PSICOLOGIA ANALÍTICA

AFINAL, EXISTE UMA SEXUALIDADE INFANTIL?

Durante longo tempo, ela foi calada. Preconceitos de uma longa história no Ocidente tentaram preservar esse silêncio afirmando o mito da “inocência da criança”.

Afinal, existe uma sexualidade infantil

É intrínseco ao ser humano nascer prematuro. A prematuração lhe é própria, dado o estado de dependência que exige por um longo tempo a presença de um outro que possa lhe oferecer a garantia, tanto de vida biológica como de vida psíquica. É este corpo prematuro que irá carregar as marcas dos seus começos, as marcas do movimento que surge desde o nascimento, passando pelo controle da motricidade, até a aquisição da linguagem. Portanto, é esse corpo que, mesmo nascendo na sua naturalidade, irá inevitável e lentamente imergir na cultura, realizando um percurso que será o palmilhar de sua história – de suas vivências psíquicas.

Na sua impotência, o corpo do recém-nascido recebe as marcas dos estímulos internos e externos que o assaltam e é o lugar onde vêm se inscrever a harmonia e a desarmonia dos ritmos entre o infans e sua mãe, as frustrações e as satisfações das necessidades fundamentais.

Desta maneira, a história singular de cada homem dependerá da existência de um outro humano, ao qual Freud nomeia de “semelhante”, ou seja, um outro humano já submetido à cultura, às leis da interdição do incesto. Portanto, referir-se a um humano é admiti-lo como efeito da relação com um “semelhante”.

Durante longo tempo, a sexualidade infantil foi calada. Preconceitos de uma longa história no Ocidente tentaram preservar esse silêncio afirmando o mito da “inocência da criança”. O não reconhecimento dessa sexualidade desconsiderou que comportamentos que ocorriam na vida adulta encontravam sua real justificativa na sexualidade infantil.

Freud, em 1905, ao estabelecer um elo de semelhança entre as práticas perversas no adulto e os comportamentos na criança, reconheceu haver uma ligação entre esses comportamentos e a existência de uma sexualidade infantil. É inegável que algumas alusões sobre a “vida amorosa da criança” já houvessem sido feitas antes de Freud. No entanto, coube ao criador da psicanálise ter estabelecido o papel que a sexualidade infantil desempenha no desenvolvimento psíquico do ser humano, tornando-se esta uma das primeiras grandes descobertas de Freud.

São as dificuldades ocorridas na infância que irão provocar impedimentos, inibições e sintomas diversos na vida adulta. A reconstituição da sexualidade infantil e de seus traumas poderá ser realizada através do tratamento psicanalítico, podendo promover elaboração, mudança psíquica e ressignificações.

A expressão “sexualidade infantil” passou a ser empregada por Freud em 1917, para designar as atividades ocorridas na primeira infância, na qual a criança busca prazeres no seu próprio corpo. Em sua obra, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud formulou a existência de fases vivenciadas pela criança: a oral, a anal, a genital e a fálica. Entendemos essas fases mais como expressões vivenciais do que acontecimentos ocorridos no interior de uma rígida cronologia que as demarque.

A CRIANÇA E A LIBIDO

Na chamada fase oral é inaugurado o momento em que a criança, sendo separada da mãe pelo corte do cordão umbilical, passa a viver uma relação simbiótica por meio do seio materno. A ligação da criança ao seio materno, ocorrendo em torno da função alimentar, é responsável pelo primeiro estádio da vida afetiva, em que a satisfação deriva de uma atividade que é originalmente ligada à alimentação, mas dela se desliga muito rapidamente, para tornar-se a busca de um prazer independente da função alimentar. Na fase oral, uma das manifestações mais evidentes do componente puramente libidinal se exprime na sucção do polegar da criança, fora das mamadas. Essa fase corresponde, aproximadamente, ao primeiro ano da criança e termina habitualmente com o desmame.

Já a fase anal se instala a partir do controle esfincteriano no ato da defecação. Nesse momento surge na criança o controle que lhe possibilita o prazer de expulsar ou de reter. Esse controle esfincteriano que está sob a dependência da maturação neuromuscular, surge na criança em torno do fim do primeiro ano, ao mesmo tempo em que se esboçam os primeiros passos, portanto, quando o controle esfincteriano e a aquisição da marcha vêm ser investidos de uma significação análoga a de uma independência nascente. Sede de todas as sensações do erotismo anal, a mucosa anorretal representa, nessa fase, a zona erógena provocada pela passagem fecal, encontrando na excreção um estimulante.

Em 1905, Freud, chocando a sociedade da época, dizia “A criança utiliza esta estabilidade erógena retendo as matérias fecais até que o acúmulo das matérias produza contrações musculares violentas, e que, passando pelo esfíncter Anal, elas provoquem sobre a mucosa uma viva excitação.

Podemos supor que a esta sensação dolorosa se acrescente um sentimento de volúpia” (Freud, 1905). Este controle que é aquele que a criança exerce ao mesmo tempo sobre seu próprio corpo e sobre o mundo exterior, se duplica de uma satisfação no plano da sexualidade infantil.

Nesse período, a relação da criança com o objeto é constituída em termos da posse: todo objeto de seu desejo é alguma coisa em relação ao qual ela exerce direitos e todo objeto é assimilável à posse, a mais primitiva: suas matérias fecais. Essa ligação que estrutura sua relação ao objeto, carrega, assim, a marca da ambivalência: a criança pode de um lado, tentar ganhar este objeto para si, dele apropriar-se, ou, para se falar numa linguagem “anal”, retê-lo; ou ela pode, ao contrário, recusar este objeto rejeitando-o, expulsando-o.

Encontramos na componente sádica, cal como ela existe na libido infantil, duas tendências opostas, ambas gratificantes: uma dessas tendências seria destruir o objeto externo; a outra, conservá-lo e exercer sobre ele um controle. Assim, os componentes anais eróticos e sádicos, combinam nas duas fases: a primeira onde o sujeito retém e controla o objeto, a segunda onde ele o expulsa e o destrói.

Já na fase fálica a criança abandona o investimento libidinal da zona anal, em benefício de um novo domínio erógeno que aparece. O abandono ou a solução dos conflitos afetivos centrados sobre a analidade – que na evolução normal, surge em torno de dois anos – é substituído pelas novas preocupações que afirmam o interesse da criança pela zona genital e todas as funções que a ela se ligam. Uma observação sem preconceito permite encontrar essas manifestações em todas as crianças nessa fase.

É também quando a criança entra na fase fálica que a mãe é capaz de nomear para ela a figura do pai, que a criança vai poder viver a dor dessa separação e o reconhecimento da figura paterna. Em Organização genital infantil da libido (1923), Freud lembra que “a característica principal desta organização infantil é o que a diferenciada organização genital definitiva do adulto. Não existe um primado do genital, mas um primado do falo”.

“No decorrer dessas buscas”, nos diz Freud, “a criança chega à descoberta de que o pênis não é um bem comum a todos os seres que se lhe assemelham […]. Sabemos como as crianças reagem às primeiras impressões provocadas pela ausência do pênis. Negam a ausência e, creem ver, apesar de tudo, um membro: lançam um véu sobre a contradição entre observação e preconceito. Achando que ele ainda está pequeno e que crescerá dentro em pouco, chegam lentamente a esta certeza, tendo em seguida sido retirado. A ausência de pênis é concebida como o resultado de uma castração e a criança encontra-se agora no dever de enfrentar a relação da castração com sua própria pessoa (Freud, Organização genital infantil, 1923).

Segundo Freud, o menino, apesar de perceber desde o início as diferenças entre homens e mulheres, não tem a possibilidade de englobar nessa diferença a diversidade relativa aos órgãos genitais, como por exemplo, os testículos.

A ANGÚSTIA DE CASTRAÇÃO

Assim, o menino atribuiria a todos os seres vivos, homens e animais, órgãos genitais iguais aos seus, pondo-se a procurar, mesmo nos objetos inanimados, um membro igual ao seu. Por admitir a existência de um único órgão sexual, o masculino, para ambos os sexos, o menino perceberia a falta de pênis na mulher como o resultado de uma mutilação da qual também se veria ameaçado. Segundo Freud, a mutilação é atribuída pela criança ao pai.

Face a esta ameaça, o menino vivencia a angústia de castração, momento no qual à percepção da falta de pênis na região genital da mulher, conjugam-se advertências proferidas pela mãe ou substitutos, onde o pênis da criança era visado em suas atividades ligadas à masturbação ou à excreção. Ou ainda a falas da mãe referentes aos cuidados e preocupações quanto a supostos perigos aos quais a criança poderia estar exposta: “desça daí senão você se machuca”, “cuidado ao atravessar”, “ponha uma camisa para não se resfriar etc.

Esse conjunto de advertências ganharia significado a posteriori diante de uma ameaça afetiva. E a criança pensa: “era então verdade”. Assim, a visão da ausência do pênis na mulher de um lado, e a evocação auditiva de ditos verbais parentais, de outro, definem as duas condições principais do complexo de castração.

O aspecto essencial da experiência do com­ plexo de Édipo e do complexo de castração consiste no fato de que, pela primeira vez, a criança reconhece, ao preço da angústia, a diferença, anatômica entre os sexos. Até então ela vivia na ilusão da onipotência. Com a experiência da diferença a criança terá de aceitar que o mundo seja composto por homens e mulheres e que o corpo tenha limites.

A CRIANÇA E O MUNDO

Na vida concreta de uma criança, a angústia de castração não se expressa necessariamente tal qual o modelo teórico. Embora a teoria se revele válida, são múltiplas as maneiras como esse processo pode se expressar. É, justamente, em cada situação específica, que a angustia de castração, ao se singularizar, testemunha o complexo de Édipo.

Neste caso, é importante compreendermos que o termo falo não é o análogo do pênis enquanto realidade corporal referida ao sexo masculino. O termo falo representa valores, atributos, cuja característica é a de não pertencerem a um único indivíduo. O falo, no caso, adquire uma significação remetida a uma representação de uma perda narcísica fundamental para ingressar no mundo da Cultura. Enquanto imagem, falo estaria destituído de referência única a um objeto, podendo assim prestar-se a ser uma imagem vazia, susceptível aos vários simbolismos. Falo é um símbolo que traz para a presença valores que substituem o órgão pênis. Simbolizado de diferences representações, falo é, como todo valor, circulável, destacável de cada pessoa. Tal constatação permitiu a Freud conferir ao termo falo o estatuto de um simbolismo universal, simbolismo este garantido pela amplitude da ressignificação. Por possuir essas características, falo é um símbolo que expressa uma forma de interdição.

Justamente, devido a esse mundo de representações, dinamizado pelas significações e ressignificações, foi possível a Freud explicar as dissonâncias existentes entre a anatomia e o mundo das imagens. Portanto, seria um equívoco confundir sexo com sexualidade, pois enquanto aquele (o sexo) está ligado à anatomia, esta (a sexualidade) ocorre basicamente no interstício entre a anatomia e as representações.

Essa simbolização permite ao homem ingressar num universo de imagens. Incansável, Freud revela a importância desse universo imagético na constituição da sexualidade humana, diferenciando-a do que até então era conhecido como sexo.

Dizer, portanto, que uma criança ingressou no mundo da Cultura é ter que se considerar, a partir de uma abordagem psicanalítica, a qualidade e o modo como a criança vivenciou suas relações parentais. São os vestígios deixados por essa relação que irão aparecer na adolescência, determinando na vida adulta as relações com o Outro e, especialmente, com as imagens de autoridade ou as imagens de amor. Da maneira como foi vivido o conflito edipiano, dependerão as possibilidades de o adulto interagir com as imagens que ele forma do mundo.

Valorizado por Freud, esse universo de imagens nos lança, hoje, a novos desafios. Desafios que vêm sendo ressaltados pelo filósofo Jean Baudrillard (1990) quando este estabelece a diferença entre a imagem e o visual. Para Baudrillard, enquanto a imagem se refere a um “existo, estou aqui”, exigindo, portanto, na mesma percepção, um outro, que por sua vez demarca a existência de uma relação estruturante do narcisismo, o visual é definido como uma espécie de “imagem minimal, de definição menor, como a imagem vídeo, imagem tátil”. Acrescenta o autor que o visual distancia-se “da lógica da distinção”, nele inexistindo o “jogo de diferenças”, que segundo Baudrillard (1990) “recorre à diferença sem nela acreditar”. Trata-se, portanto, da indiferença, em que “ser, torna-se uma performance efêmera sem futuro, um maneirismo desencantado num mundo sem maneiras […]”.

Já no terceiro milênio, cabe não perder de vista a dimensão cultural garantidora da vida, sem contudo, negligenciar ou minimizar o que de novo irrompe neste novo século. É inegável o desvanecimento das imagens num mundo onde o excesso de visual, confundindo-se com as imagens, relativiza ou nega a imagem do outro, essencial para a formação e constituição do sujeito. Em face dessa tendência, a psicanálise revela-se, mais uma vez, possuidora de um importante papel social: lançar, não só Freud, mas o mico de Édipo para o terceiro milênio.

OUTROS OLHARES

ORKUT VOLTA COM HELLO

Já disponível no Brasil, nova rede social do pioneiro Orkut Büyükkõkten é lançada na Índia com a ambição de ser uma alternativa à hegemonia do Facebook.

Orkut volta com hello

Com 1,35 bilhão de habitantes, a Índia é um dos mercados mais atraentes para redes sociais. É também o novo alvo do engenheiro de software turco Orkut Büyükkõkten, conhecido como o criador da hoje nostálgica rede que levava seu nome. Há duas semanas, ele inaugurou no país asiático o serviço Hello, sua mais recente criação. Já disponível no Brasil, é uma espécie de herdeira do antigo Orkut.com, responsável por apresentar o potencial das redes sociais para muita gente. especialmente brasileiros e indianos. Enquanto esteve online. entre 2004 e 2014. a rede social chegou a 300 milhões de usuários. Começou como um projeto paralelo de Orkut quando o engenheiro trabalhava no Google – e logo se tomou sua principal ocupação. Para entrar era preciso receber um convite de outro usuário mais antigo, o que só aumentava seu apelo. Sua principal característica era reunir pessoas em comunidades nas quais podiam compartilhar gostos semelhantes. Havia milhares de grupos, para tudo: amantes de chocolate, de música alta, acordar tarde…Era uma experiência voltada para os computadores que ficou perdida com a popularização dos smartphones.

Quando a rede social encerrou suas atividades, o público acabou migrando para outras opções. principalmente o Facebook. Demorou até que o antes visionário Orkut conseguisse encontrar seu espaço. Com o Hello, ele finalmente pretende retomar a graça das comunidades. Feita especificamente para aparelhos portáteis, a rede resgata os grupos de interesse e introduz uma nova modalidade, chamada Persona, que é utilizada para definir os principais gostos de uma pessoa, do amor por gatos e cachorros até seu esporte preferido. Esses interesses, declarados pelos usuários, serão utilizados na oferta de publicidade. “As comunidades ofereciam às pessoas um espaço seguro para que elas se reunissem e dividissem seus interesses, sentimentos e paixões genuínas. Criamos toda a experiência de Hello em torno das comunidades”, disse Orkut. Com interface de apelo visual, favorece a divulgação de fotos e remete ao Instagram e ao Pinterest. Há cerca de um ano e meio no Brasil. já tem mais de um milhão de usuários. Para a campanha de lançamento na índia, Orkut se fantasiou de Super-homem e vestiu parte da equipe com trajes de super-heróis. A mensagem é clara: recuperar o lado “cult” de sua antiga rede social.

 AMBIENTE SEGURO

Um dos motivos que faz com que a maioria dos antigos usuários do Orkut lembrem dele com carinho é que a rede oferecia um ambiente praticamente livre de mensagens de ódio, ao mesmo tempo em que tinha um clima divertido de descoberta de pessoas com gostos parecidos. Ela enfrentou alguns problemas legais ao longo dos anos, mas a situação não chega nem perto do que é visto hoje no Facebook. “As companhias que cuidam das redes sociais priorizam os anunciantes, as marcas e os acionistas. Elas possuem algoritmos muito sofisticados que incorporam inteligência artificial para otimizar o tempo gasto, os cliques em anúncios e o retomo financeiro. A felicidade do usuário e as conexões entre as pessoas não são a prioridade”, afirma Orkut. Segundo ele, o resultado disso é uma falta de intimidade e espontaneidade. “Vemos nossos feeds e encontramos momentos perfeitamente coreografados, aparências e situações falsas. As redes estão nos trazendo ansiedade e depressão”.

O recente escândalo envolvendo a utilização de dados de usuários do Facebook pela Cambridge Analytica só piorou a situação da rede que dominou o mundo. Informações retiradas ilegalmente de milhões de contas foram utilizadas para influenciar eleições nos Estados Unidos e na Inglaterra. A Cambridge anunciou o fim de suas atividades, mas o estrago já estava feito. Mark Zuckerberg, criador do Facebook, foi obrigado a dar satisfações ao Congresso Americano. E sua rede social está sofrendo com um êxodo inédito. “As redes sociais deveriam ser transparentes sobre o que fazem com os dados dos usuários e com quem eles compartilham essas informações. Muitos se escondem atrás de termos de serviço. Sabemos que nem todos leem esses termos. É moralmente errado enganar usuários ao esconder suas intenções em letras miúdas”, afirma Orkut.

É nesse vácuo que o Hello pode encontrar terreno para crescer. “Acredito de todo coração que a tecnologia deveria nos conectar. Não entrar no caminho. Redes sociais devem ser criadas sobre valores como gentileza, amor, empatia e união”. A mensagem otimista de Orkut pode parecer até ingênua, mas oferece justamente uma esperança para quem se interessou pelas redes sociais nos anos 2000 e desde então não encontrou o mesmo ambiente divertido em outras plataformas. Ainda está longe de ser uma ameaça para o Facebook, mas mostra que há vida fora da rede social de Zuckerberg.

 Orkut volta com Hello2

 

Orkut volta com Hello3

GESTÃO E CARREIRA

COMO SE TORNAR UM LÍDER DO SÉCULO 21

Talento para lidar com pessoas, disposição para encarar a complexidade, espírito de equipe. Essas competências ganham o centro de uma transformação que vai forjar as novas lideranças e mudar as empresas. Você está preparado?

Como se tornar um líder do século 21

A julgar pelo que diz no mundo dos negócios, uma revolução libertadora está a caminho. “Deem ordens ao seu chefe o quanto antes: experimentem fazer isso logo no início. Se ele for o tipo certo de chefe, nada o agradará mais; se não for, ele não é a pessoa certa com quem vocês devam ficar”, afirmou um dos maiores nomes da siderurgia mundial. “Todo falatório sobre supergênios é besteira. Descobri que quando a estrelas vão embora, raramente seus departamentos sofrem”, adicionou um de seus pares. “Um empregador está sempre procurando mentes questionadoras”. disse o herdeiro de um dos grandes impérios automobilísticos. Boas-vindas à Geração Y? Não exatamente. As três frases foram ditas, respectivamente, por Andrew Carnegi (1835-1919), Charles Schwab (1862-1939) e Henry Ford II (1917-1987), dois barões do açoda virada do século19 para o 20 o neto do criador do conceito de linha de montagem. Suas práticas empresariais nunca foram propriamente democráticas. Durante uma greve conflituosa em sua siderúrgica, 1892, o mesmo Carnegie que conclama a funcionário a darem ordens aos chefes refugiou-se em sua Escócia natal e enviou 300 seguranças truculentos para dispersar os trabalhadores parados. O discurso libertário criou mofo faz tempo nas bibliotecas corporativas. mas o modelo autoritário de liderança dá sinais reais de esgotamento e algo novo começa, finalmente, a ser erguido em seu lugar. “Em grande parte uma empresa está sendo administrada, neste exato momento, por um pequeno grupo de teóricos e profissionais que já morreram há muito tempo e criaram as regras e convenções da gestão “moderna” nos primeiros anos do século 20”, afirma Gary Hamel, um dos mais influentes pensadores dos negócios da atualidade, no prefácio de O Futuro da Administração. “Contudo, a diferença das leis da física, as leis da gestão não são nem pre­determinadas nem eternas – ainda bem, pois o mecanismo de gestão está sobrecarregado com o peso de uma carga que não estava programada para carregar. Mudanças abruptas, vantagens fugazes, inovações tecnológicas, concorrentes indisciplinados, mercados fragmentados, clientes poderosos, acionistas rebeldes – esses desafios do século 21 estão pondo à prova os limites da estrutura das organizações em todo o mundo, e expondo as limitações do modelo de gestão que não conseguiu acompanhar os tempos”, escreveu Hamel.

Sacudida de um torpor de décadas para uma recessão global, muitas companhias se deram conta de que, em um período crítico de suas histórias, estão sendo comandadas por líderes do século passado. Em uma pesquisa divulgada no mês passado, a IBM constatou que 79 % de um grupo de mais de 1,5 mil CEOs de 60 países e 33 setores – pera aumento da complexidade, mas apenas 49 % sente-se preparado para enfrentá-lo. Entre as empresas americanas, 67 % admitiram, em outro  levantamento recente, que seus principais gestores precisam aprimorar habilidades de liderança, e 53 % afirmaram sentir falta de competências como planejamento estratégico e habilidades de comunicação. Muitas das principais demandas reprimidas das companhias em relação a seus líderes, como motivar gestores, desenvolver funcionários nada têm a ver com gestão de pessoas. Essa competência, antes negligenciada, está no centro de uma revolução que, segundo teóricos como Hamel, marcará o fim da era da liderança autoritária e o início de um ciclo competitivo centrado no capital humano.

ATIVOS INTANGÍVEIS

O século 21 trouxe com ele uma mudança de paradigma no modo como se gerencia. A velha economia era centrada em custo. Sua equação definidora era: preço = custo + margem. A base para a criação de valor eram os ativos tangíveis, como dinheiro, instalações e produtos. O foco estava na produção. Ou seja, na oferta de mercadorias. Isso levava os executivos a olharem sobretudo para dentro de suas fábricas. Já a nova economia, centra-se no cliente. A equação do momento é outra: valor = clientes + capital intelectual. Logo, a base para a criação de valor são os ativos intangíveis, como a capacidade de capturar a inteligência dos colaboradores e as necessidades dos clientes. O fator decisivo do sucesso é a geração de demanda. Dito de outro modo, não é a oferta que cria a demanda; é a demanda que induz a oferta. Não por acaso, a manufatura de produtos é muitas vezes terceirizada. É um mundo de fronteiras difusas, no qual os esforços conjuntos para inovar transformam em borrões os limites entre diferentes companhias. “Não sei onde acaba minha empresa e começa a do meu parceiro” é uma das frases definidoras desta era.

Naturalmente, essa mudança de paradigma traz um novo leque de competências exigidas dos líderes contemporâneos. Algumas delas formam uma pequena agenda do bem, como o compromisso com o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Não é por acaso que executivos acima do peso deram lugar a profissionais em forma, muitas vezes com físicos ­ rotinas – de atleta. O cuidado com o corpo e com a mente passou a ser reverenciado. Quem diz não ter tempo para isso provavelmente não se preocupará com o bem-estar de seus liderados. Ou o compromisso com a sustentabilidade. O executivo cobiçado não é o ambientalista, mas aquele que consegue enxergar novas formas de fazer negócios, aproveitando as demandas ambientais e sociais contemporâneas. Além de “do bem”, o executivo do século 21 é um generalista. As empresas de ponta já se preocupam menos com a especialidade do executivo e mais com sua capacidade de liderança. Décadas em um mesmo setor são cada vez menos valorizadas.

No que diz respeito à formação, finanças é uma disciplina mais importante hoje do que foi no passado. Valoriza­ se a percepção de riscos e oportunidades no mercado. Antes, o profissional financeiro era muito técnico. Agora, tem de ser estratégico. Justamente por isso, está ficando cada vez mais comum ver diretores financeiros promovidos à presidente. “Não dá para vir pelo marketing ou da operação sem muito conhecimento de finanças e assumir a presidência”, afirma Alexandre Fialho, diretor do Hay Group, uma consultoria global de gestão. Esta é uma tendência que chegou antes da crise financeira. No Brasil, está relacionada à sofisticação e à maior penetração do mercado de capitais no mundo empresarial. “Quando os juros eram muito altos, qualquer aplicação dava resultado. Agora, é preciso saber o que se está fazendo”, diz Fialho. Jim Kouzes e Barry Posner, autores do best-seller O Desafio da Liderança, realizaram recentemente uma pesquisa com milhares de profissionais dos mais variados níveis sobre as qualidades que desejam em seus líderes. O atributo visionário só perdeu para honesto. Foi selecionado por 72% dos respondentes. “Essa é a boa notícia”, afirmam Kouzes e Posner no ensaio que escreveram para o livro A Nova Organização do Futuro. “A má é que os líderes de hoje são péssimos nisso.” Isso acontece em parte porque os profissionais e as empresas são reféns do presente, pedalando incessantemente a bicicleta dos lucros trimestrais, o que os impede de parar, por alguns minutos que seja, para pensar além dos três meses que estão adiante. Isso não é novidade no mundo das companhias abertas, mas a maior complexidade dos problemas, as doses cavalares de incerteza e as jornadas de trabalho sem fim não facilitam a vida de quem tem a obrigação de ser visionário. Não é à toa que não existem muitos Steve Jobs por aí.

 REFLEXÃO EM GRUPO

Mas isso não serve de desculpa. “Lamentamos informar que nenhuma dessas pressões que mantem as pessoas reféns irá cessar”, afirmam Kouzes e Posner. Apesar das pressões diárias que mantêm sua mente aprisionada, você pode ser mais orientado para o futuro.” As dicas da dupla são de uma simplicidade desconcertante. E começam no tempo presente: perceba melhor o que acontece à sua volta e preste atenção aos sinais tênues. Maior consciência da situação atual tende a ajudar a pensar nos problemas e projetos que estão por vir. Melhor ainda se a reflexão for feita em conjunto. “O que as pessoas querem ouvir não é a visão do líder querem ouvir coisas sobre suas aspirações”, afirmam os autores. “Para ser capaz de descrever uma imagem convincente do futuro, você precisa ser capaz de compreender o que os outros querem.” É como se, para articular sua visão, o líder precisasse tomar emprestados os óculos de sua equipe. O debate sobre a competência no trabalho já enveredou por uma corrente irônica batizada de antiadministração. Uma de suas contribuições é o Princípio de Peter, cunhado em 1968 pelo educador canadense Laurence Peter, que afirma: “Em uma hierarquia, todo empregado tende a subir até seu níveI de incompetência”. Logo, “com o tempo, todo posto tende a ser ocupado por um funcionário que é incompetente para cumprir seus deveres”. A conclusão é que o trabalho é realizado pelos colaboradores que ainda não atingiram seu nível de incompetência. Depois de 42 anos, a máxima é aplicável a um universo corporativo cuja característica mais desafiadora – a tendência de aumento da complexidade. Primeiro, pela quantidade avassaladora de dados disponíveis para o gestor. Segundo, pelo aprofundamento da globalização. Um vulcão na Islândia impacta uma cadeia de suprimentos que termina na periferia de São Paulo. Tudo isso leva o ser humano a se deparar com o limite de sua incompetência. Muita gente boa já se convenceu de que é diante do desafio de fazer algo que ainda não sabemos que o aprendizado profissional se dá de forma mais rica. Desde que se tenha o que a Korn/Ferry, uma consultoria em recursos humanos chama de agilidade de aprendizagem. Isto é, talento para descobrir algo diferente que possibilite um bom desempenho em circunstâncias desconhecidas. “Lidar bem com mudanças e situações novas é um indicador mais forte de potencial e desempenho no longo prazo do que apenas inteligência”, diz Sérgio Averbach, presidente da Korn/Ferry na América do Sul. Liderar no exterior, por exemplo. O desafio das novas multinacionais brasileiras é formar profissionais com experiência multicultural.

Antes de chegar a uma companhia de capital nacional, Pérsio Pinheiro, o novo diretor de desenvolvimento organizacional da Brasil Foods, trabalhou em empresas americanas. Nelas, aprendeu o estilo rolo compressor de internacionalização. “Recebia uma caixinha pronta para aplicar em países que não necessariamente conhecia”, diz Pinheiro. “Aqui, nosso desafio é não repetir essa globalização de manual. “Ser internacional sem ser imperialista é tarefa para um novo perfil de executivo, capaz de se adaptar bem a qualquer lugar – e não adaptar qualquer lugar a seu estilo. Na hora de decidir quem terá uma oportunidade internacional, vale uma máxima futebolística: quem pede tem preferência; quem se desloca recebe. “O profissional tem de se colocar de maneira proativa. Estar disposto a um movimento lateral”, diz Pinheiro. Isso quer dizer, por exemplo, se dispor a fazer na África do Sul – uma operação de US$ 50 milhões – o mesmo trabalho que executa no Brasil, onde o faturamento é de US$ 2 bilhões. “Trata-se de um investimento na carreira.”

Tornar-se cosmopolita é uma competência que se adquire fora da sala de aula, viajando, mesmo que como turista, mas principalmente vivendo no exterior. Dois a cinco anos de experiência internacional são um dos ativos profissionais mais valorizados do momento. São necessárias uma ou duas experiências substanciais (não uma missão curta, de dois ou três meses) para ir além de uma impressão superficial da vida em um determinado país. Quanto mais estrangeira a pessoa se sente, maior sua sensibilidade aos valores locais.

 FORMAÇÃO HUMANÍSTICA

Adquirir competências fora da sala de aula é um caminho incontornável para os candidatos a líderes da era pós-autoritária. O executivo do século 21 tem de aprender a vida toda. E não pode estar centrado apenas no conhecimento técnico. Valoriza­ se, cada vez mais, uma formação humanística. Além da disposição para acompanhar a evolução da física, da biologia, da neurociência. A universidade de Berkeley, na Califórnia, está buscando esse equilíbrio entre gestão e cultura e já incorporou teatro, filosofia e outras disciplinas estranhas às escolas de negócios em seu curso de formação de executivos. “Os presidentes de empresa têm de se transformar em contadores de histórias”, diz Moisés Sznifer, sócio da consultoria Idea Desenvolvimento Empresarial. “Isso eles vão aprender no teatro e na literatura.”

Alexandre Prates, diretor do Instituto de Coaching Aplicado, está concluindo um estudo intitulado A Reinvenção do Profissional. Ele trata do que chama de competências do executivo do futuro – aquele que, supostamente, será disputado pelas organizações, independentemente de sua área de atuação. Prates destaca duas transformações entre aquelas que, nos últimos anos, apressaram a chegada do futuro: a crise global e o crescimento da classe C no Brasil, que forçou empresas, acostumadas até então a interagir com a classe média tradicional, a lidar com um novo consumidor. “As organizações tiveram de se adaptar às mudanças e, com isso, aperfeiçoaram seus processos de gestão, exigindo amadurecimento de seus profissionais”, afirma Prates. “Algumas competências tornaram-se fundamentais para que o profissional possa atender a esta nova demanda do mercado.” Entre elas estão cultura – “mais do que educação, estamos falando de conhecimento profundo, não perecível” – e obsessão por aprender.

A crise por que passam os MBAs está diretamente relacionada às novas competências demandadas pelo mercado. Esses cursos formaram um tipo de executivo perfeito para o século 20, mas não necessariamente têm a estrutura para dar aos homens e às mulheres de negócio contemporâneos a formação ampla de que necessitam. Um MBA feito cinco ou seis anos atrás já não vale muita coisa hoje. O executivo é estimulado a buscar permanentemente cursos específicos para preencher as lacunas em seu aprendizado e elevar o nível de suas competências. O termo em voga é AMP, sigla em inglês para Programa de Gestão Avançada, um curso oferecido por várias escolas de negócio de ponta a CEOs e potenciais CEOs, assim indicados por suas empresas. Em vez de abrir mão de jovens promissores por dois anos, um número crescente de companhias prefere oferecer módulos intermitentes de treinamento interno. Além de manter seus talentos no trabalho por mais tempo. as empresas têm a chance de corrigir o que muita gente no mundo corporativo considera uma distorção do currículo das escolas de negócio, o excesso de teoria.

Gurus de negócios e suas receitas do tipo tamanho único andam em baixa entre os altos executivos. O CEO de hoje não quer conhecimento pasteurizado, quer conteúdo sob medida. Tornou-se comum a prática de levar consultores renomados à companhia para discutir negócios em profundidade. Ou ir até eles. Em maio, depois de anos acalentando a ideia de trazer Jim Collins para reuniões de trabalho no Pão de Açúcar, Abílio Diniz, o principal acionista da empresa, levou sua diretoria executiva para Boulder, no Colorado, onde vive o consultor. Autor de clássicos contemporâneos como Empresas Feitas Para Vencer – que Diniz leu, fascinado, em 2005 -, Collins é possivelmente o pensador de negócios mais influente do momento. “É o sucessor de Peter Drucker”, afirma o headhunter Darcio Crespi, da Heidrick & Struggles.

Foram duas manhãs de discussões entre Collins e a equipe do Pão de Açúcar, em um hotel da cidade. À tarde, tempo para os 12 executivos brasileiros encararem a lição de casa deixada por Collins – que, de professor, no sentido convencional da palavra, não tem nada. Ele é socrático. Faz perguntas que dão origem a dinâmicas. “Quantas pessoas certas vocês têm na sua empresa?” “Quantas estão nos cargos-chave?” “Quantos cargos-chave existem na companhia?” Alguns dos participantes colocaram todos os gerentes de loja nesta última categoria. São quase 1.5 mil. Outros pensaram só na diretoria. Passam a ser menos de 50. A discussão foi longa. Mas resultou em critérios claros sobre o que são pessoas certas e pessoas errada, cargos mais ou menos importantes. Como subproduto, criou-se um ranking dos quatro principais valores do grupo:1) determinação e coragem:

2) disciplina; 3) humildade: e 4) equilíbrio emocional. No final da última sessão, Collins lançou uma pergunta desafiadora: “Se o Pão de Açúcar desaparecesse, o que o mundo perderia?”. O tópico rendeu uma tarde inteira de debates. O que ficou da viagem, para Enéas Pestana, o presidente da empresa, foi a percepção de que seu time principal de gestores acredita nos conceitos de Collins e concorda com eles. A começar pelo mais conhecido: tenha as pessoas certas no ônibus, coloque-as nos lugares corretos e não se preocupe, elas vão encontrar o melhor caminho. Crespi, o caça-talentos, aprova a metáfora. “O executivo do século 21 é esse com talento para reunir as melhores pessoas, mas tem de atuar como chofer do ônibus.”

REVISÃO CURRICULAR

Empresas que consideram indispensável o treinamento formal em negócios, mostram-se mais dispostas do que no passado a prover elas próprias a educação necessária. Para isso, no entanto, estão repensando o que precisam ensinar. Desde 1956, quando foi criado, o Instituto de Gestão da General Electric, em Crotonville, uma hora ao norte de Nova York, é sinônimo de excelência na formação de líderes. Mesmo essa instituição, porém, começa a ser questionada. Meses atrás John Sullivan, um professor de administração da Universidade de São Francisco criticou a empresa publicamente por insistir num modelo do século 20 em pleno século 21. O próprio conceito de programas de desenvolvimento que consomem muito do tempo dos executivos – 12 meses, no mínimo, nos primeiros 15 anos de cada líder da GE – levanta algumas questões. Vale a pena tirar altos executivos dos seus postos por semanas para ensinar a eles novas habilidades? Não seria melhor gastar tempo e dinheiro para aprofundar especializações ou, ao contrário, formar gestores mais generalistas? Desde que a crise financeira global atingiu em cheio a GE, derrubando o preço de suas ações de US$ 29 para US$ 6, Jeffrey Immelt, seu CEO, está repensando o modo como a companhia prepara seus executivos para liderar.

A GE gasta US$ l bilhão por ano em treinamento e chega a dedicar meses de cada ano para avaliar talentos. Mas parece convencida de que precisa reformar a grade curricular de seus programas de formação de líderes, de modo a incorporar o que sua diretora de aprendizado, Susan Peters, chama de “atributos do século 21”. Na época de Jack Welch, por exemplo, as habilidades valorizadas eram capacidade para cortar custos, eficiência e talento para fechar negócios. Na era Immelt, elas deram lugar a apetite por risco e inovação. Dentro da GE, a conversa boje é sobre os novos traços profissionais de que os líderes precisarão para prosperar, um assunto revisto a cada cinco anos na companhia. “Há cerca de um ano, começamos a refletir novamente sobre liderança, especialmente por causa da crise financeira”. afirmou Susan. “Reconhecemos que havia mais do que uma crise financeira.”

A GE está preocupada com velocidade da informação, interconexões, complexidade crescente. mudanças na tecnologia e nos meios de comunicação. “Reconhecemos que o ambiente de hoje requer ênfases diferentes e decidimos olhar mais uma vez para o modo como pensamos sobre liderança”, afirma Susan. A companhia convidou pensadores de fora para participar dessa revisão. Entre eles, David Bradley, dono da revista americana The Atlantic, e Edie Wejner, futurista e consultor de empresas. Em um esforço paralelo, pôs a principal turma de Crotonville, conhecida como EDC (da sigla em inglês para Classe de Desenvolvimento de Executivos) e formada por 35 participantes, para viajar pelo mundo durante três semanas, em busca de novas ideias. Essa tropa de elite corporativa foi enviada para 100 diferentes instituições – de uma escola do Partido Comunista na China até um time de basquete nos Estados Unidos. Sempre com a intenção de descobrir qual é a atual visão de liderança e como se ensinam as competências necessárias.

