um alto e sublime trono” (Isaias 6.1); mas não há nada parecido com isso. aqui: “Eis que o teu Rei aí te vem, humilde e assentado sobre uma jumenta”. Quando se diz que Cristo deveria aparecer na sua glória, trata-se de sua humildade, e não de sua majestade.

(2). O seu temperamento é muito manso. Ele não vem com ira, para vingar-se, mas com misericórdia, para realizar a salvação. Ele vem humilde para sofrer as maiores injustiças e indignidades pela causa de Sião, humilde para ser tolerante com as tolices e a crueldade dos próprios filhos de Sião. É fácil ir até Ele e implorar algo a Ele. Ele é humilde não somente como um mestre, mas também como um governante; Ele governa pelo amor. O seu governo é humilde e gentil, e as suas leis não estão escritas com o sangue dos seus súditos, mas com o seu próprio sangue. O seu jugo é suave.

(2). Como prova disso, a sua aparência é muito humilde. Ele vem assentado sobre uma jumenta, como alguém que não visa o poder, mas que visa servir; alguém que não veio para as batalhas, mas para as cargas; lento nos movimentos, mas seguro, leal e fiel. A predição de tudo isso, havia tanto tempo, e o cuidado tomado para que tudo se cumprisse com exatidão sugerem que isso tem um significado peculiar: incentivar as pobres almas a procurarem a Cristo. O Rei de Sião vem montado, não em um cavalo arrogante, de quem aquele peticionário temeroso não ousa se aproximar, nem de um cavalo de corrida, que aquele peticionário de passos lentos não consegue acompanhar, mas sim em uma tranquila jumenta, para que os mais pobres dos seus súditos não percam a coragem de procurá-lo. Aqui faz-se menção à profecia de um jumentinho, um filhote de jumento; e por isso Cristo mandou pedir o jumentinho com a jumenta, para que as Escrituras se cumprissem.

 III – A procissão em si (que era resultante da preparação) era tanto destituída de pompa mundana quanto acompanhada por um poder espiritual.

Considere:

1.  A sua cavalgadura. Os discípulos fizeram “como Jesus lhes ordenara” (v. 6). Eles foram buscar a jumenta e o jumentinho, não duvidando de que os encontrariam, mas para encontrá-los, e para encontrar o proprietário disposto a emprestá-los. As ordens de Cristo não devem ser discutidas, mas obedecidas; e aqueles que as obedecem com sinceridade, não terão obstáculos em fazê-lo, nem se frustrarão. Eles “trouxeram a jumenta e o jumentinho”. A humildade e a insignificância dos animais que Cristo cavalgou foram sobrepujadas pela riqueza dos seus adornos; mas isso era, como todo o resto, o que havia à mão. Eles não tinham uma sela para a jumenta, mas os discípulos puseram algumas roupas sobre ela, e isso serviu, na falta de acomodações melhores. Nós não devemos ser agradáveis, ou curiosos, nem fingir quanto às aparências externas. Uma indiferença ou uma negligência sagrada nos é bastante conveniente nesses aspectos: isto evidenciará que o nosso coração não está preocupado com isso, e que nós aprendemos a regra do apóstolo (Romanos 12.16), de nos acomodarmos às coisas humildes. Qualquer colaboração, mesmo que pequena, serve aos viajantes; e existe uma certa beleza em algum grau de indiferença, uma nobre negligência. Ainda assim, os discípulos dotaram o Senhor do melhor de que dispunham, e não fizeram nenhuma objeção ao confisco das suas roupas, quando o Senhor precisou delas. Observe que não devemos julgar as nossas roupas como sendo valiosas demais para separar-nos delas, dedicando-as ao serviço de Cristo, para que sejam as roupas dos seus membros pobres, necessitados e aflitos. “Estava nu, e vestistes-me” (cap. 25.36). Cristo se despiu por nós.

