ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 10: 16-42

20180104_191613

Instruções aos Apóstolos

Parte 1

Todos estes versículos falam dos sofrimentos dos ministros de Cristo no seu trabalho. Aqui eles são ensinados a esperar e a preparar-se para estes sofrimentos, e também são instruídos sobre como suportá-los, e como prosseguir com o seu trabalho em meio aos sofrimentos. Esta parte do sermão abrange mais do que a missão atual dos doze, pois não sabemos se eles encontraram quaisquer grandes dificuldades ou enfrentaram grandes perseguições enquanto Cristo estava com eles, nem se eles estavam capacitados para suportar estas coisas; mas aqui eles são avisados dos problemas que enfrentariam quando, depois da ressurreição de Cristo a sua comissão se ampliasse, e o Reino dos céus, que ainda não era chegado, já estivesse estabelecido. Eles não sonhavam com nada ainda, exceto pompa e poder, mas Cristo lhes diz que deviam esperar sofrimentos maiores do que agora enfrentavam; que eles seriam, então, feitos prisioneiros, quando esperavam ser feitos príncipes. É bom saber quais problemas podemos enfrentar no futuro, para que possamos agir de acordo com eles, e não nos vangloriemos, como se tivéssemos dominado as dificuldades, quando ainda estamos apenas rodeando-as.

Aqui estão entrelaçadas: I. Predições de dificuldades, e II. Prescrições de conselho e consolo, com referência a elas.

I – Temos predições de problemas que os discípulos encontrariam no seu trabalho: Cristo previu o sofrimento deles, assim como o seu próprio sofrimento, e ainda assim os fez continuar, como Ele também continuou. Ele lhes falou dos sofrimentos, não apenas para que os problemas pudessem não ser uma surpresa para eles, e, desta forma, um choque para a sua fé, mas também para que, como cumprimento de uma predição, estes sofrimentos pudessem ser uma confirmação para a fé deles.

Ele lhes diz o que iriam sofrer, e quem lhes causaria tal sofrimento.

1.O que eles iriam sofrer: coisas duras, com certeza; pois o Senhor lhes disse: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos” (v. 16). E o que um rebanho de pobres ovelhas, indefesas e desprotegidas, pode esperar em meio a uma alcateia de lobos vorazes, a não ser preocupações e destruição? Observe que os homens maus são como lobos, cuja natureza é devorar e destruir. O povo de Deus, e em especial os seus ministros, são como ovelhas entre eles, de uma natureza e disposição contrárias, expostos a eles, e normalmente uma presa fácil para eles. Parece pouco gentil da parte de Cristo expô-los a tanto perigo, a eles, que tinham deixado tudo para segui-lo; mas Ele sabia que a glória reservada para as suas ovelhas, no grande dia em que elas estiverem à sua mão direita, seria uma compensação suficiente para os sofrimentos, assim como para o serviço. Eles são como ovelhas em meio aos lobos, isto é assustador; mas Cristo os envia, e isto é consolador; pois aquele que os envia irá protegê-los, e sustentá-los. Mas para que eles possam saber do pior, Ele lhes diz então, particularmente, o que devem esperar.

(1) Eles devem esperar ser odiados (v. 22). “E odiados de todos sereis por causa do meu nome”. Esta é a raiz de todo o resto; e que raiz amarga! Observe que o mundo odeia aqueles a quem Cristo ama. É o mesmo caso daquele a quem o tribunal absolve, porém, o país condena. Se o mundo odiou a Cristo, sem causa (João 15.25), não é de admirar que odiasse aqueles que traziam a sua imagem e serviam aos seus interesses. Nós odiamos o que é repugnante, e os apóstolos eram considerados como a escória de todos (1 Coríntios 4.13). Nós odiamos o que é nocivo, e eles eram considerados os perturbadores da terra (1 Reis 18.17), e aqueles que atormentavam os seus vizinhos (Apocalipse 11.10). É triste ser odiado, e ser objeto de tanta má intenção, mas é por amor ao seu nome; esta é a verdadeira razão do ódio. Aconteça o que acontecer, haverá consolo para aqueles que são, desta maneira, odiados. Tudo isso é por uma boa causa, e eles têm um bom amigo, que compartilha estas aflições com eles, e que as toma para si.

