PSICOLOGIA ANALÍTICA

ATENÇÃO PLENA PARA INICIANTES

Atenção plena para inciantes

A prática de mindfullness pode ser entendida como o no ato de manter a consciência deliberadamente voltada ao momento presente, sem fazer julgamentos; um ato simples, capaz de proporcionar inúmeros benefícios.

A atenção plena (mindfullness) e sua utilização na área da saúde e do combate a doenças têm sido tema cada vez mais frequente de estudos e descobertas nas últimas quatro décadas, desde a fundação da Clínica de Redução do Estresse e do Programa de Redução do Estresse Baseado na Atenção Plena (MBSR) em 1979, no Centro Médico da Universidade de Massachusetts. O treinamento em MBSR e intervenções relacionadas a essa terapia têm se revelado altamente eficazes em reduzir o estresse e problemas médicos ligados a esse quadro, como ansiedade, pânico e depressão. A atenção plena também se mostrou útil para ajudar os portadores de dor crônica a viver melhor, a melhorar a qualidade de vida de pessoas com câncer e esclerose múltipla e a reduzir as recaídas em pacientes com um histórico de depressão grave.

Essas são apenas algumas das muitas descobertas clínicas relatadas na literatura científica. O Programa de Redução do Estresse Baseado na Atenção Plena também se provou capaz de afetar de maneira positiva a forma como o cérebro processa emoções difíceis sob estresse, passando a ativar não as áreas do lado direito do córtex pré-frontal, mas as do esquerdo – na direção de um maior equilíbrio emocional. A MBSR também induz mudanças positivas no sistema imunológico – relacionadas com as mudanças que causa no cérebro.

Outros estudos revelaram que pessoas treinadas em MBSR apresentam boa ativação de redes no córtex cerebral que estão envolvidas na experiência direta do momento presente. Pessoas que não praticam a atenção plena mostram menor ativação nesses circuitos, enquanto as redes envolvidas na geração de narrativas sobre as experiências parecem mais ativas. Essas descobertas sugerem que a prática da atenção plena desenvolve novas formas de experimentarmos a nós mesmos e influencia a maneira como criamos histórias sobre as nossas vivências.

Agora está se tornando evidente que o treinamento em MBSR também resulta em mudanças estruturais no cérebro: o espessamento de certas regiões, como o hipocampo, que desempenha papéis importantes no aprendizado e na memória, e a redução de outras regiões, como a amígdala direita, uma estrutura do sistema límbico que regula nossas reações de medo frente a ameaças de qualquer tipo, o que inclui a frustração dos nossos desejos. Existem muitas outras descobertas surpreendentes na pesquisa da atenção plena, e a cada dia novos estudos são divulgados na literatura científica.

 REDUÇÃO DO ESTRESSE

Desde 1979, eu e meus colegas da Clínica de Redução do Estresse do Centro Médico da Universidade de Massachusetts oferecemos, em paralelo a tratamentos convencionais, um treinamento em atenção plena na forma do Programa de Redução do Estresse Baseado na Atenção Plena (MBSR) para pessoas que sofrem de estresse, dor crônica com a assistência e os cuidados médicos que vêm recebendo. Às vezes elas se sentem ignoradas pela medicina convencional. Hoje, mais de 30 anos depois, a situação do sistema de saúde piorou ainda mais no mundo inteiro.

Existe pouca discussão sobre em que consiste o cuidado à saúde, como mantê-la e recuperá-la, ou o que exatamente significa ser saudável. Nessas circunstâncias, é sensato assumir a responsabilidade pela nossa saúde e pelo nosso bem-estar. Na verdade, esse envolvimento pessoal é um elemento essencial da nova visão da medicina e da assistência médica, um modelo bem mais participativo em que o paciente desempenha um papel colaborativo importante, mobilizando os próprios recursos para alcançar a cura na medida do possível.

