ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 11: 25-30

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O Convite de Cristo às Almas Oprimidas

Nestes versículos, temos Cristo elevando os olhos para o céu, agradecendo ao seu Pai pela soberania e pela segurança do concerto da redenção; e olhando à sua volta, a esta terra, com uma oferta para todos os filhos dos homens, a quem virão estas dádivas, os privilégios e os benefícios do concerto da graça.

I – Aqui Cristo agradece a Deus Pai pela sua generosidade a favor dos pequeninos, a quem foram revelados os mistérios do Evangelho (vv. 25,26). Jesus respondeu e agradeceu. Isto é chamado de resposta, embora não haja outras palavras registradas anteriormente, a não ser as suas próprias, porque é uma resposta muito consoladora às considerações melancólicas que a ante­ cedem, e contrasta com elas de maneira adequadamente equilibrada. O pecado e a destruição daquelas cidades infelizes, sem dúvida, era um pesar para o Senhor Jesus. Ele não podia fazer nada, exceto chorar por elas, como fez por Jerusalém (Lucas 19.41). Com este pensamento, portanto, Ele se alivia; e para torná-lo ainda mais animador, Ele o transforma em um agradecimento; pois apesar de tudo, existem alguns, embora ainda pequeninos, a quem as coisas do Evangelho são reveladas. Embora Israel não se una, ainda assim será uma nação gloriosa. Observe que podem os obter um grande incentivo ao erguer os olhos para Deus, quando à nossa volta não vem os nada, exceto o que nos desencoraja. É triste ver o quanto alguns homens deixam de se preocupar com a sua própria felicidade, mas é consolador pensar que aos sábios e fiéis Deus irá efetivamente assegurar os interesses da sua própria glória. Jesus respondeu e disse: “Graças te dou”. O agradecimento é uma resposta adequada aos pensamentos obscuros e inquietantes, e podem ser um meio efetivo para silenciá-los. Cânticos de louvor são alívios soberanos para as almas desalentadas, e irão ajudá-las a curar a melancolia. Quando não tem os outra resposta pronta para o que nos traz tristeza e medo, podemos recorrer a esta expressão do Senhor Jesus: “Graças te dou, ó Pai”; devemos sempre bendizer a Deus por nossa situação não ser pior do que realmente é.

Neste agradecimento de Cristo, podemos observar:

1.Os títulos que Ele dá a Deus: “Pai, Senhor do céu e da terra”. Observe:

(1) Todas as vezes que nos aproximamos de Deus – em louvor e também em oração – é bom que o vejamos como Pai, e que nos apeguemos a este relacionamento, não somente quando pedimos o que desejamos, mas também quando agradecemos pelo que recebemos. A misericórdia é, então, duplamente doce, e poderosa para abrir o coração em louvor, quando é recebida como símbolo do amor de um Pai, e como dom da mão de um Pai; dando graças ao Pai (Colossenses 1.12). É conveniente que os filhos sejam gratos e que digam: “Obrigado, Pai”, tão prontamente como “Eu oro, Pai”.

(2) Quando buscamos a Deus como Pai, devemos também nos lembrar de que Ele é o Senhor do céu e da terra; o que nos impele a nos dirigirmos a Ele com reverência, como o soberano Senhor de todas as coisas, e, além disso, com confiança, como alguém que é capaz de fazer por nós qualquer coisa que precisarmos ou pudermos desejar; de nos defender de todo o mal e de nos dar todo o bem. Cristo, representado por Melquisedeque, há muito tempo tinha agradecido a Deus como o “Possuidor dos céus e da terra”; e em todos os nossos agradecimentos pelas misericórdias que recebemos, devemos lhe dar glória, por ser a fonte superabundante.

2.Pelo que Ele dá graças: porque “ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos”. “Estas coisas” – Ele não diz quais são as coisas, mas se refere às grandes coisas do Evangelho, as coisas que pertencem à nossa paz (Lucas 19.42). Assim, Ele fala enfaticamente sobre elas, “estas coisas”, porque eram coisas que o enchiam, e devem também nos encher: todas as outras coisas são nada, comparadas a estas coisas.

Observe como:

(1) As grandes coisas do Evangelho eterno estiveram e estão ocultas de muitos que foram sábios e prudentes, que foram eminentes no aprendizado e na política do mundo – alguns dos maiores intelectuais e dos maiores estadistas têm sido os maiores estranhos aos mistérios do Evangelho. O mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria (1 Coríntios 1.21). Há uma oposição feita ao Evangelho por uma falsamente chamada ciência (1 Timóteo 6.20). Aqueles que são mais especializados em coisas concretas e seculares, normalmente são menos versados nas coisas espirituais. Os homens podem mergulhar profundamente nos mistérios da natureza e nos mistérios do Estado, e serem ignorantes e equivoca­ dos sobre os mistérios do Reino dos céus, por precisa­ rem de uma experiência com o poder destes mistérios.

(2) Embora os homens sábios e prudentes do mundo estejam nas trevas a respeito dos mistérios do Evangelho, até mesmo as crianças em Cristo têm o conhecimento salvador e santificador desses mistérios: “as revelas­ te aos pequeninos”. Assim eram os discípulos de Cristo; homens de nascimento humilde e pouca instrução; não eram intelectuais, não eram artistas, não eram políticos, eram homens sem letras e indoutos (Atos 4.13). Assim, os segredos da sabedoria, que é multiforme (Jó 11.6), são revelados às crianças e aos que mamam, para que a força possa ser suscitada das suas bocas (SaImos 8.2), e desta forma o louvor a Deus seja perfeito. Os homens instruídos do mundo não foram escolhidos para serem os pregadores do Evangelho, mas as coisas tolas do mundo (l Coríntios 2.6,8,10).

(3) Esta diferença entre os prudentes e os pequeninos é obra de Deus.

[1] Foi Ele quem ocultou estas coisas dos sábios e instruídos; Ele lhes deu funções e instrução e uma grande compreensão humana, superior à dos outros, e eles se orgulhavam disso, e descansavam sobre isso, e não procuravam nada além disso; e, portanto, Deus, com justiça, lhes nega o Espírito de sabedoria e revelação, e então, embora eles ouçam o som das notícias do Evangelho, para os tais, elas são uma coisa estranha. Deus não é o autor da sua ignorância e dos seus erros, mas Ele os deixa à sua própria sorte, e o seu pecado se torna a sua punição, e o Senhor é justo a este respeito. (veja João 12.39,40; Romanos 11.7,8; Atos 28.26,27.) Se eles tivessem honrado a Deus com a sabedoria e a prudência que tinham, Ele lhes teria dado o conhecimento dessas coisas melhore s; mas, porque eles alimentavam os seus desejos com elas, Ele ocultou esse conhecimento de seus corações.

