ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 11: 16-24

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Cristo Repreende Corazim e outras Cidades

Cristo ia continuar a elogiar João Batista e o seu ministério, mas aqui Ele se interrompe de repente, e transforma o que estava dizendo em uma censura àqueles que recebiam o ministério de João Batista, o seu e de seus discípulos, em vão. Quanto a esta geração, podemos observar a quem Ele a compara (vv. 16-19) – e quanto aos lugares em particular que Ele exemplifica, podemos observar com quem Ele os compara (vv. 20-24).

 I – Quanto a esta geração, era a congregação do povo judeu naquela época. Na verdade, havia muitos que se esforçavam para entrar no Reino dos céus, mas a maioria continuava na descrença e na obstinação. João era um grande homem, e um bom homem, mas a geração na qual o seu destino foi lançado era uma geração tão infértil e improdutiva quanto poderia ser, e era indigna dele. Observe que a má qualidade dos lugares onde vivem bons ministros serve de contraste para a boa qualidade deles. Foi louvável que Noé fosse justo em meio à sua geração. Tendo elogiado João, Cristo condena aqueles que o tinham em seu meio, e não aproveitaram o seu ministério. Por mais dignas de elogios que sejam as pessoas, se elas desprezarem a Cristo isto será revelado no Dia do Juízo.

O Senhor Jesus nos apresenta esta verdade em forma de parábola, mas fala como se estivesse perplexo por descobrir uma semelhança adequada para representá-la: “A quem assemelharei esta geração?” Não existe um absurdo maior do que aquele de que são culpados os que têm boa pregação em seu meio e nunca a aprovei­ tam. É difícil dizer com que se assemelham. A semelhança é obtida de um costume comum entre as crianças judias ao brincar, que, como é normal com as crianças, imitavam os costumes dos adultos nos casamentos e nos enterros, celebrando e lamentando; mas, sendo tudo uma brincadeira, não causava nenhuma impressão. Nem o ministério de João Batista, nem o de Cristo, causavam uma impressão maior sobre aquela geração. Jesus pensa particularmente nos escribas e nos fariseus, que se orgulhavam de si mesmos; portanto, para humilhá-los, Ele os compara às crianças, e o seu comportamento, à brincadeira de crianças.

A parábola é melhor explicada com o seu estudo e exemplo nestas cinco observações:

Observe:

1.O Deus do céu usa uma variedade de meios e métodos adequados para a conversão e a salvação das pobres almas. Ele deseja que todos os homens sejam salvos, e, portanto, faz todo o possível para conseguir isso. O seu grande objetivo é que as nossas vontades estejam de acordo com a vontade de Deus, e, para isto, que as nossas inclinações estejam de acordo com as descobertas que Ele nos fez de si mesmo. Tendo várias inclinações para transformar, Ele usa várias maneiras de trabalhar sobre elas, que embora sejam diferentes entre si, todas tendem para a mesma coisa, e Deus está em todas elas, realizando o mesmo desígnio. Nesta parábola, isto é, o seu tocar flauta para nós, e o seu cantar lamentações para nós. Ele tocou flauta para nós nas preciosas promessas do Evangelho, que é apropriado para trabalhar com a esperança, e cantou lamentações por nós nas terríveis ameaças da lei, que são apropriadas para trabalhar com o medo, para que Ele pudesse nos afastar do pecado pelo medo, e nos atrair para si mesmo. Ele tocou flauta para nós em providências de graça e misericórdia, e cantou lamentações para nós em providências calamitosas e aflitivas, e colocou uma contra a outra. Ele ensinou os seus ministros a mudar a sua voz (Gálatas 4.20); algumas vezes, para falar como o trovão do monte Sinai, outras vezes numa voz mais calma, do monte Sião.

Na explicação desta parábola, é apresentada a diferença de caráter entre os ministérios de João e de Cristo: tendo sido ambos as duas maiores luzes daquela geração.

