ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 11: 16-24

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Cristo Repreende Corazim e outras Cidades

Cristo ia continuar a elogiar João Batista e o seu ministério, mas aqui Ele se interrompe de repente, e transforma o que estava dizendo em uma censura àqueles que recebiam o ministério de João Batista, o seu e de seus discípulos, em vão. Quanto a esta geração, podemos observar a quem Ele a compara (vv. 16-19) – e quanto aos lugares em particular que Ele exemplifica, podemos observar com quem Ele os compara (vv. 20-24).

 I – Quanto a esta geração, era a congregação do povo judeu naquela época. Na verdade, havia muitos que se esforçavam para entrar no Reino dos céus, mas a maioria continuava na descrença e na obstinação. João era um grande homem, e um bom homem, mas a geração na qual o seu destino foi lançado era uma geração tão infértil e improdutiva quanto poderia ser, e era indigna dele. Observe que a má qualidade dos lugares onde vivem bons ministros serve de contraste para a boa qualidade deles. Foi louvável que Noé fosse justo em meio à sua geração. Tendo elogiado João, Cristo condena aqueles que o tinham em seu meio, e não aproveitaram o seu ministério. Por mais dignas de elogios que sejam as pessoas, se elas desprezarem a Cristo isto será revelado no Dia do Juízo.

O Senhor Jesus nos apresenta esta verdade em forma de parábola, mas fala como se estivesse perplexo por descobrir uma semelhança adequada para representá-la: “A quem assemelharei esta geração?” Não existe um absurdo maior do que aquele de que são culpados os que têm boa pregação em seu meio e nunca a aprovei­ tam. É difícil dizer com que se assemelham. A semelhança é obtida de um costume comum entre as crianças judias ao brincar, que, como é normal com as crianças, imitavam os costumes dos adultos nos casamentos e nos enterros, celebrando e lamentando; mas, sendo tudo uma brincadeira, não causava nenhuma impressão. Nem o ministério de João Batista, nem o de Cristo, causavam uma impressão maior sobre aquela geração. Jesus pensa particularmente nos escribas e nos fariseus, que se orgulhavam de si mesmos; portanto, para humilhá-los, Ele os compara às crianças, e o seu comportamento, à brincadeira de crianças.

A parábola é melhor explicada com o seu estudo e exemplo nestas cinco observações:

Observe:

1.O Deus do céu usa uma variedade de meios e métodos adequados para a conversão e a salvação das pobres almas. Ele deseja que todos os homens sejam salvos, e, portanto, faz todo o possível para conseguir isso. O seu grande objetivo é que as nossas vontades estejam de acordo com a vontade de Deus, e, para isto, que as nossas inclinações estejam de acordo com as descobertas que Ele nos fez de si mesmo. Tendo várias inclinações para transformar, Ele usa várias maneiras de trabalhar sobre elas, que embora sejam diferentes entre si, todas tendem para a mesma coisa, e Deus está em todas elas, realizando o mesmo desígnio. Nesta parábola, isto é, o seu tocar flauta para nós, e o seu cantar lamentações para nós. Ele tocou flauta para nós nas preciosas promessas do Evangelho, que é apropriado para trabalhar com a esperança, e cantou lamentações por nós nas terríveis ameaças da lei, que são apropriadas para trabalhar com o medo, para que Ele pudesse nos afastar do pecado pelo medo, e nos atrair para si mesmo. Ele tocou flauta para nós em providências de graça e misericórdia, e cantou lamentações para nós em providências calamitosas e aflitivas, e colocou uma contra a outra. Ele ensinou os seus ministros a mudar a sua voz (Gálatas 4.20); algumas vezes, para falar como o trovão do monte Sinai, outras vezes numa voz mais calma, do monte Sião.

Na explicação desta parábola, é apresentada a diferença de caráter entre os ministérios de João e de Cristo: tendo sido ambos as duas maiores luzes daquela geração.

(1) Por um lado, João veio até eles lamentando-se, sem comer nem beber; sem conversar amigavelmente com as pessoas, nem comendo normalmente com eles, mas sozinho, na sua cela no deserto, onde a sua refeição era composta de gafanhotos e mel silvestre. Alguém poderia pensar que isto os influenciaria, pois uma vida austera e humilde como esta, estava bastante de acordo com a doutrina que ele pregava – e este ministro, cujas palavras estão de acordo com a sua doutrina, provavelmente realizará boas obras; mas mesmo a pregação de um ministro assim nem sempre é eficiente.

(2) Por outro lado, o Filho do Homem veio comendo e bebendo, e assim Ele tocou flauta para eles. Cristo conversava amigavelmente com todos os tipos de pessoas, sem tender a nenhuma rigidez ou austeridade em particular. Ele era afável e acessível, não se intimidava com nenhuma companhia, estava sempre nas festas, tanto com os fariseus como com os publicanos, para ver se isto conquistaria aqueles que não tinham sido conquistados pela maneira reservada de João Batista. Aqueles que não tinham se intimidado pelas censuras de João, seriam atraídos pelos sorrisos de Cristo; assim, o apóstolo Paulo aprendeu a fazer-se tudo para todos (1 Coríntios 9.22). Agora, o nosso Senhor Jesus, com a sua liberdade, não condenou a João de maneira nenhuma, assim como João nunca o condenou, embora os seus procedimentos fossem muito diferentes. Note que embora nunca tenhamos clara a efetividade do nosso procedimento, ainda assim não devemos julgar os outros com base nela. Pode haver uma grande diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos (1 Coríntios 12.6), e a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil (v. 7). Observe, especialmente, que os ministros de Deus têm dons variados: a habilidade e a genialidade em alguns se mostra de uma maneira; em outros, de outra; alguns são Boanerges, filhos do trovão; outros, Barnabés, filhos da consolação; mas um só e o mesmo Espírito opera todas essas coisas, e por isto nós não devemos condenar nenhum deles, mas louvar a todos, e louvar a Deus por todos, pois Ele, desta maneira, experimenta várias maneiras de lidar com pessoas de variados tempera­ mentos, para que os pecadores possam se tornar maleáveis ou deixados na condição de inexcusáveis, para que, qualquer que seja o caso, Deus seja glorificado.

