ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 12: 14-21

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A Blasfêmia dos Fariseus. Cristo se retira

Como em meio às maiores humilhações de Cristo havia provas da sua dignidade, também em meio às suas maiores honras Ele deu provas de sua humildade; e quando os milagres que Ele realizava lhe davam a oportunidade de ficar famoso, ainda assim Ele se esvaziava, e não cultivava qualquer resquício de fama popular. Aqui, temos:

 I – A maldita blasfêmia dos fariseus contra Cristo (v. 14). Irritados com a evidência convincente dos milagres de Jesus, eles saíram e realizaram uma reunião contra Ele, sobre como poderiam destrui-lo. O que os irritou não foi apenas o fato de que, pelos milagres realizados, sua honra eclipsava a deles, mas também o fato de a doutrina que Ele pregava estar em oposição direta com o orgulho, hipocrisia e interesses mundanos deles. Eles fingiram estar descontentes com a sua infração do sábado, que era, por lei, um crime sujeito à pena de morte (Êxodo 35.2). Não é novidade ver os atos mais vis ocultos pelos pretextos mais plausíveis. Observe a política deles: eles se reuniram num conselho, considerando entre si de que maneira poderiam prendê-lo, com eficácia. Eles se aconselharam, numa trama secreta a esse respeito, para que pudessem ao mesmo tempo animar e ajudar uns aos outros. Observe a crueldade deles: Eles se reuniram, não para prendê-lo ou expulsá-lo, mas para destrui-lo, para levar à morte aquele que veio para que pudéssemos ter a vida. Que indignidade era, dessa maneira, imposta ao nosso Senhor Jesus, a perseguição dele como a um malfeitor, e o tormento imposto àquele que era a maior bênção, a glória do seu povo Israel!

II – Cristo se retirou nessa ocasião, e escolheu a privacidade para evitar o confronto. Pelo fato de não ser chegada a sua hora (v. 15), Ele se retirou dali. Ele poderia ter se protegido de forma milagrosa, mas decidiu fazê-lo da maneira normal, por meio da retirada e do afastamento; porque nisso, como em outras coisas, Ele se sujeitava às fraquezas inerentes da nossa natureza. Nesse ponto, Ele se humilhou, pois foi levado à atitude comum daqueles que são mais desamparados; assim também Ele deu um exemplo da sua própria regra: “Quando, pois, vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra”. Cristo tinha dito e feito o suficiente para convencer esses fariseus (se a razão ou os milagres pudessem ter feito isso), mas em vez de se renderem à convicção, eles se enfureceram, e por isto Ele os deixou, considerando-os incuráveis (Jeremias 51.9).

Cristo não se retirou para a sua própria comodidade, nem procurou uma desculpa para deixar o seu trabalho. Não. Os seus períodos de retiro sempre estavam cheios de ocupação, e mesmo nessas ocasiões Ele estava fazendo o bem, quando era forçado a se afastar. Assim, Ele deu um exemplo aos seus ministros: eles devem fazer o que puderem, quando não puderem fazer o que gostariam de fazer, e continuar ensinando mesmo quando precisarem se afastar. Quando os fariseus, os grandes senhores e doutores da nação, afastaram Cristo de si mesmos, e o forçaram a retirar-se, as pessoas comuns o seguiram em grandes multidões, e o encontraram. Alguns transformariam este fato em uma censura a Cristo, e diriam que Ele estava incitando a multidão. Mas era realmente uma honra para Jesus que todos aqueles que não eram parciais ou preconceituosos, e não estavam cegos pelas coisas do mundo, fossem tão leais, tão zelosos por Ele, e o seguissem para onde quer que Ele fosse, sem importar os perigos que correriam ao seu lado; como também era uma honra para a sua graça que os pobres fossem evangelizados – quando eles o recebiam, Ele os recebia e curava a todos. Cristo veio ao mundo para ser uma espécie de médico-geral dos homens – como o sol para o mundo inferior-, trazendo curas consigo. Embora os fariseus perseguissem a Cristo por fazer o bem, ainda assim Ele o continuava fazendo, e não deixou as pessoas passando dificuldades por causa da maldade dos seus líderes. Embora alguns nos tratem sem piedade, não devemos, por causa disso, tratar os outros sem piedade.

