ALIMENTO DIÁRIO

MATEUS 8: 14-17

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A Cura da Sogra de Pedro

Todos aqueles que pretendem ser críticos em relação à harmonia dos Evangelhos, colocam esta passagem, e todas as que se seguem, até o final do capítulo 9, antes do Sermão da Montanha, conforme a ordem observada por Marcos e Lucas. O Dr. Light foot coloca apenas esta passagem antes do Sermão da Montanha, e o versículo 18 e seguintes, depois. Aqui temos:

I – Urna versão particular da cura da sogra de Pedro, que estava doente com febre, na qual observamos:

1.O caso, que não era aparentemente tão difícil, pois a febre é uma doença comum. Mas, sendo a paciente alguém próximo a Pedro, o fato é registrado como um exemplo do cuidado e carinho especiais de Jesus para com as famílias dos seus discípulos. Aqui descobrimos:

(1) Que Pedro tinha urna esposa, e ainda assim foi chamado para ser um apóstolo de Cristo. Mostra também que Cristo, ao ser gentil com um parente da esposa de um de seus discípulos, apoiava o casamento. A igreja de Roma, ao proibir que os sacerdotes se casem, vai, portanto, em direção oposta ao apóstolo do qual alega derivar uma infalibilidade.

(2) Que Pedro tinha uma casa, embora Cristo não tivesse (v. 20). Dessa maneira, o discípulo estava mais bem provido do que o seu Senhor.

(3) Que Pedro tinha uma casa em Cafarnaum, embora fosse originaria mente de Betsaida. Provavelmente porque se mudou para Cafarnaum quando Cristo se mudou para lá, e fez dela a sua residência principal. Note que vale a pena mudarmos o nosso local de moradia para que possamos ficar próximos de Cristo e ter a oportunidade de conversar com Ele. Quando a arca se mudava, Israel devia se mudar e segui-la.

(4) Que a sogra de Pedro era parte de sua família, o que é um exemplo para casais de que devem ser gentis e amáveis com os parentes um do outro como são com os seus próprios. Provavelmente, esta boa mulher era idosa e, contudo, era respeitada e cuidada, como devem ser as pessoas idosas, com toda a ternura possível.

(5) Que estava acamada por causa de uma febre. Nem a força da juventude, nem a fragilidade e o frio da idade, serão uma barreira contra doenças desse tipo. A paralisia era uma doença crônica, a febre, uma doença aguda, mas ambas foram levadas a Cristo.

  1. A cura (v. 15).

(1) Como foi realizada. Jesus “tocou-lhe na mão”; não para saber qual era a doença, como fazem os médicos através do pulso, mas para curá-la. Isto foi uma indicação da sua bondade e ternura. Ele próprio se sensibiliza ao sentir as nossas fraquezas. Isso mostra igualmente o modo da cura espiritual, pelo exercício do poder de Cristo com a sua Palavra, e a dedicação de Cristo para conosco. A Escritura nos traz a Palavra; e o Espírito toca – toca o coração, toca a mão.

(2) Como isso foi evidenciado: a febre a deixou, ela se levantou e os serviu. Assim, nos parece:

[1] Que a misericórdia foi aperfeiçoada. Aqueles que se recuperam de febre pelo poder da natureza geralmente se mostram debilitados e impotentes, ineptos para o trabalho durante muito tempo depois. Mas para mostrar que essa cura estava acima do poder da natureza, a sogra de Pedro ficou imediatamente recuperada, a ponto de poder cuidar dos afazeres da casa.

[2] Que a misericórdia era santificada; e as misericórdias que são assim são verdadeiramente aperfeiçoadas. Embora a mulher tenha sido, desse modo, dignificada por uma graça especial, ainda assim ela não se vangloria, mas está pronta, junto à mesa, para servir, se houver necessidade, como qualquer criado. Aqueles a quem Cristo concedeu uma graça ou uma honra devem ser humildes – sendo assim libertada, a sogra de Pedro planeja como deverá retribuir. Ê muito apropriado que aqueles que são curados por Cristo devam servir a Ele, como seus humildes servos, por todos os dias de suas vidas.

II – Aqui está um relato geral das muitas curas que Cristo realizou. Esta cura da sogra de Pedro trouxe-lhe pacientes em grande número. “Ele curou alguém assim, por que não eu? O amigo de alguém, por que não o meu?” Agora nos é contado:

1.O que Cristo fez (v. 16).

