ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 14: 1 – 12

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A Morte de João Batista

Aqui temos a história do martírio de João. Observe:

I – A ocasião da história aqui relatada (vv. 1, 2). Lemos aqui sobre:

1.O relato trazido a Herodes sobre os milagres que Cristo realizou. Herodes, o tetrarca, principal governador da Galileia, ouviu falar sobre a fama de Jesus. Naquela época, enquanto os seus compatriotas o desprezavam, por causa da sua simplicidade e obscuridade, Ele começou a ficar famoso na corte. Deus honra aqueles que são desprezados por sua causa. E o Evangelho, como o mar, consegue em um lugar o que perde em outro. Cristo já estava pregando e realizando milagres há mais de dois anos; ainda assim, aparentemente Herodes não ouvira falar dele até aquele momento, e somente então soube da sua fama. A infelicidade das pessoas importantes do mundo é que elas não ouvem as melhores coisas (1 Coríntio 1.26); ” nenhum dos príncipes deste mundo conheceu” (1 Coríntios 2.8). Os discípulos de Cristo eram enviados para pregar, e para realizar milagres em seu nome, e isto espalhou a sua fama mais do que nunca, o que era uma indicação de como seria a pregação do Evangelho, por eles, depois da ascensão de Jesus.

2.O s ignificado que Herodes atribui aos fatos (v. 2); ele disse aos seus servos que lhe contaram sobre a fama de Jesus: “Este é João Batista; ressuscitou dos mortos”. O fermento de Herodes não era a doutrina dos saduceus, pois eles diziam que não havia ressurreição (Atos 23.8. A consciência culpada de Herodes (como é comum com os ateus), nessa ocasião, obteve o controle da sua opinião, e ele concluiu que, quer existisse uma ressurreição geral ou não, João Batista certamente havia ressuscitado, e, portanto, milagres poderosos se manifestavam nele. João, enquanto viveu, não realizou nenhum milagre (João 10.41); mas Herodes conclui que, tendo ressuscitado dos mortos, ele estava revestido de um poder maior do que tinha anterior mente. E adequadamente ele chama os milagres que imagina que foram realizados por João, não de maravilhas, mas sim de “maravilhas que operam nele”. Considere, a respeito de Herodes:

(1) Como ele ficou desapontado em relação ao que

pretendia quando mandou decapitar João. Ele pensou que se pudesse tirar aquele impertinente do caminho, poderia continuar com seus pecados, sem que ninguém o perturbasse ou controlasse; tão logo isso aconteceu, ele ouviu de Jesus e seus discípulos pregando a mesma doutrina que João pregava; e, além disso, até mesmo os discípulos confirmando-a por milagres em nome do seu Mestre. Ministros podem ser silenciados, e aprisionados, expulsos e assassinados, mas a Palavra de Deus não pode ser detida. Os profetas não viveram para sempre, mas sua palavra nos alcança (Zacarias 1.5,6; veja 2 Timóteo 2.9). Às vezes, Deus levanta muitos ministros fiéis das cinzas de um ministro. Há esperança para as árvores de Deus, mesmo que sejam cortadas (Jó 14.7-9).

(2) Como Herodes foi tomado por temores sem fundamento, meramente devido à culpa da sua própria consciência. Assim o sangue clama, não somente da terra sobre a qual foi derramado, mas do coração daquele que o derramou, e o torna um terror por todos os lados, um terror em si mesmo. Uma consciência culpada sugere tudo o que é assustador e, como um turbilhão, chama para si tudo o que se aproxima dela. “Assim fogem os ímpios, sem que ninguém os persiga” (Provérbio 28.1); acham-se em grade pavor (Salmos 114.5), onde ele não existe. Herodes, com uma pequena investigação, poderia ter descoberto que este Jesus existia muito tempo antes da morte de João Batista, e por isto não poderia ser João de volta à vida; e assim ele poderia ter descoberto o seu engano; mas Deus, com justiça, deixou-o entregue a este desvario.

(3) Como, apesar disso, ele continuou insensível na sua maldade. Embora ele estivesse convencido de que João era um profeta, e propriedade de Deus, ainda assim ele não expressa o menor remorso ou tristeza pelo seu pecado de tê-lo levado à morte. Os demônios creem e estremecem, mas nunca creem e se arrependem. Observe que pode existir o terror das fortes convicções onde não existe a verdade de uma conversão salvadora.

