ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 12: 22-37

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O Pecado contra o Espírito Santo

 Nestes versículos, temos:

I – A gloriosa derrota de Satanás imposta por Cristo, na cura graciosa daquele que, por permissão divina, estava sob o poder e a possessão de Satanás (v. 22). Aqui observe:

1.O caso desse homem era muito triste, ele estava endemoninhado. Casos desse tipo ocorriam na época de Cristo mais do que era usual, para que o poder de Cristo pudesse ser mais enaltecido, e o seu objetivo de opor-se a Satanás e expulsá-lo, manifesto; e para que pudesse parecer mais evidente que Ele veio para desfazer as obras do diabo. Este pobre homem que estava endemoninhado era cego e mudo; um caso infeliz! Ele nem conseguia ver, para fazer as coisas, nem falar, para que os outros o ajudassem. Uma alma sob o poder de Satanás, e mantida cativa por ele, está cega às coisas de Deus, e muda para o trono da graça; não vê nada e não diz nada quanto a isto. Satanás cega os olhos da fé, e veda os lábios da oração.

2.A sua cura foi muito estranha, e ainda mais, porque foi repentina. Ele o curou. A derrota e a expulsão de Satanás são a cura das almas. E sendo removida a causa, imediatamente cessa o efeito; o cego e mudo viu e falou. A misericórdia de Cristo é diretamente contrária à maldade de Satanás; a sua graça, aos truques do diabo. Quando o poder de Satanás na alma se rompe, os olhos se abrem para ver a glória de Deus, e os lábios se abrem para dizer louvores a Ele.

II – A convicção que isso deu a toda a multidão: “Toda a multidão se admirava”. Cristo tinha realizado vários milagres deste tipo antes. Mas as suas obras não são menos maravilhosas, nem menos admiráveis, por serem frequentemente repetidas. A partir disso, as pessoas deduziram: “Não é este o Filho de Davi?” Em outras palavras: Não é este o Messias prometido, que nasceria de Davi? Este não é aquele que viria? Nós podemos interpretar isso:

1.Como uma pergunta de investigação; eles perguntaram: “Não é este o Filho de Davi?” Mas eles não esperaram uma resposta: as impressões eram convincentes, mas temporárias. A pergunta foi um bom início, mas, aparentemente, logo foi perdida e não se perseverou nela. Convicções como essas devem ser conduzidas à mente, e então provavelmente serão levadas ao coração. Ou:

2.Como uma pergunta afirmativa: “Não é este o Filho de Davi”? “Sim, certamente é, não pode ser outro; milagres como estes evidenciam claramente que o reino do Messias está se estabelecendo”. E essas eram as pessoas, o tipo comum de espectadores, que chegaram a tal conclusão, com base nos milagres de Cristo. Os ateus dirão: “Isto era porque eles eram menos observadores que os fariseus”. Não. A verdade era óbvia, e não exigia muita pesquisa. Mas era porque eles tinham menos preconceitos e eram menos influenciados pelos interesses mundanos. Tão claro e fácil foi feito o caminho para esta grande verdade de Cristo ser o Messias e Salvador deste mundo, que as pessoas comuns não poderiam se enganar; “os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão” (veja Isaias 35.8). Quem o procurou, o encontrou. É um exemplo da condescendência da graça divina, que as coisas que estavam ocultas aos sábios e prudentes fossem reveladas aos pequeninos. O mundo não conheceu a Deus através de sua própria sabedoria, e os sábios foram confundidos pelas coisas mais simples.