(1) Ele expulsou os demônios. Ele expulsou os espíritos malignos “com a sua palavra”. Deve haver muitos representantes de Satanás, por permissão divina, naquelas doenças para as quais causas naturais são apontadas (como no caso das feridas de Jó), especialmente nas doenças mentais; mas, na época em que Cristo estava no mundo, parece ter ocorrido urna maior liberdade do diabo para possuir e atormentar os corpos das pessoas. Ele veio com grande ira, pois sabia que seu tempo era curto. E Deus sabiamente ordenou que assim fosse, para que Cristo pudesse ter oportunidades mais frequentes e claras de mostrar o seu poder sobre Satanás, e o propósito e desígnio de sua vinda ao mundo, que eram desarmar e despojar Satanás, para acabar com o seu poder e destruir as suas obras. E o sucesso do Senhor Jesus foi tão glorioso quanto o seu desígnio.

(2) Ele “curou todos os que estavam enfermos”; todos sem exceção, embora os pacientes tivessem sempre uma condição muito ruim, e os casos fossem sempre muito difíceis.

2.Como as Escrituras foram cumpridas neste caso (v. 17). O cumprimento das profecias do Antigo Testamento era o grande objetivo que Cristo tinha em vista, e a grande prova de que Ele era o Messias. Dentre outras coisas que foram escritas a respeito dele, temos (Isaias 53.4): “Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si” – isto se refere a 1 Pedro 2.24, e neste texto é interpretado que Ele levou os nossos pecados; aqui podemos interpretar que Ele levou as nossas enfermidades; os nossos pecados se tornam as nossas enfermidades, em meio aos nossos sofrimentos. Cristo levou embora o pecado por meio da sua morte e levou embora as doenças por meio dos milagres da sua vida. Assim, podemos dizer que Ele, então, levou sobre si as nossas enfermidades quando carregou os nossos pecados em seu próprio corpo sobre o madeiro; pois o pecado é a causa e o aguilhão das enfermidades. Muitas são as doenças e flagelos aos quais o nosso corpo está sujeito: e há mais sobre este assunto nos evangelhos – para nos apoiar e confortar – do que em todos os escritos dos filósofos. Ele “tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si”; Ele os levou, ou seja, Ele os tirou de nós. Embora Ele nunca tenha estado doente, Ele sentia fome, sede e cansaço, foi atormentado em espírito, aflito e muito oprimido. Ele os carregou por nós em sua paixão e os sofreu conosco em sua compaixão, sendo tocado com o sentimento de nossas fraquezas; e desse modo Ele as carrega de nós e as torna leves, a não ser que retenhamos a nossa própria culpa. Observe quão enfaticamente isso está expresso aqui: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas doenças”. Ele tinha tanto a capacidade como o desejo de intervir nesse assunto, e, como nosso médico, está interessado em lidar com nossas fraquezas e doenças. Essa parte do flagelo da natureza humana era uma preocupação particular que Ele evidenciou através da sua grande disposição para curar enfermidades. E Ele não é menos poderoso ou menos compassivo agora, pois sabemos que a dificuldade para se chegar ao céu não foi reduzida com o passar do tempo.

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GESTÃO E CARREIRA

QUANDO EXPERIMENTAR É MAIS IMPORTANTE QUE PLANEJAR

Quando experimentar é mais importante do que planejar

Teste e falhe. Mais de uma vez. Você não vai conseguir inovar se não agir assim.

 Cada vez mais vemos fundos de Venture Capital buscando investir em startups de empreendedores que já falharam. Como se falhar fosse um pré-requisito para se chegar ao sucesso. Como um ex- empreendedor que viveu os dois lados, falhou e foi bem-sucedido, posso dizer que, se não é um pré-requisito, a falha é, no mínimo, ingrediente muito importante para o sucesso. Especialmente nos dias atuais, em que tudo muda em grande velocidade, e que é mister testar muito mais do que planejar. Décadas atrás, havia tempo nas organizações para longos planejamentos, que exigiam detalhadas discussões. Até era comum ouvir dos especialistas que as discussões de planejamento eram mais relevantes do que o plano, o produto final das intermináveis reuniões. Mas esse tempo se foi. Não que planejamento não seja mais importante. Ele continua sendo fundamental para qualquer empresa. A diferença é que vivemos, atual- mente, a era da experimentação. Em vez de longos estudos e desenhos, precisamos gerar protótipos, para serem rapidamente testados e validados no mercado. Entretanto, experimentar pressupõe que haverá falhas. Não há inovação sem falha. E isso impõe um desafio às empresas que historicamente se acostumaram a punir aqueles que falhavam, porque sua busca sempre foi pela eficiência. A eficiência é que entregava retorno aos stakeholders. Como então compatibilizar inovação e eficiência? Dois conceitos aparentemente antagônicos, mas que precisam conviver nas novas organizações da era digital, chamadas IDE (innovation-driven enterprises). Todos os caminhos passam pelo entendimento da diferença entre risco e incerteza. Há um jogo que explica de forma quase lúdica o que quero dizer. Chama-se Jogo das 3 Caixas. Imagine que, numa primeira caixa, existam cem bolas, sendo metade delas verdes e a outra metade, azuis. Você precisa colocar a mão, com os olhos vendados, e retirar uma bola verde. Uma conta simples, ensinada na primeira aula de Estatística Básica, resolve a equação e nos aponta a probabilidade de você ser bem-sucedido. Vamos para a segunda caixa, onde você encontrará cem bolas de cores aleatórias. Sua missão continua a mesma, retirar uma bola verde. Assumimos então uma premissa: as bolas possuem dez cores diferentes, igualmente distribuídas. E novamente calculamos a probabilidade de você acertar.

