ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 10: 16-43

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Instruções aos Apóstolos – Parte 2

II – Com estas predições de problemas, nós temos aqui as descrições de conselhos e consolos para épocas de dificuldades. Ele os envia realmente expostos ao perigo, e esperando-o, mas bem armados com instruções e incentivos, suficientes para sustentá-los e confirmá-los em todas estas provações. Vamos examinar o que Ele diz:

1.Com o objetivo de aconselhar e orientar em diversos assuntos:

(1). “Sede prudentes como as serpentes” (v. 16). Em outras palavras: “Vocês podem ser prudentes como as serpentes” (alguns interpretam como somente uma permissão), “desde que sejam tão símplices como as pombas”. Mas, na verdade, isto deve ser interpretado como um preceito, que nos aconselha na sabedoria dos prudentes, que é a maneira de compreender os seus métodos, e que é útil em todas as ocasiões – mas especialmente nas ocasiões de sofrimento. Portanto, por estarem expostos como ovelhas em meio aos lobos, sejam tão prudentes como as serpentes; não sejam sábios como as raposas, cuja esperteza consiste em enganar os outros; mas prudentes como as serpentes, cuja tática é unicamente defender-se, e mover-se para a sua própria segurança. Os discípulos de Cristo são odiados e perseguidos como as serpentes, e as pessoas procuram destruí-los, e por isto eles precisam da prudência das serpentes. Observe que é o desejo de Cristo que o seu povo e os seus ministros, estando tão expostos aos perigos deste mundo, como normalmente estão, não devam expor-se desnecessariamente, mas usar todos os meios justos e lícitos para a sua própria preservação. Cristo nos deu um exemplo dessa prudência (cap. 21.24,25; 22.17,18,19; João 7.6,7); apesar das várias vezes em que Ele conseguiu es­ capar das mãos dos seus inimigos, a sua hora era chega­ da. Veja um exemplo da prudência de Paulo (Atos 23.6,7). Na causa de Cristo, devemos ser indiferentes à vida e a todos os seus confortos, mas não devemos desprezá-los. A prudência da serpente consiste em preservar a sua cabeça, que não deve ser arrancada, em tapar seus ouvidos à voz do encantador (SaImos 58.4,5), e abrigar-se nas fendas das rochas – assim devemos ser tão prudentes como as serpentes. Devemos ser prudentes para não atrair problemas para as nossas próprias cabeças; prudentes para manter silêncio em tempos difíceis, e para não pecar. Devemos nos esforçar para agir desse modo.

(2). “Sede símplices como as pombas”. Em outras palavras: “Sejam suaves, mansos e serenos; não somente não façam mal a ninguém, mas não tenham uma má intenção para com ninguém; sejam como as pombas, que não têm amargura; isto sempre deve acompanhar a frase anterior”. Eles são enviados em meio aos lobos, portanto devem ser tão prudentes quanto as serpentes. Mas são enviados como ovelhas, e por isto devem ser tão inofensivos quanto as pombas. Nós devemos ser prudentes, não para ofender a nós mesmos, mas para não ofender a ninguém mais. Devemos usar a pureza das pombas para suportar vinte ofensas, em lugar da astúcia da serpente para retribuir; mesmo que se trate apenas de uma ofensa. Observe que este deve ser o cuidado constante de todos os discípulos de Cristo – ser inocentes e inofensivos nas palavras e nas obras, especialmente levando em consideração os inimigos em cujo meio se encontram. Nós precisamos de um espírito como de uma pomba, quando importunados pelas aves de rapina, para que não as provoquemos, nem sejamos provocados por elas. Davi desejava as asas de uma pomba, com as quais pudesse voar e descansar, e não as asas de um falcão. O Espírito desceu sobre Cristo como uma pomba, e todos os crentes participam do Espírito de Cristo, um espírito como o de uma pomba, feito para o amor, e não para a guerra.

(3). “Acautelai-vos dos homens” (v. 17). Em outras palavras: “Estejam sempre vigilantes e evitem as companhias perigosas; prestem atenção ao que vocês dizem e fazem, e não considerem como provável a fidelidade de homem algum. Zelem pelas pretensões mais plausíveis; não confiem no amigo, nem naquela ‘que repousa no seu seio”‘ (Miqueias 7.5). Convém aos que têm a graça que sejam cuidadosos, pois somos ensinados a nos separar dos homens maus. O mundo no qual vivemos é tão pecador que não sabemos em que confiar. Uma vez que o nosso Messias foi traído com um beijo, por um dos seus próprios discípulos, nós precisamos nos acautelar dos homens, dos falsos irmãos.

(4). “Não vos dê cuidado como ou o que haveis de falar” (v. 19). Em outras palavras: “Quando vocês forem levados diante de magistrados, comportem-se de maneira decorosa, mas não se aflijam, preocupando-se sobre como a situação terminará. Deve haver um pensamento prudente, mas não ansioso, perplexo ou inquietante. Deixe que esta preocupação recaia sobre Deus, assim como a preocupação concernente ao que você come ou bebe. Não pretenda fazer belos discursos, para adular a si mesmo; não procure expressões raras, acessos de inteligência e frases de efeito, que só servem para dar um falso brilho a uma causa ruim; o brilho dourado de uma boa causa não precisa destas coisas. Preocupar-se com estas coisas dá a ideia de falta de confiança, como se a sua causa não pudesse falar por si mesma. Você sabe em que fundamentos está enraizado. “Nunca alguém falou melhor diante de governadores e reis do que aqueles três heróis, que não pensaram antes sobre o que iriam falar, e disseram ao rei Nabucodonosor: “Não necessitamos de te responder sobre este negócio” (Daniel 3.16; veja Salmos 119.46). Observe que os discípulos de Cristo devem se preocupar mais com agir bem do que com falar bem; mais com manter a sua integridade do que com o modo de defendê-la. As nossas vidas, e não palavras arrogantes, formam a melhor justificativa.