(2). Eles devem esperar ser presos e levados a juízo, como malfeitores. A maldade inquieta as pessoas e é irresistível, e elas não apenas tentarão, mas conseguirão entregá-los aos conselhos (vv.17,18), ao tribunal das autoridades ou dos juízes, que cuida m da paz pública. Observe que uma grande quantidade de prejuízos é causada com frequência aos bons homens, disfarçada de lei e justiça. “No lugar do juízo reinava a maldade e no lugar da justiça, maldade ainda” (Eclesiastes 3.16). Eles devem esperar problemas, não apenas por parte dos magistrados inferiores nos conselhos, mas também de governadores e reis, os magistrados supremos. Ser trazido diante deles sob descrições tão obscuras – como aquelas que eram comumente feitas a respeito dos discípulos de Cristo – era algo perigoso e temível, pois a ira de um rei é como o rugir de um leão. Nós encontramos essa predição plena­ mente cumprida no livro de Atos dos Apóstolos.

(3). Eles devem esperar ser condenados à morte (v. 21). Eles os entregarão à morte, e assim morrerão em uma cerimónia com pompa e solenidade, o que será apresentado como o rei dos terrores. A maldade dos inimigos se enfurece a ponto de infligir isto; é do sangue dos santos que eles têm sede. A fé e a paciência dos santos permanecem firme, como quem tem a seguinte esperança: “Em nada tenho a minha vida por preciosa”. A sabedoria de Cristo permite isto, sabendo como fazer do sangue dos mártires o selo da verdade, e a semente da igreja. Este desprendimento, por parte desse nobre exército, que não amou a própria vida sendo fiel até à morte, teve um importante resultado: Satanás foi derrotado, e o reino de Cristo e os seus interesses progrediram grandemente (Apocalipse 11.11). Eles foram levados à morte como criminosos; assim os inimigos o pretendiam, mas, na verdade, foram oferecidos como sacrifícios (Filipenses 2.17; 2 Timóteo 4.6); como holocaustos, sacrifícios de reconhecimento da honra de Deus, da sua verdade, e da sua causa.

(4). Eles devem esperar, em meio a estes sofrimentos, ser marcados com os nomes mais odiosos e desonrosos existentes na época. Os perseguidores se sentiriam envergonhados neste mundo, se não vestissem primeiro em peles de urso aqueles a quem importunam, e os representassem de maneira a poder justificar tais crueldades. O mais negro de todos os maus nomes que eles atribuem aos apóstolos é apresentado aqui; eles os chamam de Belzebu, o nome do príncipe dos demônios (v. 25). Eles representam os apóstolos como os líderes dos interesses do reino das trevas; e, uma vez que todos pensam que odeiam o diabo, eles se esforçam para tornar os apóstolos odiosos para toda a humanidade. Considere, e surpreenda-se, ao ver como isto se impôs a este mundo:

[l].  Os inimigos declarados de Satanás são representados como seus amigos; os apóstolos, que destruíam o reino do diabo, são chamados de demônios. Assim os homens lhes atribuem não apenas coisas que eles desconheciam, mas também coisas que eles abominavam, e às quais eram diretamente contrários; eles eram o oposto daquilo de que eram acusados.

[2]. Os servos declarados de Satanás eram tidos como seus inimigos, e nunca realizaram o seu trabalho de maneira mais eficiente do que quando fingiram estar lutando contra ele. Muitas vezes aqueles que são os mais semelhantes ao diabo são os mais aptos a incomodar outros como ele mesmo o faria; e aqueles que o pintam nas roupas dos outros o têm reinando em seus próprios corações. Como é bom que haja um dia se aproximando (como aqui se segue, v. 26) em que aquilo que está encoberto será revelado.

