ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 9: 18-26

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 A Ressurreição da Filha de um Chefe

Temos aqui duas histórias colocadas juntas: a da ressurreição da filha de Jairo e a da cura da mulher que tinha um fluxo de sangue, enquanto Jesus se encaminhava para a casa de Jairo, esta inserida em um parêntese, no meio da primeira história; pois os milagres de Cristo eram muito espalhados e entrelaçados; a obra daquele que o enviou era seu trabalho diário. Ele era convocado a fazer essas boas obras, dizendo o que aconteceria no futuro, e respondendo aos sofismas dos fariseus (v. 18). Enquanto Ele falava dessas coisas, foi interrompido e podemos supor que esta foi uma agradável interrupção em meio ao desagradável trabalho de debater, pois, às vezes, é necessário que um homem bom abandone uma discussão, com prazer, até que cuide de algum ato de oração ou caridade. Neste ponto, temos:

I – O chefe dirigindo-se a Cristo (v.18). Um certo administrador, um chefe da sinagoga, chegou e o adorou. Algum dos chefes cria nele? Sim, aqui estava um, um chefe da sinagoga, cuja fé denunciava a incredulidade dos demais chefes. Este chefe tinha uma filha pequena, de doze anos de idade, que acabara de falecer, e esta violência contra o aconchego da sua família foi a oportunidade que ele teve para ir a Cristo. Note que quando temos problemas devemos buscar a Deus. A morte de nossos parentes deve nos levar a Cristo, que é a nossa vida; seria bom se tudo nos levasse a Ele. Quando a aflição atinge as nossas famílias, não devemos ficar sentados atônitos, mas, como Jó, devemos nos ajoelhar e orar.

Agora observe:

1.Sua humildade ao dirigir-se a Cristo. Ele próprio foi até Cristo com sua missão. Ele não enviou um de seus criados. Note que não é depreciativo para os maiores governantes ir pessoalmente até o Senhor Jesus. Esse o adorou, ajoelhou-se diante dele e lhe prestou todo o respeito. Aqueles que recebem a compaixão de Cristo devem reverenciar a Cristo.

2.Sua fé: “Minha filha faleceu agora mesmo”. Embora a chegada de qualquer outro médico fosse agora muito tardia (nada mais absurdo do que a medicina pós-morte), Cristo, entretanto, chegou a Ele é o médico da pós-morte, pois Ele é a ressurreição e a vida: “Mas vem, impõe-lhe a tua mão, e ela viverá”. Isto estava bem acima do poder natural, mas ao alcance dos poderes de Cristo, que tem em si mesmo a vida, e o poder de dar a vida a quem Ele quiser. Cristo opera hoje de uma forma tão poderosa quanto no passado. Às vezes, Ele não age de acordo com a natureza, a natureza que Ele criou e que lhe pertence. Portanto, sempre podemos lhe fazer um pedido desse tipo. Humanamente falando, enquanto houver vida, haverá esperança e espaço para a oração; mas quando nossos parentes e amigos morrem, o caso está humanamente decidido; nós iremos a eles, mas eles não retornarão a nós. Porém, quando Cristo está presente, Ele age realizando milagres; uma confiança como essa não é somente admissível, mas muito louvável.

II – A prontidão de Cristo em concordar com o pedido daquele homem (v. 19). Jesus se levantou imediatamente, deixou seus acompanhantes e o seguiu. Ele não só queria conceder o que o homem desejava, ressuscitando a sua filha, mas gratificá-lo a ponto de ir à sua casa para fazê-lo. Certamente, Ele nunca disse à semente de Jacó: Vós me buscais em vão. Ele se negou a ir com o nobre que disse: “Senhor, desce, antes que meu filho morra” (João 4.48-50), todavia Ele acompanhou o chefe da sinagoga que disse: Senhor “vem… e [minha filha] viverá”. A variedade de métodos que Cristo usa par a realizar seus milagres talvez deva ser atribuída às diferentes disposições de espírito e humor em que se encontravam aqueles que recorriam a Ele, algo que Ele, que examina o coração, conhecia perfeitamente, e à qual se adequava. Ele conhece tudo sobre cada pessoa, inclusive todos os pensamentos do homem e qual é a melhor direção para conduzir cada um. Observe que quando Jesus seguiu o homem, seus discípulos também o fizeram; eles eram aqueles que Ele havia escolhido como os seus companheiros constantes. Não era para fazer declarações ou observações que Ele levava seus acompanhantes consigo, mas para que aqueles que seriam os pregadores da sua doutrina no futuro pudessem ser testemunhas de seus milagres.

III – A cura da pobre mulher que tinha um fluxo de sangue. Eu a chamo de pobre mulher, não apenas porque seu caso era comovente, mas porque ela havia gastado tudo com médicos, na busca da cura para sua enfermidade, sem nunca ter ficado melhor; o que dobrava a sua condição de miséria, pois ela tivera muito, mas nada tinha agora; e empobrecera tentando recuperar a sua saúde e não conseguiu. Essa mulher estava doente de um fluxo de sangue há doze anos (v. 20); uma doença que não era somente debilitante e destruidora, e sob a qual o corpo necessita de descanso total, mas que a tornara cerimonialmente impura e a mantinha fora das dependências da casa do Senhor; porém não a impedira de se aproximar de Cristo. Ela própria recorreu a Cristo e recebeu a sua misericórdia no caminho, enquanto seguia o chefe da sinagoga, cuja filha estava morta, e para quem isso seria um grande encorajamento e uma ajuda para preservar a sua fé no poder de Cristo. Com que benevolência Cristo considera a situação e leva em conta a situação dos crentes frágeis! Observe:

1.A grande fé da mulher em Cristo e em seu poder. A doença da mulher era de tal natureza, que a sua modéstia não lhe permitia falar abertamente com Cristo sobre uma cura, corno faziam os outros, mas por um impulso peculiar do Espírito de fé, ela acreditou que Ele tinha uma tão completa abundância de virtude, que o simples toque em sua vestimenta traria a sua cura. Alguns podem considerar que talvez a atitude da mulher tivesse sido um tanto fantasiosa, ou seja, um sentimento fantasioso misturado com fé; pois não havia um precedente dessa maneira de pedir a Cristo, a menos que, como alguns pensam, ela tivesse em vista a ressurreição de um morto pelo toque nos ossos de Eliseu (2 Reis 13.21). Mas qualquer que fosse a falta de entendimento aqui, Cristo ficou contente ao considerar e aceitar a sinceridade e a força de sua fé; pois Ele come o favo e o mel (Cantares 4.11). Ela acreditava que seria curada se apenas tocasse a orla de suas vestes, a simples borda da roupa do Senhor. Note que existe virtude em cada coisa que pertence a Cristo. O óleo precioso com que o sumo sacerdote era ungido, descia até a orla de suas vestes (SaImos 133.2). A plenitude de graça que há em Cristo é tamanha, que todos nós podemos dela receber virtude (João 1.16).

2.A notável generosidade de Cristo para com essa mulher. Ele não suspendeu (como poderia ter feito) suas influências curativas, mas tolerou que esta tímida paciente conseguisse um a cura desconhecida de todos os outros, embora ela não pudesse fazê-lo sem que Ele o soubesse. E agora ela partia muito contente, pois tinha alcançado o que viera buscar, mas Cristo não queria que ela partisse assim. Ele não só teria seu poder engrandecido na cura dela, mas a sua graça engrandecida no bem-estar e admiração da mulher: as vitórias da sua fé devem ser para honra e elogio dela. Ele se voltou para vê-la (v. 22), e logo a achou. Note que é um grande incentivo para os cristãos humildes saber que mesmo estando imperceptíveis aos homens, são amplamente conhecidos por Cristo, que vê em segredo a sua dedicação às coisas celestiais, mesmo quando estão isolados. Nessas circunstâncias:

(1) Ele põe alegria no coração da mulher, através desta palavra: “Tem bom ânimo, filha” (versão RA). Ela temia ser censurada por chegar de forma clandestina, mas é encorajada.

[1] Ele a chama de filha, pois Ele falava com ela com a ternura de um pai, como fez com o paralítico (v. 2), a quem Ele chamou de filho. Cristo tem alívio pronto para as filhas do Sião, que são tristes de espírito, como Ana (1 Samuel 1.15). As mulheres que creem são filhas de Cristo, e Ele as reconhece como tais.

[2] Ele a convida a ter ânimo. Uma vez que Cristo a reconhece como uma filha, ela tem razão para se sentir assim! A consolação dos santos é baseada em sua adoção como filhos. O incentivo de Jesus para que ela tivesse ânimo trazia em si consolo (assim como suas palavras, “a tua fé te salvou”, traziam saúde). A vontade de Cristo é que o seu povo seja confortado, e é sua prerrogativa ordenar o consolo a espíritos perturbados. “Eu crio os frutos dos lábios: paz, paz” (Isaias 57.19).

(2) Ele honra a fé dela. A fé honra a Cristo acima de todas as demais coisas; por tanto, Ele a honra: ”A tua fé te salvou”. Dessa maneira, através da fé, ela conseguiu uma boa notícia. E, de todas as graças, Cristo coloca a maior honra sobre a fé; portanto Ele atribui maior honra àqueles crentes mais humildes, como acontece aqui com esta mulher que tinha mais fé do que pensava ter. Ela tinha razão para se sentir aliviada, não só porque estava curada, mas porque sua fé a curara; ou seja:

[1] Ela foi espiritualmente curada. A cura realizada nela foi o fruto e o efeito apropriado da fé, do perdão dos pecados, e da obra da graça. Note que podemos, então, ter um conforto abundante em nossas graças temporais quando elas são acompanhadas por essas bênçãos espirituais que são semelhantes a elas. Nossa comida e nossas vestes serão confortáveis quando, pela fé, formos alimentados com o pão da vida e vestidos com a justiça de Jesus Cristo. Nosso descanso e sono serão confortáveis quando, pela fé, repousamos em Deus e habitamos em paz nele. Nossa saúde e prosperidade serão confortáveis quando, pela fé, nossas almas prosperarem e tiverem saúde. Veja Isaias 38.16,17.

[2] Sua cura física foi fruto de sua fé e isso sem dúvida tornou a cura feliz e confortável. Aqueles de quem demônios foram expulsos, foram ajudados pelo soberano poder de Cristo; alguns, pela fé de outros (como no v. 2); mas alguns, por sua própria fé- “a tua fé te salvou”. Note que as graças temporais são, sem dúvida, alívios para nós quando são recebidas pela fé. Se, quando buscarmos a graça, orarmos por ela com fé, tendo em vista a promessa e a confiança nela, se a desejarmos por amor à glória de Deus e com submissão à sua vontade, e tivermos nossos corações ampliados por ela na fé, no amor e na obediência, poderemos dizer, então, que ela foi recebida pela fé.