 ATRIBUTOS DO SÉCULO 21

Com o resultado desse trabalho em mãos, a GE injetou contemporaneidade em seus valores de liderança, incluindo neles os atributos do século 21. O primeiro, e talvez mais importante, é a habilidade de se adaptar. Ou seja, administrar múltiplos cenários, quer para reagir rapidamente ao derretimento das finanças, como em 2008, ou para enfrentar um desastre ambiental de proporções catastróficas, como no caso da BP. O segundo é o caráter global, a habilidade para desenvolver perspectiva cultural e fortalecer equipes profissionais em diferentes países. Na prática, do ponto de vista da matriz americana da GE, isso significa ter a capacidade de delegar com segurança em países emergentes. Em termos de comunicação, historicamente a ênfase sempre esteve mais na capacidade de expressão. Soma-se a isso, agora, o talento para ouvir e entender o que está acontecendo em todas as partes. Vem daí a demanda pelo que a GE chama de líder colaborador, capaz de ligar os pontos entre diferentes grupos de interesse na companhia. Na brasileira Natura, o programa de formação de lideranças ganhou musculatura nos últimos dois anos e foi desenvolvido a partir de parâmetros não muito diferentes dos da GE. Ele parte da constatação de que as disciplinas tradicionais não dão conta de preparar as pessoas para os desafios atuais. E apela para a chamada transversalidade de disciplinas. “Filosofia, antropologia, nanotecnologia, ciências da natureza… A ordem é ampliar a compreensão do contexto para conseguir uma atuação mais efetiva”, diz Marcelo Cardoso, vice-presidente de desenvolvimento organizacional da Natura. Uma parte pequena da formação, cerca de10%, se dá em sala de aula. O desenvolvimento para valer acontece no dia a dia. É assim que deve ser, a julgar por três dos mandamentos da agilidade de aprendizado elaborados pela Korn/Ferry:

>>> Toda e qualquer competência pode ser desenvolvida.

>>> As melhores oportunidades de desenvolvimento estão no próprio trabalho.

>>>Profissionais com potencial têm facilidade para desenvolver novas competências.

Ocorre que, na maioria dos casos, empresas e executivos escolhem os caminhos errados quando decidem correr atrás do prejuízo. Na média, 70% dos esforços típicos para aquisição de competências são centrados em cursos, 20% em programas de coaching e mentoring e apenas 10% dependem de experiências no trabalho. As evidências sugerem, porém, que o ideal é inverter a pirâmide, reduzindo o peso dos cursos a 10% e elevando o papel da experiência a 70%.

Mas atenção: aprender com a mão na massa é bem mais do que levantar cedo e ir para o trabalho todas as manhãs. Se você está cumprindo por dois ou três anos tarefas com as quais se acostumou, provavelmente não está aprendendo. Auto aperfeiçoamento profissional é um pouco como musculação. Uma competência só se desenvolve quando é exigida rotineiramente. Dói, causa desconforto, mas, com disciplina, dá resultados. Tanto quanto no passado, executivos contemporâneos valem-se de publicações especializadas – e outras nem tanto – para manter-se atualizados. Luiz Carlos Cabrera, especialista em recrutamento e treinamento de presidentes e diretores, sustenta que boa parte do conhecimento útil hoje está condensado e estruturado em revistas. ”Um bom artigo sobre um tema novo, publicado numa revista séria, muitas vezes é suficiente”, afirma Cabrera. “O importante é ter um elenco de revistas que você leia sistematicamente. Publicações de negócios daqui e de fora, além da The Economist.” Paralelamente, Cabrera sugere um programa misto para leituras mais alentadas. “Escolha dois livros por mês, um romance e um de negócios. Faço isso religiosamente”, diz. As bibliotecas dos executivos de hoje tendem a ser mais variadas que as de seus antecessores. Para cada Michael Porter em exposição há, por exemplo, um Nicholas Taleb, autor de A Lógica do Cisne Negro, um ensaio sobre a complexidade. Ler no papel ou em e-readers é questão de gosto.

O que não pode acontecer é o desperdício das ferramentas de aprendizado à distância. Em dezembro, a iTunes U, seção da loja virtual da Apple dedicada a universidades, bateu a marca de 100 milhões de downloads de conteúdo de dezenas de faculdades do mundo todo. Cases de Harvard, palestras de Stanford, está tudo lá. De graça e legalmente. Mais contemporâneo, impossível.

Como se tornar um líder do século 21- 2 

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ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 19: 1 – 2

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Cristo Deixa a Galileia e Entra na Judéia

 Aqui temos um relato da mudança de Cristo. Observe que:

1. Ele deixou a Galileia. Ali Ele tinha sido criado. Ali, naquela remota e desprezível parte do país, Ele havia passado a maior parte de sua vida; apenas por ocasião das comemorações que Ele ia para Jerusalém, e se manifestava ali; e podemos supor que, não tendo ali residência fixa quando chegou, suas pregações e milagres eram mais perceptíveis e mais aceitos. Mas isso foi um exemplo de sua humilhação, e nisso, como em outras coisas, Ele apareceu em um estado de humildade. Ele viria como um galileu, um homem do norte, a parte menos educada e refinada da nação. Até aqui, a maioria dos sermões de Cristo e a maioria de seus milagres haviam sido realizados na Galileia; mas agora, “concluindo Jesus esses discursos, saiu da Galileia”, e este foi o seu último adeus; porque (a menos que a sua passagem “pelo meio de Samaria e da Galileia”, Lucas 17.11, tenha ocorrido depois disso, o que, contudo, era apenas uma visita. Ele nunca mais veio para a Galileia novamente até depois da sua ressurreição, o que torna essa transição extraordinária. Cristo não partiu da Galileia até que houvesse encerrado o seu trabalho ali. Note que os fiéis ministros de Cristo não são afastados de nenhum lugar, até que tenham terminado o seu testemunho naquela localidade; eles também não são levados deste mundo enquanto não concluem a sua missão (Apocalipse 11.7). É muito confortável para aqueles que seguem não a sua própria vontade, mas a providência de Deus, em suas mudanças, saber que concluirão seus discursos antes de partirem. E quem desejaria continuar em qualquer lugar por mais tempo do que o necessário para realizar ali a obra de Deus?

2. Ele se dirigiu “aos confins da Judeia, além do Jordão”, para que os habitantes dali pudessem ter seu dia de visitação da mesma forma que a Galileia, pois eles também pertenciam às “ovelhas perdidas da casa de Israel”. Mas Cristo ainda se manteve naquelas partes de Canaã que se estende em direção a outras nações: a Galileia é chamada de “Galileia das nações”, e os sírios habitavam além do Jordão. Assim, Cristo insinuava que, embora se mantivesse dentro dos limites da nação judaica, Ele tinha em vista os gentios, e o seu Evangelho estava se encaminhando em direção a eles, pois esse era um de seus objetivos.

3. “Seguiram-no muitas gentes”. Onde estiver Siló, ali se congregarão os povos. Os “remidos do Senhor” são os que “seguem o Cordeiro” para onde quer que vá (Apocalipse 14.4). Quando Cristo parte, é melhor que o sigamos. O fato de Cristo ter sido constantemente seguido por uma multidão, para onde quer que fosse, era uma amostra de respeito a Cristo, embora fosse um problema constante. Mas Ele não procurava a sua própria comodidade, considerando quão má e desprezível essa turba era (como alguns os chamariam), nem fazia muita questão da sua própria glória, aos olhos do mundo. Ele “andou fazendo o bem”; e assim se segue que Ele curou a multidão “ali”. Isso mostra porque eles o seguiam: para ter suas enfermidades curadas; e eles o julgavam tão capaz e pronto para ajudar aqui como havia sido na Galileia. Pois, onde quer que esse “Sol da justiça” surgisse, traria “curas nas suas asas” (Malaquias 4.2, versão TB). Ele os curou ali, para que não o seguissem até Jerusalém, o que causaria escândalo. Ele “não contenderá, nem clamará”.

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

ALGO ERRADO NO CORPO

Um sentido pouco conhecido – e do qual na maioria das vezes sequer nos damos conta – é responsável pela percepção de estímulos internos e externos; quando essa habilidade falha, surgem distorções da imagem corporal e, em casos mais graves, as pessoas se tornam incapazes até mesmo de notar se têm calor, fome ou sede.

Algo errado no corpo

Não são raras as ocasiões em que N., uma mulher de 42 anos, simplesmente não percebe a baixa temperatura de seu corpo na época do frio, mesmo que esteja tremendo. É frequente que algum amigo tenha de avisá-la para vestir um agasalho depois de notar seus lábios roxos e pele arrepiada. Ela também parece não registrar sensação de fadiga: normalmente, não sente cansaço antes das 3 da manhã, ainda que tenha tido um dia especialmente atribulado. “Simplesmente não entendo corretamente os sinais do meu corpo”, diz.

Esse funcionamento parecia algo mais que apenas uma peculiaridade. Por isso, em setembro de 2010, N., na época com 36 anos, passou por uma bateria completa de exames psicológicos e retomou o tratamento contra anorexia nervosa, um distúrbio com o qual lutava havia mais de 20 anos. Um dos testes mediu um sentido pouco conhecido, chamado interocepção, responsável pela consciência do estado interno do próprio corpo. É essa capacidade que nos informa sobre emoções, dor, sede, fome e temperatura corporal. A forma como percebemos esses sinais, porém, varia. Da mesma maneira que muitas pessoas com distúrbios alimentares e problemas com a imagem corporal, N. mostrou dificuldades profundas relacionadas à interocepção.

Em parte, a depreciação da própria imagem corporal parece estar relacionada aos ideais de magreza, beleza e “perfeição” veiculados pela mídia e que se tornam ícones aos quais as pessoas comuns tendem a se comparar. Em junho de 2011, a Associação Médica Americana (AMA, na sigla em inglês) divulgou aos anunciantes uma solicitação para que interrompessem o uso de fotografias alteradas com recursos digitais, após diversas pesquisas apontarem a influência dessas peças expostas pelos meios de comunicação de massa sobre a imagem corporal negativa e sobre o desenvolvimento de graves transtornos alimentares, principalmente em mulheres com predisposição a esses quadros. Afinal, embora estejamos todos expostos a imagens de corpos (considerados) perfeitos, só alguns desenvolvem distúrbios relacionados à imagem corporal.

O número de pessoas insatisfeitas com a imagem do corpo não é pequeno. Quase metade das adolescentes relata estar infeliz com a aparência. O número de homens que dizem sentir grave insatisfação com a imagem corporal também está crescendo (embora ainda não possamos precisar a incidência do problema em pessoas do sexo masculino). Outro distúrbio que tem chamado a atenção de especialistas é o transtorno dismórfico corporal, em que as pessoas não conseguem parar de pensar em pequenas “falhas” (não raro, imaginárias) de sua aparência.

A maior parte dos especialistas concorda atualmente que o problema depende de diversos fatores psíquicos, biológicos e ambientais. A novidade é que pesquisas recentes apontam a interocepção como uma função biológica fundamental para compreendermos esse tipo de transtorno. Alterações nesse sentido podem estar relacionadas ao desenvolvimento de anorexia, bulimia e transtorno dismórfico corporal, e identificar o distúrbio ajudaria a desenvolver novas abordagens terapêuticas.

PARECEMOS O QUE PENSAMOS

Sabemos quando estamos satisfeitos ou com fome, com frio ou calor, com coceira ou dor no momento em que receptores localizados na pele, nos músculos e nos órgãos internos enviam sinais a uma região do cérebro chamada ínsula. Essa pequena bolsa de tecido neural está situada em uma dobra profunda da camada externa do cérebro, perto das orelhas. Essa estrutura mantém a consciência do estado interno do corpo, desempenhando um papel importante no autoconhecimento e na experiência emocional. Tanto as informações interoceptivas quanto as vindas do meio externo são processadas na ínsula. A região é responsável por relacionar, por exemplo, a forte dor que sentimos ao tocar um fogão quente com o vermelhão que aparece na mão queimada. “A integração dessas informações constitui a imagem corporal, ou seja, parecemos o que pensamos”, diz o neurocientista Manos Tsakiris, da Royal Holloway, Universidade de Londres. “Quanto maior a contribuição da interocepção em oposição a estímulos externos e visuais, melhor é a imagem corporal de uma pessoa.”

Um corredor com boa interocepção, por exemplo, pode se concentrar nas batidas firmes de seu coração e no choque de seus pés contra o pavimento, pistas úteis para orientar a velocidade e a duração da corrida. Em geral, o atleta que permanece atento ao funcionamento do organismo sente-se mais confiante, e isso termina por influir em seu rendimento. Já aquele com dificuldades na interocepção talvez surpreenda-se divagando, pensando, por exemplo, se alguém notou a flacidez de suas coxas. Pessoas com alterações nessa regulação biológica podem ter dificuldade para ancorar o “senso de si”, tornando-se excessivamente preocupadas com mínimos detalhes visuais, o que costuma resultar na depreciação da própria imagem. Pacientes com transtorno dismórfico corporal também apresentam esse tipo de problema, o que os leva a focar mais na forma do nariz do que a harmonia geral do rosto.

Imagem corporal distorcida, chamada formalmente de dismorfia corporal, pode variar desde leves preocupações sobre como um jeans pode não modelar tão bem o quadril até interpretações delirantes em relação ao tamanho e a forma do corpo, como nos casos de anorexia nervosa e transtorno dismórfico corporal. Muitos podem ter o problema inverso. Em um estudo de 2010, o cardiologista Sandeep Das e seus colegas da Universidade do Texas, Centro Médico do Sudoeste, descobriram que um em cada dez adultos obesos acreditava que seu peso estava saudável. Os cientistas acreditam que a baixa interocepção também ajuda a explicar a distorção positiva desses voluntários a respeito do próprio corpo.

Em 2004, o neurocientista Hugo Critchley e seus colegas da Universidade de Sussex, na Inglaterra, desenvolveram uma maneira fácil e confiável para medir essa experiência interna. A equipe de Critchley pediu a alguns voluntários sadios que contassem as batidas de seu coração sem tomar o pulso, enquanto os pesquisadores monitoravam eletronicamente a frequência cardíaca desses participantes. Os cientistas descobriram que aqueles com palpites mais próximos ao número real dos batimentos também marcaram mais pontos em outras medidas de sensibilidade interoceptiva, como questionários e exames cerebrais da atividade da ínsula.

“Esse teste de percepção se correlaciona bem com a maneira como julgamos outras mudanças fisiológicas, como a sensação de ‘borboletas’ no estômago”, diz Critchley.

Mesmo pessoas com facilidade para sentir seu estado interno não se dão conta disso porque não se comparam às outras. E a maioria se surpreende com os resultados quando passa por um exame (para fazer o teste, veja o quadro à esquerda).

Diferenças na habilidade interoceptiva ajudam a inferir o nível de satisfação corporal. Em um estudo de 2012, a psicóloga Christine Peat e seus colegas, atualmente na Escola de Medicina da Universidade da Carolina do Norte, aplicaram alguns testes em 214 universitárias para identificar problemas psicológicos, como ansiedade social e transtornos alimentares. Os pesquisadores descobriram que as participantes com menor pontuação em medidas da capacidade interoceptiva demonstraram maior insatisfação com o corpo, além de sintomas relacionados a transtornos alimentares, em comparação às colegas em maior sintonia com o próprio organismo.

Pessoas com alterações na interocepção podem não sentir (fisicamente) a perda de peso e acreditar que estão saudáveis ou ainda perceber-se com quilos a mais quando de fato estão muito magras. Pacientes com anorexia têm grande dificuldade para interpretar sensação de fome e saciedade, mas não só: o teste do batimento cardíaco demonstra que o problema se estende a outras áreas relacionadas à regulação interna. Em um estudo publicado em 2008, a psicóloga Olga Pollatos e seus colegas, atualmente na Universidade de Potsdam, na Alemanha, avaliaram um grupo de mulheres e descobriram que pelo menos 28 delas, com diagnóstico de anorexia, foram aproximadamente 10% menos precisas ao detectar a frequência cardíaca em relação às outras participantes sem distúrbio alimentar. Tsakiris acredita que o resultado representa uma diferença significativa na capacidade interoceptiva. Além disso, as voluntárias com anorexia também apresentaram mais problemas psicológicos, como depressão e ansiedade, e significativamente maior insatisfação com o corpo. (A maioria dos estudos relacionados à imagem corporal de pacientes com anorexia tem participação somente de mulheres devido ao baixo número de homens diagnosticados com o distúrbio.)

Os pesquisadores acreditam que as dificuldades interoceptivas de pessoas com anorexia podem estar relacionadas a alterações na ínsula. Em um estudo publicado em 2005, o psicólogo Tetsuro  Naruo e seus colegas da Universidade de Kagoshima, no Japão, usaram técnicas de ressonância magnética funcional para avaliar o cérebro de 12 mulheres em repouso que haviam se recuperado da anorexia nervosa. Eles observaram menor fluxo de sangue nessas voluntárias (o que sugere baixa ativação na ínsula) em relação a 11 participantes do grupo de controle sem o distúrbio alimentar. Em outro estudo de 2013, a psiquiatra Maria Râstam e seus colegas da Universidade Lund, na Suécia, apontaram resultados semelhantes. Ambas as pesquisas sugerem que pessoas que se recuperaram de anorexia são relativamente mais lentas para processar informações interoceptivas, um problema que pode prejudicar a chegada de informações do corpo ao cérebro, dificultando a recuperação, alerta o psiquiatra infantil e especialista em transtornos alimentares Bryan Lask, do Hospital Great Ormond Street, em Londres.

A OPINIÃO DOS OUTROS

Além de interpretar sinais internos quando está em repouso, a ínsula geralmente demonstra intensa atividade quando uma pessoa observa a própria imagem. Ao olhar fotografias de si mesmas, mulheres sadias apresentam maior fluxo sanguíneo nessa estrutura cerebral, o que sugere que a imagem aprimora a experiência pessoal de pertencimento em relação ao próprio corpo. Naquelas com anorexia, porém, a ínsula não responde mesmo com esse tipo de estímulo. Em um estudo publicado em 2008, o neuropsiquiatra Perminder Sachdev e seus colegas da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, submeteram 20 mulheres a um aparelho de ressonância magnética enquanto visualizavam fotografias de si mesmas (metade das participantes tinha diagnóstico de anorexia). Resultado: somente as voluntárias do grupo controle apresentaram atividade na ínsula (veja ilustração ao lado). Esses indícios sugerem que pessoas com o distúrbio têm dificuldade para relacionar dados externos sobre a própria aparência ao conhecimento interno do corpo, algo aparentemente simples para a maioria de nós. As diferenças na atividade da ínsula desapareceram quando as participantes observaram fotografias de outras mulheres: nesse caso, não houve alteração nessa região cerebral de nenhuma voluntária.

Dificuldades na capacidade de interocepção também podem deixar a imagem corporal mais vulnerável a outras influências visuais. Em um estudo de 2011, a equipe de Tsakiris avaliou 46 estudantes universitária por meio de uma pista visual incomum: uma mão de borracha. Trata-se de uma ilusão em que o participante sente que o objeto sintético é real depois de apoiar as duas mãos sobre uma mesa e ter a visão esquerda bloqueada por um anteparo. A mão postiça é posicionada logo à direita do divisor. Em seguida, tanto a real quanto a de borracha são acariciadas por um pequeno pincel. Em aproximadamente dois minutos, muitos dos que passam pela experiência começam a acreditar que a peça sintética faz parte de seu corpo. Por incrível que pareça, a temperatura da extremidade do braço esquerdo cai significativamente, sugerindo que, em certa medida, o cérebro perde o domínio da mão real e “se identifica” com a artificial.

Com base nos resultados do experimento dos batimentos cardíacos, Tsakiris e seus colegas dividiram as participantes em dois grupos: o primeiro com voluntárias que marcaram pontuações altas (a média girou em torno de 80%} e o segundo que atingiram escores abaixo de 50%. Resultado: participantes com menor consciência corporal eram levadas mais facilmente a pensar que a mão de borracha fazia parte de seu corpo. Considerando isso, Tsakiris acredita que imagens de mulheres magras divulgadas pela mídia podem causar efeitos ainda piores sobre aquelas com dificuldade de interocepção. Já as pessoas com sólido senso de si são menos afetadas ao verem outras que, segundo certos padrões, são mais esbeltas ou atraentes.

É provável que os que sofrem com transtorno dismórfico corporal tenham um problema de percepção adicional. Evidências sugerem que esses pacientes apresentam anormalidades no processamento visual, o que distorce a percepção. Os cientistas acreditam que essa alteração se combina com a baixa interocepção para criar uma autoimagem desfavorável.

Pessoas com fraca consciência de seu estado interno também tendem a ser facilmente influenciadas pela opinião alheia. Além disso, podem avaliar seus objetivos e atributos com base em como pensam que os outros as percebem e não de acordo com os próprios padrões –  ou seja, a referência fica fora de si, o que causa grande insegurança. Em um estudo, a psicóloga Myra Cooper e seus colegas da Universidade de Oxford solicitaram a um grupo de mulheres adultas diagnosticadas com transtorno dismórfico corporal que relembrassem episódios específicos da infância. Os pesquisadores observaram que as voluntárias eram significativamente mais propensas a relatar experiências pessoais como se tivessem acontecido com outros. Em vez de descreverem um evento da perspectiva da primeira pessoa (por exemplo, “Eu vi…”), contavam histórias como um narrador de romance (“aconteceu …”). Parece lógico, portanto, que construir uma melhor consciência interoceptiva possa não só favorecer a imagem corporal como também tornar menos frágeis os sentimentos sobre si.

A atenção plena, uma técnica mental focada no presente sem elaborações ou julgamentos, pode ser uma grande aliada para reforçar a capacidade de perceber o corpo. Diversos estudos da última década mostram que esse tipo de prática, aliada à psicoterapia, melhora significativamente a qualidade de vida de pacientes com distúrbios alimentares e transtorno dismórfico corporal. “Isso ocorre porque, ao aprender a se concentrar nas próprias sensações físicas do aqui e agora, as pessoas ampliam sua capacidade de interocepção”, afirma a psicóloga clínica Tiffany Rain Carei.

Assim como outros pesquisadores, ela tem utilizado a ioga aliada à psicoterapia para tratar pessoas com transtornos alimentares. Certas formas da técnica, como a hataioga ou vinyasa, incentivam o praticante a se concentrar na respiração e nas diferentes sensações corporais produzidas por cada posição – o que é fundamental para desenvolver a atenção plena.

Tiffany e seus colegas do Hospital Infantil de Seattle submeteram 27 adolescentes que recebiam tratamento ambulatorial por distúrbios alimentares a oito sessões de ioga semanais de uma hora. Os pesquisadores esperavam amenizar as obsessões dos pacientes com alimentação e peso ao levá-los a se concentrar nas posições de ioga e no próprio corpo.

A estratégia funcionou. No início do tratamento, os adolescentes estavam tão desconectados de si que tiveram problemas para se equilibrar em um pé só. Após oito semanas de exercícios, os voluntários “refinaram a sintonia consigo mesmos”, ganharam habilidades interoceptivas para encontrar equilíbrio facilmente e, mais importante, tiveram diminuição significativa de sintomas relacionados a transtornos alimentares e dismorfia corporal, em comparação a outros 27 jovens com os mesmos problemas, mas que não participaram do tratamento.

1. também aderiu às aulas de ioga. Considera a técnica fundamental em sua recuperação da anorexia e lembra que também a tem ajudado a diminuir outras dificuldades de percepção. Agora, ela consegue, por exemplo, identificar mais facilmente quando está com frio ou cansada. “Enquanto estou no tapete de ioga experimento todas essas sensações, não sou apenas consciente de que estou com fome, mas também do que quero comer”, conta animada. “Acho que só quem teve de conquistar essa percepção dia a dia entende o quanto é importante tê-la.”

  Algo errado no corpo2

TESTE

Aqui está uma maneira simples de medir suas habilidades interoceptivas, ou seja, sua capacidade de perceber quando está com fome, dor ou notar a temperatura do próprio corpo, por exemplo. Pegue um cronômetro e uma calculadora. Sente-se calmamente em uma cadeira confortável e respire profundamente algumas vezes. Agora, inicie o cronômetro e conte seus batimentos cardíacos durante um minuto com base no ritmo do seu coração. Não toque nos pulsos ou no pescoço. Anote o número dos batimentos.

Em seguida, faça o procedimento da maneira tradicional. Coloque dois dedos sobre o pulso ou pescoço e conte as batidas do coração por 60 segundos. Aguarde dois minutos e depois repita o processo. Tire a média das medições.

Calcule a diferença entre a estimativa dos batimentos cardíacos e a média. Pegue o valor absoluto da diferença. Você não precisa saber se ultrapassou ou contou a menos: basta o valor total. Depois, divida pela média e subtraia 1 do resultado. Abaixo, a fórmula do cálculo:

                                        batimento cardíaco estimado – média de pulso

1 –                                                                  média de pulso

 

INTERPRETAÇÃO DOS PONTOS

Se o resultado foi o,80 ou mais, sua capacidade interoceptiva é muito boa. Marcar entre 0,60 e 0,79 significa moderado senso de si. Abaixo de 0,59 indica pobre interocepção.

 

CARRIE ARNOLD – é jornalista científica, autora de Body of evidence: the new science of anorexia nervosa (Routledge Press, 2013, não lançado no Brasil).

 

OUTROS OLHARES

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Demora na entrega de compras feitas em sites internacionais ultrapassa seis meses – e reclamações de clientes aos Correios chegam a 140 mil por dia. Maior gargalo está em Curitiba.

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Fazer compras em sites estrangeiros costuma ser vantajoso do ponto de vista da economia: mesmo quando há incidência de impostos. os preços são mais baixos do que os praticados no Brasil. A vantagem financeira inicial, porém, pode se tornar prejuízo quando o item comprado fora do País esbarra na ineficácia logística de órgãos como a Receita Federal e os Correios.

A arquiteta Doty Oliveira, de São Paulo, está entre os milhares de consumidores lesados por essa lentidão inexplicável. “Comprei com três meses de antecedência um vestido para a festa de um ano da minha filha. O aniversário já foi há três meses e o vestido ainda não chegou”, diz Doty, desapontada. Além da roupa, outros produtos que ela comprou no exterior pela internet também não chegaram. E a culpa não é do site: uma mochila também comprada por uma amiga de Doty que mora no Chile chegou em menos de um mês.

Ao rastrear o status da entrega no site dos Correios, a mensagem que Doty encontra é de que o objeto foi encaminhado do Centro Internacional em Curitiba para uma Unidade Operacional e liberado sem imposto. Previsão de entrega: 40 dias úteis. Ou seja, a etapa que deveria ser a mais demorada – o desembaraço pelo Recinto Alfandegado de Remessas Postais Internacionais de Curitiba, que recebe 300 mil mercadorias por dia – já foi concluída, e mesmo assim os Correios pedem um mês e meio para trazer a carga da capital paranaense até São Paulo. Mas nem o dilatadíssimo prazo informado foi cumprido. Consumidores chegam a reclamar de entregas que estão paradas desde agosto.

“O número de produtos vem crescendo a cada ano”, diz Cláudia Regina Thomaz, delegada da Alfândega da Receita Federal em Curitiba. “No final de 2011 eram 100 mil por mês. Agora estamos com uma média de 6 a 7 milhões”, diz ela. A Receita Federal garante que mesmo com essa explosão da demanda, sua parte é concluída em um período de dois a seis dias. E enquanto a quantidade de encomendas cresce, o mesmo não ocorre com o número de funcionários concursados dos Correios. Em crise e sofrendo as consequências de anos de má gestão durante os governos petistas de Lula e Dilma, a estatal vem acumulando prejuízos seguidos: desde 2015, os balanços divulgados pela empresa somam dívidas de R$ 5.5 bilhões. Ex vice­ presidente de finanças e controladoria da estatal, o executivo Carlos Fortner assumiu há menos de um mês a presidência dos Correios com a missão de solucionar um problema que não é só financeiro – é também de confiança, uma vez que a cada dia 140 mil reclamações são registradas por clientes insatisfeitos. Fortner diz que os atrasos começaram no ano passado: ‘Tivemos um pico de encomendas no Black Friday e no Natal, que se manteve até hoje”.

 RECISÃO DE CONTRATO

É no mínimo curioso que, passado tanto tempo, as entregas não tenham sido normalizadas. Até porque o início do ano é historicamente o de menor movimento no comércio. Entre as explicações para o acúmulo de objetos não entregues está a rescisão do contrato de uma transportadora terceirizada, que deixou de atender os Correios para ganhar o triplo prestando o mesmo serviço a uma empresa privada. “Temos restrições orçamentárias, mas tenho priorizado a operação”, diz Fortner, que afirma ter liberado R$ 14 milhões para despesas de mão de obra. O adicional orçamentário inclui pagar de horas extras, remanejar funcionários e contratar mais empresas terceirizadas. Outra dificuldade enfrentada pelos Correios é a concentração das encomendas no Recinto Alfandegado de Curitiba. que recebe 90% das remessas internacionais que chegam ao País na modalidade “petit paquet”, com peso de até 2 kg e baixo valor declarado.

A maioria dessas importações entra no País pelo aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, e de lá segue para o desembaraço em Curitiba. Depois disso, muitas retornam para São Paulo. Esse vai e vem custoso e ineficiente só deverá ser solucionado no ano que vem. “Estamos em negociação com um imóvel próximo ao aeroporto de Guarulhos. A ideia é criar um centro de tratamento e uma área de triagem ali”, diz Fortner. Mesmo sem poder contar com o futuro local de triagem, o presidente garante que novas remessas internacionais serão entregues dentro do prazo de 40 dias. Já as que estão atrasadas serão enviadas aos poucos até seus destinatários.

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GESTÃO E CARREIRA

A DIFERENÇA ENTRE CHEFES DE VERDADE E VERDADEIROS LÍDERES

O novo conceito de gestão, batizado de Accountability, mostra que o poder não está na autoridade, mas na coragem de assumir erros e dar autonomia às equipes. Saiba como desenvolver a habilidade da liderança do futuro – e garanta seu sucesso profissional.

A diferença entre chefes de verdade e verdadeiros lideres

Certa vez, ao assumir a presidência de uma companhia, um executivo encontrou seu antecessor, que tinha acabado de ser demitido. Durante a conversa, o antigo chefe disse ao substituto que deixaria a ele três envelopes lacrados e numerados, e o aconselhou: “abra as cartas sequencialmente nos momentos de crise”. Alguns meses depois, um problema sério surgiu, e o novo presidente leu a primeira mensagem, que dizia: “culpe seu antecessor”. Foi isso que o CEO novato fez – e se sentiu melhor assim. Na segunda crise, o executivo recorreu aos envelopes e leu o novo conselho> “culpe a equipe”. Ele achou que aquilo era uma boa ideia e tomou essa atitude. Não demorou muito para que surgisse mais uma situação delicada e a última carta precisasse ser aberta. Desta vez, o recado era o seguinte: “escreva três cartas”. Moral da história: Um chefe que não assume a responsabilidade por seus erros, mais cedo ou mais tarde, será dispensado.

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Essa anedota que tem circulado no mundo corporativo nos últimos anos ilustra o que um gestor não deve fazer e mostra a necessidade do desenvolvimento de uma competência essencial para a liderança: a accountability, tipo de gestão que reúne características como coragem, comunicação ágil, engajamento e autonomia. O conceito está na ponta da língua dos especialistas e prega que, com o poder, vem a responsabilidade por tudo o que acontece com as equipes e com os resultados. Essa é a habilidade do momento. É a hora de parar de apontar culpados e passar a se responsabilizar pelas decisões”, diz Eliana Dutra, CEO da Profit Coach & Treinamento, do Rio de Janeiro.

O problema é que a maior parte da liderança ainda não atua dessa maneira. Uma pesquisa global da consultoria Lee Hecht Harrison, feita em 2016 com 1900 executivos em 20 países, constatou que, no Brasil, 69% dos entrevistados estão insatisfeitos com o grau de comprometimento demonstrado pelos gestores – embora 71% considerem essa uma questão fundamental para o desenvolvimento das companhias. Mas existe um caminho para chegar lá.

PRESTAÇÃO DE CONTAS

A expressão accountability tem origem no setor público americano e é usada para responsabilizar os governantes por seus atos e para incentivar uma constante prestação de contas à sociedade. O termo ganhou força nas empresas privadas durante a crise econômica de 2008, quando algumas companhias americanas modificaram informações de seu balanço, o que acabou por deteriorar ainda mais as finanças do país. Ou seja, mais do que uma diferenciação entre responsabilidade e culpa, o conceito abrange outro aspecto: a transparência, característica que entrou na lista de prioridades dos brasileiros no que diz respeito às qualidades esperadas de um gestor. Ao serem questionados sobre o que torna uma companhia um excelente lugar para trabalhar, por exemplo, os funcionários que responderam à pesquisa do Guia VOCÊ S/A – As 150 Melhores Empresas para Trabalhar em 2017 apontaram o fato de ter chefes em quem possam confiar como um dos dez aspectos mais importantes. E não era para menos. Com o país mergulhado em denúncias de corrupção, tanto no governo quanto em grandes empresas, cresceu a expectativa sobre os gestores. Já não há tolerância com desculpa do tipo “‘eu não sabia de nada” quando os erros aparecem. Isso já existia, mas era mais leve. Agora estamos falando de um tópico essencial: o líder precisa responder por sua equipe em todas as situações, independentemente do que acontecer, diz Josué Bressane Jr., sócio-diretor da Falconi Gente, consultoria de RH, de São Paulo.

MENOS CONTROLE, MAIS CONSCIÊNCIA

Mas como exercer essa liderança comprometida? Além de atuar sempre com transparência e ter celeridade para dividir informações relevantes com a equipe, é preciso entender que liderar não é mandar. É indicar o caminho para chegar aos resultados esperados e ser percebido como o agente que vai permitir que cada um atinja seus objetivos. “Em uma nova estrutura organizacional, o líder é como um maestro de uma sinfônica. Ele deve conduzir pessoas – transmitir sua visão, fixar metas, mobilizar e incentivar. Não precisa ser o melhor músico nem o mais virtuoso. Sua função não é impor o poder, mas compartilhar a responsabilidade com a equipe”, diz Jonathan Raymond, especialista americano em desenvolvimento de liderança e autor do livro Good Authority (“A boa autoridade”, numa tradução livre, ainda sem edição no Brasil).

Isso não quer dizer que a gestão deva ser frouxa, ao contrário. Os líderes responsáveis dividem as tarefas com suas equipes e monitora os resultados obtidos, mas dão autonomia para que os funcionários resolvam as próprias questões, mantendo a porta aberta para qualquer dúvida, problema ou sugestão “Quando as pessoas sentem que sua voz é ouvida, elas se engajam mais no trabalho. Quando apenas executam, não ocorre o mesmo envolvimento”, afirma Josué.

Para isso dar certo, cada um deve entender exatamente qual é sua responsabilidade – tanto líderes quanto liderados. Se os papéis são claros, há menos risco de ”desculpability”, atitude de quem não consegue fazer as entregas e, em vez de focar a melhora da performance, busca justificativas para os problemas. ‘Isso é mais comum em jovens líderes que sentem que pôr a culpa no outro deixa a situação mais confortável”, diz Anamaíra Spaggiari, gerente de produtos da Fundação Estudar, de São Paulo.  “Há situações sobre as quais temos maior ou menor controle, mas a questão é estar consciente de que o poder de mudar o cenário está em nossas mãos.”

S6 que não adianta nada explicar aos outros seus papéis se o próprio líder não entende sua verdadeira função na organização e seus objetivos de longo prazo. “Você precisa refletir por que está naquela posição, se quer mesmo seguir esse caminho e quais são suas fortalezas e limitações”, diz Fábio Eltz, consultor da Integração Escola de Negócios, de São Paulo. É apenas com essa reflexão que os gestores conseguem desenvolver as ferramentas necessárias para engajar o time, dividir corretamente as funções e suportar o peso emocional que vem junto com o poder. Afinal, nas mãos do líder estão as histórias, as ansiedades e as expectativas de milhares de pessoas – o que gera a responsabilidade de assegurar o sucesso do negócio e fazer com que as equipes e empresas trilhem o melhor caminho possível. Tamanha expectativa pode até assustar. Mas a coragem para assumir essa responsabilidade é o que transforma simples chefes em verdadeiros líderes.

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CRIANDO LAÇOS

Para se tornar um Líder com accountability é preciso ser transparente e engajar as equipes. Segundo Jonathan Raymond, especialista em desenvolvimento de liderança e autor do Livro Good Authority, uma das ferramentas mais importantes para isso é o feedback. Aprenda como fazê-Lo de forma eficaz:

PRIMEIRA ETAPA: MENCIONAR OS ERROS

Ser um Líder responsável é observar o comportamento dos membros da equipe e fazer as correções necessárias com rapidez. O feedback começa ao identificar atitudes pequenas, mas problemáticas, de forma informal, cuidadosa e em tempo real. Quando algo assim ocorrer, chame o funcionário para conversar, mencione o problema e pergunte o que vocês podem fazer para melhorar a situação. Isso mostra que você está preocupado com o desenvolvimento da equipe e cria laços de confiança.