II – A própria história da prisão e do martírio de João. Estes sofrimentos extremos daquele que foi o primeiro pregador do Evangelho mostram claramente que as prisões e aflições sobrevirão a muitos daqueles que ensinam a Palavra de Deus. Assim como o primeiro santo do Antigo Testamento. o primeiro ministro do Novo Testamento também morreu como mártir. E se o precursor de Cristo foi tratado assim, os seus seguidores não devem esperar ser tratados pelo mundo com carinho. Observe aqui:

1.A fidelidade de João ao reprovar Herodes (vv. 3, 4). Herodes era um dos que ouviam a João (Marcos 6.20), e por isso João podia ser mais ousado com ele. Os ministros, que têm por função censurar, são especialmente obrigados a censurar aqueles que estão sob a sua responsabilidade, e não permitir que o pecado recaia sobre eles; eles têm a oportunidade mais justa e imparcial para lidar com eles, e é deles que poderão esperar a aceitação mais favorável.

O pecado que João reprovou, em especial em Herodes, foi o fato de ele se casar com a esposa do seu irmão Filipe, e não com a sua viúva (isto não teria sido tão pecaminoso). Filipe estava vivo, e Herodes seduziu a sua esposa, e a afastou dele, tomando-a para si. Aqui havia uma mistura de maldade, adultério e incesto. além do mal feito a Filipe, que tinha um filho com essa mulher; e em um agravo do mal o fato de ser seu irmão, seu meio-irmão por parte de pai, mas não de mãe (veja Salmos 50.20). Foi por este pecado que João o censurou; não por insinuações tácitas e indiretas, mas em termos claros. “Não te é lícito possuí-la”. Ele lhe imputa isto como um pecado; ele não disse: Não é honrado, ou: Não é seguro, mas sim: Não é lícito – a corrupção do pecado, por ser a transgressão da lei, é a pior coisa que há. Esta era a iniquidade de Herodes, o seu pecado apreciado, e por isso João Batista lhe fala desse particular. Observe:

(1) Aquilo que pela lei de Deus é ilícito às outras pessoas, pela mesma lei é ilícito par a os príncipes e para os homens mais importantes. Aqueles que governam não devem esquecer que nada são, além de homens, e sujeitos a Deus. Em outras palavras, corromper a esposa de outro homem não é lícito para você, nem para o seu menor súdito. Não existe a prerrogativa de infringir as leis de Deus – nem mesmo para os reis maiores e mais tirânicos.

(2) Se os príncipes e homens importantes infringirem a lei de Deus, é muito adequado que eles sejam informados disso pelas pessoas apropriadas, e de uma maneira apropriada. Assim como eles não estão acima dos mandamentos da Palavra de Deus, também não estão acima das censuras dos seus ministros. Não é adequado, na verdade, dizer a um rei: “Tu és vil” (Jó 34.18, versão TB), não mais do que chamar a um irmão de raca, ou chamá-lo de louco; não é adequado, enquanto o rei se conservar na esfera na sua própria autoridade, denunciá-lo. Mas é adequado que, por aqueles cujo ministério seja este, eles saibam o que é ilícito, e que saibam com adequação: “Tu és este homem”; pois o versículo que segue (Jó 34.19) diz que Deus (cujos agentes e embaixadores são ministros leais) não faz acepção da pessoa de príncipes, nem estima o rico mais do que o pobre.

2.A prisão de João devido à sua fidelidade (v. 3). Herodes prendeu João quando ele estava pregando e batizando. Fez com que o seu trabalho chegasse ao fim, manietou-o e encerrou-o no cárcere; parcialmente para satisfazer a sua própria vingança, e parcialmente para agradar a Herodias, que, entre os dois, parecia ser a mais inflamada contra João; foi por ela que ele fez isso. Observe:

(1) As censuras leais, se não traz em frutos, normalmente provocam; se não fazem o bem, são interpretadas como afrontas, e aqueles que não se curvam à censura se imporão diante de quem os censura e os odiarão, como Acabe odiou a Micaías (1 Reis 22.8; veja Provérbio 9.8; 15.10.12). A verdade produz ódio.

