PSICOLOGIA ANALÍTICA

RIR É COISA SÉRIA

Rir é coisa séria

O riso infantil – uma manifestação automática, independentemente da cultura ou língua nativa – pode revelar como os bebês pensam.

 

Meu filho tinha 3 meses quando deu sua primeira gargalhada. O fato de ele ter feito isso num funeral foi mais do que irônico: foi constrangedor. Seu riso era tão poderoso que transformou a tristeza das pessoas ao redor em alegria – de forma simultânea e quase que instantaneamente.

Essa observação me motivou a fazer pesquisas empíricas sobre o surgimento do riso tão cedo na vida e o grande impacto que pode causar. Sou psicóloga do desenvolvimento e estudo o assunto há quase uma década em meu laboratório da Faculdade Estadual Johnson, em Vermont. Como eu, vários cientistas se sentem intrigados com a manifestação precoce da risada dos bebês e se perguntam o que isso pode revelar sobre os pequenos.

O riso é universal. É uma resposta automática que aparece nos primeiros meses de vida, independentemente da cultura ou língua nativa. Não importa se uma criança é criada no Canadá ou na Coreia, no Peru ou no Paquistão, sua primeira risada vai deleitar seus pais entre as 14 e 18 semanas de vida. Mas os cientistas, por outro lado, só começaram a compreender seu significado recentemente. Claro, a risada não é exclusivamente uma expressão de prazer. Em adultos, pode ocorrer em muitos contextos emocionais, como quando estamos nervosos, por exemplo, em resposta ao riso de terceiros ou simplesmente quando encontramos alguém. Mas por que as crianças riem? Talvez não tenha tanto a ver com o que acham engraçado. Até onde sabemos, não existe uma piada universal para bebês. (A gargalhada durante o funeral foi provocada pelo espirro de uma pessoa.) Devemos, portanto, considerar como os pequenos extraem o humor do ambiente em que estão.

Diferentemente do choro, que claramente incita o cuidador a entrar em ação, o riso parece ser um luxo emocional. O fato de um ser humano de apenas 3 meses acessar essa habilidade – muito antes de outros marcos significativos, como adquirir a linguagem e andar – sugere que os gracejos têm função importante e podem revelar muito sobre como as crianças compreendem o mundo físico e social.

 UMA COISA ENGRAÇADA

Não parece ser obra do acaso o riso ter sido priorizado e preservado na cadeia evolutiva. De fato, várias espécies, como chimpanzés, macacos, esquilos e outros primatas, fazem vocalizações em momentos de descontração que se assemelham a gargalhadas. Esses mamíferos (principalmente os mais jovens) exibem sons rítmicos próprios enquanto brincam juntos, com tom emocional.

O neuropsicólogo evolutivo Jaak Panksepp, pesquisador das universidades Estadual Bowling Green e Estadual de Washington, afirma que o cérebro de qualquer animal guarda circuitos neurais, similares aos nossos, relacionados com o riso. Essas áreas incluem centros emocionais e de memória, como a amígdala e o hipocampo. O riso parece “caminhar” pela superfície do córtex como uma resposta involuntária, ativando os sistemas neurais associados com o prazer. Um famoso estudo no qual Panksepp usou de tecnologias que permitem ouvir frequências altíssimas mostra que ratos emitem sons rítmicos quando lhes fazem “cócegas”.

Nos humanos, as risadas infantis ganharam a atenção de alguns estudiosos proeminentes. No século IV a.C., Aristóteles postulou que o primeiro sorriso marcava a transição da criança para a humanidade e servia de evidência primária de que ela tinha adquirido uma alma. Em 1872, Charles Darwin levantou a hipótese de que os gracejos, como outras expressões de emoção posturais, faciais e comportamentais, “serviam como um sinal social de mera felicidade ou alegria”. Em seu volume histórico, A expressão das emoções no homem e nos animais (Companhia de Bolso, 2009), o autor descreve meticulosamente o riso de seu próprio filho. Escreve: “Com 113 dias de vida, esses pequenos ruídos, que sempre eram feitos durante a expiração, as- sumiram caráter ligeiramente diferente e foram mais quebrados ou interrompidos, como no soluço; e isso foi certamente uma incipiente risada”.

A psicologia, no entanto, negligenciou o tema por décadas. Durante a maior parte de sua história, pesquisadores se concentraram principalmente em questões consideradas negativas, como raiva, depressão, ansiedade e doenças mentais. Essa tendência começou a mudar aproximadamente há 40 anos, quando alguns psicólogos decidiram estudar a felicidade, a psicologia do bem-estar e a resiliência à adversidade. A partir daí, nasce um subcampo conhecido como psicologia positiva.