III – A crítica blasfema dos fariseus (v. 24). Os fariseus eram homens que aparentavam ter mais conhecimento da lei, e mais zelo por ela, que as demais pessoas; mas eles eram os inimigos mais inveterados de Cristo e da sua doutrina. Eles se orgulhavam da reputação que tinham entre o povo; isso alimentava o seu orgulho, sustentava o seu poder e enchia os seus bolsos; e quando ouviram as pessoas dizendo: “Não é este o Filho de Davi?”, eles ficaram extremamente irritados, mais do que pelo milagre em si – isso os fez sentir inveja do nosso Senhor Jesus, e os deixou apreensivos de que, à medida que crescesse a figura dele na consideração do povo, a deles, naturalmente, seria eclipsada e diminuída. Por isso eles o invejaram, como Saul se sentiu em relação ao seu genro, Davi, por causa do que as mulheres falavam sobre ele (1 Samuel 18.7,8). Aqueles cuja felicidade depende do elogio e do aplauso dos homens se expõem a uma situação de desconforto perpétuo em relação a cada palavra favorável que ouvirem a respeito de outra pessoa. A sombra da honra seguia a Cristo, que fugia dela, e fugia dos fariseus, que ansiosamente a perseguiam. Eles disseram: “‘Este não expulsa os demônios senão por Belzebu, príncipe dos demônios’, e, portanto, não é o Filho de Davi”. Observe:

1.O menosprezo com que eles falam de Cristo, “este”; como se o seu precioso nome, que é um precioso unguento derramado sobre os seus seguidores, não fosse digno de ser levado aos seus lábios. E um exemplo do orgulho e da arrogância deles, e também da sua inveja diabólica, o fato de que, quanto mais as pessoas enalteciam a Cristo, mais eles se empenhavam para difamá-lo. É uma impiedade falar com desdém de homens bons somente por serem pobres.

2.A maneira blasfema corno eles falam dos milagres de Jesus. Eles não podiam negar a verdade; era tão claro como o sol, que os demônios eram expulsos pela palavra de Cristo; nem podiam negar que era uma coisa extraordinária, e sobrenatural. Sendo, dessa maneira, forçados a aceitar as premissas, eles não tinham outra maneira de evitar a conclusão de que este é o Filho de Davi, exceto sugerir que Cristo expulsava os demônios por Belzebu; que havia um pacto entre Cristo e o diabo – de acordo com este pacto, o demônio não era expulso, mas se afastava voluntariamente e consentia em devolver a pessoa – ou como se, por um acordo com o príncipe dos demônios, Ele tivesse poder para expulsar os demônios inferiores. Nenhuma conjetura poderia ser mais falsa e infame do que esta; que Ele, que é a própria verdade, estivesse de acordo com o pai da mentira, para enganar o mundo. Este era o último refúgio, ou melhor subterfúgio, ou uma infidelidade obstinada, que estava decidida a se opor à mais clara convicção. Observe que entre os demônios há um príncipe, o líder da apostasia contra Deus e da rebelião contra Ele; mas este príncipe é Belzebu, o deus das moscas, ou o deus das esterqueiras. Como tu decaíste, ó Lúcifer! De um anjo de luz para ser o senhor das moscas! Mas este também é o príncipe dos demônios, o líder da gangue dos espíritos infernais.

 IV – A resposta de Cristo a esta insinuação vil (vv. 25- 30). Jesus conheceu os pensamentos deles. Jesus Cristo sabe o que nós estamos pensando em qualquer ocasião, pois Ele conhece o que há nos homens; Ele compreende os nossos pensamentos à distância. Pode ser que os fariseus, por vergonha, não disseram isto, mas guardaram estes pensamentos; eles não podiam esperar satisfazer as pessoas com isto, portanto reservaram este pensamento para silenciar a convicção das suas próprias consciências. Observe que muitos são afastados de seus deveres por aquilo que se envergonham de possuir, mas que não conseguem ocultar de Jesus Cristo; ainda assim, é provável que os fariseus tenham sussurrado entre si o que pensavam, para ajudarem-se, uns aos outros, a permanecerem insensíveis. Mas a resposta de Cristo denunciou os pensamentos daqueles iníquos, porque Ele sabia que com aquele pensamento, e a partir daquele princípio, eles o disseram; eles não disseram nada com afobação, mas aquele era o produto de uma maldade enraizada.

A resposta de Cristo a esta acusação é abundante e convincente, para que cada boca possa ser interrompida com sensatez e razão, antes de ser interrompida com fogo e enxofre. Aqui estão três argumentos pelos quais Ele demonstra a irracionalidade dessa ideia:

1.Seria muito estranho, e altamente improvável, que Satanás fosse expulso por um pacto como este, porque então o reino de Satanás seria dividido contra si mesmo, o que, considerando a sua astúcia, não é algo que se deva imaginar (vv. 25,26).