(5) “Quando, pois, vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra” (v. 23). Em outras palavras: “Rejeitem, desta maneira, aqueles que rejeitarem a vocês e sua doutrina, e tentarem fazer com que os outros também não lhes recebam, nem à sua doutrina; desta forma, vão para outra cidade, para sua própria segurança”. Observe que em caso de perigo iminente, os discípulos de Cristo podem e devem se proteger com a fuga, quando Deus, na sua providência, lhes abre uma porta de escape. Aquele que foge pode lutar outra vez. Não é desonra para os soldados de Cristo abandonar o terreno, desde que não abandonem a sua identidade: eles podem sair do caminho do perigo, embora não devam sair do caminho do dever. Observe o cuidado que Cristo tem com os seus discípulos, providenciando lugares de fuga e abrigo para eles; organizando as situações para que as perseguições não ocorram em todos os lugares, nem ao mesmo tempo; mas quando uma cidade ficar agitada demais para eles, outra estará reservada para um ambiente mais tranquilo, como um pequeno santuário; uma graça a ser usada, e não desprezada. Mas sempre com a condição de que nenhum meio pecaminoso ou ilícito seja usado para realizar a fuga; pois neste caso, não será uma porta providenciada por Deus. Nós temos muitos exemplos desta regra na história, tanto de Cristo como de seus apóstolos, na aplicação de todos os casos particulares nos quais a prudência e a integridade orientam beneficamente.

(6) “Não os temais” (v. 26), porque eles podem matar somente o corpo (v. 28). Observe que é dever e interesse dos discípulos de Cristo não temer o maior dos seus adversários. Aqueles que temem verdadeiramente a Deus não precisam temer o homem; e aqueles que temem o menor dos pecados não precisam temer a maior dificuldade. O medo do homem traz uma armadilha, uma armadilha desconcertante que perturba a nossa paz; uma armadilha que nos confunde, e pela qual podemos ser levados ao pecado; portanto, devemos vigiar cuidadosamente, e combater e orar contra este temor. Ainda que os tempos sejam muito difíceis, os inimigos sejam muito cruéis, e as situações sejam muito ameaçadoras, ainda assim nós não precisamos ter medo, nós não temeremos, ainda que a terra se transtorne, enquanto tivermos um Deus tão bom, uma causa tão boa e uma esperança tão boa por intermédio da graça.

Sim, isto é fácil dizer; mas quando chegam as provações, tormentos e torturas, calabouços e prisões, machados e cadafalsos, fogo e lenha, são coisas terríveis, suficientes para fazer tremer o coração mais valente, e dar início a um retrocesso, especialmente quando fica claro que estas coisas poderiam ser evitadas apenas com alguns passos para trás. E, portanto, para nos fortalecer contra esta tentação, aqui temos:

[1]. Uma boa razão contra este medo, obtida do poder limitado dos inimigos; eles matam o corpo, que é o máximo a que o seu ódio pode chegar. Até aqui eles podem chegar, se Deus lhes permitir, mas não podem ir além disso. Eles não podem matar a alma, nem fazer-lhe nenhum mal, e a alma é o homem. Com isso, parece que a alma não adormece na morte (como nos sonhos), nem é privada de pensamento e percepção; pois então a morte do corpo seria a morte da alma também. A alma morre quando é separada de Deus e do seu amor, que é a sua vida, e se torna um vaso da sua ira; isso está fora do alcance do poder dos inimigos. O sofrimento, a agonia e a perseguição podem nos separar de todo o mundo, mas não podem separar-nos de Deus, não podem fazer com que não o amemos, nem fazer com que não sejamos amados por Ele (Romanos 8.35,37). Se, portanto, estivermos mais preocupados com as nossas almas, como nossas joias, estaremos menos preocupados com os homens, cujo poder não pode nos roubar as nossas almas. Eles só podem matar o corpo, que morreria rapidamente, e não a alma, que irá se alegrar com o seu Deus, apesar deles. Eles só podem esmagar o estojo. A pérola de valor fica intocada.

