ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 10: 16-42

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Instruções aos Apóstolos – Parte 3

[6]. A providência de Deus está, de uma maneira especial, familiarizada com os santos e com os seus sofrimentos (vv. 29-31). Ê bom ter o auxílio dos nossos primeiros princípios, e, particularmente, da doutrina da providência universal de Deus, que se estende a todas as criaturas e a todos os seus atos, até mesmo o menor e mais insignificante. A luz da natureza nos ensina isto, e é consolador a todos os homens, mas em especial a todos os homens bons, que podem. pela fé, chamar este Deus de seu Pai. Ele tem uma terna preocupação por eles. Veja aqui:

Em primeiro lugar, a extensão geral da providência a todas as criaturas, até mesmo às menores e menos consideráveis, os passarinhos (v. 29). Estes pequenos animais são tão pouco considerados, que um deles nem tem valor; eles precisam formar um par para que valham pouco (você pode ter cinco deles por dois ceitis, Lucas 12.6), e nem eles deixam de estar sob os cuidados divinos. E nenhum deles cairá em terra sem a vontade de nosso Pai. Isto é:

1.Eles não descem ao chão pelo alimento, para apanhar um grão de trigo, mas o seu Pai celestial. pela sua providência, o disponibiliza para eles. Na passagem paralela (Lucas 12.6), isto está assim expresso: “E nenhum deles está esquecido diante de Deus”, ou seja, esquecido com o sentido de ter provisões. Ele os alimenta (cap. 6.26). Aquele que alimenta os pássaros não deixará que os santos passem fome.

2.Eles não caem no solo pela morte, seja ela natural ou violenta, sem que Deus o perceba. Embora sejam uma parte tão pequena da criação, até mesmo a sua morte vem com a observação da divina providência; quanto mais cuidado haverá em se tratando da morte dos seus discípulos. Observe que os pássaros que voam nas alturas, quando morrem, caem ao chão; a morte traz até mesmo os mais altos ao solo. Alguns pensam que aqui Cristo faz alusão aos dois pássaros que eram usa dos na oferta de purificação do leproso (Levíticos 14.4-6); as duas aves da passagem são pássaros; delas, uma foi morta, e dessa forma caiu ao chão, a outra foi solta. Parece uma coisa casual a decisão de qual das duas foi morta; as pessoas tomavam a que queriam, mas a providência divina designava e determinava qual delas. Este Deus, que tem este cuidado com os pássaros, porque são suas criaturas, terá um cuidado muito maior conosco, que somos seus filhos. Se um pássaro não morre sem o consentimento de nosso Pai celestial, saiba que certamente isto também não acontece com um homem, um cristão, um ministro. Um pássaro não cai na rede do caçador, nem cai por um tiro do caçador, nem é vendido no mercado, se isto não estiver de acordo com os desígnios da providência. Os nossos inimigos, como caçadores sutis, montam armadilhas e atiram secretamente contra nós, mas eles não podem nos levar, eles não podem nos atingir, a menos que Deus lhes dê permissão. Portanto, não tenha medo da morte, pois os seus inimigos não têm poder contra você, a não ser o que lhes foi dado do alto. Deus pode destruir os seus laços e suas armadilhas (Salmos 38.12-15; 64.4,7) e fazer a nossa alma escapar como um pássaro (Salmos 124,7). “Não temais, pois” (v. 31). Na doutrina da providência de Deus, há o suficiente para silenciar todos os temores de seu povo: “Mais valeis vós do que muitos passarinhos”. Todos os homens são assim, pois todas as outras criaturas foram feitas para o homem, e postas sob os seus pés (Salmos 8.6-8); muito mais os discípulos de Jesus Cristo, que são os melhores na terra, por mais que sejam desprezados, como se não valessem o equivalente a um passarinho.