SEGUNDA ETAPA: AJUDAR A REFLETIR

Nós somos ótimos em ver padrões no comportamento de outras pessoas, mas é muito difícil fazer o mesmo a nosso respeito. Líderes responsáveis ajudam os subordinados a pensar sobre si mesmos e a refletir sobre suas deficiências. Por exemplo, digamos que você tenha visto um funcionário cometer erros numa apresentação na segunda-feira, atrasando entregas na quarta-feira e, na sexta-feira, tido um mal-entendido comum colega. Ao perceber esses sinais de queda de desempenho, é necessário que o gestor converse com o profissional perguntando o que esses eventos podem ter em comum e estimulando a reflexão.

TERCEIARETAPA: APROFUNDAR A ANÁLISE

Agora que o relacionamento já está forte, o líder tem abertura para aprofundar a discussão com o subordinado. É hora de fazer perguntas e estimular os profissionais a descobrir de que maneira podem mudar um padrão de comportamento que prejudica o trabalho. O importante é que o gestor faça com que o liderado mantenha o foco no desenvolvimento pessoal e no impacto positivo da transformação.

 

ATITUDES CONCRETAS

Os comportamentos que colocam em prática a gestão com responsabilidade.

1 – CRIE UM FIO CONDUTOR

Se você quer que as pessoas sejam responsáveis, defina claramente os resultados desejados e dê autonomia e respaldo para que elas busquem essas metas.

2 – SEJA HONESTO

Fale a verdade ao ser questionado sobre algum processo, ainda que o diagnóstico não seja positivo. Um gestor responsável tenta motivara equipe a buscar alternativas.

3 – INSPIRE CONFIANÇA

Crie vínculos com o time e conheça as pessoas com certa profundidade. Fale sobre questões delicadas e debata assuntos polêmicos com serenidade e transparência.

4 – CAPACITE SUA EQUIPE

Conheça o nível de maturidade de seus funcionários e delegue funções de acordo com a

responsabilidade de cada um. Em paralelo, treine a equipe para sempre evoluir.

5 – DÊ O EXEMPLO

Adote uma postura amigável e aceite comentários. Assuma desafios, inove e espalhe otimismo. Atitudes positivas se refletem no desempenho dos funcionários.

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Fonte: Revista Você SA – Edição 237

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 18: 21-35

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O Perdão e a Parábola do Credor Incompassivo

Esta parte do discurso que diz respeito às ofensas certamente deve ser entendida como os erros pessoais, cujo perdão depende de nossa decisão. Agora observe:

I – A pergunta de Pedro com relação a esse assunto (v. 21): “Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?”

1. Ele já tem como certo o fato de que deve perdoar; Cristo havia anteriormente ensinado aos seus discípulos esta lição (cap. 6.14,15), e Pedro não a esquecera. Ele sabe que não deve guardar rancor contra o seu irmão, ou pensar em vingança, sendo um amigo tão bom quanto sempre foi esquecendo a injúria.

2. Pedro acha que é uma grande coisa perdoar até sete vezes; ele não quer dizer sete vezes por dia, como Cristo disse (Lucas 17.4), mas sete vezes na sua vida; supondo que se um homem tivesse de alguma forma abusado dele sete vezes, embora estivesse muito desejoso de se reconciliar, ele poderia então abandonar esse relaciona­ mento, e não ter mais nada a ver com ele. Talvez Pedro tivesse em vista Provérbios 24.16: “Sete vezes cairá o justo”; ou a menção de “três transgressões”, e uma quarta, e Deus não retiraria o castigo (Amós 2.1). Há uma tendência em nossa natureza corrupta de nos limitarmos àquilo que é bom, e termos medo de nos excedermos na religião, particularmente de perdoarmos demais, embora tenhamos recebido o perdão de tantas iniquidades.

II – A resposta direta de Cristo à pergunta de Pedro: “Não te digo que até sete” (Ele nunca teve a intenção de estabelecer limites), mas “até setenta vezes sete”; um número determinado para um número indefinido, mas que é muito extenso. Não é bom que contemos as ofensas que nos são feitas pelos nossos irmãos. O fato de contarmos as injúrias que perdoamos revela uma natureza má, como se fôssemos nos tornar vingativos quando a medida estivesse completa. Deus mantém um registro (Deuteronômio 32.34) porque Ele é o Juiz, e a vingança pertence a Ele. Mas não devemos praticar a vingança, para que não nos encontremos usurpando o seu trono. E necessário para a preservação da paz – tanto da paz interior, como da exterior – nos esquecermos das injúrias, sem calcularmos com que frequência o fazemos; é necessário perdoar e esquecer. Deus multiplica os seus perdões, e nós também devemos proceder assim (Salmos 77.38,40). Isto sugere que precisamos fazer do perdão das injúrias uma prática constante, e devemos nos acostumar com essa atitude até que ela se torne habitual.

 III – Um discurso posterior do nosso Salvador através de parábolas, para mostrar a necessidade de perdoar as injúrias que nos são feitas. As parábolas são úteis, não só como um forte incentivo ao cumprimento dos deveres cristãos, mas por causarem e deixarem uma impressão. A parábola é um comentário sobre a quinta petição na oração do Senhor: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos deve­ dores”. Estes, e somente estes, podem esperar ser perdoados por Deus: aqueles que perdoam os seus irmãos. A parábola representa o Reino dos céus, isto é, a igreja, e a administração da dispensação do Evangelho nele. A igreja é a família de Deus, é a sua corte; ali Ele habita, ali Ele governa. Deus é o nosso Senhor; nós somos os seus servos, ao menos em profissão de fé e por obrigação. Em geral, a parábola sugere quanta provocação Deus tem por parte de sua família na terra, e como os seus servos são rebeldes.

Há três pontos importantes na parábola.

1. A maravilhosa clemência do senhor ao seu servo que estava lhe devendo; ele o perdoou em dez mil talentos, por pura compaixão (vv. 23-27). E aqui observe:

(1). Todo pecado que cometemos é uma dívida para com Deus; não como uma dívida a alguém como nós, contraída comprando ou tomando emprestado, mas a um ser superior. Como uma dívida a um príncipe quando ocorre um erro de reconhecimento, ou quando alguém incorre em uma penalidade pela violação da lei ou pelo rompimento da paz. Como a dívida do servo ao seu senhor, retendo o seu serviço, desperdiçando os bens de seu senhor, quebrando o seu contrato, e incorrendo na penalidade. Todos nós somos devedores; devemos procurar liquidar a dívida, e nos sujeitarmos ao processo da lei.

(2). Há um registro das nossas dívidas, e devemos, em breve, prestar contas delas. Este rei queria que o seu servo prestasse contas. Deus agora ajusta contas conosco pelas nossas próprias consciências; a consciência é um auditor de Deus na alma, para nos cobrar a responsabilidade, e para ajustar contas conosco. Uma das primeiras perguntas que um cristão despertado faz é: “Quanto deves ao meu Senhor?” E a menos que haja suborno, dirá a verdade, e não escreverá cinquenta por cem. Um outro dia de prestação de contas está chegando; as contas serão aceitas ou rejeitadas, e nada além do sangue de Cristo será capaz de quitar todos os débitos.

(3). A dívida de pecado é uma dívida muito grande; e alguns estão mais endividados, por causa do pecado, do que outros. Quando ele começou a contar, um dos primeiros devedores pareceu dever dez mil talentos. Não há como escapar da inquirição da justiça divina; o seu pecado com certeza será descoberto. A dívida era de dez mil talentos, uma soma muito grande; é mais provável que uma quantia tão vultuosa pudesse ser um resgate de rei ou um subsídio de governo, algo muito superior à dívida de um servo. Veja o que são os nossos pecados:

[1]. Pela abominação de sua natureza; eles são equivalentes a talentos, a maior denominação que era usada na contagem de dinheiro ou peso. Todo pecado é como uma carga de um talento, um talento de chumbo, esta é a impiedade (Zacarias 5.7,8). Cada um dos bens que nos são entregues, como despenseiros da graça de Deus, são um talento (cap. 25.15), um talento de ouro. E para cada talento enterrado, e muito mais para cada talento desperdiçado, nós temos um talento de dívida, e isto faz com que a conta aumente muito.

[2]. Pela vastidão de seu número; eles são dez mil talentos, uma miríade, mais do que os cabelos da nossa cabeça (Salmos 40.12). Quem pode entender os próprios erros? (Salmos 19.12).

(4). A dívida de pecado é tão grande, que não somos capazes de pagá-la; o transgressor não precisou pagar nada. Os pecadores são devedores insolventes; a escritura, que coloca tudo debaixo do pecado, é um estatuto de falência contra todos nós. A prata e o ouro não pagariam a nossa dívida (Salmos 49.6,7). O sacrifício e a oferta não a pagariam; as nossas boas obras são apenas a operação de Deus em nós, e não podem liquidar a dívida. Estamos sem forças, e não podemos ajudar a nós mesmos.

(5). Se Deus tratasse conosco com uma justiça rígida, deveríamos ser condenados como devedores insolventes, e Deus poderia exigir a dívida, glorificando-se em nossa completa ruína. Ajustiça exige o pagamento: Que a sentença da lei seja executada. O servo havia contraído essa dívida pelo seu desperdício e obstinação. Portanto, poderia, de forma justa, responder por isso. “O seu senhor mandou que ele, e sua mulher, e seus filhos fossem vendidos”, como escravos às galés, vendidos para trabalhos forçados na prisão, “com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse”. Veja aqui o que todo pecado merece; este é o salário do pecado.

[1]. Ser vendido. Aqueles que se vendem para agir com impiedade, devem ser vendidos para que a dívida seja liquidada. Os cativos do pecado são cativos da ira. Aquele que é vendido como escravo fica privado de todos os seus confortos, e nada lhe sobra além de sua mulher, para que ele possa ter consciência de suas desgraças; esse é o caso dos pecadores condenados.

[2]. Assim ele teria um pagamento a ser feito, isto é, algo feito a respeito disso; embora seja impossível que a venda de alguém tão desprezível cobrisse a quantia necessária para o pagamento de uma dívida tão grande. Pela condenação eterna dos pecadores, a justiça divina será eternamente satisfatória, mas nunca satisfeita.

(6). Os pecadores convencidos de seu estado só podem se humilhar diante de Deus, e orar por misericórdia. O servo sob essa determinação, e essa condenação, prostrando-se aos pés do seu nobre senhor, o reverenciava. Conforme se lê em algumas versões, ele lhe suplicou; suas palavras eram muito submissas e muito importunadoras: “Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei” (v. 26). O servo já sabia que estava com uma grande dívida, contudo não se preocupava com isso, até que foi chamado a prestar contas. Os pecadores geralmente são negligentes sobre o perdão de seus pecados, até que sejam chamados à atenção por alguma palavra que os faz despertar, por alguma providência surpreendente, ou pela aproximação da morte. E então: “Com que me apresentarei ao Senhor?” (Miqueias 6.6). Com que facilidade, com que rapidez, Deus pode trazer o pecador mais orgulhoso aos seus pés: Acabe, ao seu pano de saco, Manasses, às suas orações, Faraó, às suas confissões, Judas, à sua restituição, Simão, o Mago, à sua súplica, Belsazar e Felix, aos seus tremores. O coração mais resistente desmaiará quando Deus colocar os pecados em ordem diante dele. Este servo não negou a dívida, não buscou evasivas, nem tentou fugir.

Mas:

[1].  Ele suplica pedindo tempo: “Sê generoso para comigo”. A paciência e a clemência são um grande favor; mas é loucura pensar que somente essas coisas nos salvarão; as postergações temporárias não são perdões. Muitos são tolerantes, e assim não são trazidos ao arrependimento (Romanos 2.4). Por essa razão, o fato de terem sido tolerantes não lhes traz nenhum benefício.

[2].  Ele promete um pagamento: “Sê generoso”, por um tempo, “e tudo te pagarei”. Ê loucura de muitos que estão sob as convicções do pecado, imaginarem que eles podem satisfazer a Deus pelos erros que cometeram contra Ele. Como aqueles que, falidos, buscando um acordo, procurariam o perdão da dívida dando os seus primogênitos por sua transgressão (Miqueias 6.7), procurando estabelecer a sua própria justiça (Romanos 10.3). “Não tendo ele com que pagar” (v. 25), julgava poder pagar “tudo”. Veja como o orgulho oculto persiste, mesmo em pecadores despertados; eles estão convencidos, mas não se humilham.

(7). O Deus de infinita misericórdia está muito pronto – devido à sua pura compaixão – a perdoar os pecados daqueles que se humilham diante dele (v. 27). O senhor daquele servo – quando poderia, de forma justa, tê-lo arruinado – por compaixão o soltou; e, visto que ele não poderia ficar satisfeito pelo pagamento da dívida, seria glorificado pelo perdão dela. A oração do servo foi: “Sê generoso para comigo”; o que o senhor concedeu foi uma quitação completa. Perceba que:

[1].  O perdão do pecado se deve à misericórdia de Deus, à sua terna misericórdia (Lucas 1.77,78); ele foi movido de íntima compaixão. As razões da misericórdia de Deus são extraídas de seu próprio interior. Ele tem misericórdia porque Ele terá misericórdia. Deus olhou com piedade para a humanidade em geral, que estava infeliz, e enviou o seu Filho para ser uma garantia para eles. Ele olha com piedade para os penitentes em particular, pelo fato de terem consciência de sua infelicidade (seus corações partidos e contritos), e os aceita no Amado.

[2].  Há perdão em Deus pelos maiores pecados, se eles se arrependerem. Embora a dívida fosse muito grande, Ele per doou toda a dívida (v. 32). Embora os nossos pecados sejam muito numerosos e muito hediondos, eles podem ser perdoados nos termos do Evangelho.

[3].  O perdão da dívida é a soltura do devedor. A obrigação está cancelada, o julgamento, anulado; nós nunca andamos em liberdade até que os nossos pecados sejam perdoados. Mas observe que, embora o senhor o tenha liberado da penalidade como um devedor, ele não o liberou de seus deveres como um servo. O perdão do pecado não diminui, mas fortalece, as nossas obrigações para com a obediência; e devemos considerar um favor o fato de Deus estar satisfeito por continuar com servos tão desperdiçadores como temos sido em um serviço tão proveitoso como é o dele, e devemos, portanto, libertados, servi-lo sem temor (Lucas 74.1). “Sou teu servo, porque tu soltaste as minhas amarras”.

2. A severidade irracional do servo em relação ao seu companheiro, apesar da clemência de seu senhor em relação a ele (vv. 28-30). Isso representa o pecado daqueles que, embora não sejam injustos, exigindo o que não lhes pertence, no entanto são rigorosos e implacáveis ao exigir o que lhes pertence, ao máximo de seu direito, o que, às vezes, demonstra ser um verdadeiro erro. Exigir pagamento pelas dívidas de injúria, que não tende à reparação nem ao bem público, mas puramente por vingança, embora a lei possa permitir, afim de infligir terror, e pela dureza dos corações dos homens, não demonstra um espírito cristão. Processar por dívidas financeiras, quando o devedor não pode pagá-las, e então deixá-lo perecer na prisão, demonstra um amor maior pelo dinheiro, e um amor menor pelo nosso próximo; este não é o amor que deveríamos ter (Neemias 5.7).

Veja aqui:

(1).  Como a dívida era pequena, muito pequena, comparada com os dez mil talentos que o seu senhor lhe perdoou. As ofensas feitas aos homens não são nada para aqueles que se opõem a Deus. Os atos desonrosos feitos a homens como nós mesmos são apenas como ciscos ou mosquitos; mas os atos desonrosos contra Deus são como talentos, vigas, camelos. Isso não significa que, portanto, possamos fazer pouco caso da atitude de prejudicar o nosso próximo, porque isso também é um pecado contra Deus; portanto, devemos fazer pouco caso das ofensas que nos são feitas pelo nosso próximo, e não agravá-las, nem planejar vinganças. Davi não se preocupava com os insultos contra ele. “Eu, como surdo, não ouvia”; mas se ofendia muito com os peca­ dos cometidos contra Deus; por eles, rios de lágrimas corriam de seus olhos.

(2). Como a exigência era severa: “Lançando mão dele, sufocava-o”. Os homens orgulhosos e iracundos pensam que se a questão de sua exigência for justa, isso os defenderá, apesar da maneira de ser tão cruel e desumana que demonstram. Mas este pensamento não terá apoio. O que justificava tanta violência? A dívida poderia ter sido exigida sem pegar o devedor pela garganta; sem lhe enviar uma intimação, ou colocando o meirinho sobre ele. Como a conduta desse homem é de soberba, e, contudo, como o seu espírito é indigno e servil! Se ele mesmo tivesse ido para a prisão pela sua dívida ao seu senhor, as suas razões teriam sido tão urgentes, que ele poderia ter tido algum pretexto para ir ao extremo ao exigir o que lhe pertencia; mas frequentemente o orgulho e a malícia predominam mais para tornar os homens severos do que a necessidade mais urgente o faria.

(3). Como o devedor era submisso. O seu companheiro, embora fosse igual, sabendo o quanto ele conhecera sobre a compaixão, prostrou-se a seus pés, e se humilhou a ele por essa dívida insignificante, da mesma forma que ele fez com o seu senhor pela dívida grande; porque o que “toma emprestado é servo do que empresta” (Provérbios 22.7). Aqueles que não podem pagar as suas dívidas têm de ter muito respeito para com os seus credores, e não é só falarem palavras boas, mas lhes fazer todos os bons ofícios que puderem; eles não devem ficar irados com aqueles que reclamam o que lhes pertence, nem falar mal deles por causa disso; não, mesmo que eles façam isso de uma maneira rigorosa. Mas nesse caso, deixe que Deus pleiteie a sua causa. O pedido do homem pobre é: “Sê generoso para comigo”; ele honestamente confessa a dívida, e não requer ao seu credor o ônus de prová-la, mas apenas pede mais prazo para pagá-la. A paciência, embora não seja o pagamento da dívida, é, às vezes, uma caridade necessária e louvável. Assim como não devemos ser excessivamente severos, também não devemos ser apressados em nossas exigências, mas de­ vemos considerar quanto tempo Deus nos tem tolerado.

(4). Como o credor foi implacável e violento (v. 30): “Ele, porém, não quis”, e não escutou a sua promessa justa, mas sem compaixão “foi encerrá-lo na prisão”. Como ele procedeu de forma insolente, pisando em alguém tão bom quanto ele, que se submeteu a ele! Que crueldade ele usou para com alguém que não havia lhe feito nenhum mal! Além disso, esta atitude não lhe traria nenhuma vantagem! Nisso, como através de um vidro, credores sem compaixão podem ver os seus próprios rostos, e sentem prazer em nada mais do que devorar e destruir (2 Samuel 20.19), e se gloriam por terem os ossos de seus pobres devedores.

(5). Como os outros servos estavam preocupados: “Contristaram-se muito” (v. 31), contristaram-se pela crueldade do credor, e pela desgraça do devedor. Os pecados e sofrimentos dos nossos companheiros deveriam ser motivos de pesar e perturbação para nós. Costuma-se dizer que qualquer um dos nossos irmãos deveria se fazer animal de presa, pela crueldade e barbaridade; ou ser feito animal de escravidão, pelo uso desumano daqueles que têm poder sobre ele. Ver um companheiro se enfurecendo como um urso, ou pisado como um verme, só pode causar grande tristeza a todos aqueles que têm qualquer zelo pela honra de sua natureza ou de sua religião. Veja com que olhos Salomão olhou para as lágrimas dos que foram oprimidos, e para a força dos seus opressores (Eclesiastes 4.1).

(6). Como a notícia do que aconteceu foi levada até o senhor: “Foram declarar ao seu senhor”. Eles não ousaram reprovar o seu conservo por isso, por ele ter sido tão irracional e abusivo (deixe que uma ursa roubada de seus filhotes encontre um homem, em vez de tal louco em sua loucura); mas eles foram ao seu senhor e rogaram que ele socorresse o oprimido contra o opressor. Aquilo que nos é motivo de tristeza, deveria nos ser motivo de oração. Deixemos as nossas queixas – tanto da impiedade dos ímpios como da aflição dos aflitos – serem levadas a Deus, e deixemo-las com Ele.

3. O ressentimento justo do senhor pela crueldade de que o seu servo era culpado. Se os servos consideraram isso tão mau, quanto mais o Senhor; cuja compaixão está infinitamente acima da nossa. Então observe aqui:

(1). Como ele reprovou a crueldade do seu servo (vv. 32,33): “Servo malvado”. Note que a falta de compaixão é uma iniquidade, e uma grande iniquidade.

[1].  O servo é repreendido diante da compaixão que ele tinha encontrado em seu senhor: “Perdoei-te toda aquela dívida”. Aqueles que desfrutam os favores de Deus, jamais deveriam ser repreendidos com eles. Mas aqueles que abusarem deles, poderão esperar por isso (cap. 11.20).

Considere que a dívida perdoada foi “toda aquela dívida”, aquela grande dívida. A grandeza do pecado amplia as riquezas da compaixão que perdoa; devemos ter sempre em mente que os nossos muitos pecados foram perdoados (Lucas 7.47).

[2].  Ele, assim, mostra ao servo a obrigação que ele tinha: deveria ter compaixão de seu companheiro: “Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti?” Espera-se, de forma justa, que aquele que recebeu misericórdia, deva mostrar misericórdia. Ele mostra ao servo, em primeiro lugar, que esse deveria ter tido mais compaixão pela aflição de seu companheiro, pelo fato de ele mesmo ter experimentado a mesma aflição. O sentimento que nós mesmos tivemos faz com que entendamos melhor o sentimento de nosso irmão, e tenhamos atitudes melhores para com ele. Os israelitas conheciam o coração de um estrangeiro, porque eles foram estrangeiros; e este servo já deveria conhecer o coração de um devedor preso, e assim não poderia ter sido tão duro com o seu conservo. Em segundo lugar, ele deveria ter agido de uma forma mais semelhante ao exemplo do sentimento do seu senhor. Ele mesmo passou por isso, e foi favorecido. Note que o senso confortável da misericórdia que perdoa depende muito da disposição dos nossos corações para perdoar os nossos irmãos. Era no encerramento do Dia da Expiação que a trombeta do jubileu soava como sinal de uma liberação das dívidas (Levítico 25.9); porque devemos ter compaixão dos nossos irmãos, assim como Deus tem compaixão de nós.

(2).  Como o senhor daquele servo revogou o seu per­ dão e cancelou a quitação da dívida, para que o julgamento contra ele voltasse a vigorar (v. 34): “O seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia”. Embora a maldade tenha sido muito grande, o seu senhor não lhe infligiu outro castigo além do pagamento da sua própria dívida. Aqueles que não corresponderem aos termos do Evangelho não precisarão ser mais afligidos; basta que sejam entregues ao rigor da lei, e esta seguirá o seu curso natural contra eles. Observe como a punição responde ao pecado; aquele que não perdoa, não será perdoado. Ele o entregou aos atormentadores; o máximo que aquele homem poderia fazer pelo seu companheiro era apenas lançá-lo na prisão, mas ele mesmo foi entregue aos atormentadores. Observe que o poder da ira de Deus para nos destruir vai muito além do ponto máximo da força e da ira de qualquer criatura. As reprovações e terrores da sua própria consciência seriam esses atormentadores, pois esse é um verme que não morre; os demônios, os executores da ira de Deus, que são os tentadores dos pecadores agora, serão os seus atormentadores para sempre, eternamente. Ele foi enviado para a cadeia até que pagasse tudo. As nossas dívidas para com Deus nunca são pagas em parte; ou tudo é perdoado, ou tudo é exigido. Os santos glorificados no céu são perdoados de todas as suas transgressões e pecados através do pagamento total que foi feito por Cristo. Os pecadores condenados no inferno estão pagando tudo, isto é, são punidos por tudo. A ofensa feita a Deus pelo pecado está relacionada à honra, e não pode ser paga em parte ou com uma redução, que no caso não será admitida. Portanto, de uma maneira ou de outra, ela deve ser quitada pelo pecador, ou pelo seu fiador.

Por fim, aqui está a aplicação de toda a parábola (v. 35): “Assim vos fará também meu Pai celestial”. O título que Cristo aqui dá a Deus Pai foi utilizado (v.19) em uma promessa confortável: “Isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus”; aqui a palavra é usada em uma terrível ameaça. Se o governo de Deus for paternal, segue-se que é um governo justo, mas não significa que seja extremamente rigoroso, ou que sob o seu governo devamos ser mantidos no caminho certo pelo temor à ira divina. Quando oramos a Deus como “o nosso Pai que está nos céus”, somos ensinados a pedir o perdão dos nossos pecados, assim como perdoamos aos nossos devedores. Observe aqui:

1. O dever de perdoar; devemos perdoar de coração. Note que não perdoaremos corretamente, nem de forma aceitável, o nosso irmão que nos ofendeu, se não perdoarmos de coração; porque é para ele que Deus olha. Nenhuma malícia deve ser guardada ali, nem má vontade em relação a qualquer pessoa; nenhum projeto de vingança deve ser formado ali, nem o desejo de vingança, como há em muitos que exteriormente pare ­ cem pacíficos e reconciliados. No entanto, isso não é suficiente; devemos desejar de coração e buscar o bem-estar das outras pessoas, até mesmo daquelas que nos ofenderam.

2. O perigo de não perdoar: ”Assim vos fará também meu Pai celestial”.

(1).  Essas palavras não têm a intenção de nos ensinar que Deus reverte os perdões que Ele já concedeu a uma pessoa, mas que Ele os nega àqueles que são desqualificados para recebê-los de acordo com o sentido do Evangelho. Houve alguns que, embora parecessem ter se humilhado, como Acabe, se consideravam, e outros os consideravam, em um estado de perdão, e se comportavam de forma audaciosa com o conforto desse perdão. Temos, nas Escrituras, indícios suficientes da negação dos perdões como uma forma de prevenção contra os presunçosos; mas ainda assim temos uma segurança suficiente da continuidade do perdão para conforto daqueles que são sinceros, mas tímidos. Assim, um pode temer, e o outro pode ter esperança. Aqueles que não perdoam as transgressões dos seus irmãos nunca se arrependeram de verdade de suas próprias transgressões, nem creram verdadeiramente no Evangelho. Portanto, aquilo que foi tirado é apenas o que eles pareciam ter (Lucas 8.18).

(2).  Essa situação tem a intenção de nos ensinar que o juízo será sem misericórdia, e que a misericórdia triunfa sobre o juízo (Tiago 2.13). Para perdoarmos e ficarmos em paz, é necessário, e até mesmo indispensável, que as nossas atitudes sejam justas, e que também amemos a misericórdia. Esta é uma parte essencial dessa religião que é pura e imaculada diante de nosso Deus e Pai: a sabedoria que vem do alto é boa, e fácil de ser solicitada. Observe como respondem aqueles que, embora tenham o nome de cristãos, persistem no tratamento mais rigoroso e cruel para com os seus irmãos, como se as leis mais rigorosas de Cristo pudessem ser dispensa­ das em prol da gratificação de suas paixões desenfreadas. E assim eles se amaldiçoam toda vez que fazem a oração do Senhor.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

OUTRAS VOZES

Segundo algumas estimativas, cinco em cada 100 pessoas já tiveram alguma alucinação auditiva, um sintoma nem sempre associado a transtornos psiquiátricos. Isolamento social ou eventos traumáticos podem desencadear o fenômeno.

Outras vozes

De repente, alguém gritou seu nome: “Isabela!”. Intrigada, a mulher deu uma volta pela casa em busca da voz misteriosa. A sala estava vazia. Ninguém nos quartos, na cozinha ou no banheiro. No quintal apenas o cachorro. Ela estava realmente a sós. Isabela sentiu um calafrio. E quem não sentiria?  De fato, a alucinação auditiva é um sintoma comum em algumas doenças psiquiátricas, como a esquizofrenia. No entanto, nem todos que passam por essa experiência têm necessariamente um distúrbio mental. O filósofo grego Sócrates e a heroína francesa Joana d ‘Arc. diziam ouvir vozes, assim como o psiquiatra suíço Carl Jung e o artista plástico americano Andy Warhol.

O fenômeno já foi interpretado segundo diversos costumes e culturas. No século 12, a abadessa e filósofa Hildegarda de Bigen ignorou a hierarquia eclesiástica porque acreditava que as vozes que escutava eram a palavra de Deus. Foi assim que, para perplexidade geral, ela fundou o próprio convento em 1147. Ainda hoje a alucinação auditiva é estigmatizada. Nos sistemas de classificação dos transtornos psiquiátricos, representa um critério-chave para o diagnóstico da esquizofrenia. Pesquisas indicam, porém, que o fenômeno é bem mais disseminado.

Levantamento realizado em 1983 pelos psicólogos Thomas B. Posey e Mary E. Losch, ambos da Universidade Estadual de Murray, Estados Unidos, revelou que cerca de 70% dos universitários entrevistados recordaram pelo menos um episódio de alucinação auditiva. Alguns pensavam ouvir a voz de algum parente morto, outros acreditavam numa manifestação divina. Para a maioria tratava-se dos próprios pensamentos. Entre os estudantes, 40% relataram ouvir alguém chamar seu nome pouco antes de adormecer.  Nesse caso, há divergências: alguns psicólogos classificam o fenômeno como alucinação, outros argumentam que quando se está prestes a dormir ou despertar há um rebaixamento da consciência e ficamos mais sujeitos às pseudo alucinações –  assim chamadas, pois sabemos que não se trata de algo real.

PENSANDO ALTO

É difícil, portanto, falar em alucinações auditivas como se fossem um único tipo de manifestação. Há um continuum de manifestações auditivas que vai do falar sozinho ao pensar em voz alta. Isso explica por que os resultados das pesquisas nessa área variam tanto, dependendo da pergunta que se faz aos entrevistados e, principalmente, de como as experiências relatadas são classificadas. Segundo o psicoterapeuta Thomas Bock, diretor do ambulatório de psicoses do Centro Médico da Universidade de Hamburgo, de 3% a 5% da população europeia e americana já teve alucinações auditivas, embora a prevalência mundial de esquizofrenia seja de apenas 1%. Logo, nem todas as “vozes do além” são sintomas de distúrbios psicóticos. Muitas das pessoas que ouvem vozes geralmente passaram por experiências de abuso ou abandono na infância. Eventos traumáticos na idade adulta, como acidente grave, estupro ou perda de um ente querido também podem desencadear o fenômeno. A maioria sofre com conflitos psíquicos e se encontra em alguma situação-limite. “As alucinações auditivas seriam um sinal de que a ‘voz interior’ está ocupada, cuidando das próprias necessidades”, afirma Bock. Segundo ele, para alguns pacientes a voz tem origem interna e para outros, externa. A neurobiologia ajuda a entender o segundo caso: circuitos cerebrais que fornecem feedback do tipo “sou eu que estou falando” eventualmente falham.  Esse parece ser o caso dos esquizofrênicos, grupo em que as alucinações auditivas foram mais investigadas.

O psiquiatra Philip McGuire, do Instituto de Psiquiatria do King’s College de Londres, realizou diversos experimentos com esquizofrênicos, nos quais testou o que chama de atribuição heterônima. Em um deles, McGuire colocou pacientes e pessoas saudáveis para falar ao microfone, ao mesmo tempo que ouviam sua própria voz, levemente modificada. Os participantes tinham de pressionar um botão quando achassem que estavam ouvindo a si mesmos. Como esperado, os esquizofrênicos tiveram mais dificuldades para identificar a própria voz; entre esses, os que costumavam ouvir sons imaginários atribuíam a fala a uma fonte externa, além de avaliá-la de forma depreciativa.

Técnicas de imageamento cerebral fornecem explicações adicionais sobre determinados aspectos fisiológicos das alucinações auditivas. As regiões aparentemente envolvidas são as relacionadas à linguagem, principalmente a área de Wernicke, responsável pela associação entre fala e audição. Diversos estudos, entre eles os conduzidos pelo neurobiólogo Thomas Dierks, da Universidade de Frankfurt, comprovaram por meio de tomografia helicoidal que essa região cerebral está envolvida nas alucinações auditivas. Utilizando o mesmo método, a equipe de Dierks observou, em 1999, o cérebro de três esquizofrênicos no exato momento em que ouviam as vozes imaginárias. Perceberam que, além da área de Wernicke, também o córtex auditivo primário (área que elabora nossa impressão auditiva do mundo exterior) era estimulado. Não surpreende, portanto, que as alucinações pareçam reais. Outros estudos mostraram que, em pacientes com alucinações auditivas graves, a área de Wernicke parecia menor ou atrofiada.

 CIRCUITOS NEURAIS

A experiência de ouvir vozes não precisa estar necessariamente relacionada a uma alteração neurobiológica. Uma hipótese corrente é que o cérebro simplesmente carece de estímulos do mundo exterior, de modo que os inventa. Em 1992, o neurologista Detlef Kõmpf, da Universidade Schleswig-Holstein, em Lübeck, Alemanha, observou que a ausência de estímulos sonoros pode causar alucinações musicais em idosos ou deficientes auditivos. Segundo ele, o cérebro é capaz de reter informações apreendidas nos circuitos neurais durante muito tempo. Se um dia os estímulos cessam, os sinais armazenados acabam ganhando “vida própria”. Pessoas que ouvem vozes em geral são muito retraídas e o fenômeno intensifica o isolamento social.

A tolerância do indivíduo às vozes imaginárias é o critério que determina a necessidade de intervenção clínica. Na prática, as alucinações se distinguem entre a audição eventual de vozes e as descritas por pacientes em tratamento psiquiátrico. A diferença foi estabelecida em 1998 pelo psiquiatra Marius Romme, da Universidade de Maastricht, Holanda. Embora em ambos os casos os pacientes escutem diálogos, comentários ou a reprodução sonora dos próprios pensamentos, os pacientes psiquiátricos relatam conteúdos ofensivos ou repreensões. Pessoas saudáveis costumam ouvir palavras benevolentes e motivadoras e têm a sensação de poder controlar as vozes.

Falar com o paciente como se ele tivesse uma doença grave muitas vezes só agrava o problema, com risco de a pessoa se retrair ainda mais. Deixá-los falar livremente sobre suas vozes, por outro lado, faz com que elas percam um pouco a força. Segundo Bock, esse é o primeiro passo para controlar a situação. Na tentativa de libertar as pessoas das alucinações auditivas, o psiquiatra Ralph E. Hoffman, da Faculdade de Medicina da Universidade Yale, em New Haven, as submete a estimulação magnética transcraniana de baixa intensidade. A técnica começou a ser usada em esquizofrênicos em 2000. Estudo publicado em 2005 mostrou que em metade dos casos as alucinações cessam ou são reduzidas nos três meses seguintes. Os resultados em indivíduos saudáveis ainda estão em fase de avaliação.

Se não é possível afastar as vozes para sempre, mudar a forma como a pessoa as avalia já ajuda muito. Ainda que o conteúdo da mensagem ouvida continue negativo, intenções e características que lhe são atribuídas podem ser interpretadas de outra maneira. Segundo as recomendações da organização alemã de apoio a pacientes com distúrbios psiquiátricos Netzwerk Stimmenhõren, o principal objetivo é fazer o indivíduo “senhor de sua própria casa”. Assim, a pessoa pode, além de continuar ouvindo as vozes, responder a elas, concentrando-se em mensagens positivas ou estabelecendo limites para sua manifestação. Isabela, por exemplo, permite que suas vozes a perturbem apenas na parte da manhã e assim consegue ter sossego o resto do dia.

Outra possibilidade de tratamento se baseia na análise das interações sociais, pois com frequência a relação com as vozes é semelhante às que o indivíduo constrói na vida real, segundo o psicólogo Mark Hayward, da Universidade de Leicester, Reino Unido. “É preciso encontrar a saída do isolamento”, diz. Depois de alguns anos de terapia, Isabela reaproximou-se da mãe e dos amigos. As vozes não foram embora, mas ela deixou de se ver como vítima. Hoje elas já não a assustam mais.

 

BETTINA THRÃENHARDT – é psicóloga e jornalista científica.

OUTROS OLHARES

5 HÁBITOS PARA GANHAR 10 ANOS

Pela primeira vez, a ciência contabiliza o saldo em longevidade de pessoas acima dos 50 anos que, finalmente, decidem adotar atitudes saudáveis no cotidiano.

5 Hábitos para ganhar 10 anos

Os médicos sempre dizem que uma guinada na forma de cuidar da saúde, mesmo após os 50 anos, é capaz de prolongar a vida. O que eles não sabiam era afirmar quanto tempo a mais de vida os novos hábitos trazem. Agora isso está na ponta do lápis. São 10 anos a mais, pelo menos, segundo uma extensa pesquisa que acaba de ser publicada na Circulation, revista da Associação Americana do Coração. As ações recomendadas são conhecidas: uma dieta que preconize a ingestão de frutas, verduras e gorduras saudáveis; exercitar-se regularmente trinta minutos por dia; manter o peso adequado à altura, beber moderadamente (uma taça de vinho para mulheres e duas para os homens) e não fumar. Parece óbvio, mas é a primeira vez que a ciência faz a conta do ganho real que um indivíduo de meia idade obtém ao seguir a cartilha da vida saudável.