Cristo tentou conciliar o proveito e a privacidade. Ele os curou a todos, e (v. 16) recomendou-lhes que não deveriam torná-lo conhecido, o que pode ser considerado como:

1.Um ato de prudência: não eram os milagres propriamente ditos, mas sim as conversas a respeito deles, que enfureciam os fariseus (vv. 23,24); dessa forma, Cristo, embora não deixasse de fazer o bem, o faria da maneira mais silenciosa quanto possível, para evitar ofendê-los e para evitar correr perigo. Os homens prudentes e bons, embora desejem fazer o bem, estão longe de desejar que o bem feito seja alvo de comentários; porque é a aceitação de Deus, e não o aplauso dos homens, que eles almejam. E em épocas de sofrimento, embora devamos corajosamente prosseguir no caminho do dever, ainda assim devemos procurar as circunstâncias adequadas, de forma a não exasperar, além do necessário, aqueles que procuram uma oportunidade contra nós: “Sede prudentes como as serpentes” (cap. 10.16).

1.Um ato de julgamento justo sobre os fariseus, que eram indignos de ouvir a respeito de qualquer dos seus milagres, tendo menosprezado aqueles que os tinham visto. Ao fecharem os seus olhos para a luz, eles tinham perdido o direito ao seu benefício.

2.Um ato de humildade e autonegação. Embora a intenção de Cristo, nos seus milagres, fosse provar que Ele era o Messias, levando dessa forma os homens a crerem nele (e para isso era necessário que os seus milagres fossem conhecidos), algumas vezes Ele recomendava que o povo os ocultasse, para nos dar um exemplo de humildade e nos ensinar a não proclamar a nossa própria bondade ou utilidade, ou desejar que elas fossem proclamadas. Cristo queria que os seus discípulos fossem o oposto daqueles que realizavam todas as suas obras para que os homens as vissem.

III – O cumprimento das Escrituras em tudo isso (v. 17). Cristo retirou-se à privacidade e à obscuridade, para que, embora Ele fosse eclipsado, a palavra de Deus pudesse cumprir-se, sendo dessa forma exemplificada e glorificada, pois esse era o objetivo do seu coração. A passagem das Escrituras aqui cumprida é Isaías 42.1-4, que é citada livremente (vv.18-21). O escopo tem o objetivo de mostrar o quão manso e tranquilo, e ainda assim bem-sucedido, o nosso Senhor Jesus foi na sua missão – temos exemplos disso nas passagens anteriores. Observe aqui:

1.O prazer do Pai em Cristo (v.18): “Eis aqui o meu servo que escolhi, o meu amado, em quem a minha alma se compraz”. Consequentemente, podemos perceber:

(1). Que o nosso Salvador era servo de Deus na grande obra da nossa redenção. Neste sentido, Ele se submete à vontade do Pai (Hebreus 10.7) e se dispõe a servir aos desígnios da sua graça e aos interesses da sua glória, para consertar as brechas que foram criadas pela apostasia do homem. Como servo, Ele tinha uma grande obra para fazer, e uma grande confiança depositada nele. Isto fazia parte da sua humilhação, pois embora Ele não julgasse que fosse alguma forma de usurpação o fato de ser igual a Deus, ainda assim, na obra da nossa salvação, Ele assumiu a forma de servo, recebeu um mandamento e veio com uma obrigação. Ainda que era Filho, aprendeu a obediência (Hebreus 5.8). O lema desse Príncipe era: – Eu sirvo.

(2). Que Jesus Cristo era o escolhido de Deus, como a única pessoa adequada e apropriada para cuidar da grande obra da nossa redenção. “Eis o meu servo, que escolhi”, – que está à altura da missão. Ninguém, exceto Ele, era capaz de realizar a obra da Redenção, ou era digno de usar a coroa do Redentor. Ele foi eleito do povo (Salmos 89.19), escolhido, pela infinita Sabedoria, para este cargo de serviço e honra, para o qual nenhum homem ou anjo se qualificava; ninguém, exceto Cristo, para que Ele possa, em todas as coisas, ter a proeminência. Cristo não se candidatou para essa missão, mas foi devidamente escolhido para ela. Cristo foi o escolhido de Deus para ser o cabeça da eleição, e de todos os outros eleitos, pois nós somos eleitos nele (Efésios 1.4).

(3). Que Jesus Cristo é o Filho amado de Deus; como Deus, Ele está no seu seio desde a eternidade (João 1.18). Ele era, cada dia, as suas delícias (Provérbios 8.30). Entre o Pai e o Filho já havia, antes de todos os tempos, uma relação eterna e inimaginável, e uma troca de amor, e assim o Senhor o possuiu no princípio dos seus caminhos (Provérbios 8.22). Como Mediador, o Pai o amou; quando o Pai precisou realizar um plano em que Ele seria ferido, Ele se sujeitou a isto; por isso o Pai o ama (João 10.17).