(1) Por um lado, João veio até eles lamentando-se, sem comer nem beber; sem conversar amigavelmente com as pessoas, nem comendo normalmente com eles, mas sozinho, na sua cela no deserto, onde a sua refeição era composta de gafanhotos e mel silvestre. Alguém poderia pensar que isto os influenciaria, pois uma vida austera e humilde como esta, estava bastante de acordo com a doutrina que ele pregava – e este ministro, cujas palavras estão de acordo com a sua doutrina, provavelmente realizará boas obras; mas mesmo a pregação de um ministro assim nem sempre é eficiente.

(2) Por outro lado, o Filho do Homem veio comendo e bebendo, e assim Ele tocou flauta para eles. Cristo conversava amigavelmente com todos os tipos de pessoas, sem tender a nenhuma rigidez ou austeridade em particular. Ele era afável e acessível, não se intimidava com nenhuma companhia, estava sempre nas festas, tanto com os fariseus como com os publicanos, para ver se isto conquistaria aqueles que não tinham sido conquistados pela maneira reservada de João Batista. Aqueles que não tinham se intimidado pelas censuras de João, seriam atraídos pelos sorrisos de Cristo; assim, o apóstolo Paulo aprendeu a fazer-se tudo para todos (1 Coríntios 9.22). Agora, o nosso Senhor Jesus, com a sua liberdade, não condenou a João de maneira nenhuma, assim como João nunca o condenou, embora os seus procedimentos fossem muito diferentes. Note que embora nunca tenhamos clara a efetividade do nosso procedimento, ainda assim não devemos julgar os outros com base nela. Pode haver uma grande diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos (1 Coríntios 12.6), e a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil (v. 7). Observe, especialmente, que os ministros de Deus têm dons variados: a habilidade e a genialidade em alguns se mostra de uma maneira; em outros, de outra; alguns são Boanerges, filhos do trovão; outros, Barnabés, filhos da consolação; mas um só e o mesmo Espírito opera todas essas coisas, e por isto nós não devemos condenar nenhum deles, mas louvar a todos, e louvar a Deus por todos, pois Ele, desta maneira, experimenta várias maneiras de lidar com pessoas de variados tempera­ mentos, para que os pecadores possam se tornar maleáveis ou deixados na condição de inexcusáveis, para que, qualquer que seja o caso, Deus seja glorificado.

Observe:

2.Os diversos métodos que Deus usa para a conversão dos pecadores, com muitos resultam infrutíferos e ineficientes. “‘Não dançastes… não chorastes’; não fostes influenciados nem de uma maneira nem de outra.” Meios particulares têm, como na medicina, as suas intenções particulares, que devem obter reações, e impressões particulares, que devem ser submetidas para o sucesso do desígnio maior e geral. Mas se as pessoas não se sentirem obrigadas por leis, nem convidadas pelas promessas e nem ainda amedrontadas por ameaças, não serão despertadas pelas coisas maio­ res, nem atraídas pelas coisas mais doces, nem atemorizadas pelas coisas mais terríveis, nem sensibilizadas pelas coisas mais comuns. Se não ouvirem a voz das Escrituras, nem a razão, nem as experiências, nem a providência, nem a consciência, nem o interesse, o que mais pode ser feito? “Já o fole se queimou, o chumbo se consumiu com o fogo; em vão vai fundindo o fundidor tão diligentemente… Prata rejeitada lhes chamarão” (Jeremias 6.29,30). Debalde o ministro terá trabalhado (Isaias 49.4), e, o que é uma perda muito maior, a graça de Deus terá sido recebida em vão (2 Coríntios 6.1). Há algum consolo para os ministros fiéis que veem pouco sucesso nos seus esforços, o fato de que não é novidade que os melhores pregadores, e a melhor pregação do mundo, não alcancem o fim desejado. “Quem deu crédito à nossa pregação?” Se do sangue dos feridos, da gordura dos valentes (2 Samuel 1.22), do arco daqueles grandes comandantes, Cristo e João voltaram tantas vezes vazios, não é de admirar se nós também voltarmos, e se profetizarmos sobre ossos secos com tão poucos propósitos.

