ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 16: 13- 20 – PARTE I

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O Discurso de Cristo aos seus discípulos 

Aqui temos um discurso em particular a seu respeito, que Cristo dirigiu aos seus discípulos. Isso aconteceu junto à costa de Cesareia de Filipe, a mais longínqua fronteira ao norte da terra de Canaã. Ali, naquela região distante, talvez houvesse menos procura por Ele do que em outros lugares, o que lhe deu tempo livre para essa conversa em particular com os seus discípulos. Quando o trabalho público dos ministros diminui, eles devem se esforçar para fazer mais nas suas próprias famílias.

Aqui Cristo está “discipulando” aqueles que Ele escolheu como seus discípulos.

 I – Ele pergunta qual é a opinião dos outros a seu respeito: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”

1.Jesus se refere a si mesmo como o “Filho do Homem”; o que pode ser interpretado:

(1).  Como um título comum a Ele, e a outros. Ele era chamado, de maneira adequada, de “Filho de Deus”, pois Ele o era (Lucas 1.35); mas Ele se chamava de Filho do Homem, pois Ele é verdadeira e realmente “homem, nascido de mulher”. Nas cortes de honra, é comum distinguir os homens pelos seus títulos mais elevados; mas Cristo, tendo agora se esvaziado, embora fosse o Filho de Deus, será conhecido pelo estilo e pelo título de Filho do Homem. Ezequiel era frequentemente assim chamado, para conservar-se humilde; Cristo assim também se chamava, para mostrar que Ele era humilde. Ou:

(2).  Como um título peculiar a Ele como Mediador. Ele se dá a conhecer, na visão de Daniel, como o “Filho do Homem” (Daniel 7.13). Eu sou o Messias, aquele Filho do Homem que foi prometido. Mas:

2.Ele pergunta quais são os sentimentos das pessoas a seu respeito. Em outras palavras: “Quem os homens dizem que Eu sou? O Filho do Homem? Eles acham que Eu sou o Messias?” Ele não pergunta: “Quem os escribas e os fariseus dizem que Eu sou?” Eles tinham preconceito contra Ele, e diziam que Ele era um enganador e que estava aliado a Satanás. Mas: “Quem os homens dizem que Eu sou?”. Ele se referia às pessoas comuns, que eram desprezadas pelos fariseus. Cristo fez essa pergunta, não como alguém que não conhece a resposta; pois se Ele sabe o que os homens pensam, muito mais Ele saberá o que dizem. Ele fez a pergunta, não como alguém desejoso de ouvir elogios a si mesmo, mas para fazer com que os discípulos se preocupassem com o sucesso da sua pregação, mostrando quem Ele realmente era. As pessoas comuns conversavam com maior familiaridade com os discípulos do que com o seu Mestre, portanto, a partir deles, Ele saberia melhor o que elas diziam. Cristo não dizia claramente quem Ele era, mas deixava que as pessoas chegassem às suas conclusões a partir das obras dele (João 10.24,25). Agora Ele iria saber quais eram as conclusões a que as pessoas chegavam a partir das suas obras, e dos milagres que os seus apóstolos realizavam em seu nome.

3.A essa pergunta, os discípulos lhe deram uma resposta (v. 14): “Uns, João Batista; outros” etc. Havia alguns que diziam que Ele era o Filho de Davi (cap. 12.23) e o grande Profeta (João 6.14). Os discípulos, no entanto, não mencionam essas opiniões, mas somente as opiniões que eram realmente a verdade, que eles obtinham dos seus compatriotas. Observe que:

(1).  São opiniões diferentes. Alguns dizem uma coisa, outros dizem outra. A verdade é uma só; mas aqueles que divergem dela normalmente divergem entre si.

Assim, Cristo veio para trazer dissensão (Lucas 12.51). Sendo uma Pessoa tão conhecida, todos deveriam estar preparados para dar o veredicto sobre Ele, e “muitas pessoas, muitas mentes”. Aqueles que não desejavam dizer que Ele era o Cristo, vagavam por labirintos in­ termináveis, e seguiam a pista de todos os palpites in­ certos e hipóteses loucas.

