ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 16: 21-23

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 Cristo Repreende Pedro

Temos aqui o discurso de Cristo aos seus discípulos, a respeito dos seus próprios sofrimentos, onde observamos:

I – A predição de Cristo dos seus sofrimentos. Aqui Ele “começou” a falar de seus sofrimentos, e a partir dessa ocasião, Ele frequentemente falou sobre eles. Ele já tinha dado algumas indicações sobre os seus sofrimentos, como quando disse: “Derribai este templo”; quando falou sobre o Filho do Homem sendo visto subir, e sobre comer a sua carne e beber o seu sangue (João 6.53,62). Mas agora Ele começava a mostrar isso, a falar clara e expressamente sobre esse assunto. Até então, Ele não tinha falado sobre isso, porque os discípulos eram fracos e não poderiam suportar a notícia de algo tão estranho, e tão melancólico; mas agora que eles estavam mais amadurecidos no conhecimento, e fortalecidos na fé, Ele começava a lhes falar sobre os seus sofrimentos. Cristo revela o seu pensamento gradualmente às pessoas, e lhes transmite a luz à medida que elas conseguem suportá-la, e estão preparadas para recebê-la. “Desde então”, quando eles tinham feito aquela confissão de Cristo, de que Ele era o Filho de Deus, Ele começou a mostrar-lhes que haveria de sofrer. Quando Jesus percebia que os discípulos já conheciam uma verdade, Ele lhes ensinava outra, pois a “qualquer que tiver, será dado”. “Deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até a perfeição” (Hebreus 6.1). Se eles não estivessem bem fundamentados na crença de que Cristo era o Filho de Deus, isso teria provocado um grande abalo à sua fé. Nem todas as verdades devem ser ditas a todas as pessoas, em todas as ocasiões, mas somente aquelas que são apropriadas e adequadas à sua condição atual. Considere:

1.O que Ele predisse a respeito dos seus sofrimentos, os seus detalhes e as suas circunstâncias; tudo muito surpreendente.

(1). O lugar onde Ele passaria por esses sofrimentos. Ele deveria ir a Jerusalém, a cidade principal, a cidade santa, e ali sofreria. Embora vivesse a maior parte da vida na Galiléia, Ele deveria morrer em Jerusalém; ali eram oferecidos todos os sacrifícios, e ali, portanto, de­ veria morrer aquele que seria o maior sacrifício.

(2). As pessoas que o fariam padecer: “Os anciãos, e os principais dos sacerdotes, e os escribas”; eles constituíam o grande sinédrio, que tinha sede em Jerusalém, e que era venerado por todo o povo. Aqueles que deveriam ter sido os mais entusiasmados em confessar a Cristo, e admirá-lo, eram os que mais amargamente o perseguiam. É estranho saber que homens que tinham conhecimento das Escrituras, que professavam esperar pela vinda do Messias, e pretendiam ter algo de santo no seu caráter, tenham tratado o Senhor dessa maneira tão bárbara quando Ele veio. Foi o poder romano que condenou e crucificou a Cristo, mas a responsabilidade foi atribuída aos “principais dos sacerdotes, e dos escribas”, que foram os que primeiro se agitaram nesse sentido.

(3). O que Ele iria sofrer: Ele iria “padecer muito… e ser morto”. A maldade insaciável dos seus inimigos, e a sua própria paciência invencível, são exibidas na variedade e multiplicidade dos seus sofrimentos (Ele sofreu muitas coisas), e na sua intensidade; nada menos que a sua morte poderia satisfazê-los, Ele precisava ser morto. O sofrimento de muitas aflições, se não levar à morte, é mais tolerável. Pois enquanto houver vida, haverá esperança; e a morte, sem tais preâmbulos, seria menos terrível. Mas Ele precisaria, primeiro, sofrer muitas coisas, e depois ser morto.

