ALIMENTO DIÁRIO

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MATEUS 8: 5-13

Cristo Cura o Servo do Centurião

Temos aqui um relato da cura realizada por Cristo do criado de um centurião. Ele era paralítico. Isso aconteceu em Cafarnaum, onde Cristo morava agora (cap. 4.13). Cristo andava fazendo o bem, e veio para casa fazer o bem também; todo lugar aonde Ele ia era bom para Ele.

As pessoas com quem Cristo tinha agora que tratar eram:

1.Um centurião. Este era um suplicante, um gentio, um romano, um oficial do exército; provavelmente comandante-em-chefe daquela parte do exército romano que estava aquartelada em Cafarnaum, e mantinha soldados ali.

(1) Embora fosse um soldado (homens dessa profissão geralmente são pouco piedosos), ainda assim ele era um homem religioso; ele era eminentemente religioso. Note que Deus tem seus remanescentes em meio a todos os tipos de pessoas. Nem a profissão nem o lugar de um homem no mundo serão uma desculpa para a sua incredulidade e impiedade; ninguém dirá no grande dia: Eu teria sido consciencioso se não tivesse sido um soldado; pois existem soldados entre “os resgatados do Senhor”. E, às vezes, onde a graça conquista as pessoas mais improváveis, ela se mostra como uma graça mais do que conquistadora; esse soldado, que era bom, passou a ser muito melhor.

(2) Embora ele fosse um soldado romano, e o próprio fato de habitar entre os judeus fosse um símbolo da subserviência destes ao jugo romano, Cristo, que era o “Rei dos judeus”, o favoreceu; e desse modo nos ensinou a fazer o bem aos nossos inimigos, e a não procurarmos inimizades desnecessárias entre as nações.

(3) Embora ele fosse um gentio, mesmo assim Cristo o auxiliou. É verdade, Ele não entrou em nenhuma das cidades dos gentios (era a terra de Canaã, a terra do Emanuel, Isaías 8.8), mas ainda assim Ele aceitava que os gentios se dirigissem a Ele; agora a profecia do velho e bom Simeão começava a se cumprir: que ele deveria ser uma “luz para alumiar as nações e para glória de teu povo Israel”. Mateus, ao mencionar esta cura juntamente com a do leproso que era judeu, sugeriu isso: Cristo tocou e curou os leprosos judeus, pois ele pregou pessoalmente para eles; mas Ele curou o gentio paralítico à distância, pois a eles Ele não foi em pessoa, mas enviou a sua palavra e o curou. Apesar disso, Ele foi mais exaltado entre os gentios.

2.O criado do centurião. Era o paciente. Nisto também parece não haver preferência de Deus pelas pessoas; pois como em Jesus Cristo “não há circuncisão nem incircuncisão”, assim também não há “servo ou livre”. Ele está pronto para curar tanto o mais pobre criado, como o senhor mais rico; pois Ele “tomou a forma de servo” para mostrar sua consideração para com os mais pobres.

Na história da cura desse criado, nós podemos observar uma relação ou alternância de graças, muito digna de nota entre Cristo e o centurião. Veja aqui:

I – A graça do centurião atuando em relação a Cristo. Pode qualquer coisa boa advir de um soldado romano? Qualquer coisa tolerável, e, mais ainda, qualquer coisa louvável? Venha ver, e você encontrará uma abundância de bondade surgindo desse centurião, que era eminente e exemplar. Observe:

1.Sua retórica cortês para com Jesus Cristo, que se expressa em:

