ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 11: 7 – 15

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O Testemunho que Cristo dá de João

Aqui temos o grande elogio que o nosso Senhor Jesus faz a João Batista, não somente para reavivar a honra dele, mas para reavivar o seu trabalho. Alguns dos discípulos ele Cristo poderiam, talvez, aproveitar a pergunta que João enviou para refletir sobre ele, como sendo fraco, hesitante e incoerente consigo mesmo, e para evitar isto Cristo lhe faz este elogio. Note que é nosso dever levar em consideração a reputação dos nossos irmãos e não somente remover, mas também impedir e evitar invejas e maus pensamentos sobre eles. E devemos aproveitar todas as oportunidades, especialmente a descoberta de alguma indecisão ou hesitação, para falar bem daqueles que são dignos de louvor, e para atribuir a eles o fruto das suas mãos. João Batista, quando estava no centro do cenário, e Cristo estava recluso, deu testemunho de Cristo – e agora que Cristo aparecia publicamente e João estava encarcerado, Cristo deu testemunho de João. Observe que aqueles que têm um interesse confirmado em si mesmos devem utilizá-lo e aprimorá-lo para auxiliar o crédito e a reputação de outros, cujo caráter o exige, mas cujo temperamento ou circunstâncias atuais os impedem de fazê-lo. Isto é dar honra a quem a honra é devida. João tinha se humilhado para honrar a Cristo (João 3.20,30; cap. 3.11), tinha se reduzido a nada, para que Cristo pudesse ser Tudo, e agora Cristo o dignifica com este elogio. Note que aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado, e aquele que honra a Cristo, Ele o honrará. Qualquer que o confessar diante dos homens, Ele o confessará diante de Deus Pai; e algumas vezes também diante dos homens, mesmo neste mundo. João havia concluído o seu testemunho, e Cristo o elogia. Cristo reserva honra para os seus servos que fizerem o seu trabalho (João 12.26).

A respeito desse elogio a João, observe:

 I – Que Cristo falou de João com honra, não para que os discípulos de João O ouvissem, mas depois que eles tinham partido, imediatamente após eles terem se retirado (Lucas 7.24). Ele não daria a impressão de estar adulando João, nem os seus elogios seriam transmitidos a ele. Embora devamos estar dispostos a dar a todos o seu devido elogio, para seu incentivo, ainda assim devemos evitar tudo o que possa parecer bajulação, ou que possa correr o risco de inchá-los de orgulho. Existem aqueles que, mesmo estando mortificados para o mundo, em outros aspectos, não conseguem vencer o seu próprio louvor. O orgulho é um estado de espírito corrupto que não devemos alimentar, nem nos outros, nem em nós mesmos.

 II – Que o que Cristo disse a respeito de João tinha a intenção não apenas de elogiá-lo, mas também beneficiar o povo, reavivando a lembrança do ministério de João, que tinha sido acompanhado por muita gente, mas que agora estava (como outras coisas costumavam ser) estranhamente esquecido: eles o fizeram durante algum tempo, e por apenas algum tempo se alegraram com a sua luz (João 5.35). “Que fostes ver no deserto?”. Faça a si mesmo esta pergunta.

1.João pregava no deserto, e para lá as pessoas iam em grandes grupos, para vê-lo, embora fosse um lugar distante e inconveniente. Se os professores são levados a lugares distantes, é melhor procurá-los e segui-los do que ficar sem eles. Mas se valia a pena tanto esforço para ouvir a sua pregação, certamente ela era merecedora de algum cuidado por parte daqueles que a recebiam. Quanto maiores forem as dificuldades que passarmos para poder ouvir a Palavra, mais preocupados estaremos em nos beneficiar dela.

2.Eles iam até ele, para vê-lo; mais para alimentar os seus olhos com a aparência incomum da sua pessoa do que para alimentar a alma com as suas instruções saudáveis; mais levados pela curiosidade do que pela consciência. Observe que muitos dos que procuram a palavra vêm mais para ver e ser vistos do que para aprender e ser ensinados, mais para ter algo de que falar do que para se informar sobre a salvação. Cristo faz a pergunta a eles: “Que fostes ver?” Note que aqueles que procuram a palavra serão chamados para responder quais eram as suas intenções e em que melhoraram. Em breve, lhes será perguntado: “O que você estava fazendo na ocasião daquela orientação? O que levou você até lá? Era costume, ou foi a companhia, ou foi um desejo de honrar a Deus e ser bom? O que você trouxe de lá? Que conhecimento, graça e consolo? O que você foi ver ali?” Observe que quando lemos e ouvimos a palavra, devemos ter o cuidado de manter um objetivo correto naquilo que fazemos.