(4).  Qual seria o feliz resultado de todos os seus sofrimentos: Ele iria “ressuscitar ao terceiro dia”. Assim como os profetas, também o próprio Cristo, quando deu testemunho antecipado de seus sofrimentos, testemunhou também toda a glória que a eles se seguiria (1 Pedro 1.11). A sua ressurreição ao terceiro dia provaria que Ele era o Filho de Deus, apesar de todos os seus sofrimentos; e, portanto, Ele faz menção disso para conservar a fé dos seus discípulos. Quando Ele falou da cruz e da “afronta”, Ele falou com o mesmo “gozo que lhe estava proposto”. Foi com essa esperança que Ele “suportou a cruz, desprezando a afronta”. Ê assim que devemos considerar o sofrimento de Cristo por nós, observá-lo no caminho para a sua glória; e assim devemos considerar o nosso sofrimento por Cristo, olhar através dele para a compensação da recompensa. “Se sofrermos com Ele também com ele reinaremos”.

2.A razão pela qual Ele falou dos seus sofrimentos.

(1). Para mostrar que eles eram o resultado de um conselho e consentimento eternos; eles tinham sido combinados entre o Pai e o Filho, desde a eternidade: “É necessário que Cristo sofra”. A questão foi decidida no conselho e no conhecimento prévio determinados, de acordo com a sua própria disposição voluntária de realizar a nossa salvação. Os seus sofrimentos não eram nenhuma surpresa para Ele, não lhe representaram nenhuma armadilha, mas Ele tinha uma visão distinta deles, o que aumenta ainda mais o seu amor (João 18.4).

(2). Para corrigir os erros de que os seus discípulos tinham se impregnado, a respeito da pompa exterior e do poder do seu reino. Crendo que Ele era o Messias, eles só esperavam dignidade e autoridade no mundo, mas aqui Cristo lhes dá outro ensinamento, Ele lhes fala a respeito da cruz e dos sofrimentos. Na verdade, Ele lhes conta que os principais dos sacerdotes e os anciãos, que, provavelmente, eles esperavam que apoias­ sem o reino do Messias, seriam os seus maiores inimigos e perseguidores; isto lhes daria outra ideia daquele reino cuja chegada eles mesmos haviam pregado; e era necessário que esse engano fosse corrigido. Aqueles que seguem a Cristo devem ser informados, com clareza, de que não devem esperar grandes coisas neste mundo.

(3). Isso pretendia prepará-los, pelo menos, para a cota de tristeza e medo que eles teriam devido ao seu sofrimento. Se Ele sofreu muitas coisas, os discípulos não podiam deixar de sofrer algumas; se o seu Mestre fosse morto, eles seriam dominados pelo ter ror; seria melhor que eles soubessem disso antes, para que se preparassem de maneira conveniente, e, estando prevenidos, pudessem estar em guarda.

II – O desgosto que Pedro sentiu ao ouvir isso. Ele disse: “Senhor, tem compaixão de ti”; provavelmente ele expressasse o sentimento dos demais discípulos, como antes, pois ele era o orador principal. Ele “tomando-o de parte, começou a repreendê-lo”. Talvez o pensamento de Pedro estivesse um pouco elevado devido às grandes coisas que Cristo lhe havia dito. Assim, é provável que ele tenha se tornado mais ousado com o Senhor do que lhe seria conveniente; é muito difícil conservar o espírito humilde em meio a estímulos tão grandes!

1.Não era apropriado que Pedro contradissesse o seu Mestre, ou o tomasse de lado para aconselhá-lo. Ele pode ter desejado que, se fosse possível, esse cálice fosse afastado, sem dizer taxativamente: “Isto não pode ser assim”, quando Cristo havia dito: “Deve ser assim”. ”A Deus se ensinaria ciência”? Aquele que repreende a Deus, que responda isso. Quando as dispensações de Deus são complicadas ou contrárias a nós, devemos silenciosamente concordar com a vontade divina, e não ser contrários a ela; Deus sabe o que Ele deve fazer, sem o nosso ensinamento. A menos que compreendamos o intento do Senhor, não nos cabe ser seus conselheiros (Romanos 11.34).