Chegamos então à terceira e última caixa. Nesta, os objetos são aleatórios. Não sabemos quais são, muito menos de que cor. E a missão não muda: retirar uma bola verde. Para calcularmos sua chance de ser bem-sucedido, neste caso, será necessário assumirmos uma série de premissas. Na prática, isso significa que esta- remos nos distanciando da realidade. Serão tantas premissas, todas ocorrendo simultaneamente, que a chance desse cenário ser real será muito pequena.

Nas duas primeiras caixas, temos uma situação onde podemos calcular o risco. Não significa que sabemos de antemão se você será bem-sucedido ou não, mas podemos estimar qual o risco dessa operação. No terceiro caso, é bem diferente. Não temos números, não temos cálculos, não há indícios concretos que nos ajudem a fazer qual- quer estimativa. Porque este é tipicamente um ambiente de incerteza. E incerteza é muito diferente de risco.

Incerteza é o mundo das startups. Elas não têm história, não têm clientes, não têm processos, não têm sistemas. Tudo é novo. Este cenário é diferente do contexto de uma grande organização, onde todo o seu passado, o conheci- mento acumulado, a experiência dos profissionais que nela trabalham, a história dos clientes, tudo isso ajuda a construir um mundo onde existe muito mais informação. E esta profusão de informações é que tornará possível a esta empresa falhar com baixo impacto. Falhar de forma que se gere um aprendizado. Que sirva para mostrar que aquele não era o caminho. Que permita à organização conhecer os NÃOS antes desconhecidos. Isso tem um enorme valor para as empresas. Isso é inovar e ser eficiente.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

O GPS DENTRO DA CABEÇA

O GPS dentro da cabeça

Saber onde estamos e para onde vamos é fundamental para sobreviver. Em geral não nos damos conta de que a habilidade de navegação requer do cérebro cálculos complexos, em frações de segundo. Apenas quando nos perdemos ou algo compromete esse mecanismo nos damos conta do quanto esse sistema é importante.

 Nossa capacidade de pilotar um carro ou avião, ou até caminhar pelas ruas de uma cidade, foi completamente transformada pela invenção do Sistema de Posicionamento Global (GPS). Mas como nos orientávamos antes do advento da tecnologia? Novos estudos mostram que o cérebro de mamíferos utiliza seu próprio sistema incrivelmente sofisticado de posicionamento, semelhante a um GPS, para nos nortear e conduzir de um lugar para outro.

Assim como o mecanismo instalado em nossos celulares e carros, o sistema de nosso cérebro determina onde estamos e para onde estamos nos dirigindo integrando múltiplos sinais relacionados à nossa posição e à passagem do tempo. O cérebro normalmente faz esses cálculos com um mínimo de esforço, por isso quase não estamos cientes deles. Somente quando nos perdemos ou quando nossa destreza de navegação fica comprometida por uma lesão ou doença neurodegenerativa percebemos o quanto esse sistema de mapeamento e deslocamento é crucial para nossa existência.

A capacidade de saber onde estamos e para onde precisamos ir é fundamental para a sobrevivência. Sem ela, nós, como todos os animais, seríamos incapazes de encontrar ali- mentos ou nos reproduzir. Pessoas, e, de fato, espécies inteiras pereceriam.

A sofisticação do sistema de orientação de mamíferos se torna particularmente evidente quando comparada à de outros animais. O simples verme nematódeo Caenorhabditis elegans, que tem apenas 302 neurônios, navega quase exclusivamente em resposta a sinais olfativos, seguindo o caminho de um gradiente crescente ou de- crescente de odor.

Animais com sistemas nervosos mais sofisticados, como formigas do deserto ou abelhas melíferas, se orientam com a ajuda de estratégias adicionais. Um desses métodos é chamado integração por caminhos, um mecanismo similar a um GPS, em que neurônios calculam a posição de um animal com base em um monitoramento constante de sua direção e velocidade de movimento em relação a um ponto de partida, uma tarefa executada sem o auxílio de indicadores externos, como pontos de referência, ou marcos geográficos físicos. Em vertebrados, particularmente em mamíferos, o repertório de comportamentos que permitem a um animal se localizar em seu meio ambiente expandiu ainda mais.