Observe:

2.Os diversos métodos que Deus usa para a conversão dos pecadores, com muitos resultam infrutíferos e ineficientes. “‘Não dançastes… não chorastes’; não fostes influenciados nem de uma maneira nem de outra.” Meios particulares têm, como na medicina, as suas intenções particulares, que devem obter reações, e impressões particulares, que devem ser submetidas para o sucesso do desígnio maior e geral. Mas se as pessoas não se sentirem obrigadas por leis, nem convidadas pelas promessas e nem ainda amedrontadas por ameaças, não serão despertadas pelas coisas maio­ res, nem atraídas pelas coisas mais doces, nem atemorizadas pelas coisas mais terríveis, nem sensibilizadas pelas coisas mais comuns. Se não ouvirem a voz das Escrituras, nem a razão, nem as experiências, nem a providência, nem a consciência, nem o interesse, o que mais pode ser feito? “Já o fole se queimou, o chumbo se consumiu com o fogo; em vão vai fundindo o fundidor tão diligentemente… Prata rejeitada lhes chamarão” (Jeremias 6.29,30). Debalde o ministro terá trabalhado (Isaias 49.4), e, o que é uma perda muito maior, a graça de Deus terá sido recebida em vão (2 Coríntios 6.1). Há algum consolo para os ministros fiéis que veem pouco sucesso nos seus esforços, o fato de que não é novidade que os melhores pregadores, e a melhor pregação do mundo, não alcancem o fim desejado. “Quem deu crédito à nossa pregação?” Se do sangue dos feridos, da gordura dos valentes (2 Samuel 1.22), do arco daqueles grandes comandantes, Cristo e João voltaram tantas vezes vazios, não é de admirar se nós também voltarmos, e se profetizarmos sobre ossos secos com tão poucos propósitos.

Observe:

3.Que normalmente aquelas pessoas que não se beneficiam dos milagres da graça são pervertidas, e isto se reflete nos ministros por cujo intermédio elas desfrutam de tais milagres; e corno elas não obtêm o bem para si, elas fazem todo o mal que conseguem para os outros, criando e propagando preconceitos contra a palavra, e contra os seus fiéis pregadores. Aqueles que não estão de acordo com Deus, e que não o seguem, o confrontam e caminham em sentido contrário a Ele. Foi isto o que fez esta geração; por estarem decididos a não crer em Cr isto ou em João, e a não considerá-los os melhores entre os homens – como deveriam ter feito-, eles se dispuseram a atacá-los e a representá-los como os piores.

(1) Quanto a João Batista, eles dizem: “Tem demônio”. Eles atribuíam a sua rigidez e a sua reserva à melancolia, e a algum tipo ou grau de possessão satânica. Em outras palavras: “Por que deveríamos dar ouvidos a ele? Ele é um pobre hipocondríaco, cheio de caprichos, que está sob o poder de uma imaginação enlouquecida”.

(2) Quanto a Jesus Cristo, eles atribuíam as suas palavras livres e prestativas ao hábito depravado da luxúria e da satisfação da carne: “Eis aí um homem comilão e beberrão”. Nenhum pensamento poderia ser mais rude e preconceituoso. Esta é a acusação contra o filho rebelde (Deuteronômio 21.20): “É um comilão e beberrão”. Nenhum pensamento poderia ser mais falso e injusto, pois Cristo não agradou a si mesmo (Romanos 15.3), nem jamais fez homem algum viver uma vida de autonegação, humilhação e desprezo pelo mundo, como Ele viveu. Ele, que era imaculado e separado dos pecadores, está sendo aqui acusado de ser aliado a eles, e contaminado por eles. A inocência mais imaculada e a excelência mais incomparável nem sempre serão uma cerca contra a reprovação das línguas. Não. Os melhores dons do homem, e as suas melhores ações, que têm as melhores intenções e, ao mesmo tempo, são calculadas para a edificação, podem se tornar motivos de reprovação. A melhor das nossas ações pode se tornar a pior das acusações feitas a nós, como o jejum de Davi (Salmos 69.10). De certa maneira, era verdade que Cristo era amigo de publicanos e pecadores, o melhor amigo que eles jamais tiveram, pois Ele veio ao mundo para salvar os pecadores, os grandes pecadores, até mesmo o principal pecador – isto disse, com muita emoção, aquele que não tinha sido um publicano e pecador, mas um fariseu e pecador. Mas isto é – e será por toda a eternidade – um motivo de louvor a Cristo, e aqueles que transformaram tamanha virtude em censura contra Ele, perderam o seu benefício.

Observe:

4.Que a causa dessa grande falta de frutos e perversão das pessoas sob os milagres da graça é o fato de que elas são como crianças que se assentam nas praças. Elas são tão tolas como as crianças, rebeldes como as crianças, descuidadas e brincalhonas como as crianças. Se elas se mostrassem adultas no entendimento, haveria alguma esperança para elas. As praças onde elas se assentam é, para alguns, um lugar de ociosidade (cap. 20.3); para outros, um lugar para a realização de negócios terrenos (Tiago 4.13); para todos, um lugar de ruí­ dos e diversão. Assim, se você perguntar a razão pela qual as pessoas obtêm tão pouco benefício por meio da graça, você descobrirá que é porque elas são preguiçosas e fúteis, e não gostam de se esforçar; ou porque as suas cabeças e mãos e os seus corações estão cheios do mundo, cujas preocupações sufocam a Palavra, e, finalmente, sufocam as suas almas (Ezequiel 33.31; Amós 8.5). Elas também procuram afastar os seus pensamentos de tudo o que é sério. Assim, nas praças elas estão, e ali se assentam; e nestas coisas está o seu coração, e decidem viver de acordo com elas.