(5) Estes sofrimentos são aqui representados por uma espada e uma dissensão (vv. 34,35). “Não pensem que Eu vim trazer paz, a paz temporal e a prosperidade exterior”. Eles pensavam que Cristo tinha vindo para dar a todos os seus seguidores riqueza e poder neste mundo. “Não”, diz Cristo, “Eu não vim com o objetivo de lhes dar a paz neste mundo; eles podem ter certeza de que terão paz no céu, mas não paz na terra”. Cristo veio para nos dar paz com Deus, paz em nossas consciências, paz com nossos irmãos, mas no mundo nós teremos aflições. Observe que confundem o desígnio do Evangelho aqueles que pensam que a sua profissão de fé no Evangelho irá protegê-los dos problemas, pois ela certamente os exporá a estes problemas. Se todo o mundo recebesse a Cristo, então haveria uma paz universal, mas enquanto houver, e sempre haverá, tantos que o rejeitam (e não somente os filhos deste mundo, mas também a semente da serpente), os filhos de Deus, que são convocados neste mundo, devem esperar sentir os frutos da sua inimizade.

[1]. “Não vim trazer paz, mas espada”. Cristo veio para dar a espada, que é a palavra com a qual os seus discípulos lutam contra o mundo, e esta espada realizou uma obra de conquista (Apocalipse 6.4; 19.21). A espada da perseguição, com a qual o mundo luta contra os discípulos, realiza um trabalho cruel; o mundo se sente enfurecido em seu coração pela espada da palavra (Atos 7.54), e atormentado pelo testemunho dos profetas de Cristo (Apocalipse 11.10). Cristo enviou este Evangelho, o que dá oportunidade de sacarmos esta espada. Também se pode dizer que o Senhor nos enviou esta espada. Ele permite que a sua igreja passe por um estado de sofrimento, para a prova e para o louvor das virtudes do seu povo, e também para que a medida dos pecados de seus inimigos seja aumentada.

[2]. Não esperem paz, mas divisão (v. 35). “Eu vim pôr os homens em dissensão”. Este efeito da pregação do Evangelho não é culpa do Evangelho, mas daqueles que não o recebem. Quando alguns creem nas coisas que são ditas, e outros não, a fé daqueles que creem condena aqueles que não creem, e, portanto, nós temos um inimigo contra aqueles que creem. Observe que as rixas mais violentas e implacáveis sempre foram aquelas surgidas de diferenças em relação à religião. Não há inimizade como aquela dos perseguidores, não há determinação como a dos perseguidos. Assim, Cristo diz aos seus discípulos o que eles iriam sofrer, e estas foram palavras duras. Se eles pudessem suportar isto, poderiam suportar qualquer coisa. Observe que Cristo foi justo e fiel conosco, ao nos contar o pior que podemos encontrar a serviço dele; e Ele quer que sejamos justos com nós mesmos, ao avaliarmos o custo.

2.Ele lhes diz de quem, e por quem, eles viriam a enfrentar estes sofrimentos. Certamente o próprio inferno deve estar libertado, e os demônios, aqueles espíritos desesperados e desesperadores, que não têm participação na grande salvação, nem direito a uma parte dela, devem estar encarnados, antes que tais inimigos malignos possam encontrar e se apegar a uma doutrina, cuja essência seja a boa vontade em relação aos homens, e a reconciliação do mundo com Deus. Você consegue imaginar isto? Todos estes problemas surgem aos pregadores do Evangelho, por parte daqueles a quem eles vieram pregar a salvação. Assim, os homens sanguinários aborrecem aquele que é sincero, mas os retos procuram o seu bem (Provérbios 29.10), e dessa maneira o céu é completamente oposto à terra, porque a terra está extremamente sujeita ao poder do inferno (Efésios 2.2).