Em segundo lugar, o conhecimento particular que a providência tem dos discípulos de Cristo, especialmente nos seus sofrimentos (v. 30): “E até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados”. Esta é uma expressão conhecida que denota a consideração que Deus tem e conserva de todas as preocupações do seu povo, até mesmo daqueles que são mais insignificantes e menos considerados. Isto não deve se tornar uma questão de investigação curiosa, mas de incentivo para viver continuamente confiando no cuidado providencial de Deus, que se estende a todos os acontecimentos sem desperdício da glória infinita, ou perturbação do descanso infinito, da Mente eterna. Se Deus conta os nossos cabelos, muito mais Ele conta as nossas cabeças e cuida das nossas vidas, do nosso consolo e das nossas almas. Isto dá a entender que Deus cuida mais dos seus discípulos do que eles cuidam de si mesmos. Aqueles que se preocupam em contar seu dinheiro, seus bens e seu gado, nunca têm o cuidado de contar seus cabelos, que caem e são perdidos, e eles nunca sente m falta deles; mas Deus conta os cabelos do seu povo, e não perecerá um único cabelo da nossa cabeça (Lucas 21.18), nem o menor ferimento nos será causado, exceto depois de uma cuidadosa consideração. Como são preciosos para Deus os seus santos, e suas vidas e mortes!

 

[7]. Em breve, no dia do triunfo, Ele se apoderará daqueles que agora se apoderam dele; no dia do juízo, quando aqueles que o rejeitam serão para sempre renegados e rejeitados por Ele (vv 32,33). Em primeiro lugar, observe que é nosso dever, e se o fizermos, será no futuro nossa indescritível honra e felicidade, confessar a Cristo diante dos homens.

1.É nosso dever, não apenas crer em Cristo, mas também professar esta fé, sofrendo por Ele, quando isto nos for exigido, e também servindo a Ele. Nunca devemos nos envergonhar do nosso relacionamento com Cristo, da nossa presença com Ele, e das expectativas que temos em relação a Ele: com isto, a sinceridade da nossa fé é evidenciada, o seu nome glorificado, e muitos, edificados.

2.Embora isto possa nos expor à reprovação e a problemas agora, nós seremos abundantemente recompensados por tudo isso na ressurreição dos justos, quando será nossa honra e felicidade indescritível ouvir Cristo dizer (O que mais poderíamos esperar?) algo como: “Eu o confessarei diante de meu Pai, embora seja um pobre verme da terra, sem valor; este é um dos meus, um dos meus amigos e prediletos, que me amou e foi amado por mim. Ele foi comprado pelo meu precioso sangue, é a obra do meu Espírito. Eu o confessarei diante de meu Pai, e isto lhe dará maior honra. Eu falarei coisas boas dele, quando ele comparecer diante de meu Pai para receber o seu destino. Eu o apresentarei e o representarei ao meu Pai”. Aqueles que honram a Cristo, da mesma forma Ele honrará. Eles o honram diante dos homens. Isto é pouco. Ele os honrará diante do seu Pai, o que é muito. Em segundo lugar é perigoso que qualquer pessoa negue e rejeite a Cristo diante dos homens, pois aqueles que o fizerem serão negados por Ele no grande dia, quando mais precisarem dele: Ele não considerará como servos aqueles que não o considerarem seu Messias. Ele lhes dirá abertamente: “Nunca vos conheci” (cap. 7.23). Nos primeiros tempos do cristianismo, quando, para um homem, confessar a Cristo significava arriscar tudo o que lhe era caro neste mundo, esta era uma prova de sinceridade maior do que passou a ser mais tarde, quando já havia até mesmo vantagens seculares para aqueles que o confessassem.

[8]. O fundamento do seu discipulado estava neste tipo de temperamento e disposição, que tornavam os sofrimentos leves e fáceis para eles, e foi com a condição de uma preparação para o sofrimento que Cristo os chamou para serem seus seguidores (vv. 37-39). Ele lhes disse, no início, que eles não seriam dignos dele se não estivessem dispostos a abandonar tudo por Ele. Os homens não hesitam diante das dificuldades que surgem necessariamente na sua profissão, e com as quais eles contam, quando adotam esta profissão. Quando, e eles se submeterão alegremente a estas fadigas e a estes problemas, ou renunciarão aos privilégios e às vantagens de sua profissão. Mas na profissão cristã, eles são reconhecidos como não sendo merecedores da dignidade e da felicidade dela, se não derem valor ao seu interesse em Cristo, considerando-o preferencial em relação a quaisquer outros interesses. Eles não podem esperar os ganhos de um bom negócio se não estiverem à altura dele. Assim, os termos estão definidos: se a religião tiver algum valor, deverá valer tudo; e, portanto, todos os que creem na sua verdade em breve estarão à sua altura, e aqueles que fazem dela o seu negócio e a sua inspiração farão que tudo o mais se renda a ela. Aqueles que não gostam de Cristo nestes termos podem deixá-lo, correndo riscos. Observe que é muito encorajador pensar que, seja o que for que viermos a sofrei; ou perder, ou abandonar, por Cristo, não estaremos fazendo um mau negócio. Não importa que venhamos a nos separar por esta pérola, podemos nos consolar com a certeza de que ela é digna do que damos por ela. As condições são: nós devemos preferir a Cristo.