[2] Uma boa solução contra isto é temer a Deus. Tema àquele que é capaz de destruir tanto a alma como o corpo no inferno. Observe que, em primeiro lugar, o inferno é a destruição, tanto do corpo como da alma; não da existência de qualquer deles, mas do bem-estar de ambos. É a destruição do homem por completo; se a alma está perdida, também está perdido o corpo. Eles pecaram juntos; o corpo foi quem levou a alma a pecar, sendo a sua ferramenta no pecado, e por isto devem sofrer juntos, eternamente. Em segundo lugar, esta destruição se origina no poder de Deus. Ele é capaz de destruir; é uma destruição realizada pelo seu poder glorioso (2 Tessalonicenses 1.9). Nela, Ele fará conhecido o seu poder, não somente a sua autoridade para sentenciai; mas também a sua capacidade de executar a sentença (Romanos 9.22). Em terceiro lugar, Deus deve, dessa maneira, ser temido, mesmo pelos melhores santos deste mundo. Conhecendo os terrores do Senhor, devemos persuadir os homens a temê-lo. Se a ira e o temor dele estão mutuamente de acordo, então o temor a Ele deve estar de acordo com a sua ira, especialmente porque ninguém conhece o poder da sua ira (SaImos 90.11). Se Adão, em inocência, era intimidado por uma ameaça, que nenhum dos discípulos de Cristo pense que não precisa das restrições de um temor sagrado. Feliz é o homem que sempre teme. O Deus de Abraão, que então estava morto, é chamado de “o Temor de lsaque”, que estava vivo (Genesis 31.42,53). Em quarto lugar, o temor a Deus, e do seu poder sobre a alma, será um antídoto soberano contra o temor ao homem. É melhor ser reprovado por todo o mundo, do que ser reprovado por Deus; portanto, é mais justo, e também mais seguro, obedecermos a Deus, e não aos homens (Atos 4.19). Aqueles que temem o homem, que é mortal, se esquecem do Senhor, o seu Criador (Isaias 51.12,13; Neemias 4.14).

(7) “O que vos digo em trevas, dizei-o em luz” (v. 27); em outras palavras: “Quaisquer que sejam os riscos que você corre, continue com o seu trabalho, publicando e proclamando o Evangelho eterno a todo o mundo; este é o seu trabalho, tenha isto em mente. O desígnio do inimigo não é meramente destruir você, mas impedir que o Evangelho seja proclamado e, portanto, qualquer que seja a consequência, torne o Evangelho público”. “O que vos digo, dizei-o”. O que os apóstolos nos transmitiram é a mesma coisa que eles receberam de Jesus Cristo (Hebreus 2.3). Eles falaram aquilo que Ele lhes disse, tudo aquilo, e nada além daquilo. Estes embaixadores recebiam suas instruções de forma privada, na escuridão, ao ouvido, em esquinas, por parábolas. Cristo falou muitas coisas abertamente, e nada que foi dito em oculto era diferente daquilo que Ele pregou em público (João 18.20). Porém as instruções particulares que Ele deu aos seus discípulos depois da sua ressurreição, a respeito das coisas do Reino de Deus, foram ditas ao ouvido (Atos 1.3), pois então Ele não mais se mostrou publicamente. Mas os discípulos precisam transmitir a sua mensagem publicamente, sob a luz e sobre os telhados; pois a doutrina do Evangelho diz respeito a todos (Provérbios 1.20,21; 8.2,3). Portanto, “quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”. A primeira indicação da aceitação dos gentios na igreja se deu sobre um telhado (Atos 10.9). Não há nenhuma parte do Evangelho de Cristo que precise, de alguma maneira, ser oculta; todo o conselho de Deus deve ser revelado (Atos 20.27). Que ele seja sempre clara e plenamente revelado a uma multidão tão variada!

2.Com o objetivo de consolo e incentivo. Aqui muita coisa é dita com este objetivo, e é suficiente, considerando as muitas dificuldades que eles iriam enfrentar durante o curso do seu ministério e a sua fraqueza atual, que era tal que, sem algum apoio poderoso, eles mal poderiam suportar até mesmo a perspectiva delas; portanto, Cristo lhes mostra por que eles deveriam ter ânimo.

(2). Aqui está uma mensagem peculiar à sua missão atual (v. 23). “Não acabareis de percorrer as cidades de Israel sem que venha o Filho do Homem”. Eles deviam pregar que o reino do Filho do Homem, o Messias, era chegado; eles deviam orar: “Venha o teu reino”; mas eles não teriam percorrido todas as cidades de Israel, orando e pregando dessa maneira, quando esse Reino viesse, na exaltação de Cristo e no derramamento do Espírito. Era um consolo:

[1].  Que aquilo que eles dissessem se realizaria. Eles disseram que o Filho do Homem estava vindo, e eis que Ele vem. Cristo irá confirmar a palavra dos seus mensageiros (Isaias 44.26).

[2].  Que isto se cumprisse rapidamente. Observe que é uma questão de consolo para os obreiros de Cristo que o seu tempo de trabalho seja curto, e termine logo. O trabalhador tem o seu dia; o trabalho e o combate, em pouco tempo, terminarão.

[3].  Que então eles progredissem para uma posição mais elevada. Quando o Filho do Homem vier, eles receberão um poder maior das alturas; então eles eram enviados como agentes e mensageiros, mas dentro de pouco tempo a sua tarefa se ampliaria, e eles seriam enviados como plenipotenciários a todo o mundo.

(2). Aqui há várias mensagens que se relacionam com o seu trabalho em geral, e os problemas que eles iriam enfrentar para realizá-lo, e são mensagens boas e consoladoras.

[1].  Os seus sofrimentos se destinavam a um testemunho para reis e governadores, e para os gentios (v. 18).