O trabalho foi feito por pesquisadores da Universidade de Harvard (EUA), que acompanharam por três décadas a evolução da saúde de 78 mil mulheres e 44 mil homens a partir dos 50 anos. Sem adotar as cinco atitudes saudáveis, elas tinham 29 anos de expectativa de vida. As que passaram a adotá-las viveriam mais 43 anos. No caso dos homens, o salto foi de 25 para 37 anos. Além disso, os cinquentões saudáveis apresentaram 74% menos risco de morte durante o período acompanhado. O grupo teve 82% menos possibilidade de morrer após um acidente vascular cerebral ou um infarto e 65% menos chances de falecer por causa do câncer.

São índices bastante expressivos, que podem ser explicados pelos benefícios fisiológicos proporcionados pelos hábitos. Somados, eles ajudam a proteger o corpo contra o câncer, as doenças cardiovasculares e as consequências destas, que são as principais causas de morte no mundo. Um dos grandes problemas, porém, é fazer com que as pessoas mudem de hábitos, e de forma consistente. “A adesão ainda é muito pequena”, lamentou Frank Hu, coordenador do trabalho.

A constatação traz ainda outro desafio: convencer os indivíduos de que eles são também responsáveis pela própria saúde. “É preciso que as pessoas atuem como protagonistas nisso, ficando mais conscientes do poder que têm de mudar a vida”, afirma a médica Vania Assaly, presidente da Associação Brasileira de Saúde Funcional e Estilo de Vida.

GESTÃO E CARREIRA

É BOM SE PREOCUPAR…

Esse sentimento, que sempre teve um peso negativo, foi essencial para a sobrevivência da espécie humana – e, se bem gerenciado, poderá ajudar no crescimento profissional e nos processos de decisão.

É bom se preocupar

A febre é uma elevação da atura do corpo em valores acima dos considerados normais e funciona como um sinal de alerta: o sistema imunológico avisa que está combatendo alguma infecção. É um alarme natural. Do ponto de vista psicológico, quem faz esse papel de alertar que algo vai mal é a preocupação, um dos sinais da ansiedade. Mesmo que seja vista como uma sensação negativa, ela é responsável por indicar que há ameaças externas que podem nos prejudicar. “Essas emoções cumpriram a função de proteger nossos ancestrais ao longo da evolução. Os que eram mais atentos e que prestavam atenção em sua volta conseguiram fugir de animais selvagens e se perpetuar por meio da seleção natural”, afirma Beatriz Brandão, psicóloga da Simplex Empresarial, empresa de gestão de consultórios, de São Paulo.

Embora hoje não existam selvagens à solta em busca de uma presa humana, a preocupação continua a ter uma função positiva – tese defendida pelos professores Kate Sweeny e Michael D. Dooley, da Universidade da Califórnia, num artigo publicado na revista científica Social & Persona! Psychological Compass. Para escrever o texto, a dupla estudou como esse sentimento afeta as pessoas em diferentes situações e perceberam que o sentimento pode ter um viés motivador e funcionar como uma espécie de “colchão emocional”, preparando os indivíduos para enfrentar situações difíceis. Um dos exemplos citados pelos pesquisadores é o de um grupo de graduandos da faculdade de direito que estavam aguardando o resultado dos exames. Aqueles que estavam mais tensos conseguiram analisar o boletim de maneira mais assertiva, independentemente das notas conquistadas. “A preocupação é, muitas vezes, desagradável. Mas, por ter experimentado essa sensação angustiante no momento da espera, qualquer coisa parece melhor quando acontece – mesmo que seja urna má noticia. Até a decepção se toma um alivio”, diz Kate.

SOLUÇÃO DE IMPASSES

Em níveis normais, a preocupação é o primeiro passo para que possamos resolver o que nos aflige. A palavra vem do latim praeoccupo e significa, simplesmente, “antecipar-se”- algo interessante, porque pressupõe que tracemos planos e tomemos cuidados diante dos imprevistos. ”Essa é a parte produtiva do sentimento, que apresenta um viés de ação e nos move para solucionar pendências. O problema está na preocupação improdutiva, que paralisa e é apenas ruminação”, afirma Mariângela Gentil Savoia, psicóloga no Ambulatório de Ansiedade (Amban), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Aplicar esse viés de resolver problemas à carreira é uma boa atitude, pois ajuda os profissionais a ficar longe do comodismo e a se meterem para encontrar soluções. “Preocupar-se em se manter atualizado e em agir de acordo com o código de conduta da empresa faz com que você se destaque e sobreviva no mercado”, diz Beatriz. Além disso, esse comportamento pode ser positivo para navegar bem no mundo cheio de transformações em que vivemos. “Os preocupados costumam ser mais pessimistas, mas levam em conta os riscos. Eles podem ser um bom contraponto no mercado”, diz Guilherme Barati, psicólogo clinico de São Paulo.

O empreendedor Pablo Linhares, de 38 anos, tem esse perfil. Afrente da PLL, companhia de assistência técnica para empresas de telefonia com 700 funcionários e escritórios em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, ele costuma analisar os cenários possíveis para cada uma das decisões que toma. “Traço planos pensando em todas as possibilidades. Por isso, não costumo ruminar e sofrer. Quando algo dá errado, já estou pronto para reagir rápido’, afirma Pablo. Essa habilidade se mostrou especialmente relevante durante um dos momentos mais difíceis da empresa-; o extravio da carga de um cliente.

Como a logística era responsabilidade da PLL, Pablo precisou arcar com os custos e negociar uma solução. “Quando um problema acontece, a preocupação tem de surgir para que a gente consiga traçar rotas e consiga minimizá-lo”, diz o empreendedor.

EMOÇÕES SOB CONTROLE

Para entender por que a preocupação tem aspectos negativos e positivos, é preciso compreender como uma adversidade pode ser interpretada por nosso cérebro. Considere que ele é dividido em três partes: o cérebro reptiliano, o mais primitivo e ligado a nossos instintos animais, como atacar ou fugir o sistema límbico, responsável pelas emoções e sensações; e o novo córtex, que comanda nossas atividades racionais, de planejamento e resolução de problemas. O desequilíbrio ocorre quando a ansiedade sai do córtex e o sistema límbico começa a falar mais alto. “Quando estou com baixo desempenho no trabalho, posso deixar de ser racional, ficar com medo e criar teorias da conspiração”, diz Aristides Brito, neurocientista e coach da Marca Pessoal Treinamentos, de Santos (SP). “Muitas de nossas ansiedades não são reais, pois diminuímos nossa capacidade de solução ao transferir inseguranças e emoções com as quais não sabemos lidar.”

Para evitar essa situação, é importante externalizar os sentimentos que causam angústia. Isso ajuda a enxergar outros pontos de vista de um problema – sem que as emoções tirem nossa visão. E é exatamente assim que a nutricionista Damaris de Luca, de 39 anos, costuma agir. A profissional, que trabalha há 22 anos na LC Restaurantes, empresa de refeições coletivas em São Paulo, conta que o hábito de buscar outras visões sobre determinado assunto foi fundamental num dos momentos em que mais se sentiu pressionada na carreira. Em 2013, ela foi convidada a sair de sua área de atuação para comandar a diretoria de novos negócios, divisão recém-criada na companhia. “Senti uma preocupação muito grande com o futuro, pois estava saindo da função em que eu estava há anos, teria de criar uma equipe do zero e gerir pessoas mais velhas e experientes do que eu”, diz Damaris. Sabendo que não daria conta sozinha, – a profissional criou uma liderança mais colaborativa e organizou a rotina para ter momentos de relaxamento. . Procuro sempre resolver os problemas em grupo, envolvendo pessoas da minha área e de outros departamentos. Assim, consigo me distanciar, analisar e encontrar soluções sem sofrer e sem perder noites de sono.”

NO MEIO DO CAMINHO

Por essa função estar intimamente relacionada à ansiedade, quando estamos preocupados liberamos uma série de hormônios no sangue, principalmente adrenalina e glucocorticoides, que aceleram os batimentos cardíacos e a respiração, secam a boca e nos deixam suando frio. Esse estresse no longo prazo pode levar a quadros crônicos de ansiedade ou a outras doenças e distúrbios alimentares. “Um indicativo de que a preocupação está além do nível considerado saudável e se tornando sem sentido é quando ela começa a atrapalhar ou impedir que você faça as atividades simples do dia a dia como dormir bem”, afirma Mariângela.

Algumas pessoas são propensas a sofrer mais com a ansiedade diante de algum dilema. Entre elas estão as que apresentam baixa inteligência emocional, aquelas que sucumbem facilmente em situações mais exigentes ou as que têm um perfil controlador, não toleram a incerteza e querem tomar as rédeas de tudo. “O ideal é assumir uma postura de aceitação e adotar ações que minimizem a angústia. Por exemplo, não levar os problemas para a hora de dormir ou para o trabalho, procurar estar presente em todas as atividades e evitar a ruminação, diz Mariângela. E, assim como a maioria dos sentimentos, o que vai determinar se a preocupação assumirá um lado bom ou ruim é o equilíbrio. No mundo ideal, não é a despreocupação o caminho que devemos almejar, mas a preocupação na medida certa.

RUGUINHA NA TESTA

Estratégias para gerenciar melhor a preocupação:

COLOQUE NA AGENDA

Reservar uma hora do dia para refletir sobre o que o preocupa pode ser eficiente, principalmente se a sensação faz com que você perca o sono. Programe o mesmo horário, todos os dias, e se concentre em pensar sobre o que está causando aflição – assim você diminui a chance de os problemas voltarem à mente durante o dia ou a noite.

FAÇA LISTAS

Escrever tudo o que causa angústia é um método eficiente porque ajuda a racionalizar um processo que, muitas vezes, está acontecendo em meio a um turbilhão de sentimentos.

MANTENHA O FOCO

Um dos grandes problemas da preocupação é que ela pode consumir todas as atividades da vida de alguém, fazendo com que a pessoa não consiga se concentrar em mais nada. Porém, quanto mais ruminação houver, mais distante de uma perspectiva de resolução de problema você vai estar. O ideal é tentar focar o momento presente.

 

Fonte: Revista Você SA – Edição 237

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 18: 15-20

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A Remoção dos Escândalos

 Cristo, tendo advertido os seus discípulos a não serem motivos de escândalos, vem em seguida instrui-los quanto ao que eles devem fazer no caso de alguém os escandalizar; o que pode ser entendido por injúrias pessoais, e então essas instruções têm o propósito de preservar a paz da igreja. O Senhor também pode estar se referindo a escândalos públicos, e então estas palavras têm o propósito de preservar a pureza e a beleza da igreja. Consideremos isso de ambas as formas:

 I – Como as discussões que acontecem sobre qualquer assunto entre os cristãos. Se teu irmão transgredir contra ti, afligindo a tua alma (1 Coríntios 8.12), te afrontando, ou colocando desprezo ou abuso sobre ti; se ele manchar o teu bom nome, fazendo falsos relatos e intrigas; se ele passar dos limites dos teus direitos, ou, de alguma forma, te prejudicar em sua propriedade; se ele for culpado de qualquer destas transgressões que são especificadas (Levítico 6.2,3); se ele transgredir as leis da justiça, caridade, ou obrigações familiares; estas são transgressões contra nós, e frequentemente ocorrem entre os discípulos de Cristo, e, às vezes, por falta de prudência, trazem terríveis consequências. Então observe qual é a regra prescrita neste caso:

1. “Vai e repreende-o entre ti e ele só”. Deixe que isso seja comparado com Levítico 19.17 e explicado por este texto sagrado: “Não aborrecerás a teu irmão no teu coração”; isto é: “Se tu concebestes uma mágoa contra o teu irmão por qualquer injúria que ele tenha feito a ti, não permitas que os teus ressentimentos se transformem em um rancor secreto (como uma ferida, que é mais perigosa quando sangra internamente), mas os expõe em uma admoestação suave e grave, deixando que eles mesmos se dissipem, e logo serão eliminados. Não o ataques pelas costas, mas repreende-o. Se ele tiver feito a ti uma injustiça considerável, tenta sensibilizá-lo quanto a isso, mas deixa que a repreensão ocorra em particular, entre ti e ele só; se conseguires convencê-lo exponhas, porque isso só o deixará exasperado, e fará com que a repreensão pareça uma vingança”. Isto está de acordo com Provérbios 25.8,9: ‘”Não te apresses a litigar’, mas ‘pleiteia a tua causa com o teu próximo mesmo’, discute a questão calma e amigavelmente; e se te ouvir, satisfatoriamente, ganhaste a teu irmão; há um fim da controvérsia, e é um final feliz; não deixes que nada mais seja dito a respeito disso, mas permite que a inimizade anterior traga a renovação da amizade”.

2. “Se não te ouvir’, se ele não se considerar culpado, nem chegar a um acordo, ainda assim não te desesperes, mas submete o que ele irá te dizer a uma ou duas pessoas, não só para serem testemunhas do que se sucede, mas para argumentarem sobre o caso posteriormente com ele. Ê mais provável que ele lhes dê ouvidos porque não são parte da contenda; e se a razão falar mais alto com ele, a palavra da razão na boca de duas ou três testemunhas lhe será melhor falada e mais considerada por ele, e talvez isso o influencie a reconhecer o seu erro, e a dizer: Eu me arrependo.”

3. “E, se não as escutar’, e não referir a questão ao julgamento delas, então relate-a à igreja, aos ministros, presbíteros, ou a outros oficiais, ou às pessoas mais respeitadas na congregação a que pertences, faze-os juízes para tratar do assunto, e não apeles ao magistrado, nem solicites uma intimação para ele.” Isto é totalmente explicado pelo apóstolo (1 Coríntios 6), onde ele reprova aqueles que foram à lei perante os injustos, e não perante os santos (v. l), e que deveriam recorrer aos santos para julgarem as pequenas questões (v. 2) pertencentes a esta vida (v. 3). Se você perguntar: “Quem é ‘a igreja’ que deve ser consultada?”, o apóstolo instrui (v. 5): “Não há, pois, entre vós sábios, nem mesmo um, que possa julgar entre seus irmãos?” Aqueles da igreja que presumidamente são mais capazes de determinar tais assuntos; e ele fala ironicamente, quando diz (vv. 4,5): “Pondes na cadeira aos que são de menos estima na igreja… Não há, pois, entre vós sábios, nem mesmo um, que possa julgar entre seus irmãos?” Esta regra era então um requisito, especialmente quando o governo civil estava nas mãos daqueles que eram não só estrangeiros, mas inimigos.

4. “Se também não escutar a igreja’, não der ouvidos à decisão dela, mas persistir no erro que te fez, e continuar a te fazer ainda mais injustiças, considera-o como um gentio e publicano; toma o benefício da lei contra ele, mas que este seja sempre o último recurso. Não apeles para os tribunais de justiça até que tenhas primeiro tentado outros meios de resolver a questão em desacordo. Também podes, se quiseres, romper a tua amizade e familiaridade com ele; embora não devas, de modo algum, pensar em vingança, podes escolher se terás qualquer acordo com ele, no mínimo, de um modo que não possa lhe dar uma oportunidade de fazer a mesma coisa outra vez. Tu o terás restaurado, tu terás preservado a amizade dele, porém ele pode não agir da mesma forma, mas com falsidade.” Se um homem trapacear e abusar de mim uma vez, a culpa será dele; se ele fizer isso duas vezes, a culpa será minha.

II – Consideremos isso como os pecados escandalosos, que são um escândalo aos pequeninos, um mau exemplo àqueles que são fracos e sugestionáveis, e de grande tristeza para aqueles que são débeis e tímidos. Cristo, tendo nos ensinado a ser indulgentes com a fraqueza de nossos irmãos, aqui nos aconselha a não sermos indulgentes com a maldade daqueles que utilizam a fraqueza como pretexto. Cristo, planejando edificar uma igreja para si mesmo no mundo, cuidou aqui da preservação:

1. De sua pureza, para que ela pudesse ter uma autoridade de expulsão, um poder para purificar-se e renovar-se, como uma fonte de águas vivas, que é necessário, uma vez que a rede do Evangelho traz à tona tanto peixes bons como ruins.

2. De sua paz e ordem, para que todo membro possa conhecer o seu lugar e obrigação, e a pureza dela possa ser preservada de um modo regular, e não desordenadamente. Então vejamos:

(1). Qual é o caso suposto? “Se teu irmão pecar contra ti”.

[1]. “O ofensor é um irmão, alguém que está na comunhão cristã, que é batizado, que ouve a Palavra, que ora contigo, com quem tu te reúnes para a adoração a Deus regular ou ocasionalmente.” Note que a disciplina da igreja é para os membros da igreja. Deus julga os que estão de fora (1 Coríntios 5.12,13). Quando qualquer transgressão for feita contra nós, o primeiro passo é identificar se o transgressor é ou não um irmão, pois antes de resolvermos qualquer problema, precisamos entendê-lo.

[2]. ”A ofensa é uma transgressão contra ti; se o teu irmão pecar contra ti (assim é a palavra), se ele fizer qualquer coisa que seja ofensiva a ti como um cristão.” Um pecado gritante contra Deus é uma transgressão contra o seu povo, que tem uma verdadeira preocupação pela sua honra. Cristo e os crentes têm interesses entrelaçados; aquilo que for feito contra os crentes será considerado por Cristo como algo que está sendo feito contra ele mesmo; e aquilo que for feito contra Ele, só poderá ser considerado pelos crentes como algo que está sendo feito contra eles mesmos. ”As afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim” (Salmos 69.9).

(2). O que deve ser feito nesse caso. Temos aqui:

[1]. As regras prescritas (vv. 15-17). Prosseguindo nesse método, temos:

Em primeiro lugar: “Vai e repreende-o entre ti e ele só”. Não espere que ele venha a ti, mas vá até ele, como o médico visita o paciente, e o pastor vai em busca da ovelha perdida. Não devemos achar que o esforço para a recuperação de um pecador ao arrependimento seja grande demais. Repreende-o, faça com que ele se lembre do que fez, e do mal de sua ação; mostre-lhe as suas abominações. As pessoas são relutantes em enxergar os seus erros, e têm a necessidade de ser informadas sobre eles. Embora o fato seja claro, como também o erro, eles de­ vem ser expostos. Os grandes pecados frequentemente distraem a consciência, e no momento a entorpecem e a silenciam; existe a necessidade de ajudar a despertá-la. O próprio coração de Davi o afligiu, quando ele cortou a orla da veste de Saul, e quando ele contou o povo em um censo; mas (o que é muito estranho) não vemos que ele tenha sido afligido no caso de Urias, até que Natã lhe disse: “Tu és o homem”.

“Repreende-o, e faz isso com razão e argumentos, não com paixão.” Onde o erro é evidente e grande, a própria pessoa é a pessoa certa para lidarmos, e temos uma oportunidade para isso; não há nenhum perigo aparente de causar mais sofrimento do que bem. Devemos, com mansidão e fidelidade, dizer às pessoas o que está errado nelas. A repreensão cristã é um mandamento de Cristo para trazer os pecadores ao arrependimento, e deve ser tratada como um mandamento. “Que a repreensão seja em particular, entre ti e ele só; fique patente que buscas não a sua reprovação, mas o seu arrependimento.” Note que esta é uma boa regra, que deveria ser observada de forma costumeira entre os cristãos: não falar dos erros dos nossos irmãos aos outros, até que tenhamos falado desses erros com eles próprios, fazendo desse procedimento algo menos acusador e mais reprovador – isto é, menos pecados cometidos e mais deveres cumpridos. Provavelmente haverá mais eficácia sobre um ofensor quando ele vir o seu reprova­ dor preocupado não só com a sua salvação, ao lhe declarar o seu erro, mas também com a sua reputação, ao falar de seu erro de forma privada.

“Se te ouvir” – isto é, se te der atenção – se ele for tocado pela reprovação satisfatoriamente, “ganhaste a teu irmão”; tu ajudaste a salvá-lo do pecado e da ruína, e isso será teu crédito e conforto (Tiago 5.19.20). Note que a conversão de uma alma consiste em ganhar essa alma (Provérbios 11.30); e devemos desejá-la e trabalhar por ela como se fosse um ganho para nós. E como a perda de uma alma é uma grande perda, o ganho de uma alma é, com certeza, um grande ganho.

Em segundo lugar: Se isso não acontecer, “leva ainda contigo um ou dois” (v.16). Não devemos nos cansar de fazer o bem, embora atualmente não vejamos o bom sucesso dessa atitude. Se ele não o ouvir, não desista dele como em um caso em que não haja esperança; não diga que não servirá para nada mais lidar com essa pessoa, mas continue no uso de outros meios. Até mesmo aqueles que endurecem os seus pescoços devem ser frequentemente reprovados, e aqueles que se opõem devem ser instruídos em mansidão. Em um trabalho desse tipo, devemos sentir novamente as dores de parto (Gálatas 4.19); e é depois de muitos sofrimentos e dores que a criança nasce.

“Leva ainda contigo um ou dois”.

1. Para ajudá-lo; eles podem falar alguma palavra pertinente e convincente em que você não pensou, e podem tratar do assunto com mais prudência do que você o fez”. Note que os cristãos devem enxergar a sua necessidade de ajudar a fazer o bem, e orar por auxílio mútuo. Assim como em outras tarefas, ao repreender-se o dever deve ser cumprido, e que possa ser cumprido da melhor maneira possível.

2. “Para produzir efeito nele. Será mais provável que ele se humilhe por seu erro quando vir dois ou três testemunhando contra si” (Deuteronômio 19.15). Observe que o transgressor deve encontrar a hora certa para se arrepender e se corrigir. Ele precisa enxergar que a sua má conduta está se tornando uma ofensa e um escândalo geral. Embora em um mundo como este seja raro encontrar alguém bom de quem todos os homens falem bem, é mais raro ainda encontrar alguém bom de quem todos os homens falem mal.

3. “Para serem testemunhas de sua conduta, caso o assunto seja, depois disso, levado ao conhecimento da igreja”. Ninguém deve ser submetido à censura da igreja como obstinado e contumaz, até que seja muito bem provado que tal pessoa seja assim.

Em terceiro lugar: “Se não as escutar”, e não se humilhar, “dize-o à igreja” (v. 17). Há alguns espíritos obstinados a quem os meios mais prováveis de convencimento se mostram ineficazes; no entanto, não se deve desistir deles como incuráveis, mas permitamos que o assunto se torne mais público, e mais ajuda seja requisitada. Observe:

1. As admoestações em particular devem sempre ocorrer antes das censuras públicas; se métodos mais gentis funcionarem, aqueles que são mais severos não devem ser usados (Tito 3.10). Aqueles que ponderarão sobre os seus pecados, não precisarão ser envergonhados por eles. Deixemos que a obra de Deus seja feita de modo eficaz, mas com o menor estardalhaço possível; o seu reino vem com poder, mas não com observação. Mas:

2. Onde a admoestação em particular não funcionar, a censura pública deverá ocorrer. A igreja deve receber as queixas do ofendido, repreender os pecados dos ofensores, e julgar entre eles, depois de uma investigação imparcial dos méritos da causa.

“Dize-o à igreja”. É um a pena que esta ordem de Cristo. que foi expressa para acabar com as diferenças e remover os escândalos, seja em si um grande assunto de debate, e ocasione diferenças e escândalos pela corrupção dos corações dos homens. A grande questão é: o que se deve dizer à igreja. Isso compete ao magistrado civil, dizem alguns. Ao sinédrio judeu, dizem outros; mas pelo que se segue (v.18), fica evidente que o Senhor se refere a uma igreja cristã, que, embora ainda não formada, estava em seu início embrionário. “Dize-o à igreja”, àquela igreja específica em cuja comunhão o ofensor vive; torne o assunto conhecido aos daquela congregação que são, por permissão do Senhor, designados a receber informações desse tipo. Dize-o aos líderes e governantes da igreja, ao ministro ou aos ministros, aos presbíteros ou diáconos, ou (se esta for a constituição da sociedade) dize-o aos representantes ou chefes da congregação, ou a todos os membros dela; eles devem examinar o assunto e, se concluírem que a queixa é frívola ou sem base, repreendam o queixoso. Se eles a considerarem justa, repreendam o ofensor, e intimem-no ao arrependimento. É provável que isso traga mais força e eficácia à repreensão, por ser ministrada:

1.  “Com maior solenidade,”, e:

2. “Com maior autoridade”. Ê algo terrível receber uma repreensão de uma igreja, de um ministro, um reprovador por ofício; portanto, o assunto ganha uma perspectiva diferente, como uma deferência de uma instituição de Cristo e de seus embaixadores.

Em quarto lugar: “Se também não escutar a igreja”, se ele menosprezar a admoestação, se não se envergonhar de seus erros, nem os corrigir, considere-o como um gentio e publicano; que ele seja expulso da comunhão da igreja, afastado das ordenanças especiais, que perca a honra da posição de membro da igreja, que seja colocado sob desgraça, e que os membros da igreja sejam avisados a se afastarem dele, para que possa sentir vergonha de seu pecado, e que eles não se contaminem por ele, nem se tornem culpáveis juntamente com o transgressor. Aqueles que desprezam as ordens e regras de uma sociedade, e trazem reprovação sobre ela, falsificam as honras e os privilégios dela, e são justa­ mente isolados até que se arrependam e se sujeitem, e se reconciliem com ela novamente. Cristo indicou esse método para vindicar a honra da igreja, a preservação de sua pureza, e a convicção e restauração daqueles que são escandalosos. Mas observe que o Senhor não diz: “Que ele seja para ti como um diabo ou um espírito mal­ dito, como alguém cujo caso não tem esperança”, mas “como um gentio e publicano, como alguém que está na posição de ser restaurado e recebido outra vez. Não o considera como um inimigo, mas admoesta-o como um irmão.” As instruções dadas à igreja de Corinto com relação ao incestuoso concordam com as regras aqui; ele deve ser tirado dentre eles (1 Coríntios 5.2), e deve ser entregue a Satanás. Porque se ele for expulso do reino de Cristo, será considerado como pertencendo ao reino de Satanás; eles não devem estar em companhia dele (vv. 11,13). Mas se for humilhado e regenerado, ele deve ser recebido novamente em comunhão, e tudo estará bem.

[2]. Aqui está uma garantia para a ratificação de todos os procedimentos da igreja de acordo com essas regras (v. 18). Aquilo que foi dito anteriormente a Pedro é repetido aqui a todos os discípulos, e a todos os obreiros fiéis da igreja, até o final do mundo. Enquanto os ministros pregam a palavra de Cristo fielmente, e, em seu governo da igreja, obedecem estritamente às suas, eles podem ter a certeza de que são, e sempre serão, do Senhor. Ele os apoiará, e ratificará aquilo que eles dizem e fazem, para que seja considerado como dito e feito pelo próprio Senhor. Ele os reconhecerá:

Em primeiro lugar, em sua sentença de suspensão. “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu”. Se as censuras da igreja seguirem devidamente a instituição de Cristo, seus juízos seguirão as censuras da igreja, seus juízos espirituais, que são os mais dolorosos de todos os outros, como aqueles que foram sofridos pelos judeus rejeitados (Romanos 11.8), “um espírito de profundo sono”. Porque Cristo não tolerará que as suas próprias ordenanças sejam menosprezadas, mas dirá amém para as sentenças justas que a igreja decretar sobre os seus ofensores obstinados. Por maior que seja o desprezo que os zombadores orgulhosos possam demonstrar em relação às censuras da igreja, faça-os saber que elas são confirmadas no tribunal do céu; e seria em vão apelarem para este tribunal, porque o juízo já foi expresso ali contra eles. Aqueles que são deixados de fora da congregação dos justos agora, não permanecerão nela no grande dia (Salmos 1.5). Cristo não os possuirá como seus, nem receberá para si mesmo aqueles a quem a igreja devidamente entregou a Satanás; mas, se através de algum erro, ou da inveja, as censuras da igreja forem injustas, Cristo irá misericordiosamente ao encontro daqueles que forem banidos (João 9.34,35).

Em segundo lugar, em sua sentença de absolvição. “Tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. Considere que:

1. Nenhuma censura da igreja liga tão firmemente. Mas, mediante o arrependimento e a restauração dos pecadores, eles podem e devem ser novamente restaurados. A punição que alcança o seu propósito é suficiente, e o ofensor deve então ser perdoado e confortado (2 Coríntios 2.6). Não há nenhum abismo intransponível estabelecido, exceto aquele entre o céu e o inferno.

2. Aqueles que, por seu arrependimento, forem recebidos pela igreja em comunhão novamente, podem receber o conforto da sua absolvição no céu, se os seus corações forem sinceros para com Deus. A suspensão está para o terror do obstinado assim como a absolvição está para o ânimo do penitente. O apóstolo Paulo fala como alguém que tem a mente de Cristo, quando diz: ”A quem perdoardes alguma coisa também eu” (2 Coríntios 2.10).

Então, Cristo aqui dá uma grande honra à igreja. Ele não só condescenderá, reconhecendo as suas sentenças, mas as confirmará; e nos versículos seguintes temos duas coisas que são a base disso.

(1).  A prontidão de Deus em responder as orações da igreja (v. 19). “Se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito”. Aplique isso:

[1].  Em geral, a todos os pedidos, em oração, da semente fiel de Jacó; eles não buscarão a face de Deus em vão. Temos muitas promessas, nas Escrituras, de uma resposta misericordiosa às orações que forem feitas com fé. Mas esta dá um ânimo particular à oração conjunta, pois podemos entendê-la assim: “Os pedidos em que dois de vocês concordarem serão concedidos; quanto mais aqueles que tiverem a concordância de muitos”. Nenhuma lei do céu limita o número daqueles quepe­ dem. Cristo se agrada de honrar e permitir uma eficácia especial às orações conjuntas dos crentes fiéis, e às súplicas comuns que eles fazem a Deus. Se eles se unirem na mesma oração, se combinarem que se apresentarão ao trono da graça com algum propósito especial, ou, apesar da distância, concordarem em uma questão específica em oração, eles serão bem-sucedidos. Além da consideração geral que Deus tem pelas orações dos santos, Ele se agrada pa1ticularmente pela união e pela comunhão deles nessas orações. Veja 2 Crônicas 5.13; Atos 4.31.

[2].  Em particular, àqueles pedidos que são colocados diante de Deus sobre ligar e desligar, aos quais essa promessa parece se referir mais especialmente. Observe, em primeiro lugar, que o poder da disciplina da igreja não está confinado aqui na mão de uma única pessoa; mas duas, no mínimo, devem estar preocupadas com o assunto. Quando o coríntio incestuoso estava para ser expulso, a igreja estava reunida (1 Coríntios 5.4), e o castigo foi infligido por muitos (2 Coríntios 2.6). Em um caso de tamanha importância, dois é melhor que um, e na multidão de conselheiros há segurança. Em segundo lugar, é bom ver aqueles que têm o controle da disciplina da igreja concordando com a sua aplicação. Discussões acaloradas e animosidades, entre aqueles cujo trabalho é remover escândalos, será o maior escândalo de todos. Em terceiro lugar, a oração deve sempre estar de acordo com a disciplina da igreja. Não decrete uma sentença que você não possa, com fé, pedir a Deus que confirme. A palavra referente a ligar e desligar (cap. 16.19) era proferida através da pregação, e esse processo deveria estar envolto pela oração. Portanto, todo o poder dos ministros do Evangelho deve estar na Palavra e na oração, às quais eles devem se dedicar completamente. Ele não diz: “Se vocês concordarem com uma sentença e decretarem alguma coisa, ela deverá ser feita” (como se os ministros fossem juízes e senhores), mas: “Se vocês concordarem em pedir algo a Deus, vocês obterão uma resposta favorável da parte dele.” A oração deve estar de acordo com todos os nossos esforços em prol da conversão dos pecadores (veja Tiago 5.16). Em quarto lugar, as petições unânimes da igreja de Deus para a ratificação de suas justas censuras serão ouvidas no céu, e obterão uma resposta; isso lhes será feito, será ligado ou desligado no céu. Deus dará a sua autorização aos apelos e pedidos que você lhe fizer. Se Cristo (que aqui fala como quem tem toda a autoridade) diz: “Isso lhes será feito,” podemos nos sentir seguros de que será feito, mesmo que o resultado não se apresente da maneira que o buscamos. Deus nos aceita de uma maneira especial, e continua a ser o dono de nossa vida quando estamos orando por aqueles que escandalizaram tanto a Ele como a nós. Deus virou o cativeiro de Jó, não quando ele estava orando por si mesmo, mas quando ele estava orando por seus amigos que haviam transgredido contra ele.

(2).  A presença de Cristo nas assembleias dos cristãos (v. 20). Todo crente tem, em si mesmo, a presença de Cristo; mas a promessa aqui se refere às reuniões onde dois ou três estão reunidos em seu nome, não só para a disciplina, mas para a adoração religiosa, ou qualquer ato de comunhão cristã. As assembleias de cristãos para propósitos santos são aqui indicadas, instruídas e encorajadas.

[1]. Elas são aqui indicadas; a igreja de Cristo no mundo existe mais visivelmente em assembleias religiosas; é a vontade de Cristo que estas sejam realizadas. e acompanhadas, para a honra de Deus. para a edificação dos homens, e para a preservação da religiosidade no mundo. Quando Deus tem a intenção de conceder res­ postas especiais à oração, Ele requer uma assembleia solene (Joel 2.15,16). Se não houver liberdade e oportunidade para assembleias grandes e numerosas, mesmo assim é a vontade de Deus que dois ou três se reúnam, para que Ele mostre a sua boa vontade à grande congregação. Quando não pudermos fazer o que faríamos, no exercício da religião, devemos fazer o que pudermos, e Deus nos aceitará.

[2]. Eles são aqui instruídos a se reunir em nome de Cristo. No exercício da disciplina da igreja, eles devem se reunir em nome do Senhor Jesus Cristo (1 Coríntios 5.4). Este nome fornece ao que eles fazem uma autoridade na terra, e uma aceitabilidade no céu. Em nossas reuniões ou em nossa adoração, devemos manter os nossos olhos em Cristo; devemos nos reunir pela virtude de sua garantia e decreto, em sinal de nossa relação com Ele, professando a nossa fé nele, e em comunhão com todos aqueles que, em todo lugar, o invocam. Quando nos reunimos para adorar a Deus, devemos depender do Espírito e da graça de Cristo como Mediador para que sejamos auxiliados, e do seu mérito e da sua justiça como Mediador para que sejamos aceitos. Precisamos ter uma verdadeira consideração para com Ele como o Caminho para o Pai, e o nosso Advogado junto ao Pai; assim nos reunimos em seu nome.

[3]. Eles são aqui encorajados com uma garantia da presença de Cristo: “Aí estou eu no meio deles”. Pela sua presença comum, Ele está em todos os lugares, como Deus; mas essa é uma promessa de sua presença especial. Onde os seus santos estão, o seu santuário está, e ali Ele habitará; é o seu repouso (Salmos 132.14), é o seu andar (Apocalipse 2.1); Ele está no meio deles, para vivificá-los e fortalecê-los, para reanimá-los e confortá-los, como o sol no meio do universo. Ele está no meio deles, isto é, em seus corações; é uma presença espiritual, a presença do Espírito de Cristo com o espírito deles, que aqui é proposta. “Aí estou eu”, não só: Eu estarei aí, mas, e Eu estou aí; como se Ele viesse primeiro. Estando diante deles, eles o encontrarão aí. Ele repetiu essa promessa na sua partida (cap. 28.20): “Eis que eu estou convosco todos os dias”. A presença de Cristo está nas assembleias de cristãos conforme a sua promessa, e pode ser pedida pela fé. Os cristãos podem depender dela: ”Aí estou eu”. Isso é o equivalente ao Shekiná, ou a presença especial de Deus no tabernáculo e no templo do passado (Êxodo 40.34; 2 Crônicas 5.14).

Embora apenas dois ou três estejam reunidos, Cristo está no meio deles; esse é um estímulo para a reunião de alguns, quando é feita, em primeiro lugar, por escolha. Além do culto particular realizado por pessoas específicas, e os cultos públicos de toda a congregação, pode haver, às vezes, uma oportunidade para dois ou três se reunirem, ou para auxílio mútuo em conferência, ou para o auxílio conjunto em oração, não em desprezo ao culto público, mas em cooperação com ele; Cristo estará presente ali. Ou, em segundo lugar, por coação; quando não houver mais que dois ou três para se reunir, e se não ousarem adorá-lo por medo dos judeus, mesmo assim Cristo estar á no meio deles, porque não é a multidão que convida a presença de Cristo, mas a fé e a devoção sincera dos adoradores. E mesmo que haja apenas dois ou três, o menor número que pode haver, mesmo assim Cristo está presente no meio deles. Ele é a pessoa principal, e a sua reunião será tão honorável e confortadora quanto se houvesse dois ou três mil participantes.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

VOCÊ ESTÁ MESMO NO COMANDO DA SUA VIDA?

Cientistas pesquisam como nossas decisões são controladas por aspectos físicos e psíquicos dos quais nem sempre temos consciência. A neurobiologia pode ajudar a entender como escolhemos nosso destino.