(1) Uma humilde saudação ao nosso grande Mestre, corno alguém capaz e disposto a socorrer e a aliviar solicitantes pobres. Ele veio a Cristo suplicando, não como Naamã, o sírio (também um centurião) veio a Eliseu, exigindo a cura, fazendo imposições e apoiando-se em questões de honra; mas humildemente como um pobre solicitante. Por isso parece que ele viu em Cristo mais do que Ele aparentava à primeira vista; viu aquilo que os comandados respeitam, embora para aqueles que não olhassem mais atentamente, seu semblante não teria uma aparência melhor do que a de qualquer outro homem. Os oficiais do exército, estando no controle da cidade, sem dúvida eram muito importantes. Mesmo assim, este centurião coloca de lado a mentalidade típica do seu alto posto quando se dirige a Cristo, e chega a Ele implorando. Note que os maiores homens devem se tornar como pedintes, quando precisam tratar com Cristo. Este reconhece a soberania de Cristo, ao chamá-lo de Senhor, e ao entregar o caso a Ele, à sua vontade e sabedoria, através de uma modesta apresentação, sem qual­ quer apelo formal e expresso. Ele sabia que precisava tratar com um médico sábio e benevolente, a quem a exposição da doença era equivalente ao pedido mais fervoroso e sincero. Uma humilde confissão de nossas necessidades e enfermidades espirituais e físicas não deve ficar sem uma resposta tranquilizadora. Derrame a sua queixa, e a misericórdia será derramada.

(2) Uma atenção caridosa para como seu pobre criado. Nós lemos sobre muitos que vieram a Cristo pedindo por seus filhos, mas este é o único caso de alguém que veio a Ele por causa de um criado: “Senhor, o meu criado jaz em casa paralítico e violentamente atormentado”. Note que é dever dos senhores preocuparem-se com os seus criados quando estes estão aflitos. A paralisia incapacitou o criado para o seu trabalho, e o tornou tão problemático e tedioso quanto qualquer doença grave é capaz de fazer. Ainda assim este centurião não o mandou embora quando estava doente (como aquele amalequita fez com seu criado, 1 Samuel 30.13), não o enviou para seus amigos, nem o negligenciou como a alguém inútil, mas procurou o melhor socorro que podia para ele; o criado não poderia ter feito mais pelo seu senhor do que o seu senhor fez aqui por ele. Os criados do centurião eram muito obedientes a ele (v. 9), e aqui vemos o porquê disso; o centurião era muito gentil com eles, e isso os tornou carinhosamente obedientes a ele. Assim como não devemos desprezar os motivos de nossos criados, quando estes contendem conosco (Jó 31.13,15), da mesma forma não podemos desprezar a sua situação, quando Deus contende com eles; porque somos feitos nos mesmos moldes, pela mesma mão, e estamos nos mesmos níveis que eles diante de Deus, e não devemos colocá-los junto com os cães do nosso rebanho. O centurião não apelou por seu criado a bruxas ou feiticeiros, mas a Cristo. A paralisia é uma doença na qual a habilidade do médico geralmente falha; esta era, portanto, uma grande evidência de sua fé no poder de Cristo, vir a Ele em busca de uma cura, cuja realização estava acima dos meios naturais. Observe quão piedosamente ele descreve o caso de seu criado como sendo muito triste; “o meu criado jaz em casa paralítico e violentamente atormentado”, uma enfermidade que geralmente torna o paciente insensível à dor, mas essa pessoa estava dolorosamente atormentada; sendo jovem, havia disposição para lutar contra o derrame, o que o tornava doloroso (não era uma paralisia simples, mas virótica). Nós deveríamos nos interessar dessa forma pelas almas de nossos filhos e criados que estejam espiritualmente doentes de paralisia – uma paralisia total, uma paralisia cerebral; insensíveis aos males espirituais, inertes para aquilo que é espiritualmente bom – fornecendo-lhes os recursos para que obtenham a cura e a saúde.