Quando o conselho judeu transferir vocês para os governadores romanos, para que eles vos condenem à morte, e vocês forem levados de um tribunal a outro, isto irá ajudar a tornar mais público o vosso testemunho e vos dará a oportunidade de levar o Evangelho aos gentios, assim como aos judeus. Não, vocês darão testemunho a eles, e contra eles, pelos mesmos problemas que vocês vierem a enfrentar. Observe que o povo de Deus, e em especial os ministros de Deus, são suas testemunhas (Isaias 43.10), não somente nas suas realizações como também nos seus sofrimentos. Por isso são chamados de mártires de Cristo, para que as suas verdades transmitam certeza e valor indubitável; e, sendo suas testemunhas, são testemunhas contra aqueles que se opõem a Ele e ao seu Evangelho. Os sofrimentos dos mártires dão testemunho da verdade do Evangelho que eles professam, como também da inimizade dos seus perseguidores, e assim são um testemunho contra eles, e serão transformados em evidência no grande dia em que os santos julgarão o mundo. E a razão da condenação será: “Quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. Se os sofrimentos seriam um testemunho, com que alegria deveriam ser suportados! pois o testemunho que eles dão deverá ser completo (Apocalipse 11.7). Como testemunhas de Cristo, eles precisam suportar os seus sofrimentos.

[2].  Em todas as ocasiões, eles teriam a presença especial de Deus com eles, e a ajuda imediata do seu Espírito Santo, particularmente quando fossem chamados para dar testemunho diante de governadores e reis. “Naquela mesma hora, vos será ministrado o que haveis de dizer”. Os discípulos de Cristo foram escolhidos entre os tolos do mundo, homens sem estudos e ignorantes, e, portanto, podiam com razão não confiar em suas próprias habilidades, especialmente quando trazidos diante de homens poderosos. Quando Moisés foi enviado a Faraó, ele protestou: “Eu não sou homem eloquente” (Êxodo 4.10). Quando Jeremias foi colocado sobre as nações, ele objetou: “Sou uma criança” (Jeremias 1.6,10). Em resposta a esta sugestão, em primeiro lugar; aqui eles recebem a promessa de que lhes seria ministrado na mesma hora, e não algum tempo antes, o que deveriam dizer. Eles falarão de improviso, e também falarão de maneira adequada, como se o assunto nunca tivesse sido tão bem estudado. Observe que quando Deus nos chama para falar por Ele, nós podemos confiar nele para nos ensinar o que dizer; mesmo se estivermos sob as maiores desvantagens e desencorajamentos. Em segundo lugar, aqui eles têm a garantia de que o bendito Espírito Santo dirigirá o apelo por eles. “Porque não sois vós quem falará, mas o Espírito de vosso Pai é que fala em vós” (v. 20). Eles não seriam abandonados nesta ocasião, mas Deus se responsabilizaria por eles; o seu Espírito de sabedoria falaria neles, como algumas vezes a sua providência falou maravilhosamente por eles, e das duas maneiras eles foram manifestados nas consciências até mesmo dos seus perseguidores. Deus lhes daria a capacidade, não apenas de falar de acordo com o objetivo, mas ele que, o que dissessem, o dissessem com zelo sagrado. O mesmo Espírito que os auxiliava no púlpito, os ajudaria nos tribunais. Só pode se sair bem quem tem um advogado assim; aqueles a quem Deus disse, como disse a Moisés (Êxodo 4.12): “Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca”.

[3]. ”Aquele que perseverar até ao fim será salvo” (v. 22). Aqui é muito bom considerar, em primeiro lugar, que estes sofrimentos terão um fim; eles podem durar muito tempo, mas não durarão para sempre. Cristo se consolou com isto, e também os seus seguidores podem fazê-lo, porque “vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito” (Lucas 22.37). Observe que uma perspectiva que tenhamos da duração dos nossos problemas será muito útil para nos sustentar quando eles nos afligirem. “Os maus cessam de perturbar; e, ali, repousam os cansados” (Jó 3.17). Deus dará o fim que esperamos (Jeremias 29.11). Os problemas podem parecer cansativos, como os dias da prestação dos serviços, mas, bendito seja Deus, eles não duram para sempre. Em segundo lugar, ainda que eles persistam, podem ser suportados; da mesma maneira como não são eternos, também não são insuportáveis; eles podem ser suportados, e suportados até o fim, porque os sofredores serão mantidos, durante os problemas, por braços eternos: “Com a tentação [Deus] dará também o escape” (1 Coríntios 10.13). Em terceiro lugar, a salvação será a compensação eterna daqueles que a suportarem até o fim. A época será tempestuosa, e o caminho será difícil, mas o prazer do lar compensará a todos. Uma consideração de fé para a coroa da glória tem sido, em todos os tempos, o alívio e o sustento para os santos que sofrem (2 Coríntios 4.16,17,18; Hebreus 10.34). Isto não é apenas um incentivo para que suportemos, mas um compromisso para suportar até o fim. Aqueles que suportam apenas durante algum tempo, e na hora da tentação esmorecem, têm corrido em vão, e perderam tudo o que tinham conseguido; mas aqueles que perseveram, e somente eles, podem ter certeza do prêmio: “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da viela”.