Você está mesmo no comando da sua vida

Em um canto remoto do Universo, em um pequeno planeta azul gravitando em torno de um sol monótono, nos distritos exteriores da Via Láctea, organismos surgiram da lama e do lodo   primordial em uma longa luta pela sobrevivência. Apesar de todas as evidências desfavoráveis, essas criaturas bípedes se consideram extremamente privilegiadas, ocupando um lugar privilegiado em um cosmos de um trilhão de trilhões de estrelas. Vaidosos, muitos desses seres incorrem no ledo engano de acreditar que somente eles podem escapar da lei de ferro da causa e efeito que rege tudo. E pensam que podem agir assim por se valer de algo que chamam de livre-arbítrio, essa capacidade de tomar decisões. Mas será que somos mesmo tão livres em nossas escolhas?

A questão não é meramente uma ironia filosófica, mas nos diz respeito como poucas outras da metafísica. Trata-se, na verdade, do alicerce das noções de sociedade, responsabilidade, reconhecimento e culpa. Em última análise, diz respeito ao grau de controle que exercemos sobre nossa vida.

Pense numa situação prática. Imagine que você vive com alguém amoroso, encantador e está satisfeito com sua vida afetiva. Ou, pelo menos, era o que pensava até encontrar, casualmente, um estranho que lhe desperta grande atração e deixa sua vida de cabeça para baixo. Vocês conversam por horas no telefone, compartilham segredos mais íntimos e iniciam um jogo de sedução. Por outro lado, você percebe perfeitamente que tudo isso é errado do ponto de vista ético e pode causar estragos na vida de várias pessoas. Além disso, não há nenhuma garantia de um futuro feliz e produtivo se continuar essa história. No entanto, algo em você anseia por mudança.

Até que ponto de fato há interesse em resolver a situação? Esse tipo de escolha nos confronta com valores e desejos. Em princípio, você acha que pode terminar tudo. Mas, apesar de diversas tentativas, de alguma forma nunca consegue. Por que será?

Embora a filosofia tenha trazido grandes contribuições para o debate sobre o livre-arbítrio, podemos focar nas respostas – ainda que parciais – da psicologia, da física e da neurobiologia sobre esse antigo enigma.

 TONS DE LIBERDADE

Recentemente, participei de um júri no Tribunal Distrital dos Estados Unidos, em Los Angeles. O réu era um membro de uma gangue de rua que contrabandeava e traficava drogas. Ele era acusado de assassinar um colega de quarto com dois tiros na cabeça. Enquanto a cena do crime era discutida com parentes e membros atuais e passados da gangue (alguns algemados e vestidos com macacão laranja de prisioneiro), eu pensava sobre as forças individuais e sociais que moldaram aquele rapaz, sentado na cadeira do réu. Alguma vez ele teve escolha?  A educação violenta que recebeu o transformou em assassino? Felizmente, o júri não foi chamado para responder a esses questionamentos complexos ou determinar a punição. Tivemos apenas de decidir, mesmo com alguma dúvida, se acreditávamos que ele seria culpado da acusação:  atirar em certa pessoa num determinado lugar e numa ocasião específica. Foi o que fizemos. De acordo com o que alguns chamam de livre-arbítrio, um conceito articulado por René Descartes no século 17, somos livres se, em circunstâncias idênticas, podemos agir de formas diferentes. Condições análogas se referem   não só a fatos externos, mas também a estados mentais. Assim, a mente pode escolher com autonomia, permitindo que a consciência expresse seus desejos, assim como um motorista que guia um carro pode optar por qual estrada prefere ir. Esse é um dos pontos de vista mais aceitos pelo senso comum.

Agora, compare essa forte noção de liberdade com uma concepção mais pragmática chamada “compatibilismo”, a visão dominante em alguns círculos biológicos, psicológicos, jurídicos e médicos. Segundo essa ideia, somos livres se podemos seguir nossos próprios desejos e preferências. Por exemplo, um fumante de longo prazo que tenta parar, mas reincide, não é livre – seu desejo é frustrado pela dependência. Segundo essa definição, poucos de nós somos totalmente livres.

São raras as pessoas “autônomas” que me vêm à mente: Mahatma Gandhi, com sua força de aço, deixava de comer por semanas a fio por um propósito ético elevado. Também o monge budista Thich Quang Duc, que cometeu autoimolação para protestar contra o regime repressivo no sul do Vietnã, em 1963. A natureza calma e deliberada de seu ato heroico, capturada por fotografia, é assombrosa.  Enquanto queima até a morte, Duc permanece na posição de lótus meditativo, sem mover um músculo ou emitir qualquer som, enquanto as chamas o consomem. Para o resto de nós que, muitas vezes, luta para não comer a sobremesa, a liberdade é sempre uma questão de grau, e não um bem absoluto que temos ou não.

UNIVERSO MECÂNICO

O direito penal reconhece casos de responsabilidade diminuída. O marido que bate no amante de sua mulher até a morte durante um ataque cego de fúria depois de pegar o casal em flagrante é considerado menos culpado do que se tivesse premeditado uma vingança semanas mais tarde. O norueguês Anders Breivik, que disparou a sangue-frio contra mais de 60 pessoas, em julho de 2011, foi diagnosticado como esquizofrênico paranoico. Considerado um criminoso insano, será confinado em uma instituição psiquiátrica. A sociedade contemporânea e o sistema judicial são construídos a partir dessa noção pragmática e psicológica de liberdade. Mas é possível ir mais fundo e investigar as causas por trás de ações tradicionalmente consideradas “livres”.

Em 1687, o célebre físico e matemático inglês Isaac Newton publicou a obra Principia, com três volumes, na qual enunciou a lei da gravitação universal e as três leis do movimento. A segunda lei de Newton relaciona a força trazida a um sistema (por exemplo, uma bola de bilhar rolando sobre o feltro verde da mesa) à sua aceleração. Esse postulado tem consequências profundas, pois implica que posições e velocidade de todos os componentes que constituem uma entidade, em qualquer momento particular, juntamente com a força entre eles, determinam inalteravelmente o destino dessa unidade – isto é, sua futura localização e velocidade.

Essa é a essência do determinismo. A massa, a localização e a velocidade dos planetas (que viajam em suas órbitas ao redor do Sol) estabelecem onde estarão em mil, um milhão ou bilhão de anos a partir de hoje, contanto que todas as forças que agem sobre eles sejam devidamente contabilizadas. Uma vez em movimento, o Universo segue seu curso inexorável, como um relógio.

O caos determinístico, porém, é um grande choque contra essa noção de que o futuro pode ser previsto com precisão. O meteorologista Edward Lorenz, morto em 2008, deparou com esse complexo sistema enquanto resolvia três equações matemáticas simples que caracterizam o movimento da atmosfera. A solução prevista pelo programa de computador variava muito quando inseria valores iniciais que diferiam em pequenas quantidades. Essa é a marca do caos: irregularidades infinitesimais em pontos de partida das equações conduzem a resultados radicalmente diferentes. Em 1972, Lorenz cunhou o termo “efeito borboleta” para designar essa extrema sensibilidade às condições iniciais: o bater de asas de uma borboleta cria ondulações quase imperceptíveis na atmosfera que, finalmente, alteram o caminho de um tornado em outro lugar. Extraordinariamente, essa dependência sensível às condições iniciais foi encontrada nas engrenagens celestes, o resumo do universo mecânico. Planetas movem-se majestosamente, impulsionados pela rotação inicial da nuvem que formou o sistema solar. Foi uma incrível surpresa descobrir, por meio da modelagem computacional, na década de 90, que Plutão tem uma órbita caótica, com um tempo de divergência de milhões de anos. Astrônomos não podem afirmar se o planeta estará desse ou do outro lado do Sol (em relação à posição da Terra) daqui a 10 milhões de anos! Se a incerteza vale para um objeto com uma composição interna relativamente simples, que se move no vácuo do espaço sob uma única força, a gravitacional, imagine tentar prever o destino (influenciado por fatores incalculáveis) de uma pessoa ou de uma minúscula célula nervosa.

ORIGENS DA INCERTEZA

No entanto, o caos não invalida a lei natural de causa e efeito. Ele continua a reinar. Físicos planetários podem ter dúvidas sobre onde Plutão estará em algumas eras, mas têm certeza de que sua órbita será completamente dependente da gravidade para sempre. O que se rompe no caos não é a cadeia de ação e reação, mas a previsibilidade. O Universo é um relógio gigantesco, mesmo que não tenhamos certeza para onde os minutos e as horas vão apontar daqui a uma semana.

O golpe mortal contra a teoria de Newton foi o célebre princípio da incerteza da mecânica quântica, formulado por Werner Heisenberg em 1927. O enunciado impõe restrições à precisão com que se podem efetuar medidas simultâneas de uma classe de pares de observáveis em nível subatômico. Basicamente, ele afirma que qualquer partícula, por exemplo um fóton de luz ou um eletro, não pode ter posição e impulso definidos ao mesmo tempo. Se a velocidade é precisa, a posição é correspondentemente mal definida, e vice-versa. O princípio da incerteza de Heisenberg é uma ruptura radical com a física clássica, substituindo a certeza dogmática pela ambiguidade.

Considere um experimento em que há 90% de probabilidade de um elétron estar aqui e 10% lá. Se a experiência for repetida mil vezes, em aproximadamente 900 a partícula estará numa posição e 100 noutra. O resultado estatístico, porém, não estabelece onde o elétron estará na próxima verificação. Albert Einstein nunca pôde se reconciliar com esse aspecto aleatório da natureza. Foi nesse contexto que disse “Deus não joga dados”.

O Universo tem um caráter irredutível, aleatório. Se fosse um relógio, suas engrenagens, molas e alavancas não seriam fabricadas na Suíça, pois não seguem um caminho definido. O determinismo físico foi substituído pelo determinismo das probabilidades. Nada mais é certo.

Mas espere! Há sérias objeções. Não há dúvida de que o mundo macroscópico da experiência humana é construído sobre o mundo quântico microscópico. No entanto, isso não implica que objetos do cotidiano, como os carros, herdam todas as propriedades misteriosas da mecânica quântica. Quando estaciono meu mini conversível vermelho, sua velocidade é zero em relação ao solo. Ele é extremamente pesado em comparação com um elétron, portanto a imprecisão associada à sua posição é, para todos os efeitos, nula.

Automóveis têm estruturas internas relativamente simples. Já o cérebro de abelhas, cães beagles e meninos, é extremamente diferente: os componentes que o constituem têm um caráter frenético. A aleatoriedade é evidente em todos as regiões do sistema nervoso, desde neurônios sensoriais receptores de imagens e aromas até células neurais motoras que controlam os músculos do corpo. Não podemos descartar a possibilidade de que a indeterminação quântica também leva à indefinição comportamental.

A aleatoriedade pode desempenhar um papel funcional. Uma mosca perseguida por um predador que faz uma virada de voo abrupta e repentina tem mais chances de ver a luz do dia por mais tempo do que um inseto mais previsível. É provável que a evolução favoreça circuitos que exploram a aleatoriedade quântica para certos atos ou decisões – e tanto a mecânica quântica quanto o caos determinístico levam a resultados imprevisíveis.

DE PRONTIDÃO

Deixe-me voltar a terra firme e falar sobre um experimento clássico que convenceu muita gente de que o livre-arbítrio é uma ilusão. O estudo foi feito no início de 1980 pelo neuropsicólogo Benjamin Libet, da Universidade da Califórnia em São Francisco.

O cérebro e o mar têm algo em comum: ambos são incessantemente agitados.  Um eletroencefalograma (EGG) permite visualizar esse alvoroço por meio das pequenas flutuações do potencial elétrico (de alguns milésimos de volts) na parte de fora do couro cabeludo. Assim como um sismógrafo, o traçado do EGG se move freneticamente, registrando tremores invisíveis do córtex. Sempre que a pessoa testada está prestes a mover um membro, um potencial elétrico (ou de prontidão, como os cientistas chamam) aumenta. O fenômeno precede o início real do movimento por um ou mais segundos.

Intuitivamente, acreditamos numa certa sequência de eventos que leva a um ato voluntário. Quando decidimos levantar uma das mãos, o cérebro comunica essa intenção aos neurônios responsáveis pelo planejamento e execução dos movimentos relacionados. Essas células neurais transmitem os comandos apropriados para as motoras, que por sua vez contraem os músculos do braço. Libet, porém, não se convenceu desse processo. Não seria mais provável que o cérebro agisse ao mesmo tempo que a mente? Ou até mesmo antes?

O neuropsicólogo decidiu determinar o momento em que acontece um evento mental, quando uma pessoa toma uma decisão deliberada, e compará-lo com o tempo de um evento físico, o início do potencial de prontidão após a decisão. Ele projetou numa tela um ponto de luz brilhante que girava em círculo, como a ponta do ponteiro dos minutos do relógio. Um grupo de voluntários, submetidos a um exame de EGG com eletrodos, deveria flexionar o pulso espontânea e deliberadamente. Os participantes agiram no momento em que prestaram atenção à posição da luz, quando se tornaram conscientes da necessidade de fazer algo.

Os resultados foram inequívocos e reforçados por experiências posteriores. O início do potencial de prontidão antecede a decisão consciente de agir por meio segundo ou mais. O cérebro age antes de a mente decidir! A descoberta é uma completa inversão da intuição profundamente arraigada da causação mental.

DECISÃO CONSCIENTE

Se quiser, pode tentar repetir a experiência: flexione os pulsos. Você experimenta três sentimentos relacionados (mas diferentes): o planejamento para se mover (intenção), sua disposição (um sentimento que os especialistas chamam “de autoria”) e a sensação provocada pelo movimento em si. Mas se um amigo dobra sua mão você vivencia somente o movimento, ou seja, não se sente responsável pela ação. Essa ideia, não raro, é negligenciada nos debates sobre livre-arbítrio: o nexo mente-corpo cria uma experiência específica e consciente de “eu quis isso” ou “sou o autor dessa ação”.

O psicólogo Daniel Wegner, pesquisador da Universidade Harvard, é um dos pioneiros dos estudos modernos da volição. Em um experimento, ele pediu a uma voluntária que usasse luvas e ficasse na frente de um espelho, com os braços pendentes. Um membro do laboratório, vestido de forma idêntica, se posicionou atrás dela, estendendo seus braços sobre as axilas da moça, de modo que quando ela olhasse sua imagem refletida tivesse a impressão de que as mãos eram suas. Os dois usavam fones de ouvido, por meio dos quais Wegner emitia instruções, como “bater palmas” ou “estalar os dedos da mão esquerda”. A voluntária deveria informar em que medida acreditava que as ações das mãos do assistente do laboratório eram dela. Quando ouvia as coordenadas do psicólogo antes que as mãos alheias se levantassem, relatava maior sensação de ter desejado realizar a ação, em comparação com os momentos em que as instruções de Wegner vinham depois.

Diversos neurocirurgiões, acostumados a sondar o tecido cerebral com breves pulsos de corrente elétrica, sublinham a veracidade da sensação de intenção. Em um experimento, o cirurgião ltzhak Fried, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, estimulou a área motora suplementar (situada no córtex cerebral e próxima ao córtex motor primário), desencadeando a necessidade de movimentar um membro. O neurocientista cognitivo Michel Desmurget, do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica, e a neuropsicóloga Angela Sirigu, do Instituto de Ciência Cognitiva, na França, descobriram algo semelhante ao estimular o córtex parietal posterior, uma área responsável por transformar informações visuais em comandos motores. “Senti que queria mover um dos pés, mas não sei explicar o motivo”, disse um dos voluntários. “Fiquei com vontade de rolar a língua pela boca”, acrescentou outro. O sentimento surgiu sem que houvesse sugestão do examinador. Com isso, aprendi duas lições. Primeira: uma concepção mais pragmática sobre o livre-arbítrio. Eu me esforço para viver o mais livre possível de restrições.  A única exceção se refere ao controle deliberado e consciente que me imponho, geralmente motivado por preocupações éticas, como não ferir os outros e tentar deixar o planeta melhor do que encontrei.  Outras considerações incluem vida familiar, saúde, estabilidade financeira e consciência. Segunda: tento entender melhor minhas motivações inconscientes, desejos e medos. Procuro refletir mais profundamente sobre minhas próprias ações e emoções do que quando era mais jovem.

O que proponho não é nenhuma novidade. São lições que homens sábios de diversas culturas ensinam há milênios. Os gregos antigos tinham o aforismo seauton gnothi (conhece-te a ti mesmo) inscrito acima da entrada do Templo de Apolo, em Delfos. Os jesuítas mantêm a tradição espiritual de aproximadamente 500 anos, segundo a qual é imprescindível examinar a consciência duas vezes ao dia. Os budistas examinam seus atos quando se sentam para meditar e, a partir daí, refazem o compromisso pessoa de renunciar ao que faz mal e se aproximar daquilo que realmente querem para si. Esse interrogatório interno constante aguça a sensibilidade para nossas ações, vontades e motivações. A atitude permite não só nos compreendermos melhor, mas também vi­ vermos mais harmoniosamente conosco e com nossas metas de longo prazo.

INTERDEPENDÊNCIA:

o termo “efeito borboleta” foi cunhado por Edward Lorenz, em 1972, para designar a extrema sensibilidade às ligações que os seres e os fenômenos têm uns com os outros: o bater de asas cria ondulações quase imperceptíveis na atmosfera que, finalmente, alteram o caminho de um tornado em outro lugar do planeta

Você está mesmo no comando de sua vida2 

CHRISTOF KOCH – é diretor científico do Instituto Allen de Ciências do Cérebro, em Seattle, e professor de biologia comportamental cognitiva do Instituto de Tecnologia da Califórnia. Adaptado de Consciência: confissões de um reducionista romântico, por Christof Koch. © Instituto de Tecnologia de Massachusetts, 2012. Todos os direitos reservados.

OUTROS OLHARES

A DOR DE 540 MILHÕES

Esse é número estimado de pessoas no mundo afetadas por problemas lombares. E o pior: uma em cada três recebe o tratamento errado.

A dor de 540 milhões

Considerada uma das condições mais incapacitantes, a dor lombar pode ser ainda pior quando os sintomas são negligenciados. É o que aponta o estudo publicado recentemente pela revista científica “The Lancet”, segundo o qual 540 milhões de indivíduos sofrem com dor nas costas – e a maioria dos pacientes recebem tratamento errado. A pesquisa foi conduzida por cientistas de 12 países e revelou que taxa de incapacidade causada pela dor lombar aumentou 50% desde a década de1990.

Não existe um fator especifico que desencadeia o problema, considerado mais um sintoma do que uma doença Emoções como estresse e ansiedade podem hipersensibilizar o sistema de alarme da dor e isso faz com que a percepção de desconforto e incapacidade seja exacerbada em pacientes com lombalgia, que atinge principalmente os adultos. “A chave para o tratamento é uma conversa profunda”, diz Lucíola Menezes Costa, doutora em fisioterapia e líder da pesquisa no Brasil pela Unicid. Um dos erros mais comuns, segundo ela, é solicitar de forma excessiva exames por imagens, que não vão mudar a conduta terapêutica do doente. Os cuidados que ele terá não serão alterados pelo resultado. Além disso, faltam medidas eficientes para investigar os sintomas e o uso de opioides (drogas que atuam no sistema nervoso central para aliviar dores fortes) e cirurgias cresce desenfreadamente. “Precisamos desafiar o paciente a uma nova educação. A intervenção cirúrgica não pode ser a primeira opção”, afirma. Para a especialista, porém, o poder de escolha sobre como lidar com a dor muitas vezes não é acertado com o paciente.

Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), a dor nas costas é a maior causa de afastamento do trabalho em pessoas com menos de 45 anos. O estudo publicado na semana passada mostrou que a maioria das crises de dor lombar é de curta duração. Porém, quando acontecem de maneira recorrente, um terço dos pacientes terá dor novamente em menos de um ano – condição que pode ser classificada como duradoura. Os pesquisadores também chamaram atenção para os sistemas públicos de saúde, que deveriam oferecer terapias mais eficazes e acessíveis à população. Com isso, o prognóstico e a eficácia nos tratamentos seria muito mais eficiente. Segundo o estudo, o descanso é frequentemente recomendado em países de menor poder aquisitivo, onde os recursos para melhorar a ergonomia nos locais de trabalho são escassos.

TRATAMENTOS PARA DOR NAS COSTAS

ADEQUADOS:

>> Sessões de fisioterapia acompanhadas de um profissional capacitado.

>> Técnicas que movimentem o corpo como bicicleta, natação, esteira, pilates e caminhadas.

>> Conversa aprofundada com médico para diminuir a ansiedade e crenças negativas que existem em cima dos sintomas.

INADEQUADOS:

>> Massagem usada de forma isolada.

>> Equipamentos de eletroterapia (frequentemente usados).

>> Uso excessivo de medicamentos à base de opioides.

>> Cirurgias indicadas de forma abusiva.

GESTÃO E CARREIRA

ALPINISTAS CORPORATIVOS

Moda entre as empresas, o montanhismo se torna uma arma para mapear o perfil comportamental de profissionais e identificar quem são os futuros líderes.

Alpinistas corporativos

De tempos em tempos, as empresas elegem um novo tema para explorar em programas e treinamentos. Depois da onda dos escapes games, jogos de fuga e estratégia, o queridinho da vez é o montanhismo. O esporte, que vem ganhando a atenção dos arrojados donos de startups aos executivos de multinacionais, é a analogia perfeita para quem deseja “escalar negócios”. Existem inúmeros paralelos possíveis: enquanto o guia de expedição orienta com sabedoria, o líder conduz com inteligência; enquanto o montanhista calcula riscos, o funcionário planeja metas; enquanto a escalada pede força, a carreira exige resiliência. E, sem espírito de equipe, ninguém chega ao topo, nem da montanha nem da empresa.

Apesar de os críticos considerarem as escaladas apenas mais um dos modismos corporativos e defenderem que logo serão substituídas por outra tendência qualquer, a verdade é que elas se tomaram uma febre ao redor do mundo. Ambientes desafiadores, como montanhas, oferecem uma oportunidade real de aprendizado.

“A medida que caminham e escalam, os participantes de uma expedição compreendem a importância de ser socialmente inteligentes, de se adaptar às mudanças de condições, de construir a confiança e de manter uma visão holística”, diz Christopher Maxwell, Ph.D. em liderança.

Durante 15 anos, Christopher foi professor na Wharton School, escola de negócios da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e dirigiu um programa experimental de desenvolvimento de liderança em que levava gestores para os mais altos picos do mundo. No final de 2016, ele publicou o livro Lead Like a Guide (sem tradução no Brasil), no qual relata sua experiência na área e mostra o que guias de montanhas têm a ensinar aos executivos. A obra fez barulho entre os empresários.

Do lançamento do livro para cá, houve um boom de interesse sobre o assunto, inclusive no Brasil. Segundo consultorias de aventura ouvidas, a procura pelo esporte aplicado com viés empresarial cresceu até 600% nos últimos dois anos.

Companhias de diferentes portes e setores têm promovido o alpinismo entre seus times, tanto para motivá-los com insights fora do ambiente de trabalho quanto para mapear perfis. “O pico de interesse ocorreu durante a crise, comas organizações buscando novas maneiras de promover o crescimento e aumentar a eficiência”, diz Carlos Eduardo Santalena, que alcançou o cume do Monte Everest, maior montanha do mundo, aos 24 anos e hoje é sócio da Grade 6, de Campinas (SP), que promove viagens turísticas e corporativas para destinos famosos pela altitude.

EXPERIMENTO TRAIÇOEIRO

No fundo, o objetivo das empresas é que as expedições sejam um grande laboratório comportamental. Quem as promove quer provocar as reações. Durante a atividade, limites físicos e mentais são testados. Há situações adversas, corno o frio e a chuva, e é necessário cozinhar e dormir em barracas ao lado de pessoas com as quais se tem pouca – ou nenhuma – intimidade. Ou seja, desestabiliza-se o profissional.

O RH, claro, fica atento às atitudes. A escalada revela, entre outros aspectos, quem são os estrategistas e quem são os executores. E diz muito sobre o estilo de gestão, revelando se o chefe é motivador, técnico ou visionário, se delega e se é capaz de ceder espaço para outro profissional. ”Tira-se proveito do clima informal para aplicar testes, criar situações adversas e plantar imprevistos que exijam atenção, colaboração e solução de problemas. A ideia é saber como cada um reage”, diz Renata Perrone, sócia da consultoria de recrutamento e desenvolvimento De Bernt Entschev, do Rio de Janeiro.

Diferentemente dos escape games, que ficaram famosos nos processos de seleção, o montanhismo não costuma ser aplicado para recrutar talentos, e sim para treinar e desenvolver. Isso acontece devido ao alto custo da atividade – roteiros que envolvem longas distâncias e imersão na montanha chegam a 7500 reais por cabeça.

Por causa disso e dos elevados preços das passagens aéreas no Brasil a preferência das empresas costuma ser os destinos localizados num raio de até 100 quilômetros da sede. O percurso e o modelo da aventura são definidos por consultores especializados, levando em consideração faixa etária, preparo físico do grupo e, sobretudo, objetivo da escalada. ”Se há uma rixa entre as áreas de marketing e financeiro, por exemplo, focamos a prática na resolução desse problema. Identificamos os líderes de cada grupo e os colocamos para trabalhar lado a lado”, diz Marco Santos, diretor e guia da Terra Trekking, especializada em treinamento outdoor, de Itabira(MG).

Na multinacional francesa de artigos esportivos Decathlon, que conta hoje com 1500 funcionários no Brasil o montanhismo é usado tanto par integrar a equipe quanto para promover a estratégia de negócio. Na loja de Florianópolis, quinto maior faturamento no país, a última escalada foi em dezembro, durante o processo de integração: 12 profissionais fizeram a trilha do Santinho, na Praia de Moçambique, em Florianópolis.

“O intuito era apresentar os novos empregados e, ao mesmo tempo, melhorar o diálogo entre o time. A trilha é um bom lugar para trabalhar a comunicação clara”, diz Cauã Guzmán, diretor da unidade. Já na unidade da Marginal Tietê, de São Paulo, a escalada é utilizada como uma espécie de reunião de estratégia e inclui desde gerentes até o CEO. A mais recente, em outubro, levou 51 pessoas par Juquitiba, no interior de São Paulo.

DO JEITO CERTO

Via de regra, quando a organização decide promover uma expedição, profissional pode se recusar a participar. Segundo as empresas, no entanto, isso é raro e o número de inscritos em geral ultrapassa o de vagas, o que as obriga a adotar critério de desempate. A saúde é um deles só viaja quem estiver apto.

Se a pessoa se sente vulnerável, o RH precisa ter maturidade para entender a questão. Não se pode obrigá-la e muito menos preteri-la por causa de sua recusa.

Passageira ou não, eficaz ou não, o fato é que a onda do montanhismo tomou conta do mundo corporativo. E, para que traga benefícios (em vez de prejuízos) aos empregados, precisa ser executada com responsabilidade. “Há pontos importantes na hora de desenhar uma expedição: ela precisa ser desafiadora, mas também criar oportunidades de discussão. Se a expedição for bem planejada, e liderada por guias especializados de montanha, ajudará os indivíduos a ser profissionais e líderes melhores”, diz Christopher Maxwell.

Na Tenco, que gerencia shoppings em oito estados e possui 778 trabalhadores, os próprios executivos são os guias. Administrada pela família Gribel, cujos membros são alpinistas desde a década de 90, a companhia levou, nos últimos dois anos, 40 pessoas para subir o Monte Roraima e a Chapada Diamantina. “Uma expedição bem-feita ensina espírito de equipe, respeito às diferenças, persistência, coragem e criatividade”, diz Adriana Gribel, vice-presidente da Tenco, de Minas Gerais, e alpinista nas horas vagas – ela já escalou os sete cumes mais altos do Brasil. “Quando voltam da montanha, os funcionários passam a ser porta-vozes desses valores e sua performance na empresa melhora.”

Aurélio Pedro de Resende Neto, de 37 anos, de São Paulo, é um exemplo. Onze meses após passar oito dias na Chapada Diamantina e percorrer 100 quilômetros, o advogado foi promovido a um cargo de gerência na Tenco e recebeu aumento de 15%. “Mudei a maneira de pensar e de agir. Percebi a importância de reconhecer limitações e passei a ter mais disciplina. Na montanha, bastava um atraso e todos corriam o risco de dormir na floresta sem segurança alguma”, diz.

Mas o que acontece quando alguém do time tem um desempenho pífio durante a escalada? Consultores afirmam que é obrigação das empresas trabalhar as fragilidades dos profissionais. ”Ao vivenciar as fraquezas, o empregado pode refletir sobre elas e colocar em prática ações para combatê-las”, afirma Renata, da De Bernt Entschev. Ela diz, ainda, que, em tempos de inovação, o erro perdeu a pecha de vilão, A reflexão sobre o fracasso, inclusive emocional, é essencial para o surgimento de novas ideias.

Quando convidou, no final do ano passado, 35 de seus 70 funcionários para uma escalada de 5 horas na Pedra Grande, em Atibaia (SP), a Planetun, empresa paulistana de serviços e soluções para o mercado automotivo e de seguros, tinha ciência de que limitações viriam à tona. Henrique Mazieiro, sócio fundador, é praticante do montanhismo há seis anos e já escalou picos como o Kilimanjaro, na Tanzânia, e o Monte Elbrus, na Rússia – considerado o mais alto da Europa. “Notei o interesse dos times em minhas histórias e, como sabíamos que a experiência traria lições importantes, decidimos levá-los”, diz o executivo, de São Paulo, que deixa claro: aceitar um desafio sabendo dos próprios limites demonstra vontade de sair da zona de conforto. “Isso, por si só, já valoriza o passe profissional”

VERSÃO LIGHT

Na rabeira do montanhismo, outras modalidades do esporte (mais acessíveis e menos arriscadas) também vêm ganhando espaço nas empresas. Uma delas é o trekking de regularidade, também conhecido como enduro a pé. Nele, cada membro da equipe tem uma missão no grupo, que deve chegar ao destino por meio de trilhas num prazo estabelecido e tendo como base apenas instrumentos de navegação tradicionais, como GPS, mapas e bússola. O celular não é permitido.

A multinacional francesa do ramo de bebidas alcoólicas Pernod Ricard e a gigante automotiva Mercedes-Benz são algumas das organizações que já promovem a prática entre seus contratados. Na Mercedes, o interesse pela atividade surgiu após a necessidade de mudar a mentalidade dentro da companha. “As equipes precisaram repensar a forma como estavam se comunicando, dando e recebendo feedbacks, relacionando-se entre si e, principalmente, liderando’, afirma Ana Paula Desiderio, diretora de recursos humanos da Mercedes-Benz, de São Bernardo do Campo (SP).

Por lá, a prática, diferente das imersões nas montanhas, acontece em ambientes controlados, como em hotéis-fazenda em meio à natureza que se encontram no máximo a 3 horas de distância do escritório. Não há acampamento, mas plantamos elementos-surpresa para dificultar o percurso e forçar os colaboradores a desenvolver flexibilidade, agilidade e resistência, competências essenciais hoje na empresa”, diz Ana Paula.

Diante desse cenário, cabe ao profissional aproveitar a chance de repensar suas habilidades. Já para as empresas o desafio é realizar avaliações acuradas para não prejudicar o funcionário, um efeito rebote ao qual devem estar atentas. Afinal, o objetivo é chegar ao topo juntos.

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LIÇÕES DO MONTANHISMO

Veja sete ensinamentos que a prática pode promover para os profissionais:

1 – Autoconfiança – escaladas ajudam o cérebro a agir rapidamente em situações inesperadas e melhoram a auto–confiança do indivíduo, que passa a calcular melhor os riscos e as consequências de suas decisões.

2 –  Aceitar limitações – subidas trazem a seguinte reflexão: estou realmente preparado para o desafio? Tal como numa empresa, na montanha é preciso conhecer os próprios limites e, se necessário, recuar.

3 – Humildade – experiência não é garantia de assertividade. Para chegar ao topo, é preciso estar aberto à novas ideias e ouvir a opinião dos demais.

4 – Metas tangíveis – o cume não é algo utópico: alcança-lo é possível, mas, assim como na vida corporativa. Os caminhos precisam ser viáveis, o que exige planejamento realista.

5 – Persistência – expedições podem apresentar trechos íngremes, baixas temperaturas, ar rarefeito e adversidades que exigem força, resiliência e persistência. Se falhar, estude o erro, refaça os planos e tente outra vez.

6 – Senso de coletividade – o trabalho em conjunto garante a sobrevivência da equipe e facilita a chegada ao cume. As dificuldades parecem, menores quando alguém ao lado está disposto a ajudar.

7 – Boas Ideias – criatividade é fundamental para contornar dificuldades numa expedição, como um rio caudaloso que surge no meio do caminho. Numa empresa boas ideias salvam negócios.

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Fonte: Revista Você SA – Edição 237

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 18: 7-14

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Advertências contra os Escândalos

 

O nosso Salvador fala aqui de ofensas, ou escândalos:

I – Em geral (v. 7). Tendo mencionado o fato de escandalizar os pequeninos, Ele aproveita para falar de forma mais geral sobre os escândalos. Um escândalo é algo:

1. Que provoca a culpa, que através da sedução ou da intimidação tende a atrair os homens, desviando-os daquilo que é bom para aquilo que é mau.

2. Que causa sofrimento, que entristece o coração do justo. Agora, em relação aos escândalos, Cristo aqui lhes diz:

(1). Que eles ocorreriam com certeza: “Porque é mister que venham escândalos”. Quando temos a certeza de que há perigo, devemos estar melhor armados. Não que a Palavra de Cristo necessite que qualquer homem escandalize, mas esta é uma predição sobre um aspecto das causas; considerando a astúcia e a malícia de Satanás, a fraqueza e a depravação dos corações dos homens, e a loucura que é encontrada ali, é moralmente impossível que não haja escândalos. E Deus determinou permiti-los para fins sábios e santos, para que tanto aqueles que são perfeitos como aqueles que não o são possam ser manifestos. Veja 1 Coríntios 11.19; Daniel 11.3. Informados com antecedência de que haverá sedutores, tentadores, perseguidores e muitos maus exemplos, estejamos vigilantes (cap. 24.24; Atos 20.29,30).

(2). Que eles seriam coisas deploráveis, e a consequência deles, fatal. Aqui está um desgosto anexado aos escândalos:

[1]. Uma desgraça para o descuidado e desprotegido, que sofre a ofensa: ”Ai do mundo, por causa dos escândalos!” As obstruções e oposições à fé e à santidade em todos os lugares são a perdição e a fonte de corrupção da humanidade, e a ruína de milhares de pessoas. Este mundo presente é um mundo maligno, e está repleto de escândalos, pecados, laços e tristezas; viajamos por uma estrada perigosa, cheia de pedras de tropeço, precipícios, e falsos guias: ”Ai do mundo”. Quanto àqueles a quem Deus escolheu e chamou do mundo, e livrou dele, eles são preservados pelo poder de Deus do dano desses escândalos, são ajudados a superar todas essas pedras de tropeço. “Muita paz tem os que amam a tua lei, e para eles não há tropeço” (Salmos 119.165).

[2]. Uma desgraça para o ímpio, que intencionalmente participa ou gera o escândalo: “Mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” Embora seja mister que os escândalos venham, não haverá desculpa para aqueles que escandalizarem. Note que, embora Deus tenha feito os pecados dos pecadores servirem ao seu propósito, isto não lhes salvará da sua ira; e a culpa será depositada na porta daqueles que motivarem o escândalo, embora eles também se enquadrem na desgraça daqueles que o sofrem. Aqueles que de alguma forma atrapalham a salvação de outros acharão a sua própria condenação a mais intolerável, como Jeroboão, que pecou “e fez Israel pecar”. Esta desgraça é a moral daquela lei judicial (Êxodo 21.33,34-22.6), de que aquele que abriu a cova, e acendeu o fogo, foi responsabilizado por todo o dano que se seguiu. A geração anticristã, por meio da qual veio o grande escândalo, se enquadrará nessa desgraça por seu engano para com os pecadores (2 Tessalonicenses 2.11,12), e suas perseguições aos santos (Apocalipse 17.1,2,6), porque o Deus justo ajustará contas com aqueles que destruírem os interesses eternos de almas preciosas, e os interesses temporais de santos preciosos. Precioso aos olhos do Senhor é o sangue dos santos; e os homens prestarão contas, não só pelas coisas que fizeram, mas pelos frutos de suas ações, pelo mal que foi feito por eles.

I – Em particular, Cristo aqui fala dos escândalos gerados:

1. Por nós a nós mesmos, que é expresso pela nossa mão ou pé nos escandalizando; nesse caso, a mão ou o pé deve ser “cortado e lançado fora” (vv. 8 ,9). O Senhor Jesus Cristo havia mencionado essas palavras anteriormente (cap. 5.29,30), onde Ele se refere especialmente às transgressões do sétimo mandamento; aqui, o assunto é tomado de um modo mais geral. Aquelas palavras duras de Cristo são desagradáveis para a carne e o sangue, precisam ser repetidas para nós várias vezes, e ainda assim é pouco. Considere então:

(1) O que é que está aqui imposto. Devemos nos livrar de um “olho”, ou uma “mão”, ou um “pé”, isto é, aquilo, seja lá o que for, que nos for caro, quando isso inevitavelmente gerar uma ocasião de pecado para nós. Note que:

[1]. Muitas tentações para pecar surgem de dentro de nós mesmos; os nossos próprios olhos e mãos nos escandalizam; se jamais houvesse um demônio para nos tentar, de­ veríamos nos afastar da nossa própria concupiscência. As coisas que em si são boas, e podem ser usadas como instrumentos do bem, até mesmo estas, através das corrupções dos nossos corações, mostram-se como laços para nós, nos inclinam a pecar, e nos prejudicam em nossa obediência.