IV – A condição em que Jesus encontrou a casa do chefe da sinagoga (v. 23): Ele viu “… os instrumentistas e o povo em alvoroço”. A casa estava agitada: quanto trabalho a morte causa quando atinge uma família. Talvez os cuidados necessários que surge m nessa ocasião, quando o morto precisa ser sepultado decente­ mente, longe da nossa vista, tragam alguma distração proveitosa ao pesar que tende a nos vencer, tornando-se como um tirano. As pessoas da vizinhança se juntam para dar as condolências pela perda, para confortar os pais, para preparar e acompanhar o funeral, que os judeus não costumavam adiar por muito tempo. Os músicos estavam entre eles, conforme o costume dos gentios, com suas canções tristes e melancólicas, para aumentar o pesar e incitar as lamentações daqueles que compareciam a esta ocasião. Dessa maneira, eles se entregavam a uma paixão que é capaz, por si só, de sair de controle, e eram influenciados pela tristeza como os desesperançados. Veja como a religião cristã fornece medicamentos estimulantes onde a descrença administra medicamentos cáusticos. O paganismo agrava a dor que a cristandade busca suavizar. Ou talvez esses músicos tentassem, por outro lado, desvira a dor e alegrar a família; mas “o que entoa canções junto ao coração aflito é como… vinagre sobre salitre” (Provérbios 25.20). Observe que os pais, que foram tocados imediatamente pela aflição, estavam em silêncio, enquanto as pessoas e os instrumentistas, cujas lamentações eram forçadas, faziam um grande alarido. A dor mais escandalosa nem sempre é a mais profunda; os rios são mais ruidosos quando estão rasos. Mas isto é mencionado para mostrar pela indubitável apreensão de todos pela menina, que ela estava, de fato, morta.

V – A reprovação de Cristo a essa confusão e barulho (v. 24). Ele disse: “Retirai-vos”. Note que, às vezes, quando a tristeza do mundo prevalece, é difícil para Cristo e seu conforto adentrarem a vida das pessoas. Aqueles que se endurecem na tristeza, e, como Raquel, se recusam a ser consolados, devem pensar que estão ouvindo Cristo dizendo a seus pensamentos angustiantes: “Retirem-se, abram espaço para aquele que é a Consolação de Israel e traz consigo alívios poderosos, fortes o suficiente para superar a confusão e a tirania desses sofrimentos terrenos”. Ele dá uma boa razão pela qual eles não devem inquietar-se, ou aos outros: ”A menina não está morta, mas dorme”.

1.Esta era a verdade no caso dessa jovem, que seria imediatamente trazida de volta à vida. Ela estava de fato morta, mas não para Cristo, que já sabia o que poderia e iria fazer, e que havia determinado que a morte dela não fosse nada mais que um sono. Há pouca diferença entre o sono e a morte, exceto na duração; qualquer outra diferença que exista, nada mais é do que um sonho. Esta morte deve ser de curta duração e, portanto, nada mais é do que um sono, como o descanso de uma noite. Aquele que vivifica os mortos, pode bem chamar as coisas que não são, como se já fossem (Romanos 4.17).

2.Isto é verdade, sob certo sentido, em relação a todos os que morrem, especialmente aqueles que morrem no Senhor. Note:

(1) A morte é comparada a um sono. Todas as nações e línguas, para suavizar aquilo que é tão terrível e também tão inevitável, e para se reconciliarem com ela, concordaram em chamá-la assim. É dito, mesmo dos reis perversos, que eles dormiram com seus pais; e daqueles que ressuscitarão para o desprezo eterno, que eles dormem no pó da terra (Daniel 12.2). Não se trata de um sono da alma, pois a sua atividade não pára; mas é o sono do corpo, que descansa no túmulo, imóvel, silencioso, indiferente e negligenciado, agasalhado pela escuridão e obscuridade. O sono é uma morte curta, e a morte é um sono longo. Mas a morte dos justos deve ser olhada de modo especial como um sono (Isaias 57.2). Eles dormem em Jesus (1 Tessalonicenses 4.14); eles não só descansam dos trabalhos e das labutas diárias, mas descansam na esperança de um despertar prazeroso na manhã da ressurreição, quando acordarão renovados, acordarão para uma vida nova, acordarão para serem ricamente vestidos e coroados, e acordarão para nunca mais dormir.

(2) A reflexão sobre isto deveria suavizar o nosso sofrimento por ocasião da morte de nossos entes queridos: “Não diga que eles estão perdidos. Não. Eles apenas partiram antes. Não digam: Eles estão mortos; não, eles apenas dormem; e o apóstolo fala disso como uma coisa absurda, imaginar que aqueles que dormem em Cristo, estão perdidos (1 Coríntios 15.18). Dê espaço, portanto, para os consolos ministrados pelo pacto da graça, trazidos do esplendor futuro e da glória que há de ser revelada”.

Entretanto, como se poderia pensar que uma palavra de conforto como esta, da boca de nosso Senhor Jesus Cristo, fosse ridicularizada como foi? Eles riram dele em escárnio. Essas pessoas que viviam em Cafarnaum conheciam o caráter de Cristo, e que Ele nunca dizia uma palavra irrefletida ou insensata. Eles sabiam quantas obras importantes Ele havia feito; de modo que se não entendiam o que Ele quis dizer, poderiam pelo menos ter permanecido em silêncio aguardando o desenrolar do caso. Note que mesmo as palavras e as obras de Cristo que não podem ser compreendidas não podem ser menosprezadas. Devemos venerar o mistério das palavras divinas, mesmo quando elas parecem contradizer aquilo em que mais confiamos. Isto levava à confirmação do milagre: ela estava de fato morta, e as pessoas tinham tanta certeza desse fato, que consideravam muito ridículo afirmar o contrário.