(4) Que Jesus Cristo é aquele de quem o Pai se agra­ da, em quem a sua alma se compraz; o que dá a entender a maior complacência imaginável. Deus declarou, com uma voz do céu, que Ele era o seu Filho amado, em quem se comprazia. Se comprazia nele, porque Ele era o Empreendedor, disposto e alegre, daquela obra de maravilhas à qual Deus se dedicou tanto, e Ele se compraz conosco nele; pois Ele nos fez agradáveis a si no Amado (Efésios 1.6). Todo o interesse que o homem pecador tem, ou pode ter, em Deus, está baseado, e se deve ao fato de que Deus se compraz em Jesus Cristo; pois não se vai ao Pai, senão por Ele (João 14.6).

2.A promessa do Pai a Jesus consiste em duas coisas:

(1). Que Ele seria muito bem qualificado para a sua missão: “Porei sobre ele o meu Espírito, o Espírito de sabedoria e de conselho” (Isaias 11.2,3). Deus se certificará de adequar e qualificar aqueles a quem Ele convoca para algum serviço; e assim parecerá que Ele os chamou para isso, como Moisés (Êxodo 4.12). Cristo, como Deus, tinha poder e glória igual ao Pai; como Mediador, Ele recebia do Pai poder e glória, e recebia para poder dar; e tudo o que Pai dava a Ele, para qualificá-lo para a sua missão, resumia se nisto: Ele colocou o seu Espírito sobre Ele – este é o “óleo de alegria com que Ele foi ungido, mais do que seus companheiros” (Hebreus 1.9). Ele recebeu o Espírito, não por medida, mas sem medida (João 3.34). Independentemente de quem sejam aqueles que Deus escolhe, e em quem Ele se compraz, Ele se certificará de colocar o seu Espírito sobre eles. Além de conceder o seu amor (algo que Ele faz de muitas formas), Ele concede que tenham em si mesmos a sua semelhança.

(2). Que Ele seria extremamente bem-sucedido no seu entendimento. Aqueles a quem Deus envia, certamente Ele torna seus. Já tinha sido assegurado havia muito tempo, por promessa ao nosso Senhor Jesus, que o bom prazer do Senhor prosperaria na sua mão (Isaias 53.10). E aqui temos uma explicação desse bom prazer.

[1] Ele anunciará aos gentios o juízo. Cristo, pessoalmente, pregou àqueles que eram vizinhos das nações pagãs (veja Marcos 3.6-8), e pelos seus apóstolos apresentou o seu Evangelho, aqui chamado de juízo, ao mundo gentio. O caminho e o método da salvação, o juízo que é confiado ao Filho, não é somente realizado por Ele, como o nosso grande Sumo Sacerdote, mas anunciado e transmitido por Ele, como o nosso grande Profeta. O Evangelho, sendo uma regra de comportamento e conduta, com a tendência direta de transformar e melhorar os corações e as vidas dos homens, será anunciado aos gentios. O juízo de Deus tinha sido particular aos judeus (SaImos 147.19), mas sempre foi predito, pelos profetas do Antigo Testamento, que ele seria anunciado aos gentios, e, portanto, isso não deveria ter causado tal surpresa, e muito menos aborrecimento, para os judeus incrédulos.

[2] “E, no seu nome, os gentios esperarão” (v. 21). Ele irá anunciar juízo aos gentios, para que eles prestem atenção e observem o que Ele lhes apresenta, e através disso sejam influenciados a confiar nele, sujeitando-se ao seu juízo. Note que o grande desígnio do Evangelho é levar as pessoas a confiar no nome de Jesus Cristo, no Jesus Salvador, este nome precioso pelo qual Ele é chamado, e que é como unção derramada: “O Senhor, Justiça nossa.” Aqui, o evangelista segue a Septuaginta, ou talvez as últimas edições da Septuaginta sigam o evangelista; o texto em hebraico (Isaias 42.4) é: “e as ilhas aguardarão a sua doutrina”. Fala-se das ilhas dos gentios (Genesis 10.5) como sendo habitadas pelos filhos de Jafé, de quem foi dito (Genesis 9.27): “Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem”; o que agora se cumpria, quando as ilhas (segundo o profeta), os gentios (diz o evangelista), aguardarão a sua doutrina, e confiarão no seu nome – compare essas duas passagens e observe que aqueles, e somente aqueles, que esperam pela sua lei com a determinação de serem governados por ela, podem, com segurança, confiar no nome de Cristo. Observe, além disso, que a lei pela qual esperamos é a lei da fé, a lei de confiar no seu nome. Este é agora o seu grande mandamento, que creiamos em Jesus Cristo (1 João 3.23).