Mais do que qualquer outra classe de animais, mamíferos dependem da capacidade de formar mapas neurais do ambiente; padrões de atividade elétrica no cérebro em que grupos de células nervosas disparam de um jeito que reflete o layout, ou a disposição do ambiente circundante e a posição de um animal nele. Acredita-se que a formação desses mapas mentais ocorre principalmente no córtex, as enrugadas camadas superiores do cérebro que se desenvolveram bastante tarde no processo evolutivo.

Ao longo das últimas décadas, pesquisadores adquiriram um profundo entendimento de como, exatamente, o cérebro elabora e depois revisa esses mapas à medida que um animal se move. As pesquisas mais recentes, conduzidas principalmente em roedores, revelaram que os sistemas de navegação consistem em vários tipos de células especializadas que calculam continuamente a localização de um animal, a distância que percorreu, a direção em que está se movendo e sua velocidade. Coletiva- mente essas diferentes células formam um dinâmico mapa do espaço local que não opera somente no presente, mas também pode ser armazenado como uma memória para utilização posterior.

 NEUROCIÊNCIA DE ESPAÇO

O estudo dos mapas espaciais do cérebro começou com Edward C. Tolman, professor de psicologia na Universidade da Califórnia, em Berkeley, de 1918 a 1954. Antes de seu trabalho, experimentos laboratoriais em ratazanas domésticas pareciam sugerir que animais se movem e norteiam ao responde- rem a, e memorizarem, estímulos sucessivos ao longo do caminho que perfazem. Ao aprenderem a percorrer um labirinto, por exemplo, acreditava-se que elas se lembravam das viradas (mudanças de direção) que haviam feito desde seu ponto de partida até o final, ou saída do mesmo. Essa ideia, porém, não levou em conta a possibilidade de os animais talvez visualizarem uma “imagem” geral de todo o labirinto, o que lhes permitiria planejar o melhor caminho, ou percurso.

Tolman contradisse radicalmente as opiniões prevalecentes. Ele tinha observado ratazanas tomarem atalhos ou fazerem desvios, comportamentos que não seriam esperados se elas tivessem aprendido apenas uma longa sequência de comportamentos. Baseado em suas observações, ele propôs que animais formam mapas mentais do ambiente, que espelham a geometria espacial do mundo exterior. Esses mapas cognitivos faziam mais do que apenas ajudá-los a encontrar o caminho; eles também pareciam registrar informações sobre acontecimentos pelos quais haviam passado em lugares, ou pontos específicos.

As ideias de Tolman, propostas originalmente por volta de 1930, permaneceram controversas durante décadas. Sua aceitação ocorreu lentamente, em parte porque elas eram baseadas inteiramente na observação do comportamento de animais experimentais, que podia ser interpretado de várias maneiras. Tolman não dispunha dos conceitos ou das ferramentas para testar se um mapa interno do ambiente de fato existia no cérebro de um animal.

Levou cerca de 40 anos para que surgis- se uma evidência direta de um mapa desses em estudos de atividade neural. Na década de 1950, o progresso no desenvolvimento de micro eletrodos possibilitou monitorar a atividade elétrica de neurônios individuais em animais despertos. Esses eletrodos extremamente delgados permitiram que pesquisadores identificassem o disparo de neurônios isolados, individuais, à medida que os animais se comportavam como de costume. Uma célula “dispara” quando ativa um potencial de ação, uma breve e passageira mudança na voltagem da membrana celular neuronal. Potenciais de ação fazem neurônios liberar moléculas neurotransmissoras que transmitem sinais de um neurônio a outro.

John O’Keefe, da Universidade College London (UCL), no Reino Unidos, usou micro eletrodos em ratazanas domésticas para monitorar potenciais de ação em seus hipocampos, uma área do cérebro conhecida há décadas por sua importância para funções de memória. Em 1971, ele relatou que células neuronais ali disparavam quando um animal em uma caixa, ou cercado, passava algum tempo em um determinado local; por essa razão, ele as chamou “células de localização” (place cells, em inglês), também conhecidas como “células de posicionamento”. O’Keefe observou que diferentes células de localização disparavam em pontos, ou lugares distintos no cercado e que o padrão de disparo das células coletivamente formava um mapa de locais do interior da caixa. A atividade combinada de diversas células de posicionamento podia ser “lida” dos eletrodos para identificar a localização exata do animal a qualquer momento. Em 1978, O’Keefe e seu colega Lynn Nadel, agora na Universidade do Arizona, sugeriram que células de localização eram, de fato, uma parte integrante do mapa cognitivo imaginado por Tolman.