[4]. Qualquer dificuldade que os discípulos de Cristo encontrem, não será maior do que o seu Messias enfrentou antes (vv. 24,25). “Não é o discípulo mais do que o mestre”. Nós descobrimos que isto lhes é dado como um motivo pelo qual eles não devem hesitar em realizar as tarefas mais humildes, como lavar os pés uns dos outros (João 13.14,16). Isto lhes é dado como um motivo pelo qual eles não devem esmorecer nem mesmo com os piores sofrimentos. Eles são lembrados desta mensagem (João 15.20). Ê uma expressão conhecida, “não é o servo maior do que o seu senhor”, e, portanto, que o servo não espere que aconteça coisa melhor. Observe, em primeiro lugar, que Jesus Cristo é o nosso Mestre, o Mestre que nos ensina, e nós somos seus discípulos, e aprendemos com Ele. O Mestre nos governa, e nós, sendo seus servos, devemos obedecer a Ele. Ele é o Senhor da casa, que tem o poder absoluto sobre a igreja, que é a sua família. Em segundo lugar; Jesus Cristo, nosso Senhor e Mestre, encontrou todas as dificuldades neste mundo; eles o chamaram Belzebu, o deus das moscas, o nome elo príncipe dos demônios, com quem disseram que Ele estava de acordo. É difícil dizer aqui o que é mais admirável, se é a maldade dos homens que assim maltrataram a Cristo, ou se é a paciência de Cristo, que se submeteu a ser tratado assim, que aquele que era o Deus da glória fosse caracterizado como o deus das moscas; o Rei ele Israel, como o deus de Ecrom; o Príncipe da luz e da vida, como o príncipe dos poderes da morte e das trevas; que o maior inimigo e destruidor de Satanás fosse reduzido a seu aliado, e além disso suportasse tal contradição dos pecadores. Em terceiro lugar, considerarmos o mau tratamento que Cristo encontrou no mundo deve nos motivar e nos preparar para coisas similares, e para suportá-las com paciência. Não devemos estranhar se aqueles que o odiaram também odeiam aos seus seguidores, por causa do seu nome; nem achar difícil que aqueles que em breve serão como Ele, em glória, sejam agora como Ele, nos sofrimentos. Cristo começou pelo cálice amargo. Estejamos, pois, dispostos a nos comprometer com Ele; o sacrifício que Ele suportou na cruz abriu o caminho para nós.

[5]. “Nada há encoberto que não haja de revelar-se” (v. 26). Nós compreendemos que isto trata, em primeiro lugar, da revelação do Evangelho a todo o mundo. “Dizei-o em luz” (v. 27), pois será dito. As verdades que agora estão, como mistérios, ocultas dos filhos dos homens, serão todas dadas a conhecer, a todas as nações, na sua própria língua (Atos 2.11). Os confins da terra devem ver esta salvação. Observe que é um grande incentivo àqueles que estão realizando a obra de Cristo o fato de que este é um trabalho que certamente será realizado. Ê uma plantação que Deus irá apressar. Ou, em segundo lugar, é um esclarecimento da inocência dos servos sofredores de Cristo, que são chamados até mesmo de Belzebu; o seu verdadeiro caráter agora é invejosamente disfarçado com falsidades, mas não importa como a sua inocência e excelência estejam agora encobertas, elas serão reveladas. Isto ocorre frequentemente neste mundo. Mas a justiça dos santos é feita, pelos eventos subsequentes. para que ela brilhe como a luz. De qualquer maneira, isto ocorrerá no grande dia, quando a sua glória se manifestará a todo o mundo, aos anjos e aos homens, aos quais agora são como espetáculos (1 Coríntios 4.9). Toda reprovação a eles será eliminada, e as suas graças e os seus serviços, que agora estão encobertos, serão revelados (1 Coríntios 4.5). E um consolo ao povo de Deus, sob todas as calúnias e reprovações dos homens, o fato de que haverá uma ressurreição de nomes, assim como de corpos, no último dia, quando os justos brilharão como o sol. Que os ministros de Cristo revelem fielmente as verdades de Deus, e então deixem que Ele, no devido tempo, revele a integridade deles.

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GESTÃO E CARREIRA

DISCUTINDO A RELAÇÃO

Discutindo a relação

Quem não gosta do chefe fica desmotivado e tem queda de desempenho. Mas salvar um relacionamento complicado é possível.

Depois de mapear as percepções de profissionais de 142 países ao redor do mundo, a consultoria Gallup descobriu que apenas 13% deles se sentem realmente engajados no trabalho. A pesquisa, feita em 2013, mostra uma realidade que, em tempos de crise, pode ser ainda mais dura: as pessoas estão desmotivadas, mas não podem parar de trabalhar. E um dos grandes fatores para o desânimo no emprego tem a ver com o gestor imediato, pois é ele que influencia, no dia a dia, o relacionamento que os empregados desenvolvem com a empresa. O problema é que, algumas vezes, o chefe e o funcionário não se dão bem, e isso prejudica dois dos gatilhos mais importantes da motivação, os quais, segundo a Gallup, são: ser tratado com respeito e divertir-se no trabalho. O bom é que é possível melhorar um relacionamento pouco amistoso antes de tomar decisões drásticas – como pedir demissão – ou deixar o desempenho cair e os resultados irem por água abaixo. Ao longo desta reportagem, mostramos os passos que você pode dar para tornar a relação mais agradável.

1 – FAÇA UMA AUTOANÁLISE

Porque essa situação acontece com tanta gente, em culturas e realidades tão diversas? Considerando a complexidade do comportamento humano, os motivos que levam um colaborador a detestar o chefe podem variar, mas giram em torno de fatores como desalinhamento de expectativas, imaturidade emocional, falta de assertividade e comportamentos inadequados (fofoca e instabilidade de humor, por exemplo). O problema é que, muitas vezes, o próprio subordinado provoca reações negativas no chefe sem nem perceber – o que acaba piorando o relacionamento. Por isso, antes de sair atirando pedras no gestor, faça uma autoanálise para saber quanto sua postura influencia as atitudes do líder. “Quando o funcionário achaque o problema está sempre no outro, fica na zona de conforto e não faz nada para resolver a situação, diz Denize Dutra, professora na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. A falta de autocrítica faz com que o profissional não perceba que a atitude do chefe pode ser o efeito, e não a causa.