[2]. Nesse caso, devemos, tão legitimamente quanto pudermos, nos desfazer daquilo que não pudermos manter sem ficarmos emaranhados no pecado. Em primeiro lugar, é certo que a concupiscência interior deve ser mortificada, embora seja cara para nós como um olho, ou uma mão. “Crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências” (Gálatas 5.24). O corpo do pecado deve ser destruído; as inclinações e apetites corruptos devem ser identificados e eliminados; a amada concupiscência, que tem sido colocada debaixo da língua como uma doce guloseima, deve ser abandonada com repulsa. Em segundo lugar, as ocasiões externas do pecado de­ vem ser evitadas, embora, desse modo, coloquemos uma violência muito grande sobre nós mesmos, como seria cortar uma mão, ou arrancar um olho. Quando Abraão saiu de sua terra natal, por medo de se envolver com a idolatria que havia ali, e quando Moisés saiu da corte de Faraó, por medo de se misturar com os prazeres pecaminosos que havia ali, uma mão foi cortada. Não devemos considerar nada caro demais ou valorizado demais para dele nos livrarmos, a fim de que possamos manter uma boa consciência.

(2). Sobre que incentivo ou persuasão isso é exigido:

“Melhor te é entrar na vida coxo ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno”. O argumento é tomado do estado futuro, do céu e do inferno; daí são extraídos os dissuasivos mais convincentes contra o pecado. O argumento é o mesmo do apóstolo (Romanos 8.13).

[1]. Se vivermos segundo a carne, morreremos. Tendo dois olhos, todas as transgressões feitas no corpo do pecado geram a corrupção, como no caso de Adonias. Não é possível escusar o pecado como uma inclinação natural ou inata. Todo aquele que permanecer no pecado será lançado no fogo do inferno.

[2]. Se nós, através do Espirita, mortificarmos as obras da carne, viveremos. Isto se explica por entrarmos na vida coxos, isto é, o corpo do pecado estar coxo; e é melhor ficarmos coxos enquanto estivermos neste mundo. É desejável que a mão direita do velho homem seja cortada, e seu olho direito seja arrancado, com suas políticas principais arruinadas e seus poderes destruídos. Mas ainda há um olho e uma mão sobrando, com os quais haverá luta. Aqueles que são de Cristo pregaram a carne na cruz, mas ela ainda não está morta; sua vida é prolongada, mas o seu domínio foi tirado (Daniel 7.12), e o ferimento mortal lhe foi conferido, e não poderá ser curado.

2. Com relação aos escândalos causados por nós aos outros, especialmente aos pequeninos de Cristo, do que somos aqui convocados a dar atenção, de acordo com o que Ele havia dito (v. 6). Considere:

(1).  A própria advertência: “Vede, não desprezeis algum destes pequeninos”. Isto foi dito aos discípulos. Da mesma forma que Cristo irá se indignar com os inimigos de sua igreja, se eles fizerem alguma injustiça com qual­ quer dos seus membros, mesmo o menor, Ele irá se in­ dignar com os grandes da igreja, se eles desprezarem os pequeninos dela. Em outras palavras: “Vocês que estão disputando quem será o maior, tomem cuidado para que, nesta disputa, vocês não desprezem os pequeninos do reino”. Também podemos entender essas palavras literalmente, como se o Senhor estivesse falando das crianças pequenas (vv. 2,4). A semente infantil dos crentes fiéis pertence à família de Cristo, e não deve ser desprezada. Ou figuradamente: estes pequeninos são crentes verdadeiros, porém fracos em sua condição exterior, ou na estrutura de seu espirita; são como crianças peque­ nas, os cordeiros do rebanho de Cristo.

[1]. Não devemos desprezá-los, nem pensar mal deles, como cordeiros desprezados (Jó 12.5). Não devemos caçoar de suas fraquezas, nem olhar para eles com desprezo, nem agirmos com escárnio ou desdém em relação a eles, como se não nos importássemos com o que lhes aconteceu. Não devemos dizer: “Embora eles sejam o­ fendidos, e entristecidos, e tropecem, o que nos importa?” Nem devemos tomar a menor atitude que os faça ficar em dificuldades e perplexos. Este desprezo pelos pequeninos é contra o que somos grandemente advertidos (Romanos 14.3,10,15,20,21). Não devemos impor nada sobre a consciência dos outros, nem traze-los à sujeição das nossas vontades, como aqueles que dizem às almas dos homens: “Inclinem-se, para que possamos passar por cima de vocês”. Deve-se algum respeito à consciência de todo homem que parece ser consciencioso.

[2]. Devemos prestar atenção para não os desprezarmos; devemos ter medo do pecado, e ter muito cuidado com o que dizemos e fazemos, para que inadvertidamente não escandalizemos os pequeninos de Cristo, para que não os desprezemos, sem termos ciência disso. Houve aqueles que os odiavam, e os lançavam fora, e ainda diziam: “Que o Senhor seja glorificado”. Devemos temer o castigo: “Preste atenção para não desprezá-los, por­ que isto será arriscado para você”.

(2).  As razões para reforçar o cuidado. Não devemos olhar para esses pequeninos como desprezíveis, porque, na verdade, eles são dignos de consideração. Não deixe que a terra despreze aqueles a quem o céu respeita; não os olhemos com algum tipo de falta de respeito, mas consideremo-los como os favoritos do céu. Para provar que os pequeninos que creem em Cristo são dignos de res­ peito, considere:

[1]. A ministração dos anjos bons sobres eles: “Os seus anjos nos céus sempre veem a face de meu Pai que está nos céus”. Isto Cristo nos diz, e podemos confiar em sua Palavra. Ele veio dos céus, e nos faz saber o que é feito ali pela multidão de anjos. Duas coisas que ele nos faz saber sobre eles:

Em primeiro lugar, que os anjos são deles. Os anjos de Deus são deles; porque tudo o que é de Deus é nosso, se formos de Cristo (1 Coríntios 3.22). Os anjos são deles; porque eles têm uma ordem para servirem em favor desses pequeninos (Hebreus 1.14), armar suas tentas ao redor deles, e segurá-los em seus braços. Alguns têm imaginado que todo santo em particular tem um anjo da guarda. Mas por que de veríamos supor isso, quando sabemos que todo santo em particular, quando há necessidade, é guardado por anjos? Isto é particularmente aplicado aqui aos pequeninos, porque eles são muito desprezados e muito expostos. Eles podem contar pouco consigo mesmos, mas podem olhar, pela fé, para as hostes celestes, e chamá-las de suas. Enquanto os grandes do mundo têm homens honoráveis e guardas para o seu séquito, os pequeninos da igreja são servidos por anjos gloriosos, que anunciam não só o valor deles, mas o perigo que correm aqueles que desprezam e abusam deles. É ruim ser inimigo daqueles que são assim protegidos; e é bom termos a Deus como o nosso Deus, porque assim podemos considerar os seus anjos como sendo os nossos anjos.

Em segundo lugar, eles sempre veem a face do Pai que está nos céus. Isto indica:

1. A felicidade e a honra contínua dos anjos. A felicidade do céu consiste na visão de Deus, vê-lo face a face como Ele é, contemplando a sua beleza; os anjos possuem esse privilégio de uma forma ininterrupta. Quando eles estão nos ministrando na terra, mesmo nesses momentos, por contemplação, veem a face de Deus, porque estão cheios de olhos por dentro. Mesmo enquanto falava com Zacarias, Gabriel estava na presença de Deus (Apocalipse 4.8; Lucas 1.19). A expressão sugere, como alguns pensam, a dignidade e a honra especiais dos anjos dos pequeninos; os primeiros-ministros de estado são mencionados como aqueles que veem a face do rei (Ester 1.14). É como se os anjos mais fortes fossem encarregados dos santos mais fracos.

2. A sua contínua prontidão para ministrar aos santos. Eles contemplam a face de Deus, esperando receber ordens dele quanto ao que fazer para o bem dos santos. Como os olhos dos ser­ vos estão fixados na mão de seu senhor, prontos para ir e vir ao menor gesto, assim os olhos dos anjos estão volta­ dos à face de Deus, esperando as intimações da sua vontade, que estes mensageiros alados voam rapidamente para cumprir. Eles correm e tornam, à semelhança dos relâmpagos (Ezequiel 1.14). Se quisermos contemplar a face de Deus em glória no porvir, como fazem os anjos (Lucas 20.36), devemos então contemplar a face de Deus agora, com prontidão para cumprir o nosso dever, como eles o fazem (Atos 9.6).

O plano misericordioso de Cristo com relação a eles (v. 11): “Porque o Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido”. Esta é uma razão, em primeiro lugar, porque os anjos dos pequeninos têm tal responsabilidade com relação a eles, e os servem; os anjos agem de acordo com o plano que Cristo tem para os salvar. A ministração dos anjos é baseada na mediação de Cristo; através dele, os anjos recebem missões relativas a nós. E quando eles celebraram a boa vontade de Deus em relação aos homens, a isso juntaram a sua própria boa vontade. Em segundo lugar, porque eles não devem ser desprezados; porque Cristo veio para salvá-los, para salvar aqueles que se tinham perdido, os pequeninos que estão perdidos aos seus próprios olhos (Isaias 66.3), que trazem a incerteza dentro de si mesmos. Ou, antes, os filhos dos homens. Considere:

1. As nossas almas são, por natureza, almas perdidas. São como um viajante que está perdido, que está fora do seu caminho, como um prisioneiro condenado que está perdido. Deus perdeu o serviço do homem caído, perdeu a honra que Ele deveria ter tido da parte desse homem.

2. A missão de Cristo no mundo é salvar o que se tinha perdido, nos trazer à obediência, nos restaurar ao nosso trabalho, restabelecer os nossos privilégios, e assim nos colocar no caminho correto que nos leva ao nosso final grandioso; salvar aqueles que es­ tão espiritualmente perdidos, não deixando que permaneçam assim eternamente.

3. Esta é uma boa razão para que os crentes menores e mais fracos não devam ser desprezados ou escandalizados. Se Cristo os valoriza dessa maneira, não os desvalorizemos. Se Ele renunciou tanto a si mesmo pela salvação deles, com certeza devemos renunciar a nós mesmos em benefício de sua edificação e consolação. Veja a urgência desse argumento (Romanos 14.15; 1 Coríntios 8.11,12). Se Cristo entrou no mundo para salvar as almas, e o seu coração está tão empenhado nessa obra, Ele severamente ajustará contas com aqueles que a obstruem e a prejudicam, atrapalhando o progresso daqueles que estão voltando suas faces ao céu, e assim frustram o seu grande plano.

[3]. A terna consideração que o nosso Pai celestial tem por esses pequeninos, e a sua preocupação pelo seu bem-estar. Isto é ilustrado por uma comparação (vv. 12-14). Observe a progressão do argumento: os anjos de Deus são seus servos, o Filho de Deus é o seu Salvador, e, para completar a sua honra, o próprio Deus é o seu amigo. “Ninguém as arrebatará das minhas mãos” (João 10.28).

Aqui temos, em primeiro lugar, a comparação (vv. 12,13). O proprietário que tinha perdido uma de suas cem ovelhas não faz pouco caso disso, mas diligentemente a busca, fica grandemente feliz quando a encontra, e tem nisso uma alegria considerável e comovente, superior à alegria que sente pelas noventa e nove que não se perderam. O medo que ele teve de perder aquela ovelha, e a surpresa ao encontrá-la, são somados à alegria. Então, isso é aplicável:

1. Ao estado do homem caído em geral; ele está desviado como uma ovelha perdida. Os anjos que ficaram eram como as noventa e nove que nunca se desviaram; o homem perdido é procurado nas montanhas que Cristo, em grande fadiga, atravessou em busca dele, e assim foi encontrado. Este é um motivo de alegria. No céu, há uma alegria maior pelos pecadores que retornam do que pelos anjos que ali permanecem.

2. A crentes em particular, que são escandalizados e tirados de seu caminho por pedras de tropeço que são colocadas diante deles, ou pelos estratagemas daqueles que os atraem para fora do caminho. Então, embora apenas uma das cem ovelhas tenha se desviado do caminho – algo que acontece facilmente com elas -. esta única ovelha deveria ser protegida com muito cuidado. Ela foi recebida com muito prazer; portanto, o mal que aconteceria com ela, sem dúvida alguma, seria contado com muito desgosto. Se há alegria no céu por um desses pequeninos que foi encontrado, há ira no céu quando alguém os escandaliza. Note que Deus, de forma misericordiosa, está preocupado não só com o seu rebanho em geral, mas com cada cordeiro, ou ovelha, que lhe pertence. Embora elas sejam muitas, Ele pode sentir facilmente a falta de uma delas, porque Ele é o grande Pastor, e não a perderá facilmente, porque Ele é o bom Pastor e conhece particularmente o seu rebanho mais que qualquer outro. Ele chama as suas ovelhas pelo nome (João 10.3). Veja uma exposição completa dessa parábola (Ezequiel 34.2,10,16,19).

Em segundo lugar, a aplicação dessa comparação (v. 14): “Não é vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca”. Mas é sugerido do que expressado. Não é a sua vontade que qualquer se perca, mas:

1. É a sua vontade que esses pequeninos sejam salvos; é a vontade expressa pelo seu plano, e o seu deleite. Ele planejou, e colocou o seu coração nisso, e Ele o realizará. A sua vontade é que todos façam o que puderem para que o seu plano seja divulgado, e que nada o atrapalhe.

2. Esse cuidado se estende a cada membro do rebanho em particular, até mesmo àquele que é aparentemente o mais insignificante. Pensamos que se apenas um ou dois forem escandalizados, e caírem em uma armadilha, não terá muita importância, e que não precisaremos nos importar com isso; mas os pensamentos de amor e ternura de Deus estão acima dos nossos.

3. Fica a sugestão de que aqueles que fazem qualquer coisa pela qual qualquer um desses pequeninos é colocado em perigo de perecer, contradizem a vontade de Deus, e o provocam grandemente. E embora eles não possam prevalecer nesse ponto, terão que prestar contas por isso àquele que, em seus santos, como em outras coisas, é zeloso quanto à sua honra, e não suportará tê-la menosprezada (veja Isaias 3.15). “Que tendes vós que afligir o meu povo?” (Salmos 76.8,9).

Observe como Cristo se dirigiu a Deus (v. 19): “Meu Pai que está nos céus”. Ele também chama Deus Pai de “vosso Pai, que está nos céus” (v. 14). O Senhor assim sugere que Ele não se envergonha de chamar os seus pobres discípulos de irmãos. Pois Ele e os discípulos não têm um só Pai? “Subo para meu Pai e vosso Pai” (João 20.17); portanto, Deus Pai é nosso Pai porque é Pai do Senhor Jesus. Isto sugere, da mesma forma, a base da segurança de seus pequeninos: que Deus é o Pai deles, e assim está sempre disposto a socorrê-los. Um pai cuida de todos os seus filhos, mas é particularmente carinhoso com os pequeninos (Genesis 33.13). Ele é o seu Pai nos céus, um lugar de perspectiva. Portanto, Ele vê todos os insultos que são lançados contra eles. Esse também é um lugar de poder; portanto, Ele pode vingá-los. Isso conforta os pequeninos que são ofendidos: a sua testemunha está nos céus (Jó 16.19), o seu juiz está ali (Salmos 68.5).

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O COMPLEXO DE ÉDIPO NA MODERNIDADE

O Complexo de Édipo e outras essências psicanalítica frente à nova estrutura familiar.

O complexo de Édipo na modernidade

Na opinião de Ana Maria Bittencourt, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), do ponto de vista psicanalítico, um dos problemas da atualidade acerca dos conceitos freudianos reside no estabelecimento do Complexo de Édipo e na interdição da sexualidade da criança diante das recentes modificações da estrutura familiar. Ela cita como exemplo a clássica imagem do menino apaixonado pela mãe. “Se não existe um homem que diga, ‘sua mãe é minha mulher, você não vai realizar o ato incestuoso com ela’. Se não houver a presença deste terceiro, a criança pode criar a fantasia de que todos os desejos dela podem ser realizados. Logo, tem que haver aquela pessoa que vai interditar”, explica.

Júnia Vilhena, professora do Departamento de Psicologia da PUC- Rio, também lembra que o Complexo de Édipo deve ser entendido como uma interdição que algum agente provoca na relação mãe e filho, algo que rompa a simbiose entre bebê e mãe. Segundo ela, que é também Coordenadora do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social (LIPES) da PUC Rio, o papel de agente interditor pode ser desempenhado por pessoas variadas, ou até mesmo instituições. Como exemplo, ela afirma que “essa função pode ser exercida por uma vizinha, um terceiro elemento que desempenha a função de interditor, pode ser um homem ou até o trabalho”.

HOMOSSEXUALIDADE

Um exemplo claro do quão diferente é a conjuntura histórica que se apresenta à psicanálise hoje, se comparada àquela de Freud, é a polêmica em torno do direito de casais de homossexuais de adotar uma criança. Como ocorreria o processo de identificação com um pai ou uma mãe que tenha desejo por um objeto do mesmo sexo? De que maneira a sexualidade deste indivíduo seria influenciada?

Para Ana Maria Bittencourt, em primeiro lugar, deve-se chamar a atenção para o fato de que a psicanálise não trabalha com o genérico. “Dito isto, é possível que, na singularidade de um determinado casal homossexual, um funcione como aquele que vai se oferecer àquele bebê como o objeto de desejo incestuoso – que vai pegar no colo, dar banho, mamadeira – e o outro vai funcionar como o interditor”, afirma. E conclui: “Eu acho que, de fato, ainda não há tempo de observação para que se possa responder a essa questão”.

Segundo Sara Menezes Cortez, psicanalista da Associação Psicanalítica do Rio de Janeiro (Aperj Rio 4), a interdição ocorre de formas distintas nas diferentes estruturas sociais. No caso de uma mãe solteira, por exemplo, o Édipo vai se construir na “figura masculina que ela tem dentro dela, no pai, no avô. E no caso de um casal de lésbicas, a construção do Édipo vai se dar na pessoa que desempenha a figura masculina’. Ela ressalta que muito mais do que na pessoa, em si, essas construções se dão na função exercida.

Na opinião da psicanalista e professora da UFRJ, Marci Dória, a reflexão sobre os casais homo parentais passa necessariamente pela compreensão de que todo ser humano, independente da sua anatomia, tem uma possibilidade bissexual intrínseca que pode ser exercida, condição muitas vezes explorada por crianças de ambos os sexos – o que ocorreria em um contexto em que pesam as leis civilizatórias, os costumes, de cada cultura. “Quando você transgride muito uma certa lei organizadora, de um certo caminho civilizatório, as consequências podem ser muito grandes, como um pai que tem relação sexual com uma filha ou uma mãe que tem relações sexuais com um filho”, exemplifica. Nesse sentido, a transgressão ocorreria também em casais heterossexuais e não apenas em casais homo parentais. Deve-se analisar, por exemplo, se o casal está bem estruturado, psiquicamente organizado, se ele sabe lidar com as diferenças e se ele não determina que a criança tem que ser como ele é. “Não acho que a questão esteja na homo parentalidade, mas na maneira como cada um é estruturado. É uma questão de como se lida com a diferença, com a alteridade, com o reconhecimento de que o outro é diferente de você, mesmo que seja um filho que nasceu de você”, defende.

Ela ressalta, entretanto, que não se trata de diminuir a complexidade da questão. “Há consequências? É lógico que sim. Provavelmente em uma sociedade onde o mais natural – se é que a gente pode falar em naturalidade, pois desde que o homem entra na civilização a natureza dele tem a ver com tradição, valores e leis civilizatórias – tudo que foge disso gera um questionamento, causa uma polêmica e o indivíduo terá que fazer um esforço para dar um sentido à situação, para se referir àquilo, àquela situação, de uma certa maneira’.

Embora a questão da interdição, do conflito, seja uma realidade na cultura e, portanto, atual, Celmy Correa, membro efetivo da SBPRJ e psicanalista de criança, lembra que o conceito de Complexo de Édipo é datado, uma vez que foi descrito por Freud com base na família burguesa do século 19. Ela afirma que para o Édipo, e de forma geral para a psicanálise, os conflitos de ambivalência são muito importantes na medida em que são questões humanas.

Se por um lado as novas organizações familiares modificam a forma de manifestação do Édipo e alteram de certa maneira alguns conflitos humanos, por outro, é preciso ressaltar que não existem estudos que demonstrem modificações na sexualidade, agora entendida como manifestação das opções sexuais, em crianças criadas em diferentes formas familiares. “Não necessariamente uma criança criada por esse casal homo genérico terá sua sexualidade comprometida, ou será pervertida”, afirma.

A suposição de que a criança criada por casais homossexuais pode apresentar alterações sexuais é inclusive um grande preconceito que afeta ainda mais os casais homossexuais masculinos, explica Júnia Vilhena. “A homossexualidade feminina é muita mais permitida do que a masculina, é mais fácil para um casal de lésbicas adotar uma criança do que para um casal de homens. Isto porque se faz muita frequentemente uma associação da homossexualidade masculina com a pedofilia”, diz.

As próprias motivações das escolhas como objeto de seu desejo por uma pessoa do mesmo sexo ou uma do outro sexo devem ser questionadas. “Essa é uma questão que a psicanálise ainda não conseguiu responder de maneira satisfatória, inclusive em função do preconceito calcado no medo que rodos nós temos de tomar contato com a nossa própria condição bissexual e, portanto, de tomar contato com fantasias e desejos homossexuais que todos nós podemos ter”, defende Ana Maria Bittencourt.

A analista defende que “a psicanálise precisa levar em conta esse preconceito na hora de refletir sobre as possíveis influências dessas novas configurações na subjetividade de uma criança para poder responder se determinadas patologias serão provocadas pelo fato de haver um casal homossexual ou o quanto isso pode se dever a pressão que tal união pode sofrer dentro de uma sociedade onde ele está inserido”, defende. Bittencourt acrescenta, ainda, que “a repressão faz com que nós alijemos os homossexuais, pois eles são uma ameaça ao tradicional. Eles representam algo que quebrou com a nossa tradição, com a família constituída por pai, mãe e filho”. E pontua: “a homossexualidade não é uma categoria e não se pode patologizá-la”.

 OUTRAS FORMAÇÕES

Se falta perspectiva histórica para analisar os possíveis efeitos da união entre homossexuais e o desenvolvimento da sexualidade do indivíduo neste contexto, outras estruturas familiares bem distintas daquelas encontradas nos pacientes analisados por Freud já se consolidaram – mas nem por isso são plenamente compreendidas. Filhos de pais separados, de pais e mães solteiros, bebês de proveta: hoje se apresenta à psicanálise uma vasta gama de novas considerações vinculares que ela se vê obrigada a levar em consideração.

Na opinião de Júnia Vilhena, os novos laços que começam a ser tecidos na contemporaneidade interferem de maneira importante na organização familiar. Um exemplo bem peculiar das novas categorias de parentesco seria o “ex-irmão”, que surgiria quando um casal que já possuía filhos com outras pessoas se une. Essas crianças, embora não tenham relações consanguíneas, acabam se tornando irmãos postiços e, quando ocorre uma separação elas, viram “ex-irmãos”. A rígida fronteira do incesto, nesse caso, torna-se menos precisa ao passo que existem envolvimentos afetivos, mas não ligação de sangue. A questão na realidade é tão singular que Celmy Correa lembra que em culturas descritas por antropólogos “o incesto entre mãe e filho, pai e filha, não é considerado incesto, ele é permitido. Em muitos casos, o que é barrado é a relação, por exemplo, com o irmão da mãe, ou o tio, ou um avô – dependendo de toda a mitologia que estrutura aquela cultura, que a organiza. Dessa forma, diferentes culturas podem apresentar uma situação edípica aparentemente distinta da nossa cultura ocidental, da organização burguesa”.

Quanto à incerteza que paira sobre o grau de influência dessas transformações, a psicanalista de crianças e adolescentes da SBPRJ Teresa Mancini concorda que ainda é necessário observar melhor as novas organizações da família. Entretanto, ela acredita que “a constituição da identidade se fará de uma maneira mais fácil dentro de uma estrutura familiar harmônica. Harmônica no sentido de ter um casal, ter pai e mãe com papéis definidos, ter uma relação afetiva bem vivida, onde a criança tenha o lugar de filho, o pai lugar de pai e a mãe lugar de mãe”. Para Mancini, essa estrutura, de certa maneira “tradicional”, acabaria favorecendo o desenvolvimento da identidade, agindo como um elemento facilitador.

Quanto às diferenciações de classe social, é interessante observar que determinadas situações podem ser bem características e dessa maneira podem manter alguma ligação com o conceito de sexualidade infantil. Sara Menezes Cortez considera que é possível identificar, nos extremos sociais – em famílias muito ricas ou muito pobres -, uma dificuldade na constituição da subjetividade infantil por conta dos longos períodos em que as crianças muitas vezes permanecem afastadas dos pais. Cortez considera também que situações como o abandono podem facilitar uma identificação por parte da criança com figuras como traficantes, por conta da falta de pais exercendo os seus papéis na construção de sua subjetividade. Os traficantes, no caso, passam a exercer para a criança o papel do pai, e uma das razões para que isso aconteça, de acordo com a especialista, é a proteção que esse traficante acaba, em alguns casos, dando às crianças. Teresa Mancini, por sua vez, considera que realmente haja muitas vezes, por parte de crianças, a identificação paterna em traficantes, mas ela acredita que esta situação é decorrente não de uma razão social, mas sim de um contexto familiar no qual a criança está inserida.

Na opinião de Marci Doria, se a princípio não se pode negar que mudanças na estrutura familiar ocorreram, não se pode afirmar também se o foi para melhor ou pior. Ela questiona inclusive a suposição de que, antes, as famílias eram mais estáveis. ”Às vezes, havia urna mãe profundamente infeliz naquela relação, totalmente amargurada e que amargurava os filhos. Ou um pai que escava em casa, mas que na verdade era muito ausente, que tinha outras famílias escondidas ou outras relações”, defende a especialista.

Doria chama a atenção, ainda, para alguns excessos que ocorreram com a consolidação da psicologia infantil, no processo de reconheci­ mento da criança enquanto sujeito. “A psicologia começou a dizer que se masturbar era normal e que isso fazia parte da descoberta do prazer do próprio órgão, das fantasias, do lidar com o próprio corpo e isso não seria algo a ser punido. No entanto, a partir daí, muitos pais acharam que tinham que ensinar o filho a se masturbar, por exemplo. Nessas circunstâncias é criado um excesso em função de um certo caráter incestuoso, algo complicado – bem diference do indivíduo descobrir as expressões do seu corpo”, explica.

A professora acrescenta que as crianças devem ser ouvidas, mas em alguns momentos criaram-se situações às vezes absurdas em que os adultos não assumiriam mais certas decisões. “Como a criança pode resolver onde é que ela quer escudar ou se ela pode parar de estudar? Os pais delegaram as decisões e as consequências das decisões para os filhos, que, por sua vez, não podem arcar com certas decisões ou consequências. Então, ocorrem determinados excessos e se começa a viver numa espécie de civilização paranoica, em que não se pode fazer nada”.

RELAÇÕES OBJETAIS

A despeito das modificações sofridas pela sociedade e dos desafios decorrentes que se impõem à psicanálise, na opinião de Ana Maria Bittencourt, os conceitos fundamentais de Freud sobre a sexualidade infantil não se modificaram. ”As postulações freudianas de que existe uma sexualidade infantil, de que o recalque desta sexualidade ocupa um lugar inconsciente e essa sexualidade recalcada produz sintomas não sofreram mudanças conceituais”, afirma.

Segundo a especialista, mesmo levando-se em consideração as diferenças entre as várias correntes psicanalíticas que se desenvolveram desde Freud, existe um ponto que as une: o trabalho com o inconsciente. “Faz parte da sexualidade infantil ter o desejo incestuoso, e esse ponto fundamental não mudou. Eu não conheço uma corrente que o negue, pois negar essa questão é negar a existência do inconsciente”, pontua.

Entretanto, se por um lado pode-se afirmar que a teoria se manteve, por outro, não se pode negar que ela sofreu acréscimos importantes. “A psicopatologia tem a ver com toda uma história e, evidentemente, a cultura em que estamos inseridos produz determinados sintomas que antes não eram expressos com tanta abundância quanto outros. Exemplos são os problemas das adições, dos distúrbios alimentares, das doenças psicossomáticas”, diz

Tais patologias, conforme explica Bittencourt, diferem das situações neuróticas à medida que se caracterizam por uma pobreza de processos simbólicos. Ela cita como exemplo o caso de jovens levados ao consultório por suas mães em função de uma bulimia e que não necessariamente, têm um sofrimento psíquico.  “Esse indivíduo tem uma queixa apenas de que vomita e de que isso é muito desconfortável para ele. Essa situação muda um pouco a técnica, pois o analista tem que partir do princípio de que neste tipo de patologia não necessariamente se está trabalhando com um recalcado. Pode-se estar diante de um outro tipo de defesa, com outro tipo de explicação para a formação desse sintoma – o que pode ter relação, por exemplo, com o que certos autores consideram como sendo falhas ambientais. Ou seja, são doenças que não são produzidas por um recalque da sexualidade, mas por uma falta da capacidade que a pessoa tem de ter uma experiência psíquica do que está se passando. A experiência passa direto para o corpo. O corpo fala de algo de que o psiquismo não consegue expressar de outro modo”, afirma. Para ela, estas seriam as “doenças da contemporaneidade” ou “patologias do vazio”. “O tipo de cultura narcísica em que estamos inseridos, com essa valorização do corpo, com essa hiper­sexualização presente das crianças, com essa sociedade muito consumista, que dá a objetos valores muito grandes, favorece que este tipo de patologia floresça mais hoje, possivelmente, do que naquela época de Freud”, diz.

A tentativa de dar conta de tais quadros, tendo em vista possíveis falhas ambientais, deu origem justamente à teoria das relações de objeto, que para muitos – entre eles Bittencourt – seria um desenvolvimento das teorias freudianas. “Winnicott, principalmente, foi um dos autores que partiram da compreensão de que existem determinados sintomas que não mais são devido a um conflito intrapsíquico relacionado às pulsões sexuais, aos recalques e a uma instância superegóica. O sintoma neurótico se daria no fundo por um conflito entre a sexualidade e uma instância censora que vai dizer que aquele desejo sexual é proibido”, destaca a psicanalista.

Bittencourt explica que, em síntese, os teóricos das relações de objeto propõem que determinadas formações sintomáticas vão se dever a uma falha ambiental, ou seja, a uma falha do objeto, do outro, em poder funcionar como um esquema de proteção às pulsões. “Digamos assim: é suposto que a esse objeto, a mãe, por exemplo, caiba ter uma função de proteger o eu infantil de um excesso pulsional. Então, se o objeto falha em atender a essa necessidade de proteção, aquela excitação que o eu infantil experimentou torna-se uma condição traumática. Há uma necessidade de que o objeto funcione com essa função de acolhimento, de dar um envolvimento àquele eu infantil para que ele não se transborde em uma excitação excessiva”, resume.

A psicanalista acrescenta, ainda, que tais teóricos propuseram um tipo de abordagem, uma técnica, uma prática clínica que supre essa limitação daquele paciente de estabelecer a neurose de transferência. “Eles acharam que esse trabalho daria conta de cercas patologias que Freud, com os instrumentais de que ele possuía na época, acreditou que não poderia abranger”, pontua. Ela acrescenta ainda que “o fato de uma pessoa ter tido falhas no ambiente precoce não significa que ela não tenha problemas relacionados à sexualidade. E os dois níveis de situação podem aparecer no material de uma determinada sessão psicanalítica”.

SEXUALIDADE HOJE

Na opinião de Marci Doria, ocorreu uma cerra ampliação conceitual do conceito de sexualidade. “Isso ampliou toda discussão e base teórica sobre o assumo, o que certamente implicou numa melhora de atendimento. Hoje já se sabe uma série de mecanismos relacionados ao desenvolvimento de psicoses que afetam o nosso relacionamento com o outro. Isto certamente torna melhor a nossa escuta e abre a possibilidade de operar analiticamente com pacientes muito mais graves. Antigamente não se tinha isso. Além disso, a psicanálise atualmente não seria só para ricos, já que existe uma série de trabalhos sociais que visam a levá-la a diversas comunidades carentes”, destaca.

Para Doria, as mudanças no que diz respeito à sexualidade infantil foram fundamentalmente técnicas e, nesse sentido, o psicanalista deve ver o que está disponível em cada paciente em termos de recursos, vocabulário, formas de dar sentido ao que está se passando. “É necessário verificar o universo cultural e os valores de cada pessoa porque aquele valor teve certamente algum efeito na vida dela. Cada pessoa tem um inconsciente, mas ele se dá de forma singular. Não é o conceito que muda, mas o modo de operá-lo. Tudo dependerá do objeto com o qual se lida e o jeito de lidar com ele. No tratamento de crianças, por exemplo, é comum a utilização de jogos e de brincadeiras de mãe e filho, enquanto que em adultos são utilizados psicodramas”, argumenta.

A ORIGEM

Apesar dos muitos direcionamentos que a pesquisa do inconsciente dinâmico tomou, na opinião de José Candido Bastos, membro da SBPRJ, o pilar central do qual saem todas as teorias é o de Freud. “Foi dito por muita gente que havia um inconsciente, mas que não haveria formas de explorá-lo e Freud, indiscutivelmente, foi a primeira pessoa do mundo a descobrir uma forma de explorar esse inconsciente”, afirma.

Dentre as contribuições dos diversos autores para o desenvolvimento da psicanálise, o estudioso destaca os esforços despendidos na tentativa de compreender o universo infantil. “Todas os teóricos que vieram depois trataram diretamente de crianças, como Melanie Klein, Winicott entre outros. Eles tiveram esse relacionamento e tentaram compreender o mundo infantil e como ele era estruturado. E descreveram isso de uma forma muito mais detalhada, muito mais aprofundada do que Freud”, afirma.

Entretanto, ele salienta que isto diminui de maneira alguma a importância do “pai” da psicanálise na contemporaneidade. “O trabalho fundamental do analista é trabalhar com o inconsciente dinâmico. Este trabalho tem tido a possibilidade de mudanças muito fecundas, muito eficientes, mas sempre apoiados naquela base sólida que Freud estabeleceu e que realmente ainda é válida até hoje”, ressalta Bastos.

Na opinião de Luiz Antônio Telles de Miranda, membro da Aperj Rio 4, muitas vezes ocorre um certo reducionismo dos autores pós-freudianos ao pensamento de Freud, quando, na verdade, eles seriam independentes. “Eu creio que o grande enriquecimento da técnica para nós, como analistas, é justamente diferenciar muitíssimo bem o que os teóricos das relações de objeto entendem que é o psiquismo, o porquê do adoecer. E mesmo dentro dos teóricos das relações de objeto, pode-se perceber, por exemplo, que Winnicott pensa diference de um Kohut, que pensam diferente do Ferenczi”, defende. Ele acrescenta que “nada disso pertence à teoria Freudiana, mas pode nos ajudar a trabalhar o complexo de Édipo, que é o que Freud propõe”.

Um ponto que diferenciaria os teóricos da relações de objeto da teoria freudiana, no ponto de vista do estudioso, é que Freud por exemplo, faz um psiquismo fundado e angústia e resolvida em princípio de prazer “O fundador das teorias das relações de objeto, que na minha opinião é Ferenczi, era um contemporâneo e um discípulo de Freud mas tinha uma compreensão diferente do adoecer psíquico e cria uma estrutura do psiquismo diferente. Se ele cria uma estrutura do psiquismo diferente, mudam a técnica, os objetivos e as indicações”, destaca Telles de Miranda. E conclui: “a teoria do Freud ser sempre a teoria do Freud, pois ele funda psiquismo de uma única maneira. Parece-me que ela continua viva”.

NEUROCIÊNCIA: CASAMENTO POSSÍVEL

De acordo com José Candido Bascos, a relação estabelecida entre a psicanálise e a neurociência é um processo controvertido. “Entre os analistas alguns acham que a neurociência não traz nenhuma contribuição para a psicanálise, alguns dizem até que seria um elemento que facilita uma destruição da análise, uma destruição do valor da psicanálise”, afirma.

Ele, entretanto, discorda dessa posição. “Na minha opinião, e na de um número cada vez maior de pessoas ligadas à nossa ciência, é evidente que essas descobertas trazem esclarecimento sobre alguma coisa que nós afiançávamos, que nós afirmávamos de uma maneira empírica e que com essas pesquisas científicas agora podem ser provadas com roda a tecnologia moderna – uma tecnologia que não pode ser negada e que, já em sua época, Freud imaginava que pudesse haver no futuro. Tanto assim, que em determinados trabalhos ele afirma:·’isso será esclarecido no futuro’. São vários os trabalhos em que ele faz essa referência e essa suposição”, ressalta o especialista.

Bastos cita como exemplo de aproximação entre as postulações freudianas e as recentes descobertas da neurociência sobre a questão do esquecimento de todos os fatos ocorridos até os cinco anos de idade. Esta questão é particular­ mente importante na medida em que é nesta fase da vida que ocorre a formação do inconsciente dinâmico, que vai dar matiz, colorido, forma à toda a vida futura.

