OUTROS OLHARES

DE OLHOS BEM ABERTOS

Mais explícita e gratuita do que nunca, está em celulares, tablets, computadores, canais fechados; é compartilhada – até no pátio da escola – por jovens, pré-adolescentes e, comprovadamente, crianças. Pornografia: por que nossas escolas ainda não tratam do tema nas aulas e projetos de educação sexual?

De olhos bem abertos

Arkangel (Arcanjo), dirigido por Jodie Foster, está entre os episódios preferidos de críticos e fãs da série Black Mirror, exibida pelo Netflix. Nele, uma mãe preocupada de forma paranoica com segurança monitora passos, movimentos e atitudes de sua filha Sara, desde a infância, por um sistema que conecta o olhar da menina a um tablet e a um computador. Em um ponto do capítulo, no jardim da escola, um amigo de Sara – que mais tarde viria a namorá-la – mostra à protagonista, pelo celular, vídeos de guerra, execuções de cunho religioso e, por fim, um filme pornô. Um pouco mais à frente, os dois adolescentes se encontram para a primeira experiência sexual (e afetiva) da moça. E aí vem a surpresa: espantado com o empenho da moça em reproduzir (com atos e palavras) o que para ela tinha sido a única referência de sexo, o rapaz revela todo o seu espanto e não o esconde da amada. “Essa não é sua primeira vez, fale a verdade… Não é possível… Pelas coisas que você fez e disse, isso não pode ser possível…·, questiona o rapaz. Diante da confirmação de Sara de que se tratava mesmo de seu début, ele não se constrange em pedir: “então você não fale mais aquelas coisas… não deve dizer aquelas coisas, aquelas baixarias…”.

As duas sequências didáticas de Arkangel colocam em pauta, ao mesmo tempo, uma ironia reveladora e um descompasso no mínimo preocupante. O fato de o rapaz se assustar com a postura “pornográfica” de Sara, mimetizada justamente das cenas do filme apresentado por ele tempos atrás é obra de ironia suprema do destino. E o descompasso se revela numa questão claramente proposta pelas cenas: por que o conteúdo e os temas ligados à pornografia, consumidos em todo lugar e a todo tempo por milhões de adolescentes, meninos e meninas, em seus celulares, tablets, computadores, nas tevês abertas e fechadas, nas letras dos funks proibidões, produzidos, a propósito, de jovens para jovens, ainda não são trabalhados no Brasil, de forma didática e pedagógica, por escolas, educadores e responsáveis pelas políticas educacionais? Por que esses temas não são incluídos nas aulas de educação sexual dos adolescentes?

A questão é procedente diante de uma realidade impossível de ser negada e, mais ainda, evitada: a pornografia, com o que tem de fictícia, caricata, real, negativa e, eventualmente, até positiva, é consumida hoje em grande escala por pré-adolescentes, adolescentes e jovens no Brasil e no mundo. O acesso é livre e gratuito em todas as suas formas, origens e intensidades. Na suprema maioria dos casos, esse cardápio variado de aeróbica sexual de alto impacto é exercitado por duplas ou em coletividade, não raro sem qualquer proteção.

E, como se ainda fosse pouco, esse conteúdo é reiterado por edições sucessivas que sugerem humanos dotados de capacidade de protagonizar jornadas sexuais intermináveis, mirabolantes, no limite do inumano. E quase sempre colocado à disposição dos adolescentes antes mesmo da primeira experiência sexual – ou mesmo de qualquer orientação sobre como isso ocorre no plano das relações afetivas reais. “A área frontal do cérebro, relacionada à recompensa, às satisfações e ao prazer, desenvolve se antes do que as posteriores, ligadas à administração dessas pulsões, explica a psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, livre-docente, professora e coordenadora do Programa de Estudos da Sexualidade da USP. “Se essas questões são estimuladas ainda antes de um trabalho de orientação sobre o assunto, as chances de o adolescente enfrentar problemas relacionados à sexualidade são reais”, completa a pesquisadora.

