GESTÃO E CARREIRA

SEM GLUTEN, SEM LACTOSE, SEM CRISE

Empresas investem na produção de alimentos para dietas restritivas, aumentam o faturamento e ofertam vagas em tempos de recessão.

Sem glútem, sem lactose, sem crise

Quem tem um olhar atento às prateleiras dos supermercados percebe que elas estão abarrotadas de linhas especiais: sem glúten, sem lactose, sem açúcar. Impulsionadas pela demanda de consumidores cada vez mais conscientes e exigentes, empresas do segmento perceberam o potencial do nicho de alimentação restritiva e passaram a investir pesado em produtos destinados a atender quem sofre de alergias, intolerâncias ou doenças como diabetes. Dados da consultoria Euro monitor, que realiza pesquisas sobre produtos e serviços ao redor do mundo, apontam que, nos últimos dez anos, esse mercado cresceu 524% no Brasil. Só em 2016 esses alimentos movimentaram 1 bilhão de reais. O valor é quatro vezes superior ao registrado no segmento de orgânicos, que fechou o ano com faturamento de 266 milhões de reais no país. E o crescimento não deve parar por aí. A expectativa é que, até 2021, a venda de restritivos tenha uma alta de 47,6% no Brasil – mesmo considerando-se o atual cenário político e econômico. A busca por uma vida mais saudável, tendência observada globalmente, é o principal gatilho para o avanço. “Até pouco tempo atrás, a doença celíaca, que traz complicações gastrintestinais por causa da baixa tolerância do organismo ao glúten, mal era diagnosticada. Hoje, a informação é mais fácil e a oferta de alimentos acompanha esse movimento”, diz Ticiana Menezes, diretora de marketing e vendas da Dr. Schãr Brasil, de Curitiba. A empresa de origem italiana tem como carro-chefe a produção de alimentos sem glúten. No Brasil desde 2012, cresceu 300% e espera um incremento de mais 10% em sua receita neste ano. “Fechamos 2016 com faturamento global de 350 milhões de euros. Hoje, comercializamos 40 dos 150 produtos da marca no Brasil. A distribuição se dá em mais de 5 000 pontos de venda.”

A Dr. Schãr não é a única a prosperar. A mineira NHD Foods, detentora das marcas GoodSoy e BeLive – e que comercializa, desde 2006, 40 produtos sem glúten, sem lactose e sem açúcar – registra um crescimento significativo nos resultados. Segundo Samuel Ma, diretor de marketing do grupo, só no primeiro semestre deste ano, o faturamento da empresa foi 43% superior ao do mesmo período do ano passado. “O movimento free­from [alimentos livres de] não é moda, mas questão de saúde, bem-estar e qualidade de vida.”

Gigantes também estão de olho no nicho. Na Danone, a categoria de lácteos frescos diet, light, zero gordura e zero lactose representou, em 2016, 11,3%do faturamento total da marca. Conforme aponta Marilia Zanoli, diretora de marketing da divisão de produtos lácteos frescos da empresa, a linha sem lactose foi a que mais se destacou. “Frente a 2015, ela cresceu 69% em volume e 75% em valor.”

Com todo esse movimento, as contratações do segmento seguem aquecidas. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (Abiad), 157.915 pessoas foram contratadas para trabalhar em empresas que atuam na fabricação e comercialização dos chamados produtos especiais (formulados para atender consumidores com demandas específicas, como carências, restrições, alergias e intolerância) em 2016, um número nada mal para um país que, nesse período, via o quadro de muitas empresas minguar por causa da recessão.

“Toda vez que ocorre uma mudança no comportamento do consumidor, a indústria responde à altura. Contrata novos profissionais, capacita o próprio time e cria áreas internas específicas para ter vantagem competitiva ante os concorrentes, diz Juliana Gomes, gerente de negócios da De Bernt, consultoria especializada em recrutamento executivo, de São Paulo. Na indústria de alimentação com foco em restritivos, as áreas mais positivamente impactadas pela alteração de comportamento do cliente são as de negócios, marketing e vendas, e os cargos mais ofertados são os de pesquisa e desenvolvimento e inteligência de mercado. Profissionais com carreiras relacionadas à saúde são os mais visados. “Biomédicos, farmacêuticos, engenheiros de alimentos, nutricionistas e enfermeiros são priorizados, pois trazem um olhar cientifico sobre o produto e sobre o consumidor”, afirma a consultora. Também há preferência por candidatos que tenham interesse genuíno pelo assunto. Ou seja, muitas companhias querem pessoas que acreditem na importância de uma alimentação diferenciada.

A preocupação é levada tão a sério que não é raro em entrevistas de emprego o candidato enfrentar perguntas que, na verdade, são pegadinhas para calibrar seu alinhamento com o propósito do setor. “Há companhias que questionam se a pessoa lê os rótulos das embalagens para saber se o produto contém glúten ou corantes e, caso a resposta seja negativa a descartam do processo”, afirma lsis Borge, gerente de divisão da empresa de recrutamento Robert Half, de São Paulo.