Observe:

3.Que normalmente aquelas pessoas que não se beneficiam dos milagres da graça são pervertidas, e isto se reflete nos ministros por cujo intermédio elas desfrutam de tais milagres; e corno elas não obtêm o bem para si, elas fazem todo o mal que conseguem para os outros, criando e propagando preconceitos contra a palavra, e contra os seus fiéis pregadores. Aqueles que não estão de acordo com Deus, e que não o seguem, o confrontam e caminham em sentido contrário a Ele. Foi isto o que fez esta geração; por estarem decididos a não crer em Cr isto ou em João, e a não considerá-los os melhores entre os homens – como deveriam ter feito-, eles se dispuseram a atacá-los e a representá-los como os piores.

(1) Quanto a João Batista, eles dizem: “Tem demônio”. Eles atribuíam a sua rigidez e a sua reserva à melancolia, e a algum tipo ou grau de possessão satânica. Em outras palavras: “Por que deveríamos dar ouvidos a ele? Ele é um pobre hipocondríaco, cheio de caprichos, que está sob o poder de uma imaginação enlouquecida”.

(2) Quanto a Jesus Cristo, eles atribuíam as suas palavras livres e prestativas ao hábito depravado da luxúria e da satisfação da carne: “Eis aí um homem comilão e beberrão”. Nenhum pensamento poderia ser mais rude e preconceituoso. Esta é a acusação contra o filho rebelde (Deuteronômio 21.20): “É um comilão e beberrão”. Nenhum pensamento poderia ser mais falso e injusto, pois Cristo não agradou a si mesmo (Romanos 15.3), nem jamais fez homem algum viver uma vida de autonegação, humilhação e desprezo pelo mundo, como Ele viveu. Ele, que era imaculado e separado dos pecadores, está sendo aqui acusado de ser aliado a eles, e contaminado por eles. A inocência mais imaculada e a excelência mais incomparável nem sempre serão uma cerca contra a reprovação das línguas. Não. Os melhores dons do homem, e as suas melhores ações, que têm as melhores intenções e, ao mesmo tempo, são calculadas para a edificação, podem se tornar motivos de reprovação. A melhor das nossas ações pode se tornar a pior das acusações feitas a nós, como o jejum de Davi (Salmos 69.10). De certa maneira, era verdade que Cristo era amigo de publicanos e pecadores, o melhor amigo que eles jamais tiveram, pois Ele veio ao mundo para salvar os pecadores, os grandes pecadores, até mesmo o principal pecador – isto disse, com muita emoção, aquele que não tinha sido um publicano e pecador, mas um fariseu e pecador. Mas isto é – e será por toda a eternidade – um motivo de louvor a Cristo, e aqueles que transformaram tamanha virtude em censura contra Ele, perderam o seu benefício.

Observe:

4.Que a causa dessa grande falta de frutos e perversão das pessoas sob os milagres da graça é o fato de que elas são como crianças que se assentam nas praças. Elas são tão tolas como as crianças, rebeldes como as crianças, descuidadas e brincalhonas como as crianças. Se elas se mostrassem adultas no entendimento, haveria alguma esperança para elas. As praças onde elas se assentam é, para alguns, um lugar de ociosidade (cap. 20.3); para outros, um lugar para a realização de negócios terrenos (Tiago 4.13); para todos, um lugar de ruí­ dos e diversão. Assim, se você perguntar a razão pela qual as pessoas obtêm tão pouco benefício por meio da graça, você descobrirá que é porque elas são preguiçosas e fúteis, e não gostam de se esforçar; ou porque as suas cabeças e mãos e os seus corações estão cheios do mundo, cujas preocupações sufocam a Palavra, e, finalmente, sufocam as suas almas (Ezequiel 33.31; Amós 8.5). Elas também procuram afastar os seus pensamentos de tudo o que é sério. Assim, nas praças elas estão, e ali se assentam; e nestas coisas está o seu coração, e decidem viver de acordo com elas.