3.A predição que diz respeito a Ele, e a maneira mansa e tranquila como Ele conduz a sua missão (vv. 19, 20). Esta citação está fortemente ligada à privacidade de Cristo, às ocasiões em que Ele precisou se retirar de alguns ambientes.

(1) Que Ele devia conduzir a sua missão sem estardalhaço ou ostentação. “Não contenderá, nem clamará”. Cristo e o seu reino não virão com aparência exterior (Lucas 17.20,21). Quando o Primogênito foi trazido a este mundo, não foi com cerimônia. Ele não fez uma aparição pública, não teve arautos que o proclamassem rei. Ele estava no mundo e o mundo não o conheceu. Estavam enganados aqueles que se alimentavam com esperanças de um Salvador cheio de pompa. A sua voz não era ouvida nas ruas: “Ei-lo aqui”, ou: “Ei-lo ali”. Ele falava com uma voz suave que atraía a todos, mas não atemorizava ninguém. Ele não fazia ruído, mas surgia silenciosamente como o orvalho. Quando Ele falava, e agia, era com a maior humildade e autonegação possíveis. O seu reino era espiritual e por isso não progrediria pela força ou violência, nem por elevadas pretensões. Não, “o reino de Deus consiste não em palavra, mas em poder” (1 Coríntios 4.20, versão RA).

(2) Que Ele devia conduzir a sua missão sem severidade ou rigor (v. 20). “Não esmagará a cana quebrada”. Alguns interpretam isto como a sua paciência com os pecadores. Ele poderia facilmente ter esmagado estes fariseus como canas quebradas, e tê-los apagado como um marrão que fumega; mas Ele não o fará até o dia do juízo, quando todos os seus inimigos serão feitos escabelo dos seus pés. Outros preferem interpretar como sendo o seu poder e a sua graça para sustentar os fracos. Em geral, o desígnio do seu Evangelho é estabelecer um método de salvação que incentive a sinceridade, embora haja muita indecisão. Ele não insiste em uma obediência absolutamente perfeita de imediato, mas aceita uma mente disposta e justa. Quanto a indivíduos em particular que seguem a Cristo com mansidão, e com temor, e com muito tremor, observe:

[1] Como o seu caso é descrito aqui, eles são como a cana quebrada e o marrão que fumega. Os iniciantes na religião são fracos como uma cana quebrada, e a sua fraqueza parece um marrão fumegante; eles têm um pouco ele vida, mas é como a de uma cana quebrada; eles têm algum calor, mas é como o ele um marrão fumegante. Os discípulos de Cristo eram ainda fracos, e há muitas pessoas assim que têm lugar na sua família. A graça e a bondade neles são como uma cana quebrada; a corrupção e a maldade neles são como um morrão fumegante, como o pavio de uma vela quando é apagada e ainda fumega.

[2] Qual é a compaixão do nosso Senhor Jesus por eles? Ele não os desencoraja, e muito menos os rejeita ou os afasta; a cana que está quebrada não será esmagada e pisoteada, mas será sustentada, e ficará forte como um cedro ou uma palmeira próspera. A vela recentemente acesa, embora somente fumegue e não tenha chama, não será apagada, mas soprada para alimentar a chama. O dia das pequenas coisas é o dia das coisas preciosas, e por isso Ele não o desprezará, mas fará dele o dia das grandes coisas (Zacarias 4.10). Nosso Senhor Jesus lida com muita ternura com aqueles que têm a verdadeira graça, ainda que sejam fracos (Isaias 40.11; Hebreus 5.2). Ele se lembra não somente de que somos pó, mas também de que somos carne.

[3] O bom resultado e o sucesso que é dado a entender, até que Ele transforme o juízo em vitória. Aquele juízo que Ele anunciou aos gentios será vitorioso, Ele saiu vitorioso e para vencer (Apocalipse 6.2). Tanto a pregação do Evangelho no mundo como o poder do Evangelho no coração irão vencer. A graça conseguirá dominar a corrupção, e finalmente se aperfeiçoará na glória. O juízo de Cristo produzirá a vitória, pois quando Ele julgar, Ele vencerá. Ele, em verdade, produzirá o juízo, e assim será (Isaias 42.3). A verdade e a vitória são praticamente a mesma coisa, pois grande é a verdade, e ela vencerá.