III – Vejamos qual foi o elogio feito a João. Não sabemos que resposta devemos dar à pergunta de Cristo. Ele disse: “Vou lhes dizer que homem era João Batista”.

1.Ele era um homem firme e decidido, e não uma cana agitada pelo vento; assim são vocês, nos pensamentos que têm sobre ele, mas ele não era assim. Ele não oscilava nos seus princípios, nem era irregular ou inconstante no que dizia; mas era admirável pela sua constância e coerência consigo mesmo. Aqueles que são fracos como as canas serão levados em roda por todo vento de doutrina (Efésios 4.14), mas João tinha espírito forte. Quando o vento do aplauso popular, por um lado, soprava fresco e claro, quando a tempestade do ódio de Herodes, por outro lado, crescia feroz e colérica, João ainda era o mesmo, o mesmo em todas as ocasiões. O testemunho que ele tinha dado a respeito de Cristo não era o testemunho de uma cana, de um homem que tinha um pensamento hoje e outro amanhã, não era um testemunho como um cata-vento, que gira conforme o vento. Não. A sua constância é declarada (João 1.20). Ele confessou, e não negou, mas confessou e mais tarde permaneceu fiel ao que tinha dito (João 3.28). E por isso esta pergunta trazida pelos seus discípulos não devia ser transformada em nenhuma suspeita a respeito da verdade sobre o que ele tinha dito anteriormente. Por isso as pessoas afluíam até ele, por­ que ele não era como uma cana. Observe que não se perde nada a longo prazo nessa caminhada devido a uma resolução inabalável de continuar com o nosso trabalho. Nada pode nos deter: nem a falta de sorrisos e bons tratos, nem o temor à censura dos homens.

2.Ele era um homem que se negava a si próprio, e que se humilhava neste mundo. “Que fostes ver? Um homem ricamente vestido?” Se foi este o caso, vocês não deviam ter ido ao deserto, para vê-lo, mas sim à corte. Vocês foram ver alguém que tinha suas roupas feitas de pêlo de camelo, e um cinto de couro em torno ele seus lombos; a sua aparência e os seus costumes mostravam que ele estava morto para todas as pompas do mundo e para os prazeres dos sentidos. A sua roupa combinava com o deserto em que ele vivia, e a doutrina que ele pregava ali, que era a do arrependimento. Entretanto, não devemos pensar que ele, que era um estranho aos prazeres da corte, fosse levado a mudar o seu pensamento pelos terrores de uma prisão, e a questionar se Jesus seria ou não o Messias! Aqueles que vivem uma vida humilde têm menos probabilidade ele se afastar da sua religião pela perseguição. Ele não era um homem ricamente vestido; certamente existem homens assim, mas eles estão nas casas dos reis. Note que é conveniente que as pessoas, em todas as suas manifestações, sejam coerentes com o seu caráter e com a sua situação. Aqueles que são pregadores não devem desejar ter a aparência de corte­ sãos. Nem devem aqueles, cujo destino os coloca em residências comuns, desejar as roupas ricas que usam os que vivem nas casas dos reis. A prudência nos ensina a ser coerentes. João parecia rude e desagradável, e ainda assim as pessoas corriam até ele. A lembrança do nosso antigo zelo em procurar a palavra de Deus deveria nos motivar no nosso trabalho atual. Que não se possa dizer que nós fizemos e sofremos tantas coisas em vão, que corremos em vão, e que trabalhamos em vão.

1.O maior elogio que Jesus fez a João Batista foi ao seu trabalho e ministério, que o honravam mais que quaisquer qualificações ou dons pessoais poderiam; e, portanto, isto foi ampliado num elogio completo.