Observe:

5.Embora os milagres da graça possam assim ser menosprezados e mal-empregados por muitos, isto é, pela maioria, ainda assim há um pequeno número que pela graça os aprimoram e reagem aos seus desígnios, para a glória de Deus e para o bem das suas almas. “Mas a sabedoria é justificada por seus filhos”. Cristo é a fonte de toda a sabedoria; nele estão escondidos verdadeiros tesouros de sabedoria; os santos são os filhos que Deus lhe deu (Hebreus 2.13). O Evangelho é sabedoria, é a sabedoria que vem do alto: os verdadeiros crentes são gerados novamente por ela, e renascem para o céu também; são filhos sábios, sábios por si mesmos e para os seus próprios interesses; não são como as crianças tolas que se assentam nas praças. Estes filhos da sabedoria justificam a sabedoria; eles estão em conformidade com os desígnios da graça de Cristo, respondem positivamente às suas intenções, e são adequadamente influenciados por ela, pelos variados métodos que ela emprega, e assim evidenciam a sabedoria de Cristo ao empregar tais métodos. Isto está explicado em Lucas 7.29. Os publicanos justificaram a Deus, tendo sido batizados com o batismo de João, e posteriormente aceitando o Evangelho de Cristo. Observe que o sucesso dos métodos da graça justifica a sabedoria de Deus na escolha de tais métodos, contra aqueles que o acusam de tolice a este respeito. A cura de todo enfermo que segue as recomendações do médico justifica a sabedoria do médico; e assim Paulo não se envergonha do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê (Romanos 1.16). Quando a cruz de Cristo, que para muitos é escândalo e loucura, é, para aqueles que são chamados, poder de Deus e sabedoria de Deus (1 Coríntios 1.23,24), para que eles façam deste conhecimento o ápice da sua ambição (1 Coríntios 2.2), e da sua eficiência a coroa da sua glória (Gálatas 6.14), então a sabedoria é justificada pelos seus filhos. Os filhos da sabedoria são as testemunhas da sabedoria ao mundo (Isaias 43.10), e serão feitos testemunhas naquele dia, quando a sabedoria, que agora é justificada pelos santos, será glorificada nos seus santos e se fará admirável em todos os que creem (2 Tessalonicenses 1.10). Se a descrença de alguns censura a Cristo, atribuindo-lhe a mentira, a fé de outros irá honrá-lo, colocando o selo de que Ele é verdadeiro, e de que Ele também é sábio (1 Coríntios 1.25). Quer cooperemos ou não para a realização dessas coisas, elas acontecerão; não somente a justiça de Deus, mas também a sua sabedoria, será justificada quando Ele falar, quando Ele julgar.

Bem, esta é a avaliação que Cristo faz daquela geração, e aquela geração não morreu, mas permanece, em uma sucessão de semelhantes; pois assim como era naquela época, tem sido desde então, e ainda continua sendo. Alguns creem no que se diz, mas outros não (Atos 28.24).

 II – Quanto às cidades em particular; nas quais Cristo é conhecido. O que Ele disse, de maneira geral, sobre aquela geração, Ele aplicou, em particular, àquelas cidades, para influenciá-las. Em seguida, Ele começou a acusar as cidades, (v. 20, versão NTLH). Ele começou a pregar a elas muito tempo antes (cap. 4.17), mas não havia acusando-as até agora. Note que métodos rudes e desagradáveis não devem ser adotados até que métodos mais gentis tenham sido usados. Cristo não é propenso a acusar; Ele dá livremente, e não censura, até que os pecadores, com a sua obstinação, arranquem dele a censura. A sabedoria primeiramente convida, mas quando os seus convites são ignorados, ela acusa (Provérbios 1.20,24). Aqueles que começam com acusações não seguem os métodos de Cristo. Agora, observe:

1.O pecado de que elas são acusadas; não é nenhum pecado contra a lei moral, em que um recurso estaria apoiado no Evangelho, que o teria aliviado, mas um pecado contra o Evangelho, a lei corretiva – e isto é impenitência. O que Ele censurou nelas, ou a razão porque Ele as repreendeu, como sendo a coisa mais vergonhosa e ingrata que poderia haver, foi o fato de que elas não se arrependiam. Observe que a impenitência deliberada é o pecado que causa maior dano às multidões que recebem o Evangelho, e do qual (mais que qualquer outro) os pecadores serão acusados até à eternidade. A grande doutrina que tanto João Batista e Cristo como os apóstolos pregaram era o arrependimento. O que se desejava, tanto com o tocar flauta como com o lamentar-se, era levar as pessoas a modificar seus pensamentos e condutas, abandonar seus pecados e voltar-se para Deus; e isto elas não aceitavam. Ele não disse, porque eles não acreditavam (embora muitos deles tivessem algum tipo de fé) que Cristo era um Mestre vindo de Deus; mas por não se arrependerem, a sua fé não transformava os seus corações e não modificava as suas vidas. Cristo os censurou pelos seus outros pecados, pois Ele poderia levá-los ao arrependimento; mas quando não se arrependeram, Ele os acusou com a sua recusa em serem curados. Ele os censurou para que eles mesmos pudessem se censurar, e finalmente ver a tolice que isto era, o que por si só transforma um caso triste em desesperad01; e numa ferida incurável.