 2 – EXERCITE A EMPATIA

Multas vezes, o desconforto com as atitudes do líder passa também por um problema de empatia: o funcionário não consegue sequer imaginar por que o gestor tem um tipo de comportamento que ele desaprova A maioria dos chefes estão sob pressão de cobranças de diretores e acionistas – claro que isso não justifica posturas abusivas ou assédio moral -, mas é preciso entender que, às vezes, o problema está mais no receptor da mensagem do que no emissor.  “Há cursos para se formar em liderança, mas quantos existem para aprender a receber ordens? Muitas vezes, o subordinado não entende a complexidade da empresa, principalmente nas questões estratégicas, e se desentende com o chefe porque é resistente a comandos, afirma Silvio Celestino, sócio fundador da Alliance Coaching, de São Paulo.

Fazer o mea-culpa nem sempre é fácil, pois precisamos enfrentar aspectos de nossa personalidade com os quais não gostaríamos de nos defrontar, mas isso ajuda a compreender se o problema está (ou não) em nós mesmos. Para saber se é o caso, questione-se com o seguinte roteiro de perguntas: se eu estivesse na posição desse chefe, como lidaria com essa situação? Se eu tivesse de liderar uma pessoa como eu, o que faria? Se eu tivesse de fazer escolhas de liderança sob pressão, quais seriam?

E quais seriam as consequências de minhas escolhas? Será que eu teria autonomia para escolher tudo livremente ou sofreria pressões externas? E como agiria sob essas pressões para fazer o que considero correto? Fazer a si mesmo essas questões é um treino de maturidade que vale a pena ser feito. Você terá mais clareza ao se colocar no lugar do outro e interpretar a situação alheia, diz Leni Hidalgo, professora de liderança no lnsper, de São Paulo.

3 – CONVERSE ABERTAMENTE

Depois de analisar sua atitude, é hora de conversar com seu chefe. Essa é a chave para estabelecer uma relação de confiança – e o caminho para uma possível admiração futura.

“Ouça o que o líder tem a dizer a seu respeito. Assim, você vai conquistar espaço para colocar as coisas que estão incomodando e até prejudicando sua produtividade, diz Sofia Esteves, presidente da DMRH, consultoria de carreira, de São Paulo. Na hora de conduzir a conversa, diga que gostaria de entender o que pode melhorar para que o convívio entre os dois seja mais harmonioso. Desse modo, você colocará o líder a par do problema sem acusá-lo. Só não demore muito para pedir o bate papo. “As pessoas deixam o copo encher, esperam juntar muitas situações e acabam se expressando com agressividade, ressentimento, afirma Sofia. Mas, quando isso acontece, a relação já está tão desgastada que fica difícil resolver.

4PEÇA AJUDA

Se a tentativa da conversa fracassou, é hora de recorrer a alguém em que você confia. Quando houver abertura, acione o departamento de recursos humanos da empresa. O RH vai ajudar a conduzir a situação: diz Márcia Almstrõm, diretora do Manpower Group, empresa de recrutamento, de São Paulo. Caso isso não seja possível, a alternativa é procurar a ajuda de alguém com quem você possa se abrir para aconselhá-lo sobre o que pode ser feito. Essa estratégia costuma ser bem-sucedida quando a conversa é feita com uma pessoa que conhece bem seu chefe e que consegue lidar com ele de maneira mais eficiente do que você. Com isso, fica mais fácil entender como o gestor funciona e quais são os gatilhos que costumam irritá-lo ou satisfazê-lo – algo fundamental para deixar o convívio mais agradável.

5 –  ALINHE AS EXPECTATIVAS

Vários dos problemas de relacionamento com a chefia acontecem porque os dois lados não estão alinhados em relação aos deveres, às expectativas e ao estilo de gestão – situação que gera insatisfação e Insegurança no subordinado. “É preciso criar um contrato e entender como o chefe gosta de gerir e o que ele espera de você. Nessa conversa vale também dizer o que você gosta e não gosta e o que você espera da chefia”, diz Sofia, da DMRH. O alinhamento evita que os profissionais idealizem a liderança se frustrem porque o gestor não se comporta como o chefe dos sonhos e comecem a alimentar a ideia de que o líder é detestável “Quanto mais você criar a expectativa de que ele precisa ser um guru, o peso sobre a relação ficará maior, e isso poderá atrapalhar”, afirma Márcia, do Manpower Group.

Discutindo a relação2 

 Fonte: Revista Veja S.A. – Edição 234

 

PSICOLOGIA ANALÍTICA

ATENÇÃO PLENA PARA INICIANTES

Atenção plena para inciantes

A prática de mindfullness pode ser entendida como o no ato de manter a consciência deliberadamente voltada ao momento presente, sem fazer julgamentos; um ato simples, capaz de proporcionar inúmeros benefícios.

A atenção plena (mindfullness) e sua utilização na área da saúde e do combate a doenças têm sido tema cada vez mais frequente de estudos e descobertas nas últimas quatro décadas, desde a fundação da Clínica de Redução do Estresse e do Programa de Redução do Estresse Baseado na Atenção Plena (MBSR) em 1979, no Centro Médico da Universidade de Massachusetts. O treinamento em MBSR e intervenções relacionadas a essa terapia têm se revelado altamente eficazes em reduzir o estresse e problemas médicos ligados a esse quadro, como ansiedade, pânico e depressão. A atenção plena também se mostrou útil para ajudar os portadores de dor crônica a viver melhor, a melhorar a qualidade de vida de pessoas com câncer e esclerose múltipla e a reduzir as recaídas em pacientes com um histórico de depressão grave.