[2] Foi também Ele quem revelou essas coisas aos pequeninos. As coisas reveladas pertencem aos nossos filhos (Deuteronômio 29.29), e a eles Deus dá uma compreensão para receber estas coisas, e as suas impressões. Desta maneira, Ele resiste aos soberbos, e “dá, porém, graça aos humildes” (Tiago 4.6).

(4) Esta dispensação deve ser decidida no âmbito da soberania divina. O próprio Cristo relacionou-a à soberania divina: “Sim, ó Pai, porque assim te aprouve”. Aqui, Cristo se sujeita à vontade do seu Pai no que se refere a este assunto. Sim, deixemos que Deus use os métodos que Ele quiser para se glorificar, e que Ele faça de nós os instrumentos que quiser, para continuarmos a sua própria obra; a graça pertence a Ele, e Ele pode concedê-la ou retê-la, de acordo com a sua vontade. Não podemos explicar por que Pedro, um pescador deveria ter sido feito apóstolo, e não Nicodemos, um fariseu e legislador dos judeus, embora ele também cresse em Cristo; mas assim aprouve a Deus. Cristo disse isto para que os seus discípulos ouvissem, para lhes mostrar que não era devido a nenhum mérito deles que estavam sendo desta maneira dignificados e distinguidos, mas puramente devido à boa vontade de Deus. Ele os criou para que fossem diferenciados.

(5) Esta maneira de dispensar a graça divina deve ser reconhecida por nós, como foi pelo nosso Senhor Jesus, com toda a gratidão. Nós devemos agradecer a Deus:

[1] Pelo fato de essas coisas serem reveladas (o mistério oculto por século gerações agora é manifestado); pelo fato de elas serem reveladas, não a poucas pessoas, mas porque serão transmitidas a todo o mundo.

[2] Pelo fato de serem reveladas aos pequeninos; pelo fato de os mansos e humildes se embelezarem com esta salvação; e esta honra é colocada sobre aqueles a quem o mundo dedica um grande desprezo.

[3] Porque a misericórdia a eles é ampliada, com o fato de que essas coisas estão ocultas dos sábios e instruídos – as graças que distinguem são as que mais obrigam. Assim como Jó adorava o nome do Senhor quando Ele lhe dava algo, ou quando lhe tirava algo, possamos também revelar aos pequeninos estas coisas que estão ocultas dos sábios e instruídos; não como sendo a sua infelicidade, mas como sendo um método pelo qual o próprio ser se humilha, os pensa­ mentos 01·gulhosos são destruídos, toda a carne é silenciada, e o poder e a sabedoria divinos brilham de modo ainda mais intenso. Veja 1 Coríntios 1.27,31.

 

II – Aqui Cristo faz uma graciosa oferta dos benefícios do Evangelho a todos, e estes são as coisas que são reveladas aos pequeninos (v. 25 etc.). Observe aqui:

1.O prefácio solene que introduz este chamado ou convite, tanto para chamar a nossa atenção a ele como para nos incentivar a estar de acordo com ele. Para que possamos ter um forte consolo, procurando refúgio nesta esperança que é colocada diante de nós, Cristo assinala a sua autoridade apresentando as suas credenciais. Nós veremos que Ele tem autoridade para fazer esta oferta.

Ele nos apresenta duas situações (v. 27):

(1) A sua comissão da parte do Pai: “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai”. Cristo, sendo Deus, é igual, em poder e glória, ao Pai; mas como Mediador, Ele recebe o seu poder e a sua glória do Pai; Ele tem todo o julgamento sujeito a si. Ele está autorizado a estabelecer um novo concerto entre Deus e os homens, e a oferecer paz e felicidade ao mundo apóstata, nos termos que Ele julga adequados. Ele foi santificado e sela­ do para ser o único plenipotenciário, para conciliar e estabelecer este grande relacionamento. Para isto, Ele tem “todo o poder no céu e na terra” (cap. 28.18); tem poder sobre toda carne (João 17.2); autoridade para todo o juízo (João 5.22,27). Isto nos incentiva a ir a Cristo, pois só Ele está designado pelo Pai para nos receber, e nos dar aquilo que precisamos. Aquele que é o Senhor de todas as coisas lhe entregou tudo para que este objetivo seja alcançado. Todos os poderes, todos os tesouros, estão na sua mão. Observe que o Pai entregou todas as suas coisas nas mãos do Senhor Jesus; só temos que entregar as nossas coisas na sua mão, e o trabalho estará feito. Deus fez de Jesus o grande Juiz, o bendito Árbitro, para estender a sua mão sobre nós; e o que nós devemos fazer é concordar com a referência, é sujeitar-nos à arbitragem do Senhor Jesus, para que esta infeliz controvérsia seja resolvida, e para que possamos receber a sua recompensa.

(2) A sua intimidade com o Pai: “Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho”. Isto nos dá uma satisfação a mais, e muito abundante. Os embaixadores costumam ter não apenas as suas comissões, que eles apresentam, mas as suas instruções, que eles reservam a si mesmos, para fazer uso delas quando houver oportunidades nas suas negociações. O nosso Senhor Jesus tinha as duas coisas, não somente a autoridade, mas a capacidade para a sua tarefa. Ao ordenar o grande pacto ela nossa redenção, o Pai e o Filho são as principais partes interessadas; um conselho ele paz haverá entre ambos (Zacarias 6.13). Portanto, eleve ser um grande incentivo para que sejamos assegurados ele que Eles se compreendiam muito bem a respeito deste assunto; que o Pai conhecia o Filho, e o Filho conhecia o Pai, e ambos com perfeição (uma consciência mútua, podemos dizer, entre o Pai e o Filho), para que não houvesse engano ao estabelecer esta questão; pois sempre há enganos entre os homens na conclusão de contratos e no rompimento ele medidas adotadas, por causa ela sua falta ele compreensão entre si. O Filho tinha estado no seio elo Pai desde a eternidade; Ele era um membro do conselho ele gabinete (João 1.18). Cristo estava com Ele, como seu aluno (Provérbios 8.30), ele modo que ninguém conhece o Pai, senão o Filho, acrescenta Ele, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Observe:

[1] A felicidade dos homens está no conhecimento de Deus; é a vida eterna, é a per­ feição dos seres racionais.

[2] Aqueles que desejarem conhecer a Deus, devem procurar a Jesus Cristo; pois a luz do conhecimento da glória de Deus brilha na face de Cristo (2 Coríntios 4.6). Nós somos impelidos a Cristo por toda a revelação que temos ela vontade e do amor de Deus Pai, desde que Adão pecou; não existe uma relação confortável entre um Deus santo e um homem pecador, a não ser por meio de um Mediador (João 14.6).