2.O agravamento do seu pecado. Eram cidades nas quais a maioria dos seus milagres tinha sido realizada; pois nelas funcionou a sua residência principal durante algum tempo. Note que algumas cidades aproveitam os milagres da graça com maior plenitude, poder e pureza do que outras. Deus é um agente livre, e assim age em todas as suas disposições, tanto como o Deus da natureza quanto como o Deus da graça, a graça comum e a que distingue. Por meio dos milagres de Cristo, estas cidades deveriam ter não apenas recebido a sua doutrina, mas também obedecido à sua lei. A cura das enfermidades do corpo deveria ter sido a cura das suas almas, mas não teve tal efeito. Observe que quanto mais fortes são os incentivos que temos para nos arrependermos, mais atroz será a impenitência, e mais severa será a prestação de contas, pois Cristo registra os milagres realizados entre nós e também as obras de graça realizadas para nós, pelas quais também deveríamos ser levados ao arrependimento (Romanos 2.4).

(1) Corazim e Betsaida são citadas aqui (vv.21 e 22J. cada uma delas tem o seu “ai”: “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida!” Cristo veio ao mundo para nos abençoar, mas se esta bênção for desprezada, Ele tem “ais” armazenados, e os seus “ais” são os mais terríveis de todos. Estas duas cidades estavam localizadas junto ao mar da Galileia, a primeira do lado leste e a última do lado oeste, eram lugares ricos e muito habitados. Betsaida tinha sido elevada a cidade por Filipe, o tetrarca; dela, Cristo tomou pelo menos três de seus apóstolos. Assim, estas cidades eram altamente favorecidas! Mas por não conhecerem o dia da sua visitação, elas caíram sob estes “ais”, que se prenderam a elas, e pouco tempo depois disto decaíram e se reduziram a aldeias comuns e obscuras. Dessa forma, o pecado arruína fatalmente as cidades, e a palavra de Cristo certamente se cumpre!

Corazim e Betsaida são aqui comparadas com Tiro e Sidom, duas cidades marítimas (sobre as quais lemos muito no Antigo Testamento) que tinham sido levadas à destruição, mas começaram a prosperar outra vez; estas cidades eram fronteiriças à Galileia, mas eram malvistas entre os judeus, pela sua idolatria e seus pecados. Algumas vezes, Cristo foi às proximidades de Tiro e Sidom (cap. 15.21), mas nunca além; os judeus teriam se horrorizado se Ele tivesse ido; portanto, Cristo, para convencê-los e humilhá-los, aqui mostra:

[l]. Que Tiro e Sidom não tinham sido tão más quanto Corazim e Betsaida. Se a mesma palavra tivesse sido pregada a elas, e se os mesmos milagres tivessem sido realizados nelas, elas teriam se arrependido, e há muito tempo, como aconteceu com Nínive, com pano de saco e com cinza. Cristo, que conhece os corações de todos, sabia que se Ele tivesse ido e vivido no meio deles, e tivesse pregado entre eles, Ele teria feito um bem maior do que onde estava; mas ainda assim, Ele continuou onde estava durante algum tempo, para incentivar os seus ministros a fazerem a mesma coisa, embora eles não pudessem ver o sucesso que desejavam. Observe que entre os filhos da desobediência, alguns são mais facilmente transformáveis que outros. Há um sério agravamento da impenitência daqueles que recebem completamente os milagres da graça, não somente porque há muitos que estão sob os mesmos milagres, que se transformam, mas porque há muitos mais que poderiam ser transformados, se tivessem recebido os mesmos milagres (veja Ezequiel 3.6,7). O nosso arrependimento é muitas vezes lento e até atrasado, mas o deles deveria ter sido rápido; eles deveriam ter se arrependido há muito tempo. O nosso foi leve e superficial; o deles deveria ter sido profundo e verdadeiro, com pano de saco grosseiro e com cinzas. Mas devemos observar, com uma maravilhada adoração da soberania divina, que os habitantes de Tiro e Sidom irão perecer justamente no seu pecado, embora, se tivessem recebido a graça, poderiam ter se arrependido; pois Deus não deve nada a nenhum homem.

[2]. Que, portanto, Tiro e Sidom não seriam tão infelizes quanto Corazim e Betsaida, mas haveria maior tolerância com elas no Dia do Juízo (v. 22). Observe que, em primeiro lugar, no Dia do Juízo, o estado permanente dos filhos dos homens será determinado, por um destino inalterável e infalível: felicidade ou infelicidade, e os diversos graus de cada uma delas. Por isto é chamado de Juízo eterno (Hebreus 6.2)1 porque decide o estado eterno. Em segundo lugar, naquele juízo, todos os milagres da graça que são recebidos quando estamos em um estado de experiência serão certamente levados em consideração, e nos será perguntado não o quanto fomos maus, mas o quanto poderíamos ter sido melhores, não fosse pela nossa própria culpa (Isaias 5.3 ,4). Em terceiro lugar, embora a condenação de todos os que perecem seja insuportável, ainda assim a condenação daqueles que tiveram as revelações mais completas e claras feitas pelo poder e pela graça de Cristo, e ainda assim não se arrependeram, será, de todas, a mais insuportável. A luz e o som do Evangelho abrem os sentidos e aumentam a capacidade de todos os que o veem e ouvem, seja para receber as riquezas da divina graça, ou (se esta graça for desprezada) para receber os mais completos derramamentos da ira divina. Se a autocondenação for a tortura do inferno, ela realmente deve ser um inferno para aqueles que tiveram uma oportunidade tão excelente de ir para o céu. “Filho, lembra-te de que… “.

(2) Aqui Cafarnaum é condenada com ênfase (v. 23). “E tu, Cafarnaum, levante as mãos e ouça a condenação”. Cafarnaum, acima de todas as cidades de Israel, foi dignificada com a residência mais frequente de Cristo; foi como a Siló dos tempos antigos, o lugar que Ele escolheu para fazer habitar o seu nome – e nisto ela era como Siló (Jeremias 7.12,14). Os milagres de Cristo aqui eram o pão de cada dia, e, portanto, como o maná no deserto, eram desprezados e chamados de pão vil. Mais de uma vez Cristo lhes fez um sermão doce e consolador sobre a graça, com pouco resultado, e por isto Ele lhes faz um sermão sobre a ira: aqueles que não ouviram o primeiro terão de sentir esta última.