Somente nos últimos 30 anos, os psicólogos do desenvolvimento adquiriram metodologias para fazer inferências sobre a cognição e as emoções das crianças. Num desses métodos, o “paradigma do olhar”, é cronometrado o tempo que os pequenos passam encarando algo. Vários estudos demonstram que os bebês tendem a focar mais um objeto novo, o que, no nível mais básico, revela que podem diferenciá-lo de algo familiar.

Em 1985, as psicólogas Elizabeth Spelke, agora na Universidade Harvard, e Renée Baillargeon, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, utilizaram a noção de paradigma do olhar para estudar o conhecimento conceitual dos bebês. As pesquisadoras apresentavam aos pequenos participantes do estudo cenários possíveis e impossíveis – por exemplo, um objeto que, de acordo com as leis naturais, não penetraria em uma barreira sólida. E, em seguida, mostravam uma situação semelhante que indica o contrário. Spelke e Baillargeon observaram que os bebês contemplavam os eventos inesperados por mais tempo. Os resultados levaram as psicólogas a deduzir que as crianças pequenas têm algumas expectativas simples sobre como os objetos se comportam – e, quando o que esperam não acontece, sua atenção é despertada. O fato é que essas mudanças são poderosos estímulos em relação ao humor.

Comediantes stand-up costumam explorar as expectativas para fazer o público rir. Fazem suspense e forçam os limites das normas e aceitabilidade para provocar a risada, seja com trocadilhos, críticas ou chistes. Para que algo seja cômico, a pessoa que conta e a que ouve a piada precisam de algum conhecimento comum. O humor, portanto, exige pelo menos alguma compreensão rudimentar do mundo físico e social. Esse entendi- mento pode se apoiar em experiência e observação, que oferecem o suporte para o que é “compartilhado”. Com essa base, podemos diferenciar o comum do absurdo.

A pesquisa que fiz em meu laboratório mostra que apenas quatro semanas depois que o riso aparece crianças de até 5 meses podem apresentar a diferença perceptual básica de forma independente. Em 2014, meus colegas e eu publicamos resultados de um experimento em que apresentamos eventos comuns e absurdos a 30 bebês. Por exemplo, um auxiliar pressionava e rolava uma bola de espuma vermelha (cenário comum) e, em seguida, a usava como um nariz (repetição absurda). Os bebês não só faziam distinção entre as cenas, como riam da última. A principal constatação foi que as risadas não eram uma imitação: ocorriam mesmo quando o ajudante e os pais eram instruídos a permanecer emocionalmente neutros.

Apenas alguns meses depois, por volta dos 8 meses, a maioria já sabe como ser engraçada e entende como fazer que os outros deem risada sem usar nenhuma palavra. A psicóloga Vasudevi Reddy, da   Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, chama de “clowning” (fazer palhaçada) essa forma de humor não verbal. Ela documentou crianças de 8 a 12 meses envolvidas com esse comportamento em suas mais variadas formas – por exemplo, ao fazer o movimento de vai e vem com a cantiga “Serra-serra-serrador” ou ao pegar uma fralda limpa, fingir nojo e soltar uma gargalhada.

Bebês com essa idade também sabem fazer provocações, como sorrir timidamente enquanto desobedecem de forma intencional às ordens da mãe ou do pai de, por exemplo, não subir as escadas ou oferecer sucrilhos ao cachorro. Esse “fingimento” foi observa- do em crianças ainda mais novas, de aproximadamente 6 meses, momento em que os pequenos já podem dissimular risadas (ou choro) para receber atenção.

Mais importante, os bebês podem criar interações e decidir quando e com quem empregar essas técnicas. O mais interessante é que essas brincadeiras e provocações podem oferecer uma janela para entendermos o funcionamento da consciência das crianças. Particularmente, o ato de desafiar exige pelo menos compreensão rudimentar da mente alheia; desejo de se envolver; e criação de hipótese de como atingir outra pessoa. Dissimular significa saber que alguém pode, na verdade, ser enganado. Essa compreensão refinada, chamada de teoria da mente, era, até alguns anos atrás, creditada apenas a crianças com pelo menos 4 anos. Embora os bebês não apresentem a sofisticação mental dos mais velhos, sua capacidade de provocar os outros sugere que tenham pelo menos algum nível desse tipo de consciência.

GRANDES EXPECTATIVAS

Clowning e provocação refletem a natureza essencialmente social do humor, mas, para que algo nos faça cair na gargalhada, precisamos mais do que apenas a presença de outros. Afinal, os bebês passam a maior parte do tempo com pessoas, mas proporcionalmente pouco tempo rindo. Isso ocorre porque o humor – seja para adultos ou crianças pequenas – requer um componente cognitivo: a incongruência.