(1) Ele era um profeta, sim, e “muito mais do que profeta” (v. 9) – e isto João falou daquele que era o grande Profeta, de quem todos os profetas dão testemunho. João disse sobre si mesmo, que ele não era aquele profeta, aquele grande profeta, o próprio Messias; e agora Cristo (o juiz mais competente) dizia, a respeito de João, que ele era mais do que um profeta. Ele se considerava inferior a Cristo, e Cristo o considerava superior a todos os outros profetas. O precursor ele Cristo não era um rei, mas um profeta, para que não parecesse que o reino do Messias estivesse fundamentado em poderes terrenos; mas o seu precursor imediato era, como tal, um profeta transcendente, mais do que um profeta do Antigo Testamento; todos eles agiam ele maneira honesta e íntegra, mas João os superou a todos; eles viam a época ele Cristo à distância, e a sua visão ainda demorou um grande intervalo ele tempo para se concretizar; mas João viu o dia amanhecer, viu o sol se levantar e contou ao povo sobre o Messias, como alguém que estava entre eles. Eles falavam sobre Cristo, mas João apontou para Ele. Eles diziam: “Uma virgem conceberá”; ele dizia: “Eis o Cordeiro ele Deus!”

2.Ele era aquele de quem havia sido predito que seria o precursor de Cristo (v. 10). “E este de quem está escrito”. Os outros profetas tinham profetizado sobre ele, e, portanto, ele era maior que eles. Malaquias profetizou a respeito de João: “Eis que diante da tua face envio o meu anjo”. Com isto, uma parte da honra de Cristo foi colocada sobre ele, pois os profetas do Antigo Testamento falaram e escreveram sobre ele; e todos os santos têm esta honra, pois seus nomes estão escritos no Livro da Vida do Cordeiro. Houve grande deferência a João sobre todos os profetas, pois ele foi o anunciador de Cristo. Ele foi um mensageiro enviado com uma grande tarefa. Um mensageiro, um entre milhares, que obtém a sua honra daquele para quem ele trabalhava: Ele é o meu mensageiro, enviado por Deus Pai. O trabalho de João Batista era preparar o caminho para Cristo, preparar as pessoas para receber o Salvador, revelar, a elas, o seu pecado, a sua infelicidade e a necessidade que tinham de um Salvador. Isto ele tinha dito sobre si mesmo (João 1.23), e agora Cristo falava a respeito dele. O Senhor pretendia, dessa forma, não apenas honrar o ministério de João, mas reavivar a consideração das pessoas por aquele ministério, que abria caminho par a o Messias. Observe que grande parte da beleza das revelações de Deus está na sua conexão e coerência mútuas, e na relação que têm umas com as outras. O que tornava João superior aos profetas do Antigo Testamento era o fato de que ele veio imediatamente antes de Cristo. Quanto mais próximo alguém está de Cristo, mais verdadeiramente merecedor de honra será.

1.”Entre os que de mulher têm nascido, não apareceu alguém maior do que João Batista” (v. 11). Cristo sabia como valorizar as pessoas de acordo com os graus do seu valor, e Ele dá preferência a João Batista antes de todos os que vieram antes dele, porque todos aqueles tinham nascido de mulheres por geração normal. Entre todos os que Deus tinha chamado para algum serviço na sua obra, João é o mais eminente, mais eminente que o próprio Moisés, pois ele começou a pregar a doutrina da remissão dos pecados àqueles que são verdadeiramente penitentes, e ele teve mais revelações dos céus do que qualquer um deles tinha tido; pois ele viu o céu se abrir e o Espírito Santo descer. Ele também teve grande sucesso no seu ministério; quase a nação inteira veio até ele; ninguém teve um desígnio tão grande ou realizou uma tarefa tão nobre quanto João, nem foi tão bem recebido. Inúmeros tinham nascido de mulheres, mas Cristo prefere João. Observe que a grandeza não deve ser avaliada pelas aparências e pelo esplendor exterior, mas os maiores homens são aqueles que podem ser considerados os maiores santos; e as maiores bênçãos são aqueles que são como era João- grandes diante do Senhor (Lucas 1.15).

Ainda assim, este grande elogio feito a João tem uma surpreendente limitação: “Aquele que é o menor no Reino dos céus é maior do que ele”.