A ideia por trás da MBSR é convidar as pessoas a verem se há algo que podem fazer por si mesmas – como um complemento essencial à contribuição de médicos, cirurgiões e do sistema de saúde como um todo – para alcançarem um nível maior de saúde e bem-estar ao longo da vida, tomando como ponto de partida a situação em que se encontram hoje. Falo em “saúde e bem-estar” em seu significado mais profundo e amplo. Em última aná- lise, trata-se não apenas da saúde do corpo, mas também do bem-estar e do funcionamento mental, emocional e físico ideais que você pode desenvolver através da exploração sistemática e disciplinada da verdadeira extensão de sua humanidade. Para isso é necessário conhecer sua mente e seu corpo de forma mais íntima, pois esses dois aspectos não estão fundamentalmente separados. É necessário um cultivo diligente de suas capacidades biológicas e psicológicas intrínsecas de bem-estar e sabedoria, inclusive da compaixão e da bondade que residem dentro de todos nós.

FENÔMENO MUNDIAL

O Programa de Redução do Estresse Baseado na Atenção Plena já se disseminou por clínicas, centros médicos e hospitais nos Estados Unidos e ao redor do mundo. As meditações guiadas em áudio se assemelham, em alguns aspectos, àquelas que meus colegas e eu usamos com os pacientes do programa MBSR na Clínica de Redução do Estresse.

Mas isso não significa que essa abordagem só sirva para pessoas sofrendo de doenças, dor crônica ou estresse. Por ser universal, essa prática é aplicável a qualquer um que esteja motivado a otimizar sua qualidade de vida. É importante lembrar que o objeto da meditação consiste totalmente na consciência: seu caráter, sua estabilidade, sua confiabilidade e sua capacidade de nos libertar de nossos hábitos de auto depreciação e nosso costume de ignorar o que é mais importante na vida. A atenção plena desenvolve a atenção pura, o discernimento, a visão clara e, portanto, a sabedoria – ou seja, a habilidade de conhecer a realidade objetiva das coisas para além das nossas percepções equivocadas. E todos nós temos que lidar com muitas percepções equivocadas acerca da realidade, pois é muito fácil nos deixarmos capturar em nossos próprios sistemas de crenças, ideias, opiniões e preconceitos.

Nossas suposições formam um tipo de véu, um nevoeiro, que muitas vezes nos impede de ver o que está bem diante dos nossos olhos e de agir de acordo com o que consideramos mais importante e mais valorizamos. Pode haver momentos em que nossos familiares tentem nos mostrar – por amor ou por desespero – quanto sofrimento desnecessário estamos gerando ao nos recusarmos a enxergar as coisas como realmente são, ou que estamos levando tudo para o lado pessoal de tal forma que acabamos distorcendo as coisas. Mas, mesmo em circunstâncias como essas, é extremamente difícil nos convencer. Em geral não ouvimos ou não acreditamos, de tão enredados que estamos em nossa ilusão e em nosso hábito de nos distrairmos de nós mesmos.

A RESPIRAÇÃO

Mesmo que você não perceba, o ar entra e sai do seu corpo o tempo todo. Sorvemos o ar a cada inspiração, devolvendo-o ao mundo a cada expiração. Nossa vida depende disso. Suzuki Roshi referiu-se a esse movimento repetitivo como uma “porta vaivém”.  E, como não podemos sair de casa sem essa atividade vital   e misteriosa, nossa respiração pode servir como um primeiro objeto ao qual voltar a atenção para nos trazer de volta ao momento presente, porque sempre estamos respirando no agora – a última expiração acabou e a próxima inspiração ainda não chegou. Assim, para nossa atenção errante, a respiração é uma âncora ideal, capaz de nos manter no momento presente.