Aqui temos a condenação de Cafarnaum:

[1]. Explicada de maneira absoluta: “Tu, Cafarnaum, que te ergues até aos céus, serás abatida até aos infernos”. Observe, em primeiro lugar, que aqueles que recebem o Evangelho em poder e pureza, são, dessa forma, exaltados aos céus; com isto, eles têm uma grande honra no presente e uma grande vantagem para a eternidade; eles são exaltados aos céus. Mas se, apesar disso, eles ainda se apegarem à terra, poderão agradecer a si mesmos por não serem elevados ao céu. Em segundo lugar, as vantagens e os aprimoramentos do Evangelho, se mal-usados, irão fazer os pecadores afundar ainda mais no inferno. Os nossos privilégios externos estarão longe de nos salvar, se os nossos corações e as nossas vidas não estiverem em conformidade com eles; eles somente a­ gravarão a prestação de contas. Quanto mais alto o precipício, mais fatal é a queda. Não tenhamos, portanto, um caráter altivo, mas temor; não sejamos indolentes, mas diligentes. Veja Jó 20.6,7.

[2]. A condenação de Cafarnaum, comparada com o destino de Sodoma, recebe um lugar ainda mais notável do que talvez qualquer outra, tanto pelo pecado como pela destruição; e assim, Cristo aqui nos diz:

Em primeiro lugar, que os prodígios operados em Cafarnaum teriam salvado Sodoma. Se esses milagres tivessem sido realizados entre os sodomitas, por mais pecadores que fossem, eles teriam se arrependido e a sua cidade teria permanecido até os dias de hoje como um monumento da misericórdia que poupa, da mesma maneira como hoje é um monumento da justiça que destrói (Judas 7). Observe que com o arrependimento sincero por meio de Cristo, até mesmo o maior pecado será perdoado, e a maior destruição será evitada, o que Sodoma não esperou. Os anjos foram enviados a Sodoma, e ainda assim ela não permaneceu; mas se Cristo tivesse sido enviado para lá, ela teria permanecido; como é bom para nós, então, que o mundo futuro esteja sujeito a Cristo e não aos anjos! (Hebreus 2.5). Ló não teria parecido um zombador, se tivesse realizado milagres.

Em segundo lugar, a ruína de Sodoma será, portanto, menor do que a de Cafarnaum, no Grande Dia. Sodoma terá muitas coisas pelas quais responder, mas não o pecado de desprezar a Cristo, como terá Cafarnaum. O Evangelho tem um cheiro de morte para alguns, um cheiro que os mata. É de morte para a morte, uma morte grande demais (2 Coríntios 2.16). Cristo disse o mesmo de todos os outros lugares que não recebessem os seus ministros nem dessem as boas-vindas ao seu Evangelho (cap. 10.15); haveria mais tolerância para a terra de Sodoma do que para tal cidade. Nós, que temos agora a palavra escrita nas nossas mãos, o Evangelho pregado e a lei do Evangelho ministrada a nós, e vivemos sob a concessão do Espírito, temos vantagens não inferiores às de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, e a prestação de contas no grande Dia será correspondente. Portanto, foi dito, com propriedade, que os professores dessa época, não importando se irão para o céu ou para o inferno, serão os maiores devedores em qualquer um desses lugares; se forem para o céu, os maiores devedores da misericórdia divina por aqueles milagres que os levaram até ali; se, para o inferno, os maiores devedores da justiça divina, por aqueles milagres que deveriam tê-los mantido afastados dali.

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GESTÃO E CARREIRA

SERÁ O FIM DO DIPLOMA?

O avanço da inteligência artificial tem levado as empresas a relativizar a importância da graduação no currículo. Essa revolução, que está só começando, vai transformar o conceito de educação profissional.

Será o fim do diploma

Com robôs substituindo humanos, profissões desaparecendo e tecnologias sendo desenvolvidas em série, uma das áreas mais impactadas pelas transformações no mercado de trabalho será a educação. Da faculdade aos cursos de especialização, dos treinamentos corporativos aos MBAs, a forma com adquirimos conhecimento deve mudar radicalmente. Demorou “Se uma pessoa do século 19 fosse descongelada agora, perceberia que tudo mudou, menos a sala de aula”, diz Luís Rasquilha, CEO da Inova Business School, escola de negócios voltada para o estudo da inovação e do futuro, com unidades em Campinas e São Paulo.

Uma das principais tendências que influenciarão mudanças na educação nas próximas décadas é a ultra especialização. Cada aluno construirá sua trilha de aprendizado personalizada, combinando cursos normais com informais. “Estamos entrando numa era de hiperespecialização, que requer conhecimento técnico aprofundado em áreas muito especificas”, afirma Rafael Souto, CEO da Produtive, consultoria de planejamento de carreira de São Paulo. Mas isso significará o fim da graduação tradicional?

Para Joseph E. Aoun, reitor da Universidade Northeastern, de Boston, nos Estados Unidos, e autor do livro Robot-Proof (“À prova de robô”, numa tradução livre, sem edição no Brasil), as transformações não levarão necessariamente ao fim do diploma, mas à reformulação do modelo de ensino. “As universidades terão de oferecer cursos customizados, flexíveis e responsivos às necessidades dos profissionais e dos empregadores” diz.