Trata-se de uma situação que expressa uma espécie de contradição, que a psicóloga Elena Hoicka, professora da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, descreve como “misexpected” (mal antecipada, em tradução livre), o que significa criar um desalinhamento entre o que a criança supõe e o que experimenta. Eventos assim não são tão comuns. Por outro lado, acontecimentos verdadeiramente inesperados são completamente chocantes ou surpreendentes – e, como tais, podem ser percebidos como mais perturba- dores ou extraordinários do que engraçados. Por exemplo, quando um copo é usado como chapéu, não combina com a experiência prévia do bebê com copos (ou com chapéus). Mas, se o copo se transformasse em um antílope, a situação seria totalmente imprevisível. Bebês, crianças maiores e adultos consideram eventos inesperados interessantes, mas não necessariamente engraçados. Várias explicações surgem das pesquisas com o paradigma da quebra de expectativa. Quando alguém apresenta violações de leis físicas naturais a crianças pequenas – como gravidade, solidez, inércia –, elas costumam observar esses eventos “mágicos”, mas não riem. Contextualizando as ideias de Hoicka com a pesquisa sobre o olhar e o interesse infantil, podemos conjecturar que o humor se relaciona com as expectativas de comportamento social. Um brinquedo que voa pelo espaço e desafia a gravidade é motivo de admiração. Mas e a avó usando esse objeto na cabeça? Pode ser absolutamente hilário.

Teóricos do humor apresentam uma possível explicação com a ajuda de um fenômeno que chamam de resolução de incongruência. Perceber uma incoerência como humorística exige que ela seja resolvida, o que significa entender sua causa ou chegar ao “sentido da piada”. O instante em que o ouvinte decodifica a nuance ou o duplo sentido de um chiste verbal, por exemplo, é o momento de conclusão. É o ponto em que a natureza ilógica de “por que a galinha atravessou a rua” se torna humorística, seja ou não acompanhada por risadas.

Há 40 anos, muitos psicólogos cognitivos estavam convencidos de que os bebês não tinham sofisticação suficiente para resolver a incongruência. As psicólogas Diana Pien e Mary Rothbart, ambas então da Universidade de Oregon, propunham que a percepção do humor não exigia necessariamente habilidades mentais avançadas. Em um estudo publicado em 2012, meus alunos e eu decidimos testar a ideia.

Pedimos a 30 pais que “agissem como de costume” para fazer seu bebê sorrir ou dar risada e observamos que eles recorriam exageradamente ao clowning. Faziam barulho com a boca, caretas estranhas, caminhavam como pinguins – na maioria das vezes, interações cotidianas comuns. O comportamento, no mínimo, chamava atenção da criança. Começamos a monitorar essas famílias quando os filhos estavam com 3 ou 4 meses e continuamos até completarem o primeiro ano. No início, 40% davam risada em resposta às brincadeiras dos pais; por volta dos 6 meses, esse número havia subido para 60%.

Os bebês não precisam de muito para resolver situações mal antecipadas e achar graça delas. De fato, eles se baseiam em pelo menos três pistas disponíveis. O contexto social é um deles: atos absurdos feitos por um parceiro social podem ser suficientes para a criança interpretar o comportamento como positivo. Meus colegas e eu observamos que os pais praticam clowning, às gargalhadas, em 65% das vezes. Essa combinação sinaliza que as travessuras são seguras, satisfatórias e alegres.

O segundo fator é a familiaridade. As pessoas que convivem com os bebês costumam repetir “ações tolas” até que a criança dê risada e, então, continuar justamente porque ela riu. Talvez a reiteração do cuidador permita que o bebê preveja a ação e seu resultado ou que faça inferência sobre o ato de forma intencional. Equilibrar a colher no nariz, brincadeira comum dos pais, não é interpretado por quem assiste como algo inesperado se a cena acontece inúmeras vezes. A psicóloga Amanda Woodward, agora da Universidade de Chicago, demonstra que, a partir do primeiro aniversário, as crianças podem inferir a intenção da fala e das ações dos outros.

Por último, bebês diferenciam incongruências extraordinárias e humorísticas considerando que estas últimas são possíveis. Ou seja: não há nada de mais em ver a mamãe usar um copo como chapéu. A natureza comum dos eventos engraçados pode levar as pessoas (incluindo os bebês), para além dessa condição inicial de admiração, a um estado final de humor.