2.Aqui nos é feita a própria oferta, e também um convite para aceitá-la. Depois de um prefácio solene, nós podemos esperar algo muito grandioso, e são palavras leais e dignas de toda a aceitação; palavras pelas quais nós podemos ser salvos. Aqui, somos convidados a ter Cristo como nosso Sacerdote, Príncipe e Profeta, para sermos salvos. E, para alcançarmos isto, devemos ser governados e ensinados por Ele.

(1) Devemos ir a Jesus Cristo como o nosso descanso, e repousar nele (v. 28), “Vinde a mim, todos os que es­ tais cansados”. Observe:

[1] O caráter das pessoas que são convidadas: “Todos os que estais cansados, e oprimidos”. Esta é uma boa palavra ao que está cansado (Isaias 50.4). Que aqueles que reclamam do peso da lei cerimonial, que era um jugo insuportável, e ficava ainda pior pela tradição elos anciãos (Lucas 11.46), venham a Cristo, e serão aliviados. Ele veio para libertar a sua igreja deste jugo, para anular a imposição destes rituais carnais, e para apresentar uma maneira mais pura e espiritual de adorar – mas é necessário compreender o peso elo peca­ do, tanto da culpa como elo poder maligno que ele traz. Observe que são convidados para descansar em Cristo todos aqueles, e somente aqueles, que percebem que o pecado é um peso, e que gemem sob este peso; os que não somente estão convencidos elo mal do pecado, do seu próprio pecado, mas que, por esta razão, são contritos de alma; que realmente estão cansados dos seus pecados, cansados ele servir ao mundo e à carne; que veem a sua triste e perigosa condição em razão do pecado, e que sofrem e temem por isto, como Efraim (Jeremias 31.18-20), o filho pródigo (Lucas 15.17), o publicano (Lucas 18.13), os ouvintes de Pedro (Atos 2.37 ), Paulo (Atos 9.4,6,9), e o carcereiro (Atos 16.29,30). Este é um preparativo necessário para o perdão e para a paz. O Consolador deve primeiramente convencer (João 16.8). “Fez a ferida e a ligará” (Oseias 6.1). “Eu firo e eu saro” (Deuteronômio 32.39).

[2] O próprio convite: “Vinde a mim”. Esta maravilhosa demonstração da grandeza de Deus, que nós tivemos (v. 27), como Senhor de todas as coisas, pode nos afugentar dele, mas veja aqui como Ele segura o cetro de ouro, para que possamos tocar o seu topo e viver. Observe que é dever e interesse dos pecadores cansados e oprimidos vir até Jesus Cristo. Renunciando a todas aquelas coisas que estão em oposição a Ele, ou que competem com Ele, nós devemos aceitá-lo, como nosso Médico e Advogado, e desistir de nós mesmos, pela sua conduta e pelo seu governo; desejando livremente ser salvos por Ele, à sua maneira, e de acordo com as suas condições. Venha, e jogue este peso sobre Ele, este peso que lhe oprime. Este é o convite do Evangelho: “O Espírito e a esposa dizem: Vem! E quem ouve diga: Vem! E quem tem sede venha”.

[3] A benção prometida a todos aqueles que vierem: “Eu vos aliviarei”. Cristo é o nosso Noé, cujo nome significa descanso, pois Ele “nos dará descanso das nossas obras e do trabalho das nossas mãos” (Genesis 5.29; 8.9, versão TE). Verdadeiramente, o descanso é bom (Genesis 49.15), especialmente àqueles cansados e oprimidos (Eclesiastes 5.12). Observe que Jesus Cristo dará um descanso assegurando àquelas almas cansadas, que por meio de uma fé viva venham até Ele, procurando este descanso; descanso do terror do pecado, numa paz de consciência bem fundamentada; descanso do poder do pecado, numa ordem regular da alma, e do seu próprio governo; um descanso em Deus e uma complacência da alma, no seu amor (Salmos 11.6 ,7). Este é o repouso que resta para o povo de Deus (Hebreus 4.9), que se inicia na graça e se aperfeiçoa na glória.

(2) Nós devemos ir a Jesus Cristo como nosso Governante, e nos submetermos a Ele (v. 29). “Tomai sobre vós o meu jugo”. Isto acompanha o versículo anterior, pois Cristo é exaltado para ser o Príncipe e também o Salvador, o Sacerdote sobre o seu trono. O repouso que Ele promete é um alívio do trabalho árduo do pecado, não do serviço a Deus, e não deixa de ser uma obrigação e um dever que temos para com Ele. Cristo tem um jugo para os nossos pescoços, e também uma coroa para as nossas cabeças, e Ele espera que este jugo nos atraia e que o tomemos sobre nós. Convidar os que estão cansados e oprimidos para que tomem sobre si um jugo, parece aumentar a aflição dos aflitos, mas a pertinência disso está na palavra “meu” “Vocês estão sob um jugo que os deixa cansados; tirem este jugo e experimentem o meu, que será mais fácil para vocês”. Diz-se que os servos estão debaixo de um jugo (1 Timóteo 6.1), assim como os súditos (1 Reis 12.10). Tomar o jugo de Cristo sobre nós significa colocarmo-nos da mesma maneira que os servos e os súditos dele, e nos conduzir adequadamente, em uma obediência consciente a todos os seus mandamentos, e em uma submissão alegre a todas as suas vontades; é obedecer ao Evangelho de Cristo, rendermo-nos ao Senhor: é o jugo de Cristo; o jugo que Ele indicou; um jugo que Ele mesmo apresentou diante de nós, pois Ele aprendeu a obediência. Ele faz uma obra através do seu Espírito que habita e opera dentro de cada um de nós, pois Ele nos ajuda nas nossas fraquezas (Romanos 8.26). Um jugo dá a entender uma dose de dificuldades, mas se o animal precisa puxar, o jugo o ajuda. Os mandamentos de Cristo são todos a nosso favor: nós devemos tomar este jugo sobre nós para nos ajudar. Nós tomamos o jugo para trabalhar; portanto, devemos ser diligentes. Nós tomamos o jugo para nos sujeitar; portanto, devemos ser humildes e pacientes. Nós tomamos o jugo juntamente com nossos irmãos, que também são servos; portanto, devemos guardar a comunhão dos santos; e as palavras do sábio são como um incentivo para aqueles que tomam este jugo sobre si.

Esta é a parte mais difícil da nossa lição, e, por esta razão, ela é especificada (v. 30): “O meu jugo é suave, e o meu fardo é leve”. Vocês não precisam ter medo dele.