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GESTÃO E CARREIRA

PROFISSÕES EM DECOLAGEM

Em plena expansão, o uso de drones pelas empresas impulsiona o surgimento de carreiras novas e promissoras.

Profissões em decolagem

A venda de drones em todo o mundo deverá chegar a 3 milhões de unidades neste ano, um aumento de 39% em comparação a 2016. Além disso, segundo a consultoria americana Gartner, esse mercado movimentará 6 bilhões de dólares, reflexo do otimismo em relação ao uso desses dispositivos. Não é só. Em um relatório intitulado Drones Go To Work, a consultoria The Boston Consulting Group (BCG) estima que até 2050 a frota de drones industriais na Europa e nos Estados Unidos passará de 1 milhão de unidades e gerará 50 bilhões de dólares por ano em receitas de produtos e serviços. Nas próximas duas décadas, as empresas colocarão esses equipamentos para trabalhar em monitoramento de plantas industriais, rastreamento de remessas, detecção de fungos na agricultura e entregas de pacotes para consumidores. O que não deve faltar, no futuro, é emprego para quem apostar no segmento.

”As aplicações do drone são inúmeras e envolvem diversos tipos de trabalhador”, diz Emerson Granemann, idealizador da feira Drone Show, maior evento do segmento no Brasil. Multidisciplinar, as possibilidades profissionais desse mercado são vastas. Há demanda por pilotos, observadores, programadores e desenvolvedores de software, além de analistas de sistemas e especialistas em inteligência embarcada, robótica e mecatrônica. Na área de mapeamento geográfico, engenheiros cartográficos, geógrafos e engenheiros agrimensores com conhecimento técnico em drones são cada vez mais requisitados. Já no agronegócio o destaque serão os agrônomos especializados.

Por ser um mercado de trabalho embrionário, especialistas dizem que não existem ainda parâmetros de remuneração para essas carreiras. O salário mensal de um piloto de drone está, hoje, na casa dos 4 500 reais. Para quem atua como autônomo – é comum profissionais da área trabalharem sob demanda, a diária varia de 400 a 900 reais, dependendo da complexidade da atividade. É consenso também que a maior parte das profissões relacionadas a drones ainda está por surgir. Gerald Van Hoy, analista de pesquisa da Gartner, de Oregon, nos Estados Unidos, diz que o setor está bem longe da maturidade. Para ele, coisas que hoje são inspecionadas por humanos serão, em breve, verificadas por drones. “Esses aparelhos fazem um trabalho mais eficiente à medida que coletam dados via dispositivo e chegam a lugares pouco acessíveis.” Nesse cenário, as áreas profissionais com maior chance de prosperar são as ligadas ao desenvolvimento de software e à inteligência analítica. No fim do dia, o que conta são os dados coletados pelo drone. os quais terão de ser analisados por um ser humano.

 LABORATÓRIO DE TESTES

Há oito anos na GTP, empresa brasileira de engenharia focada em automação industrial, o matemático Mateus Tormin, de 35 anos, de São Paulo, acaba de ser promovido de engenheiro de sistemas a diretor de desenvolvimento para levar adiante os projetos da companhia envolvendo drones. A promoção é um reconhecimento pelo trabalho realizado nos últimos três anos no desenvolvimento de sistemas embarcados. “Tive de estudar para entender como o equipamento se comporta no ar e quais são as maiores dificuldades, principalmente indoor, o foco da GTP.” Mateus não fez cursos específicos e diz que o maior desafio foi compreender como funcionavam os drones quando ainda eram novidade. “No começo, foi difícil encontrar informação”, afirma, lembrando que sua principal fonte de reconhecimento na época eram os fóruns na internet.

A GTP vem desenvolvendo e aperfeiçoando um sistema próprio de navegação para veículos aéreos não tripulados – ela presta serviços de contagem e balanço de estoque com a ajuda de drones. Ao todo, a empresa investiu 1,5 milhão de dólares. Atualmente, há uma equipe de seis pessoas voltada exclusivamente para o desenvolvimento de soluções com esses equipamentos. O chefe do time fica baseado na Califórnia, nos Estados Unidos, onde está fazendo um pós-doutorado em drones bancado pela companhia. ”Esse é um mercado novo. Antes de disponibilizar o produto aos clientes, ficamos dois anos e meio em desenvolvimento. Isso requer capital e equipe dedicada. Hoje, temos um laboratório somente para fazer testes”, diz Luiz Gonzaga de Araújo Filho, diretor e sócio-fundadorda GTP.

