ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 19: 23-30

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A Recompensa dos Seguidores de Cristo

Temos aqui a conversa de Cristo com os seus discípulos a respeito da ruptura do relacionamento do jovem rico com Cristo.

 I – Cristo aproveitou esse acontecimento para mostrar a dificuldade da salvação dos ricos (vv. 23-26).

1. É muito difícil alguém rico como esse jovem alcançar o céu. Note que da decadência e iniquidade dos outros é bom inferirmos quais lições nos servem como alerta.

Vemos aqui que:

(1). Isso é veementemente declara­ do por nosso Salvador (vv. 23,24). Ele disse as palavras desses versículos para os seus discípulos, que eram pobres e possuíam pouco neste mundo, para reconciliá-los com a sua condição: quanto menos riquezas materiais eles tivessem, menores seriam os obstáculos que enfrentariam no caminho para o céu. Deveria ser motivo de contentamento para aqueles que estão em uma condição inferior o fato de não estarem expostos às tentações de uma condição melhor e mais próspera. Se eles, neste mundo, vivem em piores condições que os ricos, porém irão mais facilmente para um mundo melhor, não têm razões para reclamar. Essa afirmação é ratificada no versículo 23. “Em verdade vos digo”. Aquele que tem motivos sobejos para saber qual é o caminho para o céu, pois Ele o mostra, nos conta que essa é uma das maiores dificuldades no caminho para o céu. Ela é repetida no versículo 24: “E outra vez vos digo”. Assim Ele fala uma vez, ou melhor, duas vezes, que aquele que se nega a perceber, também se nega a acreditar.

[1]. Jesus disse que é difícil para um rico ser um bom cristão e ser salvo; entrar no Reino dos céus, seja aqui ou no mundo vindouro. O caminho para o céu é, para todos, um caminho apertado, e a porta que leva a ele é uma porta estreita; mas é particularmente assim para os ricos. O cumprimento de mais deveres é esperado mais deles que dos outros, porém eles não os conseguem cumprir. Da mesma forma, mais pecados os tentam, os quais eles mal podem evitar. Os ricos têm grandes tentações a enfrentar, e, como tais, elas são muito insinuantes; é difícil não se encantar com um mundo sorridente. É muito difícil, quando estamos cheios desses tesouros ocultos, não nos aproximarmos deles para experimentá-los. Os ricos têm muitas compensações através de seus bens, de seus ganhos, de seu tempo e de suas oportunidades de fazer o bem e de ficarem bem; muito mais do que os outros. É uma grande indicação da graça divina que um homem seja capaz de abrir caminho através dessas dificuldades.

[2]. Jesus disse que a conversão e a salvação de um rico é tão extremamente difícil, “que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha” (v. 24). Essa é uma expressão proverbial, denotando uma dificuldade totalmente instransponível pela arte e força do homem; nada abaixo da onipotente graça de Deus possibilitará a um rico ultrapassar esse obstáculo. A dificuldade da salvação dos apóstatas (Hebreus 6.4) e de pecadores habituais (Jeremias 13.23) é por isso representada como uma impossibilidade. A salvação de qualquer deles é tão difícil (até mesmo os justos são salvos com dificuldade), que, onde houver um obstáculo singular, ele será adequadamente apresentado dessa mesma maneira. Ê muito raro um homem ser rico e não colocar o seu coração em suas riquezas; e é completamente impossível para um homem que coloca o seu coração em suas riquezas entrar no céu; pois “se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 João 2.15; Tiago 4.4). Em primeiro lugar, o caminho para o céu é muito corretamente comparado com o fundo de uma agulha, que é difícil de alcançar e difícil de atravessar. Em segundo lugar, um homem rico é adequadamente comparado a um camelo, um animal de carga, pois ele tem riquezas, assim como um camelo tem sua carga – ele a carrega, mas ela pertence a outro, ele a recebe de outros, gasta-a por outros e, em breve, deve deixá-la para outros; é um fardo, pois os homens carregam a si mesmos de dívidas (Habacuque 2.6). O camelo é uma criatura grande, mas de difícil manejo.