(2) Não é novidade que os ministros de Deus sofram o mal por fazerem o bem. Os problemas persistem sobre aqueles que são mais diligentes e fiéis na realização do seu dever (Atos 20.20). Talvez alguns dos amigos de João o culpassem por ter sido imprudente ao censurar o tetrarca, e lhe dissessem que ele teria feito melhor ficando calado em lugar de provocar Herodes, cujo caráter ele conhecia muito bem. João foi, assim, privado da sua liberdade. Mas rejeitemos essa prudência que impede que os homens realizem o seu trabalho corno magistrados, ministros, ou amigos cristãos; eu acredito que o próprio coração de João não o censurava por isso, mas esse testemunho da sua consciência tornou mais fácil o seu sofrimento, pois ele sofreu por fazer o bem, e não “como o que se entremete em negócios alheios” (1 Pedro 4.15).

3.A restrição que impedia Herodes de descarregar toda a sua ira contra João (v. 5).

(1) Ele teria mandado matá-lo. Talvez essa não fosse a sua intenção a princípio, quando o aprisionou, mas a sua vingança foi gradativamente chegando a este nível. Observe que o caminho do pecado, especialmente o pecado da perseguição, é descendente; e quando o respeito aos ministros de Cristo é abandonado e esquecido em alguma situação, o resultado final faz com que o homem prefira ser um cão a ser o culpado por tal situação (2 Reis 8.13).

(2) O que impedia Herodes era o seu medo da multidão, porque eles consideravam João um profeta. Não foi porque ele temesse a Deus (se ele temesse a Deus, não teria aprisionado a João), nem porque temesse a João, embora tivesse senti do certo respeito por ele (a sua luxúria superou isso), mas porque ele temia a multidão – ele tinha medo por si mesmo, pela sua própria segurança e pela segurança do seu governo, pois sabia que o seu abuso de poder já o tinha tornado odioso ao povo, cuja raiva, já bastante inflamada, poderia, com uma provocação suficiente – como a de matar o profeta -, explodir em uma revolta. Observe que:

[1]. Os tiranos têm os seus medos. Aqueles que são, e fingem ser, o terror dos poderosos são, muitas vezes, o maior de todos os terrores para si mesmos; e quando eles mais desejam ser temidos pelo povo, é quando sentem mais medo.

[2] Os homens maus evitam os atos mais malévolos simplesmente pelo seu próprio interesse secular, e não por qualquer consideração a Deus. Uma preocupação pelo seu conforto, crédito, riqueza e segurança, como seu princípio dominante, assim como os afasta de muitos deveres, também os afasta de muitos pecados, os quais, não fosse por isto, não evitariam; e esta é a única razão pela qual os pecado­ res não são demasiadamente ímpios (Eclesiastes 7.17). O perigo do pecado que se insinua aos sentidos, ou somente à imaginação, é que ele influencia mais os homens do que aquilo que pode levá-los à fé. Herodes temia o fato de que levar João à morte pudesse suscitar uma revolta do povo, o que não ocorreu; mas ele nunca temeu que isto pudesse suscitar uma revolta na sua própria consciência, o que realmente veio a acontecer (v. 2). Os homens temem ser mortos por determinadas coisas; porém, mu­ itas vezes, não temem ser amaldiçoados por elas.

4.O estratagema de levar João à morte. João Batista ficou muito tempo na prisão e, contra a liberdade individual (que, bendito seja Deus, nos é garantida por lei nesta nação), não podia ser julgado nem libertado sob fiança. Avalia-se que ele tenha permanecido um ano e meio como prisioneiro, o que era praticamente o mesmo período de tempo que ele tinha passado no seu ministério público, desde o seu início. Aqui nós temos o relato da sua libertação, não por nenhuma absolvição, mas pela morte, que põe fim a todos os problemas de um bom homem, onde “os presos juntamente repousam e não ouvem a voz do exator” (Jó 3.18).