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DEMANDA LOCAL

A expectativa é que cada vez mais empresas apostem em drones. Isso porque, em maio, foi dado o passo que faltava para impulsionar o mercado brasileiro: a aprovação, pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), do regulamento para utilização de aeronaves não tripuladas no país. “A norma viabiliza a utilização comercial de drones e é um divisor de águas no mercado. Em três meses já é possível verificar um aquecimento”, diz Felipe Calixto, diretor e fundador do Instituto de Tecnologia Aeronáutica Remotamente Controlada com unidades em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro; Porto Alegre, no Rio Grande do Sul; e Bauru, no interior de São Paulo. O instituto oferece cursos de capacitação em drones desde 2014. Para ter uma ideia do aumento da procura, em 2015 e 2016, somados, foram 300 alunos nos cursos de pilotagem e montagem, programação e manutenção. De janeiro a junho deste ano, já foram l00. Segundo Felipe, 90% dos estudantes pretendem atuar profissionalmente ou empreender e 80% têm nível superior. A maioria – de 70% a 80% – opta pelo curso de pilotagem, cuja carga horária é de 70 horas, no valor de 1890 reais. O curso de montagem, manutenção e programação tem 40 horas e custo de 1 490 reais. “Tenho observado, após a regulamentação, que as empresas começam a buscar profissionais de drones ou, então, a treinar os próprios funcionários.”

Os drones têm despertado a atenção das empresas para, por exemplo, substituir trabalhos com certo grau de periculosidade. Na AES Tietê, uma das maiores companhias privadas de geração de energia do país, a chegada do Q-boat (drone subaquático usado para fazer medições da profundidade e da afluência dos rios) aumentou consideravelmente a produtividade. Antes de ser usado, era necessária uma equipe de três pessoas embarcadas para cruzar o rio e inserir o molinete na água em pontos diversos. O trabalho era demorado e levava até 3 horas. Com o drone, bastam duas pessoas na margem, e o serviço dura de 20 a 45 minutos. A empresa tem hoje quatro funcionários capacitados a manejar dois drones aéreos, um Q-boat e outro modelo subaquático – e mais quatro em treinamento. “Nossa ideia é que os cerca de 30 técnicos de campo sejam treinados para operar drones”, diz Anderson de Oliveira, diretor de operações da AES Tietê.

O engenheiro civil Paulo Roberto Rosa Silva, de 45 anos, é um dos que foram treinados. Ele começou a pilotar drones em 2014, quando a AES Tietê adquiriu o Ebee (drone aéreo usado para identificar áreas com ocupações irregulares e desmatamentos). Para isso, fez os cursos teórico e prático oferecidos pela empresa com carga horária total de 24 horas. “O drone é uma ferramenta que veio para incorporar produtividade, segurança e qualidade à realização de diversas atividades. Ter conhecimento das possibilidades de uso do aparelho significa estar atualizado para o mercado de trabalho”, afirma Paulo Roberto.

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CHANCE DE EMPREENDER  

Aquecido, o segmento oferece possibilidades também para quem deseja empreender. De acordo com a MundoGeo, empresa especializada em drones e geotecnologia, o Brasil tem hoje 700 empresas atuando nesse nicho. ”A maioria delas tem menos de três anos de vida e emprega até três profissionais”, diz Emerson Granemann, CEO da MundoGeo e idealizador da DroneShow, feira de negócios referência no país.

A Dron Drones Tecnologies, de Fortaleza, é um caso típico de sucesso. Começou a operar em 2015, com um investimento de 150 000 reais, oferecendo serviços de imagens aéreas a agências de propaganda. Logo vislumbrou novas oportunidades – a Região Nordeste é o maior polo de geração de energia eólica do Brasil, por exemplo. “Depois de estudar o setor, abrimos vertentes para a inspeção em parques eólicos, subestações de energia, estações petrolíferas de óleo e gás, entre outras. Já fomos acionados até para inspecionar uma área com incêndio”, diz Márcio Régis Galvão, um dos sócios.

Deu certo. A empresa passou de um faturamento de 25 000 reais, em 2015, quando trabalhava com imagens aéreas de eventos, para 458 000 reais, em 2016. A expectativa para 2018 é crescer 35%.

A alta demanda levou a outra sócia, Suyan Campos, de 26 anos, que antes só cuidava da parte financeira, a fazer um curso de pilotagem. “No começo, eu não sabia nada. Mas fui me especializando. Para aprender de verdade. no entanto, eu precisei praticar’, diz Suyan, que hoje dá treinamento a outros profissionais Depois de identificar um apagão de indivíduos qualificados, a formação virou um dos braços do negócio da Dron Drones Tecnologies. “As profissões de piloto e observador de drone são muito novas. Quando vamos contratar, saímos com a pessoa para analisar o nível de pilotagem e damos um curso de capacitação para nivelar os profissionais”, afirma a empreendedora. Em estágio inicial, o setor realmente carece de gente especializada. Uma boa notícia para quem tem interesse na área e disposição para se qualificar.