(2). São opiniões honoráveis, e indicam o respeito que as pessoas sentiam por Ele, de acordo com a melhor opinião que conseguiam ter. Esses não eram os sentimentos dos inimigos de Jesus, mas os pensamentos equilibrados daqueles que o seguiam com amor e com admiração. Observe que é possível que os homens tenham bons pensamentos a respeito de Cristo, e que estes pensamentos não sejam os corretos; uma elevada opinião a respeito dele, e ainda assim, não suficientemente elevada.

(3).  Todas supõem que Ele é alguém que ressuscitou dos mortos: o que talvez se originasse de uma noção confusa que eles tinham da ressurreição do Messias, antes da sua pregação pública, como aconteceu com Jonas. Ou as suas noções derivavam de uma valorização excessiva pela antiguidade; como se não fosse possível que um homem excelente fosse produzido na sua própria geração, mas devesse ser algum dos antigos que tivesse retornado à vida.

(4).  São todas opiniões falsas, construídas sobre enganos, e enganos voluntários. As doutrinas e os milagres de Cristo diziam que Ele era uma Pessoa extraordinária; mas devido à simplicidade da sua aparência, tão diferente do que eles tinham esperado, eles não pensavam que Ele fosse o Messias, mas concordavam que Ele pudesse ser qualquer coisa diferente disso.

[1].  “Alguns dizem, João Batista”. Herodes tinha dito isso (cap. 14.2), e aqueles que estavam ao seu lado teriam dito a mesma coisa. Essa noção pode ter sido fortalecida por uma opinião que eles tinham, de que aqueles que haviam morrido como mártires, deveriam ressuscitar antes dos demais. E alguns pensam que o segundo dos sete filhos se refere a isso, na sua resposta a Antíoco (2 Macabeus 7.9): “O rei do mundo nos fará ressuscitar para uma ressurreição eterna de vida, a nós que agora morrermos pelas leis dele”.

[2]. “Outros, Elias”; aproveitando, sem dúvida, a oportunidade dada pela profecia de Malaquias (Malaquias 4.5): “Eis que eu vos envio o profeta Elias”. E ainda mais, porque Elias (como Cristo) realizou muitos milagres, e ele mesmo, na sua trasladação, foi o maior milagre de todos.

[3]. “E outros, Jeremias”. Muitos se prendiam a ele, porque tinha sido o profeta que chorava, e Cristo estava frequentemente em lágrimas. Ou porque Deus o tinha posto sobre os reinos e as nações (Jeremias 1.10), o que eles supunham estar de acordo com a sua noção do Messias.

[4]. “Ou um dos profetas”. Isso mostra que noção honrosa o povo tinha dos profetas, embora eles fossem os filhos daqueles que os perseguiram e assassinaram (cap. 23.29). Em vez de reconhecerem que Jesus de Nazaré, uma pessoa da sua própria nação, era tal Pessoa extraordinária, como as suas obras evidenciavam que Ele era, eles diziam: “Este não é Ele, mas um dos antigos profetas”.

 

II – Jesus pergunta quais eram os pensamentos dos próprios discípulos a respeito dele: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v. 15). Em outras palavras: “Vocês estão me dizendo o que os outros dizem a meu respeito: vocês podem dizer algo melhor?”

1.Os discípulos tinham sido melhor ensinados do que os outros: eles tinham, pela sua intimidade com Cristo, maiores vantagens para adquirir conhecimentos do que tinham as demais pessoas. Espera-se, de forma justa, que aqueles que desfrutam de maior abundância dos meios de conhecimento e de graça do que os outros, tenham um conhecimento mais claro e distinto das coisas de Deus do que os outros. Aqueles que têm maior conhecimento de Cristo do que os outros devem ter sentimentos mais verdadeiros a seu respeito, e devem ser capazes de testemunhar melhor a seu respeito.