Essas são apenas algumas das muitas descobertas clínicas relatadas na literatura científica. O Programa de Redução do Estresse Baseado na Atenção Plena também se provou capaz de afetar de maneira positiva a forma como o cérebro processa emoções difíceis sob estresse, passando a ativar não as áreas do lado direito do córtex pré-frontal, mas as do esquerdo – na direção de um maior equilíbrio emocional. A MBSR também induz mudanças positivas no sistema imunológico – relacionadas com as mudanças que causa no cérebro.

Outros estudos revelaram que pessoas treinadas em MBSR apresentam boa ativação de redes no córtex cerebral que estão envolvidas na experiência direta do momento presente. Pessoas que não praticam a atenção plena mostram menor ativação nesses circuitos, enquanto as redes envolvidas na geração de narrativas sobre as experiências parecem mais ativas. Essas descobertas sugerem que a prática da atenção plena desenvolve novas formas de experimentarmos a nós mesmos e influencia a maneira como criamos histórias sobre as nossas vivências.

Agora está se tornando evidente que o treinamento em MBSR também resulta em mudanças estruturais no cérebro: o espessamento de certas regiões, como o hipocampo, que desempenha papéis importantes no aprendizado e na memória, e a redução de outras regiões, como a amígdala direita, uma estrutura do sistema límbico que regula nossas reações de medo frente a ameaças de qualquer tipo, o que inclui a frustração dos nossos desejos. Existem muitas outras descobertas surpreendentes na pesquisa da atenção plena, e a cada dia novos estudos são divulgados na literatura científica.

 REDUÇÃO DO ESTRESSE

Desde 1979, eu e meus colegas da Clínica de Redução do Estresse do Centro Médico da Universidade de Massachusetts oferecemos, em paralelo a tratamentos convencionais, um treinamento em atenção plena na forma do Programa de Redução do Estresse Baseado na Atenção Plena (MBSR) para pessoas que sofrem de estresse, dor crônica com a assistência e os cuidados médicos que vêm recebendo. Às vezes elas se sentem ignoradas pela medicina convencional. Hoje, mais de 30 anos depois, a situação do sistema de saúde piorou ainda mais no mundo inteiro.

Existe pouca discussão sobre em que consiste o cuidado à saúde, como mantê-la e recuperá-la, ou o que exatamente significa ser saudável. Nessas circunstâncias, é sensato assumir a responsabilidade pela nossa saúde e pelo nosso bem-estar. Na verdade, esse envolvimento pessoal é um elemento essencial da nova visão da medicina e da assistência médica, um modelo bem mais participativo em que o paciente desempenha um papel colaborativo importante, mobilizando os próprios recursos para alcançar a cura na medida do possível.

A ideia por trás da MBSR é convidar as pessoas a verem se há algo que podem fazer por si mesmas – como um complemento essencial à contribuição de médicos, cirurgiões e do sistema de saúde como um todo – para alcançarem um nível maior de saúde e bem-estar ao longo da vida, tomando como ponto de partida a situação em que se encontram hoje. Falo em “saúde e bem-estar” em seu significado mais profundo e amplo. Em última aná- lise, trata-se não apenas da saúde do corpo, mas também do bem-estar e do funcionamento mental, emocional e físico ideais que você pode desenvolver através da exploração sistemática e disciplinada da verdadeira extensão de sua humanidade. Para isso é necessário conhecer sua mente e seu corpo de forma mais íntima, pois esses dois aspectos não estão fundamentalmente separados. É necessário um cultivo diligente de suas capacidades biológicas e psicológicas intrínsecas de bem-estar e sabedoria, inclusive da compaixão e da bondade que residem dentro de todos nós.

FENÔMENO MUNDIAL

O Programa de Redução do Estresse Baseado na Atenção Plena já se disseminou por clínicas, centros médicos e hospitais nos Estados Unidos e ao redor do mundo. As meditações guiadas em áudio se assemelham, em alguns aspectos, àquelas que meus colegas e eu usamos com os pacientes do programa MBSR na Clínica de Redução do Estresse.

Mas isso não significa que essa abordagem só sirva para pessoas sofrendo de doenças, dor crônica ou estresse. Por ser universal, essa prática é aplicável a qualquer um que esteja motivado a otimizar sua qualidade de vida. É importante lembrar que o objeto da meditação consiste totalmente na consciência: seu caráter, sua estabilidade, sua confiabilidade e sua capacidade de nos libertar de nossos hábitos de auto depreciação e nosso costume de ignorar o que é mais importante na vida. A atenção plena desenvolve a atenção pura, o discernimento, a visão clara e, portanto, a sabedoria – ou seja, a habilidade de conhecer a realidade objetiva das coisas para além das nossas percepções equivocadas. E todos nós temos que lidar com muitas percepções equivocadas acerca da realidade, pois é muito fácil nos deixarmos capturar em nossos próprios sistemas de crenças, ideias, opiniões e preconceitos.