[1] O jugo dos mandamentos de Cristo é um jugo suave; não apenas suave, mas gracioso, este é o significado desta palavra. É doce e agradável, não há nada nele que machuque o pescoço que ele prende, nada que nos machuque, mas, ao contrário, ele nos alivia. É um jugo que está alinhado com o amor. Esta é a natureza de todos os mandamentos de Cristo, tão razoáveis em si mesmos, tão proveitosos para nós, e tudo resumido em uma única palavra, e que palavra doce: amor. Tão pode­ rosa é a ajuda que Ele nos dá, tão adequados são os incentivos, e tão fortes os consolos, que devem ser encontrados no caminho do dever, que nós podemos verdadeiramente dizer: É um jugo de conforto. É suave para a nova natureza, muito fácil de ser carregado por aquele que tem conhecimento (Provérbios 14.6). Pode ser um pouco difícil no início, mas depois se torna fácil, suave; o amor de Deus e a esperança do céu o tornarão suave.

[2] O fardo da cruz de Cristo é um fardo leve, muito leve. As aflições de Cristo, que acontecem conosco como homens; os sofrimentos por amor a Cristo, que nos acontecem como cristãos – estes têm um significado especial. Este fardo, por si mesmo, não é alegre, mas triste; ainda assim, por ser de Cristo, é leve. Paulo o conhecia como qualquer homem, e ele o chama de leve tribulação (2 Coríntios 4.17). A presença de Deus (Isaias 43.2), a com­ paixão de Cristo (Isaias 73.9; Daniel 3.25), e especialmente a consolação do Espírito (2 Coríntios 1.5), tornam o sofrimento por amor a Cristo algo leve e suave. Quando abundam os sofrimentos, e são prolongados, também abundam os consolos, que são também prolongados. Devem os, portanto, nos reconciliar com as dificuldades, e nos ajudar em meio aos desânimos que podemos encontrar, tanto realizando o trabalho como sofrendo o trabalho: embora possamos perder algo por amor a Cristo, não seremos perdidos por Ele.

(3) Nós devemos procurar Jesus Cristo como nosso Mestre, e nos dispormos a aprender com Ele (v. 29). Cristo edificou uma grande escola e nos convidou para sermos seus alunos. Nós devemos entrar, nos relacionarmos com seus alunos e comparecer diariamente para as instruções que Ele dá, por meio da sua palavra e do seu Espírito. Nós devemos conversar muito sobre o que Ele disse, estando preparados para utilizar as suas palavras em todas as ocasiões. Devemos estar em conformidade com o que Jesus fez, e seguir as suas pisadas (1 Pedro 2.21). Alguns fazem das palavras “sou manso e humilde de coração” uma lição particular que nós devemos aprender do exemplo de Cristo. Devemos aprender dele a ser mansos e humildes, e devemos mortificar o nosso orgulho e a nossa paixão, que nos tornam tão diferentes dele. Devemos aprender as lições ensinadas por Cristo, como também as lições a respeito de Cristo (Efésios 4.20), pois Ele é, ao mesmo tempo, o mestre e a própria Lição, a Orientação e o Caminho; Ele é Tudo em Todos.

São dadas duas razões pelas quais devemos aprender mais a respeito de Cristo.

[1] “Sou manso e humilde de coração”, e, desta forma, capacitado para lhe ensinar. Em primeiro lugar, Ele é manso, e pode ter compaixão dos ignorantes, com quem os outros poderiam ter algum aborrecimento. Muitos professores capacitados são temperamentais e apressados, o que é um grande desencorajamento para aqueles que são menos inteligentes, ou lentos, mas Cristo sabe como suportar isto e como abrir o entendimento dessas pessoas. A sua maneira de lidar com os seus doze discípulos foi um exemplo disso. Ele era manso e gentil com eles, e aproveitou o máximo deles. Embora eles fossem desatentos e esquecidos, Ele não era extremado, a ponto de destacar as suas tolices. Em segundo lugar, Ele é humilde de coração. Ele condescende para ensinar a pobres alunos, e novos convertidos. Ele escolheu discípulos, não da corte, nem das escolas, mas do litoral. Ele ensina os primeiros princípios, coisa que são como leite para os bebês. Ele se curva às capacidades mais inferiores. Ele ensinou Efraim a andar (Oseias 11.3). Quem ensina como Ele? É um incentivo para nós frequentar a escola de tal professor. Esta humildade e mansidão qualificam-no para ser o Mestre, e estas serão as melhores qualificações daqueles que serão ensinados por Ele; pois Ele guiará os humildes na justiça (Salmos 25.9, versão RA).

[2] “Encontrareis descanso para a vossa alma”. Esta promessa é emprestada de Jeremias 6.16, pois Cristo gostava de se expressar usando a linguagem dos profetas, para mostrar a harmonia entre os dois Testamentos. Observe, em primeiro lugar, que o descanso para a alma é o descanso mais desejável; ter a alma descansada. Em segundo lugar a única maneira, e uma maneira garantida, de encontrar descanso para a nossa alma, é sentarmo-nos aos pés de Cristo e ouvir a sua palavra. O caminho do dever é o caminho para o descanso. O entendimento encontra descanso no conhecimento de Deus e de Jesus Cristo, e ali é abundantemente satisfeito, encontrando no Evangelho aquela sabedoria que foi buscada em vão em meio a toda a criação (Jó 28.12). As verdades que Cristo ensina são tais que nós podemos arriscar a nossa alma nelas. Os enfermos irão encontrar descanso no amor de Deus e Jesus Cristo, e neles encontrar o que lhes dará uma satisfação abundante, tranquilidade e certeza para sempre. E estas satisfações serão perfeitas e perpetuadas no céu, onde veremos e apreciaremos a Deus imediatamente, e o veremos como Ele é, e o apreciaremos como Ele nos aprecia. Este descanso se dará com Cristo, para todos aqueles que aprendem dele.

Pois bem, este é o resumo e o conteúdo do chamado e da oferta do Evangelho: aqui nós lemos, em poucas palavras, o que o Senhor Jesus deseja de nós, e isto está de acordo com aquilo que Deus disse repetidas vezes a respeito dele: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; escutai-o”.

GESTÃO E CARREIRA

SINCERIDADE RADICAL

Relações mais próximas e honestas estão na base das melhores lideranças, é nisso que acredita a americana Kim Scott, autora de um livro sobre o tema.