2.Observe a grande humildade e auto humilhação do centurião. Depois que Cristo havia anunciado sua disposição de ir e curar seu criado (v. 7), o centurião se expressou com o mais humilde dos pensamentos. Note que almas humildes se tornam mais humildes pela generosa condescendência de Cristo para com elas. Observe o modo de expressar a sua humildade: “Senhor, não sou digno de que entres debaixo do meu telhado” (v. 8), o que expressa o quão inferior ele se achava e o quão superior considerava nosso Senhor Jesus. Ele não diz: “Meu criado não é digno que entres em seu quarto, por que este fica no sótão”, mas: “Não sou digno de que entres debaixo do meu telhado”. O centurião era um grande homem, ainda assim ele reconheceu sua indignidade diante de Deus. Note que a humildade fica bem em pessoas de caráter. Cristo, tendo se esvaziado de sua glória, personificava não mais do que uma pobre figura no mundo; ainda assim o centurião, olhando-o como a um profeta, sim, “muito mais do que profeta”, conferiu a Ele esse respeito. Note que deveríamos ter consideração e veneração pelo que vemos da parte de Deus, mesmo naqueles que, na aparência externa, nos são de todas as formas inferiores. O centurião veio a Cristo com uma súplica e então se expressou humildemente. Observe que em todas as nossas abordagens a Cristo e a Deus, através de Cristo, cabe a nós nos humilharmos e sermos discretos ao percebermos a nossa própria insignificância – como criaturas más e pecadores vis – para fazer qualquer coisa por Deus, para receber qualquer bem dele, ou para ter qualquer relacionamento com Ele.

2.Observe a grande fé do centurião. Quanto mais humildade mais fé; quanto mais inseguros formos, mais forte será nossa confiança em Jesus Cristo. Ele teve uma convicção de fé, não apenas de que Cristo podia curar seu criado, mas:

  • Que Ele podia curá-lo à distância. Não seria preciso qualquer contato físico, como em cirurgias naturais, nem qualquer curativo para a parte afetada; mas a cura, ele acreditava, poderia ser realizada sem reunir médico e paciente. Nós lemos posteriormente sobre aqueles que levaram um paralítico a Cristo, com muita dificuldade, e o colocaram diante dele; e Cristo elogiou a sua fé, classificando-a como uma fé prática. Esse centurião não levou o seu paralítico e Cristo elogiou a sua fé como uma fé caracterizada pela confiança: a fé verdadeira é aceita por Cristo, embora varie na aparência. Cristo interpreta da melhor maneira os diferentes métodos de fé que as pessoas adotam, e nos ensinou a fazer assim também. Esse centurião cria, e é indubitavelmente verdadeiro que o poder de Cristo não conhece limites, e, consequentemente, proximidade ou distância são iguais para Ele. A distância de um lugar não pode obstruir nem o conhecimento nem o trabalho daquele que enche todos os lugares. “Sou eu apenas Deus de perto, diz o Senhor, e não também Deus de longe? (Jeremias 23.23).
  • Que Ele podia curá-lo com ”uma palavra”, não lhe enviando um remédio, muito menos um feitiço; “Dize somente uma palavra” e eu não tenho dúvida de que “o meu criado sarará”. Neste ponto, o centurião reconhece que Jesus tem um poder divino, uma autoridade para controlar todas as criaturas e forças da natureza, que lhe permite fazer tudo aquilo que lhe agrade no reino da natureza; da mesma forma como Ele inicialmente levantou esse reino através de uma palavra onipotente, quando disse: “Haja luz”. Entre os homens, dizer e fazer são duas coisas; mas não é assim com Cristo, que é “o braço do Senhor”, porque Ele é a “palavra eterna”. Sua palavra, “aquentai-vos e fartai-vos” (Tiago 2.16), e curai-vos, nos aquece, alimenta e cura.

O centurião ilustra aqui a sua fé no poder de Cristo pela autoridade que ele tinha sobre os seus soldados. Como centurião, como um mestre sobre seus criados, ele diz para um: ”Vai, e ele vai” etc. (v. 9). Eles estavam todos sob suas ordens e comando, de modo que através deles ele podia executar coisas à distância; sua palavra era lei para eles –; soldados bem disciplinados sabem que as ordens de seus superiores não devem ser discutidas, mas obedecidas. Portanto, Cristo podia falar, e estaria feito; tal o poder que Ele tinha sobre todas as doenças tisicas. O centurião tinha essa autoridade sobre seus soldados, embora ele próprio fosse um homem sob autoridade; não um comandante-em-chefe, mas um oficial subalterno. Quanto mais de tal poder tinha Cristo, que é o supremo e soberano Senhor de tudo. Os criados do centurião eram muito subservientes, iam e viam, ao menor indicio da vontade de seu senhor. Isto posto:

[1] Todos nós deveríamos ser como esses criados diante de Deus. Nós devemos ir e “ir ao seu comando, de acordo com as orientações da sua Palavra e as disposições da sua providência; correr para onde Ele nos mandar, retornar quando Ele nos ordenar, e fazer o que Ele determinar: “Que diz meu Senhor ao seu servo?” Quando a vontade do Senhor contradiz a nossa, a dele deve prevalecer, e a nossa ser colocada de lado.

