PSICOLOGIA ANALÍTICA

O CHEIRO DA PERCEPÇÃO

A ação conjunta dos neurônios faz o cérebro transformar, quase que instantaneamente, as mensagens sensoriais em impressões conscientes.

O cheiro da percepção

Quando vemos o rosto de um ator conhecido, ouvimos a voz de um amigo ou sentimos o aroma de um prato apetitoso, mento é instantâneo. Uma fração de segundo depois que os olhos, os ouvidos, o nariz, a língua ou a pele são estimulados, sabemos estar diante de um objeto conhecido, se ele representa perigo ou não. Como esse reconhecimento se dá de maneira tão rápida e precisa mesmo quando os estímulos são complexos e o contexto do qual emergem varia?

Sabemos que o córtex cerebral (a cama- da externa do cérebro) analisa inicialmente as mensagens sensoriais, mas apenas começamos a entrever de que maneira o cérebro se comporta após o puro e simples reconhecimento das características da mensagem (isto é, como combina as percepções sensoriais com a experiência vivida e as expectativas para identificar tanto o estímulo como seu significado particular).

Os estudos realizados durante décadas por meu grupo na Universidade da Califórnia em Berkeley permitem afirmar que a percepção não pode ser compreendida examinando-se apenas as propriedades individuais de cada neurônio, segundo uma abordagem microscópica da pesquisa que hoje tende a dominar a neurociência. Constatamos que a percepção depende da atividade simultânea e cooperativa de milhões de neurônios espalhados em todas as circunvoluções do córtex. Essa atividade global pode ser identificada, medida e interpretada somente se, além da visão microscópica do cérebro, trabalharmos no nível macroscópico. No campo da música, existe uma analogia com esse tipo de abordagem. Para apreciar a beleza de um coral, não basta escutar as vozes individuais dos cantores: deve-se escutá-los em conjunto, já que as diversas partes se relacionam entre si.

Nossos estudos nos permitiram descobrir também uma atividade cerebral caótica, um comportamento complexo que parece casual, mas que na realidade possui uma ordem oculta. Essa atividade é evidente na tendência que amplos grupos de neurônios têm de passar brusca e simultaneamente de um quadro complexo de atividade a outro, em resposta ao menor dos estímulos. Tal capacidade é característica primária de muitos sistemas caóticos. Ela não danifica o cérebro: acreditamos, ao contrário, que seria essa justamente a chave da percepção. Avançamos também a hipótese de que ela seja a base da capacidade do cérebro de responder de maneira flexível às solicitações do mundo externo e de gerar novos tipos de atividade – incluída a concepção de novas ideias.

PELO NARIZ

Para compreender os mecanismos da percepção, é necessário conhecer as propriedades dos neurônios envolvidos nesse pro- cesso. Meus colaboradores e eu nos concentramos no estudo dos neurônios do sistema olfativo. Há tempos sabemos que, quando um animal ou um ser humano sente o cheiro de uma substância, as moléculas desta são captadas por alguns neurônios específicos misturados aos numerosos receptores presentes nas vias nasais. Esses receptores são especializados em reagir a uma dada categoria de odores. Os neurônios excitados desencadeiam potenciais de ação, isto é, impulsos que se propagam ao longo de seus prolongamentos, os axônios, até uma área específica do córtex, o bulbo olfativo. O número de receptores ativados representa um índice da intensidade do estímulo, enquanto sua localização nas fossas nasais é associada à natureza do odor. Em resumo, cada cheiro se expressa mediante uma configuração espacial da atividade dos receptores, que, por sua vez, é transmitida ao bulbo. O bulbo olfativo é que transmite ao córtex olfativo a análise de cada estímulo. Daí, novos sinais são enviados a muitas partes do cérebro, entre as quais o córtex entorrinal, onde os sinais se combinam com os de outros sistemas sensoriais.

O resultado é uma Gestalt, uma percepção carregada de significado, única para cada indivíduo. Para um cão, reconhecer o cheiro de uma raposa pode evocar o alimento e a espera de uma refeição. Em um coelho, o mesmo cheiro desperta lembranças de fuga e o medo de ser agredido.

Todas essas noções forneceram um ponto de partida válido para uma análise mais detalhada do olfato, mas não resolvem duas questões importantes. A primeira é o clássico problema de conseguir distinguir de que maneira o cérebro diferencia um cheiro particular no meio de todos os outros que o acompanham.