O problema criado por esse descompasso – e que merece ser discutido na educação sexual nas escolas – é a alta chance de geração de prejuízos psicológicos, educacionais e deformação incalculáveis, como ressalta a pesquisadora Carmita. Se um menino de 12, 13 14 ou 15 anos entra em contato com material desse calibre, antes mesmo de submetido a qualquer projeto de educação sexual, há chance de ele achar normal, por exemplo, bater na parceira e humilhá-la durante o ato sexual sem que ela mostre, em momento algum, qualquer desejo de ser agredida. Esse mesmo adolescente poderá ser levado a crer que, por exemplo, aquele é o comportamento padrão, natural ou desejável, cabendo a ele adotar ou aceitar o que, na verdade, é uma representação calculadamente perversa para a maioria das pessoas. Pelos mesmos caminhos, o garoto pode deixar de considerar importante o uso da camisinha após ver cenas de sexo coletivo sem preservativos.

No caso das meninas, diante da situação regular de extrema submissão a que são colocadas as mulheres nessas peças, o problema certamente torna-se ainda mais grave. De onde virá a base para que uma adolescente ou jovem se situe entre o que deseja e aquele simulacro de opressão, roteirizado como se fosse muitas vezes consentido, no clima da imaturidade e da anestesia das primeiras paixões ao companheiro de primeiras viagens sensuais igualmente imaturo?

Situações como essas preocupam Alexandre Saadeh, mestre e doutor em Ciências da Psiquiatria, professor de Psicologia da PUC-SP e coordenador do Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual (Amtigos) do Instituto de Psiquiatria da USP. ‘Não faz mais sentido as escolas e educadores ignorarem o contato de adolescentes e jovens com a pornografia. E, pior ainda, não terem um discurso preparado e assumido para lidar com isso. É fundamental o adolescente ser informado, no primeiro momento em que puder refletir sobre o tema, de que o conteúdo exibido em filmes pornôs é obra de ficção. Uma ficção distorcida e amplificada, idealizada para consumo –  ou divertimento e lazer, se assim preferem – de adultos, mas sem qualquer compromisso de formar ou educar”, define Saadeh, que foi consultor da série, Quem Sou Eu, do Fantástico, da Rede Globo, sobre crianças e adolescentes transgêneros.

“Os órgãos genitais imensos, as várias relações sexuais entre as mesmas pessoas filmadas e editadas para dar a sensação de vigor interminável dos parceiros, o descompromisso com o uso de preservativo, algo ainda majoritário nas produções. Enfim, um conjunto de elementos que, antes de tudo, gera questionamentos e dificuldades que podem criar problemas sérios a partir do momento em que os jovens passam a comparar, ainda que apenas para si, as dimensões e a suposta performance sexual dos atores com a sua, a da vida real. Por tudo isso, a adoção do tema é necessária’, completa o psiquiatra.

Para além de todos os desejos e expectativas de educadores e pais, o fato é que esses traumas ou “doenças” da inadequação já produzem transtornos, ou no mínimo mudanças, bastante consideráveis entre os adolescentes. Por isso, é importante pretender que a educação sexual nas escolas –  que, quando existente, limita-se quase sempre a orientar apenas para prevenção da gravidez precoce e doenças sexualmente transmissíveis – inclua a orientação sobre comportamento sexual, considerando a realidade de exposição e consumo dos adolescentes. Essa realidade passa inevitavelmente pelos temas relacionados à Pornografia.

A polêmica não mobiliza educadores e pais apenas no Brasil. Semanas atrás, a The New York Times Magazine, revista do mais respeitado jornal do mundo, o The New York Times, publicou uma extensa reportagem de capa sobre o assunto com o título What Teenagers are Learning from online porn (O que os adolescentes estão aprendendo com a pornografia on-line), assinada pela jornalista e escritora Maggie Jones. O texto apresenta resultados de uma pesquisa de fôlego sobre o tema, liderada, na universidade americana de Indiana, pelos pesquisadores Bryant Paul, do departamento de mídia, e Debby Herbenick, da escola de saúde pública. E traz de talhes de um projeto pioneiro, o Boston Porn Literacy, idealizado pela pesquisadora Emily Rothman, do departamento de saúde pública da Universidade de Boston. O programa prepara educadores para formar professores e debater temas ligados à pornografia nas aulas de educação sexual em escolas de regiões pobres da periferia de Boston.