[2] Tais enfermidades físicas dos criados devem ser curadas por Cristo. Elas nos acometem quando Ele as permite; elas nos deixam quando Ele as cura; elas produzem em nós aqueles efeitos que Ele ordena, em nossos corpos, em nossas almas. E uma questão de bem-estar para todos os que pertencem a Cristo, para cujo bem a sua força é manifestada e empregada. É necessário que cada doença tenha a autorização do Senhor, execute a sua ordem, esteja sob o seu controle, e seja criada para servir às intenções de sua graça. Não devemos temer as enfermidades, nem o que elas podem fazer; devemos entregá-las nas mãos daquele amigo tão bom, o nosso Salvador.

II – Aqui está a graça de Cristo apresentada a este centurião; pois ao generoso, Ele se mostrará generoso.

1.O centurião concordou com o discurso do Senhor desde a sua primeira palavra. Ele não havia feito mais do que lhe contar o caso de seu criado e ia implorar uma cura, quando Cristo o impediu, com a sua boa e confortadora palavra: “Eu irei e lhe darei saúde” (v. 7). Jesus não disse: “Eu irei vê-lo” – o que o teria evidenciado como um bondoso Salvador; mas: “Eu irei e lhe darei saúde” – o que o revela como um poderoso e onipotente Salvador. Era uma palavra poderosa, compatível com o bem que Ele podia fazer; pois Ele tem a cura “debaixo de suas asas”; a sua vinda é a cura. Aqueles que realizavam milagres através de um poder recebido, não falavam assim afirmativamente, como Cristo, que os realizava através do seu próprio poder, como alguém que tinha autoridade. Quando um ministro visita um amigo doente, ele não pode dizer mais do que: Eu irei e orarei por ele; mas Cristo diz: “Eu irei e lhe darei saúde”. É bom que Cristo possa fazer mais por nós do que os nossos ministros. O centurião desejou que Jesus curasse seu criado; o Senhor diz: “Eu irei e lhe darei saúde”; expressando, desse modo, uma ajuda maior do que o centurião pediu ou pensou. Note que Cristo frequentemente supera as expectativas dos pobres que suplicam. Veja um exemplo da humildade de Cristo, que fez uma visita a um soldado pobre. Ele não desceu para ver o filho doente de um nobre que insistia para que Ele descesse (João 4.47-49), mas Ele se oferece para descer para ver um criado doente; desse modo, Ele res peita a baixa condição social (ou a condição humilde) de seu povo, e “dá muito mais honra ao que tem falta dela”. A humildade de Cristo, por estar disposto a vir, serviu corno um exemplo ao centurião, e originou a sua humildade de se confessar indigno de sua vinda. Note que a generosa condescendência de Cristo para conosco deveria nos tornar mais humildes, e nos levar a nos humilharmos diante dele.

  1. Jesus elogia a fé do centurião e aproveita essa oportunidade para falar alguma coisa agradável sobre os pobres gentios (vv. 10-12). Veja que grandes coisas uma fé vigorosa, porém abnegada, pode obter de Jesus Cristo, mesmo quando se tratar de um interesse de caráter geral e popular.

(1) Quanto ao próprio centurião, ele não só o aprovou e aceitou (esse respeito todos os verdadeiros crentes têm), mas admirou e louvou ao Senhor: ele demonstrou aquele respeito que os grandes crentes têm, como Jó. Não há ninguém semelhante ao Senhor, nos céus ou na terra.