Os discípulos de Cristo devem sofrer tais dificuldades:

(1). Por parte dos homens (v. 17): “Acautelai-vos… dos homens”. Em outras palavras: “Vocês precisarão estar sempre vigilantes, mesmo contra aqueles que têm a mesma natureza que vocês, tal é a depravação e a degeneração desta natureza”, “ardilosos e políticos como homens, mas cruéis e bárbaros como animais, e completamente despojados daquilo que se chama de humanidade”. Note que o ódio perseguidor e a inimizade transformam os homens em animais, em demônios. Paulo, em Éfeso, combateu feras sob a forma de homens (1 Coríntios 15.32). Há uma situação triste à qual o mundo chegou. Os melhores amigos que o mundo tem precisam se acautelar dos demais homens. Isto piora os problemas dos servos sofredores de Cristo, pois estes problemas surgem daqueles que são carne da sua carne, feitos do mesmo sangue. Os perseguidores são, neste sentido, piores que animais, pois as suas presas são semelhantes a eles. É muito doloroso que os homens se levantem contra nós (Salmos 124.2), homens dos quais poderíamos esperar proteção e compaixão; homens, e nada mais; meros homens; homens, e não santos; homens naturais (1 Coríntios 2.14); homens do mundo (SaImos 17.14). Os santos são mais que os homens, e são redimidos do seu meio e por isto são odiados por eles. A natureza do homem, se não for santificada, é a pior natureza. do mundo, próxima à dos demônios. Eles são homens, e, portanto, criaturas subordinadas, dependentes, moribundas; são homens, mas são meros homens (Salmos 9.20), e quem pois és tu, para que temas o homem, que é mortal? (Isaias 51.12). Acautelai-vos dos homens, daqueles entre vós que se relacionam com os homens do Sinédrio judeu, que reprovavam a Cristo (1 Pedro 2.4).

(2). Por parte dos homens religiosos, homens que têm uma forma de devoção e que fazem da religião uma exibição. Eles vos açoitarão nas suas sinagogas, os seus lugares de encontro para a adoração a Deus, e par a o exercício da sua disciplina. Eles consideravam o açoitamento dos ministros de Cristo como sendo uma ramificação da sua religião. Paulo foi açoitado nas sinagogas cinco vezes (2 Coríntios 11.24). Os judeus, sob o pretexto do zelo por Moisés. eram os mais amargos perseguidores de Cristo e do cristianismo, e consideravam estas infâmias como pontos positivos da sua religião. Observe que os discípulos de Cristo sofreram muito por parte de perseguidores conscientes, que os açoitavam nas suas sinagogas, os expulsavam e os matavam, e pensavam estar prestando um bom serviço a Deus (João 16.2), e diziam: “O Senhor seja glorificado” (Isaias 66.5; Zacarias 11.4,5). Mas a sinagoga está tão longe de consagrar a perseguição, que a perseguição, sem dúvida, profana e contamina a sinagoga.

(3). Por parte dos homens poderosos, e homens de autoridade. Os judeus não somente os açoitavam – o poder máximo que lhes era atribuído – mas quando não podiam ir além, os entregavam às autoridades romanas, como fizeram com Cristo (João 18.30). “Sereis até conduzidos à presença dos governadores e elos reis” (v. 18), os quais, tendo mais poder, têm a capacidade de causar maiores danos. Os governadores e os reis recebem o seu poder de Cristo (Provérbios 8.15), e deveriam ser seus servos, e proteger e zelar pela sua igreja, mas frequentemente usam o seu poder contra Ele, e se rebelam contra Cristo, e oprimem a sua igreja. Os reis da terra se levantam contra o seu reino (SaImos 2.1,2; Atos 4.25,26). Observe que homens bons sempre tiveram homens poderosos como seus inimigos.

(4). Por pa1te de todos os homens (v. 22). “Odiados de todos sereis”, de todos os homens maus, e estes representam a maioria dos homens, pois todo o mundo se assenta na maldade. Poucos são os que amam, abraça m e aceitam a causa justa de Cristo, e podemos dizer que os amigos desta causa são odiados por todos os homens: “Desviaram-se todos e… comem o meu povo” (SaImos 14.3). A deslealdade a Deus vai tão longe quanto a inimizade contra os santos. Algumas vezes, ela se manifesta de um modo mais genérico do que em outras, mas há um pouco deste veneno espreitando nos corações de todos os filhos da desobediência. O mundo os odeia, pois se maravilha após a besta (Apocalipse 13.3). “Todo homem é mentira”, e, desta forma, odeia a verdade.