Observe:

5.Embora os milagres da graça possam assim ser menosprezados e mal-empregados por muitos, isto é, pela maioria, ainda assim há um pequeno número que pela graça os aprimoram e reagem aos seus desígnios, para a glória de Deus e para o bem das suas almas. “Mas a sabedoria é justificada por seus filhos”. Cristo é a fonte de toda a sabedoria; nele estão escondidos verdadeiros tesouros de sabedoria; os santos são os filhos que Deus lhe deu (Hebreus 2.13). O Evangelho é sabedoria, é a sabedoria que vem do alto: os verdadeiros crentes são gerados novamente por ela, e renascem para o céu também; são filhos sábios, sábios por si mesmos e para os seus próprios interesses; não são como as crianças tolas que se assentam nas praças. Estes filhos da sabedoria justificam a sabedoria; eles estão em conformidade com os desígnios da graça de Cristo, respondem positivamente às suas intenções, e são adequadamente influenciados por ela, pelos variados métodos que ela emprega, e assim evidenciam a sabedoria de Cristo ao empregar tais métodos. Isto está explicado em Lucas 7.29. Os publicanos justificaram a Deus, tendo sido batizados com o batismo de João, e posteriormente aceitando o Evangelho de Cristo. Observe que o sucesso dos métodos da graça justifica a sabedoria de Deus na escolha de tais métodos, contra aqueles que o acusam de tolice a este respeito. A cura de todo enfermo que segue as recomendações do médico justifica a sabedoria do médico; e assim Paulo não se envergonha do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Romanos 1.16). Quando a cruz de Cristo, que para muitos é escândalo e loucura, é, para aqueles que são chamados, poder de Deus e sabedoria de Deus (1 Coríntios 1.23,24), para que eles façam deste conhecimento o ápice da sua ambição (1 Coríntios 2.2), e da sua eficiência a coroa da sua glória (Gálatas 6.14), então a sabedoria é justificada pelos seus filhos. Os filhos da sabedoria são as testemunhas da sabedoria ao mundo (Isaias 43.10), e serão feitos testemunhas naquele dia, quando a sabedoria, que agora é justificada pelos santos, será glorificada nos seus santos e se fará admirável em todos os que creem (2 Tessalonicenses 1.10). Se a descrença de alguns censura a Cristo, atribuindo-lhe a mentira, a fé de outros irá honrá-lo, colocando o selo de que Ele é verdadeiro, e de que Ele também é sábio (1 Coríntios 1.25). Quer cooperemos ou não para a realização dessas coisas, elas acontecerão; não somente a justiça de Deus, mas também a sua sabedoria, será justificada quando Ele falar, quando Ele julgar.

Bem, esta é a avaliação que Cristo faz daquela geração, e aquela geração não morreu, mas permanece, em uma sucessão de semelhantes; pois assim como era naquela época, tem sido desde então, e ainda continua sendo. Alguns creem no que se diz, mas outros não (Atos 28.24).