Esse é um dos motivos por que as sensações que a respiração produz no corpo costumam ser o primeiro objeto de atenção para iniciantes em muitas tradições meditativas. Mas prestar atenção nos efeitos da respiração sobre o corpo não é apenas para principiantes. Pode ser algo simples, mas o próprio Buda ensinou que a respiração contém em si tudo que você precisa para cultivar a plenitude de sua humanidade, especialmente sua sabedoria e sua compaixão.

A razão, como veremos em breve, é que prestar atenção na respiração não tem a ver exatamente com a respiração. Nenhum objeto a que voltamos a atenção é importante por si mesmo. Os objetos da atenção nos ajudam a estar presentes de forma mais estável. Assim podemos começar a perceber que o que importa de verdade é o próprio ato de estar presente. É a relação entre aquele que percebe (você) e o que é percebido (qualquer objeto de atenção). Esses dois elementos se juntam num todo contínuo e dinâmico na consciência, porque, fundamentalmente, nunca estiveram separados. É a consciência que importa.

 O TRABALHO MAIS DIFÍCIL DO MUNDO

Ironicamente, o maior desafio que cada um de nós enfrenta como ser humano é realizar a plenitude de quem já somos. Ninguém além de nós pode assumir esse trabalho, que deve ser empreendido por decisão própria, em resposta a nossa vocação – e apenas se considerarmos importante viver uma vida autêntica.

O trabalho de cultivar a atenção plena também pode ser entendido como um jogo. Trata-se de algo sério demais para ser levado muito a sério – e digo isso com toda a seriedade! –, pois envolve a nossa vida inteira. Faz sentido que a leveza e a diversão sejam elementos-chave na prática da atenção plena, pois são essenciais para o bem-estar.

Em última análise, a atenção plena pode se tornar natural, algo perfeitamente integrado a nossa vida, uma forma de expressão autêntica e plena do nosso próprio ser. No entanto, a trajetória de cada pessoa no cultivo dessa prática e os benefícios que pode alcançar são sempre únicos. O desafio é descobrir quem somos e viver da nossa própria maneira, de acordo com a vocação de cada um. Para isso é necessário prestar muita atenção em todos os aspectos da vida, à medida

que se desenrolam no momento presente. Obviamente, ninguém pode fazer esse trabalho por você, assim como ninguém pode viver a sua vida em seu lugar.

O que eu disse até aqui pode não fazer muito sentido para você. Na verdade, isso tudo só vai fazer sentido quando você se comprometer com o cultivo formal e informal da atenção plena ao longo do tempo. Assim, você poderá olhar e ver por si mesmo como as coisas são de verdade, por trás do véu das aparências e das histórias que somos tão hábeis em contar a nós mesmos.

 CUIDANDO DO MOMENTO PRESENTE

Na prática da atenção plena, todo o nosso passado – qualquer que tenha sido e por mais dor e sofrimento que tenha envolvido – torna-se o ponto de partida para a tarefa de habitar o momento presente com consciência, equanimidade, clareza e cuidado. Você precisa do seu passado; ele é a argila na roda do oleiro. Não se deixar aprisionar no passado ou em nossos conceitos e ideias, reconquistando o único momento de que realmente dispomos – o agora – é trabalho de uma vida inteira. Cuidar do momento presente pode ter um efeito notável sobre o próximo instante e, portanto, sobre o futuro – seu e do mundo. Se você puder estar plenamente atento a este momento, é possível que o seguinte seja imensa e criativamente diferente – porque você estará consciente, sem tentar impor suas expectativas de antemão.

 

JON KABAT-ZINN – é doutor em biologia molecular, é professor emérito de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Massachusetts. Fundador do Centro para Atenção Plena em Medicina, Assistência Médica e Sociedade e de sua mundialmente famosa clínica que utiliza o Programa de Redução do Estresse Baseado na Atenção Plena (MBSR). É autor de vários livros que foram traduzidos para mais de 30 idiomas. Este texto foi adaptado de seu último livro, recém-lançado no Brasil, Atenção plena para iniciantes (Sextante, 2017), com autorização da editora.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.