2.Os discípulos eram treinados para ensinar os outros, e por isso era um requisito essencial que eles mesmos compreendessem a verdade. Em outras palavras: “Vocês que vão pregar o Evangelho do reino, quais são as suas noções a respeito daquele que lhes enviou?” Os ministros devem passar por um exame antes de serem enviados, especialmente quanto a quais são os seus sentimentos sobre Cristo, e quem eles dizem que Ele é. Pois como podem ser considerados ministros de Cristo aqueles que são ignorantes a respeito dele, ou que estão enganados a seu respeito? Esta é uma pergunta que cada um de nós deveria fazer a si mesmo frequentemente. “Quem nós dizemos, que tipo de pessoa nós dizemos, que o Senhor Jesus é? Ele é precioso para nós? Ele é, aos nossos olhos, o maioral de dez mil? Ele é o Amado da nossa alma?” A nossa vida será abençoada ou irá mal, dependendo dos pensamentos que tivermos a respeito de Jesus Cristo. Se forem pensamentos corretos, teremos uma vida abençoada; se forem pensamentos errados, teremos grandes problemas.

Bem, essa é a pergunta. Agora observemos:

(1).  A resposta de Pedro a essa pergunta (v. 16). À pergunta anterior, sobre a opinião que os outros tinham de C1isto, vários discípulos responderam, de acordo com o que ouviam as pessoas dizendo; mas a essa pergunta, Pedro responde em nome de todos os demais, tendo todos consentido nisso e estando de acordo com a resposta. O temperamento de Pedro o levava a adiantar-se para falar em todas as ocasiões desse tipo, e algumas vezes ele falava bem, porém algumas vezes de maneira inadequada. Em todos os grupos podemos encontrar alguns homens ousados e entusiasmados, a quem cai naturalmente a precedência das palavras. Pedro era uma pessoa assim; apesar disso, encontramos outros dos apóstolos falando algumas vezes, como porta-vozes dos outros; como João (Marcos 9.38), Tomé, Filipe e Judas (João 14.5,8,22). De modo que isso está longe de ser uma prova de tal primazia e superioridade de Pedro sobre o restante dos apóstolos, como a igreja de Roma lhe atribui. Eles precisam promovê-lo a juiz, quando o máximo que podem fazer dele é que seja apenas o representante dos jurados, que falava em nome dos outros, e que isso somente; não o ditador perpétuo ou o presidente do congresso, somente o presidente de uma ocasião.

A resposta de Pedro é curta, mas abrangente, verdadeira, e objetiva: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Aqui está uma confissão da fé cristã, dirigida a Cristo, e dessa forma transformada em um ato de devoção. Aqui está uma confissão do Deus verdadeiro como o Deus vivo, em oposição aos ídolos tolos e mortos, e de Jesus Cristo, que Ele tinha enviado, e que vive eternamente. Esta é a conclusão de toda a questão.

[1].  As pessoas o chamavam de um profeta, o Profeta (João 6.14); mas os discípulos reconheciam que Ele era o Cristo, o Ungido; o grande Profeta, Sacerdote e Rei da igreja; o verdadeiro Messias prometido aos pais, que asseguravam que Ele era aquele que viria. Era uma grande coisa ter essa crença a respeito de alguém cuja aparência exterior era tão contrária à ideia geral que os judeus tinham do Messias.

[2].  Ele tinha se referido a si mesmo como o Filho do Homem; mas os discípulos consideravam que Ele era o “Filho do Deus vivo”. A noção das pessoas era de que Ele era o fantasma de um homem morto, como Elias ou Jeremias. Mas os discípulos sabem e creem que Ele é o “Filho do Deus vivo”, que é a própria vida, e que Deus deu o seu Filho para dar a vida que existe em si mesmo, para ser a vida do mundo. Se Ele é o Filho do Deus vivo, Ele tem a mesma natureza que Ele; e embora essa natureza divina agora esteja encoberta pela nuvem da carne, ainda assim existem aqueles que conseguem ver através dela, e viam “a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”. Agora podemos, com certeza e fé, aderir a essa confissão? Então vamos a Cristo com fervoroso afeto e adoração, dizendo-lhe: Senhor Jesus, “tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.