  • Cristo o elogiou, não por sua grandeza, mas por suas virtudes. Quando Jesus ouviu isso, maravilhou-se; não como se isso fosse novo e surpreendente para Ele – Ele conhecia a fé do centurião, porque Ele a criou –  mas ela era grande e extraordinária, rara e atípica, e Cristo falou  dela como algo maravilhoso, para nos ensinar o que devemos admirar; não pompa terrena e ornamentações, mas a beleza da santidade e os ornamentos que são “preciosos diante de Deus”. Note que as maravilhas da graça deveriam nos afetar mais que as maravilhas da natureza ou da providência, e as realizações espirituais, mais que qualquer empreendimento neste mundo. Deveríamos dizer que os “ricos na fé” são os que receberam toda a sua glória; aqueles que são ricos em ouro e prata nem sempre têm a maior riqueza, que é a presença do Senhor (Genesis 31.1). Mas o que quer que exista de admirável na fé de alguém deve contribuir para a glória de Cristo, que será em breve admirado na vida de todos aqueles que creem, por ter feito coisas maravilhosas neles e para eles.
  • Jesus “maravilhou-se ” do que ouviu e elogiou o centurião diante daqueles “que o seguiam”. Todos os crentes serão, no outro mundo (alguns crentes são neste mundo), confessados e reconhecidos por Cristo diante dos homens, em suas célebres aparições para eles e com eles. “Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta fé”. Isto indica, em primeiro lugar, respeito ao centurião, que, embora não sendo um filho da descendência de Abraão, era um herdeiro da fé de Abraão, e Cristo o considerou assim. Note que o que Cristo procura é a fé, e onde quer que ela esteja, Ele a encontra, mesmo que ela seja como “um grão de mostarda”. Ele não havia encontrado uma fé tão grande, considerados todos os fatos, e guardadas as proporções; pois foi dito que a pobre viúva “lançou mais do que todos” (Lucas 21.3). Embora o centurião fosse um gentio, ainda assim ele foi elogiado. Note que devemos estar tão afastados da inveja, que devemos nos adiantar a prestar os devidos elogios até mesmo àqueles que não estão dentro de nosso grupo denominacional, ou em nossos limites sociais. Em segundo lugar, isso significa vergonha para Israel, a quem pertencia “a adoção de filhos, e a glória, e os concertos, e a lei, e o culto, e as promessas” e todos os auxílios e encorajamentos da fé. Observe que quando o Filho do Homem vier, Ele encontrará pouca fé, e, então, encontrará poucos frutos. Note que as realizações de alguns, que têm tido somente pouca ajuda para suas almas, agravarão o pecado e a ruína de muitos que recebera m uma grande quantidade de recursos através da graça e não fizera m bom proveito delas. Cristo disse isto “aos que o seguiam”, para, de alguma maneira, poder incitá-los à sagrada emulação, como diz Paulo (Romanos 11.14). Eles eram sementes de Abraão, tão zelosos dessa glória, que não toleravam ser sobrepujados por um gentio, especialmente naquela graça pela qual Abraão era célebre.

(2) Quanto aos outros. Cristo aproveita a ocasião, portanto, para fazer uma comparação entre judeus e gentios, e dizer a eles duas coisas que só poderiam ser muito surpreendentes para aqueles a quem havia sido ensinado que “a salvação vem dos judeus”.