 VI – A ressureição da menina pelo poder de Cristo (v. 25). As pessoas foram retiradas. Os zombeteiros que riem do que veem, e do que ouvem, e do que está acima de sua capacidade, não são testemunhas apropriadas das maravilhosas obras de Cristo, cuja glória se apoia não na ostentação, mas no poder. Lázaro e o filho da viúva de Naim foram ressuscitados em público, mas esta menina, em particular; pois Cafarnaum, que havia desdenhado os milagres melhores de restauração da saúde, não era digna de ver o maior, a restauração de uma vida. Essas pérolas não deveriam ser espalhadas diante daqueles que as pisoteariam sob seus pés.

Cristo entrou e a tomou pela mão, como se fosse para acordá-la e ajudá-la a levantar-se, persistindo na sua própria metáfora de que ela estava dormindo. O sumo sacerdote, que tipificava Cristo, não deveria se aproximar nem tocar um corpo morto (Levíticos 21.10,11), mas Cristo tocava os mortos. O sacerdócio levítico abandona os mortos em sua impureza; por esta razão, as pessoas se mantêm distantes deles, pois não podem curá-los; mas Cristo, tendo o poder de ressuscitar os mortos, está acima das enfermidades e, portanto, não tem qualquer receio de tocá-los. Ele a tomou pela mão e a menina se levantou. O milagre foi realizado fácil e eficazmente; não através da oração, como fizeram Elias (1 Reis 17.21) e Eliseu (2 Reis 4.33), mas através de um toque. Eles o fizeram como servos, porém Ele como o Filho, como Deus, a quem pertencem as questões relacionadas à morte. Note que Jesus Cristo é o Senhor das almas, Ele as leva de um lado para o outro, quando e como lhe agrada. As almas dos mortos não ressuscitam para a vida espiritual, a menos que Cristo as tome pela mão: isto é feito no dia do seu poder. É Ele que nos eleva, ou permanecemos mortos.

VII – O amplo comentário feito sobre este milagre, embora tenha sido realizado em particular (v. 26). A fama desse milagre se espalhou por toda aquela terra. Ele se tornou um objeto comum de discussão. As obras de Cristo são mais discutidas do que avaliadas e cultivadas. E, sem dúvida, aqueles que apenas ouviram o relato dos milagres de Cristo eram tão responsáveis quanto os que foram testemunhas oculares. Embora não tenhamos visto os milagres de Cristo, mas tendo uma autêntica versão deles, estamos obrigados, por essa fé, a aceitar sua doutrina; e bem-aventurados os que não viram e creram (João 20.29).

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GESTÃO E CARREIRA

CUIDADO COM EMOJIS

Cuidado com os emojis

Troca de mensagens de trabalho deve ser clara e direta.

 Pesquisadores das universidades de Amsterdã (na Holanda), Ben-Gurion e Haifa (as duas últimas em Israel) lançaram o estudo The Dark Side of a Smiley, alertando para o perigo de usar, no trabalho, emojis, memes e siglas típicas de conversas em meio digital, como LOL (caindo na risada). Mesmo considerando que na era digital seja difícil resistir ao uso desses códigos em e-mails, o estudo constatou que mensagens assim geram nos colegas a percepção de que o autor é menos competente.

Experimentos com mais de 200 universitários holandeses mostraram que sorrisos digitais não despertam as mesmas reações e prejudicam a comunicação. Diferentemente dos sorrisos “virtuais”, sorrir pessoalmente é uma manifestação emocional positiva, que expressa não só simpatia, mas também competência. O ditado “sorria e o mundo vai sorrir com você” só vale para o mundo não virtual. Se num primeiro encontro uma pessoa que sorri indica ser aberta, confiável e afetuosa, o uso de emojis em e-mails profissionais faz o oposto. O estudo se concentrou em testar a primeira impressão causada por mensagens formais, em ambientes de trabalho, que usavam emojis. E comparou essa impressão coma causada por fotos de pessoas sorrindo.

Plataformas de trabalho online precisam ser usadas intensamente como meio de diálogo entre colegas e times. Para ser eficiente, organizações e equipes precisam de políticas claras sobre a forma e o conteúdo das mensagens, sobretudo na comunicação entre membros de um mesmo projeto que estejam separados pela distância. A comunicação se torna ainda mais delicada se os colegas pertencem a culturas distintas. As plataformas são de uso interno, mas seus usuários devem se preocupar com postura e conteúdo como se fossem públicas. E, como resume o estudo, todo conteúdo que não for relevante para o trabalho é apenas ruído.

 

Fonte: Revista Época Negócios – Edição 133

PSICOLOGIA ANALÍTICA

QUANDO A BUSCA PELA SAÚDE FAZ ADOECER

Quando a busca pela saúde faz adoecer

Ficar atento à procedência e à qualidade dos alimentos que ingerimos, assim como escolher opções condizentes com nossas crenças na hora de comer, parece – pelo menos em princípio – um comportamento saudável tanto para o corpo quanto para a mente. No entanto, a preocupação excessiva com esse tema pode se transformar em obsessão. A ortorexia é uma síndrome insidiosa, difícil de ser diagnosticada e cada vez mais comum entre pessoas bem informadas.

 “Eu vivia numa rede de proibições.  Seguia uma dieta completamente vegana, baseada apenas em legumes, totalmente livre de glúten, óleo, açúcares refinados, farinhas, condimentos. A minha vida dependia daquilo que eu podia e não podia comer e de quais ali- mentos podia ou não associar.” Com essas palavras, Jordan, uma garota culta e atlética, encerrou seu blog The Blonde Vegan, com milhares de seguidores, em 23 de junho de 2014. Nos meses anteriores, ela havia perdido peso, estava sempre cansada e com fome, não menstruava mais e estava obcecada pela qualidade da comida. Jordan estava ortoréxica.