Herodias traçou o plano; a sua vingança implacável estava sedenta do sangue de João, e não seria satisfeita com menos do que isto. Interfira com os apetites carnais, e eles se transformam nas mais bárbaras paixões. Herodias era uma mulher, uma prostituta e mãe das prostituições, que estava sedenta do sangue dos santos (Apocalipse 17.5,6). Herodias planejou executar o assassinato de João de maneira tão artificial para, simultaneamente, salvar o nome de Herodes e pacificar o povo. Uma desculpa ruim ainda é melhor do que nenhuma. Mas eu penso que se a verdade fosse conhecida, o próprio Herodes faria parte do plano, e com todas as suas desculpas de surpresa e tristeza, estava secretamente de acordo com o plano, e sabia de antemão o que lhe seria pedido. E a sua desculpa do juramento e do respeito aos seus convidados não era nada além de fingimento. Mas se ele caiu na cilada antes de ter se dado conta, porque isto era o tipo de coisa que ele podia ter evitado e não o fez, ele é, com justiça, considerado culpado de toda a trama. Embora Jezabel tenha levado Nabote ao seu fim, ao tomar posse da vinha, o próprio Acabe se torna participante do assassinato. Assim, embora Herodias tenha planejado a decapitação de João, se Herodes consentiu com isto, e ficou satisfeito com isto, ele não foi apenas um auxiliar, masco-autor do assassinato com ela. Bem, com a cena se desenrolando nos bastidores, vejamos como ela foi encenada, e de que maneira. Aqui, temos:

(1) A dança da jovem como um presente a Herodes, no seu aniversário. Aparentemente, o aniversário de Herodes era celebrado com alguma solenidade – para honrar o dia precisa haver, como é usual, um baile na corte; e, para dar graça à solenidade, a filha de Herodias dançou diante dos convidados; e sendo a filha da rainha, houve uma condescendência maior do que a usual. Observe que as ocasiões de festa e celebração carnal são ocasiões convenientes para se colocar em execução os planos malignos contra o povo de Deus. Quando o rei ficou embriagado pelas muitas garrafas de vinho que consumiu, ele estendeu a sua mão com os escarnecedores (Oseias 7.5), pois “um divertimento é para o tolo praticar a iniquidade” (Provérbio 10.23). Quando o coração dos filisteus estava alegre, chamaram Sansão para ofendê-lo. O massacre parisiense ocorreu durante a celebração de umas bodas. A dança dessa jovem agradou a Herodes. Não sabemos quem dançou com ela, mas ninguém agradou a Herodes mais que ela, com a sua dança. Observe que um coração vaidoso e grosseiro está apto a apaixonar-se profundamente pela luxúria da carne e dos olhos, e quando isto acontece, cede ainda mais à tentação; pois é dessa maneira que Satanás consegue se apossar de alguém (veja Provérbio 23.31-33). Herodes estava alegre, e nada lhe era mais agradável que aquilo que alimentasse a sua vaidade.

(2J A promessa impensada e tola que Herodes fez a essa jovem devassa, de que lhe daria qualquer coisa que ela lhe pedisse, confirmando a promessa com juramento (v. 7). A obrigação que Herodes assumiu era muito extravagante; de maneira alguma, ele agiu como o homem prudente que tem medo de se prender com as palavras da sua boca (Provérbio 6.2), muito menos um homem bom que teme o juramento (Eclesiastes 9.2). Colocar esta promessa em branco na mão da jovem e permitir que ela extraísse dele o que bem desejasse era uma recompensa grande demais para uma obra de mérito tão pequeno; e sou levado a pensar que Herodes não teria sido culpado de tal absurdo se não tivesse sido instruído por Herodias, assim como o tinha sido a jovem. Observe que os juramentos e promessas são coisas que enredam, e, quando feitos de forma impensada, são o resultado da corrupção interior, e dão ocasião a muitas tentações. Portanto, não jure nunca, de maneira nenhuma, para que você não tenha a chance de dizer: “Foi erro” (Eclesiastes 5.6).

(3) O pedido sangrento que a jovem fez da cabeça de João Batista (v. 8). Ela tinha sido instruída pela sua mãe de antemão. Triste é a situação dos filhos cujos pais são seus conselheiros para que procedam impiamente, como os pais de Acazias (2 Crônicas 22.3); que os orientam a pecar, e incentivam o seu pecado, e lhes dão maus exemplos; pois a natureza corrupta será mais prontamente despertada por más orientações do que será restrita e envergonhada por boas orientações. As crianças não devem obedecer aos seus pais contra o Senhor, mas, se estes ordena­ rem que seus filhos pequem, eles devem dizer, como Levi disse ao seu pai e à sua mãe: “Nunca os vi”.