 UM MAPA CORTICAL

A descoberta de células de posicionamento abriu uma janela para as partes mais profundas do córtex, nas áreas mais distantes dos córtices sensoriais (que recebem inputs, ou estímulos, informações dos sentidos) e do córtex motor (que emite os sinais que iniciam ou controlam movimentos). No final da década de 1960, quando O’Keefe começou seu trabalho, o conhecimento sobre quando neurônios se ligavam e desligavam era restrito, em grande parte, a áreas chamadas córtices sensoriais primários, onde a atividade neural é controlada diretamente por estímulos sensoriais (inputs) como luz, som e tato (toque).

Neurocientistas daquela época especulavam que o hipocampo estava localizado longe demais dos órgãos sensoriais para pro- cessar suas informações de qualquer maneira que pudesse ser facilmente entendida a partir de um registro de micro eletrodos. A descoberta da existência de células no hipocampo que criavam um mapa do meio ambiente imediato de um animal acabou com essa suposição.

Embora isso fosse notável e sugerisse um papel para as células de localização na navegação (orientação), durante décadas depois de sua descoberta ninguém soube dizer que função poderia ser essa. As células de posicionamento se localizavam em uma área chamada CA1 e esse era o ponto final em uma cadeia de sinalização que se originava em algum outro lugar do hipocampo. Foi teorizado que elas recebiam muitos dos cálculos, ou registros fundamentais para a navegação de outras regiões do hipocampo. No início dos anos 2000, nós dois decidimos explorar essa ideia mais a fundo no novo laboratório que tínhamos montado na Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU), em Trondheim. Esse empreendimento acabou levando a uma importante descoberta.

Em colaboração com Menno Witter, agora em nosso instituto, e um grupo de estudantes altamente criativos, começamos nosso estudo ao usarmos micro eletrodos para monitorar a atividade de células de localização no hipocampo de ratazanas domésticas, depois de termos interrompido (bloqueado) parte de um circuito neuronal que já se sabia que repassava informações para essas células. Esperávamos que o trabalho confirmasse que esse circuito era importante para o bom funcionamento das células de posicionamento. Mas, para nossa surpresa, os neurônios no fim desse circuito, em CA1, continuaram disparando mesmo quando os animais chegavam a locais específicos.

A inevitável conclusão de nossa equipe foi que células de localização não dependem desse circuito no hipocampo para avaliar, ou estimar a direção/posição de um animal. Nossa atenção então se voltou para o único caminho neural que havia sido poupado em nossa intervenção: as conexões diretas do córtex entorrinal, uma área adjacente que oferece uma interface para o resto do córtex, para CA1.

Ainda em colaboração com Witter, inserimos micro eletrodos no córtex entorrinal dos animais e começamos a registrar sua atividade enquanto eles desempenhavam tarefas semelhantes às que havíamos empregado em nossos estudos de células de posiciona- mento. Conduzimos os eletrodos para uma área do córtex entorrinal que tem conexões diretas com as partes do hipocampo onde haviam sido registradas células de localização em quase todos os estudos anteriores ao nosso. Constatamos que muitas células no córtex entorrinal disparavam quando um animal estava em um determinado ponto, ou lugar do cercado, de um jeito bem pareci- do com o das células de localização no hipocampo. Mas, ao contrário de uma célula de posicionamento, uma única célula no córtex entorrinal disparava e não apenas em um determinado local visitado por um roedor, mas em muitos.

A propriedade mais notável dessas células, porém, foi o jeito como elas disparavam. Seu padrão de atividade só se tornou óbvio para nós quando, em 2005, ampliamos as dimensões do cercado em que estávamos fazendo os registros. Depois de expandi-lo até um determinado tamanho, constatamos que os múltiplos locais em que uma célula entorrinal disparava formavam os vértices de um hexágono. Em cada um desses pontos, a célula, que chamamos uma “célula de grade” (grid cell, em inglês), disparava quando o animal passava por cima dele.

Os hexágonos, que cobriam todo o cercado, pareciam formar as unidades individuais de uma grade, como os quadrados formados pelas linhas de coordenadas em um mapa rodoviário. O padrão de disparos levantou a possibilidade de que células de grade, ao contrário de células de localização, fornecem informações sobre distância e direção, ajudando um animal a monitorar sua trajetória com base em “instruções” internas dos movimentos do corpo, sem depender de inputs, ou informações adicionais do meio (ambiente).