(2).  Essa verdade causa muita admiração, e os discípulos têm dificuldade para aceitá-la (v. 25): “Os seus discípulos, ouvindo isso, admiraram-se muito, dizendo: Quem poderá, pois, salvar-se?” Cristo lhes contou muitas verdades surpreendentes antes, com as quais eles ficaram surpresos, não sabendo o que fazer delas; essa era uma delas, mas a fraqueza deles era a causa de sua admiração. Não foi em oposição a Cristo, mas para sua própria conscientização, que eles disseram: “Quem poderá, pois, salvar-se?” Considerando os muitos obstáculos que existem no caminho da salvação, é, de fato, muito notável que alguém seja salvo. Quando pensamos em quão bom Deus é, pode parecer um mistério que tão poucos sejam seus; mas quando pensamos em quão mau o homem é, é um mistério maior que tantos sejam dele, e que Cristo será, eternamente, ad­ mirado neles. “Quem poderá, pois, salvar-se?”. Como há muitos ricos que têm muitas posses, e muitos mais pretendem se tornar ricos e são influenciados pelas grandes for­ tunas, quem pode ser salvo? Se as riquezas são um obstáculo para os ricos, será que as recompensas e o luxo não são grandes dificuldades para aqueles que não são ricos, tornando-se expectativas semelhantemente perigosas para eles? E quem, pois, pode chegar ao céu? Essa é uma boa razão pela qual os ricos devem lutar contra a corrente.

2. Embora seja difícil, ainda assim não é impossível ao rico ser salvo (v. 26). “Jesus, olhando para eles”, dirigiu-se a eles com irritação e os olhou com tristeza, para envergonhá-los por seu tolo pensamento sobre as vantagens que os ricos supostamente possuíam em se tratando de coisas espirituais. Ele os contemplava como homens que haviam ultrapassado esse obstáculo e que estavam em um claro caminho para o céu, e tanto mais por serem pobres neste mundo. Ele lhes disse: ”Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível”. Esta é, em geral, uma grande verdade: Deus é capaz de fazer aquilo que excede em muito todo o poder criado; nada é difícil demais para Ele (Genesis 18.14; Números 11.23). Quando os homens estão perdidos, Deus não está, pois, o seu poder é infinito e irresistível; no entanto, essa verdade é aplicada aqui:

(1).  Para a salvação de quem quer que seja. Quem poderá salvar-se? perguntam os discípulos. Por meio de algum poder humano, ninguém, diz Cristo. Para os homens isso é impossível: a sabedoria do homem logo será confundida em seus planos, e a força do homem ficará desnorteada quando se tratar de realizar a salvação de uma alma. Nenhuma criatura pode realizar em si mesma, ou em qualquer outra, a mudança que se faz necessária para a salvação de uma alma. Para os homens é impossível que uma corrente tão forte seja invertida, um coração tão duro seja abrandado, e uma vontade tão inflexível seja subjugada. Ê uma criação, é uma ressurreição, e para os homens isso é impossível; nunca poderá ser feito pela filosofia, medicina ou política; mas “para Deus todas as coisas são possíveis”. O princípio, o andamento e o aperfeiçoamento da obra da salvação dependem inteiramente do poder do Deus onipotente, para quem todas as coisas são possíveis. A fé é operada por esse poder (Efésios 1.19), e é mantida por ele (1 Pedro 1.5). A experiência de Jó com a convincente e humilhante graça de Deus fez com que ele a conhecesse mais do que a qualquer outra coisa: “Bem sei eu que tudo podes” (Jó 42.2).

[1]. Especialmente para a salvação dos ricos: é impossível para os homens que os ricos sejam salvos, mas, para Deus, até isso é possível; não que os ricos possam ser salvos em seu mundanismo, mas que eles podem ser salvos dele. A santificação e a salvação daqueles que são cercados pelas tentações deste mundo não são sem esperança; isso é possível e pode ser realizado pela autossuficiência da graça divina. E quando esses são levados ao céu, lá são monumentos eternos ao poder de Deus. Eu acredito que nessa palavra de Cristo haja um indício da misericórdia que Ele ainda tinha reservado para esse jovem, que havia agora se retirado com tristeza; não era impossível para Deus, todavia, recuperá-lo e conduzi-lo ao caminho certo.

 

II – Pedro aproveitou a ocasião para perguntar o que receberiam aqueles que aceitassem as condições recusadas pelo jovem que rompera com Cristo, como também aqueles que haviam deixado tudo para segui-lo (v. 27). Temos aqui as expectativas dos discípulos em relação a Cristo, e as suas promessas a eles.