 (1). Aqui está registrada uma lei conhecida, de que em todas as sociedades uma ruína comum é a consequência de disputas mútuas: “Todo reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda cidade ou casa” também: Pois qual família é tão forte, qual comunidade é tão firme, a ponto de não ser arruinada pela inimizade e pelas disputas?  Normalmente, as divisões acabam em devastações; se nós nos chocarmos, nos quebraremos; se nos separarmos uns dos outros, nos tornaremos uma presa fácil para um inimigo comum: “Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede não vos consumais também uns aos outros” (Gálatas 5.15). As igrejas e as nações sabem disso por suas tristes experiências.

(2). A aplicação da lei ao caso em questão (v. 26). Se Satanás expulsa a Satanás, se o príncipe dos demônios estiver em desacordo com os demônios inferiores, todo o reino e os interesses em breve estarão destruídos. Se Satanás viesse a fazer um pacto com Cristo, isto seria a sua própria ruína; pois o desígnio e a tendência manifestos da pregação e dos milagres de Cristo eram para derrotar o reino de Satanás, como um reino de trevas, maldade e inimizade a Deus; e para estabelecer, sobre as ruínas, um reino de luz, santidade e amor. As obras do diabo, como um rebelde contra Deus e um tirano sobre as almas dos homens, foram destruídas por Cristo, e, portanto, era o maior absurdo imaginar ou pensar que Belzebu permitiria tal desígnio, ou se envolveria com ele: se ele concordasse com Cristo, como, então, ficaria o seu reino? Ele mesmo contribuiria para a derrota do seu reino. Observe que o diabo tem um reino, um interesse comum, em oposição a Deus e a Cristo, que ele cuidará, com o máximo de suas forças, para que permaneça, e não concordará nunca com os interesses de Cristo; ele deve ser derrotado e destruído por Cristo, e, portanto, não pode se submeter ou se render a Ele. Que acordo ou comunhão pode existir entre a luz e as trevas, entre Cristo e Belial, entre Cristo e Belzebu? Cristo irá destruir o reino do diabo, mas Ele não precisa fazer isto usando nenhuma artimanha como a de um pacto secreto com Belzebu; não, a sua vitória deve ser obtida por meio de métodos mais nobres. Mesmo que o príncipe dos demônios reúna todas as suas forças, mesmo que ele use todos os seus poderes e toda a sua política, e mantenha os seus interesses em uma confederação fechada, ainda assim Cristo será demais para a sua força reunida, e o seu reino não permanecerá.

2.Não era completamente estranho, ou improvável, que os demônios fossem expulsos pelo Espírito de Deus, pois:

(1) “Por quem os expulsam, então, os vossos filhos?” Havia aqueles, entre os judeus, que, invocando o nome do Deus supremo, ou do Deus de Abraão, Isaque e Jacó, algumas vezes expulsavam demônios. Josefo fala de alguns que o faziam, na sua época. Nós lemos a respeito de exorcistas judeus (Atos 19.13) e de alguns que expulsavam demônios em nome de Cristo, embora não o seguissem (Marcos 9.38), ou não fossem fiéis a Ele (cap. 7.22). Os fariseus não condenavam essas pessoas, mas atribuíam o que elas faziam ao Espírito de Deus, e com isso valorizavam a si mesmos e à sua nação. Sendo assim, era meramente por despeito e inveja de Cristo que eles admitiam que outras pessoas expulsavam demônios pelo Espírito de Deus, mas sugeriam que Ele o fazia por ter um pacto com Belzebu. Observe que a atitude das pessoas maldosas, especialmente os maldosos perseguidores de Cristo e do cristianismo, é de condenar, nas pessoas a quem odeiam, a mesma coisa que aprovam ou aplaudem naqueles por quem têm alguma amizade ou boa relação. Os julgamentos de inveja se fazem, não pelas coisas, mas pelas pessoas; não por razões, mas por preconceitos. Mas aqueles homens eram muito pouco qualificados para ocupar a cadeira de Moisés, pois só conheciam os rostos e não tinham mais quaisquer elementos para julgar: “Portanto, eles mesmos serão os vossos juízes”. “Esta contradição que vocês mesmos apresentam se erguerá em julgamento contra vocês no último dia, e condenará a cada um de vocês”. Note que, no juízo final, não somente cada pecado, mas também cada agravação de pecado, será trazido para a prestação de contas, e algumas das nossas noções do que era correto e bom serão postas em evidência contra nós, para nos condenar por parcialidade.