Sinceridade radical

Steve Jobs, CEO da Apple morto em 2011, era conhecido por seu modo direto e simples de demonstrar que alguém não estava indo bem em algum projeto. “Seu trabalho está um lixo”, dizia. Larry Page e Matt Cutts, do Google, constantemente gritavam um com o outro quando discutiam ideias no trabalho. Ainda assim, eram líderes admirados e bem-sucedidos. Por trás do comportamento aparentemente rude, havia relações sólidas. Para Kim Scott, empresária, coache autora de Radical Candor (“Sinceridade radical”, numa tradução livre, ainda sem edição em português), ter essa capacidade de desenvolver relacionamentos próximos e honestos no trabalho é o que transforma alguém em um grande líder. A autora aprendeu isso ao passar por empresas corno as gigantes de tecnologia citadas, um bom chefe quer a verdade de quem trabalha para ele” disse Kim. E a recíproca deve ser verdadeira, mas com cuidado. Frases como “seu trabalho está um lixo” podiam funcionar para Steve Jobs, mas dificilmente funcionarão com outros. Ser radicalmente sincero significa se importar, não é ter carta branca para ser estúpido”, afirma a autora. Uma relação transparente permite que críticas diretas sejam feitas, mas sem perder a sensibilidade. Isso ainda é um desafio no Brasil. “Somos mais complacentes e temos medo de fazer críticas’, diz César Souza, consultor de empresas e presidente do grupo Empreenda, em São Paulo. Por isso, é hora de aprender a usar a sinceridade de forma construtiva, desenvolvendo projetos e relações melhores.

CONHEÇA SEU TIME

A base de uma troca mais franca no trabalho é um relacionamento próximo com a equipe. Quando os funcionários entendem que o chefe se importa com eles, são mais propensos a aceitar críticas e a focar os resultados. Para isso, é preciso saber quem são as pessoas que trabalham para você dentro e fora do trabalho – e abandonar a “personalidade do escritório: ou seja, ser quem você realmente é o tempo todo, encorajando os demais a fazer o mesmo. Não significa ser amigo de todo mundo, mas conhecer o papel e a história de cada um.

“É possível respeitar e se importar mesmo sem gostar do outro: diz Kim. Por isso, dedique tempo a formar relacionamentos mais significativos. Para cultivar algo autêntico, passar um tempo junto, longe das pressões do trabalho, ajuda. Pode ser desde uma simples caminhada até encontros organizados com as famílias. Mas não caia no exagero: eventos sociais em demasia constrangem os funcionários.

NÃO TENHA MEDO DE CHATEAR

Quase tão perigoso quanto o chefe grosseiro é o chefe bonzinho – que tem medo de chatear. “Fomos ensinados a tentar ser agradáveis e isso afeta nosso feedback. Quando vamos criticar, tentamos suavizar, minimizar o erro e acabamos sendo muito vagos, diz Tatiana lwa, do Insper, escola de negócios de São Paulo. O resultado é que a mensagem não é bem passada – o funcionário acaba com a impressão de que o que fez de ruim não foi tão ruim assim ou não entende que havia um problema. Para formular uma crítica direta, pense em contextos banais em que você teve de dar um aviso à pessoa, como dizer que o zíper da calça está aberto. Avisar alguém sobre isso pode ser desconfortável, mas necessário para corrigir uma situação. É fácil deixar claro que o problema é o zíper, e não a pessoa: o mesmo deve ser feito em um feedback negativo. O medo de fazer uma crítica motiva também métodos como o feedback sanduíche no qual a crítica é precedida e seguida de elogios. Essa técnica deveria ser evitada por criar ruídos na mensagem, além de aumentar o risco de elogios insinceros, comprometendo uma relação de confiança.

DEIXE TUDO CLARO

Se o objetivo é construir uma equipe há interesse genuíno nas pessoas, o feedback é usado de um jeito. Se, por outro lado, a crítica for motivada por raiva ou frustração, a conversa poderá desandar sem nem ter começado. Os elogios devem ser feitos sempre que possível – mas com sinceridade. O melhor modo é dar exemplos concretos do que a pessoa fez de positivo. E, quando justificadas, as críticas precisam ser feitas de forma clara, identificando um comportamento específico a ser corrigido. Não quer dizer que a conversa será mais fácil, mas, se a pessoa sabe que o chefe se importa com ela, entende o valor da honestidade e os objetivos que precisam ser alcançados. Receber críticas nunca é fácil e é normal ficar magoado ou chateado. “Não finja que não dói nem diga à pessoa para não levar para o pessoal, diz Kim. “Em vez disso, ofereça ajuda para resolver o problema. Fazer perguntas para entender como o outro se sente e dar exemplos de situações parecidas pelas quais você já passou torna a conversa produtiva.

CONVERSE COM FREQUÊNCIA

“Não espere para dar feedback, senão o problema só vai aumentando. E aí vira uma Lista de supermercado na reunião de feedback, com tudo misturado”, diz Tatiana, do lnsper. O ideal é que as conversas sejam frequentes. Um dos primeiros passos nessa direção é o próprio chefe pedir à sua equipe que o avalie. Jamais uma tentativa de feedback por parte de um funcionário deve ser coibida O líder pode corrigir uma situação malconduzida entre membros do time, mas sempre acolher as críticas feitas a ele, mesmo em público. O exemplo deve vir das Lideranças, que também precisam estabelecer regras claras: falar sempre a respeito de um comportamento, e nunca de um traço de personalidade; sempre em privado quando negativo, com exceção do líder; e em público, quando passível para os elogios.

RECONHEÇA O QUE CADA UM BUSCA

Os Líderes tendem a valorizar os profissionais mais ambiciosos e com pressa de crescer na carreira. Mas Kim alerta que essa atitude pode pôr tudo água abaixo. Em geral há dois perfis nas equipes, os “rock stars” e os “superstars”. Os primeiros amam seu trabalho, fazem bem as tarefas e não estão tão interessados em subir ao próximo nível, mas em ser cada vez melhores. Se você promovê-los a cargos que não querem ou sejam inapropriados, vai perdê-los, ou pior, demiti-los, escreve Kim. São eles que normalmente passam despercebidos, ainda que seja com eles que o Líder pode contar num trabalho consistente. Mas pessoas com altos níveis de ambição, os “superstars”, também precisam de cuidado.

Devem ser estimuladas de maneira que brilhem, sendo desafiadas, recebendo mentoria e não tendo sua energia sugada com projetos entediantes. Para identificar e valorizar cada um, o líder deve se despir de suas ideias sobre ambição e pensar no que cada um do time precisa para fazer um bom trabalho.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

RELÓGIOS INTERNOS

Não é só o cérebro que mantém as várias partes do corpo em sincronia. Genes no fígado, pâncreas e em outros tecidos também têm essa função. Erros de timing podem levar à depressão e outras doenças.

Relógios internos3

Qualquer pessoa que já tenha voado para o leste ou para o oeste a cerca de 900 km/h por algumas horas experimentou, em primeira mão, o que acontece quando o relógio interno do corpo não coincide com o fuso horário em que ele se encontra. Pode demorar até uma semana para a superação do efeito jet lag, o cansaço resultante da diferença de fuso, dependendo de o relógio mestre, profundamente aninhado no cérebro, precisar ser adiantado ou atrasado para sincronizar quando o corpo e o cérebro querem dormir por estar escuro lá fora. Ao longo dos últimos anos, no entanto, cientistas descobriram, com surpresa, que, além do relógio mestre no cérebro, o corpo depende de múltiplos relógios regionais localizados no fígado, pâncreas e em outros órgãos, mesmo no tecido adiposo do corpo. Se qualquer um desses relógios periféricos entrar em dissintonia com o relógio mestre, a desordem pode preparar o cenário para problemas como obesidade, diabetes, depressão ou outras disfunções complexas.

