PSICOLOGIA ANALÍTICA

CEGOS PARA A DIFERENÇA

 Muita gente tem grande dificuldade para reconhecer pessoas com cor de pele e traços étnicos diversos dos seus; alguns chegam mesmo a não apreender situações que parecem não combinar com modelos preestabelecidos.

Cegos para a diferença

Nos últimos anos, vários estudos mostraram que temos menor habilidade para distinguir rostos de pessoas de origem diferente da nossa etnia. Pesquisas recentes revelaram, porém, que alguns indivíduos são completamente cegos nesse quesito. Cognitivamente, seu cérebro registra a variedade de características, mas não reconhece nas pessoas algo que pode ter importantes implicações – por exemplo, no testemunho de situações envolvendo suspeitos de outra etnia.

A capacidade de identificar membros da própria etnia varia de forma considerável: alguns podem perceber desconhecidos sem esforço algum, enquanto outros, em situações extremas, não conseguem nem mesmo reconhecer o rosto de amigos ou de gente da família – uma condição rara, conhecida como prosopagnosia. Para entender melhor essa dinâmica, o doutor em psicologia Lulu Wan e seus colegas da Universidade Nacional Australiana decidiram quantificar essa habilidade. Os pesquisadores solicitaram a 268 voluntários caucasianos, todos nascidos e criados na Austrália, que memorizassem uma série de seis rostos asiáticos. Durante o experimento, foram apresentadas também fotos de rostos de indivíduos brancos a um grupo de 176 asiáticos que haviam crescido na Ásia, mas tinham se mudado para a Oceania para estudar. Na sequência, cada participante deveria visualizar um conjunto de três rostos e apontar para algum que tivesse visto na tarefa anterior. O teste foi repetido 72 vezes.

Os cientistas observaram que 26 caucasianos e 10 asiáticos (8% da população do estudo) se saíram tão mal no teste que sua percepção poderia ser considerada “comprometida”, segundo critérios clínicos. “Já sabíamos que temos dificuldade de reconhecer feições de outros grupos étnicos, mas o experimento mostra a dimensão do problema”, diz o professor de psicologia da Universidade de Victoria Jim Tanaka, na Colúmbia Britânica, que não participou da pesquisa. “Os resultados revelam que pode não haver valor legal nenhum no testemunho ocular, em situações que envolvam justiça”, afirma a psicóloga Elinor McKone, professora de psicologia da Universidade Nacional Australiana e coautora do estudo. Ela observa que, apesar dessas evidências, os sistemas jurídicos de nenhum país levam em conta as diferenças individuais do reconhecimento de face de pessoas de outras culturas.

Para McKone, a frequência da exposição a indivíduos de outras origens pode influenciar a capacidade de reconhecer as diferenças, segundo os resultados publicados na edição de janeiro do Journal of Experimental Psychology: General. Entre os 106 participantes asiáticos nascidos e criados na Austrália, apenas 3% eram “cegos” para os rostos caucasianos. Esse número subiu para quase 6% entre os nascidos e criados na Ásia.

O psicólogo Daniel Levin, que tem se dedicado com afinco à pesquisa de mecanismos de reconhecimento de rostos por brancos, negros e asiáticos, na Universidade Estadual Kent, em Ohio, discorda do ponto de vista de McKone. Ele acredita que o déficit não aparece porque as pessoas tendem a ter mais contato com gente da própria etnia: trata-se, em sua opinião, de uma questão cultural. Ao olhar o rosto de alguém de outra raça, nosso cérebro busca automaticamente informações para classificá-la racialmente – e não para individualizá-la.

O efeito se estende a outras culturas. Um artigo publicado em 2001 no Psychology, Public Policy and Law trata de um estudo no qual cientistas convidaram algumas pessoas negras (que passeavam por shoppings sul-africanos) a participar de um experimento. Os autores observaram que os voluntários que tinham contato com outros grupos étnicos com pouca frequência reconheciam com mais dificuldade o semblante de pessoas de outras ascendências.

COM CARA DE JOELHO

A prosopagnosia é uma inabilidade perceptiva, uma acentuada “cegueira para feições”. Pessoas com o distúrbio podem ver o rosto dos outros quase sempre tão bem quanto qualquer um, mas não conseguem retê-los na memória ou reconhecê-los. Para elas, essa parte do corpo fica praticamente isenta de peculiaridades: é como se a face equivalesse ao joelho ou à panturrilha. Esse grau de dificuldade é variável e, em muitos casos, as pessoas nem sequer se dão conta de que têm um distúrbio – acreditam que os demais veem o mundo exatamente como elas, povoado de faces indistintas.

