PSICOLOGIA ANALÍTICA

A NEUROCIÊNCIA DO AFETO

Carinho e cuidado nos primeiros anos de vida são essenciais para a formação dos circuitos cerebrais; caso não sejam ressignificadas, experiências traumáticas podem deflagrar transtornos psíquicos.

A neurociência do afeto

Hiperatividade, déficit de atenção, autismo, transtornos alimentares, esquizofrenia, ansiedade e depressão formam um rosário de problemas sobre os quais se estendia, antigamente, um véu de silêncio. Hoje, ocupam grande espaço na mídia e, em geral, são atribuídos a traumas vividos na primeira infância. Até recentemente, porém, essa afirmação carecia de evidências científicas. No entanto, está cada vez mais claro que, caso não sejam ressignificadas, as experiências traumáticas podem influir decisivamente nas conexões do cérebro infantil e no equilíbrio dos neurotransmissores e, em muitos casos, aumentar a vulnerabilidade a transtornos psíquicos em fases posteriores da vida.

Pesquisas realizadas nas últimas décadas mostram que, na primeira infância, experiências com forte conteúdo afetivo dirigem o desenvolvimento psicológico da criança. Nos anos 40, René Spitz, do Instituto Psicanalítico de Nova York, estudou centenas de bebês nascidos em um orfanato. E observou que um em cada dez manifestava uma atitude de retraimento em relação ao meio. Além disso, a maioria sofreu atraso no desenvolvimento psíquico geral.

 SENSAÇÃO DE VAZIO

Para determinar a causa desses transtornos, Spitz realizou um estudo de longo prazo com crianças de orfanato. Descobriu que, além de estímulos intelectuais, lhes faltava principalmente carinho emocional. Essas primeiras pesquisas sugerem claramente que as crianças adaptam o próprio comportamento ao meio circundante durante as primeiras experiências emocionais após o nascimento. Nos anos 50 e 60, os pesquisadores Harry e Clara Harlow, da Universidade de Wisconsin, estudaram chimpanzés para saber o que ocorria quando a cria perdia precocemente os genitores. Sem entrar na questão do quanto cruéis e antiéticos foram os experimentos, os resultados confirmaram as observações dos estudos com os bebês de orfanato: os chimpanzés que cresceram sem a mãe apresentavam distúrbios comportamentais crônicos. Brincavam menos, eram mais ansiosos e me- nos interessados em explorar o ambiente que os congêneres criados com a família. Entre as fêmeas, poucas procriaram e, quando o fizeram, não souberam cuidar da cria.

Mas uma pergunta intrigava os pesquisadores: como a presença ou ausência de experiências emocionais pode acarretar alterações drásticas de comportamento? Nos últimos anos, neurobiólogos começaram a investigar a influência das experiências emotivas e processos de aprendizagem precoces no cérebro de animais. Já se sabia que os neurônios podem estabelecer conexões distintas quando, em certas fases do desenvolvimento, faltam estímulos para as várias regiões do córtex cerebral. Pesquisadores agora invocam a intervenção do sistema límbico, que desempenha papel fundamental no controle do comporta- mento na aprendizagem e na configuração da memória.

Nosso grupo foi o primeiro a estudar como se formam os vínculos entre filhotes e progenitores, fenômeno conhecido como imprinting filial. Apresentamos a pintinhos recém-nascidos gravações que simulavam os sons de uma galinha, ao mesmo tempo que colocamos uma galinha de pano para que eles se aconchegassem. Como esperado, os pintinhos associaram o estímulo sonoro até então privado de significado – a voz artificial da mãe – à situação emocional, assimilando o imprinting. Logo foram capazes de distinguir os ruídos maternos de outros estímulos acústicos. Corriam em direção à “mãe” tão logo os ouviam.

Queríamos saber o que se passa no cérebro dos animais durante esse processo. Descobrimos mudanças consideráveis na arquitetura neuronal de algumas áreas cerebrais que, nos mamíferos, correspondem ao córtex associativo. O som aprendido ativa muito mais essas zonas nos animais que assimilaram o imprinting que nos animais do grupo de controle, isto é, sem uma mãe artificial substituta. Além disso, os neurônios dos primeiros reagem ao estímulo com impulsos elétricos menos intensos, ou seja, são mais sensíveis.

A mudança provavelmente ocorre por uma reorganização das sinapses. De fato, nos primeiros 90 minutos depois do início do imprinting filial, aumentam as conexões de uma área do cérebro dos animais que nos mamíferos corresponde ao setor anterior do córtex cingular, parte do sistema límbico. O sistema nervoso parece querer captar e fixar no maior número possível de canais o novo estímulo que carrega um valor de sobrevivência.

Durante a aprendizagem, as sinapses diminuem novamente. Com uma semana de vida, os pintinhos com imprinting apresentaram menos sinapses excitatórias nas áreas associativas do córtex que os animais do grupo de controle. Do excesso de ofertas de conexões sinápticas inespecíficas só permanecerão ativas as que processam estímulos emocionais importantes. Elas serão integradas à rede neuronal, podendo ser ainda mais reforçadas. As inúmeras conexões não envolvidas no estímulo, por sua vez, serão eliminadas. Assim, a rede neuronal poderá reagir de forma mais precisa aos estímulos significativos.