[1] Que um grande número de gentios seria salvo (v. 11). A fé do centurião nada era senão mais um exemplo da conversão dos gentios, e um prólogo para a sua aceitação na igreja. Este foi um ponto em que o nosso Senhor Jesus tocou com frequência; Ele fala disso com segurança. “Em verdade vos digo”: Eu conheço todos os homens. Ele não podia dizer qualquer coisa mais agradável a si mesmo, ou mais desagradável aos judeus – uma insinuação desse tipo enfureceu os nazarenos contra Ele (Lucas 4.27). Cristo nos dá aqui uma ideia, em primeiro lugar das pessoas que serão salvas: “muitos virão do Oriente e do Ocidente”. Ele tinha dito (cap. 7.14): “Porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem”. Poucos ao mesmo tempo, e em um único lugar; ainda assim, quando se juntarem, eles serão muito numerosos. Agora, nós vemos apenas um ou outro, traz idos à graça; mas nós veremos brevemente o Capitão da nossa salvação trazendo “muitos filhos à glória” (Hebreus 2.10). “Eis que é vindo o Senhor com milhares de seus santos” (Judas 14), “e eis aqui uma multidão, a qual ninguém podia contar” (Apocalipse 7.9); e “as nações andarão à sua luz” (Apocalipse 21.24). Eles “virão do Oriente e do Ocidente”; lugares distantes uns dos outros; e ainda assim eles se encontrarão à destra de Cristo, o centro de sua unidade. Note que Deus tem seus remanescentes em todos os lugares: “Desde o nascente do sol até ao poente” (Malaquias 1.11). Os escolhidos serão ajuntados “desde os quatro ventos” (cap. 24.31). Eles estão se­ meados na terra, alguns espalhados em cada extremidade do campo. O mundo gentílico se estende do Oriente ao Ocidente, e eles são especialmente citados aqui. Embora agora eles fossem “estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança”, e o tenham sido por muito tempo, ainda assim quem sabe quantos Deus tinha ocultado entre eles até então? Como no tempo de Elias em Israel (1 Reis 19.14), logo depois do qual eles se arrebanharam na igreja em grandes multidões (Isaias 60.3,4). Observe que quando formos para o paraíso, assim como sentiremos ali a falta de muitos que pensávamos que tivessem ido para lá, também encontraremos um grande número que não esperávamos encontrar ali. Em segundo lugar, Cristo nos dá uma ideia da salvação em si. Os santos irão juntos, irão juntos a Cristo (2 Tessalonicenses 2.1). 1. Eles serão admitidos no reino da graça na terra, no pacto da graça feito com Abraão, Isaque e Jacó; eles serão “benditos com o crente Abraão”, cuja bênção chega aos gentios (Gálatas 3.14). Isso torna Zaqueu um filho de Abraão (Lucas 19.9).

2.Eles serão admitidos “no Reino dos céus”. Eles virão alegremente, “voando como pombas, às suas janelas”; eles se sentarão para descansar de suas labutas, como se tivessem terminado seu trabalho diário. Sentar-se indica algo que per dura, uma continuidade: enquanto estamos de pé, estamos indo; onde nos sentamos, pretendemos ficar; o céu é um descanso permanente, é uma cidade perpétua; eles se sentarão, como sobre um trono (Apocalipse 3.21); como a uma mesa; que aqui é uma metáfora. Eles deverão se sentar para se banquetear, o que denota tanto a plenitude de comunicação, como a liberdade e a intimidade da comunhão (Lucas 22.30). Eles se sentarão com Abraão. Todos aqueles que neste mundo estiveram sempre tão distantes uns dos outros, no tempo, na localização, ou na aparência externa, se encontrarão no céu; antigos e modernos, judeus e gentios, ricos e pobres. O homem rico no inferno vê Abraão, mas Lázaro está sentado com ele, reclinado em seu peito. Note que a sociedade sagrada é uma parte da felicidade do céu; e aqueles a quem já são chegados os fins dos séculos, e que têm menos destaque, compartilharão uma gloriosa comunhão com os renomados patriarcas.

[2] Que um grande número de judeus perecerá (v. 12). Observe:

Em primeiro lugar, um veredicto singular foi transmitido: “Os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores”. Os judeus que persistirem na incredulidade, ainda que por nascimento sejam “filhos do Reino”, ainda assim serão cortados e impedidos de ser membros da igreja visível; “o Reino de Deus”, do qual eles se vangloriaram de ser filhos, lhes será tirado, e eles não serão um povo, não obtendo perdão (Romanos 11.20; 9.31). No grande dia, terem sido filhos do Reino não beneficiará os homens, seja como judeus ou como cristãos; porque os homens serão então julgados, não pelo que eram chamados, mas pelo que eles eram. Se filhos de fato, então herdeiros; mas muitos são filhos que só oferecem um louvor de lábios, outros apenas fazem parte de uma família cristã, mas não servem de fato ao Senhor, e assim ficarão sem herança. Ser nascido de pais que professam a fé nos traz o título de “filhos do Reino”; mas se nos acomodarmos nisso, e não tivermos nada mais para mostrar ao céu além disso, seremos “lançados nas trevas exteriores”.