Em primeiro lugar, devemos preferir a Cristo aos nossos relacionamentos mais próximos e queridos: pai ou mãe, filho ou filha. Nesses relacionamentos, por haver pouco lugar para a inveja, normalmente há mais lugar para o amor, e, por isto, eles servem como exemplo de relacionamentos que provavelmente nos afetam mais. Os filhos devem amar aos seus pais, e os pais devem amar aos seus filhos; mas se os amarem mais do que a Cristo, são indignos dele. Da mesma maneira como nós não devemos nos separar de Cristo pelo ódio dos relacionamentos de que Ele falou (vv. 21,35,36), também não devemos ser afastados dele pelo amor dos relacionamentos. Os cristãos devem ser como Levi, que disse a seus pais: “Nunca os vi” (Deuteronômio 33.9, versão RA).

Em segundo lugar, devemos preferir a Cristo à nossa comodidade e segurança. Devemos tomar a nossa cruz e segui-lo, do contrário não seremos dignos dele. Observe aqui:

1.Aqueles que seguem a Cristo devem esperar a sua cruz e torná-la em seus ombros.

2.Ao tomar a cruz, nós devemos seguir o exemplo de Cristo, e suportá-la, como Ele o fez.

3.É um grande incentivo para nós, quando nos deparamos com a cruz, o fato de que ao suportá-la nós estamos seguindo a Cristo, que nos mostrou o caminho; e que se nós o seguirmos fielmente, Ele nos conduzirá em meio a sofrimentos como os dele, para que cheguemos à glória com Ele.

Em terceiro lugar, devemos preferir Cristo a nós mesmos (v. 39). “Quem achar a sua vida perdê-la-á”; aquele que pensa que a encontrou quando a poupou e conservou, negando a Cristo, a perderá na morte eterna; mas quem perder a sua vida por amor a Cristo, compartilhando-a com Cristo, em lugar de negá-lo, a encontrará e desfrutará o seu benefício indescritível, que é a vida eterna. Aqueles que se prenderem menos a esta vida atual estarão mais bem preparados para a vida futura.

 [9]. O próprio Cristo abraçou a sua causa com muita dedicação, a ponto de se mostrar como amigo a todos os seus amigos, e de recompensar toda a gentileza que, em qualquer ocasião, lhes fosse concedida (vv. 40-42). “Quem vos recebe a mim me recebe”.

Em primeiro lugar, aqui está implícito que, embora, a maioria os rejeitasse. ainda assim eles se encontrariam com alguns que os receberiam, que dariam boas-vindas à mensagem em seus corações, e aos mensageiros em suas casas, por amor a ela. A oferta do Evangelho foi feita; se alguns não o aceitarem, outros certamente o aceitarão. Até mesmo na pior das épocas há alguns remanescentes, de acordo com a escolha da graça. Os ministros de Cristo não trabalharão em vão.

Em segundo lugar, Jesus Cristo assume o que é feito aos seus fiéis ministros, seja em gentilezas ou em maldades, como feito a si mesmo, e se considera tratado como eles são tratados. “Quem vos recebe a mim me recebe”. A honra ou o desprezo dedicados a um embaixador reflete a honra ou o desprezo coloca do sobre o príncipe que o enviou, e os ministros são embaixadores de Cristo. Veja como Cristo pode ainda ser recebido por aqueles que dão testemunho do respeito que têm por Ele: o seu povo e os seus ministros estão sempre conosco; e Ele está com cada um de nós, sempre, até o fim do mundo. E não apenas isso, pois a honra é ainda mais elevada: “Quem me recebe a mim, recebe aquele que me enviou”. Cristo não apenas a interpreta como sendo feita a si mesmo, mas por meio de Cristo, Deus faz a mesma coisa. Ao receberem os ministros de Cristo, eles não estão recebendo a anjos desavisados, mas a Cristo, e ao próprio Deus. Portanto, a despeito das aparências, é necessário estarmos atentos (cap. 25.37): “Senhor, quando te vimos com fome?”

