PSICOLOGIA ANALÍTICA

PSICOSSOMÁTICA PSICANALÍTICA

Psicossomática psicanalítica

 

OUTRAS FORMAS DE ESCUTAR O SOFRIMENTO.

Muitas vezes, pacientes com manifestações somáticas procuram a psicoterapia encaminhados por médicos ou por insistência de parentes e outras pessoas de seu convívio, em busca de ajuda para se livrar dos sintomas do adoecimento físico, mas se mostram distantes de suas próprias angústias. Cabe ao analista encontrar maneiras de lidar com dor psíquica, nem sempre óbvia.

 A psicanálise é instigada constantemente a se reinventar. Há mais de um século, quando criou esse método – para tratar inicialmente pacientes histéricas –, Sigmund Freud apresentou a escuta como principal instrumento de trabalho. Ele pedia para que seus pacientes se deitassem no divã, de forma confortável, e falassem “aquilo que lhes viesse à cabeça”. Essa técnica, conhecida como associação livre, facilitaria a emergência para a consciência de conteúdos recalcados.

Quando falamos em recalque, longe de seu significado popularizado, que se aproxima da inveja, nos referimos a uma defesa bastante elaborada, própria à neurose. Resumidamente, seu mecanismo se baseia em retirar da esfera consciente (e manter inconscientes) conteúdos de difícil elaboração, sentidos como intoleráveis ou incompatíveis com os próprios valores, mas que emergem, como afirmam os psicanalistas franceses Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, “sob a forma de sintomas, sonhos, atos falhos etc.”.

A psicossomática psicanalítica considera que apresentamos outras formas de organização psíquica que diferem da neurose e podem ser incluídas no campo das desorganizações psicossomáticas. Caracterizadas pela prevalência de sintomas que incidem diretamente sobre o corpo, costumam desencadear afecções somáticas crônicas e até mesmo progressivas, o que torna o manejo clínico com esses pacientes um desafio a mais para o método analítico.

Destacam-se aqui particularidades do campo transferencial, refletindo impasses na relação terapeuta-paciente, específicos ao tratamento de pessoas que apresentam processos de desorganização psicossomática. Inúmeras se apresentam ao terapeuta: Como contribuir para que este paciente possa construir e dar sentido às palavras? Como se tornar um “outro” diante de um paciente que preserva o investimento maciço em si próprio? Como evitar que o acompanha- mento psicoterápico caia no vazio refletido pela vida psíquica ausente de símbolos, com grandes inconsistências nas relações com o mundo externo?

Com frequência, esses pacientes chegam aos consultórios encaminhados por médicos e muitas vezes por insistência de familiares e outras pessoas de seu convívio. Apresentam alguma manifestação somática para a qual buscam auxílio para tratar seus sintomas. Porém, se revelam distantes de suas angústias, diferentes dos chamados “neuróticos clássicos” que alcançaram a capacidade de simbolização e conseguem, das mais variadas maneiras, metabolizar as angústias. Pacientes que manifestam diretamente no corpo suas questões psíquicas não parecem entrar em contato com conflitos, tampouco com processos de pensa- mento ou fantasias. O paciente parece estar movido por seus instintos mais primitivos e necessita de cuidados que acolham seus excessos.

Segundo o psicanalista inglês Donald W. Winnicott, é possível supor que esses adultos foram crianças que não experimentaram um ambiente suficientemente bom, nem tiveram um cuidador devotado, capaz de integrar os sentimentos infantis de amor e de raiva, algo fundamental para o desenvolvimento psicossomático saudável. Ao contrário: podemos supor a presença de um adulto preponderantemente intrusivo ou ausente (certamente um reflexo de carências resultantes da história de vida do próprio cuidador), incapaz de se adaptar ao tempo ou ao ritmo das necessidades da criança pequena.

Nesse sentido, podemos pensar sobre os conceitos de verdadeiro self e falso self propostos por Winnicott. Se o primeiro resulta da aceitação dos gestos espontâneos da criança por parte de quem cuida, o segundo revela uma submissão da criança aos gestos e vontades do adulto, incapaz de entender e satisfazer as necessidades do filho. Quando isso ocorre pela ausência de reconhecimento, podemos supor que se constrói um falso self como defesa contra o excesso de intrusão, impedindo o surgimento de manifestações espontâneas.