Além disso, como o cérebro consegue generalizar e tratar uma informação equivalente que provém de receptores diferentes? Devido à turbulência existente nas correntes de ar que atravessam as fossas nasais, somente alguns entre os numerosos receptores sensíveis a determinado odor são excitados durante uma inspiração, e essa situação varia imprevisivelmente entre uma inspiração e outra. Como faz o cérebro para estabelecer que sinais provenientes de diversos grupos de receptores se referem todos ao mesmo estímulo? Nossas pesquisas começam a oferecer respostas para ambos os problemas.

Os experimentos demonstram claramente que todos os neurônios contribuem para a geração de cada percepção olfativa. Em outros termos, a informação sobre o estímulo é contida em uma configuração de neurônios ativados que interessa a todo o bulbo e não apenas a um pequeno subconjunto de neurônios que podem identificar as características do estímulo e excitar-se exclusivamente, por exemplo, quando expostos a odores como o da raposa.

Além disso, essa atividade coletiva dos neurônios, apesar de refletir a natureza do odor, não é determinada somente pelo estímulo. A função do bulbo se auto organiza e é bem controlada por fatores internos, entre os quais a sensibilidade dos neurônios ao estímulo.

Atualmente podemos entrever a dinâmica geral da percepção. O cérebro procura a in- formação, principalmente orientando o indivíduo a olhar, escutar e cheirar. Esse processo é produto de uma atividade que se organiza autonomamente e se realiza no sistema límbico (a parte do cérebro que inclui o córtex entorrinal, envolvida nos estados emocionais e na formação da memória), que transmite uma ordem de busca aos sistemas motores. Quando a ordem é transmitida, o sistema límbico emite a chamada mensagem de referência, que coloca em estado de alerta todos os sistemas sensoriais para que se preparem para responder à nova informação.

Efetivamente, eles respondem à descarga de impulsos com cada neurônio de uma dada área que participa da atividade coletiva. A atividade sincrônica em cada sistema é, portanto, retransmitida ao sistema límbico, onde se combina com sinais provenientes de outros sistemas sensoriais, analogamente gerados, para formar um todo rico de significado. Depois, em uma fração de segundo, pede-se outra busca de informação e os sistemas sensoriais são novamente preparados por outros estímulos aferentes.

A consciência poderia ser a experiência subjetiva desse processo recorrente de comando motor, referência e percepção. Se assim é, permite que o cérebro planeje cada ação sucessiva e se prepare para ela com base em ações passadas, estímulos sensoriais e sínteses perceptivas. Em resumo, o ato da percepção não é simplesmente a reprodução de um estímulo que está chegando, mas um passo no caminho que o cérebro percorre para crescer, organizar-se e tomar contato com o ambiente, que depois modifica em seu benefício.

O poeta William Blake escreveu: “Se as portas da percepção fossem eliminadas, cada coisa se apresentaria ao homem como efetivamente é: infinita”. Uma eliminação desse tipo não é desejável. Sem a proteção das portas da percepção, isto é, sem a atividade caótica autocontrolada do córtex do qual nas- cem as percepções, os seres humanos e os animais seriam dominados pelo infinito.

REDE DE SINAPSES

Os neurônios do sistema olfativo trocam informações através de uma rica rede de sinapses, isto é, junções   nas quais os sinais fluem de um neurônio para o outro.

De maneira geral, os sinais passam de prolongamentos chamados axônios para projeções denominadas dendritos; mas, às vezes, passam de dendrito a dendrito ou de axônio a axônio. Essa ampla troca de informações conduz a uma atividade coletiva. No desenho, bastante esquematizado, o vermelho indica que um neurônio está excitando outra célula e o preto, que o neurônio está inibindo a outra.

O cheiro da percepção2 

DENTRO DO CÉREBRO

As ondas do eletroencefalograma refletem a excitação média de grupos de neurônios. Estímulos excitatórios no nível das sinapses geram correntes elétricas que fluem em círculos fechados no interior do neurônio receptor em direção ao axônio, atravessam a membrana celular, atingem o espaço extracelular e retornam para a sinapse (setas em amarelo). Os estímulos inibitórios criam correntes que se propagam na direção oposta (setas em azul). No interior dos neurônios, a zona de disparo soma a intensidade das correntes (refletida nas diferenças de voltagem através da membrana) e disparará um potencial de ação se a soma for suficientemente positiva.

Os eletrodos aplicados ao cérebro registram essas mesmas correntes no espaço extracelular. As neuroimagens resultantes indicam a excitação de grupos inteiros de neurônios, não de células individuais, pois as áreas extracelulares nas quais são registrados contêm correntes provenientes de milhares de neurônios.

O cheiro da percepção3

WALTER J. FREEMAN – é doutor em neurobiologia, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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