Vários aspectos da grade também mudaram à medida que examinamos a atividade celular em regiões distintas do córtex entorrinal. Na parte dorsal, perto do topo dessa estrutura, as células geravam uma grade do cercado que consistia de hexágonos muito próximos, pouco espaçados.  O tamanho dos hexágonos aumentava em uma série de sequências, ou módulos, à medida que fomos descendo rumo à parte inferior, ou ventral, do córtex entorrinal. Os elementos hexagonais da grade em cada módulo tinham um espaçamento único e singular.

O espaçamento das células de grade em cada módulo sucessivo em direção descendente podia ser determinado ao se multiplicar a distância entre as células no módulo anterior por um fator de cerca de 1,4, aproximadamente a raiz quadrada de 2. No módulo na parte superior do córtex entorrinal, uma ratazana doméstica que ativasse uma célula de grade em um vértice de um hexágono teria de se locomover de 30 a 35 centímetros para chegar a um vértice adjacente. No módulo descendente seguinte, o animal precisaria andar de 42 a 49 centímetros, e assim por diante. No módulo mais baixo, a distância chegava a vários metros de extensão.

Ficamos extremamente empolgados com as células de grade e sua disposição tão organizada. Na maioria das regiões do córtex, os neurônios têm padrões de disparo que parecem caóticos e inacessíveis, mas aqui, em seu interior profundo, havia um sistema de células que disparavam em um padrão previsível e ordenado. Estávamos ansiosos para investigar. Mas essas células e as células de localização ou posicionamento não eram as únicas envolvidas no mapeamento do mundo de mamíferos; outras surpresas também nos aguardavam.

Em meados da década de 1980 e no início dos anos 90, James B. Ranck do Centro Médico Downstate da Universidade Estadual de Nova York (SUNY) e Jeffrey S. Taube, agora na Dartmouth College, em Hanover, New Hampshire, haviam descrito células que disparavam quando um roedor virava a cabeça para uma direção específica. Ranck e Taube tinham descoberto essas chamadas “células de direção da cabeça” (head-direction cells ou HD, em inglês) no presubículo, outra região do córtex adjacente ao hipocampo.

Nossos estudos constataram que essas células também estavam presentes no córtex entorrinal, misturadas em meio às células de grade. Muitas células HD no córtex entorrinal também funcionavam como células de grade: os pontos, ou lugares no cercado em que disparavam também formavam uma grade, mas elas só ficavam ativas nesses locais quando o animal estava voltado para uma determinada direção. Essas células pareciam fornecer uma bússola para o roedor; ao monitorá-las podíamos deter- minar para qual direção o animal estava voltado a qualquer dado momento em relação ao seu ambiente circundante.

Alguns anos mais tarde, em 2008, descobrimos outro tipo de célula no córtex entorrinal. Essas chamadas “células limítrofes” (border cells, em inglês) disparavam sempre que o animal se aproximava de uma parede ou margem do cercado, ou de alguma outra divisória. Elas pareciam calcular a distância a que o animal se encontrava de um limite, ou linha fronteiriça. Essa informação então podia ser usada pelas células de grade para calcular o quanto o animal tinha se afastado da parede, e também podia ser estabelecida como um ponto de referência para, posteriormente, “lembrar” o roedor de onde ficava a parede; ou seja, sua localização.

Por fim, em 2015, um quarto tipo de célula entrou em cena. Esta respondia especificamente à velocidade de locomoção, independentemente da localização ou direção do animal. As taxas de disparos desses neurônios aumentavam proporcionalmente à velocidade de movimentação. De fato, podíamos determinar com que rapidez um animal se movia a qualquer dado momento ao olharmos para as taxas de disparo de apenas algumas poucas células de velocidade (speed cells, em inglês). Em conjunto com células de direção da cabeça (HD), células de velocidade talvez desempenhem o papel de fornecer às células de grade continuamente informações atualizadas sobre os movimentos do animal; sua velocidade, direção e distância de seu ponto de partida.

DECIFRANDO CÓDIGOS

Nossa descoberta de células de grade resultou de nosso desejo de desvendar os inputs que permitem às células de localização, ou posicionamento fornecer aos mamíferos uma imagem interna de seu ambiente. Agora entendemos que elas integram os sinais de vários tipos de células no córtex entorrinal à medida que o cérebro tenta “mapear” a rota percorrida por um animal e para onde este está indo em seu ambiente. Porém nem esses processos contam toda a história de como os mamíferos navegam.

Nosso trabalho inicial se concentrou no córtex entorrinal medial (interior). Células de localização, ou posicionamento também podem receber sinais do córtex entorrinal lateral, que retransmite informação (input) processada de diversos sistemas sensoriais, inclusive sobre odor e identidade de objetos. Ao integrarem as informações das partes medial e lateral do córtex entorrinal, células de localização interpretam sinais de todo o cérebro. A complexa interação de mensagens que chegam ao hipocampo e a formação de memórias específicas de posiciona- mento que isso possibilita são questões que ainda estão sendo investigadas por nosso e outros laboratórios, e essa pesquisas sem dúvida ainda continuará por muitos anos.