Em terceiro lugar, embora a bondade feita aos discípulos de Cristo nunca seja tão pequena, mesmo que haja oportunidade para ela, e capacidade para fazer ainda mais, ela será aceita, ainda que seja apenas um copo de água fria a um de seus pequenos (v. 42). Eles são pequenos, pobres e fracos, e frequentemente precisam de alívio, e se contentam com o pouco que tiverem. A situação extrema pode ser tal que um copo de água fria pode vir a ser urna grande graça. Observe que a bondade demonstrada aos discípulos de Cristo é elogiada nos escritos de Cristo, não de acordo com o custo do que é dado, mas de acordo com o amor e o afeto de quem a dá. Neste sentido, a pequena doação da viúva não apenas se divulgou, mas apareceu mais que as outras (Lucas 21.3,4). Assim, aqueles que são verdadeiramente ricos em graça podem ser ricos em boas obras, embora pobres no mundo.

Em quarto lugar, a bondade para os discípulos de Cristo, que Ele irá aceitar, deve ser feita considerando a Cristo, e pelo seu bem. Um profeta deve ser recebido na qualidade de profeta, e um homem justo, na qualidade de justo, e um destes pequenos, em nome de um discípulo; não porque tenham estudo ou inteligência, nem porque sejam nossos parentes ou vizinhos, mas porque são justos, e desta forma trazem em si mesmos a imagem de Cristo. Eles são profetas e discípulos, e desta forma são enviados a serviço de Cristo. É uma consideração a Cristo, através da fé, que atribui um valor aceitável à bondade feita aos seus ministros. Cristo não se interessará pessoalmente pelo assunto, a menos que tratemos primeiramente dos seus interesses.

Em quinto lugar, a bondade demonstrada ao povo e aos ministros de Cristo não somente será aceita, mas ricamente e apropriadamente recompensada. Há uma grande porção para ser adquirida, pelos bons favores feitos aos discípulos de Cristo. Se isto for feito ao Senhor, Ele os compensará, em retribuição, com vantagem; pois Ele não é injusto para se esquecer de todo trabalho de amor (Hebreus 6.10).

1.Eles receberão uma recompensa, e de modo algum a perderão. Ele não disse que eles merecem uma recompensa; nós não podemos merecer qualquer coisa, com a retribuição, da mão de Deus; mas eles receberão uma recompensa do livre dom de Deus; e eles de modo algum a perderão, como sucede frequentemente com os bons serviços entre os homens; porque aqueles que deveriam recompensá-los são, ou falsos ou negligentes. A recompensa pode ser adiada até a ressurreição dos justos; mas de modo algum será perdida, nem eles serão, de qualquer modo, privados pela demora.

2.Esta é uma recompensa de profeta e de justo. Isto é, ou:

(1).  A recompensa que Deus dá aos profetas e aos justos; as bênçãos conferidas a eles destilarão sobre os seus amigos. Ou:

(2).  A recompensa que Ele dá por meio dos profetas e dos justos, em resposta às suas orações (Genesis 20.7): “Profeta é e rogará por ti”, o que é uma recompensa de profeta; e por meio de seus ministérios; quando Ele dá as instruções e os confortos da Palavra àqueles que são bondosos com os pregadores da Palavra então Ele envia uma recompensa de profeta. Recompensas de profeta são bênçãos espirituais nas coisas celestiais, e se soubermos como avaliá-las, nós as consideraremos uma desejável remuneração.

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GESTÃO E CARREIRA

DIGA NÃO AO BULLYING NO TRABALHO

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Num ambiente profissional mais descontraído, o limite entre as brincadeiras que deixam a atmosfera mais leve e as que machucam pode ficar ambíguo. Saiba o que as empresas estão fazendo para evitar os abusos e como agir se você for a vítima.