Alguns resultados da pesquisa liderada por Paul acendem o sinal de alerta. Antes de citar alguns deles, a autora do texto da NYTM descreve uma situação hipotética, mas com chances plenas de acontecer com milhões de jovens, neste ou a qualquer momento, no Brasil e em vários pontos do mundo. “Imagine um adolescente atual com 14 anos. Um amigo mostra-lhe um clipe de pornografia curto, no celular, durante o trajeto de ônibus para a escola ou após o futebol. Um GIF pornográfico aparece no Snapchat”, escreve Maggie, que também cita outras cenas mais pesadas. E acrescenta: “Como a maioria dos garotos de 14 anos, ele ainda não teve relações sexuais, mas é um menino curioso, então talvez comece a mergulhar em um dos muitos sites pornográficos livres que funcionam bem:  XVideos.com, Xnxx.com, Bongacams.com, todos entre os cem mais frequentados do mundo. Ou cai no Pornhub, o mais popular deles, com 80 milhões de visitantes por dia, tráfego maior do que o de gigantes como Pinterest, Tumblr ou PayPal. Como a maioria desses portais não verifica a idade do internauta – ou simplesmente pergunta sobre ela sem o menor mecanismo de controle -, milhões de celulares, notebooks e máquinas permitem que esses adolescentes acompanhem pornografia, a todo momento, longe dos olhos dos adultos”. Nada muito estranho para quem acompanha a realidade. De acordo com a pesquisa da equipe de Paul e Debby Herbenick, os meninos têm seu primeiro contato com a pornografia aos 13 anos, e as meninas, aos 14. Metade dos pais entrevistados acreditava que seus filhos não tiveram qualquer acesso a conteúdo pornográfico entre os 14 e os 18 anos. E, em casos de ações sexuais mais “radicais”, fora dos supostos padrões, os pais subestimaram ou Ignoraram o que seus filhos estavam assistindo por, no mínimo, dez vezes.

Está longe de ser tudo. Prepare-se, leitor, pois esse parágrafo não tem como fugir de descrições que podem causar desconforto – não é um tema fácil. Um quarto das meninas e 36 % dos meninos ouvidos admitiram ter visto vídeos pornôs de “faciais’, ou seja, com ejaculações no rosto das mulheres. Praticamente um terço deles e delas tinha acompanhado cenas de Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo, o BDSM. Vinte por cento das mulheres e 26% dos homens tinham contato regular com vídeos de dupla penetração, descritos pelos jovens no estudo, conta a NYTM, como um ou mais pênis ou objetos introduzidos no ânus ou na vagina de uma mulher’. Um em cada três meninos e metade dessa quantidade de meninas disseram ter assistido a vídeos de gang- bang (sexo grupal) e de rough oral sex, algo como sexo oral áspero ou rude.

Ainda não há pesquisas e estudos acadêmicos que apontem, com segurança, o quanto disso se transforma ou não, para o bem ou para o mal, em comportamento. Trabalhos menos recentes levaram à conclusão de que o número de adolescentes que consumiam altas taxas de pornografia e adotaram estereótipos de gênero, ou tornaram-se menos carinhosos do que seus pares, não era estatisticamente preocupante. Tudo poderia ser questão de mera correlação, e não de causa e efeito. Em todo caso, os resultados da pesquisa liderada por Bryant Paul e Debby Herbenick, aliados a dados reunidos pela NYTM, sugerem que o formato e o tipo de sexo praticado por adolescentes e jovens estão, no mínimo, em mudança nos últimos anos. Outra pesquisa, uma das maiores sobre sexualidade realizadas nos Estados Unidos, feita também com a colaboração de Debby Herbenick, publicada no The Journal of Sexual Medicine, revela que a porcentagem de mulheres americanas de 18 a 24 anos que fizeram sexo anal mais do que dobrou entre 1992 e 2009, passando de 16% para 40%. Entre as mais novas, uma em cada cinco, entre 18 e19 anos, e seis por cento das entrevistadas de 14 a 17 também admitiram a experiência.