Tendo Herodes concedido um pedido à jovem, e Herodias lhe dado as instruções, ela pede, num prato, a cabeça de João Batista. Talvez Herodias temesse que Herodes se cansasse dela (pois a luxúria costuma enjoar e trazer enfado), e então faria da censura de João Batista uma desculpa para livrar-se dela. Para impedir isso, Herodias planejou firmar o compromisso de Herodes com ela, envolvendo-o no assassinato de João. Então, João devia ser decapitado – esta seria a morte pela qual ele deveria glorificar a Deus; e por ser ele o primeiro que morreu depois do início do Evangelho, embora os mártires morressem de diversas maneiras, nem tão fáceis nem tão honrosas quanto esta, a sua é apresentada para todo o resto (Apocalipse 20.4), onde se lê sobre as almas daqueles que foram “degolados pelo testemunho de Jesus”. Mas isto não bastava, o ato também deveria ser agradável, e não apenas uma vingança, mas um capricho que deveria ser satisfeito; a cabeça deveria ser dada a ela num prato, servida em sangue, como um prato de carne no banquete, ou molho para os outros pratos. Ele estaria reservado como o terceiro prato da noite, servido junto com as raridades. João não deve ter um julgamento, nem audiência pública; nenhuma forma de lei ou justiça deve acrescentar uma solenidade à sua morte; mas ele é julgado, condenado e executado num instante. João Batista estava tão mortificado para o mundo, que a morte não seria nenhuma surpresa para ele, mesmo que ocorresse de forma tão repentina. Herodes tinha que conceder à jovem a cabeça de João Batista, e ela consideraria isto como uma recompensa pela sua dança, e não desejaria mais nada.

(4) Herodes atende ao pedido da jovem (v. 9). O rei estava pesaroso, pelo menos foi isto que ele demonstrou; mas, devido ao juramento, ordenou que ela fosse atendi­ da. Aqui estão:

[1]. Uma preocupação fingida por João. O rei estava pesaroso. Observe que muitos homens pecam com pesar, nunca tendo nenhum pesar verdadeiro pelos seus pecados; eles sentem pesar por pecar, mas são completamente estranhos ao pesar piedoso; pecam com relutância, e ainda assim continuam pecando. O Dr. Hammond sugere que um dos motivos do pesar de Herodes era o fato de ser este o banquete do seu aniversário, e seria um mau agouro derramar sangue nesse dia, que, como outros dias de alegria, costumava ser honrado com atos de clemência.

[2]. Uma consciência fingida pelo seu juramento, com uma demonstração ilusória de honra e honestidade. Ele precisa fazer alguma coisa, devido ao juramento. Trata-se de um grande engano pensar que um juramento mal-intencionado irá justificar uma ação mal-intencionada. Estava tão necessariamente implícito, de maneira que não precisava ser expresso, que ele faria por ela qualquer coisa que fosse lícita e honesta; e quando ela exigiu algo que não o era, ele devia ter declarado (e o teria feito honradamente) que o juramento era nulo e vazio, e teria cessado a sua obrigação para com ele. Nenhum homem pode se colocar na obrigação de pecar, porque Deus já ordenou enfaticamente que os homens não pequem.

[3]. Uma maldade real em conformidade com as más companhias. Herodes cedeu, não tanto pelo juramento, mas porque ele era um homem público, e como uma atitude de respeito àqueles que se sentavam para a refeição com ele. Ele concedeu a exigência para não dar a impressão, diante deles, de que tinha rompido o seu compromisso. Observe que uma questão de honra, para alguns, é muito superior a uma questão de consciência. Aqueles que se sentavam para a refeição com ele provavelmente estavam tão satisfeitos com a dança quanto ele, e, portanto, teriam desejado que ela fosse satisfeita nessa brincadeira, e talvez estivessem tão desejosos quanto ela de ver João Batista decapitado. No entanto, nenhum deles teve a honestidade de intervir, como deveriam ter feito, para impedir isso, como fizeram os príncipes de Jeoaquim (Jeremias 36.25). Se tivessem estado ali pessoas do povo, elas teriam livrado este Jônatas, como em 1 Samuel 14.45.