(2).  A aprovação de Cristo a essa resposta (vv.17-19) na qual Pedro recebe a resposta, tanto como um crente quanto como um apóstolo.

[1]. Como um crente (v. 17). Cristo se mostra satisfeito com a confissão de Pedro, que foi tão claramente expressa, sem rodeios, como dizemos. Observe que a proficiência dos discípulos de Cristo no conhecimento e na graça é aceitável aos seus olhos; e Cristo mostra a ele de onde Ele tinha recebido o conhecimento dessa verdade. Na primeira descoberta dessa verdade, no amanhecer do dia do Evangelho, essa era uma mensagem poderosa em que alguém poderia crer; nem todos os homens tinham esse conhecimento, não tinham essa mesma fé. Mas:

Em primeiro lugar, Pedro teve essa felicidade: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas”. Ele recorda a Pedro a sua origem, a simplicidade da sua família, a obscuridade das suas raízes; ele era Barjonas – o filho de uma pomba, segundo alguns. Ele deve se lembrar da rocha da qual foi extraído, para que possa ver que não nasceu para essa dignidade; mas teve preferência a ela por divino favor; foi a graça divina que o fez diferenciar-se. Aqueles que receberam o Espírito devem recordar quem é o seu Pai (1 Samuel 10.12). Tendo recordado isso a Pedro, Jesus o sensibiliza para a sua grande felicidade como um crente: “Bem-aventurado és tu”. Os verdadeiros crentes são verdadeiramente bem-aventurados, e são verdadeiramente bem-aventurados aqueles a quem Cristo diz: “Bem-aventurados”. Quando Ele diz isso, eles são bem-aventurados, eles se tornam bem-aventurados. Pedro, você é um bem-aventurado, que “conhece o som festivo” (Salmos 89.15). “Bem-aventurados os vossos olhos” (cap.13.16). Toda a felicidade está presente no conhecimento correto de Cristo.

Em segundo lugar, Deus deve receber a glória: “‘Porque não foi carne e sangue quem to revelou’. Tu não recebeste essa informação nem pela invenção da tua própria inteligência e razão, nem pela instrução e informação de outros; essa luz não te veio nem pela natureza nem pela educação, mas do ‘meu Pai, que está nos céus”‘. Observe que:

1.A religião cristã é uma religião revelada, tem a sua origem no céu; é uma religião do céu, dada por inspiração de Deus, não pelo conhecimento dos filósofos, nem pela política dos homens de estado.

2.A fé salvadora é a dádiva de Deus, e onde quer que ela ocorra, ela é operada por Ele, como o Pai do nosso Senhor Jesus Cristo, em nome dele, e como resultado da sua mediação (Filipenses 1.29). Por isso, vocês são bem-aventurados, porque o meu Pai revelou isso a vocês. Observe que a revelação de Cristo a nós e em nós é um sinal distintivo da boa vontade de Deus, e uma base firme de uma verdadeira felicidade; e bem-aventurados são aqueles que assim são altamente favorecidos.

Talvez Cristo discernisse algo de orgulho e glória vaidosa na confissão de Pedro; um pecado sutil, e que consegue se mesclar até mesmo com as nossas boas obras. É difícil, para os homens bons, compararem a si mesmos com os outros, e não terem um conceito elevado demais de si mesmos. Para evitar isso, devemos considerar que a nossa preferência acima dos outros não se deve a uma realização nossa, mas à dádiva da graça de Deus, que nos foi livremente concedida, e não aos outros. Nós não temos nada de que nos vangloriar (Salmos 115.1; 1 Coríntios 4.7).

[2]. Cristo responde a Pedro considerando-o como um apóstolo ou ministro (vv. 18,19). Pedro, em nome da igreja, tinha confessado a Cristo; portanto, a promessa tencionada à igreja lhe foi revelada. Observe que não se perde nada em se adiantar a confessar a Cristo; pois àqueles que o honram, Ele honrará.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.