2. A sua comitiva. Não havia nada que fosse suntuoso ou magnífico. O Rei de Sião viria a Sião, e a filha de Sião sabia disso havia muito tempo; ainda assim, Ele não foi recebido pelos nobres da região, nem pelos magistrados da cidade, com as suas formalidades, como seria de se esperar. Ele deveria ter recebido as chaves da cidade, e deveria ter sido conduzido, com todo o conforto possível, para o trono do julgamento, o trono da casa de Davi; mas não aconteceu nada disso. Ainda assim, Ele teve a sua comitiva, uma multidão verdadeiramente grande. Apenas as pessoas comuns, o povo (que alguns poderiam chamar de ralé, ou populacho), honrou a solenidade do triunfo de Cristo, e ninguém além deles. Mais tarde, os principais dos sacerdotes e os anciãos se uniram à multidão que o maltratou na cruz; mas nós não vemos nenhum deles acompanhando a multidão que o honrou. “Vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis” (1 Coríntios 1.26,28). Observe que Cristo é honrado mais pela multidão do que pela magnificência dos seus seguidores, pois Ele valoriza os homens pelas suas almas, não por seus cargos, nomes ou títulos honoríficos.

A respeito dessa grande multidão, nos é dito:

(1). O que ela fez. Segundo o máximo da sua capacidade, ela se esforçou para honrar a Cristo.

[1]. “Muitíssima gente estendia as suas vestes pelo caminho”, para que Ele pudesse passar sobre elas. Quando Jeu foi proclamado rei, os capitães puseram suas vestes sob os pés dele, como prova da sua submissão ao rei. Observe que aqueles que aceitam a Cristo como seu Rei, precisam colocar tudo o que têm sob os seus pés: as roupas, como prova tia sinceridade; pois quando Cristo vem, embora não quando qualquer outra pessoa venha, deve-se dizer à alma: Abaixe-se, para que Ele possa passar por cima de ti. Alguns interpretam que essas vestes tenham sido espalhadas, não no chão, mas sobre as cercas ou muros, para adornar as estradas; da mesma maneira como,

para embelezar uma cavalgada, as sacadas são adorna­ das com tapeçarias. Isso era apenas uma pequena cerimônia, mas Cristo aceitou a boa vontade do povo; e nós aprendemos, dessa maneira, a planejar como dar as boas-vindas a Cristo e à sua graça, a Cristo e ao seu Evangelho, em nossos corações e em nossas casas. Como podemos expressar o nosso apreço a Cristo? Que honra e que dignidade devem ser oferecidas a Ele?

[2]. “Outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam pelo caminho”, como costumavam fazer na Festa dos Tabernáculos, como símbolo de liberdade, vitória e alegria; pois o mistério dessa festa é particularmente dito como pertencendo ao período do Evangelho (Zacarias 14.16).

(2). O que ela dizia: “Tanto as que iam adiante como as que o seguiam, clamavam, dizendo: Hosana ao Filho de Davi!” (v. 9). Quando carregavam ramos na Festa dos Tabernáculos, eles estavam acostumados a gritar Hosana, e, consequentemente, a chamar os seus ramos de seus hosanas. Hosana significa: “Salva, Senhor, nós te pedimos”, uma referência ao Salmo 118.25,26, onde o Messias é profetizado como Cabeça de esquina, embora os edificadores o rejeitassem; e todos os seus súditos leais entram triunfando com Ele, e acompanhando-o com desejos sinceros de prosperidade em todas as suas obras. Hosana ao Filho de Davi significa: “Nós fazemos isto em honra ao Filho de Davi”.

As hosanas com que Cristo foi saudado indicam duas coisas:

[1].  Que estão dando as boas-vindas ao seu reino. Hosana significa a mesma coisa que “Bendito o que vem em nome do Senhor!”. Tinha sido predito, a respeito do Filho de Davi, que “todas as nações lhe chamarão bem-aventurado” (Salmos 72.17). Esses começaram, e todos os verdadeiros crentes de todas as épocas concordam com isso e o chamam bem-aventurado; essa é a autêntica linguagem da fé. Observe, em primeiro lugar, que Jesus Cristo “vem em nome do Senhor”. Ele é santificado e enviado ao mundo como Mediador; “a este o Pai, Deus, o selou”. Em segundo lugar, a vinda de Cristo em nome do Senhor é merecedora de toda a aceitação. E nós todos devemos dizer: “Bendito o que vem”, para louvá-lo, e para termos prazer nele. Que a sua vinda em nome do Senhor seja mencionada com grande amor, para o nosso consolo, e com aclamação de alegria, para a sua glória. Nós podemos dizer: “Ele é bendito”, pois é nele que somos bem-aventurados. Podemos muito bem segui-lo com o melhor que tivermos, pois o Senhor virá ao nosso encontro com o melhor que Ele possui.