[4]. Uma verdadeira má intenção para com João Batista por trás da concessão do desejo, caso contrário Herodes teria encontrado desculpas suficientes para desobrigar-se da sua promessa. Observe que embora uma mente pecadora nunca deseje uma desculpa, ainda assim a verdade é que todo homem “é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência” (Tiago 1.14). Talvez Herodes – refletindo sobre a extravagância da sua promessa, na qual ela poderia basear uma exigência de uma grande soma em dinheiro, algo que ele adorava muito mais do que a João Batista – estivesse satisfeito por se livrar da promessa tão facilmente; e, portanto, imediatamente dá a autorização da decapitação de João Batista, aparentemente não por escrito, mas apenas verbalmente; tão pouca consideração foi dedicada àquela preciosa vida; ele “ordenou que se lhe desse”.

(5) A execução de João, em seguida à autorização (v. 10). Ele enviou alguém para decapitar João Batista na prisão. Provavelmente a prisão era muito próxima, às portas do palácio; e até lá foi enviado um oficial para cortar a cabeça desse grande homem. João deve ter sido decapitado rapidamente, para agradar a Herodes, que estava à espera, até que isto fosse feito. Aconteceu à noite, pois era a hora da ceia, provavelmente depois da ceia. Realizou-se na prisão, e não no lugar usual para as execuções, por medo de uma revolta. Uma grande quantidade de sangue inocente, de sangue de mártires, foi igualmente derramado às escondidas, sangue que, quando Deus vier para inquirir do derramamento de sangue, “a terra descobrirá o seu sangue e não encobrirá mais aqueles que foram mortos” (Isaias 26.21; veja Salmos 9.12).

Assim essa voz foi silenciada, assim essa luz ardente e brilhante foi extinta; assim esse profeta, esse Elias do Novo Testamento, foi sacrificado pelo rancor de uma mulher infiel e dominadora. Assim aquele que era grande diante do Senhor morreu como morre um tolo, com suas mãos amarradas e seus pés acorrentados; e assim como um homem cai diante dos homens maus, também ele caiu, um verdadeiro mártir, diante das más intenções e dos maus propósitos; morrendo não pela profissão de sua fé, mas pelo cumprimento do seu dever. No entanto, embora o seu trabalho tenha passado tão rapidamente, ele se realizou e o seu testemunho foi concluído, pois até então nenhuma das testemunhas de Deus tinha sido assassinada. E Deus extraiu algo de bom disso, pois os discípulos de João Batista que, enquanto ele viveu, mesmo na prisão, se mantinham próximos a ele, agora, depois da sua morte, se uniram sinceramente a Jesus Cristo.

5.O que foi feito dos pobres restos desse bendito santo e mártir. Sendo a sua cabeça separada do corpo:

(1) A jovem trouxe triunfalmente a cabeça à sua mãe, como um troféu das vitórias da sua maldade e vingança (v. 11). Jerome ad Rufin relata que quando Herodias recebeu a cabeça de João Batista, ela se dedicou à bárbara diversão de furar a sua língua com uma agulha, como Fúlvia fez com a de Túlio. As mentes sanguinárias se satisfazem com visões sangrentas, aquelas que os espíritos piedosos evitam e temem. Algumas vezes, a ira insaciável de perseguidores sanguinários caiu sobre os cadáveres dos santos, e se divertira m com eles (Salmos 79.2). Quando as testemunhas são assassinadas, aqueles que habitam na terra se regozijam sobre eles, e se alegram (Apocalipse 11.10; Salmos 14.4,5).

(2) Os discípulos sepultaram o corpo, e, em lágrimas, foram anunciar a notícia ao Senhor Jesus. Os discípulos de João jejuavam frequentemente enquanto o seu mestre estava na prisão, enquanto o esposo estava afastado deles, e eles oravam fervorosamente pela sua libertação, como a igreja fez pela libertação de Pedro (Atos 12.5). Eles tinham livre acesso a ele na prisão, o que era um consolo para eles; mas eles queriam vê-lo em liberdade, para que ele pudesse pregar aos outros; mas agora, de repente, todas as suas esperanças são frustradas. Os discípulos choram e lamentam, enquanto o mundo se alegra. Vejamos o que eles fizeram.