1. Aqui temos as expectativas dos discípulos em relação a Cristo. Pedro, em nome dos demais, comunica que eles confiam nele e dependem dele, e entendem que alguma coisa importante substituirá aquilo que eles ha­ viam deixado por Ele: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos; que receberemos?” Cristo havia prometido ao jovem que, se ele vendesse tudo e viesse, e o seguisse, teria tesouros no céu; agora, Pedro deseja saber:

(1).  Se eles haviam cumprido suficientemente essas condições. Eles não haviam vendido tudo (pois muitos deles tinham esposa e família para cuidar), mas haviam deixado tudo; eles não entregaram tudo aos pobres, mas haviam renunciado a tudo que pudesse, de alguma forma, ser um obstáculo para que servissem a Cristo. Quando ouvimos quais são as características daqueles que serão salvos, compete a nós investigarmos se, pela graça, correspondemos a essas características. Aqui Pedro espera que, no que se refere ao escopo e ao objetivo principal da condição, eles a tivessem cumprido, pois Deus havia colocado neles um santo desprezo pelo mundo e pelas coisas visíveis, em comparação com Cristo e as coisas invisíveis; e não se pode definir nenhuma regra de como isso deve ser evidenciado, mas sim de acordo com a maneira como somos chamados.

Senhor, disse Pedro, “nós deixamos tudo”. Nada de valor, mas era tudo o que eles haviam deixado; um deles, por certo, havia deixado um posto na alfândega, mas Pedro e a maioria deles haviam deixado apenas alguns barcos e redes e os direitos relativos a um pequeno comércio de peixes; e ainda assim, observe como Pedro fala disso, como se fosse algo importante: “Eis que nós deixamos tudo”. Nós temos a tendência de dar grande valor aos nossos serviços e sofrimentos, gastos e perdas por Cristo, e a pensar que o tornamos nosso devedor. Entretanto, Cristo não os critica por isso. Embora fosse pouco o que eles houvessem deixado, ainda assim aquilo era tudo que tinham, como as duas moedas da viúva, e era tão querido para eles como se fosse algo maior. Por essa razão, Cristo apreciou que eles tivessem deixado o que tinham para segui-lo; pois Ele aceita o homem de acordo com o que esse tem.

(2). Se, por essa razão, eles podiam esperar receber aquele tesouro que o jovem terá, se vender tudo. Senhor, diz Pedro, que receberemos, nós que deixamos tudo? Todas as pessoas se interessam pelo que podem obter; e os seguidores de Cristo têm a permissão de considerar seus interesses verdadeiros e perguntar: “O que recebe­ remos?” Cristo olhou para o gozo que lhe estava proposto, e Moisés olhou para a recompensa que seria uma retribuição. Para esse fim, ela é colocada diante de nós, para que através de uma paciente persistência na prática do bem, possamos buscá-la. Cristo nos encoraja a perguntar o que receberemos ao deixar tudo para segui-lo, para que possamos ver que Ele não nos chamou para nos prejudicar, mas para que tenhamos um proveito incrivelmente grande. Como perguntaria a linguagem de uma fé obediente: “O que devemos fazer?”, levando em conta os mandamentos; assim, é próprio de uma fé esperançosa e confiante perguntar: “O que receberemos?”, levando em conta as promessas. Mas observe que os discípulos tinham, havia muito, deixado tudo para se engajarem no serviço a Cristo, e mesmo assim, até esse momento, nunca haviam perguntado: O que receberemos? Embora não houvesse perspectiva visível de vantagem nisso, eles tinham tanta certeza da bondade do Mestre, que sabiam que não sofreriam perdas por causa dele, e por isso lhe perguntaram de que maneira Ele os compensaria por suas perdas – eles vinham cuidando de sua vocação, e não perguntavam quais seriam as suas recompensas. Cristo é honrado quando confiamos nele e o servimos, e não devemos fazer barganhas com Ele. Agora que esse jovem se retirara da presença de Cristo para desfrutar as suas riquezas materiais, era hora de os discípulos pensarem a que deviam se dedicar, e no que deveriam confiar. Quando vemos o que outros conservam devido à sua hipocrisia e apostasia, é adequa­ do que consideremos o que esperamos obter através da graça, pela nossa sinceridade e constância, e não em troca delas, e então veremos mais razões para ter piedade deles do que para invejá-los.