Em Massachusetts, nos Estados Unidos, uma experiência já adianta como isso poderia funcionar. Um consórcio intitulado Five College estabelece uma parceria formal entre cinco instituições: as faculdades de Amherst, Hampshire, Mount Holyoke e Smith e a Universidade de Massachusetts. O modelo permite – e incentiva – a mobilidade interinstitucional. É o aluno quem define o foco de sua graduação – não é obrigado a seguir uma grade preestabelecida e pode fazer aulas disponíveis em qualquer uma das cinco escolas.

Outra tendência que marcará esse mercado de conhecimentos mutantes é a de que tudo o que for a prendido na academia deverá ter uma aplicação prática, atendendo às necessidades correntes do negócio. Um exemplo desse tipo de experiência vem do curso de administração da Universidade de Tampere, na Finlândia, cujas atividades ocorrem no polo de inovação da faculdade, dentro de uma antiga fábrica de algodão. Ali, os estudantes são estimulados a lidar com problemas reais ao longo de toda a cadeia produtiva – desde a burocracia necessária à abertura de uma empresa, passando pela gestão da planta e pelo marketing, até a distribuição dos produtos.

“0s professores não dão aula, atuam mais como coaches, orientando conforme a demanda do aluno, diz Rodrigo Copelato, diretor executivo do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo.

Como será necessário voltar à universidade várias vezes ao longo da vida para adquirir novos conhecimentos, os cursos ficarão mais curtos e rápidos. Os “nanodegrees” serão cada vez mais requisitados. Escolas internacionais que oferecem conteúdo nesse formato, como a Coursera e a Udacity, dão uma mostra do sucesso desse modelo. Fundada em 2011 como um projeto experimental da Universidade de Stanford, na Califórnia, a Udacity tornou-se referência mundial em nanocursos na área de tecnologia. O primeiro deles, Introdução à Inteligência Artificial, alcançou na época 160 000 alunos em diversos países. Hoje, a Udacity é uma organização sem fins lucrativos que oferece crédito educativo de baixo custo e cursos livres gratuitos, muitos deles desenvolvidos em parceria com gigantes da iniciativa privada, como Google e Facebook. Atualmente, são 4 milhões de usuários em 168 países. Já a escola online internacional Coursera destaca-se com “nanodegrees” dedicados a habilidades comportamentais, conhecidas no mundo dos negócios como softskills.

Na plataforma há módulos como Aprendendo a Aprender (Universidade da Califórnia) e Introdução à Oratória (Universidade de Washington). São mais de 2 000 cursos e 24 milhões de usuários desde 2012.

FACULDADE EM CHEQUE

Enquanto especialistas discordam entre si se diplomas serão ou não extintos, algumas empresas começam a relativizar o peso da graduação no currículo de seus candidatos. Gigantes como a IBM já priorizam certificações em programas específicos e estão abertas à contratação de profissionais qualificados informalmente para alguns cargos. Um especialista em armazenamento de dados em nuvem pode começar ganhando 40 000 dólares anuais sem ter pisado numa universidade. Hoje, de 10 a 15% dos programadores da IBM não têm diploma formal.

A PwC segue na mesma linha. Em seus processos seletivos, a multinacional só exige a graduação quando há obrigatoriedade legal, como no caso da contabilidade. “Não importa se o profissional tem faculdade A B ou C. Podemos correr atrás de conhecimento. O que buscamos é curiosidade, interesse e capacidade de aprender rapidamente”, diz Marcos Panassol, líder de capital humano e sócio da PwC no Brasil.

Nascida como startup em 2004 e hoje com 450 funcionários, a brasileira Essence IT, especializada em tecnologia da informação para negócios, é outra que vem priorizando o perfil à formação. Lá, todo processo seletivo começa com uma missão, um projeto que o candidato precisa executar, acompanhado de um material básico de aprendizado. Parte da informação está ali, acessível a quem estiver disposto a ler e a pensar. A outra parte está na internet.  Para avançar, é preciso demonstrar iniciativa e aptidão para o autodidatismo. Às vezes, nenhum candidato passa pelo funil e é preciso reabrir a seleção. Não é raro encontrar na empresa colaboradores que atuam em áreas muito diferentes de sua formação de base, como um analista de RH com graduação em biologia marinha. “Procuramos, basicamente, funcionários capazes de resolver problemas”, diz Rodrigo Ricco, um dos sócios. Para ele, diplomas de grife não garantem a competência de entregar soluções com a agilidade que o cliente de hoje exige. Num mercado volátil e incerto, a verdade é que só terá vez o profissional que estiver com a mente (sempre) aberta para aprender algo novo.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O QUE ASSUSTA VOCÊ?

O medo resulta de um processo tão básico quanto a respiração ou a digestão; mesmo assim, compreender e descrever o que acontece em nosso cérebro quando algo nos apavora continua sendo um desafio para cientistas.

O que assusta você2

O que é mais assustador: uma cobra venenosa serpenteando em sua direção numa trilha ou observar uma queda de mil pontos na bolsa de valores? Embora os dois acontecimentos possam provocar medo, pesquisadores discordam sobre a natureza e a causa dessas emoções. “Ver a bolsa despencar mil pontos é a mesma coisa que observar uma cobra”, avalia Joseph LeDoux, professor de neurociência e psicologia do Centro da Neurociência da Universidade de Nova York. “Medo é uma resposta para estímulos imediatos. A sensação de vazio no estômago, a aceleração do coração, as palmas das mãos suadas, o nervosismo são evidências de que seu cérebro está respondendo, de forma pré-programada, a uma ameaça muito específica.” O pesquisador observa que, como nosso cérebro é programado para ser estruturalmente semelhante, podemos assumir nossas sensações diante de ameaças semelhantes.

O medo afeta diferentes espécies de modo semelhante. “Viemos ao mundo sabendo como ter medo, pois nosso cérebro evoluiu para lidar com a natureza”, avalia LeDoux, observando que os cérebros de ratos e humanos respondem de maneira semelhante a ameaças, ainda que de natureza distinta.