(1). Era um comportamento muito mundano o fato de Pedro se manifestar tão acaloradamente contra o sofrimento, e que assim se assustasse com a ideia da cruz. Este é o nosso lado corrompido, aquele que está sempre pronto para rejeitar os sofrimentos. Nós consideramos os sofrimentos da maneira como eles se relacionam com a nossa vida atual, à qual eles são inquietantes; mas existem outras maneiras de avaliá-los que, se devidamente observadas, irão nos capacitar a suportá-los alegremente (Romanos 8.18). Veja a maneira apaixonada como Pedro fala: “Senhor, tem compaixão de ti”, em outras palavras: “Que Deus não permita que o Senhor sofra e seja morto, nós não podemos suportar pensar nisso”. Mestre, salva-te, assim pode ser lido; e ninguém mais te será cruel; tem compaixão de ti, e isso não te acontecerá”. Ele imaginava que Cristo temesse o sofrimento tanto quanto ele o temia; mas nós nos enganamos, se avaliamos o amor e a paciência de Deus baseando-os em nós mesmos. Ele sugere, da mesma maneira, a improbabilidade do acontecimento, falando humanamente. “De modo nenhum te acontecerá isso”. É impossível que alguém que se interessa tanto pelas pessoas, como o Senhor, seja esmagado pelos anciãos, que temem o povo: isso não pode acontecer. Nós, te seguimos, lutaremos pelo Senhor, se for necessário; e há milhares que estarão ao nosso lado”.

III – O desagrado de Cristo com a sugestão de Pedro (v. 23). Não lemos sobre nada dito ou feito por qualquer dos seus discípulos, em nenhuma ocasião, de que Ele se ressentisse tanto quanto isso, embora eles frequentemente precisassem de suas correções.

Considere:

1.A maneira como Ele expressou o seu desagrado: Ele se voltou para Pedro e (imaginamos), com a expressão bastante séria, disse: “Para trás de mim, Satanás”. Ele não perdeu tempo considerando a sugestão, mas deu uma resposta imediata à tentação, que demonstrava o quanto Ele a tinha recebido mal. Ele havia acabado de dizer: “Bem-aventurado és tu, Simão”, e tinha até mesmo aproximado Pedro do seu seio; mas aqui Ele diz: “Para trás de mim, Satanás”; e as duas coisas eram justificáveis. Observe que um homem bom, pela surpresa da tentação, pode ficar muito diferente do que é. Jesus respondeu a Pedro como tinha respondido ao próprio Satanás (cap. 4.10). Observe que:

(1).  Uma das astúcias de Satanás consiste em enviar-nos tentações pelas mãos insuspeitas dos nossos melhores e mais queridos amigos.

Assim ele atacou Adão, por meio de Eva; Jó, por meio da sua mulher; e aqui, Cristo, por meio do seu amado Pedro. Portanto, nós não devemos ser ignorantes das suas artimanhas, mas nos opormos aos seus truques, sempre nos protegendo contra o pecado, seja o que for que nos levar a ele. Até mesmo a bondade de nossos amigos pode ser usada por Satanás como uma tentação contra nós.

(2).  Aqueles que têm exercitado os seus sentidos espirituais, estarão atentos à voz de Satanás, até mesmo em um amigo, um discípulo, um ministro, que os tente dissuadir do seu dever. Nós não devemos considerar tanto quem fala quanto o que é dito. Devemos aprender a reconhecer a voz do diabo quando ele fala na boca de um santo assim como quando ele fala na boca de uma serpente. Quem quer que nos afaste daquilo que é bom, e que nos faça ter medo de fazer muito por Deus, fala a língua de Satanás.