(5). Por parte dos seus parentes. “O irmão entregará à morte o irmão” (v. 21). Um homem estará, de acordo com este relato, contra o seu próprio pai; e, além disto, também as pessoas do sexo mais frágil e terno se tornarão perseguidoras e perseguidas. A filha perseguidora estará contra a mãe que tem fé, quando poderíamos pensar que o afeto natural e o dever filial deveriam evitar a disputa, ou encerrá-la rapidamente; e não é de admirar que a nora esteja contra a sogra, quando, com excessiva frequência, a frieza do amor procura oportunidade para a disputa (v. 35). Em geral, os adversários de um homem serão os seus familiares (v. 36). Os que deveriam ser seus amigos se levantarão contra ele, por ter abraçado o cristianismo, e especialmente por aderir a ele, chegando a ser perseguido. Estes adversários se unirão aos seus perseguidores, e se posicionarão contra o cristão. Observe que os laços mais fortes de amor e dever familiar frequentemente são rompidos por um inimigo de Cristo e de sua doutrina. Tal tem sido o poder do preconceito contra a verdadeira religião, e o zelo por uma religião falsa, a ponto de todas as outras considerações, as mais naturais e sagradas, as mais envolventes e atraentes, terem sido sacrificadas a estes moloques. Aqueles que se enfurecem contra o Senhor e os seus ungidos rompem até mesmo estes laços, e sacodem de si aquelas cordas (SaImos 2.2,3). A noiva de Cristo sofre dificuldades pela ira dos filhos de sua própria mãe (Cantares 1.6). Estes sofrimentos são os mais dolorosos; nada fere mais que isto. “Eras tu, homem meu igual” (SaImos 55.12,13). E a inimizade deles normalmente é a mais implacável; um irmão ofendido é mais difícil de conquistar do que uma cidade forte (Provérbios 18.19). Aqueles que estudam a vida dos mártires, tanto dos antigos como dos modernos, conhecem muitos exemplos dessa verdade. Considerando tudo isso, aparentemente todos aqueles que vivem em Cristo Jesus com devoção devem sofrer perseguições; e nós devemos esperar entrar no Reino de Deus em meio a muitas dificuldades.

Anúncios

GESTÃO E CARREIRA

OS QUATRO ESTÁGIOS DE RELACIONAMENTO ENTRE GRANDES EMPRESAS E STARTUPS

Os 4 estágios de relacionamento entre grandes empresas e startups

Você é da turma que promove a colaboração ou da que se abriga na rejeição?

Quando falamos de startups e grandes empresas, é inevitável a associação à passagem bíblica de Davi e Golias. Davi, franzino, vence o imbatível gigante de 2,92 metros de altura usando uma arma improvável: uma pedra. Antes disso, Golias havia esperado 40 dias até que aparecesse um candidato para o confronto. Da mesma forma, muitas empresas, gigantes em seus setores, ficam anos olhando soberbamente para o mercado, sem enxergar prováveis competidores. Até que aparece uma startup que, com um golpe certeiro, a destrona. Os exemplos são recorrentes: Airbnb, Netflix, Uber, Amazon.

Observando a relação entre grandes empresas e startups nos últimos 20 anos, antes como empreendedor, agora como consultor, vejo um caminho evolutivo comum, independentemente do segmento econômico, com quatro momentos distintos: Rejeição, Atenção, Aproximação e Colaboração.