(2) Estas expulsões de demônios eram um sinal e uma indicação certos da aproximação e da manifestação do Reino de Deus (v. 28): “Se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, é conseguintemente chegado a vós o Reino de Deus”. Outros milagres que Cristo realizou provaram que Ele tinha sido enviado por Deus, mas isso provava que Ele tinha sido enviado por Deus para destruir o reino do demônio, e as suas obras. Então aquela grande promessa evidentemente se cumpria, a de que a semente da mulher iria ferir a cabeça da serpente (Genesis 3.15). “Portanto, aquela gloriosa revelação do reino de Deus, que durante tanto tempo foi esperada, agora se iniciou; desprezem-na, e correrão riscos”. Observe que:

[1] A destruição do poder do demônio se realiza pelo Espírito de Deus; aquele Espírito que trabalha para a obediência da fé, destrói o interesse do espírito que trabalha nos filhos da descrença e da desobediência.

[2] A expulsão dos demônios é uma apresentação segura do Reino de Deus. Se o interesse do diabo por uma alma for não apenas desafiado pelos costumes ou por restrições morais, mas também destruído e rompido pelo Espírito de Deus, como um Santificador, sem dúvida somente o Reino de Deus virá àquela alma, o reino da graça, uma antecipação bendita do reino da glória.

3.A comparação dos milagres de Cristo (particularmente este da expulsão dos demônios) com a sua doutrina e o desígnio e a tendência da sua santa religião evidenciava que Ele estava muito longe de estar em uma aliança com Satanás, mas sim que Ele estava em inimizade e hostilidade abertas contra ele (v. 29): “Como pode alguém entrar em casa do homem valente e furtar os seus bens, se primeiro não manietar o valente, saqueando, então, a sua casa?” Então ele pode fazer o que quiser com os bens. O mundo, que estava nas trevas, e vivia na maldade, era possessão de Satanás, e estava sob o seu poder. Como uma casa possuída por um homem valente, e sob o seu poder; assim é cada alma pecadora; ali vive Satanás, ali ele reina. Agora:

(1) O desígnio do Evangelho de Cristo era saquear a casa do diabo, a qual, como um homem valente, ele tinha no mundo; levar as pessoas das trevas à luz, do pecado à santidade, deste mundo a um melhor, do poder de Satanás a Deus (Atos 26.18); alterar a propriedade das almas.

(2) De acordo com este desígnio, Ele manietou o homem valente, quando expulsou os espíritos imundos pela sua palavra: assim Ele arrancou a espada da mão do diabo, para poder arrancar também o cetro. A doutrina de Cristo nos ensina como interpretar os seus milagres – e quando Ele mostrou com que facilidade e eficácia Ele podia expulsar o demônio dos corpos das pessoas, Ele incentivou todos os crentes a ter esperança de que, qualquer que fosse o poder que Satanás pudesse usurpar e exercer sobre as almas dos homens, Cristo, pela sua graça, romperia tal poder. Ele irá saquear as coisas de Satanás, pois Ele pode manietá-lo. Quando as nações se afastaram da idolatria aos ídolos para servir ao Deus vivo, quando alguns dos piores pecadores foram santificados e justificados e se tornaram os melhores santos, Cristo saqueou a casa do demônio e irá saqueá-la mais e mais.