Para outros pesquisadores, o medo é uma experiência muito pessoal. Enquanto algumas pessoas ficam apavoradas ao assistir a um filme de terror, outras podem ficar com muito mais medo ao se encaminharem para seus carros, em um estacionamento escuro, depois de assistir ao filme.

Se pedirmos que várias pessoas façam uma lista das coisas que mais as assustam, provavelmente cada uma fará uma lista bem diferente da outra, avalia Michael Lewis, diretor do Instituto de Desenvolvimento Infantil da Faculdade de Medicina Robert Wood Johnson, em New Brunswick, Nova Jersey. “Intimamente, podemos concordar que o medo de uma auditoria do imposto de renda ou de um assalto pode se manifestar da mesma maneira. O problema é que não temos como obter uma boa medida fisiológica do medo ou de qualquer outra emoção”, considera Lewis.

Ele observa que o comportamento das pessoas que nos cercam influi nas nossas respostas a situações ameaçadoras. “Aprendemos a ter medo por experiências com fatos assustadores ou com pessoas próximas, como nossos pais, irmãos, amigos”, observa Lewis. “O medo parece ter um componente contagiante que faz com que o receio ou pavor alheios sejam transmitidos para nós. É um comportamento condicionado, como os cães de Pavlov que salivavam.”

Outros pesquisadores recorrem à tecnologia para ajudar a entender melhor o medo. “É muito difícil definir essa emoção em termos do sentimento que ela evoca”, argumenta Joy Hirsch, professora de neuroradiologia, neurociência e psicologia e diretora do Programa para Ciências de Imageamento e Cognição, da Universidade Columbia, em Nova York. “É possível definir dor? É possível definir a cor vermelha? Essas sensações extremamente pessoais são consideradas os problemas mais difíceis em neurociência.”

Para descobrir mais sobre o que nos faz perder o sono, Hirsch e sua equipe usam imageamento por ressonância magnética funcional (fMRI) para investigar como funcionam as conexões no nosso cérebro. “O circuito que comanda a sensação de medo é ativado imediatamente por meio de um estímulo específico”, observa Hirsch. Em sua pesquisa, ela apresenta aos participantes fotografias do rosto de atores com expressão assustada.

Por meio do exame de neuroimagem é possível constatar que a reação ao estímulo indutor de medo manifesta-se na amígdala, uma estrutura arredondada em forma de amêndoa, localizada abaixo do lobo temporal e conhecida também como centro cerebral do medo. Hirsch lembra que a amígdala é a primeira a responder a estímulos ameaçadores.

O escâner de fMRI rastreia a alteração no fluxo sanguíneo para a amígdala. “Estamos à procura de mudanças de sinais em regiões específicas do cérebro”, argumenta Hirsch. “Esse sinal significa aumento da atividade neural.” O sinal de ressonância magnética responde à quantidade de sangue que está abastecendo determinada área. Durante o período de varredura da amígdala, a foto de um rosto apavorado provoca maior afluxo sanguíneo – intensificando o sinal da imagem – do que um rosto com expressão neutra.

Críticos da pesquisa baseada na fMRI argumentam que nem sempre é claro o significado do afluxo de sangue em uma região cerebral. Mas Hirsch rebate os adversários: “Usamos estímulos escolhidos de forma muito cuidadosa e que não necessariamente assustam as pessoas que estão sendo analisadas, mas que despertam sistemas envolvidos em sensações de medo, se você estiver assustado”, conclui. “A interpretação de outra face que demonstra medo estimula regiões neurais do observador que respondem ao medo.”

Hirsch observa que a amígdala responde a outros estímulos além de expressões faciais. “Se você estiver em um beco escuro e alguma coisa saltar de repente em cima de você, provocando um susto”, adverte: “É a amígdala que vai fazer você sair correndo”.

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 NEUROCIÊNCIA PARA SUPERAR MEMÓRIAS ASSUSTADORAS

Pesquisadores descobriram um novo jeito de remover medos específicos do cérebro de uma pessoa utilizando uma combinação de inteligência artificial e tecnologia de escaneamento cerebral. Essa técnica, publicada no periódico científico Nature Human Behaviour, pode levar a um novo jeito de tratar pacientes com condições como estresse pós-traumático e fobias. Doenças relacionadas ao medo afetam cerca de uma a cada 14 pessoas e exercem pressão considerável nos serviços de saúde mental. Atualmente, uma das abordagens comuns é submeter o paciente a alguma forma de terapia de aversão, na qual confronta o medo sendo exposto a ele, na esperança de que aprenda que aquilo que teme não é danoso, afinal.

No entanto, essa terapia é desagradável e, por isso, muitos optam por não praticá-la. Agora, uma equipe de neurocientistas da Universidade de Cambridge, do Japão e dos Estados Unidos descobriu uma maneira de remover, inconscientemente, do cérebro, uma memória relacionada ao medo. A equipe desenvolveu um método para ler e identificar uma lembrança ligada ao medo usando uma tecnologia chamada feedback neural decodificado. A técnica utilizou escaneamento cerebral para acompanhar a atividade no cérebro e identificar padrões complexos de atividade que parecessem uma memória específica ligada ao medo. No experimento, uma memória de medo foi criada em 17 voluntários saudáveis através da administração de um breve choque elétrico quando eles viam certas imagens no computador. Quando o padrão era detectado, os pesquisadores sobrepunham a memória relacionada ao medo dando uma recompensa para os objetos do experimento.

“O modo como a informação é representada no cérebro é muito complicado, mas o uso de métodos de reconhecimento de imagem ligados à inteligência artificial (IA) nos permite identificar aspectos do conteúdo daquela informação”, diz o neurocientista Ben Seymour, do Departamento de Engenharia da Universidade de Cambridge, um dos autores do estudo. “Quando induzimos uma leve memória de medo no cérebro, fomos capazes de desenvolver um método rápido e preciso de lê-la usando algoritmos   de inteligência artificial. Segundo o cientista, o desafio foi, então, achar uma maneira de reduzir a memória de medo, sem evocá-la conscientemente.