 II – Quanto às cidades em particular; nas quais Cristo é conhecido. O que Ele disse, de maneira geral, sobre aquela geração, Ele aplicou, em particular, àquelas cidades, para influenciá-las. Em seguida, Ele começou a acusar as cidades, (v. 20, versão NTLH). Ele começou a pregar a elas muito tempo antes (cap. 4.17), mas não havia acusando-as até agora. Note que métodos rudes e desagradáveis não devem ser adotados até que métodos mais gentis tenham sido usados. Cristo não é propenso a acusar; Ele dá livremente, e não censura, até que os pecadores, com a sua obstinação, arranquem dele a censura. A sabedoria primeiramente convida, mas quando os seus convites são ignorados, ela acusa (Provérbios 1.20,24). Aqueles que começam com acusações não seguem os métodos de Cristo. Agora, observe:

1.O pecado de que elas são acusadas; não é nenhum pecado contra a lei moral, em que um recurso estaria apoiado no Evangelho, que o teria aliviado, mas um pecado contra o Evangelho, a lei corretiva – e isto é impenitência. O que Ele censurou nelas, ou a razão porque Ele as repreendeu, como sendo a coisa mais vergonhosa e ingrata que poderia haver, foi o fato de que elas não se arrependiam. Observe que a impenitência deliberada é o pecado que causa maior dano às multidões que recebem o Evangelho, e do qual (mais que qualquer outro) os pecadores serão acusados até à eternidade. A grande doutrina que tanto João Batista e Cristo como os apóstolos pregaram era o arrependimento. O que se desejava, tanto com o tocar flauta como com o lamentar-se, era levar as pessoas a modificar seus pensamentos e condutas, abandonar seus pecados e voltar-se para Deus; e isto elas não aceitavam. Ele não disse, porque eles não acreditavam (embora muitos deles tivessem algum tipo de fé) que Cristo era um Mestre vindo de Deus; mas por não se arrependerem, a sua fé não transformava os seus corações e não modificava as suas vidas. Cristo os censurou pelos seus outros pecados, pois Ele poderia levá-los ao arrependimento; mas quando não se arrependeram, Ele os acusou com a sua recusa em serem curados. Ele os censurou para que eles mesmos pudessem se censurar, e finalmente ver a tolice que isto era, o que por si só transforma um caso triste em desesperad01; e numa ferida incurável.

2.O agravamento do seu pecado. Eram cidades nas quais a maioria dos seus milagres tinha sido realizada; pois nelas funcionou a sua residência principal durante algum tempo. Note que algumas cidades aproveitam os milagres da graça com maior plenitude, poder e pureza do que outras. Deus é um agente livre, e assim age em todas as suas disposições, tanto como o Deus da natureza quanto como o Deus da graça, a graça comum e a que distingue. Por meio dos milagres de Cristo, estas cidades deveriam ter não apenas recebido a sua doutrina, mas também obedecido à sua lei. A cura das enfermidades do corpo deveria ter sido a cura das suas almas, mas não teve tal efeito. Observe que quanto mais fortes são os incentivos que temos para nos arrependermos, mais atroz será a impenitência, e mais severa será a prestação de contas, pois Cristo registra os milagres realizados entre nós e também as obras de graça realizadas para nós, pelas quais também deveríamos ser levados ao arrependimento (Romanos 2.4).

(1) Corazim e Betsaida são citadas aqui (vv.21 e 22J. cada uma delas tem o seu “ai”: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida!” Cristo veio ao mundo para nos abençoar, mas se esta bênção for desprezada, Ele tem “ais” armazenados, e os seus “ais” são os mais terríveis de todos. Estas duas cidades estavam localizadas junto ao mar da Galileia, a primeira do lado leste e a última do lado oeste, eram lugares ricos e muito habitados. Betsaida tinha sido elevada a cidade por Filipe, o tetrarca; dela, Cristo tomou pelo menos três de seus apóstolos. Assim, estas cidades eram altamente favorecidas! Mas por não conhecerem o dia da sua visitação, elas caíram sob estes “ais”, que se prenderam a elas, e pouco tempo depois disto decaíram e se reduziram a aldeias comuns e obscuras. Dessa forma, o pecado arruína fatalmente as cidades, e a palavra de Cristo certamente se cumpre!