2. Temos aqui as promessas de Cristo aos discípulos e a todos aqueles que trilham nos caminhos da fé e da obediência. Cristo desconsidera, sem dar a perceber, aquilo que havia de vaidade ou de vãs esperanças naquilo que Pedro disse, mas aproveita a ocasião para estabelecer o vínculo de uma promessa:

(1).  Para seus s8guidores imediatos (v. 28). Eles haviam enfatizado o seu respeito para com Ele, como os primeiros que o seguiram, e a eles o Senhor promete não apenas tesouros, mas glória no céu; e aqui eles têm uma concessão ou privilégio sobre isso, daquele que é a fonte da glória naquele reino: “Vós, que me seguistes… na regeneração … vos assentareis sobre doze tronos”. Observe:

[1]. O preâmbulo ao privilégio ou ao exame da concessão, que, como de costume, é um relato dos serviços deles: “Vós, que me seguistes… na regeneração”; por­ tanto, eu farei isso por vós. A época do aparecimento de Cristo no mundo era um tempo de regeneração, de correção (Hebreus 9.10), quando as coisas antigas começavam a se extinguir, e as coisas novas começavam a surgir. Os discípulos haviam seguido a Cristo quando a igreja ainda estava no estágio embrionário, quando o templo do Evangelho não tinha mais do que colunas, quando tinham mais do trabalho e ocupação de apóstolos do que da dignidade e do poder que pertenciam ao seu cargo. Agora eles seguiam a Cristo, com cansaço permanente, quando poucos o faziam; e por isso, sobre eles, Ele colo­ cará sinais especiais de glória. Cristo demonstra um favor especial por aqueles que lhe entregam a sua vida desde cedo, que confiam nele mesmo sem vê-lo, como fizeram aqueles que o seguiram na regeneração. Pedro falou que eles haviam deixado tudo para segui-lo – Cristo fala somente da atitude de seguirem-no, que era o assunto principal.

[2]. O dia de sua honra, que define a hora inicial. Não imediatamente após aqueles dias. Não. Eles devem permanecer por algum tempo na obscuridade, como estavam. Mas quando “o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória”; e a isso alguns se referem como: ” na regeneração”: “Vocês, que agora me seguiram, serão, na regeneração, dignificados dessa maneira”. A segunda vinda de Cristo será uma regeneração, pois haverá no­ vos céus e uma nova terra, bem como a restauração de todas as coisas. Todos aqueles que tiverem parte na regeneração e na graça (João 3.3) terão parte na regeneração que ocorrerá em glória; pois assim como a graça é a primeira ressurreição (Apocalipse 20.6), a glória é a segunda regeneração.

O fato de a glória deles ser adiada até que o Filho do Homem se assente no trono de sua glória implica, em primeiro lugar, que eles devem aguardar pelo seu desenvolvimento. Assim como a glória de nosso Mestre é postergada, é adequado que a nossa também o seja e que devamos esperar por ela com fervorosa expectativa, como a de uma esperança invisível (Romanos 8.19). Devemos viver, trabalhar, e padecer na fé, na esperança, e na paciência, que consequentemente serão testadas por esse período de espera. Em segundo lugar, que eles devem compartilhar os resultados do avanço da obra de Cristo – a glória deles deve ser uma comunhão com Ele em sua glória. Eles, tendo sofrido com um Jesus sofredor, devem reinar com um Jesus vencedor pois agora e no mundo futuro, Cristo será tudo em todos; estaremos onde Ele estiver (João 12 .26), nos manifestaremos com Ele (Colossenses 3.4); e essa será uma recompensa abundante não apenas por nossa perda, mas pelo adiamento; e quando o nosso Senhor vier, receberem os não apenas o que é nosso, mas o que é nosso com juros. As viagens mais longas trazem os maiores retornos.