4.Aqui se sugere que esta guerra santa, que Cristo está conduzindo com vigor contra o diabo e o seu reino, era tal que não admitia neutralidade (v.30): “Quem não é comigo é contra mim”. Nas pequenas diferenças que podem surgir entre os discípulos de Cristo, nós somos ensinados a reduzir as questões de divergência e a procurar a paz, considerando como favoráveis a nós aqueles que não estiverem contra nós (Lucas 9.50). Mas na grande disputa entre Cristo e o diabo, não se deve procurar a paz, nem alguma alternativa favorável, buscando algum tipo de indiferença quanto à questão – aquele que não é por Cristo sinceramente, será considerado como realmente contra Ele: aquele que estiver indiferente à causa, será considerado como um inimigo. Quando a disputa é entre Deus e Baal, não há hesitação entre os dois (1 Reis 18.21), não há adaptações entre Cristo e Belial; pois o reino de Cristo, como é eternamente oposto ao reino do diabo, também será eternamente vitorioso sobre ele. Portanto, nessa questão, não há como estar com Gileade, além do Jordão, ou com Aser, nos portos do mar (Juízes 5.16,17); nós devemos, completa, fiel e firmemente estar do lado de Cristo; este é o lado correto, e será, finalmente, o lado vencedor. Veja Êxodo 32.26.

A última frase tem o mesmo significado: “Quem comigo não ajunta espalha”. Observe:

(1) A tarefa de Cristo neste mundo era reunir, reunir a sua colheita, reunir aqueles que o Pai lhe tinha dado (João 11.52; Efésios 1.20).

(2) Cristo espera e exige daqueles que estão com Ele, que se reúnam com Ele; que não somente se reúnam, a si mesmos, com Ele, mas também que façam tudo o que puderem para reunir os outros com Ele, e assim fortalecer os seus interesses.

(3) Aqueles que não parecerem, e agirem, como seguidores do reino de Cristo, serão considerados e tratados como obstáculos a ele. Se nós não juntamos com Cristo, espalhamos; não basta não fazer o mal, nós devemos fazer o bem. Assim se amplia a brecha entre Cristo e Satanás, para mostrar que não havia pacto entre eles, como os fariseus sussurravam.

V – Aqui está um sermão de Cristo, nessa ocasião, a respeito dos pecados da língua: “Portanto, eu vos digo”. Ele parece se voltar dos fariseus para o povo, parece passar da discussão à instrução; e a partir do pecado dos fariseus, Ele adverte as pessoas a respeito de três tipos de pecados da língua; pois os danos sofridos por outras pessoas são advertências para nós.

1;Palavras blasfemas contra o Espírito Santo são o pior tipo de pecados da língua, e são imperdoáveis (vv. 31, 32).

(1). Aqui há uma garantia graciosa do perdão de todos os pecados, nos termos do Evangelho. Isto Cristo nos diz, e são palavras de consolo, que a grandeza do pecado não será obstáculo para a nossa aceitação por Deus, se realmente nos arrependermos e crermos no Evangelho: “Todo pecado e blasfêmia se perdoará aos homens”. ”Ainda que os… pecados sejam como a escarlata” (Isaias 1.18), ainda que sejam de natureza odiosa, e agravados pelas suas circunstâncias, e frequentemente repetidos, ainda que se estendam até o céu, ainda assim existe misericórdia no Senhor, que se estende além do céu; a misericórdia será estendida até mesmo para a blasfêmia, um pecado que toca diretamente o nome e a honra de Deus. Paulo obteve misericórdia, tendo sido um blasfemo (1 Timóteo 1.13). Bem podemos dizer: “Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniquidade?” (Miquéias 7.18). Mesmo as palavras proferidas contra o Filho do Homem serão perdoadas; entre aqueles que o ofenderam na sua morte, muitos se arrependeram e encontraram misericórdia. Aqui Cristo dá um exemplo a todos os filhos dos homens, para que estejam prontos a perdoar palavras proferidas contra eles: “Eu, como surdo, não ouvia”. Observe que os pecados serão perdoados aos homens, não aos demônios; este é o amor de Deus oferecido a todo o mundo, à humanidade, a um mundo que está acima do mundo dos anjos caídos, o que faz com que todo pecado seja, a eles, perdoável.