A ortorexia – literalmente “apetite correto” – é uma obsessão compulsiva por uma alimentação saudável. Descrito pela primeira vez em 1997 pelo nutrólogo americano Steven Bratman numa revista de ioga, o quadro alcançou visibilidade no meio acadêmico em 2004, com a publicação de um artigo a respeito do primeiro estudo sobre o assunto no periódico científico Eat and Weight Disorders, de autoria de um grupo italiano coordenado pelo pesquisador Lorenzo Maria Donini.

“Eram os tempos da vaca louca; havia muita preocupação com o tema na Europa   e decidimos entender melhor o fenômeno”, conta o nutrólogo e docente de alimentação e nutrição humana na Universidade de Roma La Sapienza. “O estudo revelou uma realidade além de nossas expectativas”, diz. Geralmente, tudo começa com o desejo de controlar a própria alimentação, na ilusão de alcançar um nível de saúde “perfeita”. Diferentemente das pessoas anoréxicas ou bulímicas, os ortoréxicos não se preocupam com a quantidade de comida que consomem, mas com a sua qualidade. Para eles, a perda de peso não é um objetivo fundamental. Em alguns casos, porém, jejuam (em geral sem orientação médica) para evitar in- gerir alimentos que consideram contamina- dos ou perigosos para a saúde – chegando, raramente e em casos extremos, à morte por inanição.

 O BRÓCOLIS MÁGICO

A síndrome insidiosa leva profissionais da saúde a questionar: em que momento o interesse numa dieta saudável, algo em princípio tão benéfico, se torna patológico? “Quando essa preocupação é marcada por uma rigidez excessiva e pelo evitamento arbitrário de certos alimentos, a ponto de provocar carências nutricionais e energéticas graves”, responde Liliana Dell’Osso, psiquiatra e diretora da Escola de Especialização em Psiquiatria da Universidade de Pisa. A., um homem de 28 anos, pesava 43 quilos (a metade de seu peso ideal, de acordo com sua altura) quando passou a ser acompanhado pelo psiquiatra Ryan Moroze, professor da Universidade do Colorado em Denver, que em 2015 descreveu o caso no periódico científico Psychosomatics. Por três anos, A. ingeriu apenas shakes proteicos que preparava em casa, dissolvendo em água envelopes de aminoácidos em pó. O rapaz começou a limitar sua dieta devido a uma constipação intestinal, mas com o tempo seus motivos mudaram e ele passou a escolher a comida com base na sua origem, insistindo que seu corpo era “um templo” e que aquilo que comia deveria fornecer “tijolos puros” que o mantivessem saudável. A teoria parecia boa, mas no momento da hospitalização ele não apenas estava gravemente malnutrido, mas também sofria de constipação, tinha um déficit grave de testosterona, os dentes e ossos fracos, os glóbulos brancos e as plaquetas estavam bastante baixos e o coração batia muito lentamente. Parecia confuso e continuava a falar do brócolis e das suas propriedades mágicas.

Ideias que não se sustentam racionalmente são típicas de pacientes ortoréxicos. Com base em informações corretas, muitos elaboram teorias mirabolantes. Se a pessoa lê num livro que o corpo humano é constituído de 70% de água, pode deduzir que 70% daquilo que come deve conter muita água. Um pensamento ilógico, porque a água ingerida com os alimentos corresponde só a uma porcentagem mínima da água corporal, que é fisiologicamente regulada pelo organismo.

Segundo uma teoria crudivorista, mastigar muito rápido impede a digestão gástrica das proteínas e a absorção dos aminoácidos. Entretanto, ainda que seja verdade que a digestão começa na boca, graças à mastigação e à presença de algumas enzimas na saliva, só conseguimos digerir os alimentos graças ao sistema gastrointestinal.

Dietas mais leves poderiam favorecer experiências mais sutis. Faz sentido se pensarmos que, se o organismo não gasta tanta energia com a digestão de alimentos mais pesados, a pessoa fique mais desperta para práticas de meditação, por exemplo. O risco, porém, é reduzir um conceito no outro, de forma simplista.

No entanto, a obsessão com a qualidade dos alimentos geralmente não é ligada a crenças religiosas ou a preocupações com o meio ambiente e o bem-estar dos animais – mas sim ao medo de doenças transmitidas pela comida, como a vaca louca ou a gripe aviária, bem como à desconfiança em relação aos conservantes ou corantes”, explica Dell’Osso. Ela reconhece que muitas dessas preocupações são justificáveis, o que prejudica é o excesso de autorrestrições.

Inicialmente, os ortoréxicos estão – de forma mais ou menos racional – preocupados de fato com a saúde. Depois, essa preocupação, como afirma Dell’Osso, “vai ficando mais invasiva, obsessiva, a ponto de se tornar, se não o único, certamente o seu principal ponto de interesse; um verdadeiro e total fanatismo alimentar”. A comida deve ser pura, ou seja, genuína, incontaminada, não processada, natural. No supermercado, controlam atentamente a origem dos ali- mentos, buscam saber como são produzidos, conservados e embalados. O problema é que o escrutínio se torna implacável e as compras, uma investigação.

O limite é tênue: procurar saber se os tomates foram tratados com pesticidas, se o leite vem de uma criação na qual as vacas recebem hormônios, se as verduras grelha- das conservaram os nutrientes durante o cozimento e se a embalagem da salada contém plástico cancerígeno é válido, mas, se essas preocupações se tornam o centro da vida de uma pessoa, é sinal de que algo não vai bem.