(3).  Devemos ser livres e leais em repreender o amigo mais querido que tivermos, aquele que diz ou faz algo errado, mesmo que possa nos parecer gentileza. Não devemos elogiar, mas sim repreender, as cortesias enganosas. “Fiéis são as feridas feitas pelo que ama”. Estas feridas serão uma benignidade (Salmos 141.5). (4) Àquilo que parecer uma tentação ao pecado, deveremos resistir com aversão, sem abrir qualquer possibilidade de negociação.

2.Qual foi a razão do desagrado de Jesus? Por que Ele se ressentiu assim com uma sugestão que parecia não apenas inofensiva, mas gentil? Duas razões são dadas:

(1). “Me serves de escândalo” – Tu és o meu empecilho (pode ser assim interpretado); você é um obstáculo no meu caminho. Cristo se apressava na obra da nossa salvação, e o seu coração estava tão dedicado a isso, que Ele achava ruim ser impedido, ou tentado a se afastar da parte mais difícil e mais desanimadora da sua missão. Ele estava tão fortemente envolvido com a nossa redenção, que aqueles que tentassem desviá-lo disso, ainda que indiretamente, o tocavam em um ponto muito sensível. Pedro não foi tão severamente repreendido por desonrar e negar o seu Mestre nos seus sofrimentos quanto por dissuadi-lo deles; embora sua primeira falha tenha sido cometida por falta de bondade, essa última foi por excesso. E necessário uma firmeza e determinação muito grandes em qualquer questão, quando somos afrontados com o objetivo de sermos dissuadidos. E o homem não suportar à ouvir nada em contrário; como no caso de Rute: “Não me instes para que te deixe e me afaste de ti”. Observe que o nosso Senhor Jesus preferia a nossa salvação ao seu próprio conforto e à sua própria segurança: “Porque também Cristo não agradou a si mesmo” (Romanos 15.3). Ele veio ao mundo, não para ser poupado, como recomendava Pedro, mas para se deixar gastar em nosso benefício.

Considere por que Ele chamou Pedro de “Satanás”, quando ele lhe fez a sugestão; porque qualquer coisa que estivesse no caminho da nossa salvação, Ele considerava como vinda do diabo, que é um inimigo declarado da nossa salvação. O mesmo Satanás que depois entrou em Judas, astutamente, para destruir Jesus na sua missão, aqui incentivava Pedro, de maneira plausível, a afastá-lo dela. Dessa maneira, “o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz”.

“Me serves de escândalo”. Observe como:

[1]. Aqueles que se envolvem em qualquer boa e grande obra devem esperar encontrar obstáculos e oposição por parte de amigos e adversários, tanto de dentro como de fora de seu ambiente cotidiano.

[2]. Aqueles que se opõem ao nosso progresso em qualquer dever, devem ser considerados uma ofensa a nós. Então nós faremos a vontade de Deus, assim como Cristo a fez-, pois o seu alimento e bebida eram fazê-la – quando considerarmos um verdadeiro problema a tentativa de nos afastarem do nosso dever. Aqueles que nos impedem de fazer algo por Deus, ou de sofrer por Ele, quando isso nos é exigido, são nossos adversários nesse aspecto, não importando o que sejam em outros.

(2). “Não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens”. Considere:

[1]. ”As coisas que são de Deus”, isto é, os assuntos da sua vontade e glória, frequentemente se chocam e interferem com as coisas que são “dos homens”, isto é, a nossa própria riqueza, o nosso prazer e reputação. Quando consideramos o dever cristão como nosso caminho e trabalho, e a graça divina como o nosso final e porção, desfrutamos as coisas de Deus; mas para que isso aconteça, a carne deve ser renegada, e é necessário correr riscos e suportar dificuldades. E aqui está a prova. Quais serão as nossas escolhas?

[2]. Aqueles que temem desenfreadamente, e engenhosamente se recusam a sofrer por Cristo, quando isto lhes é solicitado, são os que estão mais apegados às coisas do homem do que às coisas de Deus. Eles apreciam mais as coisas do mundo, e transmitem essa impressão aos outros.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.