Nós, Summa e Turek, temos nos dedicado a explorar as particularidades de como esses relógios periféricos funcionam e identificar os genes que regulam suas atividades. O primeiro gene relógio foi isolado, ou clonado, de moscas-das-frutas em 1984.  Um de nós (Turek) integrou a equipe que, em 1997, clonou e identificou um gene relógio diferente, o primeiro descoberto em mamíferos. De acordo com a última contagem, pesquisadores de todas as partes do mundo identificaram dezenas de genes que ajudam o corpo a acompanhar a passagem do tempo.

Pesquisas em nosso laboratório têm se concentrado em camundongos, mas genes relógio circadianos foram identificados em uma surpreendente variedade de organismos vivos, de bactérias e moscas-das-frutas a humanos. Muitos deles parecem similares em uma ampla gama de espécies, sinal de que têm sido essenciais à sobrevivência no decorrer da evolução.

O maior progresso alcançado até agora foi na identificação do papel de relógios biológicos em distúrbios metabólicos, o conjunto de processos com os quais o corpo converte alimentos em energia e armazena “combustível” para uso posterior. Entre as descobertas mais surpreendentes: quando você se alimenta, tão importante quanto isso é o que você consome para regular o peso. É claro que ritmos circadianos não explicam todos os aspectos dessas condições complexas, mas ignoramos os vários relógios do corpo por nossa própria conta e risco. O conhecimento crescente desses ritmos poderia mudar radicalmente o modo como doenças serão diagnosticadas e trata- das no futuro, melhorando a capacidade das pessoas de manter sua saúde.

 Dos organismos mais complexos aos mais simples, toda a vida na Terra é regida por ritmos circadianos, que harmonizam com o dia de 24 horas. Esses ciclos circadianos são até encontrados entre as formas de vida mais primitivas: cianobactérias, algas unicelulares verdes azuladas agora amplamente difundidas por diversos hábitats. Esses organismos obtêm energia solar pela fotossíntese e usam luz para ativar a produção de moléculas orgânicas e oxigênio a partir de dióxido de carbono (CO2) e água.

Um relógio interno permite que cada cianobactéria prepare seu mecanismo fotossintético para entrar em ação antes do nascer do sol, o que lhe permite começar a captar energia assim que a luz começa a brilhar, além de lhe dar uma vantagem sobre organismos celulares que apenas respondem à luz. Da mesma forma, o relógio permite que as cianobactérias “desliguem” a fotossíntese quando o sol se põe. Desse modo, elas podem evitar o desperdício de energia e de outros recursos em sistemas que não funcionam à noite. E, assim, recursos podem ser desviados para reações mais adequadas à escuridão, como replicação e reparo de DNA, eventualmente comprometido pela radiação ionizante dos raios solares.

DIABETES E OBESIDADE

Cepas bacterianas portadoras de mutações em diferentes genes relógio podem passar dos habituais ciclos de 24 horas para ativar e desativar genes para períodos, ou amplitude de ciclo de 20, 22 e, às vezes, até 30 horas de duração. Em estudos que agruparam células de acordo com seus ciclos alterados, Carl Johnson e seus colegas da Universidade Vanderbilt, no Tennessee, mostraram, em 1998, que cianobactérias com amplitude de ciclo igual ao da luz ambiental superavam o desempenho das que tinham dessincronização. Em um ciclo de luz/escuridão de 24 horas, por exemplo, cianobactérias normais crescem mais rapidamente e se dividem com mais sucesso que mutantes com um ciclo de 22 horas. Mas, quando a equipe de Johnson ajustou esse ciclo artificialmente para 22 horas, essas mesmas mutantes sobreviveram melhor que bactérias normais. Esses experimentos demonstraram claramente, pela primeira vez, que a capacidade de coordenar adequadamente ritmos metabólicos internos a ciclos ambientais melhora a aptidão.

Embora o mecanismo do relógio humano dependa de genes diferentes dos encontrados em cianobactérias, nosso maquinário circadiano compartilha muitas outras similaridades com essas algas verde azuladas, sugerindo que os dois processos surgiram separadamente, durante a evolução, para atender às mesmas necessidades e funções biológicas.

De início, pesquisadores presumiram que havia apenas um único relógio agindo como um metrônomo para regular miríades de processos biológicos em todo o corpo. Na década de 70, eles rastrearam e associaram esse suposto relógio ao núcleo supraquiasmático do cérebro, pouco acima de onde os nervos ópticos se cruzam. Mas há uns 15 anos começaram a aparecer sinais de que mecanismos cronológicos subordinados também existiam em outros órgãos, tecidos e células individuais. Cientistas começaram a encontrar evidências de que os mesmos genes relógio ativos no cérebro se ligavam e desligavam periodicamente nas células individuais do fígado, rins, pâncreas, coração e outros tecidos. Agora sabemos que esses relógios celulares regulam a atividade de 3% a 10% e, em alguns casos, talvez até 50% dos genes em vários tecidos.

Mais ou menos na mesma época, vários cientistas começaram a se perguntar se ritmos circadianos desempenhavam algum papel no processo de envelhecimento. Turek pediu a Amy Easton, então uma estudante de graduação, na Universidade North western, que realizasse alguns experimentos em camundongos com mutações no gene Clock (gene relógio). Enquanto examinava o comportamento diário de corridas em animais mais velhos, ela percebeu que eles tendiam à obesidade, com dificuldades para entrar nas rodas de corrida em suas gaiolas. Essa observação nos inspirou a concentrar parte dos nossos esforços de pesquisa em metabolismo e ritmos circadianos. Em uma série de testes, publicados na revista Science, demonstramos uma relação entre alterações no gene Clock e o desenvolvimento de obesidade e síndrome metabólica, um conjunto de anomalias fisiológicas que coloca seus portadores em maior risco de doenças cardíacas e diabetes. Para ser diagnosticada com síndrome metabólica, uma pessoa deve apresentar pelo menos três das seguintes condições: excesso de gordura na região abdominal, em vez de nos quadris; elevados níveis de gorduras triglicérides no sangue; baixos níveis de HDL, o chamado colesterol bom, no sangue; hipertensão arterial; e níveis altos de glicose no sangue, indicativo de dificuldade para processar açúcar.