A preparação das refeições, por exemplo, pode se transformar numa operação extremamente complexa: somente algumas comidas podem ser consumidas juntas, ou então certo alimento pode ser ingerido somente em determinado momento. Fora das refeições, a comida é pesquisada, catalogada, pesada, planejada; torna-se um pensamento constante a ponto de prejudicar até mesmo os estudos, o trabalho, as relações pessoais.

O alimento tem grande valor social, mas, para um ortoréxico, ir a um restaurante equivale a perder o controle sobre a alimentação e se torna motivo de profunda angústia. “Imerso no próprio fanatismo, o ortoréxico torna-se intolerante com aqueles que não seguem as suas regras, e isso leva inevitavelmente ao isolamento social”, diz Dell’Osso. O que preocupa especialistas é que o comportamento surge de uma preocupação legítima e saudável, mas pode evoluir de tal forma que prejudica os âmbitos físico, psicológico e social. “Já temos registros de casos em que essa visão obsessivo-paranoica a respeito da pureza da comida afeta famílias inteiras e as crianças, muitas vezes desde o nascimento”, observa Dell’Osso.

MAL NUTRIDOS E SOLITÁRIOS

Aos 28 anos, M. se afastou da família por causa do distúrbio. A jovem só comia verduras cruas por acreditar que misturar diversos tipos de proteínas e nutrientes na mesma refeição produziria toxinas. O seu caso, descrito em um artigo científico de 2005 pela psiquiatra Catalina Zamora, é emblemático. O texto relata que aos 14 anos um nutricionista aconselhou a paciente a eliminar da dieta todas as gorduras para controlar a acne. Aos 16 anos, ela decidiu seguir uma dieta ovolactovegetariana. Aos 24, eliminou ovos e laticínios. Quando foi hospitalizada, pesava apenas 27 quilos.

“Na tentativa de se alimentar apenas de comida considerada genuinamente saudável, o ortoréxico acaba excluindo de seu cardápio um número cada vez maior de alimentos, chegando a restrições quantitativas muitas vezes comprometedoras”, afirma Dell’Osso. Esse comportamento pode levar a déficits nutricionais graves e às mesmas complicações que caracterizam as formas mais graves de anorexia: perda de massa óssea, alterações metabólicas como a acidose, déficits hormonais, braquicardia, anemia e pancitopenia (redução das células do sangue que pode levar, entre outras consequências, a um aumento do risco de hemorragias e infecções).

Do ponto de vista psicológico, as pessoas ortoréxicas costumam experimentar forte sentimento de frustração quando as regras alimentares são quebradas, ficam com nojo se a presumida pureza da comi-  da parece comprometida e sentem culpa e desprezo por si mesmas se cometem transgressões. Tudo é rodeado de uma constante preocupação com a saúde. Se o ortoréxico violar as suas prescrições, pode acabar experimentando o desejo de autopunição, que se manifesta com normas ainda mais rígidas ou práticas purificadoras como o jejum, ministrado de forma excessiva.

QUEM SE TORNA ORTORÉXICO?

A ortorexia é, com frequência, o espelho de um distúrbio mais profundo. “Que uma pessoa não beba leite se ele for pasteurizado não é por si só um problema. Mas por trás dessa linha de pensamento pode haver algum raciocínio específico, uma motivação mais profunda”, afirma Donini. Pessoas perfeccionistas, ansiosas, com tendências obsessivas e hipocondríacas podem ser mais propensas à ortorexia. Aqueles que se interessam muito pela alimentação, seja por motivos profissionais, para evitar doenças ou pela preocupação com a forma física, são os que correm mais risco de desenvolver um quadro ortoréxico. Ainda há poucos estudos sobre o tema, mas alguns levantamentos indicam que a patologia é mais frequente entre estudantes de nutrição e medicina e profissionais dessas áreas, além de artistas plásticos, atores e atletas. Um estudo publicado na Rivista di Psichiatria em 2016, realizado com 2.826 estudantes e funcionários da Universidade de Pisa, revelou que 32,7% dos participantes tinham “traços” ortoréxicos. Segundo o texto, as mulheres parecem mais inclinadas à ortorexia. A investigação foi conduzida por meio de um questionário autoaplicável, o ORTO-15. O teste, útil para identificar o “fanatismo alimentar”, foi idealizado em 2005 pelo grupo de Donini e é constituído por 15 perguntas que investigam hábitos alimentares, emoções e as preocupações ligadas à comi- da. A ferramenta, validada pela primeira vez em italiano e depois traduzida para diversas línguas, constitui o principal instrumento de diagnóstico para a ortorexia. A sua aplicação apresentou, porém, resultados heterogêneos, observando-se uma prevalência da doença entre 7% e 57% na população geral e até 82% em grupos de alto risco.