Corazim e Betsaida são aqui comparadas com Tiro e Sidom, duas cidades marítimas (sobre as quais lemos muito no Antigo Testamento) que tinham sido levadas à destruição, mas começaram a prosperar outra vez; estas cidades eram fronteiriças à Galileia, mas eram malvistas entre os judeus, pela sua idolatria e seus pecados. Algumas vezes, Cristo foi às proximidades de Tiro e Sidom (cap. 15.21), mas nunca além; os judeus teriam se horrorizado se Ele tivesse ido; portanto, Cristo, para convencê-los e humilhá-los, aqui mostra:

[l]. Que Tiro e Sidom não tinham sido tão más quanto Corazim e Betsaida. Se a mesma palavra tivesse sido pregada a elas, e se os mesmos milagres tivessem sido realizados nelas, elas teriam se arrependido, e há muito tempo, como aconteceu com Nínive, com pano de saco e com cinza. Cristo, que conhece os corações de todos, sabia que se Ele tivesse ido e vivido no meio deles, e tivesse pregado entre eles, Ele teria feito um bem maior do que onde estava; mas ainda assim, Ele continuou onde estava durante algum tempo, para incentivar os seus ministros a fazerem a mesma coisa, embora eles não pudessem ver o sucesso que desejavam. Observe que entre os filhos da desobediência, alguns são mais facilmente transformáveis que outros. Há um sério agravamento da impenitência daqueles que recebem completamente os milagres da graça, não somente porque há muitos que estão sob os mesmos milagres, que se transformam, mas porque há muitos mais que poderiam ser transformados, se tivessem recebido os mesmos milagres (veja Ezequiel 3.6,7). O nosso arrependimento é muitas vezes lento e até atrasado, mas o deles deveria ter sido rápido; eles deveriam ter se arrependido há muito tempo. O nosso foi leve e superficial; o deles deveria ter sido profundo e verdadeiro, com pano de saco grosseiro e com cinzas. Mas devemos observar, com uma maravilhada adoração da soberania divina, que os habitantes de Tiro e Sidom irão perecer justamente no seu pecado, embora, se tivessem recebido a graça, poderiam ter se arrependido; pois Deus não deve nada a nenhum homem.

[2]. Que, portanto, Tiro e Sidom não seriam tão infelizes quanto Corazim e Betsaida, mas haveria maior tolerância com elas no Dia do Juízo (v. 22). Observe que, em primeiro lugar, no Dia do Juízo, o estado permanente dos filhos dos homens será determinado, por um destino inalterável e infalível: felicidade ou infelicidade, e os diversos graus de cada uma delas. Por isto é chamado de Juízo eterno (Hebreus 6.2)1 porque decide o estado eterno. Em segundo lugar, naquele juízo, todos os milagres da graça que são recebidos quando estamos em um estado de experiência serão certamente levados em consideração, e nos será perguntado não o quanto fomos maus, mas o quanto poderíamos ter sido melhores, não fosse pela nossa própria culpa (Isaias 5.3 ,4). Em terceiro lugar, embora a condenação de todos os que perecem seja insuportável, ainda assim a condenação daqueles que tiveram as revelações mais completas e claras feitas pelo poder e pela graça de Cristo, e ainda assim não se arrependeram, será, de todas, a mais insuportável. A luz e o som do Evangelho abrem os sentidos e aumentam a capacidade de todos os que o veem e ouvem, seja para receber as riquezas da divina graça, ou (se esta graça for desprezada) para receber os mais completos derramamentos da ira divina. Se a autocondenação for a tortura do inferno, ela realmente deve ser um inferno para aqueles que tiveram uma oportunidade tão excelente de ir para o céu. “Filho, lembra-te de que… “.