Há alguns anos, a comunicóloga paulistana Tânia Amaral, de 30 anos, viveu uma das situações mais desafiadoras de sua carreira na agência onde trabalhava. Por ser mais jovem do que seus pares, estar recebendo atribuições importantes e ter o salário equiparado ao deles, Tânia passou a ser vítima de provocações dos colegas. ”Eles tiravam sarro da minha idade, criticavam minhas roupas e faziam insinuações sobre meu relacionamento com os clientes”, afirma ela. Os colegas não a chamavam para as refeições e ela era colocada de escanteio nas conversas. “Todos iam para o trabalho de carro e eu usava transporte público. Até isso era motivo de chacota”, afirma. “Todo domingo à noite eu ficava desesperada por ter de ir trabalhar no dia seguinte”, diz. Tânia chegou a pedir ajuda à chefia e ao RH, que se limitaram a sugerir que ela não desse atenção ao problema. “Achavam que era bobagem minha”, afirma. A comunicóloga aguentou a pressão e o desgaste durante 11 meses, até que decidiu deixar o emprego. “Precisei da ajuda de amigos e da família para entender que eu não era o problema. Foi muito complicado não ter nenhum respaldo dos gestores na época, afirma.

Histórias como a de Tânia têm se tornado cada vez mais frequentes. Com as pessoas passando a maior parte do tempo no emprego ou realizando tarefas ligadas a ele, é comum a equipe acabar se tornando uma turma de amigos, os quais partilham uma intimidade praticamente sem limites. Somem-se a isso hierarquias menos verticais e o ambiente informal das empresas modernas, e os limites entre as brincadeiras e o bullying – a prática de provocar, constranger, humilhar ou agredir alguém, verbalmente ou por meio de ações intencionais – podem ficar ambíguos.

Embora possa provocar efeitos semelhantes, o bullying difere do assédio moral. “O assédio se dá, principalmente, de cima para baixo, quando o profissional em posição superior na hierarquia se aproveita da autoridade para humilhar ou intimidar o outro, afirma Renato Santos, da S2 Consultoria, de São Paulo, especializada na prevenção de casos de assédio nas empresas. Já o bullying pode acontecer entre pares e até ser dirigido de um subordinado ao gestor. Outra característica do bullying é a recorrência dos ataques – enquanto um único episódio de agressão basta para ser definido como assédio. Nenhum dos dois casos tem punição prevista na legislação trabalhista, e cabe ao departamento de RH acolher e solucionar os casos notificados, com base no código de condutada empresa.

Mas engana-se quem pensa que o bullying só ocorre em jovens companhias e startups. O levantamento mais recente do Workplace Bullying lnstitute (WBI), entidade americana dedicada a investigar, prevenir e corrigir condutas abusivas no ambiente de trabalho, realizado em 2014, revelou que 48% dos profissionais nos Estados Unidos já sofreram ou presenciaram ataques de bullying, corporativo. No Brasil, não há dados semelhantes disponíveis. No entanto, sabe-se que em tempos de crise o estresse, a pressão por resultados e a competição são um convite à prática desse tipo de agressão.

Como uso massivo das redes sociais e fofocas e piadas se espalhando rapidamente, qualquer um pode virar meme de uma hora para a outra, com danos à carreira. O mesmo levantamento do WBI revelou que, em quase um terço dos casos, o bullying termina com um pedido de demissão da vítima. “Mesmo mudando de emprego, o profissional pode ficar achando que todo ambiente de trabalho vai gerar algum tipo de abuso e se fechar, deixando de revelar seu potencial’, diz Sofia Esteves, presidente do grupo DMRH/Cia de Talentos, de São Paulo.

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PRESSÃO

Em 2012, a bancária Cristiane Mateus de Oliveira Schelb, de 38 anos, do Rio de Janeiro, sofreu uma disfunção hormonal que a fez engordar 40 quilos. Não bastasse ter de enfrentar o problema de saúde, Cristiane percebeu que o tratamento dos colegas de trabalho mudou. “Todo mundo achava engraçado fazer piada com meu peso”, afirma. Ela também passou a ser colocada de escanteio na hora de atender clientes importantes. “Eu era subgerente e fazia o trabalho de gerente, mas só nos bastidores. Na hora de ter acesso aos investidores, mandavam outro profissional e diziam que precisavam de alguém mais apresentável, diz. Durante três anos Cristiane viveu essa situação, até tomar uma atitude drástica. “Fiz uma cirurgia de redução de estômago e emagreci”, afirma a bancária. ”Enquanto não perdi peso o problema não acabou. É incrível como essas piadas podem afetar a carreira,” afirma.