“Percebemos que, mesmo quando os voluntários estavam apenas descansando, podíamos ver breves momentos em que o padrão de atividade cerebral flutuante possuía características parciais de memórias de medo específicas, mesmo que os voluntários não estivessem conscientes disso. Como podíamos decodificar esses padrões cerebrais rapidamente, decidimos dar uma recompensa para os objetos – uma pequena quantia em dinheiro – toda vez que detectávamos essas características da memória.”

Os pesquisadores repetiram o procedimento por três dias. Foi dito aos voluntários que a recompensa financeira que receberiam dependia de sua atividade cerebral, mas eles não sabiam como. Ao conectar continuamente padrões sutis de atividade cerebral a correntes elétricas, os cientistas esperavam superar a memória do medo. “As características da memória que foi previamente sintonizada para prever o doloroso choque estavam, agora, sendo reprogramadas para prever algo positivo”, explica a neurocientista Ai Koizumi, do Instituto Internacional de Pesquisas Avançadas de Telecomunicações, em Kyoto, e do Centro de Informação de Redes Neurais, em Osaka, que liderou a pesquisa.

O grupo testou o que acontecia quando se mostravam para os voluntários fotos de coisas que estes antes associavam aos choques. “Num feito notável, não observamos mais a típica resposta de medo em que a pele sua. Nem identificamos um aumento da atividade na amígdala, o centro de medo do cérebro”, afirmou Koizumi. “Isso significa que fomos capazes de reduzir a memória do medo sem que os voluntários tivessem de experienciar o medo conscientemente no processo.”

Ainda que o tamanho da amostra nesse estudo inicial tenha sido relativamente pequeno, a equipe espera que as técnicas possam ser desenvolvidas para um tratamento clínico de pacientes com fobias ou estresse pós-traumático.

“Para aplicar isso aos pacientes, precisamos construir uma biblioteca de códigos de informação do cérebro para as várias coisas das quais as pessoas possam ter medo patológico, como, por exemplo, aranhas”, acrescenta o doutor Seymour. “Em princípio, os pacientes poderiam ter sessões regulares de feedback neural decodificado para remover gradualmente a resposta de medo que essas memórias desencadeiam.”

Alguns pesquisadores acreditam que um tratamento assim poderia trazer benefícios enormes, em comparação com as abordagens tradicionais e medicamentosas. Os pacientes poderiam evitar também o estresse associado com terapias de exposição e todos os efeitos colaterais que podem resultar de tais drogas. O problema é que ainda não se sabe ao certo que destino seria dado à emoção “descolada” da memória associada ao medo.

Especialistas temem que a angústia persista e, na impossibilidade de oferecer significados para a sensação de angústia, surjam sintomas físicos e outros tipos de adoecimento psíquico.

 COM A AJUDA DOS SAGUIS.

 A constatação de que corremos perigo provoca medo, ninguém duvida; já os estímulos sutis, que implicam incertezas sobre a ameaça, ansiedade. Em ambos os casos, trata-se de resposta adaptativa que ajuda os seres vivos a escapar de situações perigosas. No entanto, pesquisadores observam que distúrbios como transtorno de ansiedade generalizada (TAG), transtorno do pânico e fobias são acompanhados pelo medo exagerado ou ansiedade em relação a estímulos inócuos.

Aparentemente, as duas emoções dependem de circuitos neurais paralelos, sobrepondo-se parcialmente em algumas áreas que unem a amígdala, o hipocampo e o córtex pré-frontal. Pesquisadores demonstraram que o córtex pré-frontal é a chave na regulação tanto do medo quanto da ansiedade. Estudos com pacientes que sofrem de patologias neuropsiquiátricas relacionadas com a ansiedade revelaram disfunções na estrutura cerebral. Contudo, a comparação direta de resultados de estudos feitos com roedores e com pessoas não parece tarefa fácil, em grande parte pela enorme complexidade do lóbulo frontal humano.

Em laboratório da pesquisadora Ângela C. Roberts, na Universidade de Cambridge, o sagui (Callithrix jacchus) tem sido usado como modelo experimental com o objetivo de diminuir a distância entre a pesquisa em roedores e a pesquisa em humanos. Para compreender profundamente as respostas emocionais dos primatas, são analisados seu comportamento e suas reações automáticas com ajuda de um sistema de telemetria. Essa ferramenta permite o acompanhamento do ritmo cardíaco e da pressão sanguínea em tempo real enquanto os saguis enfrentam diversos tipos de estímulos.

A pesquisa com esses primatas confirmou que uma região concreta do lóbulo frontal, o córtex orbito frontal, se encarregava de orquestrar as respostas emocionais. Os saguis com uma micro lesão nessa área cerebral apresentavam falta de coordenação entre o comportamento e as respostas cardiovasculares – da mesma maneira como ocorre em alguns pacientes que sofrem de doença neuropsiquiátrica. Em um trabalho publicado no ano passado no periódico científico Biological Psychiatry, foi constatado também que lesões tanto da área orbito frontal como do córtex ventrolateral pré-frontal adjacente intensificavam o medo desses pequenos primatas num tipo de condicionamento em que um som precedia um evento desagradável. Além disso, era mais difícil extinguir o medo demonstrado por esses animais. Por meio da análise das reações dos saguis com a chegada de uma pessoa desconhecida, o que os deixava agitados, era avaliado seu grau de ansiedade.

Esse estado era aumentado se o animal apresentava as duas lesões cerebrais.

 

Fonte: Revista Mente Cérebro – Edição 296