(2). Aqui está uma exceção, que é a blasfêmia contra o Espírito Santo, aqui declarada como sendo o único pecado imperdoável. Veja aqui:

[1] O que é este pecado: é falar contra o Espírito Santo. Veja quanta maldade há nos pecados da língua, pois o único pecado imperdoável é um deles. “Mas Jesus conhecia os seus pensamentos” (v. 25). O que se quer dizer aqui não é somente o falar contra a pessoa ou a essência do Espírito Santo como um todo, ou algumas das suas operações mais privadas, ou meramente resistir à sua obra interna no próprio pecador. Pois então, quem seria salvo? Está determinado na nossa lei que um ato de compensação deva sempre ser interpretado em favor da graça e da clemência que é a intenção do ato; portanto, as exceções ao ato não devem ser estendidas além das necessidades. O Evangelho é um ato de compensação; ninguém será excluído por nome, nem por descrição, mas somente aqueles que blasfemam contra o Espírito Santo; portanto, isto deve ser interpretado no sentido mais limitado: todos os supostos pecadores são efetivamente separados pelas condições da compensação, a fé e o arrependimento. Portanto, as outras exceções não devem se estender: e esta blasfêmia é excluída, não por alguma falha na misericórdia de Deus ou do mérito de Cristo, mas porque ela inevitavelmente deixa o pecador na infidelidade e na impenitência. Nós temos motivos para pensar que ninguém que creia que Cristo é o Filho de Deus, e que sinceramente deseje participar do seu mérito e da sua misericórdia, será culpado deste pecado; e aqueles que temem ter come tido este pecado, dão um bom sinal de que não o cometeram. O sábio Dr. Whitby observa muito apropriadamente que Cristo não fala do que poderia ser (Marcos 3.29; Lucas 12.10): “Qualquer que blasfemar”. Quanto àqueles que blasfemaram contra Cristo quando Ele estava na terra, e o chamaram de beberrão, de enganador, de blasfemo, e coisas semelhantes, eles tinham alguma desculpa, por causa da simplicidade da sua aparência e dos preconceitos da nação contra Ele; e a prova da sua missão divina não se aperfeiçoou até de­ pois da sua ascensão. Portanto, eles serão perdoados através do arrependimento; espera-se que aqueles que foram seus traidores e assassinos possam ser convencidos pelo derramamento do Espírito, como muitos deles foram. Mas o problema mais grave ocorre quando o Espírito Santo é dado com os seus dons internos de revelação, como falar em línguas e coisas semelhantes, além das distribuições do Espírito entre os apóstolos; aqueles que continuarem a blasfemar o Espírito da mesma maneira, como um espírito mau, não desfrutarão a esperança de serem levados a crer em Cristo. Pois, em primeiro lugar, estes dons do Espírito Santo aos apóstolos eram uma grande prova que Deus designou fosse usada para a confirmação do Evangelho, os quais foram mantidos em reserva enquanto outros métodos os precederam. Em segundo lugar, esta era a evidência mais poderosa e mais capaz de convencer, superando até mesmo os próprios milagres. Em terceiro lugar, aqueles que blasfemassem dessa distribuição do Espírito não poderiam ser levados a crer em Cristo. O que poderia convencer aqueles que iriam considerar que os apóstolos estavam em aliança com Satanás, aqueles que tiveram o mesmo comportamento que os fariseus tiveram diante dos milagres? Este é um apego tão forte à infidelidade que não pode ser derrotado em um homem, e é, portanto, imperdoável. porque com isto o arrependimento está escondido dos olhos do pecador.

[2]. Qual é a sentença para este pecado: “Não lhe será perdoado, nem neste século nem no futuro”. Assim como no estado da religião judaica, naquela época, não havia sacrifício de expiação para a alma que pecasse de forma arrogante, também na revelação da graça do Evangelho, que é frequentemente chamada nas Escrituras de século futuro, não haverá perdão para o ato de pisar sobre o sangue da aliança, e para o desrespeito ao Espírito da graça; não há cura para um pecado tão diretamente contrário ao remédio. Esta é uma regra na nossa lei antiga: não haverá santuário para o sacrilégio. Ou: não será perdoado nem agora, na própria consciência do pecador, nem no grande dia, quando o perdão será promulgado. Ou: este é um pecado que expõe o pecador à punição eterna e à temporal, tanto à ira presente como à ira futura.