Entre as competências chave para trabalhar no segmento estão conhecimento em legislação alimentar, normas de qualidade e segurança de alimentos; fluência em inglês e espanhol para atuar em multinacionais e especialização em saúde. Visão de mercado e empatia para entender questões e desejos dos clientes também contam pontos –   Já que se trata de um negócio relativamente novo no Brasil. “Um engenheiro de alimentos pode ser chamado a desenvolver uma nova linha e, ao mesmo tempo, requisitado a ajudar o marketing na elaboração da campanha”, afirma Isis.

“Nas linhas de alimentos especiais, buscamos candidatos que consigam transitar entre o mundo médico e o de consumo”, diz André Rapoport, diretor de recursos humanos da Danone. Segundo ele, por se tratar de uma área que exige alto grau de especialização, nem sempre é fácil achar profissionais para divisões de produtos especiais e restritivos. “Nesse caso, oferecemos treinamentos no Brasil e na matriz da empresa, na Holanda, para aprimorar o conhecimento.” A Danone registrou em 2016 um aumento de 21% em suas oportunidades de emprego na área ante 2015 e hoje tem 63 posições em aberto.

Se por um lado, a crise econômica estabilizou o valor dos salários no setor alimentício nos últimos três anos, por outro não alterou a oferta de vagas – que continua alta. A Dr. Schãr aumentou em 2.596 seu quadro de colaboradores no último ano e hoje conta com 50 funcionários. A nutricionista Inês Camila Alves, de 29 anos, foi contratada no início de 2017. Após três anos de atividades terceirizadas para a multinacional italiana, ela foi convidada a integrar o quadro de funcionários efetivos, num cargo superior. “Fui promovida para a função de key account manager em janeiro e passei a receber 25% mais de remuneração, fora benefícios”, diz a profissional, de São Paulo, que atua no atendimento de vendas a redes de supermercados. O conhecimento sobre alimentos sem glúten ajudou na promoção. “Meu trabalho de conclusão de curso na faculda.de foi sobre esse tema’, diz Camila, que vê na atividade uma chance de oferecer uma vida mais saudável a quem tem restrições.

Outra que também foi conquista da pela possibilidade de atuar num segmento que promove a saúde e viu os ganhos crescer foi Maria ne Caroline Bento, de 30 anos, de Curitiba. A engenheira de alimentos, que começou como analista e hoje responde pela coordenação de pesquisa e desenvolvimento da Jasmine Alimentos, empresa paranaense e uma das pioneiras no segmento saudável, deixou seu emprego em uma indústria de alimentos tradicional, em 2013, para trabalhar com uma linha mais natural, sem glúten e sem açúcar. “Poder oferecer bons alimentos às pessoas que possuem restrições é o que mais me motiva”, diz Mariane, que em quatro anos de atividades já foi promovida e aumentou os rendimentos em 40%. “Minha função é buscar tendências em ingredientes e processos para realizar melhorias na fábrica e inovação nos produtos”, afirma a engenheira, que fez pós­-graduação na área de desenvolvimento de produtos e cursos voltados para a produção de alimentos para quem tem restrição alimentar.

Quem acredita que as oportunidades estão apenas na indústria, a Mundo Verde mostra que há vagas em toda a cadeia produtiva, incluindo o varejo. A franqueadora de alimentos naturais, que conta com 62 colaboradores em sua equipe administrativa, não divulga dados específicos sobre vendas de restritivos, mas afirma que há um notório interesse do consumidor pela linha “free”. Neste ano, a empresa já contratou 15 pessoas e está com duas vagas em aberto: uma para analista de expansão e outra para a coordenação de treinamento. Além disso, dez lojas foram abertas, gerando seis novas vagas por unidade inaugurada, um total de 60 contratações. Até o fim do ano, a previsão é mais ousada: 312 novos postos de trabalho. ”Temos mais oportunidades para atendentes e vendedores, mas há demanda também para nutricionistas formados ou em formação’, diz Vanessa Nascimento, gerente-geral de recursos humanos da Sforza, holding que controla a marca Mundo Verde. A julgar pela crescente preocupação dos consumidores com o que colocam à mesa, o mercado de alimentos especiais só tende a crescer.

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PARA O ALTO E AVANTE

A projeção de alta no faturamento com alimentos restritivos se destaca quando comparada a outras categorias de produtos considerados saudáveis.

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CRESCIMENTO PROJETADO – (Em percentual até 2021 –

1 – Restritivos (sem glúten, sem lactose e afins) – 47,6 %

2 – Orgânicos – 25,7%

3 – Naturalmente saudáveis, como mel e azeite – 24,1%

4 – Com teor reduzido de açúcar, sal e gordura – 13%

5 – Fortificados com vitaminas, cálcio, ômega-3 – 13%

Fonte: Euro monitor Internacional

 

 

Fonte: Revista Você S.A – Edição 234

 

 

 

 

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.