[1]. No reino da glória. João foi um grande homem, e um bom homem. mas ainda estava em um estado humano, sujeito à enfermidade e à imperfeição; portanto, ele estava em uma condição inferior à dos santos glorificados, e à dos espíritos dos justos aperfeiçoados. Observe, em primeiro lugar, que existem graus de glória no céu. Alguns ali são menos que os outros; embora cada vaso esteja cheio da mesma maneira, eles não têm todos o mesmo tamanho e a mesma capacidade. Em segundo lugar, o menor santo no céu, é maior, e sabe mais, e ama mais, e faz mais em louvor a Deus, e recebe mais dele, do que o maior deste mundo. Os santos na terra são ilustres (SaImos 16.3), mas os que estão no céu são muito mais ilustres; os melhores deste mundo são menores do que os anjos (SaImos 8.5), porém os menores no céu são iguais aos anjos – o que deveria fazer com que anelássemos por este estado abençoado, onde os fracos serão como Davi (Zacarias 12.8).

[2] Aqui, o Reino dos céus deve ser compreendido como o reino da graça, a revelação do Evangelho na per feição do seu poder e da sua pureza, e aquele que é menor nele é maior do que João. Alguns interpretam que se trate do próprio Cristo, que era mais jovem que João e, na opinião de alguns, menor que João, e que sempre falou de maneira a se diminuir. “Eu sou verme, e não homem, embora maior que João”. Isto estaria de acordo com o que João Batista disse (João 1.15): “O que vem depois de mim é antes de mim”. Mas isto deve ser compreendido a respeito dos apóstolos e ministros do Novo Testamento, os profetas evangélicos; e a comparação entre eles e João não diz respeito à sua santidade pessoal, mas ao seu trabalho. João pregou a vinda de Cristo, mas eles pregavam que Cristo não apenas veio, mas foi crucificado e glorificado. João veio para o amanhecer do dia do Evangelho, e com isto superou os profetas anteriores, mas ele foi removido antes do meio-dia daquele dia, antes que o véu fosse rasgado, antes da morte e ressurreição de Cristo, e antes do derramamento do Espírito, de modo que o menor dos apóstolos e evangelistas, a quem foram feitas grandes revelações, e tendo sido empregado numa tarefa maior, é maior do que João. João não realizou milagres; os apóstolos realizaram muitos. A base dessa preferência está na proeminência da revelação do Novo Testamento em comparação à do Antigo Testamento. Os ministros do Novo Testamento, portanto, se sobressaem, porque o seu ministério também se sobressai (2 Coríntios 3.6 etc.). João era o maior da sua ordem; ele chegou aos extremos que a revelação sob a qual ele estava permitia; mas – o menor da ordem superior é superior ao primeiro da ordem inferior; um anão, sobre uma montanha, vê mais longe que um gigante no vale. Observe que toda a verdadeira grandeza dos homens se origina, e é motivada, da graciosa manifestação de Cristo a eles. Os melhores homens não são melhores do que Ele se agrada em torná-los. Que razão temos nós para dar graças ao fato de que a nossa sorte esteja lançada nos dias do Reino dos céus, e sob tais vantagens de luz e amor! E quanto maiores forem as vantagens, maior será a prestação de contas, se recebermos a graça de Deus em vão.

(4) O grande elogio a João Batista foi o de que Deus era o dono do seu ministério, e o tornou maravilhosamente bem-sucedido para quebrar o gelo e preparar o povo para o Reino dos céus. Desde os dias da primeira aparição de João Batista até aquele momento (o que não representa muito mais que dois anos), muitas coisas boas foram feitas; a ação de João, diante de Cristo, o centro de tudo, foi igualmente rápida. O Reino dos céus sofre violência, como a violência de um exército atacando repentinamente uma cidade, ou uma multidão invadindo uma casa; os violentos o tomam pela força. Podemos ver o significado disso na passagem paralela (Lucas 16.16). Desde aquela época, o Reino de Deus vem sendo pregado, e todo homem quer entrar nele. O trabalho com as multidões era feito pelo ministério de João, e muitos se tornavam seus discípulos. E são:

[1] Multidões improváveis. Elas lutavam por um lugar no céu, e poderíamos pensar que elas não teriam direito a ele, e dessa forma pareciam ser intrusos e fazer uma entrada tortuosa, como a nossa lei a chama, uma entrada ilegítima e forçada. Quando os filhos do reino são excluídos dele, e muitos vêm a ele do Leste e do Oeste, então ele é vítima de violência. Compare isso com Mateus 21.31,32. Os publicanos e as prostitutas creram em João, que era rejeitado pelos escribas e fariseus, e assim entraram no Reino de Deus antes deles, o tomaram deles enquanto eles brincavam. Observe que não é uma violação das boas maneiras ir ao céu antes daqueles que são melhores do que nós. Esta é uma grande bênção do Evangelho desde os seus primeiros dias, o fato de que ele levou à santidade muitos que eram candidatos absolutamente improváveis.

[2]. Multidões inoportunas. Esta violência sugere uma força, um vigor, um desejo ansioso, e um empenho naqueles que seguiam o ministério de João, caso contrário eles não teriam ido tão longe para procurá-lo. Além disso, mostra o fervor e o zelo que são exigidos de todos aqueles que desejam fazer do céu a sua religião. Observe que os que desejam entrar no Reino dos céus devem se esforçar para consegui-lo; este reino é vítima de uma violência sagrada; o próprio ser deve ser negado, as tendências e a inclinação, a estrutura e o estado de espírito da mente devem ser alterados; há sofrimentos que devem ser suportados, uma força a ser colocada sobre a natureza corrupta; devemos correr, lutar, combater, e sofrer agonias, e tudo isto não será suficiente para obter um prêmio como este e para vencer a oposição de fora e de dentro. Os violentos tomam-no pela força. Aqueles que têm interesse pela grande salvação são levados na direção dela com um desejo forte, e a terão mediante quaisquer condições, e não as acharão difíceis nem se deixarão levar sem uma bênção (Genesis 32.26). Aqueles que quiserem assegurar o seu chamado e eleição deverão ser diligentes. O Reino dos céus nunca teve a intenção de tolerar a tranquilidade dos levianos, mas de ser o descanso daqueles que trabalham. É uma visão abençoada. Oh! Se pudéssemos enxergar mais, não uma disputa irada lançando os outros para fora do Reino dos céus, mas uma disputa sagrada, na qual todos são lançados para dentro dele!

(5) O ministério de João foi o início do Evangelho, conforme está registrado em Marcos 1.1 e Atos 1.22. Isto é evidenciado aqui em dois aspectos:

[1] Em João, a dispensação do Antigo Testamento começou a fenecer (v. 13). Até então, aquele ministério continuava em plena força e virtude, mas a partir de então começou a declinar. Embora a obrigação à lei de Moisés não tenha sido removida até a morte de Cristo, ainda assim as revelações do Antigo Testamento começaram a ser superadas pela manifestação mais clara de que o Reino dos céus era chegado. Pelo dever de a luz do Evangelho (como a da natureza) preceder e abrir caminho para a sua lei, desta  maneira  as  profecias  do Antigo Testamento chegaram ao fim  – fim de perfeição, não de duração), antes dos preceitos  do Evangelho; assim,  quando  Cristo diz que todos os profetas e a lei profetizaram até João, Ele nos mostra, em primeiro lugar, como a luz do Antigo Testamento estava estabelecida; ela se estabelecia na lei e nos profetas, que falavam, embora de maneira obscura, sobre Cristo e seu reino. Observe que está escrito que a lei profetizava, assim como os profetas, a respeito daquele que viria. Cristo começou por Moisés (Lucas 24.27). Cristo foi predito pelos sinais mudos da obra mosaica, assim como também pelas vozes mais estruturadas dos profetas, e se exibiu, não apenas nas predições orais, mas também nos tipos pessoais e reais. Bendito seja Deus porque nós temos tanto a doutrina do Novo Testamento para explicar as profecias do Antigo Testamento como as profecias do Antigo Testamento para confirmar e exemplificar a doutrina no Novo Testamento (Hebreus 1.1); como os dois querubins, um olha para o outro. A lei foi dada por Moisés há muito tempo, e não houvera profetas por trezentos anos antes de João, e ainda assim diz-se que a lei e Moisés profetizaram até João, porque a lei ainda era observada –  Moisés e os profetas ainda eram lidos. As Escrituras continuam ensinando até à nossa época, embora os seus escritores já tenham morrido. Moisés e os profetas estão mortos; os apóstolos e os evangelistas estão mortos (Zacarias 1.5), mas a Palavra do Senhor permanece para sempre (1 Pedro 1.25). As Escrituras estão falando expressamente, embora os seus escritores estejam em silêncio, no pó. Em segundo lugar, como esta luz foi deixada de lado. Quando Jesus diz: “profetizaram até João”, Ele dá a entender que a glória da lei e dos profetas foi eclipsada pela glória que a superava; as suas predições foram superadas pelo testemunho de João: “Eis o Corde­ iro de Deus!” Mesmo antes do nascer do sol, a alvorada faz as velas brilharem menos. As profecias de um Cristo que viria ficaram ultrapassadas quando João disse, em outras palavras: “Ele chegou”.