Esse trabalho gerou um interesse explosivo nos efeitos de ritmos circadianos no metabolismo. Estudos anteriores de pessoas que trabalham em turnos alternados e sofrem de um desalinhamento crônico entre seus relógios internos e o dia solar haviam mostrado que elas correm maior risco de desenvolver doenças metabólicas, cardiovasculares e gastrointestinais, entre outras. Mas quem trabalha em turnos fixos também costuma apresentar outros comportamentos insalubres, como insuficiência de sono, má alimentação e falta de exercícios físicos. Por essa razão, pesquisadores tiveram dificuldade em distinguir causa e efeito. Ao fornecerem evidências genéticas que associavam o relógio interno e a saúde metabólica, os camundongos porta- dores de genes Clock mutantes ajudaram a impulsionar o estudo de ritmos circadianos para um estágio molecular mais preciso que permite conclusões mais definitivas.

CICLOS DO METABOLISMO

Pouco depois de terem entendido que ritmos circadianos ajudam a regular o metabolismo, pesquisadores começaram a estudar o relógio periférico encontrado no fígado, que desempenha um papel fundamental em metabolismo. Em 2008, Katja Lamia, Kai-Florian Storch e Charles Weitz, na época na Harvard Medical School, conduziram experimentos com camundongos nos quais um gene importante do relógio circadiano havia sido apagado apenas em células hepáticas. Ao contrário de pessoas, camundongos são ativos principalmente à noite e dormem durante o dia, mas à parte isso o ciclo sono-vigília é regulado de modo similar. Em essência, esses animais não tinham relógio no fígado e relógios normais em outras partes do corpo. Durante seu período de descanso diurno, quando não se alimentam tanto, camundongos passavam por prolongados episódios de hipoglicemia, ou níveis baixos de açúcar no sangue. Essa queda é perigosa porque o cérebro pode entrar em colapso em poucos minutos se não receber glicose suficiente para atender às suas demandas de energia.

Experimentos posteriores mostraram que esses níveis baixos de glicose ocorriam por- que os ritmos, que normalmente controlam o momento em que o fígado produz e secreta moléculas de açúcar no sangue, haviam desaparecido. Portanto, o relógio do fígado contribui para a manutenção de níveis normais de glicose no sangue ao longo do dia, garantindo uma fonte constante e adequada de energia para sustentar as contínuas funções do cérebro e do conjunto do organismo. Assim, não é surpresa que um sistema “contra regulatório” seja necessário para limitar glicose excessiva no sangue em resposta à alimentação. O principal hormônio responsável por isso é a insulina, produzida pelas chamadas células beta, encontradas no pâncreas. Depois que uma pessoa ingere uma refeição, glicose entra na corrente sanguínea e dá início à secreção de insulina. Esse hormônio age como um “freio” sobre níveis de açúcar ascendentes ao promover a remoção de glicose e seu armazenamento nos músculos, fígado e em outros tecidos.

Como um follow-up, Billie Marcheva e Joseph T. Bass – membro original, com Turek, da equipe de pesquisa do metabolismo circadiano na Universidade North western – realizaram uma série de estudos para determinar o papel do relógio biológico no pâncreas. Eles descobriram que o relógio pancreático é fundamental para manutenção de níveis de açúcar normais no sangue e que a interrupção do funcionamento desse relógio compromete a função do órgão, resultando em diabetes. Essa é uma disfunção metabólica em que o corpo produz insulina de maneira insuficiente ou é insensível a ela. O resultado disso é que uma quantidade excessiva de açúcar acaba bloqueada fora das células, flutuando na corrente sanguínea.

Marcheva e Bass começaram a examinar tecido pancreático isolado de camundongos com mutações em genes do relógio circadiano. Verificaram que a quantidade de insulina secretada em resposta ao estímulo de glicose era drasticamente reduzida. Em seguida, criaram camundongos em que o relógio só havia sido suprimido no pâncreas. Os animais desenvolveram diabetes precocemente e exibiram uma profunda redução na secreção de insulina.

Esses exemplos ilustram um ponto chave sobre a função de relógios em diferentes tecidos: eles podem ter papéis acentuadamente diferentes. Em casos como o fígado e o pâncreas, até regulam processos fisiológicos opostos. Mas, quando integrados em um sistema operacional, esses relógios de tecidos sincronizam precisamente seus timings para manter a homeostase (estado de equilíbrio) do corpo; ou seja, eles garantem níveis relativamente estáveis de moléculas essenciais em face de condições variáveis no ambiente externo. Avançando-se mais um passo, o relógio mestre circadiano pode ser conceitua- lizado como um maestro de uma orquestra que mantém múltiplos tecidos periférico os instrumentos – adequadamente sintonizados, ou cronometrados, entre si e em relação ao meio ambiente, otimizando o funcionamento do sistema.

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MÚLTIPLOS PAPÉIS

Outra descoberta abrangente é que o relógio em um dado tecido pode afetar mais de um processo nele. De fato, cada relógio pode regular múltiplos processos. O relógio do fígado, por exemplo, regula redes inteiras de genes necessários para a produção e o metabolismo de glicose. Além disso, em 2011 Mitch Lazar, da Universidade da Pensilvânia, e seus colegas demonstraram que o relógio do fígado determina também quanta gordura se acumula em células hepáticas.

Nesse caso, Lazar e seus colaboradores determinaram que um gene relógio chamado Rev-erba age como um timer para uma enzima que controla o acesso às instruções genéticas encontradas dentro da molécula de DNA. A enzima-alvo em questão, histona deacetilase 3 (HDAC3), afeta o processo que leva determinados filamentos de DNA a serem enrolados em espirais tão comprimidas que a informação hereditária interna não pode ser utilizada pela célula para impulsionar seus processos biológicos.

Ao empregarem um truque genético, Lazar e sua equipe mostraram que bloquear o gene relógio Rev-erba, que por sua vez impediu a atividade da enzima HDAC3, resultou no desenvolvimento de uma condição conhecida como esteatose hepática, ou fígado gorduroso. Ocorre que uma das funções da enzima HDAC3 é desligar os genes que controlam a produção de moléculas lipídicas durante a noite – quando camundongos são ativos e precisam usar suas reservas de gordura para energia. A perda do gene relógio provoca o declínio da quantidade de HDAC3, o que deixa os genes responsáveis pela síntese de gorduras no fígado presos na posição “ligada”, ou “ativa”. Essa hiperatividade, por outro lado, provoca um acúmulo e uma deposição anormais de gordura em células hepáticas, processo que interrompe, ou impede, a função adequada do fígado e geral- mente acompanha a obesidade e o diabetes.