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Fonte: Revista Você S.A – Edição 234

PSICOLOGIA ANALÍTICA

CEGOS PARA A DIFERENÇA

 Muita gente tem grande dificuldade para reconhecer pessoas com cor de pele e traços étnicos diversos dos seus; alguns chegam mesmo a não apreender situações que parecem não combinar com modelos preestabelecidos.

Cegos para a diferença

Nos últimos anos, vários estudos mostraram que temos menor habilidade para distinguir rostos de pessoas de origem diferente da nossa etnia. Pesquisas recentes revelaram, porém, que alguns indivíduos são completamente cegos nesse quesito. Cognitivamente, seu cérebro registra a variedade de características, mas não reconhece nas pessoas algo que pode ter importantes implicações – por exemplo, no testemunho de situações envolvendo suspeitos de outra etnia.

A capacidade de identificar membros da própria etnia varia de forma considerável: alguns podem perceber desconhecidos sem esforço algum, enquanto outros, em situações extremas, não conseguem nem mesmo reconhecer o rosto de amigos ou de gente da família – uma condição rara, conhecida como prosopagnosia. Para entender melhor essa dinâmica, o doutor em psicologia Lulu Wan e seus colegas da Universidade Nacional Australiana decidiram quantificar essa habilidade. Os pesquisadores solicitaram a 268 voluntários caucasianos, todos nascidos e criados na Austrália, que memorizassem uma série de seis rostos asiáticos. Durante o experimento, foram apresentadas também fotos de rostos de indivíduos brancos a um grupo de 176 asiáticos que haviam crescido na Ásia, mas tinham se mudado para a Oceania para estudar. Na sequência, cada participante deveria visualizar um conjunto de três rostos e apontar para algum que tivesse visto na tarefa anterior. O teste foi repetido 72 vezes.

Os cientistas observaram que 26 caucasianos e 10 asiáticos (8% da população do estudo) se saíram tão mal no teste que sua percepção poderia ser considerada “comprometida”, segundo critérios clínicos. “Já sabíamos que temos dificuldade de reconhecer feições de outros grupos étnicos, mas o experimento mostra a dimensão do problema”, diz o professor de psicologia da Universidade de Victoria Jim Tanaka, na Colúmbia Britânica, que não participou da pesquisa. “Os resultados revelam que pode não haver valor legal nenhum no testemunho ocular, em situações que envolvam justiça”, afirma a psicóloga Elinor McKone, professora de psicologia da Universidade Nacional Australiana e coautora do estudo. Ela observa que, apesar dessas evidências, os sistemas jurídicos de nenhum país levam em conta as diferenças individuais do reconhecimento de face de pessoas de outras culturas.

Para McKone, a frequência da exposição a indivíduos de outras origens pode influenciar a capacidade de reconhecer as diferenças, segundo os resultados publicados na edição de janeiro do Journal of Experimental Psychology: General. Entre os 106 participantes asiáticos nascidos e criados na Austrália, apenas 3% eram “cegos” para os rostos caucasianos. Esse número subiu para quase 6% entre os nascidos e criados na Ásia.

O psicólogo Daniel Levin, que tem se dedicado com afinco à pesquisa de mecanismos de reconhecimento de rostos por brancos, negros e asiáticos, na Universidade Estadual Kent, em Ohio, discorda do ponto de vista de McKone. Ele acredita que o déficit não aparece porque as pessoas tendem a ter mais contato com gente da própria etnia: trata-se, em sua opinião, de uma questão cultural. Ao olhar o rosto de alguém de outra raça, nosso cérebro busca automaticamente informações para classificá-la racialmente – e não para individualizá-la.

O efeito se estende a outras culturas. Um artigo publicado em 2001 no Psychology, Public Policy and Law trata de um estudo no qual cientistas convidaram algumas pessoas negras (que passeavam por shoppings sul-africanos) a participar de um experimento. Os autores observaram que os voluntários que tinham contato com outros grupos étnicos com pouca frequência reconheciam com mais dificuldade o semblante de pessoas de outras ascendências.