Pela pressão e cobrança típicos do segmento, os bancos estão entre os setores mais suscetíveis ao bullying corporativo. Para prevenir o problema, o Itaú Unibanco realiza pesquisas quantitativas e qualitativas ao longo do ano para monitorar os indicadores de bullying e coloca o assunto na agenda da alta liderança. Além disso, o tema é abordado em campanhas de comunicação internas, workshops, seminários e no treinamento de gestão de pessoas dos novos líderes. O banco ainda disponibiliza um canal de ombudsman, em que o colaborador pode relatar os comportamentos que julgar impróprios. As situações são registradas e, após investigação, pode-se recomendar desde um aconselhamento até a demissão. “O canal é confidencial e está subordinado diretamente à presidência”, diz Marcelo Orticelli, diretor da área de pessoas do Itaú Unibanco.

A farmacêutica americana Pfizer é uma das companhias que se posicionam de forma mais incisiva contra o bullying no trabalho. Em 2012, quando revisou sua cultura corporativa em nível global, a empresa instituiu a frase ”No jerks” não tolerar comportamentos inadequados – como um de seus pilares. Em 2014, para reforçar esse valor, a área de comunicação interna instalou painéis na recepção da sede da subsidiária brasileira, em São Paulo, para que os colaboradores apontassem posturas que considerassem impróprias no âmbito do pilar “No jerks”. ”Foram relatadas desde situações mais simples até atitudes racistas e homofóbicas”, diz Sheila Ceglio, diretora de RH. Esses apontamentos levaram a discussões internas e campanhas para conscientizar as pessoas e extinguir os comportamentos incompatíveis com a cultura. Na companhia de tecnologia ClearSale, de São Paulo, a solução para combater o bullying tem sido apostar em discussões com os funcionários sobre o clima dos departamentos e as dificuldades de cada um. A companhia ainda promove às terças-feiras reuniões com atividades lúdicas, como música, literatura, filmes e esportes. ”Ao conectar pessoas de variadas áreas e estilos de vida, as diferenças são valorizadas”, diz Renata ltagyba, especialista de desenvolvimento humano na ClearSale.

Apesar desses bons exemplos, ainda são poucas as companhias com políticas claras de combate ao bullying no trabalho. Não por acaso, em apenas 10% dos casos o autor dos insultos é desligado. Por isso, é importante os profissionais também estarem prontos para se defender caso identifiquem o problema. O primeiro passo é conhecer seu valor. “Ter segurança quanto às próprias competências é essencial para não se deixar abalar por ataques e saber quando uma brincadeira ou comentário foram feitos sem maldade”, diz Renato Santos, sócio da S2 Consultoria. Entretanto, caso esteja desconfortável com a situação, o profissional deve se manifestar. “Quando a vítima expressa de forma assertiva que determinada brincadeira, tratamento ou apelido incomodam, o assediador tende a recuar”, diz Reinaldo Polito, especialista em expressão verbal, de São Paulo.

Se o problema não for resolvido, o passo seguinte é levar o caso ao gestor ou ao departamento de RH, seja você a vítima ou um colega. “A omissão é o principal alimento para as agressões”, afirma Renato, da S2. Por isso, o melhor jeito de prevenir essa prática é exercitar a empatia e ajudar a construir um ambiente de trabalho onde alfinetadas, agressividade e falta de gentileza sempre sejam notas fora do tom.

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Fonte: Revista Você S.A. – Edição 234

PSICOLOGIA ANALÍTICA

NUANCES DO SILÊNCIO

Nuances do silêncio

Adaptado do livro Um pai de cinema, do autor de O carteiro e o poeta, o filme dirigido por Selton Mello recorre a imagens delicadas para falar de melancolia.

 Quais os caminhos possíveis para comunicar algo? Em princípio, algumas estratégias como palavras, sinais e imagens seriam as respostas mais evidentes. Mas e o silêncio? A ausência de sons também pode ser forma importante de comunicação. Psicanalistas costumam dar ao silêncio atenção especial, e, muitas vezes, a percepção das sutilezas de seus matizes é fundamental no trabalho clínico. Há, por exemplo, o silêncio da angústia, dos momentos de paz e das implosões mudas de ódio. No livro O silêncio na psicanálise (Zahar, 2010), J. D. Nasio diz que “o silêncio está sempre presente em uma sessão de análise e seus efeitos são tão decisivos quanto uma palavra explicitamente anunciada”.