Um jeito de começar a entender como os mapas espaciais do córtex entorrinal medial e do hipocampo se combinam para auxiliar a navegação é perguntar como os mapas diferem. Na década de 1980, John Kubie e o falecido Robert U. Muller, ambos então no Centro Médico Downtown da SUNY, mostraram que mapas no hipocampo formados por células de localização podem mudar inteiramente quando um animal migra para um novo ambiente, mesmo que seja para um cercado de cor diferente no mesmo local e no mesmo recinto.

Experimentos realizados em nosso próprio laboratório, em que ratazanas domésticas forrageiam em até 11 cercados em diversos recintos diferentes, mostraram que cada sala, de fato, rapidamente origina seu próprio mapa independente, sustentando ainda mais a noção de que o hipocampo forma mapas espaciais customizados, ajustados a ambientes específicos.

Comparativamente, os mapas no córtex entorrinal medial são universais. Células de grade, assim como células HD e limítrofes, que disparam juntas em um determinado conjunto de localizações no mapa de grade para um ambiente também disparam em posições análogas no mapa para outro meio, como se as linhas de latitude e longitude do primeiro mapa fossem “impostas”, ou sobrepostas à nova configuração. A sequência de células que disparam quando o animal se move em direção nordeste em um espaço da gaiola se repete quando o roedor caminha nessa mesma direção em outro recinto. O que o cérebro usa para navegar por seus arredores é o padrão de sinalização entre essas células no córtex entorrinal.

Esses códigos são então transmitidos do córtex entorrinal ao hipocampo, onde são utilizados para formar mapas específicos de, ou para um determinado lugar. Do ponto de vista da evolução, dois conjuntos de mapas que integram suas informações para nortear animais parecem ser uma solução eficaz para um sistema utilizado por eles para a navegação espacial. As grades formadas no córtex entorrinal medial, que medem distância e direção, não mudam de um recinto para outro. Comparativamente, as células de posicionamento do hipocampo formam mapas individuais para cada recinto separado.

 MAPAS LOCAIS

Compreender o sistema navegacional neural ainda é um esforço em andamento. Quase todo nosso conhecimento de células de posicionamento ou localização e grade foi obtido em experimentos nos quais a atividade elétrica de neurônios é registrada quando ratazanas domésticas ou camundongos caminham sem rumo, aleatoriamente, em ambientes altamente artificiais; ou seja, caixas (ou cercados) com fundo plano, desprovi- das de estruturas internas para servir como pontos de referência.

Um laboratório difere substancialmente de ambientes naturais, que mudam constantemente e estão cheios de objetos tridimensionais. O reducionismo dos estudos levanta questões sobre se as células de localização e de grade disparam do mesmo jeito quando animais estão fora do laboratório.

Experimentos em labirintos complexos, que tentam imitar o habitat natural dos animais, fornecem algumas pistas do que pode estar acontecendo. Em 2009, monitoramos células de grade enquanto os roedores se moviam por um labirinto intrincado, em que encontraram uma curva (virada) muito fechada no final de cada caminho que marcava o início da próxima passagem. O estudo mostrou que, como esperado, as células de grade formavam padrões de hexágonos para mapear distâncias em caminhos individuais do labirinto para as ratazanas. Mas toda vez que um animal virava de uma passagem para outra ocorria uma transição abrupta, em que um padrão de grade separado era sobreposto ao novo caminho, quase como se a ratazana estivesse entrando em um recinto completamente diferente.

Trabalhos posteriores em nosso laboratório mostraram que mapas de grade também se fragmentam em mapas menores em ambientes abertos quando esses espaços são suficientemente amplos. Agora estamos pesquisando como esses mapas menores se fundem para formar um mapa integrado de uma determinada área. Porém mesmo es- ses experimentos são simplificados demais, porque os cercados são planos e horizontais. Experimentos conduzidos em outros laboratórios, para observar morcegos voando e roedores que escalam obstáculos em gaio- las, estão começando a fornecer algumas pistas: células HD e de localização parecem disparar em locais específicos espalhados por qualquer espaço tridimensional, e as células de grade muito provavelmente fazem o mesmo.

ESPAÇO E MEMÓRIA

O sistema de navegação no hipocampo faz mais do que ajudar animais a se moverem do ponto A ao ponto B. Além de receber informações sobre posição, distância e direção do córtex entorrinal medial, o hipocampo faz um registro do que está localizado em um lugar em particular, seja um carro ou um mastro de bandeira, assim como dos eventos que ocorrem ali. Portanto, o mapa espacial criado pelas células de posicionamento não contém apenas informações sobre a localização de um animal, mas também detalha suas experiências, mais ou menos como a concepção que Tolman tinha de um mapa cognitivo.