[3).  A própria glória aqui assegurada: “Vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel”. É difícil determinar o sentido específico dessa promessa, e se ela não deveria ser cumprida muitas vezes (o que não vejo problema em admitir). Em primeiro lugar, quando Cristo for elevado à mão direita do Pai e se sentar no trono de sua glória, então os após tolos receberão o poder do Espírito Santo (Atos 1.8); serão tão aperfeiçoados em relação à sua condição atual, que pensarão estar assentados sobre tronos, na promoção do evangelho. Eles o comunicarão com autoridade, como um juiz a partir da tribuna; eles terão seus poderes aumentados e anunciarão as leis de Cristo, pelas quais a Igreja, o Israel espiritual de Deus (Gálatas 6.16), será governado, e o Israel segundo a carne, que se mantiver na infidelidade, com todos os outros que assim o fizerem, será condenado. A glória e o poder que lhes são conferidos podem ser explicados através de Jeremias 1.10: “Ponho-te neste dia sobre as nações e sobre os reinos”; Ezequiel 20.4: “Julgá-los-ias tu?”; Daniel 7.18: “Os santos receberão o reino”; e Apocalipse 12.1, onde a doutrina de Cristo é chamada de “uma coroa de doze estrelas”. Em segundo lugar, quando Cristo surgir para a destruição de Jerusalém (cap. 24.31), então Ele enviará os apóstolos para julgar a nação dos judeus, pois nessa destruição, as previsões deles, de acordo com a Palavra de Cristo, se cumprirão. Em terceiro lugar, alguns pensam que isso se refere à conversão dos judeus, que ainda está para acontecer, no fim do mundo, após a queda do Anticristo; assim pensa o Dr. Whitby, e que “isso diz respeito à autoridade dos apóstolos ou às doze tribos de Israel, não pela ressurreição de seus corpos, mas por uma revivificação do Espírito que neles residia, e da pureza e do conhecimento que eles comunicaram ao mundo, e, principalmente, pela confissão do seu Evangelho, como a base da sua fé e do rumo de suas vidas”. Em quarto lugar, é certo o seu cumprimento total na segunda vinda de Cristo, quando os santos em geral e os doze apóstolos, especialmente, como assessores de Cristo, julgarão o mundo por ocasião do “juízo daquele grande Dia”, quando o mundo todo receberá a sua sentença final e os apóstolos ratificarão e aplaudirão a sentença. Mas as tribos de Israel são citadas, em parte, porque o número de apóstolos era designado pelo mesmo número de tribos; e em parte porque os apóstolos eram judeus, o que deveria trazer algum grau de amizade. Porém, embora os apóstolos mencionassem então os judeus, eram perseguidos por estes de uma forma implacável. Isso dá a entender que os santos julgarão os seus conhecidos e familiares segundo a carne e, no Grande Dia, julgarão aqueles com quem tinham amizade; eles julgarão os seus perseguido­ res, aqueles que os julgaram neste mundo.

Mas o propósito geral dessa promessa é mostrar a glória e a dignidade que estão reservadas aos santos no céu, o que será uma abundante recompensa pela desonra que sofreram aqui pela causa de Cristo. Há maiores graus de glória para aqueles que mais realizaram e sofreram. Os apóstolos, neste mundo, eram perseguidos e torturados, lá eles se sentarão para descansar e relaxar; aqui obrigações, angústias e mortes habitavam neles, mas lá eles se sentarão em tronos de glória; aqui eles eram arrastados aos tribunais, lá eles serão promovidos a juízes; aqui as doze tribos de Israel os espezinhavam, lá elas estremecerão diante deles. E isso não será uma recompensa suficiente para compensar as suas perdas e gastos por amor a Cristo? (Lucas 22.29).

[4].  A ratificação desse privilégio. Ele é permanente, é inviolável e imutavelmente garantido, pois Cristo disse, em outras palavras: “Em verdade vos digo: Eu sou ‘o Amém, a testemunha fiel e verdadeira’, que tem o poder de dar este privilégio; Eu o disse, e isto não pode ser revogado”.

(2).  Aqui está uma promessa para todos aqueles que queiram, de maneira semelhante, deixar tudo para seguir a Cristo. Não era peculiar aos apóstolos ter essa preferência, mas “essa honra, tê-la-ão todos os santos”. Cristo cuidará para que nenhum deles saia perdendo por causa dele (v. 29): “Todo aquele que tiver deixado” alguma coisa por causa de Cristo, receberá muitas vezes mais.

[1].  Perdas por causa de Cristo são admitidas aqui. Cristo havia dito aos discípulos que o seguiam que eles deviam negar a si mesmos em tudo que lhes fosse feito neste mundo; agora, Ele entra em detalhes, pois é bom estar preparado para o pior. Mesmo que eles não tivessem deixado tudo, como fizeram os apóstolos, ainda assim haviam deixado muitas coisas, incluindo, possivelmente, suas casas e seu trabalho, para peregrinar pelos desertos. Esses discípulos também podem ter deixado os seus entes queridos que não desejavam acompanhá-los, seguindo a Cristo. Estes são especialmente citados como os mais difíceis de deixar de lado, especialmente para as pessoas que têm um espírito sensível e delicado: “irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos”. As posses materiais como as “terras” são acrescentadas na conclusão; os rendimentos da terra eram a fonte do sustento da família.