Numa adaptação do livro Um pai de cinema (Record, 2011), do chileno Antônio Skármeta, autor do conhecido O carteiro e o poeta (Record, 1996), O filme da minha vida, dirigido por Selton Mello, parece explorar outros meios de expressão além da linguagem verbal. Troca de olhares e respostas lacônicas estão presentes na obra marcada pela fotografia bem cuidada, com cenas bucólicas contemplativas, olhares intensos em primeiro plano e personagens caracterizados, que evocam um lirismo próximo ao sonho.

O filme da minha vida fala da experiência do jovem Tony diante da ausência inesperada do pai. Na década de 60, o personagem (interpretado por Johnny Massaro), filho de um francês e de uma brasileira, retorna a Remanso, sua cidade natal, nas Serras Gaúchas, para exercer a profissão de professor. O pai (vivido por Vincent Cassel) embarca no mesmo trem no qual o rapaz chega e abandona a cidade, sem dar explicações ou notícias. Apaixonado por livros e filmes, Tony passa os dias buscando entender o que teria causado o desaparecimento tão repentino e sem nenhuma razão clara. Ouvira dizer apenas que o pai retornara para a França e chega a escrever várias cartas, mas não obtém resposta. Apesar da dor e das intermináveis dúvidas sobre o paradeiro do grande companheiro de infância, tenta seguir seu caminho. Frequenta sessões de cinema, vive as primeiras experiências sexuais e fantasias românticas com a bela Luna (Bruna Linzmeyer), uma amiga da cidade por quem se apaixona. Os diálogos monossilábicos com a mãe, Sofia (Ondina Clais), e com o rústico vizinho Paco (Selton Mello) não são suficientes para tranquilizá-lo.

O ar introspectivo e tímido do rapaz é contornado pelo enredo entremeado por um universo dividido entre a vontade de viver e o sofrimento. A falta de informações convincentes sobre o destino do pai deixa uma espécie de sombra silenciosa, o vazio e a apreensão latente. É como se o “não dito” se tornasse maldito e a ânsia da resposta, um fantasma.

Em Luto e melancolia (2017), Freud aponta para a experiência de perda de um ente querido (ou mesmo de ideais) que acaba por gerar uma inibição dos interesses pelo mundo externo devido aos intensos sentimentos de dor. Muitas vezes, a revolta e a saudade se mesclam e acabam por causar uma turbulência psíquica que dificulta a elaboração. A culpa pode se instalar quando não há como nomear o que se sente ou buscar representações psíquicas para a angústia. É como se o objeto perdido vagasse internamente, numa experiência sem contornos. Para Freud, o estado melancólico não permanece associado apenas à perda do objeto amado, mas também traz a perda de uma parte de si mesmo, do ego. No caso de Tony, não houve sequer a oportunidade da despedida.

A ausência de palavras – que iluminariam a experiência – traz um hiato em sua história e impede a construção de sentidos que talvez permitissem que seguisse em frente. E essa falta parece lhe tirar a coragem.

No entanto, a vila prepara surpresas. O trem que leva Tony à cidade vizinha para desfrutar das atrações do cinema carrega também os filmes a serem projetados numa metáfora poética que sugere sua tentativa de encontrar uma saída para seus impasses pessoais. Em dado momento, o reencontro com o pai termina por trazer à tona a verdade sobre o afastamento. Nesse momento, uma nova trama começa a se delinear e o filme ganha novo ritmo. Nas conversas entre os dois, é possível desfazer as mentiras, retomar a proximidade e nutrir a troca de afetos, na qual palavras ganham coerência. O que estava petrificado no silêncio ganha movimento, fecha a ferida e abre espaço para novos desejos.

Da melancolia, fruto de uma vivência na qual as emoções e a esperança não encontravam eco, surgem para o personagem o alívio e a libertação que permitiram dar sequência à própria vida, resgatando seu lugar como filho e abrindo oportunidade para construir seu lugar no mundo – como se assumisse a direção de seu próprio filme.

 

ERANE PALADINO – é psicóloga e psicanalista, mestre em psicologia social, professora do Instituto Sedes Sapientiae.