 NA HORA ERRADA

Genes relógio funcionam também em tecido adiposo e afetam múltiplos processos metabólicos a partir de lá. Além de servir como depósito de armazenamento de energia, a gordura funciona como um órgão endócrino pela produção do hormônio leptina; isto é, ela secreta hormônios no sangue que alteram as atividades de outros órgãos no corpo. Georgios Paschos e Garret FitzGerald, na época ambos na Universidade da Pensilvânia, e seus colegas recentemente criaram camundongos geneticamente alterados, desprovidos de um relógio intacto em células de gordura – adipócitos – e descobriram que os animais desenvolveram obesidade e mudaram seus padrões normais de alimentação para o período diurno. Como resultado, moléculas lipídicas circulavam por seus corpos na hora “errada”, interferindo na capacidade de seus cérebros de regular o timing e a ingestão de alimentos. Essa mudança no comportamento alimentar parece ser específica para animais desprovidos de relógio adipócito, porque camundongos com relógios pancreáticos ou hepáticos eliminados retêm ritmos normais de alimentação.

A comprovação de que esses animais mudaram seus padrões alimentares e ganharam peso excessivo sem relógios em adipócitos coincide com estudos anteriores demonstrando que o timing da ingestão de alimentos pode ter um efeito significativo na eficiência com que o corpo armazena e utiliza o combustível que consome. De fato, em 2009 Deanna Arble, então aluna de graduação que trabalhava conosco na North western, relatou que camundongos com acesso a uma dieta rica em gordura apenas durante a hora “errada” do dia engordaram significativamente mais que animais alimentados com a mesma dieta durante a fase escura. Essas diferenças de peso persistiram, apesar de ingestões calóricas totais e atividades físicas similares em cada grupo.

Mais recentemente, Satchidananda Panda e seu grupo, no Instituto Salk para Estudos Biológicos, em La Jolla, na Califórnia, ampliaram essas descobertas ao mostrar que restringir a ingestão de uma dieta rica em gorduras a uma “janela” de oito horas durante o período normal de alimentação – fase escura – de camundongos impediu obesidade e disfunção metabólica, sem nenhuma redução em ingestão calórica. De fato, os perfis de saúde metabólica desses animais foram similares aos dos camundongos tratados comum a dieta de baixa gordura. O benefício parece resultar de uma coordenação melhorada dos ciclos metabólicos no fígado e em outros tecidos.

Curiosamente, esses experimentos em camundongos podem ser relevantes para pessoas com síndrome alimentar noturna, distúrbio em que elas consomem um excesso calórico à noite e desenvolvem obesidade ou síndrome metabólica, ou ambas. Talvez essa condição surja, em parte, de um defeito na regulagem do timing circadiano de fome, assincronia que poderia predispor pacientes ao ganho de peso e ao desajuste, ou desregulação, de seus processos metabólicos.

Recentemente, um estudo com pessoas que fazem regimes alimentares, liderado por Marta Garaulet, da Universidade de Múrcia, na Espanha, e Frank Scheer, da Universidade Harvard, encontrou uma associação entre o horário (timing) do almoço e sucesso na per- da de peso. Pessoas que almoçavam mais cedo tenderam a perder mais quilos durante a dieta que as que se alimentavam mais tarde. São necessárias mais pesquisas clínicas para verificar se os horários da alimentação influenciam o desenvolvimento de obesidade, diabetes e outras condições relacionadas, mas descobertas desse tipo acenam com a possibilidade de que, algum dia, estratégias de alimentação circadiana talvez possam servir como complementos não farmacológicos inteiramente novos para regimes de tratamento-padrão.

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MEDICINA CIRCADIANA

Outros trabalhos com humanos sugerem que estudos detalhados de seus ritmos circadianos talvez possam, futuramente, produzir um conhecimento mais profundo sobre seus distúrbios metabólicos, levando a tratamentos mais adequados. Till Roenneberg e seus colegas, da Universidade Ludwig Maximilian, de Munique, na Alemanha, por exemplo, estudaram os padrões de sono de milhares de pessoas ao redor do mundo e descreveram uma forma comum de perturbação circadiana crônica, que chamam “jet lag social”, ou “diferença de fuso horário social”. Representando a diferença horária entre ciclos habituais de sono durante a semana de trabalho – ou escola – e o tempo livre nos fins de sema- na, essa medida fornece uma quantificação da perturbação semanal do relógio interno. Esse desajuste pode ser equivalente a viajar por três ou quatro zonas de fusos horários duas vezes por semana para alguém que acorda às 6 horas da manhã em dias úteis e dorme até as 9 horas ou 10 horas nos fins de semana. Os pesquisadores descobriram uma associação positiva entre a magnitude do jet lag social e o índice de massa corporal, sugerindo que a perturbação de ciclos circadianos contribui para ganho de peso.

Além de se aprofundarem ainda mais na compreensão dos mecanismos subjacentes à conexão entre genes relógio e distúrbios metabólicos, pesquisadores recentemente produziram resultados estimulantes que ligam ritmos circadianos a muitas outras condições. Foram encontrados vínculos entre per- turbação ou interrupção circadiana e doenças do coração e do estômago, além de vários tipos de câncer, distúrbios neurológicos e doenças neurodegenerativas e psiquiátricas, entre outros. De fato, um pequeno número de estudos menores sugere que, em alguns casos, ciclos de sono perturbados podem ser uma causa contribuinte, e não apenas um efeito, de depressão severa em pessoas já propensas. Da mesma forma, experimentos com camundongos e hamsters ao longo dos últimos cinco anos mostraram que condições parecidas com jet lag crônico prejudicam o aprendizado e a memória e bloqueiam estruturas neuronais em certas regiões do cérebro. A compreensão mais profunda do papel que nossos relógios internos desempenha no organismo tem o potencial de revolucionar a medicina. O bom conhecimento do funcionamento ideal dos relógios, como quando é melhor ativar e desativar a produção de glicose ao longo das 24 horas do dia, poderá levar ao desenvolvimento do que chamamos “medicina circadiana”. Acreditamos que médicos capazes de incorporar com mais eficiência informações sobre ritmos circadianos e ciclos de sono-vigília em seus diagnósticos e tratamentos de doenças estarão em posição mais vantajosa para melhorar a saúde, prevenir doenças e maximizar os benefícios das terapias de que seus pacientes necessitam.

 Cientistas da Universidade da Pensilvânia descobriram recentemente que os ritmos hepáticos determinam, entre outros processos, o acúmulo de gordura no fígado.

Há indícios de relação entre o horário do almoço e o sucesso de dietas voltadas para perda de peso; experimentos mostraram que pessoas que almoçam mais cedo tendem a perder mais quilos que as que se alimentavam mais tarde.

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KEITH C. SUMMA – é doutorando em medicina e em filosofia, pesquisador na Universidade North western.

FRED W. TUREK – é neurobiólogo e diretor do Centro para Sono e Biologia Circadiana na mesma instituição, é presidente fundador da Sociedade de Pesquisa sobre Ritmos Biológicos.