Seja qual for a estratégia, evidências experimentais mostram que, embora os bebês comecem a rir com aproximadamente 5 meses, eles podem começar a achar graça ainda mais cedo. As crianças de 4 meses que participaram do nosso estudo observavam situações cômicas com fascínio, registrando uma significativa desaceleração da frequência cardíaca. Essa resposta fisiológica é exibida quando mostram o mesmo interesse em um estímulo, bem como quando sorriem.

 CALMA FISIOLÓGICA

O psicólogo Stephen Porges, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, argumenta que a desaceleração da frequência cardíaca não reflete necessariamente a alegria, mas a disposição da criança para o prazer. Quando confrontados com algo novo, os bebês costumam encarar, uma resposta acompanhada por uma desaceleração da frequência cardíaca. Segundo o pesquisador, essa calma fisiológica funciona como estratégia que permite à criança permanecer orientada para um estímulo desconhecido e não ameaçador. Quando essa reação é combinada com seu viés para a sociabilidade, os bebês podem se beneficiar dessa resposta tranquila, encontrando prazer no absurdo.

Nosso trabalho sugere que as crianças realmente podem perceber e fazer humor., mas nem todo riso se relaciona com diversão. Embora não existam provas de que as crianças deem risada em momentos de desconforto, sabemos que os adultos têm a capacidade de sorrir sem alegria – e que, de fato, muitas vezes, agem assim. Essa observação pode ajudar a conhecer o propósito mais profundo do fenômeno.

Independentemente de como se desenvolve, sabemos que a risada é social. Os psicólogos Robert Kraut e Robert Johnston, falecido em 2014, ambos da Universidade Cornell, inauguraram o campo da psicologia evolutiva com um estudo histórico de 1979, demonstrando, entre outras coisas, que joga- dores de boliche eram mais propensos a sorrir não após um strike, mas depois de encarar o público logo em seguida à jogada de sucesso. O psicólogo Robert Provine, da Universidade de Maryland, do Condado de Baltimore, revela que a risada é 30 vezes mais provável de ocorrer na companhia de alguém, independentemente de algo divertido acontecer. A pesquisa de Provine mostra que o sorriso geralmente vem logo depois de comentários banais, como “Melhor me apressar” ou “Bom te ver!” – mais frequentemente até do que no final de uma piada. Além disso, podemos nos divertir sem dar nenhuma risada.

Para os mais novos, o riso parece indicar tanto emoções positivas como vínculos afetivos. E, na fase adulta, nos mantém conectados e em harmonia, propõem os psicólogos evolucionários Robin Dunbar, da Universidade de Oxford, e Guillaume Dezecache, da Universidade de Neuchâtel, na Suíça. A ideia é apoiada, sobretudo, pela característica contagiante do riso em contextos grupais, mesmo entre estranhos. As gargalhadas, portanto, servem como uma espécie de cola social, com muitos significados possíveis. O riso nervoso de um pode induzir o outro a oferecer uma palavra de conforto, enquanto uma risada irreverente pode sinalizar que a provocação é apenas uma brincadeira. Elena Hoicka descreve o que chama de “quadro humorístico”, em que parceiros sociais podem interagir de tal maneira que ambos interpretem uma interação, por exemplo, a pirraça, como positiva.

De fato, a maioria das crianças de 4 a 6 meses espera por emoções positivas. Ainda sem desconfiar de estranhos ou da separação dos cuidadores primários, os bebês em geral estão prontos para a interação com qualquer um, o que aumenta as oportunidades de brincar, dar risada e sorrir exatamente no momento em que esse tipo de resposta está disponível. Do ponto de vista evolutivo, esse surgimento conjunto de riso e sociabilidade é sábio.

O fato é que rir tem um lado sério. Seu valor como sinal social e supercola de mamíferos explica por que acreditamos que seja uma “peça de fábrica”, uma parte de algo nato dos bebês. Aos 4 meses, é mais provável que o riso dos pequenos seja o início neurológico de seu intenso interesse para a novidade e a valorização do contexto social de forma mais ampla. Mas, depois de um mês, eles já têm sofisticação cognitiva suficiente para detectar e interpretar eventos sociais novos e não ameaçadores como engraçados por si mesmos. Algumas semanas mais tarde, os bebês também podem produzir essas situações – para a alegria de quem está ao redor.

 

 GINA C. MIREAULT – é doutora em psicóloga do desenvolvimento, professora da Johnson State College, em Vermont.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

Uma consideração sobre “PSICOLOGIA ANALÍTICA”

  1. Não li tudinho ainda mas vou ler.Porque amo rir,irmão.Me apelidaram de hiena,acredita?!Vc não faz ideia como sou.Essa matéria chamou muito minha atenção.Paz pra vc!Um grande abraço e que o Senhor abençoe sua vida e sua família.

    Curtido por 1 pessoa

Os comentários estão encerrados.