2.Aqui Cristo fala a respeito de outras palavras más, os produtos da corrupção que reina no coração, e que dele escapa (vv. 33-35). Foi dito (v. 25) que Jesus conhecia os seus pensamentos, e aqui Ele fala, dirigindo-se a eles, mostrando que não era estranho que eles falassem coisas tão más, quando os seus corações estavam tão cheios de inimizade e maldade, que eles frequentemente se esforçavam para disfarçar e encobrir, aparentando ser apenas homens. O nosso Senhor Jesus, portanto, aponta para as fontes e as cura; deixemos que o coração seja santificado e isto se manifestará nas nossas palavras.

(1). O coração é a raiz. a linguagem é o fruto (v. 33); a árvore é boa, e o seu fruto, bom. Se a graça for o princípio reinante no coração, a linguagem será a linguagem de Canaã; e, por outro lado, qualquer desejo que reine no coração irá se manifestar; pulmões doentes soltarão uma respiração ofensiva; a linguagem dos homens revela de que país eles são, e, da mesma maneira, qual é a sua disposição de espírito. Se a árvore for boa, os frutos serão bons; consigam corações puros e vocês terão lábios puros e vidas puras; se a árvore for má, o seu fruto também o será. Você pode tentar transformar uma árvore má em uma árvore boa, enxertando nela um galho de uma árvore boa, e então o fruto será bom. Mas se a árvore for má, você pode plantá-la onde quiser, e regá-la como quiser; o fruto ainda será mau. Observe que, a menos que o coração se transforme, a vida nunca será completamente transformada. Estes fariseus tinham vergonha de expressar com palavras os seus maus pensamentos a respeito de Jesus Cristo, mas aqui Cristo dá a entender que era inútil que eles tentassem esconder esta raiz de amargura que havia neles, que trazia irritação e rancor; eles deveriam procurar extirpá-la. Observe que a nossa maior preocupação deve ser nos comportarmos como pessoas realmente boas, e não apenas parecermos ser bons.

(2). O coração é a fonte, as palavras são as correntes (v. 34). “Do que há em abundância no coração, disso fala a boca; assim como as correntes são o que transborda da fonte”. Um coração mau produz maldade, como a fonte produz as suas águas (Jeremias 6.7). Uma fonte turva e um manancial corrupto, de que fala Salomão (Provérbio 25.26), deve produzir correntes enlameadas e desagradáveis. As palavras más são o produto natural e autêntico de um coração mau. Nada, exceto o sal da graça, jogado na fonte, irá curar as águas, temperar as palavras, e purificar as comunicações contaminadas. Eles queriam isso, sendo maus. “Como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus?” Eles eram uma geração de víboras; assim os tinha chamado João Batista (cap. 3.7), e ainda eram os mesmos. Pois, “pode o etíope mudar a sua pele?” As pessoas consideravam os fariseus como uma geração de santos, mas Cristo os chama de raça de víboras, a semente da serpente que tinha inimizade com Cristo e o seu Evangelho. O que se pode esperar de uma raça de víboras, exceto o que é venenoso e maligno? Pode a víbora ser outra coisa, além de venenosa? Note que as coisas más podem ser esperadas de pessoas más, como diz o provérbio dos antigos: “Dos ímpios procede a impiedade” (1 Samuel 24.13) ou: “O louco fala loucamente” (Isaias 32.6). Aqueles que são maus não têm a habilidade nem o desejo de falar coisas boas como deveriam ser faladas. Cristo daria a conhecer aos seus discípulos o tipo de homens em meio aos quais eles iriam viver, para que eles pudessem saber o que esperar. Eles eram como Ezequiel entre os escorpiões (Ezequiel 2.6), e não deveriam achar estranho se fossem picados e mordidos.

(3). O coração é o tesouro, as palavras são as coisas tiradas deste tesouro (v. 35); e daí o caráter dos homens pode ser esboçado, e pode ser julgado.