Em primeiro lugar, aqui se presume que a perda dessas coisas ocorre pelo amor ao nome de Cristo; caso contrário, Ele não se obrigaria a compensá-la. Muitos deixam irmãos, esposa e filhos em busca de glórias e paixões, como a “ave que vagueia longe do seu ninho”; este é um abandono pecaminoso. Mas se os deixamos por amor a Cristo, porque não podemos ficar com eles e manter a consciência limpa, nós devemos deixá-los ou desistir de nossa afeição por Cristo. Não devemos, e nem podemos abandonar a preocupação que sentimos por eles, ou as nossas obrigações para com eles, mas o consolo que temos neles. E faremos isso em vez de negar a Cristo, mantendo em vista a sua pessoa, a sua vontade e a sua glória. Isto é o que será compensado. Não é o sofrimento que faz o mártir ou aquele que confessa a fé cristã, mas a causa pela qual ele sofre.

Em segundo lugar, supõe-se a ocorrência de uma grande perda; e mesmo assim, Cristo se responsabiliza por compensá-la, pois Ele é capaz de fazê-lo, não importa o tamanho dessa perda. Perceba a tamanha barbaridade dos perseguidores que despojavam pessoas inocentes de tudo que tinham, por nenhum outro crime exceto a sua fidelidade a Cristo! Perceba a paciência dos perseguidos, e a força do seu amor por Cristo, que era como um fogo que as muitas águas não poderiam apagar!

[2]. A compensação por essas perdas é aqui assegurada. Milhares de pessoas se relacionaram com Cristo e confiaram nele no mais alto grau. Mas ninguém perdeu por sua causa; ninguém jamais deixou de ganhar de maneira indescritível por sua causa; isto fica claro ao fazermos o balanço final de nossa vida. Cristo, nesse momento, dá a sua palavra sobre esse assunto; Ele não somente indenizará o sofrimento de seus servos e os salvará incólumes, mas os recompensará abundantemente. Que eles façam uma lista de suas perdas por causa de Cristo, e poderão ter a certeza de que receberão:

Em primeiro lugar, “cem vezes tanto” nesta vida; às vezes, em espécie, as mesmas coisas que eles haviam deixado. Deus preparará mais amigos para os seus angustiados servos; estes serão seus amigos por amor a Cristo. O número desses novos amigos será maior do que o número daqueles que eles abandonaram, e que tinham como característica dominante o amor a si mesmos. Os apóstolos, aonde quer que fossem, encontravam pessoas que eram gentis com eles e os recebiam, abrindo-lhes seus corações e suas portas. Todavia, eles receberão cem vezes tanto, em benefícios, em se tratando daquelas coisas que são abundantemente melhores e mais valiosas. Suas graças se multiplicarão, seus consolos serão abundantes, eles terão sinais do amor de Deus, uma comunhão mais íntima com Ele, além de maior comunicação com Ele, previsões mais claras e antecipações mais agradáveis da “glória que há de ser revelada”. E então eles poderão verdadeiramente dizer que receberam cem vezes mais consolo em Deus Pai e em Cristo do que poderiam ter recebido da es­ posa ou dos filhos.

Em segundo lugar, no fim, “a vida eterna”. Os benefícios anteriores já bastariam como recompensa, mesmo que não houvesse mais; cem por cento é um grande lucro. Que tal cem vezes? Não obstante, a vida eterna vem como uma adição, além de tudo o que o Senhor nos concede neste mundo. A vida aqui prometida inclui todos os confortos da vida no mais alto nível, e a sua duração é eterna. Se pudermos combinar a fé com a promessa, e confiarmos em Cristo para levá-las a cabo, com certeza não consideraremos nada como demasiadamente difícil para ser feito, nada será difícil demais para tolerarmos, não nos recusaremos a abrir mão de nada, por mais precioso que seja, por amor a Ele.

No último versículo, o nosso Salvador adverte sobre o engano de alguns que pensam que a superioridade na glória esteja relacionada e seja dirigida pela precedência no tempo, e não pela medida e pelo grau da graça. Não. “Muitos primeiros, serão derradeiros, e muitos derradeiros serão primeiros” (v. 30). Deus cruzará os braços; Ele revelará às criancinhas o que escondeu dos sábios e entendidos. Além disso, o Senhor rejeitará os judeus incrédulos e aceitará os gentios crentes. A herança celestial não é dada como as heranças materiais geralmente o são, pela idade ou pela primogenitura, mas de acordo com a vontade de Deus. Este é o tema de outro sermão, que estudaremos no próximo capítulo.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.