Em segundo lugar, é descrito um castigo incomum para os praticantes da iniquidade. Eles “serão lançados nas trevas exteriores”, nas trevas daqueles que estão excluídos, dos gentios que estão fora da igreja; naquelas em que os judeus foram lançados, e ainda pior; seus olhos foram cegados, e endurecidos, e aterrorizados, como mostra o apóstolo (Romanos 11.8-10). Um povo tão afastado de Deus, e que abre mão de julgamentos espirituais, já está em trevas absolutas. Mas considerando detalhadamente a condição dos pecadores amaldiçoados no inferno, podemos perceber que este é um prefácio lúgubre. Eles serão lançados fora da presença de Deus, e de todo consolo verdadeiro, e atirados nas trevas. No inferno existe fogo, mas nenhuma luz; é escuridão absoluta; escuridão extrema; o mais alto grau de escuridão, sem qualquer resquício, mescla ou esperança de luz; nem o menor vislumbre ou reflexo dela; é uma escuridão que resulta de sua exclusão do céu, o reino da luz; aqueles que estão no lado de fora, estão nas regiões das trevas; todavia isso ainda não é o pior, “ali haverá pranto e ranger de dentes”.

1.No inferno haverá grande aflição, dilúvios de lágrimas derramadas em vão; tormento do espírito consumindo eternamente os órgãos vitais, no sentido de que a ira de Deus seja o tormento dos amaldiçoados.

2.Grande indignação: pecadores amaldiçoados rangerão os seus dentes por ódio e tormento, “cheios do furor do Senhor”; vendo com inveja a felicidade dos outros, e pensando com horror e pesar na antiga possibilidade de serem felizes, que agora é passada.

1.Ele cura seu criado. Ele não apenas elogia seu pedido a ele, mas lhe assegura aquilo que ele pede, o que significa uma resposta concreta (v. 13). Observe:

  • O que Cristo disse ao centurião. Ele disse aquilo que tornou a cura um benefício tão importante para ele como era para o seu criado, e muito maior: “Como creste, te seja feito”. O criado recebeu a cura da sua doença, mas o centurião teve a confirmação e a aprovação da sua fé. Note que Cristo frequentemente dá respostas encorajadoras para aqueles que oram, à medida que estão intercedendo por outros. Isto é bondade para conosco, sermos ouvidos em favor de outros. “O Senhor virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos” (Jó 42.10). Cristo outorgou uma grande honra a esse centurião quando lhe deu um cheque em branco: “Como creste, te seja feito”. O que mais poderia ele querer? Não obstante, o que foi dito a ele é dito a todos nós: Creia e receberá; “crê somente”. Veja aqui o poder de Cristo e o poder da fé. Como Cristo pode fazer o que quiser, um crente diligente pode obter o que desejar de Cristo; o óleo da graça se multiplica, e não se esgota até que tenha enchido t odos os vasos que forem trazidos pela fé.
  • Qual foi o efeito dessa declaração: a oração da fé foi uma oração bem-sucedida – isso sempre foi assim – e sempre será. Parece, pela rapidez da cura, que foi milagrosa – isto também é reforçado pela declaração de Cristo, que o milagre era seu: Ele “falou, e tu do se fez”. E isso foi uma prova de sua onipotência, de que Ele tinha e tem um braço poderoso. Um médico experiente comentou que as doenças que Cristo curou eram, sobretudo, as mais difíceis de serem curadas por quaisquer meios naturais, particularmente a paralisia.

GESTÃO E CARREIRA

Diversidade racial derrapa

DIVERSIDADE RACIAL DERRAPA

Os líderes negros se aposentam e são substituídos por brancos.

 Embora a primeira década deste século tenha registrado avanços na diversidade racial no meio empresarial, um levantamento sobre lideranças da revista americana Fortune soa o alerta: atualmente há apenas quatro negros ocupando cargos de CEO no universo das 500 maiores empresas americanas, e o número em 2018 cairá para três, com a aposentadoria de Ken Chenault, atual CEO da American Express. Explica-se. Quando Chenault assumiu seu posto, em 2001, havia apenas três CEOs negros na lista da Fortune, número que atingiu o ápice em 2007, com sete. Os líderes negros se aposentaram e estão sendo substituídos por brancos. Ao mesmo tempo, não houve ascensão de novos altos executivos negros. Para o sociólogo Richard L. Zweigenhaft, que assessorou os autores do estudo, o retrocesso pode ser resumido na frase “últimos a entrar, primeiros a sair” – fórmula também aplicada às mulheres.