Na primeira fase, REJEIÇÃO, a grande corporação ignora startups. Em alguns casos, as despreza. Como Golias fez, ao rir diante de seu diminuto oponente. O sentimento é de que uma startup é pequena demais, como Davi, para oferecer ameaça. As comparações entre os números — faturamento, base de clientes — da grande e das startups costumam ser demasiado discrepantes. Os indicadores do mundo tradicional contribuem para atestar o abismo que as separa. Primeiro erro: startups e grandes empresas trabalham com indicadores de desempenho (KPIs) diferentes. É como comparar banana com coco. Ambos são alimentos, porém as semelhanças não vão muito além disso. Em vez de “faturamento”, deve-se olhar para o “custo de aquisição de cliente”. Em vez de “base de clientes”, deve-se analisar o “lifetime value”. Em vez do “Ebitda”, é melhor avaliar o “mercado potencial”. E por aí vai. Primeira lição para a grande empresa: se você quer estabelecer comparações com uma startup, use os KPIs dela! Para fazer isso, é necessário mudar o mindset. Segundo erro: startups atuam em nichos. Dificilmente (ou quase nunca) competem com todos os produtos ou todos os públicos de uma grande empresa. Seu mantra é o foco. Vou voltar a este ponto.

No estágio da REJEIÇÃO, o tema startups não entra na pauta das reuniões importantes. É comum ouvir se nos corredores da grande companhia termos como “funny money”, que traduzem o adágio de que startup é diversão para jovens. Ou afirmações do tipo: “é ‘cool’ trabalhar lá, as pessoas se sentem motivadas e se divertem, mas a empresa não ganha dinheiro. E uma hora a brincadeira acaba [porque alguém vai querer ver a cor do dinheiro]”.

Com o tempo, chega-se ao segundo estágio: ATENÇÃO. De tanto uma startup sair na mídia e de tanto ouvir falar dela, a gigante começa a tentar entender por que tanto barulho. Ainda é uma fase reativa, olha-se de forma errada. Afirmação típica: “várias fintechs ganham relevância, porém nenhuma consegue substituir um banco tradicional, com todos os seus produtos”. Sim, a afirmação é verdadeira — mas já comentei sobre o foco. Startups concentram-se num nicho, num público particular, com produtos ou serviços bem específicos. É assim que elas funcionam — afinal, startups são tugúrios de escassez!

Após começar a dedicar tempo a conhecer a startup, a grande empresa passa a enxergar valor de verdade no que a pequena faz. E reconhece ser possível aprender algo. Inicia-se o terceiro estágio: APROXIMAÇÃO. Aqui, vemos executivos da organização maior começando a frequentar eventos de startups, assistindo a pitches em demodays, dando mentoria em hackathons. Reuniões começam a ser agendadas dentro das empresas, e seus executivos passam a baixar diariamente novos aplicativos com soluções inovadoras. Começam a ver oportunidades de fazer negócios com startups e ventilar ideias de parceria.

O caminho do terceiro para o quarto estágio costuma ser o mais curto. Chega-se então à etapa da COLABORAÇÃO. A grande empresa, nessa fase, resolve alocar pessoas e recursos para lidar com startups. Programas de Inovação Aberta são desenhados e podem incluir aceleração de startups, hackathons, células de inovação, desafios, parcerias, co inovação, investimentos minoritários e até aquisições. Essa é a etapa mais complexa. Para a colaboração acontecer, três fatores são fundamentais: (1) governança — é preciso estabelecer objetivos e indicadores de sucesso; definir um modelo operacional, com escolhas como estrutura centralizada, descentralizada ou híbrida; (2) mindset — a cultura organizacional deve tolerar falhas e experimentação; as pessoas devem estar abertas a questionar suas premissas e reavaliar preconceitos; e (3) incentivos — os executivos e as áreas precisam ter incentivos claros para trabalhar com startups; isto deve estar num programa de recompensa ou reconhecimento (que vai depender da cultura organizacional); o importante é que seja um indicador de desempenho mensurável dentro de suas metas.

Os quatro estágios compõem um framework que facilita o entendimento da relação entre as grandes e as startups. Não significa, porém, que a grande empresa se move inteira de uma etapa para outra. O processo depende de pessoas. Elas evoluem de um estágio para outro, levando suas áreas e seus times. Assim, é comum vermos organizações em que os quatro estágios estão presentes. O desenvolvimento desse processo é um exercício, que exige da liderança mente aberta e amadurecimento emocional.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 133

PSICOLOGIA ANALÍTICA

SONHAR PARA RESOLVER PROBLEMAS

Sonhar para resolver problemas

É possível “escolher” as imagens oníricas que desejamos acessar quando dormimos? Focar a questão que queremos solucionar antes de dormir pode ajudar.