(2) Aqui Cafarnaum é condenada com ênfase (v. 23). “E tu, Cafarnaum, levante as mãos e ouça a condenação”. Cafarnaum, acima de todas as cidades de Israel, foi dignificada com a residência mais frequente de Cristo; foi como a Siló dos tempos antigos, o lugar que Ele escolheu para fazer habitar o seu nome – e nisto ela era como Siló (Jeremias 7.12,14). Os milagres de Cristo aqui eram o pão de cada dia, e, portanto, como o maná no deserto, eram desprezados e chamados de pão vil. Mais de uma vez Cristo lhes fez um sermão doce e consolador sobre a graça, com pouco resultado, e por isto Ele lhes faz um sermão sobre a ira: aqueles que não ouviram o primeiro terão de sentir esta última.

Aqui temos a condenação de Cafarnaum:

[1]. Explicada de maneira absoluta: “Tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos”. Observe, em primeiro lugar, que aqueles que recebem o Evangelho em poder e pureza, são, dessa forma, exaltados aos céus; com isto, eles têm uma grande honra no presente e uma grande vantagem para a eternidade; eles são exaltados aos céus. Mas se, apesar disso, eles ainda se apegarem à terra, poderão agradecer a si mesmos por não serem elevados ao céu. Em segundo lugar, as vantagens e os aprimoramentos do Evangelho, se mal-usados, irão fazer os pecadores afundar ainda mais no inferno. Os nossos privilégios externos estarão longe de nos salvar, se os nossos corações e as nossas vidas não estiverem em conformidade com eles; eles somente a­ gravarão a prestação de contas. Quanto mais alto o precipício, mais fatal é a queda. Não tenhamos, portanto, um caráter altivo, mas temor; não sejamos indolentes, mas diligentes. Veja Jó 20.6,7.

[2]. A condenação de Cafarnaum, comparada com o destino de Sodoma, recebe um lugar ainda mais notável do que talvez qualquer outra, tanto pelo pecado como pela destruição; e assim, Cristo aqui nos diz:

Em primeiro lugar, que os prodígios operados em Cafarnaum teriam salvado Sodoma. Se esses milagres tivessem sido realizados entre os sodomitas, por mais pecadores que fossem, eles teriam se arrependido e a sua cidade teria permanecido até os dias de hoje como um monumento da misericórdia que poupa, da mesma maneira como hoje é um monumento da justiça que destrói (Judas 7). Observe que com o arrependimento sincero por meio de Cristo, até mesmo o maior pecado será perdoado, e a maior destruição será evitada, o que Sodoma não esperou. Os anjos foram enviados a Sodoma, e ainda assim ela não permaneceu; mas se Cristo tivesse sido enviado para lá, ela teria permanecido; como é bom para nós, então, que o mundo futuro esteja sujeito a Cristo e não aos anjos! (Hebreus 2.5). Ló não teria parecido um zombador, se tivesse realizado milagres.

Em segundo lugar, a ruína de Sodoma será, portanto, menor do que a de Cafarnaum, no Grande Dia. Sodoma terá muitas coisas pelas quais responder, mas não o pecado de desprezar a Cristo, como terá Cafarnaum. O Evangelho tem um cheiro de morte para alguns, um cheiro que os mata. É de morte para a morte, uma morte grande demais (2 Coríntios 2.16). Cristo disse o mesmo de todos os outros lugares que não recebessem os seus ministros nem dessem as boas-vindas ao seu Evangelho (cap. 10.15); haveria mais tolerância para a terra de Sodoma do que para tal cidade. Nós, que temos agora a palavra escrita nas nossas mãos, o Evangelho pregado e a lei do Evangelho ministrada a nós, e vivemos sob a concessão do Espírito, temos vantagens não inferiores às de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, e a prestação de contas no grande Dia será correspondente. Portanto, foi dito, com propriedade, que os professores dessa época, não importando se irão para o céu ou para o inferno, serão os maiores devedores em qualquer um desses lugares; se forem para o céu, os maiores devedores da misericórdia divina por aqueles milagres que os levaram até ali; se, para o inferno, os maiores devedores da justiça divina, por aqueles milagres que deveriam tê-los mantido afastados dali.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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