“Freud afirmava isso, mas sem nenhuma comprovação. A neurociência moderna, por sua vez, explica que a criança não é capaz de registrar na memória aqueles acontecimentos, pois o aparelho de memorização, que é o hipocampo, ainda não está mielinizado, ou seja, não está pronto para memorizar”, afirma o psicanalista. Ele explica ainda que, depois dos cinco ou seis anos, a criança começa a possuir as características necessárias para registrar a memória. “E aí se passa a uma outra memória, a evocável. E não mais aquela memória que dinamicamente é importante, mas não pode ser evocada”, pontua.

Outro exemplo de uma possível colaboração entre as ciências, de acordo com Bastos, são os trabalhos desenvolvidos por Eric Kandell sobre a classificação das memórias. “Kandell divide as memórias em Declarativas (explícitas) e Procedurais (implícitas). As primeiras registram todos os fatos e eventos ocorridos e estão mediadas pelo córtex pré-frontal. Esta seria a área correspondente ao consciente e pré-consciente na visão de Freud”, explica o psicanalista.

A memória procedural (implícita), por sua vez, segundo a descrição de Kandell, seria composta por quatro elementos: o primeiro ligado à conduta, o segundo à parte de reconhecimento de estímulos ligados ao neocórtex, o terceiro ligado ao condicionamento clássico, que daria as respostas emocionais e as reações músculo esqueléticas, e um último componente que seria o do aprendizado automático.

“Todos esses elementos estariam contidos no que Freud chamou de inconsciente dinâmico, que nunca chega diretamente ao consciente, mas que continua mostrando sua existência, estabelecendo uma maneira de ser, um comportamento que se repete por toda a vida – e que como consequência aparece na situação analítica. Situação em que o paciente não se lembra de nada do que foi vivido e esquecido, mas age em função disco”, pontua Bastos.

Segundo ele, era este inconsciente que Freud explorava com a psicanálise e que a neurociência tenta localizar anatômica e funcionalmente, o que seria um encontro entre as duas ciências. “Na memória procedural (implícita) temos um exemplo biológico de um componente da vida mental inconsciente”, afirma Bastos, citando Kandell. “A ciência está se rejuvenescendo, com isso criando coisas muito novas e que mostram que muito do que Freud disse pode ser comprovado cientificamente”, conclui.

OUTROS OLHARES

A HERANÇA DO RACISMO

Meio século após a morte de Martin Luther King, o mundo ainda vive mergulhado em discursos de ódio contra a população negra.

A herança do racismo

Em 1963, o pastor afro-americano Martin Luther King fez um discurso histórico contra o racismo na Marcha de Washington. “Eu tenho um sonho”, disse ele. Ganhador do Nobel da Paz de 1964, o líder político foi assassinado em 4 de abril de 1968. Meio século após sua morte, o sonho de Luther King ainda se mantém, assim como o ódio que ele combateu. Provas disso são os discursos de supremacistas brancos nos Estados Unidos e na Europa, carregados de xenofobia e preconceitos raciais

“É evidente que houve evolução no que diz respeito aos direitos civis de forma que a população negra pudesse alcançar espaços de poder que antes eram inalcançáveis. Mas isso ficou muito longe de representar uma superação do racismo”, diz o professor Tiago Vinícius dos Santos, doutor em direitos humanos pela Universidade de São Paulo (USP). Ele cita como exemplo a eleição de Barack Obama nos Unidos. Ao alcançar o poder máximo no país, o ex-presidente deixou a impressão de que não era mais necessário discutir o racismo. “Há uma tentativa de excluir, de uma vez por todas o debate racial das políticas públicas”, afirma. Durante a era Obama, os insultos raciais tomaram uma proporção muito maior do que no período pré direitos civis. A ideia equivocada de que os EUA superaram a discriminação ficou evidente com o fortalecimento de discursos como o de Donald Trump. O confronto entre supremacistas brancos e militantes do movimento negro em Charlottesville, no ano passado, é um exemplo de como o atual presidente dos EUA lida com questões raciais. Trump em nenhum momento condenou os supremacistas e manteve a ideia de que houve violência das duas partes. “O grande problema é ter na presidência alguém que vai legitimar o lado mais horrível da história, algo que não pode acontecer novamente”, diz Santos.

Os discursos de ódio racial não se limitam aos EUA. Em vários países da Europa, a direita radical avança atacando imigrantes, apontados como vilões durante muitas campanhas eleitorais de partidos nacionalistas, que acusam os estrangeiros de tirar emprego das populações locais. O fenômeno das fake news está diretamente ligado a isso. Nos tempos atuais, a pregação racista só mudou de plataforma, passando da televisão para a internet. É o que afirma Virgílio Pedri Rigonatti no recém-lançado “Cravo Vermelho, livro que narra os acontecimentos que marcaram os anos 60. Ele lembra, por exemplo, de ver na TV marchas lideradas por Luther King e de, ao mesmo tempo, acompanhar a Ku Klux Klan no noticiário. “O assassinato foi um balde de água fria nos jovens”, diz o escritor.

ONTEM E HOJE

“Uma figura emblemática que ultrapassa os limites dos Estados Unidos.” É assim que o pró-reitor de assuntos comunitários da UFABC Almeida, doutor em sociologia pela USP define Luther King. Para o especialista, desde o surgimento do líder americano, o racismo foi mudando de face ao longo dos anos. “O racismo é a última fronteira do ódio e, de tempos em tempos, ele aparece mostrando sua fúria”, afirma Almeida, citando a tentativa de Israel de expulsar imigrantes africanos, em março. As investidas contra os imigrantes só acabaram com a intervenção da Organização das Nações Unidas (ONU), na semana passada. “Então não aprendemos nada com a história? Segundo o professor Almeida é importante considerar que o racismo é estruturante na sociedade brasileira e no mundo. E que, para resolver essa questão, é funda primeiro, reconhecer que ela existe.

 

Fonte: Revista Isto É – Edição 2520

GESTÃO E CARREIRA

MERITISSIMO ROBÔ

Meritíssimo robô

Cerca de 1050 advogados têm usado um robô para escrever as petições e dar entrada nos processos de clientes que pagaram mais ICMS nas contas de luz e querem pleitear uma restituição do governo. O Eli, de Enhanced Legal lntelligence, foi lançado no final do ano passado pela Tikal Tech, que desenvolve sistemas de inteligência artificial após seu CEO perceber a oportunidade de mercado.”[O ICMS] é uma causa que, se não tivesse essa automação, não valeria a pena para os advogados, pois os valores são baixos e o trabalho muito cansativo, já que envolve levantar faturas de luz de vários anos, diz Derek Oedenkoven, CEO da empresa. O empreendedor, entretanto, não acredita que as máquinas sejam uma ameaça significativa aos profissionais de direito. “Muitos casos judiciais são repetitivos, mas outros são totalmente novos, o que demanda uma capacidade intelectual dos advogados para a defesa de novas teses”, afirma. A inteligência artificial vai resolver os processos que são mecânicos e tomam tempo,”

 

Fonte: Revista Você SA – Edição 237

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 18: 1- 6

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A Importância da Humildade

Assim como nunca houve um padrão de humildade maior, nunca houve um pregador maior que Cristo, em todos os aspectos, inclusive em termos de humildade. Ele aproveitou todas as ocasiões para ensiná-la aos seus discípulos e seguidores.

 I – A ocasião desse discurso com relação à humildade foi urna competição inconveniente entre os discípulos por preeminência; eles chegaram ao pé de Jesus, dizendo, entre si (porque estavam envergonhados para perguntar a ele, Marcos 9.34): “Quem é o maior no Reino dos céus?” Eles não quiseram dizer quem o seria pelo caráter (então a pergunta teria sido boa, de forma que eles poderiam saber em quais graças e deveres precisavam se superar), mas quem pelo nome. Eles tinham ouvido muito, e pregado muito sobre o Reino dos céus, o reino do Messias, sua igreja neste mundo; mas mesmo assim eles estavam muito distantes de ter qualquer noção clara disso, e sonhavam com um reino temporal, a pompa exterior, e o seu poder. Cristo havia recentemente predito os seus sofrimentos, e a glória que deveria se seguir; que Ele deveria ressuscitar dos mortos, que a partir daí eles esperassem o início de seu reino; então eles pensavam que era a hora de estabelecer os seus lugares no reino. É bom, nesses casos, falar logo. Surgiram debates desse tipo diante de outros discursos de Cristo (cap. 20.19,20; Lucas 22.22,24). Ele falou muitas palavras com relação aos seus sofrimentos, mas apenas uma palavra sobre a sua glória; no entanto, eles se firmaram em uma coisa, e ignoraram a outra; e em vez de lhe perguntarem como poderiam ter forças e graça para sofrer com Ele, perguntaram quem seria “o maior” ao reinar com Ele. Note que muitos amam ouvir e falar dos privilégios e da glória, e desejam ignorar os pensamentos de trabalho e dificuldade. Eles olham tanto para a coroa, que se esquecem do jugo e da cruz. Foi o que os discípulos fizeram aqui, quando perguntaram: “Quem é o maior no Reino dos céus?”

1. Eles supõem que todos os que têm um lugar naquele reino são grandes, porque é um reino de sacerdotes. Os homens verdadeiramente grandes são aqueles verdadeiramente bons; e eles aparecerão assim finalmente, quando Cristo os possuir como o seu povo, embora sejam tão maus e pobres no mundo.

2. Eles supõem que há graus nessa grandeza. Todos os santos são honoráveis, mas nem todos da mesma forma; uma estrela difere de outra estrela em glória. Nem todos os oficiais de Davi eram valorosos, nem todos os seus valorosos estavam nas três primeiras posições.

3. Eles supõem que alguns deles devam ter a posição de primeiro-ministro de estado. A quem o Rei Jesus deveria ter prazer em honrar, além daqueles que tinham deixado tudo por Ele, e que eram agora os seus companheiros na paciência e na tribulação?

4. Eles disputam quem deveria ser o quê, cada um tendo uma pretensão ou outra ao reino. Pedro sempre foi o principal orador, e já tinha recebido as chaves; ele espera ser o presidente da Câmara dos Pares ou o camareiro-mor da casa, sendo assim o maior. Judas tinha a bolsa, e assim ele espera ser o tesoureiro-mor, o qual, embora agora venha por último, espera ser o maior. Simão e Judas são meio parentes de Jesus, e esperam estar acima de todos os grandes oficiais de estado, como príncipes de sangue. João é o discípulo amado, o favorito do Príncipe; portanto, espera ser o maior. André foi chama­ do primeiro; e por que não teria a primeira preferência? Nós somos muito inclinados a nos entreter e a nos agradar com fantasias tolas de coisas que nunca acontecerão.

II – O próprio discurso, que é uma justa reprovação para a pergunta: Quem será o maior? Nós temos muitas razões para pensar que, se Cristo tivesse a intenção de que Pedro e seus sucessores em Roma fossem os chefes da igreja, e seus principais sacerdotes na terra, tendo tido uma ocasião tão boa para isso, Ele agora avisaria aos seus discípulos; mas Ele está tão distante disso, que sua resposta desautoriza e condena a própria atitude de desejar ser o maior. Cristo não conferir à tal autoridade ou supremacia em nenhum escalão de sua igreja; quaisquer que tiverem essa intenção serão usurpadores; em vez de estabelecer qualquer dos discípulos nessa dignidade, Ele adverte a todos eles a não aspirarem tal posição.

Cristo aqui os ensina a serem humildes:

1. Por um sinal (v. 2); “E Jesus, chamando uma criança, a pôs no meio deles”. Cristo frequentemente ensinava por sinais ou ilustrações sensatas (comparações visuais), como os profetas do passado. A humildade é uma lição aprendida de forma tão dura, que precisamos de todos os modos e meios para sermos ensinados. Quando olhamos uma criança pequena, devemos ter em mente a comparação que Cristo fez com essa criança. Coisas sensatas devem ser utilizadas para propósitos espirituais. “Jesus a pôs no meio deles”; não para que eles pudessem brincar com ela, mas para que pudessem aprender através dela. Os homens crescidos, e os homens grandes, não deveriam desdenhar da companhia das crianças pequenas, ou considerar como algo inferior a atitude de notá-las. Eles podem falar com as crianças, e instruí-las; ou prestar atenção nelas e receber instruções delas. O próprio Cristo, quando criança, esteve “assentado no meio dos doutores” (Lucas 2.46).

2. Por um sermão sobre esse sinal, no qual Ele mostra a eles e a nós:

(1).  A necessidade da humildade (v. 3). O seu prefácio é solene, e ordena tanto a atenção como o consentimento: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos céus”. Aqui observe:

[1]. O que Ele exige e no que Ele insiste.

Em primeiro lugar: “Vocês devem se converter, vocês devem ter uma outra mentalidade, e em outra estrutura e sentimento; devem ter outros pensamentos, tanto de si mesmos como do Reino dos céus, antes de estarem aptos a ocupar um lugar nele. O orgulho, a ambição e a artificialidade de honra e domínio, que apare­ cem em vocês, devem sofrer um arrependimento, uma mortificação e uma reforma, e vocês devem se dar conta disso.” Além da primeira conversão de uma alma de um estado de natureza para um estado de graça, há conversões posteriores de determinados caminhos de apostasia, que são igualmente necessários para a salvação. Todo passo fora do caminho devido ao pecado deve ser um passo de volta ao caminho através do arrependi­ mento. Quando Pedro se arrependeu de ter negado ao seu Mestre, ele se converteu.

Em segundo lugar: Vocês devem se tornar “como crianças”. A graça que converte nos faz como meninos, e não como meninos no entendimento (1 Coríntios 14.20), nem inconstantes (Efésios 4.14), nem brincalhões (cap. 11.16); mas, como crianças, devemos “desejar afetuosamente o leite racional” (1 Pedro 2.2); como crianças, não devemos nos preocupar com nada, mas deixar que o nosso Pai celestial cuide de nós (cap. 6.31). Devemos, como crianças, ser inocentes e inofensivos, e sem malícia (1 Coríntios 14.20), governáveis, e estar sob autoridade (Gálatas 4.2); e (o que aqui é a principal intenção) devemos ser humildes como crianças pequenas, que não ligam para a pompa, que não dão importância às formalidades. O filho de um nobre brincará com o filho de um mendigo (Romanos 12.16). A criança em farrapos, mas vestida, estará tão alegre quanto a outra criança, e não invejará a roupa da criança que se veste de seda; as crianças pequenas não têm grandes ambições quanto a lugares de destaque, ou a projetos de se elevarem a altas posições no mundo; elas não se exercitam em grandes assuntos, nem em coisas muito elevadas para elas. E nós devemos, da mesma maneira, calar e sossegar a nossa alma (Salmos 131.1,2). Como as crianças são pequenas no corpo e baixas em estatura, assim devemos ser pequenos e baixos no espírito, e nos nossos pensamentos a respeito de nós mesmos. Este é um sentimento que leva a outras boas disposições; a época da infância é a época do aprendizado.

[2]. Que ênfase o Senhor coloca sobre isso. Sem isso, “de modo algum entrareis no Reino dos céus”. Note que os discípulos de Cristo têm a necessidade de ser mantidos em expectativa por meio de ameaças, para temerem ficar “para trás” (Hebreus 4.1). Os discípulos, quando fazem aquela pergunta (v. 1), têm a certeza de entrar no Reino dos céus; mas Cristo os desperta para o fato de estarem enciumados uns dos outros. Eles eram ambiciosos, e queriam ser “o maior no Reino dos céus”. Cristo lhes diz que, a menos que tenham uma atitude melhor, jamais chegarão lá. Muitos que aspiram ser o maior na igreja, demonstram ser não só pequenos, mas nada, e acabam não tendo parte ou porção no assunto em questão. O nosso Senhor pretende aqui mostrar o grande perigo do orgulho e da ambição; a despeito do que os homens professem, se eles se permitirem cair nesse pecado, serão rejeitados e não entrarão nem no tabernáculo de Deus, nem em seu santo monte. O orgulho fez cair do céu os anjos que pecaram, e nos deixará de fora, se não nos convertermos. Aqueles que se exaltam com o orgulho, caem na condenação do diabo. Para evitar isso, devemos nos fazer como crianças pequenas. E para fazermos isso, devemos nascer de novo, devemos nos revestir do novo homem, devemos ser como o santo Filho Jesus; assim Ele é chamado, mesmo depois de sua ascensão (Atos 4.27).

(2).  Ele mostra a honra e o avanço que resultam da humildade (v. 4), fornecendo assim uma resposta direta, mas surpreendente, à pergunta deles. Aquele que se tornar humilde como uma criança pequena – embora possa temer que assim se apresente como alguém desprezível, como um homem de mente tímida, que desse modo se lança para fora do caminho da preferência -, esse é o maior no Reino dos céus. Os cristãos mais humildes são os melhores cristãos, os mais parecidos com Cristo, e os mais elevados em seu favor; estão melhor posicionados para as comunicações da graça divina, mais adequados para servir a Deus neste mundo, e desfrutar o mundo vindouro. Eles são grandes, porque Deus domina o céu e a terra, e não deixa de considerá-los; e certamente aqueles a serem mais respeitados e honrados na igreja são os mais humildes e os que renunciam a si mesmos; porque, embora eles não bus­ quem ser grandes, são aqueles que o merecem.

(3).  O cuidado especial que Cristo tem por aqueles que são humildes. Ele advoga a causa deles, os protege, se interessa por suas preocupações, e não permite que sejam vítimas de injustiça, sem que tenham uma futura compensação.

Aqueles que assim se tornam humildes temerão:

[1]. Que ninguém os receba; mas (v. 5): “Qualquer que receber em meu nome uma criança tal como esta, a mim me recebe”. Jesus considera qualquer ato de bondade feito a alguém como sendo feito a Ele mesmo. Existe um ato que deve ser aceito e recompensado como um ato de respeito a Cristo: aquele que acolhe um cristão manso e humilde, mantém-no em uma situação de tranquilidade, não o deixa perder por sua modéstia, aceita-o em seu amor e amizade, em sua companhia e cuidado, e estuda alguma maneira de lhe fazer algum gesto de bondade; aquele que faz isso em nome de Cristo, por amor a Ele, pelo fato de o cristão levar a imagem de Cristo, servir a Cristo, e porque Cristo o recebeu. Mesmo que apenas uma pequena criança seja recebida em nome de Cristo, isto será aceito. Note que a terna consideração que Cristo tem por sua igreja se estende a cada membro em particular, até mesmo ao que é aparentemente mais insignificante; não só a toda a família, mas a cada membro da família. Quanto menores forem aqueles a quem demonstrarmos bondade, mais boa vontade estaremos demonstrando em relação a Cristo. Quando fazemos algo por pessoas que naturalmente não ajudaríamos, estamos fazendo mais por amor a Cristo; e Ele aceita esta oferta. Se Cristo estivesse pessoalmente entre nós, entendemos que jamais conseguiríamos recebê-lo tão bem quanto Ele merece. Mas sempre temos conosco os pobres, os pobres de espírito; e podemos fazer a eles aquilo que faríamos pessoalmente ao próprio Cristo. Veja cap. 25.35-40.

[2]. Eles temerão que todos abusem deles; os homens mais indignos se deliciarão ao menosprezar o humilde. Ele trata dessa objeção (v. 6), e adverte a todas as pessoas quanto ao risco envolvido em sua resposta, para que não tragam qualquer injúria a algum dos pequeninos de Cristo. Esta palavra funciona como uma parede de fogo em torno deles; aquele que tocar neles, toca na menina dos olhos de Deus.

Considere, em primeiro lugar, o crime que está em foco: escandalizar um desses pequeninos que creem em Cristo. A sua crença em Cristo, embora sejam pequeninos, os une a Ele, e faz com que Ele se interesse pela causa deles, de forma que, como eles participam do benefício de seus sofrimentos, Ele também participa das injustiças que lhes são causadas. Os pequeninos que creem têm os mesmos privilégios dos grandes, porque todos eles conseguiram uma fé preciosa. Há aqueles que escandalizam estes pequeninos, fazendo-os pecar (1 Coríntios 8.10,11), afligindo e causando dor em suas almas justas, desencorajando-os, aproveitando-se de sua mansidão para fazer deles uma presa individualmente, em suas famílias, aprisionando os seus bens ou o seu bom nome. Dessa forma, os melhores homens frequentemente têm encontrado o pior tratamento da parte deste mundo.

Em segundo lugar, a punição desse crime que é sugerida nesta palavra: “Melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar”. O pecado é tão horrendo, e a ruína é proporcionalmente tão grande, que seria melhor que o transgressor sofresse os castigos mais dolorosos infligidos sobre o pior dos criminosos, algo que só pode matar o corpo. Note que:

1. O inferno é pior do que a profundeza do mar, porque ele é um abismo sem fundo, e é um lago de fogo. A profundeza do mar apenas mata, mas o inferno é atormentador. Conhecemos alguém que teve conforto na profundeza do mar: Jonas (Jonas 2.2,4,9); mas ninguém jamais teve o menor grão ou vislumbre de conforto no inferno, nem o terá na eternidade.

2. A condenação irrevogável e irresistível do grande Juiz trará uma prisão mais rápida, um naufrágio mais certo e mais rápido, do que uma mó de azenha pendurada ao pescoço. Existe um grande abismo que jamais pode ser transposto (Lucas 16.26). Escandalizar os pequeninos de Cristo, embora por omissão, é apontado como o motivo para esta terrível sentença: ”Amaldiçoados sejam”, que no final será a condenação dos perseguidores orgulhosos.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

TREINO CEREBRAL

Supressão emocional para apagar memórias negativas.

Treino cerebral

Reprimir as emoções ruins relacionadas a certos fatos ocorridos parece reduzir as memórias negativas, seja consciente ou inconscientemente, dizem pesquisadores envolvidos em um novo estudo publicado no periódico científico Neuro-psychologia. A conclusão ocorreu após uma bateria de exames cerebrais por ressonância magnética funcional em 17 indivíduos que se submetiam a uma tarefa de classificação de imagem. Um grupo controle de mesma amostra da população realizou atividades idênticas, mas sem submeter-se ressonância magnética funcional.

Enquanto classificavam 180 imagens (quanto a sua negatividade), os voluntários receberam instruções para reprimir sentimentos negativos, explícitas ou dissimuladas. Ambas as formas de supressão emocional reduziram memórias negativas, contando-se uma semana depois do experimento nos exames de neuroimagem, verificou-se que, nesses casos, houve redução da conectividade em regiões do cérebro responsáveis pela codificação de memórias emocionais.

As diferentes supressões resultaram em processamentos distintos, no entanto, quanto à experiência imediata com as imagens – instruções explícitas incitara m menos respostas negativas instantâneas, diminuindo a atividade na amígdala, uma região do cérebro que auxilia no processamento emocional.

OUTROS OLHARES

A FORÇA QUE VEM DOS LIKES

Como as mensagens de apoio recebidas dos milhões de seguidores na internet ajudam a modelo Nara Almeida a enfrentar um câncer raro.

A força que vem dos likes

A carreira de modelo da maranhense Nara Almeida começava a decolar em meados de 2017 quando ela recebeu um diagnóstico desalentador. As fortes dores que ela sentia no estômago eram causadas por um câncer. Abalada, decidiu compartilhar a notícia com os milhares de seguidores que já a acompanhavam no Instagram. “A única coisa que conseguia fazer era chorar, mas não era um choro de tristeza”, escreveu. “Compartilharei tudo que servir de inspiração, tudo que faça com que vocês saiam do automático”. A decisão, ousada, fez com que um número cada vez maior de pessoas passasse a curtir e a apoiar a modelo a cada etapa do tratamento, mandando mensagens de força. Nara se tomou assim um grande exemplo da luta contra o câncer para a geração que está habituada a seguir influenciadores digitais e youtubers apenas para saber o que vestem, comem ou como se divertem. Dessa vez foi diferente.

“As pessoas têm a tendência a se mostrarem empáticas com aquelas que estão vivendo um momento mais complicado”, afirma o psicólogo Yuri Busin. Os números na conta de Nara no Instagram reforçam a ideia da empatia. Hoje, ela tem 3,2 milhões de seguidores – e suas postagens atingem cerca de 800 mil curtidas cada. Antes da doença, a média era de 7 mil. Ela recebeu também o apoio de diversas celebridades. A cantora Larissa Manoela, por exemplo, pagou uma viagem para que a mãe de Nara encontrasse a filha após quase 20 anos. Cada postagem sua recebe manifestações carinhosas de Adriane Galisteu, Sabrina Sato e outras famosas.

O grande alcance que a modelo tem nas redes sociais também ajuda a desmistificar a doença e serve de apoio para aqueles que enfrentam uma situação parecida. “Muitas pessoas buscam compensação emocional nas redes sociais para algo que estão sentindo”, diz Busin. Este é um caso em que essa busca tem um efeito benéfico. Segundo o psicólogo, muitos se sentem solitários após um diagnóstico como o de Nara. A rede que se formou em torno da modelo, que não esconde nenhuma etapa do tratamento e aborda temas como depressão e a gravidade dos tratamentos contra o câncer, pode oferecer informação e conforto.

Nara nasceu na pequena cidade maranhense de João Lisboa. Foi criada pelos avós e começou a trabalhar muito cedo. Mudou-se para Goiânia antes de se instalar definitivamente em São Paulo. Lançou uma confecção e vendia peças pela internet. Suas fotos começaram a atrair mais seguidores e ela chegou a firmar parcerias com algumas marcas. Foi nesse momento que descobriu o câncer no estômago, comum em mulheres idosas, mas bastante raro na idade de Nara. Ela vem passando por sessões de quimioterapia e radioterapia para conter o avanço do tumor. Atualmente. vive ao lado do namorado, o youtuber Pedro Rocha, e recebe o apoio da sogra e da mãe.

O RISCO DA EXPOSIÇÃO

Evidentemente, redes sociais não amplificam apenas mensagens positivas. Logo no início do tratamento. Nara foi à praia e postou fotos em que aparecia de biquíni. Recebeu mensagens de pessoas perguntando sobre a dieta que estava fazendo. “Só eu sei o quanto estou debilitada. Não consigo me alimentar mais”, escreveu. “Uma mensagem pode mudar seu dia. Para melhor…ou pior”, disse ela em outra postagem.

“Muitos pacientes sentem necessidade de compartilhar suas histórias. Mas sempre avisamos que eles precisam estar preparados para encarar comentários negativos e críticas”, afirma o psicólogo Busin. Se a pessoa estiver ciente dessa possibilidade, o compartilhamento costuma ter mais benefícios do que contraindicações.

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Fonte: Revista Isto É – Edição 2519

GESTÃO E CARREIRA

(AINDA) Á PROCURA DA DIVERSIDADE

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A diversidade será a grande aposta das companhias em 2018. Ê o que mostra o relatório global de tendências de recrutamento divulgado pelo LinkedIn em janeiro e realizado por meio de uma pesquisa com 9000 recrutadores e gestores de RH globalmente. Quase oito em cada dez recrutadores no mundo afirmam que a questão de inclusão de grupos minoritários tem afetado a forma como eles contratam. No Brasil, a porcentagem foi de 77%. “Isso mostra que, em empresas nas quais a diversidade é um valor, os candidatos que se mostrarem resistentes ao tema serão repelidos, afirma Milton Beck, diretor regional do LinkedIn para América Latina. Segundo ele, essa questão fará as organizações repensar seus processos de seleção – incluindo etapas que permitam avaliar características comportamentais e reduzindo, por exemplo, indicações de amigos. “Embora essa prática garanta segurança na hora de contratar, diminui a capacidade de diversificar o time, afirma.

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Fonte: Revista Você SA – Edição 237

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 17:24-27

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O Nosso Senhor Paga o Tributo

Aqui temos um relato de Cristo pagando um tributo.

I – Observe a maneira como o tributo lhe foi exigido (v. 24). Cristo estava então em Cafarnaum, o seu centro de operações, onde residia na maior parte do tempo. Ele não se afastou dali para evitar que lhe pedissem o pagamento de tributos, mas, na verdade, Ele foi para lá disposto a pagá-los.

1.O tributo exigido não era nenhum pagamento civil ao governo romano, que era rigidamente cobrado pelos publicanos, mas os tributos da sinagoga, meio siclo, cerca de quinze centavos de dólar, que eram cobrados de todas as pessoas pelo serviço do Templo, subsidiando as despesas da adoração ali realizada; isso era chamado de “resgate da alma” (Êxodo 30.12ss.). Não era tão rigidamente cobrado agora, como já tinha sido algumas vezes, especialmente na Galileia.

2.A exigência foi muito modesta. Os cobradores tinham tanto respeito por Cristo, devido aos seus milagres, que não ousaram falar com Ele sobre o tributo, mas se dirigiram a Pedro, cuja casa ficava em Cafarnaum, e provavelmente era ali que Cristo se hospedava; portanto, era mais adequado dirigir-se a ele, que era o dono da casa, e eles supunham que Ele conhecesse a vontade do seu Mestre. A pergunta que lhe fizeram foi: “O vosso mestre não paga as didracmas?” Alguns opinam que eles estavam procurando uma oportunidade de acusá-lo, pretendendo, caso Ele se recusasse a pagar, acusá-lo como sendo indiferente aos serviços do Templo, e aos seus seguidores, como pessoas desrespeitosas da lei, que não pagavam “direitos, tributos nem rendas” (Esdras 4.13). Mas, na verdade, parece que eles perguntaram isso com respeito, dando a entender que, se Ele tivesse qualquer privilégio que o isentasse desse pagamento, eles não insistiriam.

Pedro imediatamente responde pelo seu Mestre: “Sim”, com certeza, meu Mestre paga os tributos; é o seu princípio e o seu costume; vocês não precisam ter medo de pedir-lhe.

(1).  Ele era nascido “sob a lei” (Gálatas 4.4); portanto, sob essa lei, tinham pago por Ele, quando tinha quarenta dias de nascido (Lucas 2.22), e agora Ele pagava por si mesmo, como alguém que, na sua condição de humilhação, tinha assumido a “forma de servo” (Filipenses 2.7,8).

(2).  Ele se fez pecado por nós, e foi enviado “em semelhança da carne do pecado” (Romanos 8.3). Essa taxa paga ao Templo é chamada de “expiação pela alma” (Êxodo 30.15). Cristo, para que em tudo fosse semelhante aos pecadores, pagou-a, embora não tivesse nenhum pecado para expiar.

(3).  Era conveniente que Ele “cumprisse toda a justiça” (cap. 3.15). Ele fez isso para dar um exemplo:

[1]. De dar a cada um o que é devido: “a quem tributo, tributo” (Romanos 13.7). Como o reino de Cristo não é deste mundo, os seus obreiros estão muito distantes de terem um poder que lhes seja outorgado por este mundo, como, por exemplo, o de cobrar impostos dos outros; e assim eles ficam sujeitos aos poderes que podem fazê-lo.

[2]. De contribuir para o sustento da adoração pública a Deus nos lugares onde estivermos. Se nós obtivemos coisas espirituais, é adequado que devolvamos coisas materiais. O templo, então, era uma residência de ladrões, e a adoração do templo, uma desculpa para a oposição que os principais dos sacerdotes faziam a Cristo e à sua doutrina; e, ainda assim, Cristo pagou esse tributo. As obrigações para com a igreja, impostas legalmente, devem ser pagas, mesmo que exista algum tipo de corrupção na igreja. Nós devemos tomar cuidado para não usar a nossa liberdade como “cobertura da malícia” (1 Pedro 2.16). Se Cristo paga impostos, quem pode esperar ser isento?

 

II – A maneira como essa questão foi debatida (v. 25): não com os próprios cobradores, para que não ficassem irritados, mas com Pedro, para que ele ficasse satisfeito com o motivo pelo qual Cristo pagava os impostos, e não se enganasse a esse respeito. Ele levou os cobradores para dentro de casa, mas Cristo se antecipou a ele, para dar-lhe uma prova da sua onisciência, e de que nenhum pensamento podia ficar oculto dele. Os discípulos de Cristo nunca são atacados sem o seu conhecimento.

Assim:

1. Ele fala sobre os costumes dos reis da terra, no tocante a cobrar os tributos de estranhos, dos súditos do seu reino ou de estrangeiros que fazem negócios com eles, mas não dos seus próprios filhos, que são parte da sua família. Existe uma tal comunidade de bens entre pais e filhos, e um interesse comum no que eles têm, que seria absurdo que os pais cobrassem impostos dos filhos, ou exigissem algo deles. Seria como uma mão cobrando a outra.

2. Jesus aplica esse mesmo costume a si mesmo:

“Logo, estão livres os filhos”. Cristo é o Filho de Deus, e herdeiro de todas as coisas; o templo é o seu templo (Malaquias 3.1), a casa do seu Pai (João 2.16), nela Ele é fiel, como um Filho na sua própria casa (Hebreus 3.6), e por isso não é obrigado a pagar esse imposto para o serviço do templo. Assim, Cristo afirma o seu direito, para que o seu pagamento do tributo não fosse interpretado, erroneamente, como um enfraquecimento do seu título como Filho de Deus, e Rei de Israel, e pudesse parecer que Ele estivesse desonrando a si mesmo. Essas imunidades dos filhos não devem ser estendidas além do próprio Senhor Jesus. Os filhos de Deus são libertos da escravidão do pecado e de Satanás pela graça e pela adoção, mas não são libertados da sua submissão aos magistrados civis, nas questões civis; aqui a lei de Cristo é expressa: “Toda alma” (e as almas santificadas não são isentas ) “esteja sujeita às autoridades superiores”. “Dai, pois, a César o que é de César”.

 

III – Como, apesar disso, o imposto foi pago (v. 27).

1. Por que motivo Cristo desistiu do seu privilégio, e pagou esse tributo, embora tivesse direito à isenção – “para que os não escandalizemos”. Poucos sabiam, como Pedro, que Ele era o Filho de Deus; e teria sido uma diminuição à honra daquela grande verdade, que ainda era um segredo, dá-la a conhecer então para servir a um propósito como esse. Por isso Cristo desiste desse argumento e considera que, se Ele se recusasse a fazer o pagamento, isso iria aumentar o preconceito do povo contra Ele e a sua doutrina, e afastá-los dele; por isso Ele decide pagar. Observe que a prudência e a humildade cristãs nos ensinam, em muitos casos, a recuar no nosso direito, em vez de ofender alguém, insistindo nele (a pregação e os milagres de Cristo os ofendiam, e ainda assim Cristo prosseguia realizando-os, cap. 15.12,13; melhor ofender aos homens do que a Deus); mas, às vezes, nós devemos renunciar àquilo que é o nosso interesse secular, em vez de ofender, como Paulo (1 Coríntios 8.13; Romanos 14.13).

2.  Que método Ele usou para o pagamento desse imposto: Ele se abasteceu com dinheiro obtido da boca de um peixe (v. 27), e vemos:

(1). A pobreza de Cristo: Ele não tinha quinze centavos de dólar à sua disposição para poder pagar com eles o seu imposto, embora Ele curasse tantos doentes. Ele fazia tudo gratuitamente. “Por amor de vós se fez pobre” (2 Coríntios 8.9). Para as suas despesas regulares, Ele vivia de esmolas (Lucas 8.3), e para as extraordinárias, Ele vivia de milagres. Ele não ordenou que Judas pagasse esse imposto com o dinheiro da bolsa que estava aos seus cuidados; aquele dinheiro era para a subsistência deles, e Ele não iria ordenar que fosse destinado a esse uso em particular o que se destinava para o benefício da comunidade.

(2). O poder de Cristo, em obter dinheiro da boca de um peixe para esse objetivo. Se a sua onipotência colocou o dinheiro ali, ou se a sua onisciência sabia que estava ali, o resultado é um só; isso foi uma evidência da sua divindade, e de que Ele é o Senhor dos exércitos. Aquelas criaturas que estão mais distantes do homem estão sob as ordens de Cristo, até mesmo os peixes do mar estão debaixo de seus pés (Salmos 8.5); e para evidenciar o seu domínio sobre este mundo inferior, e para se adequar ao seu atual estado de humilhação, Ele decidiu obter o dinheiro da boca de um peixe, quando poderia tê-lo obtido da mão de um anjo. Considere que:

[1]. Pedro deveria pescar o peixe com um anzol. Até mesmo nos seus milagres, Jesus usava meios para incentivar a dedicação e o empenho. Pedro devia fazer alguma coisa, e isso também estava relacionado com a sua própria vocação. Isto serve para nos ensinar diligência na atividade para a qual somos chamados, e convocados. Esperamos que Cristo nos dê tudo? Vamos estar preparados para trabalhar para Ele.

[2]. O peixe subiu com o dinheiro na boca – o que, para nós, representa a recompensa da obediência. Qualquer trabalho que realizemos sob as ordens de Cristo trará a sua própria recompensa consigo: em guardar os mandamentos de Deus, assim como depois de guardá-los, há grande recompensa (Salmos 19.11). Pedro foi feito um pescador de homens, e aqueles que ele pesca vêm à superfície. Quando o coração estiver aberto para receber a Palavra de Cristo, a mão estará aberta para encorajar os seus ministros.