[1]. O caráter de um homem bom é o que lhe dá um bom tesouro no seu coração, e daí ele tira coisas boas quando há oportunidade. Graças, consolos, experiências, bom conhecimento, boas afeições, boas resoluções, são um bom tesouro no coração; a palavra de Deus está escondida ali, a lei de Deus, escrita ali, as verdades divinas residem e governam e são um tesouro ali, valioso e adequado, mantido a salvo e em segredo, como o estoque do bom chefe de família, mas pronto para ser usado em qualquer ocasião. Um bom homem, assim abastecido, produzirá, como José, uma abundância de bens; falará e fará o que é bom, para a glória de Deus e a edificação de outros. Veja Provérbio 10.11,13,14,20,21,31,32. Isto é produzir coisas boas. Alguns fingem – com grandes esforços – não ter um bom tesouro, parecendo que poderão ir à falência em breve; outros fingem ter um bom tesouro interior, mas não dão provas disso: eles esperam tê-lo dentro de si, e agradecem a Deus, quaisquer que sejam suas palavras e ações, por pensarem que têm bons corações. Mas a fé sem obras é morta; e alguns têm um bom tesouro de sabedoria e conhecimentos, mas não são comunicativos, não produzem nada com ele: têm um talento, mas não sabem como negociar com ele. O cristão completo nesse aspecto traz a imagem de Deus, que é ser bom, e também faz o bem.

[2]. O caráter de um homem mau é o que lhe dá um mau tesouro no seu coração, e daí ele tira coisas más. Luxúria, desejos e corrupção residindo no coração, e nele reinando, são um mau tesouro, do qual o pecador produz más palavras e ações que desonram a Deus e magoam os outros. Veja Genesis 6.5,12; cap. 15.18-20; Tiago 1.15. Mas os tesouros da impiedade (Provérbio 10.2) serão os tesouros da ira.

3.Aqui Cristo fala a respeito das palavras ociosas e mostra que há maldade nelas (vv.36, 37); muito mais havia nas palavras más como as que os fariseus pronunciavam. Nós devemos nos preocupar em pensar no dia do juízo, quando poderá haver uma avaliação da nossa língua; e devemos considerar:

(1) Quão particular será a consideração dos pecados da língua naquele dia: “de toda palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no Dia do Juízo”. Isto significa:

[1] Que Deus observa cada palavra que nós dizemos, mesmo aquelas de que nem nós mesmos nos damos conta. Veja Salmos 139.4: “Sem que haja uma palavra na minha língua, eis que, ó Senhor tudo conheces”. Ainda que seja dita sem consideração ou objetivo, Deus toma conhecimento dela.

[2] Que a conversa inútil, ociosa e impertinente é desagradável a Deus – aquela que não leva a nenhum bom objetivo, que não serve para edificar – é o produto de um coração insignificante e vão. Estas palavras ociosas são as mesmas que as torpezas ou parvoíces, ou chocarrices, que não convêm (Efésios 5.4). Este é aquele pecado que raramente falta na abundância de palavras que de nada servem (Jó 15.3).

[3] Dentro de pouco tempo, nós prestaremos contas dessas palavras ociosas; elas serão evidências contra nós, para provar que somos servos inúteis, que não aprimoramos as faculdades da razão e do discurso, que são parte dos talentos que nos foram confiados. Se não nos arrependermos das nossas palavras ociosas, e elas não forem perdoadas pelo sangue de Cristo, estaremos perdidos.

(2) Quão rígido será o julgamento sobre esta prestação de contas (v.37): “Por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado”; uma regra comum nos julgamentos dos homens, e aqui aplicada ao juízo de Deus. Observe que o teor constante do nosso discurso, se for gracioso ou não, será uma evidência a nosso favor ou contra nós naquele grande dia. Aqueles que parecem ser religiosos, mas não dominam a sua língua, precisam atentar para as seguintes palavras: “Se alguém entre vós cuida ser religioso e não refreia a sua língua, antes, engana o seu coração, a religião desse é vã” (Tiago 1.26). Alguns pensam que aqui Cristo se refere ao que disse Elifaz (Jó 15.6): “A tua boca te condena, e não eu”; ou, ainda, ao que disse Salomão (Provérbio 18.21): ”A morte e a vida estão no poder da língua”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.