Assim, na relação terapêutica, o analista se vê diante da necessidade de um manejo que, diferentemente da técnica clássica baseada na interpretação do material inconsciente, se orienta por acolher o paciente e acompanhar cuidadosamente suas expressões e comunicações aparentemente mais singelas e triviais. Nestes casos, a técnica clínica mais clássica poderia contribuir para a manutenção de cisões do ego. O que impede a integração dos afetos e facilita a consequente desorganização psicossomática. Isso nos leva a pensar que a interpretação seja uma forma intrusiva de agir, que poderia ser comparada aos atos invasivos do cuidador.

Ciente das defesas primitivas respeitando a maneira peculiar de relação objetal, com toda a violência que as identificações carregam e das quais o analista é alvo, este poderá então exercer a escuta por meio das sensações que impregnam seu próprio corpo. Segundo o filósofo e psicanalista Fédida, o corpo do analista se concretiza como palco onde se encenam os “fantasmas” do paciente. Como já observou R. Volich, as sensações ocorridas no corpo do terapeuta se põem como caminho importante para a compreensão da dinâmica do paciente e contribuem para futuras possibilidades de interpretação. Ao suportar tais desconfortos (a exemplo da mãe que realiza sua função materna), o terapeuta metaboliza os conteúdos agressivos, transformando-os em elementos mais “palatáveis” ao paciente. Há grande importância na autopercepção do analista em relação a sensações corpóreas, com vistas a uma transformação em sua atividade interna como ferramenta construtiva do processo de estruturação subjetiva e da mentalização do paciente.

Parece fundamental, portanto, colocar o corpo a serviço da relação analítica, pois, se o corpo “fala” por meio dos sinais patológicos, será por meio do corpo tanto do paciente quanto do terapeuta que o diálogo será inicialmente instaurado. A psicanalista Joyce Mc Dougall traz essa ideia em sua obra: como se fosse um aparelho psíquico com- partilhado, dois corpos tornam-se apenas um no trabalho conjunto do ato de pensar e buscar significados.

Cabe ao terapeuta, portanto, tornar-se intérprete desses conteúdos, no momento em que os identifica, os toma como seus e, delicadamente, permite a construção de um ambiente acolhedor no qual o paciente poderá se sentir, gradativamente, capaz de suportar seus próprios conteúdos agressivos, na medida em que abre mão de defesas primitivas como a cisão e a projeção para defesas mais elaboradas. “É por meio da delicadeza da escuta, de uma leitura em filigrana das palavras, na sutileza da busca dos detalhes, dos gestos, do olhar, do silêncio, que o analista vai reencontrar as marcas das imagens internas do paciente. Tudo se passa como se a palavra do analista devesse incentivar o paciente a desenvolver seu poder imaginativo de tal forma que o acontecimento que toca o corpo não fique privado de possibilidades metafóricas”, escreve a psicanalista Maria Helena Fernandes, em seu livro Corpo (Casa do Psicólogo, 2008).

É na qualidade do vínculo psicoterapeuta-paciente que encontramos as condições de um recomeço. A ideia é que, aos poucos, o paciente adquira a possibilidade de expressar em palavras a parte que foi vivida como má, iniciando um processo de integração entre os próprios pensamentos e sentimentos – antes insuportáveis e assustadores –, e que aos poucos adquirem sentidos e significados. É por meio da relação com o terapeuta que aparecem novas capacidades, expressões menos regredidas, mais espontâneas e criativas.

Após algum tempo de análise, por vezes, surgem comentários dos pacientes sobre como se sentem acolhidos no espaço analítico. Isso nos lembra Winnicott, quando enfatiza que “na prática psicanalítica, as mudanças que ocorrem nesta área podem ser profundas. Elas não dependem do trabalho interpretativo, mas sim da sobrevivência do analista” a este tipo de relação fragilizada. Não é raro observar a necessidade de o paciente sentir-se fisicamente próximo ao terapeuta. Sobre isso, Fernandes escreve: “Não é por acaso que esse tipo de paciente tem necessidade de constatar a presença viva do analista; é essa presença que lhe assegura que o analista não está “morto”.

 

LÉDICE LINO DE OLIVEIRA – é psicóloga, mestre em ciências da saúde, professora do curso de psicologia da Universidade Paulista (Unip).

RAFAEL PICCOLO FELICIANO – é psicólogo clínico, autor do livro digital Escritos psicanalíticos da vida. (ePub, 2017).

ROSA JUNQUEIRA – é psicanalista. Os três são membros-fundadores do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.