Nossas suposições formam um tipo de véu, um nevoeiro, que muitas vezes nos impede de ver o que está bem diante dos nossos olhos e de agir de acordo com o que consideramos mais importante e mais valorizamos. Pode haver momentos em que nossos familiares tentem nos mostrar – por amor ou por desespero – quanto sofrimento desnecessário estamos gerando ao nos recusarmos a enxergar as coisas como realmente são, ou que estamos levando tudo para o lado pessoal de tal forma que acabamos distorcendo as coisas. Mas, mesmo em circunstâncias como essas, é extremamente difícil nos convencer. Em geral não ouvimos ou não acreditamos, de tão enredados que estamos em nossa ilusão e em nosso hábito de nos distrairmos de nós mesmos.

A RESPIRAÇÃO

Mesmo que você não perceba, o ar entra e sai do seu corpo o tempo todo. Sorvemos o ar a cada inspiração, devolvendo-o ao mundo a cada expiração. Nossa vida depende disso. Suzuki Roshi referiu-se a esse movimento repetitivo como uma “porta vaivém”.  E, como não podemos sair de casa sem essa atividade vital   e misteriosa, nossa respiração pode servir como um primeiro objeto ao qual voltar a atenção para nos trazer de volta ao momento presente, porque sempre estamos respirando no agora – a última expiração acabou e a próxima inspiração ainda não chegou. Assim, para nossa atenção errante, a respiração é uma âncora ideal, capaz de nos manter no momento presente.

Esse é um dos motivos por que as sensações que a respiração produz no corpo costumam ser o primeiro objeto de atenção para iniciantes em muitas tradições meditativas. Mas prestar atenção nos efeitos da respiração sobre o corpo não é apenas para principiantes. Pode ser algo simples, mas o próprio Buda ensinou que a respiração contém em si tudo que você precisa para cultivar a plenitude de sua humanidade, especialmente sua sabedoria e sua compaixão.

A razão, como veremos em breve, é que prestar atenção na respiração não tem a ver exatamente com a respiração. Nenhum objeto a que voltamos a atenção é importante por si mesmo. Os objetos da atenção nos ajudam a estar presentes de forma mais estável. Assim podemos começar a perceber que o que importa de verdade é o próprio ato de estar presente. É a relação entre aquele que percebe (você) e o que é percebido (qualquer objeto de atenção). Esses dois elementos se juntam num todo contínuo e dinâmico na consciência, porque, fundamentalmente, nunca estiveram separados. É a consciência que importa.

 O TRABALHO MAIS DIFÍCIL DO MUNDO

Ironicamente, o maior desafio que cada um de nós enfrenta como ser humano é realizar a plenitude de quem já somos. Ninguém além de nós pode assumir esse trabalho, que deve ser empreendido por decisão própria, em resposta a nossa vocação – e apenas se considerarmos importante viver uma vida autêntica.

O trabalho de cultivar a atenção plena também pode ser entendido como um jogo. Trata-se de algo sério demais para ser levado muito a sério – e digo isso com toda a seriedade! –, pois envolve a nossa vida inteira. Faz sentido que a leveza e a diversão sejam elementos-chave na prática da atenção plena, pois são essenciais para o bem-estar.

Em última análise, a atenção plena pode se tornar natural, algo perfeitamente integrado a nossa vida, uma forma de expressão autêntica e plena do nosso próprio ser. No entanto, a trajetória de cada pessoa no cultivo dessa prática e os benefícios que pode alcançar são sempre únicos. O desafio é descobrir quem somos e viver da nossa própria maneira, de acordo com a vocação de cada um. Para isso é necessário prestar muita atenção em todos os aspectos da vida, à medida

que se desenrolam no momento presente. Obviamente, ninguém pode fazer esse trabalho por você, assim como ninguém pode viver a sua vida em seu lugar.

O que eu disse até aqui pode não fazer muito sentido para você. Na verdade, isso tudo só vai fazer sentido quando você se comprometer com o cultivo formal e informal da atenção plena ao longo do tempo. Assim, você poderá olhar e ver por si mesmo como as coisas são de verdade, por trás do véu das aparências e das histórias que somos tão hábeis em contar a nós mesmos.

 CUIDANDO DO MOMENTO PRESENTE

Na prática da atenção plena, todo o nosso passado – qualquer que tenha sido e por mais dor e sofrimento que tenha envolvido – torna-se o ponto de partida para a tarefa de habitar o momento presente com consciência, equanimidade, clareza e cuidado. Você precisa do seu passado; ele é a argila na roda do oleiro. Não se deixar aprisionar no passado ou em nossos conceitos e ideias, reconquistando o único momento de que realmente dispomos – o agora – é trabalho de uma vida inteira. Cuidar do momento presente pode ter um efeito notável sobre o próximo instante e, portanto, sobre o futuro – seu e do mundo. Se você puder estar plenamente atento a este momento, é possível que o seguinte seja imensa e criativamente diferente – porque você estará consciente, sem tentar impor suas expectativas de antemão.

 

JON KABAT-ZINN – é doutor em biologia molecular, é professor emérito de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade de Massachusetts. Fundador do Centro para Atenção Plena em Medicina, Assistência Médica e Sociedade e de sua mundialmente famosa clínica que utiliza o Programa de Redução do Estresse Baseado na Atenção Plena (MBSR). É autor de vários livros que foram traduzidos para mais de 30 idiomas. Este texto foi adaptado de seu último livro, recém-lançado no Brasil, Atenção plena para iniciantes (Sextante, 2017), com autorização da editora.