O conceito de prosopagnosia é uma invenção moderna. A palavra resulta da junção do vocábulo grego prosopon (face) e agnosia (não reconhecimento). Foi cunhada pelo neurologista alemão Joachim Bodamer, que iniciou seus estudos sobre o tema durante a Segunda Guerra, quando trabalhou no Sanatório Winnental, um hospital psiquiátrico perto de Stuttgart. Ele observou em dois soldados com lesões graves na cabeça uma acentuada inabilidade de reconhecimento facial. Eles olhavam o rosto dos companheiros, mas não conseguiam coordenar a percepção com a capacidade de identificá-los.

Projeções feitas pelo Instituto de Genética Humana da Universidade de Münster, na Alemanha, sugerem que aproximadamente 2% da população é afetada por essa inabilidade em algum grau. Em amostragem realizada com 689 estudantes, 17 apresentaram indícios do distúrbio. Em 14 dos indivíduos pesquisados, foram descobertos sintomas de prosopagnosia tanto em parentes próximos quanto nos do círculo familiar ampliado.

“Sabemos hoje que, se o pai ou a mãe apresenta essa inabilidade perceptiva, a probabilidade de ela aparecer também nos filhos será de 50%; o sinal característico é, portanto, hereditário dominante”, afirma o neurocientista Thomas Grüter, professor da Universidade de Münster. E, uma vez que a prosopagnosia afeta igualmente homens e mulheres, evidencia-se que nela não tem participação nenhum cromossomo sexual, mas provavelmente um “autossomo”.

O especialista ressalta que a inabilidade congênita de reconhecer rostos não necessariamente tem a mesma base neuronal da prosopagnosia adquirida por lesão cerebral. “Até o momento, só sabemos que ela parece responsável pelo distúrbio hereditário de uma única mutação genética; a exemplo de todos os primatas, os seres humanos têm pouca habilidade olfativa em comparação com outras espécies, o que em geral não nos permite reconhecer nossos semelhantes pelos odores, como fazem, por exemplo, os cães”, observa Grüter.

Em vez disso, temos uma visão altamente aperfeiçoada para identificá-los.

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TÃO ÓBVIO QUE NINGUÉM ENXERGA

Imagine que você faz parte de uma plateia que assiste a pessoas driblando e passando entre si uma bola de basquete. Sua tarefa é contar durante 60 segundos o número de vezes que cada jogador faz um passe. Você descobre que precisa se concentrar, porque a bola se movimenta muito rapidamente. Então, alguém com fantasia de gorila atravessa o lugar, caminha entre os jogadores, vira o rosto para os espectadores, bate no peito e vai embora.

Surpreendentemente, de acordo com um estudo realizado pelos pesquisadores Daniel J. Simons, da Universidade de Illinois, e Christopher F. Chabris, da Universidade Harvard, 50% dos voluntários que participaram desse estudo não notaram o gorila. Muitos acreditam que nossos olhos funcionam como câmeras que produzem um registro impecável do mundo ao redor, mas essa pesquisa demonstra que são poucas as informações que realmente apreendemos em um relance.

O resultado desse experimento é o ponto culminante de uma série de estudos sobre atenção e visão iniciados há mais de três décadas por alguns pesquisadores como Ulric Neisser, da Universidade Cornell, Ronald A. Rensink, da Universidade da Colúmbia Britânica, Anne Treisman, da Universidade Princeton, Harold Pashler, da Universidade da Califórnia, e Donald M. MacKay, da Universidade de Keele, na Inglaterra. Os estudiosos se referem ao “efeito gorila” como uma “cegueira por desatenção” ou “cegueira para mudanças”. Nosso cérebro tenta, constantemente, construir narrativas significativas daquilo que vemos. As coisas que não se encaixam muito bem no roteiro ou têm pouca relevância são eliminadas da consciência. (Por Vilayanur S. Ramachandran e Diane Rogers-Ramachandrann, neurocientistas, pesquisadores do Centro para o Cérebro e a Cognição na Universidade da Califórnia em San Diego)

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Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.