Especialistas advertem que, dentro de um espectro de comportamentos anormais, somente os casos mais extremos são realmente patológicos. Pode ser associada ao ORTO-15 uma versão modificada do MMPI (Minnesota Multiphasic Personality Inventory), um teste para a avaliação de traços obsessivo-compulsivos. Pensamentos invasivos relativos à comida, preocupações com qualidade e tendência a transformar as refeições em rituais parecem ser elementos bastante característicos do paciente ortoréxico. As obsessões do paciente ortoréxico são basicamente de caráter egossintônico, ou seja, congruentes com as suas necessidades e desejos e, portanto, não costumam ser consideradas um desconforto ou uma limitação, até que surjam efeitos colaterais graves desse comportamento. A incapacidade de compreender as consequências e os riscos aproxima os ortoréxicos dos anoréxicos. Há algo comum entre os dois distúrbios: a busca por um ideal, seja de magreza ou de saúde – no primeiro caso, com a alimentação reduzida e, no segundo, na escolha de comida da melhor qualidade. A obsessão dos anoréxicos pela imagem corporal e pela perda de peso em geral é estranha ao ortoréxico. O que é comum às duas condições é a ruminação contínua, o fato de retornar constantemente às próprias preocupações e sentimento de culpa depois da quebra, mesmo que involuntária, das rígidas regras alimentares, o que leva, geralmente, a um endurecimento ainda maior delas. Em raros casos, a ortorexia pode ser precursora de um distúrbio mais importante, como aconteceu com S., uma mulher de 33 anos. Em 2012, o psiquiatra indiano Sahoo Saddichha acolheu no Instituto para a Saúde Mental e Neurociências de Bangalore a paciente muito abaixo do peso e em estado de confusão mental. O caso foi reportado no Schizophrenia Research. Nos oito anos anteriores, S. havia seguido uma dieta baseada exclusivamente em frutas frescas, verduras e legumes crus e ovos não cozidos, na convicção de que cozinhar os alimentos os privaria das suas propriedades nutricionais. Rompeu relações com todos os parentes e amigos, exceto com a mãe, a quem convenceu a seguir a mesma dieta. Nos últimos meses, desenvolveu sintomas aparentemente esquizofrênicos, com ideias paranoicas recorrentes sobre sofrer perseguição da família e de conhecidos. O evento, no entanto, é excepcional; geralmente, os casos de pacientes ortoréxicos descritos na literatura são poucos e extremos e poderiam ser apenas a ponta do iceberg de um fenômeno difuso. “Numa sociedade na qual a alimentação saudável é um culto, esses problemas em geral não vêm à tona”, comenta Donini.

 SINTOMA ATUAL

Embasadas em convicções profundas e irracionais, as escolhas dos ortoréxicos não são discutidas com médicos ou especialistas, permanecendo invisíveis. “Lembro-me de pacientes que recusavam o leite pasteuriza- do acreditando que fosse um produto insalubre, porque era processado”, diz Donini. Mas quem é que vai ao médico porque não confia no leite UHT? Ninguém, porque essa ideia não é vista como um problema”.

Numa sociedade em que programas de TV e blogs fazem da alimentação “saudável” a sua bandeira, em que somos bombardeados por informações sobre os riscos de comer de forma incorreta e por recomendações sobre quanta fruta, gordura e proteína podem ser consumidas, um fenômeno como o da ortorexia não pode surpreender. “Hoje a manipulação da imagem corporal e a preocupação com a saúde tornaram-se tão importantes que constituem um terreno fértil para a manifestação de problemas psicológicos”, comenta Donini.

Nesse sentido, distúrbios alimentares podem ser considerados um fenômeno cultural; a sua manifestação depende da sociedade na qual se manifestam e se difundem. “O aumento de casos de anorexia, por exemplo, coincidiu com a ascensão de um padrão estético andrógino de mulher”, afirma Dell’Osso. “Já o transtorno da com- pulsão alimentar periódica veio após a difusão de ofertas de alimentos que contrapõem a extrema palatabilidade e a acessibilidade econômica à comida.” Alguns profissionais acreditam mesmo que a ortorexia seja uma espécie de “herdeira” da anorexia e se torne cada vez mais frequente.

FANATISMO NA REDE

O Instagram é um dos palcos preferidos dos apaixonados por gastronomia que querem exibir as próprias proezas culinárias: pratos típicos, doces feitos em casa, cafés da manhã elaborados. Mas a plataforma de imagens é também o espaço ideal para inventores

de dietas sem nenhuma competência científica com intenção de difundir a própria crença. Segundo uma pesquisa setorial da rede social, realizada nos Estados Unidos, 54% dos usuários utilizam o compartilhamento nas mídias para expor as próprias experiências culinárias e 42% o fazem para buscar conselhos sobre alimentação.

Um estudo da Universidade College London publicado este ano no Food and Weight Disorders revela que entre os usuários mais assíduos do Instagram os sintomas da ortorexia são mais frequentes. Segundo os autores, os motivos podem ser diversos.

Sobretudo, trata-se de uma iconografia social, e as imagens são mais memoráveis do que os textos. A hipótese é que a exposição contínua a fotografias de receitas saudáveis poderia surtir um efeito maior sobre as escolhas alimentares do que a leitura de posts sobre como seguir uma dieta balanceada.

Outra característica típica das mídias sociais é o efeito eco: o usuário tende a seguir perfis que reflitam a sua visão de mundo, ficando exposto a conteúdos que reforçam as suas ideias. Ao seguir apenas determinados perfis, a pessoa pode ser induzida a acreditar que certas dietas sejam mais difundidas do que realmente são, além sentir uma pressão social para encaixar-se num tipo específico de comportamento alimentar. Segundo essa linha de raciocínio, pessoas com alguma fragilidade emocional estariam mais vulneráveis, podendo ser encorajadas pela interação com outros usuários com ideias similares.

O ortoréxico corre o risco de déficits nutricionais graves, inclusive com consequências sérias para a saúde, enquanto do ponto de vista psicológico a sua obsessão por regras auto impostas pode se tornar um inferno.

 CRIANÇAS QUE RECUSAM COMIDA

Dificilmente os pequenos rejeitam biscoitos recheados e bolo, mas convencê-los a comer frutas e verduras pode ser muito difícil.