[2]. Que estão desejando o melhor para o seu reino. Isto estava sugerido nos brados de Hosana, que eram um fervoroso desejo de que Ele tivesse prosperidade e sucesso, e que o seu reino pudesse ser um reino vitorioso: “Que este reino receba prosperidade agora”. Se eles o entendiam como um reino temporal, e tinham os seus corações voltados para um reino temporal, estavam enganados; o tempo se encarregaria de corrigir esse erro. No entanto, a sua boa vontade foi aceita. Observe que é nosso dever desejar e orar fervorosamente pela prosperidade e pelo sucesso do reino de Cristo no mundo. Assim, “continuamente se fará por ele oração, e todos os dias o bendirão” (Salmos 72.15), para que toda a felicidade possa atender os seus interesses no mundo, e que, embora Ele possa estar montado em uma jumenta, ainda assim, na sua majestade, possa “cavalgar prosperamente pela causa da mansidão” (Salmos 45.4). Isto é o que queremos dizer quando oramos: “Venha o teu reino”. Eles acrescentaram: “Hosana nas alturas!” Que o mais elevado grau de prosperidade o acompanhe, que Ele tenha um nome acima de todos os outros, um trono acima de todos os tronos. Ou: Que o louvemos da melhor maneira, para que a sua igreja ascenda ao céu, às alturas mais elevadas, e dali traga paz e salvação (veja Salmos 20.6). “O Senhor salva o seu ungido; ele o ouvirá desde o seu santo céu”.

3. Aqui temos a recepção de Jesus em Jerusalém (v. 10): “Entrando ele em Jerusalém, toda a cidade se alvoroçou”. Todos tomaram conhecimento dele; alguns ficaram maravilhados pela novidade daquela situação, enquanto outros zombaram da sua humildade. Talvez alguns, que esperavam a “Consolação de Israel”, tenham se sentido motivados pela alegria; outros, da classe farisaica, motivados pela inveja e pela indignação. Assim, vários são os impulsos nas mentes dos homens, diante da chegada do Reino de Deus!

A respeito dessa comoção, sabemos:

(1). O que disseram os cidadãos: “Quem é este?”

[1]. Aparentemente, eles eram ignorantes a respeito de Cristo. Em bora Ele fosse a Glória do seu povo, Israel, ainda assim Israel não o conheceu. Embora Ele tivesse se distinguido pelos muitos milagres que realizou entre eles, ainda assim as filhas de Jerusalém não o diferenciam de outro amado (Cantares 5.9). O Santo, desconhecido na cidade santa! Em lugares onde a luz mais clara resplandece, e se faz a maior profissão de religião, pode haver mais ignorância do que nos locais que ainda não receberam o privilégio de ter a presença de Deus.

[2].  Mas eles queriam informações sobre Ele. Quem é este, que recebe esta aclamação, e vem chamando tanta atenção? “Quem é este Rei de glória”, cuja maior exigência é ser recebido em nossos corações? (Salmos 24.8; Isaias 63.1).

(2). Como as multidões responderam a essas perguntas: “Este é Jesus” (v. 11). As multidões estavam mais familiarizadas com Cristo do que as pessoas importantes. Vox Populi – A voz do povo, algumas vezes é Vox Dei- A voz de Deus. Na descrição que fazem dele:

[1]. Eles estavam certos em chamá-lo de “Profeta”, aquele “grande Profeta”. Até aqui, Ele era conhecido como um Profeta, ensinando e realizando milagres; agora eles o consideravam como Rei. O trabalho sacerdotal de Cristo foi, dentre os três, o último a ser descoberto.

[2].  Mas, ainda assim, eles se enganaram ao dizer que Ele era “de Nazaré”; e isto ajudou a confirmar alguns nos preconceitos que tinham contra Ele. Observe que alguns que estão dispostos a honrar a Cristo e a testificar a respeito dele, ainda assim trabalham tendo em si mesmos alguns erros a seu respeito, o que poderia ser corrigido se eles se esforçassem par a obter a informação certa.