COM CARA DE JOELHO

A prosopagnosia é uma inabilidade perceptiva, uma acentuada “cegueira para feições”. Pessoas com o distúrbio podem ver o rosto dos outros quase sempre tão bem quanto qualquer um, mas não conseguem retê-los na memória ou reconhecê-los. Para elas, essa parte do corpo fica praticamente isenta de peculiaridades: é como se a face equivalesse ao joelho ou à panturrilha. Esse grau de dificuldade é variável e, em muitos casos, as pessoas nem sequer se dão conta de que têm um distúrbio – acreditam que os demais veem o mundo exatamente como elas, povoado de faces indistintas.

O conceito de prosopagnosia é uma invenção moderna. A palavra resulta da junção do vocábulo grego prosopon (face) e agnosia (não reconhecimento). Foi cunhada pelo neurologista alemão Joachim Bodamer, que iniciou seus estudos sobre o tema durante a Segunda Guerra, quando trabalhou no Sanatório Winnental, um hospital psiquiátrico perto de Stuttgart. Ele observou em dois soldados com lesões graves na cabeça uma acentuada inabilidade de reconhecimento facial. Eles olhavam o rosto dos companheiros, mas não conseguiam coordenar a percepção com a capacidade de identificá-los.

Projeções feitas pelo Instituto de Genética Humana da Universidade de Münster, na Alemanha, sugerem que aproximadamente 2% da população é afetada por essa inabilidade em algum grau. Em amostragem realizada com 689 estudantes, 17 apresentaram indícios do distúrbio. Em 14 dos indivíduos pesquisados, foram descobertos sintomas de prosopagnosia tanto em parentes próximos quanto nos do círculo familiar ampliado.

“Sabemos hoje que, se o pai ou a mãe apresenta essa inabilidade perceptiva, a probabilidade de ela aparecer também nos filhos será de 50%; o sinal característico é, portanto, hereditário dominante”, afirma o neurocientista Thomas Grüter, professor da Universidade de Münster. E, uma vez que a prosopagnosia afeta igualmente homens e mulheres, evidencia-se que nela não tem participação nenhum cromossomo sexual, mas provavelmente um “autossomo”.

O especialista ressalta que a inabilidade congênita de reconhecer rostos não necessariamente tem a mesma base neuronal da prosopagnosia adquirida por lesão cerebral. “Até o momento, só sabemos que ela parece responsável pelo distúrbio hereditário de uma única mutação genética; a exemplo de todos os primatas, os seres humanos têm pouca habilidade olfativa em comparação com outras espécies, o que em geral não nos permite reconhecer nossos semelhantes pelos odores, como fazem, por exemplo, os cães”, observa Grüter.

Em vez disso, temos uma visão altamente aperfeiçoada para identificá-los.

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TÃO ÓBVIO QUE NINGUÉM ENXERGA

Imagine que você faz parte de uma plateia que assiste a pessoas driblando e passando entre si uma bola de basquete. Sua tarefa é contar durante 60 segundos o número de vezes que cada jogador faz um passe. Você descobre que precisa se concentrar, porque a bola se movimenta muito rapidamente. Então, alguém com fantasia de gorila atravessa o lugar, caminha entre os jogadores, vira o rosto para os espectadores, bate no peito e vai embora.

Surpreendentemente, de acordo com um estudo realizado pelos pesquisadores Daniel J. Simons, da Universidade de Illinois, e Christopher F. Chabris, da Universidade Harvard, 50% dos voluntários que participaram desse estudo não notaram o gorila. Muitos acreditam que nossos olhos funcionam como câmeras que produzem um registro impecável do mundo ao redor, mas essa pesquisa demonstra que são poucas as informações que realmente apreendemos em um relance.

O resultado desse experimento é o ponto culminante de uma série de estudos sobre atenção e visão iniciados há mais de três décadas por alguns pesquisadores como Ulric Neisser, da Universidade Cornell, Ronald A. Rensink, da Universidade da Colúmbia Britânica, Anne Treisman, da Universidade Princeton, Harold Pashler, da Universidade da Califórnia, e Donald M. MacKay, da Universidade de Keele, na Inglaterra. Os estudiosos se referem ao “efeito gorila” como uma “cegueira por desatenção” ou “cegueira para mudanças”. Nosso cérebro tenta, constantemente, construir narrativas significativas daquilo que vemos. As coisas que não se encaixam muito bem no roteiro ou têm pouca relevância são eliminadas da consciência. (Por Vilayanur S. Ramachandran e Diane Rogers-Ramachandrann, neurocientistas, pesquisadores do Centro para o Cérebro e a Cognição na Universidade da Califórnia em San Diego)

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