Sabe aquele ditado que diz “nada como um dia após o outro com uma noite no meio”? Pois é. O rebaixamento dos mecanismos de censura e da racionalidade que predomina quando dormimos – e sonhamos – pode ser fundamental para nos permitir ver a realidade de outros ângulos e encontrar soluções para questões que nos incomodam. Exames de imagem mostram que regiões cerebrais que normalmente restringem nosso pensamento ao que é familiar são menos ativadas quando sonhamos – ou seja, nos permitem experimentar soluções “absurdas”, que se estivéssemos acordados sequer nos permitiríamos cogitar. Usando uma metáfora, é possível dizer que resolver um quebra-cabeça da forma “errada” leva a insights surpreendentes. Um número significativo de voluntários que participaram de experimentos nessa área relatou ter conseguido visualizar soluções em sonho após uma semana de exercícios desenvolvidos com esse propósito. Um desses estudos foi coordenado pelo psicólogo holandês Ap Dijksterhuis, na Universidade Radboud.

Segundo ele, sonhar intencionalmente com determinado problema – processo chamado de incubação – aumenta as chances de vislumbrarmos pistas para resolvê-lo. O termo “incubação” foi tomado por empréstimo de antigas práticas gregas executadas no templo de Esculápio (ou Asclépio), onde, em sonho, os doentes buscavam curar suas enfermidades. A psicologia comportamental sugere que podemos pro- curar interferir nesse processo de forma consciente seguindo alguns passos simples, que se baseiam na hipótese de que o ritual e a concentração ajudam a estabelecer o foco de atenção, ao mesmo tempo em que a mente está livre de repressões e mais apta a encontrar respostas.

Um deles é, na hora de dormir, escrever resumidamente a questão que queremos resolver, de preferência numa frase curta, e manter papel e caneta ao lado da cama para anotar o sonho quando acordar. Depois disso, a pessoa pode se imaginar sonhando com a situação que deseja resolver, acordando e anotando tudo num papel. Já deitado, vale pensar no problema e evocar uma imagem concreta, uma cena e em repetir para si mesmo que quer sonhar com essa questão. Ao despertar, é importante permanecer imóvel por alguns segundos antes de se levantar e tentar se lembrar do que sonhou, recapitulando ao máximo os detalhes do sonho, para em seguida fazer anotações, registrando primeiro as palavras-chave e depois acrescentando detalhes. Muitas vezes, o sonho com a situação que incomoda não aparece logo na primeira noite, é preciso repetir os procedimentos – e insistir algumas noites.

  UMA PAUSA PARA TER BOAS IDEIAS

A ideia de que soluções para assuntos que nos incomodam podem aparecer durante momentos de relaxamento, como quando estamos adormecidos, encontra respaldo num fato já conhecido por pesquisadores que se dedicam ao estudo da criatividade: afastar-se mentalmente do problema ajuda a baixar expectativas, autocensura e favorece o surgimento de boas ideias. Faz sentido, portanto, que o estágio do sono conhecido como REM (movimento rápido dos olhos), ou fase de sonhos, possa ajudar a estabelecer associação entre percepções aparentemente remotas. Essas conexões são capazes de ajudar a solucionar enigmas que nos perturbam antes de adormecermos.

Benefícios semelhantes podem surgir durante a vigília, ao deixarmos a mente vagar ou nos distrairmos deliberadamente. Em um experimento, o psicólogo Ap Dijksterhuis e seus colegas propuseram a um grupo que inventassem novos nomes para produtos. Os voluntários que tiveram a tarefa dividida em duas etapas e intercalada com outra diferente criaram nomes mais originais que os que trabalharam com o problema de forma contínua. Em estudos posteriores, a equipe de Dijksterhuis demonstrou que o processamento inconsciente poderia produzir respostas para problemas complexos, que exigem acesso ao conhecimento armazenado. Estes resultados sugerem que, se estiver se debatendo com um problema difícil, vale a pena fazer uma pausa e se ocupar com outra coisa.