Sabe-se hoje que escolhas alimentares na infância derivam de uma complexa interação entre experiências emocionais, preferências gustativas individuais e de seus pais, habilidades cognitivas, capacidade de atenção e hábitos culturais. Nos últimos anos, porém, as proporções de cada um desses aspectos têm intrigado especialistas. Um estudo desenvolvido na Universidade de Roma La Sapienza e publicado pelo Journal of the American College of Nutrition revelou que, numa amostra de 127 crianças entre 2 e 6 anos, 20% recusavam uma ampla gama de alimentos, tanto os mais comuns quanto os desconhecidos, o que restringia significativamente sua dieta.

Uma pesquisa britânica publicada no periódico científico Appetite indicou que os obstáculos mais importantes ao aumento da variedade na dieta são representados pela neofobia alimentar (recusa em comer comidas nunca provadas antes). Esse é um comportamento determinado evolutivamente pela necessidade de evitar a ingestão de substâncias tóxicas quando as crianças se tornam suficientemente autônomas para pegar objetos na ausência dos pais.  As comidas vistas como desconhecidas são rejeitadas e, em geral, somente a exposição repetida ao novo alimento as convence a prová-lo.

O componente visual é parte essencial também na recusa dos enjoados para comer. Elementos como cor, forma, consistência e cheiro determinam a recusa ou a aceitação do alimento. A apresentação é importante: algumas crianças não gostam de comidas misturadas. Se as cenouras e o arroz, por exemplo, não estão bem distantes no prato, o pequeno percebe como uma “contaminação” e sente nojo. A reação pode ser evocada também pela associação de diferentes consistências, como a do iogurte e de pedaços de fruta. Evolutivamente, essa reação é compreensível, já que a mistura poderia (pelo menos teoricamente) mascarar algo nocivo, que faria mal a nossos ancestrais, de quem os pequenos teriam herdado o asco.

A criança costuma ser influenciada também pelas preferências da mãe e da forma como é educada, mas ser resistente para comer pode ser um traço da sua personalidade. Os alimentos mais evitados são aqueles de origem vegetal, por isso há o risco de uma carência de vitaminas, sais minerais e fibras. Para alívio dos pais, depois dos 6 anos a frequência desses comportamentos tende a diminuir.

Para driblar a dificuldade de aceitação de alimentos pelos pequenos, uma saída bastante eficiente costuma ser insistir no alimento recusado, apresentando-o de outras maneiras, além de envolver as crianças no seu preparo.

Talvez o mais importante, porém, seja mesmo a chamada “facilitação social”, ou seja, ver os outros consumirem o alimento evitado. Já forçar a ingestão é contraproducente.

POLÊMICAS DO JEJUM

Nos últimos anos, a adoção de dietas restritivas, nas quais a pessoa opta por se abster de alimentos por alguns períodos, tem ganhado adeptos. Embora a privação não seja consenso entre médicos e pesquisadores, vários cientistas argumentam que o jejum pode ser um aliado importante para a saúde, ajudando a combater a depressão e a estimular a reciclagem dos neurônios. Estudos feitos em animais revelam que a prática tem potencial para fortalecer a memória, aumentar a vitalidade e até diminuir sintomas de demência.

O pesquisador Dieter Melchart, professor de medicina complementar e alternativa da Universidade Técnica de Munique, afirma que o excesso de ingestão de alimentos ao qual nos habituamos nas últimas décadas deixa marcas que podem se traduzir em patologias como obesidade, diabetes, acidentes vasculares cerebrais (AVC), hipertensão, cardiopatias e Alzheimer. Mas ressalta: “Quem simplesmente ficar sem comer durante três dias, sem preparação para isso, provavelmente adoecerá e, em certos casos, pode até morrer”.

Em países da Europa e nos Estados Unidos já existem “clínicas de jejum”. De acordo com o especialista em biologia celular Valter Longo, da Universidade do Sul da Califórnia em Los Angeles, a restrição alimentar desacelera o envelhecimento e pode também ter efeito positivo no tratamento de alguns tipos específicos de câncer. “Há casos em que o jejum ajuda a combater a doença, mas também existem situações em que pode agravá-la; o limite entre o que faz bem e o que faz mal é muito tênue”, observa o doutor em farmacologia Gustavo Pereira, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que trabalha com modelos neuronais mimetizados em doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington in vitro, no Laboratório de Farmácia/Setor Modo de Ação de Drogas da universidade. (Por Ulrike Gebhardt, bióloga especializada em divulgação científica)

DIFICULDADE DE ACEITAR O TRATAMENTO

A ortorexia não figura nas classificações da edição mais recente do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM-5), adotado para o diagnóstico das patologias psiquiátricas. Ainda assim, especialistas argumentam que o paciente ortoréxico tem, antes de tudo, necessidade de suporte psicológico. Caso apresente também carências nutricionais, esteja abaixo do peso ou tenha problemas orgânicos, a abordagem deverá ser também médica, com direcionamento para a reeducação alimentar. “Mas sabemos que 90% da terapia é psicológica”, enfatiza o nutrólogo Lorenzo Donini, professor da Universidade de Roma La Sapienza. “Esses pacientes têm, sobretudo, problemas emocionais e sociais, agravados porque terminam se isolando.” Um tratamento psicoterápico combinado com medicação farmacológica e reeducação parece ideal, embora ainda não haja um número significativo de estudos que tenham verificado a eficácia dessas abordagens.

Talvez a maior dificuldade não seja tratar, mas sim diagnosticar o distúrbio, já que dificilmente o ortoréxico reconhece que tem um problema. “Observamos que essas pessoas veem o seu modo de se relacionar com a comida como um valor positivo, não como um valor negativo”, diz Donini.

 Quando a busca pela saúde faz adoecer2

 Quando a bisca pela saúde faz adoecer3

Fonte: Revista Mente e Cérebro – Edição – 297