[1]. Eles sepultaram o corpo. Observe que existe um respeito devido aos servos de Cristo, não somente enquanto eles vivem, mas aos seus corpos e às suas memórias, quando morrem. Sobre os dois primeiros mártires do Novo Testamento, é particularmente registrado que eles foram sepultados decentemente: João Batista, por seus discípulos, e Estêvão, por varões piedosos (Atos 8.2). Mas não houve consagração dos seus ossos ou de outros restos como relíquias, uma superstição que surgiu muito tempo depois, quando o inimigo já havia semeado as ervas daninhas. Este exagero, a respeito dos cadáveres dos santos, destrói; embora eles não devam ser desonra­ dos, também não devem ser divinizados.

[2] Eles foram e anunciaram a Jesus – não tanto para que Ele pudesse fugir para a sua própria segurança (sem dúvida, Ele tinha ouvido isso de outros, todo o povo falava disso), mas para que pudessem receber consolo dele, e serem aceitos entre os seus discípulos. Devemos considerar que, em primeiro lugar, quando alguma coisa nos aflige, em qualquer ocasião, é nosso dever e nosso privilégio informar isso a Cristo. Será um alívio para o nosso espírito sobrecarregado poder desabafar com um amigo com quem nos sentimos à vontade. A morte de um amigo ou a falta de cortesia de alguém, um consolo perdido ou a amargura, devemos contar a Jesus, que já conhece o fato, mas saberá, por nossa boca, a per­ turbação que aflige as nossas almas em meio à adversidade. Em segundo lugar, nós devemos tomar cuidado para que a nossa religião e a profissão dela não pereçam com os nossos ministros; quando João morreu, os discípulos dele não retornaram aos seus familiares, mas resolveram perseverar na fé. Quando os pastores são mortos, as ovelhas não precisam se espalhar enquanto tiverem o grande Pastor para seguir, aquele que ainda é o mesmo (Hebreus 13.8,20). A remoção de ministros deveria nos levar para mais perto de Cristo, em uma comunhão mais próxima com Ele. Em terceiro lugar, o consolo, em outras circunstâncias altamente valioso, algumas vezes nos é negado, porque se coloca entre nós e Cristo, e pode afastar aquele amor e aquele afeto que são devidos somente a Ele. João tinha, durante muito tempo, orientado seus discípulos em direção a Cristo, e os tinha entregado a Ele, mas eles não poderiam abandonar o seu antigo mestre enquanto ele vivesse; por isso João foi removido, para que eles pudessem ir a Jesus, a quem algumas vezes eles tinham imitado e invejado, por causa de João. É melhor ser levado a Cristo pela falta ou pela perda, do que não ser levado a Ele por motivo nenhum. Se os nossos mestres deixarem de ser a nossa cabeça, este será o nosso consolo: nós temos um Mestre no céu, e Ele mesmo é a nossa Cabeça.

Josefo menciona a história da morte de João Batista (Antiq., liv. 18, cap. 7) e acrescenta que a destruição do exército de Herodes, na sua guerra com Aretas, rei da Petréia (cuja filha era a mulher de Herodes, que ele rejeitou para poder receber Herodias), em geral era considerada pelos judeus como sendo um justo julgamento sobre ele, por levar João Batista à morte. Tendo Herodes se recusa­ do a obedecer ao imperador, instigado por Herodias, foi destituído do seu governo e ambos foram expulsos para Lyon, na França; o que, segundo Josefo, foi o seu justo castigo por ter dado ouvidos aos pedidos dela. E, finalmente, a respeito da filha de Herodias, diz-se que, quando andava sobre o gelo, no inverno, o gelo se rompeu, e ela mergulhou até o pescoço, que foi cortado pelo gelo pontiagudo. Deus exigiu a sua cabeça (diz Dr. Whitby) em troca da de João Batista; o que, se for verdade, pode ser considerada uma providência admirável.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.