[2]. Nele o dia do Antigo Testamento começou a amanhecer; pois (v. 14) é este o Elias que havia de vir: João foi o laço que uniu os dois Testamentos; assim como Noé foi o elo que ligou dois mundos, também João foi o elo que conectou os dois Testamentos. A profecia que concluiu o Antigo Testamento foi: “Eis que eu vos envio o profeta Elias” (Malaquias 4.5,6). Estas palavras profetizaram até João, e então começaram a se transformar em história, deixando de ser profecia. Em primeiro lugar, Cristo fala dela como uma grande verdade, que João Batista é o Elias do Novo Testamento; não Elias em sua própria pessoa, como os judeus carnais esperavam; João Batista negou isto (João 1.21); mas seria alguém que viria no espírito e virtude de Elias (Lucas 1.17), como ele em temperamento e em mensagem, que levaria os homens ao arrependimento com terror, e especialmente como na profecia, que converteria o coração dos pais aos filhos. Em segundo lugar, Ele fala dela como uma verdade, que não seria facilmente entendida por aqueles cujas expectativas se prendessem ao reino temporal do Messias, e às apresentações agradáveis ao reino. Cristo suspeitaria da receptividade do reino, se eles o recebessem. Nada, a não ser isto, era verdade, quer eles a recebessem, quer não, mas Ele os repreende pe­os seus preconceitos, pois eles estão atrasados para receber as maiores verdades que são contrárias aos seus sentimentos, embora favoráveis aos seus interesses. Ou, em outras palavras: “Se vocês o receberem, ou se receberem o ministério de João como sendo o do Elias prometido, ele será como Elias para vocês, para convertê-los e prepará-los para o Senhor”. Observe que as verdades do Evangelho estão ligadas à maneira como são recebidas, tendo um sabor de vida ou de morte. Cristo é o Salvador, e João é um Elias, para aqueles que recebem a verdade a respeito deles.

Finalmente, o nosso Senhor Jesus conclui este sermão com um solene pedido de atenção (v. 15): “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”; o que sugere que estas coisas eram obscuras e difíceis de compreender, e, portanto, precisavam de atenção, mas tinham grande importância, e, portanto, mereciam a atenção. Em outras palavras: “Que todo o povo se dê conta disso, se João é o Elias que foi profetizado, certamente há uma grande revolução a caminho, o reino do Messias é chegado, e o mundo em breve será surpreendido por uma feliz transformação. Estas são coisas que requerem séria consideração, e, portanto, todos vocês devem se preocupar em ouvir o que Eu digo”. Observe que as coisas de Deus têm uma importância grande e incomum: todo aquele que tiver ouvidos para ouvir qualquer coisa deve se preocupar em ouvir isto. Isto sugere que Deus não exige de nós nada além do uso correto e do aprimoramento das faculdades que Ele já nos deu. Ele exige que ouçam os que tiverem ouvidos, que usem a razão os que tiverem razão. Desta maneira, as pessoas são ignorantes, não porque precisam de poder, mas porque precisam de vontade; portanto, elas não ouvem, porque, como a víbora surda, têm os seus ouvidos tapados.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.