PSICOLOGIA ANALÍTICA

CUIDADO COM AS MÁQUINAS QUE LEEM PENSAMENTOS

Cuidado com as máquinas que leem pensamentos

Nos últimos anos, a tecnologia de imageamento cerebral avançou tanto que se tornou capaz de perscrutar – e em alguns casos até alterar – conhecimentos guardados no cérebro. Com esse novo cenário, que até recentemente seria considerado tema típico de um filme de ficção, se torna necessário pensar em como podemos nos proteger de possíveis invasões.

A ideia de que a mente está completamente protegida das intrusões externas persistiu por séculos. Mas hoje essa suposição pode não ser mais válida. Sofisticados equipamentos de neuroimageamento e interfaces cérebro-computador detectam a atividade elétrica de neurônios, o que permite a decodificação e até alteração de sinais do sistema nervoso que acompanham processos mentais. Embora tais avanços tenham grande potencial para as áreas de pesquisa e medicina, eles trazem um desafio ético, jurídico e social: de repente se torna importante determinar se, ou em que condições, é legítimo obter acesso à atividade neuronal de outra pessoa ou interferir nela.

Essa questão tem especial relevância porque muitas neurotecnologias se desviaram de uma configuração médica e passaram a fazer parte no domínio comercial. Tentativas de decodificar informações mentais por meio do imageamento também estão ocorrendo em processos judiciais em tribunais, às vezes de modo bastante questionável cientificamente. Há quase uma década, por exemplo, uma mulher indiana foi condenada por homicídio e sentenciada à prisão perpétua com base em um exame de varredura cerebral que mostrava, de acordo com o juiz, “conhecimento experiencial” sobre o crime.

O potencial uso de tecnologia neural como um detector de mentiras durante interrogatórios ganhou atenção especial. Apesar do ceticismo de especialistas, empresas já estão comercializando tecnologia baseada em imageamento por ressonância magnética funcional e eletroencefalografia para detectar mentiras. As forças armadas americanas também têm testado técnicas de monitoramento, mas por outra razão: a ideia é utilizar estímulo neural para aumentar o estado de alerta e a atenção dos soldados.

A tecnologia de leitura cerebral pode ser vista como só mais uma etapa de uma tendência inevitável do mundo digital de avançar um pouco mais sobre nosso espaço pessoal. Talvez não estejamos dispostos a aceitar essa intromissão em nosso universo mental. As pessoas poderiam, de fato, considerar tal tecnologia como algo que exige a revisão de conceitos acerca dos direitos humanos básicos e até mesmo da criação de “direitos neuroespecíficos”.

Diante da evolução tecnológica, é possível falar hoje em direito à liberdade cognitiva. Isso daria às pessoas a possibilidade de tomar decisões livres e informadas sobre a aplicação prática do conhecimento científico que possa vasculhar seus conhecimentos ou até afetar seus pensamentos. Num futuro próximo, o direito à privacidade mental deveria nos proteger tanto de intrusões não consentidas de terceiros em nossos “arquivos” cerebrais, quanto da coleta não autorizada dessas informações.

Violações de privacidade no âmbito neural poderiam ser até mais perigosas do que as convencionais, uma vez que ultrapassam o nível do raciocínio consciente, deixando-nos expostos ao risco de ter nossa mente lida in- voluntariamente. Por mais que lembre enredo de filme de ficção, o fato é que esse perigo existe não apenas em estudos de marketing predatório ou tribunais que poderiam utilizar a tecnologia em demasia, mas também em usos que afetariam consumidores em geral. Esta última categoria, aliás, está crescendo. Há poucos meses, o Facebook revelou um plano para criar uma interface “discurso-para-texto” com o intuito de traduzir pensamentos direto do cérebro para o computador. Ensaios parecidos são feitos por empresas como a Samsung e a Netflix. No futuro, o controle cerebral poderia substituir o teclado e o reconhecimento da fala como forma principal de interagir com computadores.

Se tais ferramentas se tornarem cada vez mais comuns – como é bem possível que ocorra –, novas possibilidades de uso indevido surgirão, inclusive violações de segurança. Cientes de que dispositivos neurológicos conectados ao cérebro são vulneráveis a sabotagem, neurocientistas da Universidade de Oxford sugerem que a mesma fragilidade se aplica a implantes cerebrais e que podem levar a um fenômeno chamado brainjacking, que seria uma espécie de “hackeamento” da mente. Tal possibilidade pode exigir a reconsideração do que entendemos hoje como direito à integridade mental, já reconhecida como uma prerrogativa indispensável para a saúde mental. Essa nova interpretação, porém, tem desdobramentos: não só protegeria pacientes contra uma possível recusa a trata- mentos para doenças mentais, mas também defenderia as pessoas de modo geral contra manipulações prejudiciais de nossa atividade mental pelo uso indevido da tecnologia.

Por fim, o direito à “continuidade psicológica” pode proteger a vida mental contra alterações feitas por terceiros.  Um exemplo: o mesmo tipo de intervenção em estudo para reduzir a necessidade de sono nas forças armadas poderia ser adaptado para tornar soldados mais beligerantes ou destemidos. A neurotecnologia traz benefícios, mas para diminuir riscos indesejados precisamos de um debate aberto que envolva neurocientistas, psicólogos, psicanalistas, médicos peritos legais, especialistas em ética e cidadãos comuns. Para alguns, podem parecer precipitadas essas preocupações, mas o mundo se transforma rápido, frequentemente nos surpreende. Afinal, há 15 anos você imaginava o quanto a tecnologia ocuparia sua vida hoje e o faria tão dependente de seu celular ou de seu computador?

 

MARCELLO IENCA – é neurocientista, pesquisador do Instituto para Ética Biomédica da Universidade de Basel, presidente do comitê de estudantes e pós-doutores na Sociedade Internacional de Neuroética.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.