Algumas dessas informações adiciona- das parecem vir de neurônios localizados na parte lateral do córtex entorrinal. Pormeno- res sobre objetos e eventos se fundem com as coordenadas de um animal e são “arquivadas” como uma memória. Quando esta é recuperada posteriormente, tanto o evento como a posição são relembrados.

Essa associação de lugar e memória lembra uma estratégia de memorização in- ventada pelos antigos gregos e romanos. O chamado “método de loci” (loci é o plural de locus e significa lugar em latim) permite que uma pessoa memorize uma lista de itens ao imaginar colocar cada um deles em um determinado lugar/posição ao longo de um caminho bem conhecido através de um espaço, digamos, uma paisagem ou um edifício; uma disposição muitas vezes chamada “palácio da memória”. Participantes de concursos de memória ainda utilizam essa técnica mnemônica para memorizar longas listas de números, letras ou cartas de baralho.

Infelizmente, o córtex entorrinal está entre as primeiras áreas a falhar em pessoas com doença de Alzheimer. A enfermidade faz com que células cerebrais localizadas ali morram, e uma redução em seu tamanho é considerada uma medida confiável para identificar pessoas que estão em risco de desenvolvê-la. A tendência de vaguear e se per- der também está entre os primeiros sinais da doença. Nos estágios mais avançados de Alzheimer, células morrem no hipocampo, produzindo uma incapacidade de recordar experiências ou de se lembrar de conceitos como nomes de cores. De fato, um estudo recente forneceu evidências de que pessoas jovens portadores de um gene que os coloca em elevado risco de Alzheimer podem ter deficiências no funcionamento de suas redes de células de grade; uma descoberta que pode levar a novas maneiras de diagnosticar a doença.

UM RICO REPERTÓRIO

Hoje, mais de 80 anos depois de Tolman propor originalmente a existência de um mapa mental de nossos entornos, está claro que as células de posicionamento, ou localização são apenas um componente de uma complexa representação que o cérebro produz de seu ambiente espacial para calcular posição, distância, velocidade e direção. Os diversos tipos de células que foram                                                                                                                    encontradas no sistema navegacional do cérebro de roedores também estão presentes em morcegos, macacos e em todas as ordens taxonômicas de mamíferos sugere que células de grade e outras células envolvidas em navegação, orientação espacial, surgiram cedo no processo evolutivo de mamíferos e que algoritmos neurais similares são utilizados para calcular o posicionamento pelas mais diversas espécies.

Muitos dos blocos de construção do mapa de Tolman foram descobertos, e estamos começando a entender como o cérebro os cria, posiciona e emprega. O sistema de representação espacial tornou-se um dos circuitos mais bem entendidos do córtex de mamíferos, e os algoritmos que ele utiliza estão começando a ser identificados para ajudar a desvendar os códigos neurais que o cérebro usa para navegar, ou determinar localização.

Como ocorre em tantas outras áreas de pesquisa, novas descobertas levantam novas questões. Sabemos que o cérebro tem um mapa interno, mas ainda precisamos entender melhor como seus elementos funcionam em conjunto para produzir uma representação coerente de posicionamento e como a informação é lida por outros sistemas cerebrais para tomar decisões sobre aonde ir e como chegar lá.

Há muitas outras questões. A rede espacial do hipocampo e do córtex entorrinal está limitada à navegação de espaços locais? Em roedores, examinamos áreas que têm raios de apenas alguns metros. Células de localização e de grade também são utilizadas para a navegação de longa distância, como quando morcegos migram centenas ou milhares de quilômetros?

Por fim, nos perguntamos como células de grade se originam, se existe um período formativo crítico para elas no desenvolvi- mento de um animal e se células de posicionamento e de grade podem ser encontradas em outros vertebrados ou invertebrados. Se invertebrados também as utilizam, essa constatação implicaria que a evolução usou esse sistema de mapeamento espacial durante centenas de milhões de anos. O GPS do cérebro continuará oferecendo uma rica e valiosa coleção de pistas para novas pesquisas que ocuparão gerações de cientistas nas próximas décadas.

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 MAY-BRITT MOSER e EDVARD I. MOSER são professores de psicologia e neurociência na Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, em Trondheim. Os dois são cofundadores do Instituto Kavli para Neurociência de Sistemas, em 2007, e do Centro para Computação Neural, em 2013, ambos localizados na universidade. Em 2014, eles compartilharam o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina com John O’Keefe, da University College London, por sua descoberta do sistema de posicionamento do cérebro.