 Um trabalho desenvolvido na Suécia, em 2016, com 400 meninas, exibiu outro detalhe interessante: o número de moças da amostra que haviam entrado em contato com pornografia e feito sexo anal era maior que o dobro das que jamais tinham consumido informação sobre o tema. E outro, realizado também com jovens, pela Universidade de New Hampshire, atesta que 93% dos homens e 62% das mulheres declararam ter assistido a pornografia antes dos 18 anos – 35% dos meninos no mínimo dez vezes durante a adolescência. Os próximos estudos darão subsídios para afirmar se esses dados adicionais recebem influência direta do consumo de conteúdo pornográfico pela juventude ou são frutos de simples curiosidade juvenil. Ou até mesmo uma alternativa segura de sexo escolhida diante do risco de gravidez precoce, uma das alternativas levantadas pela NYFM.

Se a pornografia na vida de adolescentes e jovens é um fato real, e cada vez mais intenso, e se a sua presença precoce nesse cotidiano evidencia o descompasso entre o que os estudantes aprendem sobre sexo dentro e fora da escola, quais os principais desafios a serem enfrentados por escolas e educadores na tarefa de diminuir essa diferença?

Na avaliação da pedagoga Maria Ângela Barbato Carneiro, professora titular e diretora do Núcleo de Cultura e Pesquisas do Brincar da PUC-SP, o trabalho deve começar com o envolvimento dos pais. “Num país em que, muitas vezes, os educadores encontram dificuldades até mesmo para abolir símbolos elementares e prosaicos de gênero, como o rosa para meninas e o azul para os meninos, precisamos reconhecer: apontar caminhos para a solução de questões polêmicas como essa é tarefa difícil,” pondera a educadora.

“Mas nenhum passo importante nesse tema será dado sem que os pais entendam que, para além de conceitos, formações, resistências, padrões morais e crenças religiosas de cada um, a realidade radiografada pelos pesquisadores da Universidade de Indiana, e detalhada na reportagem da NYTM, se impõe a cada dia – e isso vem ocorrendo há anos. É fato. E, diante dele, há um início de trabalho: os pais caminharem juntos – e quem achar que não é o caso, que escolha outra escola e não prejudique a trajetória dos outros”, reforça a pedagoga.

A proposta de Maria Ângela remete a um outro foco de resistência, este talvez tão difícil de ser superado quanto a previsível contrariedade de boa parte dos pais e familiares: a dificuldade de convencer os líderes de escolas, sobretudo no campo privado, a cutucar esse vespeiro, diante da necessidade de tocarem pontos capazes de gerar contrariedade em parte considerável de quem financia o seu rebanho. “Não haverá interesse em aprimorar a questão em boa parte das escolas privadas brasileiras, sobretudo as que privilegiam claramente, antes da boa educação, a disputa com outras para conquistar vagas nas universidades -, e claro, os rendimentos financeiros e de marketing que isso gera”, avalia a psicóloga e psicanalista Ana Olmos, uma das mais influentes analistas do comportamento adolescente do país. “Afinal de contas, pais são também clientes nessa história, esse negócio não envolve pouco dinheiro e, em grande parte dos casos, contrariar, ou mesmo gerar um pequeno constrangimento em quem paga, ainda que em função de uma boa causa, pode ter como consequência a perda de aluno – e, obviamente, de receita.

“Mas escolas privadas com direcionamento consciente e formuladores de políticas para escolas públicas precisam assumir e iniciar esse trabalho com urgência, resume Ana. O que se cogita não é, evidentemente, transformar aulas e projetos de educação sexual nas escolas em programas de ensino de pornografia. É, antes de tudo, assumir a existência de um dado real, que cerca os adolescentes com intensidade e força cada vez maior, e, a partir desse estágio, criar os recursos para combater seus pontos negativos.

E essa discussão está apenas começando.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.