CONDIÇÕES ADVERSAS

Nos animais que cresceram sem contatos sociais, a falta dessa seleção de sinapses os impede de otimizar seus circuitos límbicos. O incremento e a eliminação sináptica só ocorrem quando o animal pode associar o estímulo acústico à situação emocional positiva. Um estímulo afetivamente neutro não basta: se os sons não são acompanhados da presença da galinha artificial, as mudanças neurais não ocorrem nos filhotes. Por outro lado, bastam 30 minutos de estímulo acústico e a presença da mãe de pano para iniciar a seleção das sinapses. As primeiras experiências emocionais contribuem para determinar o padrão fundamental dos circuitos neuronais no sistema límbico durante o início do desenvolvimento. Esses padrões determinam quais modelos de comportamento e de aprendizado serão possíveis mais tarde.

A bioquímica cerebral também é alterada no imprinting filial. A mudança afeta principalmente os neurotransmissores. Após ouvir o som da galinha, os pintinhos com imprinting produzem mais glutamato que aqueles para os quais o som carece de sentido. A substância então ativa os receptores NMDA (N-metil-D-aspartato), o que serve para consolidar o vínculo emocional entre a cria e os progenitores. Se, durante a aprendizagem, o glutamato não se ligar aos receptores NMDA, os animais deixarão de associar o som à situação emocional e assim não há imprinting. Também nos humanos a seleção das sinapses é regida por processos de aprendizagem e aquisição de experiência. Nos primatas, são inúmeras as conexões criadas e de- pois eliminadas em várias áreas cerebrais e no sistema límbico em particular. Entretanto, a capacidade de adaptação do cérebro dos filhotes primatas tem um lado obscuro, pois é eficiente também em condições adversas; quando há, por exemplo, carência afetiva e experiências traumáticas. O resultado pode levar a erros de conexão no sistema límbico, capazes de provocar transtornos comportamentais e psíquicos.

Para verificar essa hipótese, estudamos filhotes de degu (Octodon degus), uma espécie de roedor comum no Chile. Os degus “falam” entre si de forma muito complexa: sua comunicação por meio de sons desempenha um papel importante na família e na colônia. Além disso, os genitores participam ativamente da criação dos filhotes.

CONVÍVIO SOCIAL

Separamos os pequenos degus da família durante períodos relativamente longos e em diversas fases do desenvolvimento. Quando examinamos o consumo de energia no cérebro dos filhotes separados, constatamos uma redução da atividade no sistema límbico. Investigamos as mudanças, ao longo do tempo, nas sinapses desses roedores. Em filhotes que crescem ao lado dos genitores e dos irmãos, o número de sinapses no córtex cerebral inicialmente aumenta, para depois diminuir. Se, ao contrário, nas primeiras se- manas de vida as crias são separadas dos pais por apenas algumas horas, observa-se um número maior dessas conexões. A situação é similar à observada nos pintinhos que não receberam imprinting filial. Também neste caso parece, portanto, que a experiência desagradável afeta as sinapses.

Outras partes do sistema límbico dos degus mudam em função da experiência emocional, como o núcleo accumbens, que colabora na gênese das compulsões; a amígdala, centro do medo e da agressividade; e o hipocampo, porta de entrada para as informações destinadas à memória. A longo prazo, o equilíbrio entre as regiões límbicas pode mu- dar com consequências imprevisíveis para a estabilidade psíquica.

O equilíbrio entre os neurotransmissores também pode ser modificado, particularmente entre dopamina e serotonina, substâncias reguladoras do processamento cerebral das emoções. Nos degus com carências emocionais alteram-se tanto a quantidade das fibras nervosas produtoras de serotonina ou de dopamina como a densidade dos respectivos receptores. Apenas três dias depois de algumas breves separações foram suficientes para aumentar o número de receptores de dopamina e serotonina em algumas partes do sistema límbico. É interessante lembrar que muitos transtornos psíquicos humanos exibem um desequilíbrio justamente dessas moléculas.

Todas essas mudanças biológicas podem influir diretamente no aprendizado e no convívio social e causar transtornos psíquicos, como sugerem os primeiros resultados das pesquisas em degus e ratos em condições de privação. Evidentemente não podemos realizar experimentos similares com humanos. Após a dissolução do bloco soviético, entre- tanto, pesquisadores estudaram bebês de orfanatos romenos e constataram redução análoga da atividade no sistema límbico anterior quando comparada à atividade nos bebês normais. Um déficit similar é encontrado em pacientes que sofrem de transtornos de atenção e de esquizofrenia.

À primeira vista, essas alterações do comportamento se assemelham incrivelmente aos sintomas de bebês hiperativos ou com déficit de atenção. É possível que experiências emocionais influam no desenvolvimento cerebral dos bebês da mesma forma que nos filhotes de outras espécies. Uma consequência dramática destas conexões cerebrais alteradas é a formação de uma rede neural mal estruturada que favoreça distúrbios comportamentais e de aprendizagem. O que poderia parecer ingênuo, portanto, tem sido comprovado: afeto faz bem à saúde mental.

 MEMÓRIA PERSISTENTE

O fenômeno do imprinting se distingue de outros processos de aprendizagem em aspectos característicos: ocorre em “fases sensíveis” da vida, bastando um breve contato com o estímulo, objeto ou situação para que fique fixado permanentemente na memória. Recém-nascidos de mães deprimidas podem se tornar emocionalmente carentes em razão da falta de tonalidade afetiva na voz materna. Os bebês podem distinguir o odor do peito da mãe do de outras mulheres, o que não ocorre naqueles amamentados com mamadeira.

 A neurociência do afeto2

KATHARINA BRAUN – é professora de neurobiologia da Universidade Otto von Guericke de Magdeburgo, Alemanha. JÖRG BOCK é neurocientista, pesquisador na mesma universidade.

 

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.