[3]. O dinheiro do peixe foi a conta exata para pagar o imposto para Cristo e Pedro: “Encontrarás um estáter”. Um estáter valia um siclo judaico, que pagaria o imposto por duas pessoas, pois o valor do imposto era de meio siclo (Êxodo 30.13). Cristo poderia facilmente ter ordenado uma maleta de dinheiro, mas Ele nos ensina a não ambicionar o que é supérfluo, mas, tendo o suficiente para as nossas condições atuais, a ficarmos satisfeitos, e a não deixar de confiar em Deus, embora vivamos apenas uma existência precária. Cristo fez do peixe o seu tesoureiro, e por que nós não fazemos da providência de Deus a nossa tesouraria e o nosso armazém? “Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo”. Em outras palavras: se tivermos a competência necessária para hoje, deixemos que o amanhã cuide das coisas do amanhã. Cristo pagou por Ele e por Pedro, porque é provável que aqui somente Ele fosse inquirido, e somente dele se exigisse nessa ocasião; talvez os demais já tivessem pago, ou iriam pagar de outra maneira. Os papistas interpretam como um grande mistério o fato de Cristo pagar por Pedro, como se isso fizesse dele o chefe e o representante de toda a igreja; ao passo que o seu pagamento do tributo era mais um sinal de submissão do que de superioridade. Os seus supostos sucessores não pagavam tributos, mas o cobravam. Pedro pescou o seu dinheiro, e, portanto, parte dele foi para o seu uso. Aqueles que trabalham com Cristo para conquistar almas irão resplandecer com Ele. “Dá-o por mim e por ti”. O que Cristo pagou por si mesmo era considerado como uma dívida; o que Ele pagou por Pedro era uma cortesia para com ele. Observe que é desejável, se Deus assim o desejar, obter os recursos necessários dos bens deste mundo, não somente para sermos justos, mas também para sermos bons; não somente para a caridade para os pobres, mas como favor aos nossos amigos. Para que serve uma grande quantidade de bens, senão para capacitar o homem a fazer o bem ainda mais?

Finalmente, observe que o evangelista aqui registra as ordens que Cristo deu a Pedro, a autorização; o efeito não é mencionado de forma especial, mas é corretamente aceito como entendido; pois, com Cristo, dizer e fazer são a mesma coisa.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O DSM E A DISLEXIA

Informações mais aprofundadas a respeito do transtorno, mesmo que um pouco desencontradas, só foram registradas na terceira edição do DSM da década de 1980.

O DSM e a dislexia

Uma curiosidade que precisa ser registrada é a forma como o DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), publicação oficial de American Psychiatric Association, tem classificado a dislexia e outros distúrbios de aprendizagem ao longo dos anos. O DSM-1 e o DSM-II tinham poucas páginas e não especificavam os sintomas nem características aprofundadas dos distúrbios. O DSM-II, publicado em 1968, trazia apenas a citação “Specific learning disturbance” (distúrbio ou perturbação específica da aprendizagem). Não havia nenhuma descrição do que poderia ser um distúrbio específico de aprendizagem. Na terceira edição, ou seja, DSM­ Ill, publicado em fevereiro e maio de 1980, sendo primeira e segunda impressões, respectivamente, houve um considerável acréscimo de informações, ainda que tenham sido um pouco desencontradas. A definição passou a ser algo como: “(315) atrasos específicos no desenvolvimento. Um grupo de distúrbios em que um atraso específico no desenvolvimento é a principal característica. O desenvolvimento desses casos está relacionado à maturação biológica, mas também é influenciado por não biológicos. Os fatores e a codificação não possuem implicações etiológicas. Exclui: quando devido a um distúrbio neurológico (320-389)”.

“(315.0) Retardo específico de leitura. Distúrbios em que a característica principal é um grave prejuízo no desenvolvimento da leitura ou habilidades ortográficas que não são explicáveis em termos de retardo intelectual geral ou de escolaridade inadequada. Problemas de fala ou linguagem, diferenciação da diferenciação direito-esquerda, problemas de percepção motora e dificuldades de codificação são frequentemente associados. Problemas semelhantes, muitas vezes, estão presentes em outros membros da família. Fatores psicossociais adversos podem ser presentes.” A única citação sobre dislexia é a seguinte: “Dislexia do desenvolvimento, dificuldade de soletração específica”. Mas não especifica mais nada (DSM- lll, 444Appendix D).

Vale lembrar que essa versão que estou analisando é a versão digitalizada em inglês. Por isso, pode ter sofrido alguma alteração durante o processo de digitalização. Além disso, essas informações só são encontradas no adendo de revisão que, provavelmente, como todo adendo, foi inserido em data posterior, pois me lembro bem da época em que esse manual foi publicado, pois estava no auge do desespero à procura de respostas para o que havia ocorrido comigo num afogamento e, naquela época, não havia nada em inglês sobre dislexia. Como já relatei diversas vezes, as poucas respostas que encontrei chegaram em um livro alemão. Porém, nessa versão digitalizada encontra -se o termo dislexia do desenvolvimento, em inglês, embora não relate sintomas nem características. Quero frisar que nada tenho contra os norte-americanos, ao contrário, tenho ótimos amigos daquele país. O que eu cito se refere à descrição ou citação meio equivocada em relação aos distúrbios de aprendizagem, em especial a dislexia.

MISTURA

Outro fator que precisa ser frisado é a “mistura” de sintomas atribuídos à dislexia naquela época, que, infelizmente, continuam sendo “misturados”, especialmente no Brasil. Considerada como um “retardo de leitura específico’ citava sintomas como problemas de fala ou linguagem, dificuldade ou ausência na lateralidade (diferenciação direita-esquerda), problemas de percepção motora e dificuldades de codificação ser iam, segundo o manual, frequentemente associados. Isso, há muito tempo, já se sabe que não são sintomas associados nem menos ainda característicos da dislexia. Se ocorrerem em comorbidade, pode ser mais pelo tratamento errado do que dos sintomas propriamente ditos.

Essa é uma afirmação minha, a constatação é minha e eu assumo a responsabilidade pela afirmação, baseando-me em diversos casos que analisei e outros inúmeros que conheci por intermédio de outros pesquisadores e profissionais clínicos, ao longo de 40 anos de experiências.

Outra afirmação que merece destaque é a citação: “Problemas, muitas vezes, estão presentes em outros membros da família”. Essa afirmação passou a influenciar a ideia de que a dislexia (que nem sequer recebia esse nome em inglês) teria origem genética/hereditária. Nas páginas 93 e 94 dessa mesma edição, outra contradição. Pode se ler o seguinte: “(315.00) Transtorno da leitura do desenvolvimento. A característica essencial é um comprometimento significativo no desenvolvimento da leitura e habilidades não contabilizadas por idade cronológica, idade mental ou escolaridade inadequada. Além disso, na escola, o desempenho da criança em tarefas que requerem as habilidades está significativamente abaixo de sua capacidade intelectual. Perturbação “significativa” difere um pouco com a idade: uma discrepância de um a dois anos na habilidade de leitura. Para as idades de 8 a 13 anos é significativo, mas, abaixo dessa idade, é difícil especificar como uma grande discrepância é significativa. Essa desordem foi referida como “dislexia”. Ocorre uma leitura oral defeituosa, muitas vezes caracterizada por omissões, adições e distorções de palavras. Ao soletrar o ditado pode haver numerosos e estranhos erros, que não são explicáveis pela fonética ou pela simples reversão de letras (como b/ d). Outras características associadas comuns incluem dificuldades de linguagem sutis, tais como deficiência de discriminação de som e dificuldades de sequenciamento de palavras corretamente, e problemas comportamentais, como os associados ao transtorno de déficit de atenção e transtorno de conduta. Sinais neurológicos, como agnosia dos dedos, podem ser encontrados, particularmente, em crianças mais novas’:

As duas citações que merecem mais destaque nesse parágrafo são: em primeiro lugar, o termo “dislexia” é citado como se fosse algo do passado ou então alternativo do tipo “tem sido chamado” ou se chamou dislexia. Algo que já não se usasse mais o termo ou definição ou, se usado, seria apenas uma forma alternativa de expressão. Porém, levando-se em conta que na edição anterior o termo “dislexia’ praticamente, nem era citado e nessa edição a citação é de que foi um “termo do passado” ou poder ia ser um termo “alternativo’: onde afinal estaria publicado o termo e sua definição com precisão? Seria na Alemanha, comprovando minhas pesquisas e publicações?

 OBSERVAÇÃO

O segundo detalhe importantíssimo a analisar é que nessa terceira edição do DSM entrou uma pequena observação sobre uma suposta troca de letras. Ai, eu volto ao que citei anteriormente em meu livro Distúrbios de Aprendizagem e de Comportamento, quando abordei a pesquisa sobre a troca de letras que foi abandonada após alguns anos de defesa. Muito provavelmente por se ter percebido a incoerência ou por haver interesse por outras linhas de pesquisa. Estranhamente, na terceira edição do DSM foi citada essa suposta troca de letras, mas apenas com as letras p/ b e ocorrendo numa soletração/ ditado. Seria aqui o caso de detectar uma possível deficiência auditiva confundindo o p com o b num ditado e não a ideia totalmente errada de que possa ser sintoma de dislexia? De qualquer forma, apesar de haver uma citação no manual considerado “oficial” de classificação de distúrbios, foi considerada apenas a troca p/ b e não essa grande lista de trocas de letras que se encontra hoje em diversas definições, em dissertações de mestrado, teses de doutorado, debates televisivos e onde mais a imaginação dos desavisados os levar.

Nessa mesma edição estipula-se que “(94) Categorias de diagnóstico lento e, muitas vezes, há uma compreensão de leitura reduzida, embora a capacidade para copiar textos escritos ou impressos geralmente não seja afetada. O diagnóstico só pode ser feito por testes de QJ administrados individualmente, que contêm subtestes verbais e que produzem um nível de QJ em escala completa, além de uma variedade de testes de realização acadêmica, que contêm subtestes de leitura. Recursos associados”.

Essa definição de diagnóstico também condenou os indivíduos a não procurarem outro tipo de diagnóstico e tratamento. Apesar de, atualmente, existirem alternativas bem mais rápidas e eficientes no diagnóstico e tratamento, por uma questão de “obediência” ao que se publica de forma teoricamente “oficial’; muitas pessoas até hoje se recusam a aceitar inovações que podem superar as expectativas. Isso inclui também profissionais que seguem à risca as determinações do DSM. Assim, privam seus pacientes do acesso às inovações e passam muitos anos, se não a vida toda, em tratamento contínuo, só pelo receio do “novo”.

Na edição DSM-IV, publicada em 1994, incluem-se transtornos de aprendizagem (anteriormente distúrbios de habilidades acadêmicas). Nas páginas 46 e 47 também é citado que “muitos indivíduos (10%-25%) com transtorno de conduta, transtorno de oposição desafiante ou transtorno opositivo desafiador, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, transtorno depressivo maior ou distímico também possuem transtornos de aprendizagem. Há evidências de que, no desenvolvimento, podem ocorrer atrasos na linguagem em associação com transtornos de aprendizagem (particularmente transtorno de leitura), embora esses atrasos possam não ser suficientemente graves para garantir o diagnóstico separado de um transtorno de comunicação. Distúrbios de aprendizagem também podem ser associados a uma taxa mais elevada de transtorno de coordenação do desenvolvimento”.

A página 48 insiste “no diagnóstico efetuado por testes específicos de realização”. Cita que “crianças de origens étnicas ou culturais diferentes da cultura escolar predominante ou em que o inglês não é o idioma principal e as crianças que frequentaram a aula nas escolas onde o ensino foi inadequado podem marcar mal nos testes de realização. Crianças desses mesmos antecedentes também podem estar em maior risco de absenteísmo devido a doenças mais frequentes ou empobrecidos ou caóticos ambientes de vida. A visão ou a audição prejudicadas podem afetar a capacidade de aprendizagem e devem ser investigadas através de testes de triagem audiométrica ou visual”.

Ainda na página 48 e parte da 49 é reafirmada, entre outras citações, a medição de capacidade de leitura por testes padronizados administrados individualmente, e insiste em afirmar que “em indivíduos com transtorno de leitura (que também se chamou ou tem sido chamado de dislexia), a leitura oral é caracterizada por distorções, substituições ou omissões; ambos orais e a leitura silenciosa é caracterizada por lentidão e erros de compreensão”. E coloca como “características e distúrbios associados, transtorno de matemática e transtorno da expressão escrita são comumente associados à (315.00) desordem de leitura”.

 INSISTÊNCIA

Essa insistência na aplicação de testes padronizados e a associação de outros distúrbios como espécie de comorbidades, como já tenho publicado em outros artigos e livros, parecem apenas um prolongamento de um diagnóstico e tratamento obsoletos e mal aplicados. Ou seja, uma criança apresenta um determinado número de sintomas que caracteriza uma dislexia, passa por uma série de testes padronizados, segue fazendo um tratamento padronizado ou, mesmo que seja adaptado, um tratamento limitado. Com o tempo, acabará apresentando outros sintomas relacionados a outros distúrbios, não por serem comorbidades, mas por serem consequências de um tratamento que não funcionou para ela.

Ainda na página 49, “60% a 80% dos indivíduos diagnosticados com transtorno de leitura são do sexo masculino”. Porém, também cita que “os procedimentos geralmente podem ser tendenciosos para identificar os homens, porque eles mais frequentemente exibem comportamentos disruptivos em associação com distúrbios de aprendizagem. A desordem foi encontrada em taxas mais iguais em homens e mulheres quando um diagnóstico cuidadoso e critérios rigorosos são usados, em vez de referência tradicional baseada na escola e procedimentos de diagnóstico”.

Nesse ponto, é preciso entender que o DSM está corretíssimo, ponderando que em caso de diagnóstico mais cuidadoso e criterioso o número de homens e mulheres com dificuldades de leitura se equipara, deixando um pouco de lado a afirmação de maior número de homens disléxicos. Mas, se o próprio DSM-IV já afirmava isso, por que tantos ainda insistem até hoje em afirmar que há maior número de meninos do que meninas em se tratando de dislexia?

Chegamos agora ao tão aguardado DSM-V, que foi publicado em 2013. Em sua página 68, cita que “uma característica essencial do transtorno de aprendizagem específico é a dificuldade persistente para aprender habilidades acadêmicas, sendo as principais: a leitura de palavras simples com precisão e fluentemente, compreensão de leitura, expressão escrita e ortografia, cálculo aritmético e raciocínio matemático (resolução de problemas matemáticos). Em contraste com a conversa ou a caminhada, que são os marcos de desenvolvimento adquiridos que surgem com maturação cerebral, habilidades (leitura, ortografia, escrita, matemática) devem ser ensinadas e aprendidas explicitamente. O distúrbio de aprendizagem específico interrompe o padrão normal de aprender habilidades acadêmicas; não é simplesmente uma consequência da falta de oportunidade de aprender ou instrução inadequada.

Dificuldade de dominar essas habilidades acadêmicas também pode impedir a aprendizagem em outros assuntos acadêmicos (história, ciência, estudos sociais), mas esses problemas são atribuíveis a dificuldades de aprender habilidades acadêmicas subjacentes. Dificuldade para aprender a mapear letras com os sons de um idioma – para ler palavras impressas (muitas vezes chamada de dislexia) – é uma das manifestações mais comuns de transtorno de aprendizagem específico’.

Aqui, além de continuar a preocupação em afirmar que o distúrbio foi chamado de dislexia, como uma alternativa, o que se percebe é uma junção de diversos distúrbios como uma espécie de associação da deficiência de aprendizagem. São muitos os detalhes e seria impossível transcrever tudo neste artigo. Sugiro a quem tiver curiosidade em saber mais que leia na íntegra o manual.

OBSERVAÇÕES PERTINENTES

Nos meus livros sobre distúrbios de aprendizagem, eu faço algumas observações complementares sobre as publicações DSM, mas a síntese que percebo é que, ao longo dos anos, a cada publicação, os sintomas, especialmente os da dislexia, foram aumentando e se juntando de tal forma que parece que tudo pode ser dislexia ou, como o manual cita, “distúrbio específico de aprendizagem”. O que espanta também é a quantidade de páginas a mais entre a primeira e a recente edição. De 132 páginas da primeira edição, passando para 136 da segunda, 507 páginas da terceira, 915 páginas da quarta e chegando a 970 páginas da quinta edição. Apesar de conter algumas explicações sobre os distúrbios, ainda assim nota-se que aumentaram muitos os distúrbios classificados e os sintomas a eles atribuídos. A sequência correta diante de tantas pesquisas, testes, publicações e avanços tecnológicos deveria ser a diminuição e até a cura de alguns distúrbios e não esse aumento excessivo.

Depois de observar tudo isso, a pergunta que fica é: se você suspeitar que seu filho(a) ou aluno(a) tenha dislexia, você procurará um profissional que busca respostas em diversas fontes ou um que leva o DSM ao pé da letra?

NECESSIDADE DE CLASSIFICAR DOENÇAS MENTAIS

Ao longo da história, a medicina sempre procurou desenvolver uma classificação para as inúmeras doenças mentais. A criação do DSM (Diagnosticand Statistical Manual of Mental Oisorders) pela American Psychiatric Association (APA), em 195, 2 surgiu da necessidade de uma sistematização das mais variadas classificações existentes nos Estados Unidos desde 1840. Naquela época, ocorreu a primeira tentativa de levantamento das doenças mentais, em uma classificação que contava com subtipos, como idiotia e insanidade. Hoje, de tempos em tempos, a APA tem grupos de trabalho para discutir as revisões do DSM e, assim, lançar novas edições, mais atualizadas, acompanhando as conclusões dos mais recentes e frequentes estudos sobre as doenças mentais.

BUSCA POR INFORMAÇÕES

A dislexia tem sido divulgada e tratada de forma equivocada por muito tempo. Os dados oficiais fogem à realidade e cada vez mais torna-se difícil aos pais e professores encontrarem informações precisas. Em busca dessas informações muitas vezes perde­se tempo precioso para um diagnóstico e tratamento em que não só pioram os sintomas como evoluem para baixa autoestima e dificuldade de socialização. É preciso atenção para buscar ajuda com o profissional correto e a certeza de que dislexia, se bem diagoost1cada e tratada, pode ser administrada e seus sintomas amenizados.

 

Lou de Olivier – é multiterapeuta, psicopedagoga. Psicoterapeuta, especialista em Medicina Comportamental, bacharel em Artes Cênicas e Artes Visuais. Detectora do distúrbio da dislexia adquirida/Acquired Dyslexia, precursora da Multiterapia, introdutora da Brinquedoteca aliada à aprendizagem no Brasil e Europa e criadora do método Terapia do Equilíbrio Total/Universal.

http://loudeolivier.com

OUTROS OLHARES

FAXINA NA REDE

O trabalho dos moderadores de conteúdo, que removem imagens consideradas ofensivas por Google Facebook e Instagram, pode ser uma ameaça à democracia.

Faxina na rede

Cada vez que alguém denuncia uma imagem ou um vídeo impróprio nas redes sociais, técnicos analisam se o conteúdo continua online ou deve ser derrubado. Os responsáveis por essa decisão fazem parte de equipes que não ficam instaladas em prédios no Vale do Silício, mas em Manila, nas Filipinas, trabalhando em absoluto sigilo, cada moderador fica mergulhado no que há de pior na web, de pornografia infantil à decapitação de prisioneiros de terroristas. Sua missão: avaliar cerca de 25 mil imagens por dia, tendo apenas alguns segundos para decidir o que as pessoas devem ver em suas linhas do tempo.

Essa é a realidade retratada pelo revelador ‘The Cleaners”, coprodução da alemã Gebrueder Beetz com o estúdio brasileiro Grifa Filmes dirigida por Hans Block e Moritz Riesewieck. A narrativa é costurada pela trajetória de cinco moderadores filipinos, cada um com suas motivações para encarar o trabalho. Um deles acredita em uma missão cristã de livrar a web de pecados; outro compara sua tarefa à guerra às drogas que o presidente Rodrigo Duterte instaurou nas Filipinas. Eles seguem protocolos rígidos, a ponto de apagarem uma imagem icônica do conflito no Vietnã por conta de nudez infantil, e dependem muito da intuição. “Eles seguem um lema: “não pense demais”. Levar muito tempo para analisar cada imagem pode ser problemático”, dizem os diretores. Não existem regras claras para esclarecer casos dúbios, e os moderadores são submetidos a uma pressão emocional enorme. Vários apresentam transtornos semelhantes aos de ex – combatentes – o que toma o atual sistema de moderação falho.

“PERDENDO O CONTROLE”

Delegar a responsabilidade sobre o que circula em suas páginas a um sistema pouco confiável já seria uma atitude temerária. Mas o que Block e Riesewieck mostram no filme é ainda mais preocupante. Para atuar em alguns países, empresas como o Facebook precisam se submeter às exigências de governos. O documentário usa o exemplo da Turquia, em que alguns conteúdos que não ferem nenhuma regra ficam indisponíveis aos usuários daquele país por conta de decisões políticas. “Essas empresas estão quase perdendo o controle. Suas regras não valem para o mundo todo, o que prejudica sua principal missão, que deveria ser conectar as pessoas”, afirmam os cineastas.

A situação se agrava ainda mais com o discurso de ódio que se espalha pelas redes sociais sem interferência. já que os moderadores não podem derrubar uma postagem apenas porque ela é mentirosa.  “A esfera pública foi transferida para a vida digital. Temos que atentar para isso”, dizem Block e Riesewieck. Em muitos lugares, o Facebook é a principal fonte de informação. O jornalista filipino Ed Lingao resume o perigo que se esconde nesse ambiente digital, com as regras atuais. “Podemos perder a democracia porque estamos dispostos a desistir dela”. O documentário integra a programação do festival É Tudo Verdade, com sessões exibidas em abril no Rio de Janeiro e em São Paulo. No segundo semestre, será exibido no canal pago Play TV.

Faxina na rede 2

Fonte: Revista Isto É – Edição 2520

GESTÃO E CARREIRA

LIBERDADE: USE COM MODERAÇÃO

O discurso da informalidade e da diversidade pode ser usado como escudo para atitudes consideradas antiéticas. Empresas e profissionais precisam tomar cuidado para evitar esse problema.Liberdade - use com moderação

Não é raro que confraternizações promovidas por empresas deixem muita gente com dor de cabeça. Em geral, a cefaleia aparece por causa da quantidade de bebida ingerida – talvez para compensar todas as happy hours que foram desmarcadas por horas extras. Mas, em alguns casos, a ressaca não pode ser resolvida com comprimidos e ingestão de água. Na filial brasileira da companhia de tecnologia Sales force, o que veio nos dias seguintes à festa a fantasia da firma foi mais parecido com um tsunami.

Na noite da comemoração, um funcionário da área comercial usou muita criatividade e pouco bom senso para tentar ganhar o prêmio de 3000 reais que seria dado ao empregado mais imaginativo. Ele se fantasiou de um meme conhecido como “Negão do WhatsApp” e, ao que tudo indica, não viu problema algum em estar num evento do trabalho vestido como se estivesse despido, de maneira obscena e com traços racistas. A fantasia ficou em quarto lugar e foi recebida com bom humor por parte dos funcionários. Outra parte, ofendida, fez uma denúncia anônima internamente, citando o código de ética da empresa. A matriz americana investigou o caso e decidiu pelo desligamento imediato do empregado. O diretor comercial não aceitou a demissão, intercedeu pelo subordinado e também foi demitido. Foi, então, a vez de o presidente da operação brasileira tentar interferir – e acabou tendo o mesmo destino dos outros.

O caso abre uma discussão: o discurso de liberdade e informalidade, disseminado por muitas companhias, estimula atos antiéticos? No caso da Sales force, a justificativa usada para defender a fantasia controversa foi a irreverência que existe no Brasil – ainda mais em momentos de celebração. O fato é que o ambiente, mesmo festivo, não é privado: a festa da companhia é regida pelos valores da organização e é um símbolo dela. ”Quando alguém vai contra esses valores, não deixa muita alternativa para a companhia”, afirma Ricardo Sales, consultor em diversidade, de São Paulo. Alguns funcionários disseram que as demissões foram exageradas, não condizendo com a cultura da companhia, de ser aberta à diversidade e à liberdade de expressão. “Mas a noção de que a liberdade de expressão é ilimitada é falsa. Muitos usam essa justificativa para expressar o próprio preconceito. Valorizar a diversidade não é respeitar o direito de cada um se fantasiar como quiser, mas, entre outras coisas, vetar desrespeitos, diz Ricardo.

O código de conduta, que serviu de base para a demissão dos funcionários da Sales force, também apareceu na explicação de uma demissão no Google no ano passado. Em agosto, um engenheiro americano, então funcionário da empresa, escreveu e divulgou internamente um memorando afirmando que há razões biológicas por trás da desigualdade de gêneros. Segundo ele, as mulheres teriam menos aptidão para trabalhar como engenheiras. O funcionário foi demitido e, na ocasião, o CEO do Google afirmou que trechos do texto ” violam nosso código de conduta e ultrapassam o limite ao trazer estereótipos de gênero para dentro do ambiente de trabalho”. No último dia 9 de janeiro, o ex-googler se aliou a outro ex-funcionário, que havia sido demitido em dezembro de 2016 depois de dizerem no fórum interno que o FBI teria motivos para investigar um funcionário muçulmano. Os dois querem processar a companhia alegando discriminação por serem homens brancos conservadores. ”As demissões foram uma busca por coerência. Se você capacitou as pessoas, treinou, mostrou o que é certo, não pode tolerar esse tipo de coisa”, diz Ricardo. “É diferente de uma censura, que é o que os ex-funcionários estão alegando que aconteceu.”

A CULPA É DE QUEM?

Quando problemas como esses ocorrem, sempre é mais fácil culpar o RH. No caso da Sales force, um funcionário entrevistado por VOCÉ S/A que pediu para não ser identificado afirmou que não houve um direcionamento explícito sobre qual tipo de fantasia seria permitida e cabia ao departamento colocar os limites. Mas esse é mesmo o papel da área de gestão de pessoas?

“O RH não tem como distribuir bom senso. Talvez ele tenha falhado antes, na contratação do profissional ou ao não trabalhar a cultura, mas não é o culpado direto pelo ocorrido”, diz Leni Hidalgo, professora de gestão e liderança no Insper, de São Paulo. Para minimizar os riscos, a solução proposta por Arthur Diniz, sócio e CEO da consultoria de recursos humanos Crescimentum, é deixar explícito o que é ou não permitido. ”Quanto mais claro for o código de conduta, mais fácil será andar na linha’, diz Arthur. “Mas também não adianta ter um documento de 300 páginas ao qual ninguém tem acesso. Precisa ser algo simples, fácil de ser interpretado e de ser colocado em prática.”

No entanto, ter só um calhamaço de regras não basta. É preciso que a liderança dê o exemplo e siga à risco que a companhia prega – algo que na Sales force do Brasil, não parecia ocorrer no departamento comercial “Se a alta liderança não dá o tom da conduta interno, não adianta nada um conjunto de regras”, diz Alexandre Marins, diretor de desenvolvimento de talentos da consultoria LHH América Latina. A eles, cabe a rotina de cuidar, todos os dias, dos valores éticos da empresa. Se, por exemplo o funcionário vai a uma palestra de 2 horas sobre diversidade e fica recebendo mensagens de cobrança do chefe, o empregado entende que o debate foi perda de tempo. Mas, se perguntar o que o subordinado aprendeu com o evento, o gestor mostrará que aquele tema realmente importa.

CUIDADOS COM A REPUTAÇÃO

As companhias, com razão, estão preocupadas com ativos intangíveis. E a reputação é um deles. Ela está nas mãos dos funcionários que se manifestam, inclusive de maneira equivocada. ‘”Procuramos ter na vida corporativa a fronteira entre a identidade pessoal e a profissional, mas, com as mídias sociais, as fronteiras são cinzas”, diz Roberta Campos, coordenadora do programa de mestrado em administração do Coppead, da UFRJ. O que há em comum entre todos esses casos, além da falta de habilidade política para entender que seus atos e falas têm consequências maiores do que se imagina, é a dificuldade em cuidar da própria reputação profissional. E, para isso, é preciso desenvolver uma competência importante: a leitura do ambiente. Comece observando tudo, desde a maneira como as pessoas se cumprimentam até a forma de começar uma reunião, os móveis, as salas da diretoria e da presidência (ou a inexistência delas). O segundo passo é perceber como as pessoas se comunicam com os clientes e entre elas: há encontros nos fins de semana, ou as relações são estritamente profissionais? Analisar esses aspectos ajuda a entender corno as coisas funcionam ali. Além disso, abra-se para conviver e conversar com pessoas que não estão tão próximas a você. Entrar em contato com novas visões é uma forma de trabalhar a habilidade política e não escorregar na falsa ideia de que a liberdade para ser quem você é seria uma chancela de autorização para comportamentos antiéticos e, no limite, criminosos. “Se você faz uma piada, mas alguém a achou ofensiva ou se sentiu desconfortável – mesmo que não tenha dito nada e tenha ficado só uma sensação, considere a posição do ofendido antes de partir para a autodefesa”, diz Leni. “Ninguém está livre de fazer um comentário estúpido. Só que você tem de saber que o que falar vai ter um impacto, afirma Leni.

 ninguém está livre também de ter preconceitos. A questão é a maneira como lidamos com nossos vieses – sejam eles inconscientes ou não. Para tanto, existem algumas ferramentas, como pedir (e ouvir) feedbacks de colegas, amigos e familiares. É um processo que exige maturidade, humildade e a compreensão de que nenhum de nós é dono da verdade.

Desenvolver essa consciência é urgente para se tornar uma pessoa mais autoconsciente e, também, para navegar no mercado de trabalho, que, cada vez mais, exige comportamentos éticos. “Existe a valorização da diversidade e é politicamente esperado que todos entrem nessa onda. Por isso, é importante saber onde se está pisando antes de falar ou de vestir uma fantasia”, diz Bia Nóbrega, coach, de São Paulo. Isso não quer dizer que as pessoas não possam expressar suas ideias, mesmo que elas causem polêmica. O importante é refletir sobre o que será dito – o que costuma tornar as discussões mais profundas e maduras. A liberdade de expressão deve existir, sim, mas, como quase tudo na vida, precisa ser usada com sabedoria e, claro, moderação.

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Fonte: Revista Você SA – Edição 237

ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 17:22,23

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Os Sofrimentos de Cristo São Preditos

Aqui Cristo prediz os seus próprios sofrimentos. Ele havia começado a fazer isso antes (cap. 16.21) e, entendendo que para os seus discípulos tinham sido palavras duras, Ele achou necessário repeti-las aqui. Há algumas coisas que Deus fala uma vez, às vezes duas, e ainda assim o homem não se dá conta delas. Observe aqui:

1.O que Jesus predisse a seu respeito: que Ele seria traído e morto. Ele sabia perfeitamente, de antemão, todas as coisas que lhe iriam acontecer, e ainda assim empreendeu a obra da nossa redenção, o que glorifica imensamente o seu amor: A sua clara previsão dessas coisas era um tipo de paixão antecipada; o seu amor pela humanidade tornava tudo mais fácil para Ele.

(1). Jesus diz aos discípulos que Ele seria “entregue nas mãos dos homens”. Ele seria entregue (e assim podemos interpretar que Deus Pai o entregou pelo seu conselho e conhecimento prévio (Atos 2.23; Romanos 8.32); mas, da maneira como nós interpretamos, isto se refere à traição de Judas, que o entregou às mãos dos sacerdotes, e à traição deles, os quais, por sua vez, entregaram-no aos romanos. Ele foi “entregue nas mãos dos homens”; homens dos quais Ele era aliado por natureza, e de quem, portanto, Ele deveria poder esperar piedade e carinho; homens que Ele tinha decidido salvar, e de quem, portanto, Ele deveria poder esperar honra e gratidão; mas esses eram os seus perseguidores e assassinos.

(2). Eles o matariam. Nada menos do que isso poderia satisfazer a ira deles. Era o seu sangue, o seu sangue precioso, que eles queriam; tinham sede desse sangue. “Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo”. Nada menos poderia satisfazer à justiça de Deus e corresponder à sua missão. Uma vez que Ele devia ser um sacrifício de expiação, Ele precisava ser morto: “Sem derramamento de sangue não há remissão”.

(3). El e ressuscitaria ao “terceiro dia”. Ainda, ao falar da sua morte, Jesus dava uma ideia da sua ressurreição, da alegria que estava posta diante dele, e foi com essa perspectiva que Ele “suportou a cruz e desprezou a afronta”. Isso era um incentivo, não somente para Ele, mas também para os discípulos. Pois se Ele ressuscitaria no terceiro dia, a sua separação deles não seria longa, e o seu retorno para junto deles seria glorioso.

2.Como os discípulos receberam essas informações: “Eles se entristeceram muito”. Aqui se exibia o amor dos discípulos pelo seu Mestre, mas juntamente com toda a sua ignorância e os seus enganos a respeito da sua missão. Na verdade, Pedro não disse nada contra isso, como havia dito antes (cap. 16.22), tendo, naquela ocasião, sido severamente repreendido pelo Senhor. Mas ele e os demais discípulos lamentaram profundamente; como se a tristeza do seu Mestre e o pecado e a destruição daqueles assassinos fossem uma perda pessoal para cada um deles.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

SINCRONIA NA DOR

Sincronia na dor

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade do Colorado Boulder (EUA) e da Universidade de Haifa, Israel, descobriu que a empatia de um parceiro num momento de dor física, manifestada por meio de toque físico (mãos dadas), reconforta a mulher e melhora o sintoma. O fenômeno seria promovido por uma sincronia de ondas cerebrais que ocorre entre o casal nesse momento – e quanto mais sincronizam, mais a dor diminui e tende a desaparecer.

Ao todo, 22 casais heterossexuais, de 23 a 32 anos, foram selecionados como voluntários da pesquisa. Trata-se de parceiros que estiveram juntos por pelo menos um ano, que foram solicitados a se expor em diversos cenários, que envolviam algum ou nenhum toque físico entre eles. Tais situações se repetiram com a parceira sofrendo algum estímulo doloroso. As atividades cerebrais dos casais foram medidas por eletroencefalografia (EEG).

Entre os casais, somente em presença um do outro, com ou sem toque, houve alguma sincronia de ondas cerebrais na banda alfa mu, um comprimento de onda associado à atenção dirigida. Quando eles mantinham as mãos dadas enquanto a parceira sentia dor, a sincronia mostrava-se mais intensa. No momento de dor, a ausência do toque do parceiro também foi associada a menor sincronia de ondas cerebrais.

O mecanismo cessador ativado no experimento ainda não foi decifrado, sendo evidente apenas a relação causa-efeito entre os fenômenos. Os pesquisadores também alertam para o fato de que esses resultados podem variar entre casais de natureza homossexual, sendo necessários outros experimentos para averiguá-los. O mesmo vale para um experimento em que o homem seja o voluntário a receber estímulos dolorosos e a empatia da parceira.

OUTROS OLHARES

AVATAR DO CÂNCER

Médicos recriam, em animais, os tumores dos pacientes. O modelo é usado para testar os remédios mais eficazes para cada caso

Avatar do câncer

Uma experiência pioneira no Brasil está sendo conduzida no Hospital A e Camargo Câncer Center, em São Paulo. Lá, pacientes começam a ter adicionado ao tratamento um recurso que vem sendo chamado de “avatar do câncer”. Uma amostra do tumor de cada um é reproduzida e cresce implantada em um camundongo, sob a pele ou no órgão correspondente do animal. funcionando como um espelho da doença. Em casos difíceis, a estratégia é valiosa. Por meio dela, os médicos podem experimentar contra aquele tumor específico remédios que podem ser mais eficazes e observar seu comportamento, inclusive agressividade, mas de forma que o corpo do paciente fique preservado de eventuais prejuízos que as tentativas possam trazer.

A aplicação clínica no A e Camargo começou há cerca de um ano e meio, em pacientes com tumores tradicionalmente mais agressivos, como melanoma (tipo de câncer de pele) e algumas variedades de tumor de rim.  “O trabalho é inicial, mas os resultados são muito interessantes”, afirma a médica Vilma Regina Martins, superintendente de pesquisas da instituição, referência no combate à enfermidade no País.

O que anima os médicos são especialmente as respostas que podem ser observadas em relação aos medicamentos. No avatar são testadas medicações novas, em geral com tempo de uso mundial insuficiente para conclusões definitivas sobre sua eficácia de maneira generalizada. Além disso, em muitos casos esses remédios funcionam muito bem para um paciente, mas não dão resultado, ou pelo menos não tão bons, para outro, apesar de o tipo de tumor ser o mesmo. “Os minis tumores fazem parte da oncologia de precisão. Quanto mais personalizado o tratamento, melhor”, explica Luiz Henrique Araújo, pesquisador do Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro. Em trabalho recente, o médico George Vlachoginannis, do Instituto de Pesquisa do Câncer, de Londres, atestou a eficácia do recurso. “Os modelos em animais funcionam como o tumor do humano. Por isso, são muito eficientes para que possamos estimar as reações dos pacientes”, disse.

ESPELHO PERFEITO

Como são feitas as amostras

  • São extraídas células do tumor do paciente
  • São injetadas em camundongos, de preferência no órgão correspondente ao atingido no paciente.
  • Após um período variável, o animal desenvolve tecido tumoral bastante semelhante ao registrado no doente.