PSICOLOGIA ANALÍTICA

PSICOSSOMÁTICA PSICANALÍTICA

Psicossomática psicanalítica

 

OUTRAS FORMAS DE ESCUTAR O SOFRIMENTO.

Muitas vezes, pacientes com manifestações somáticas procuram a psicoterapia encaminhados por médicos ou por insistência de parentes e outras pessoas de seu convívio, em busca de ajuda para se livrar dos sintomas do adoecimento físico, mas se mostram distantes de suas próprias angústias. Cabe ao analista encontrar maneiras de lidar com dor psíquica, nem sempre óbvia.

 A psicanálise é instigada constantemente a se reinventar. Há mais de um século, quando criou esse método – para tratar inicialmente pacientes histéricas –, Sigmund Freud apresentou a escuta como principal instrumento de trabalho. Ele pedia para que seus pacientes se deitassem no divã, de forma confortável, e falassem “aquilo que lhes viesse à cabeça”. Essa técnica, conhecida como associação livre, facilitaria a emergência para a consciência de conteúdos recalcados.

Quando falamos em recalque, longe de seu significado popularizado, que se aproxima da inveja, nos referimos a uma defesa bastante elaborada, própria à neurose. Resumidamente, seu mecanismo se baseia em retirar da esfera consciente (e manter inconscientes) conteúdos de difícil elaboração, sentidos como intoleráveis ou incompatíveis com os próprios valores, mas que emergem, como afirmam os psicanalistas franceses Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, “sob a forma de sintomas, sonhos, atos falhos etc.”.

A psicossomática psicanalítica considera que apresentamos outras formas de organização psíquica que diferem da neurose e podem ser incluídas no campo das desorganizações psicossomáticas. Caracterizadas pela prevalência de sintomas que incidem diretamente sobre o corpo, costumam desencadear afecções somáticas crônicas e até mesmo progressivas, o que torna o manejo clínico com esses pacientes um desafio a mais para o método analítico.

Destacam-se aqui particularidades do campo transferencial, refletindo impasses na relação terapeuta-paciente, específicos ao tratamento de pessoas que apresentam processos de desorganização psicossomática. Inúmeras se apresentam ao terapeuta: Como contribuir para que este paciente possa construir e dar sentido às palavras? Como se tornar um “outro” diante de um paciente que preserva o investimento maciço em si próprio? Como evitar que o acompanha- mento psicoterápico caia no vazio refletido pela vida psíquica ausente de símbolos, com grandes inconsistências nas relações com o mundo externo?

Com frequência, esses pacientes chegam aos consultórios encaminhados por médicos e muitas vezes por insistência de familiares e outras pessoas de seu convívio. Apresentam alguma manifestação somática para a qual buscam auxílio para tratar seus sintomas. Porém, se revelam distantes de suas angústias, diferentes dos chamados “neuróticos clássicos” que alcançaram a capacidade de simbolização e conseguem, das mais variadas maneiras, metabolizar as angústias. Pacientes que manifestam diretamente no corpo suas questões psíquicas não parecem entrar em contato com conflitos, tampouco com processos de pensa- mento ou fantasias. O paciente parece estar movido por seus instintos mais primitivos e necessita de cuidados que acolham seus excessos.

Segundo o psicanalista inglês Donald W. Winnicott, é possível supor que esses adultos foram crianças que não experimentaram um ambiente suficientemente bom, nem tiveram um cuidador devotado, capaz de integrar os sentimentos infantis de amor e de raiva, algo fundamental para o desenvolvimento psicossomático saudável. Ao contrário: podemos supor a presença de um adulto preponderantemente intrusivo ou ausente (certamente um reflexo de carências resultantes da história de vida do próprio cuidador), incapaz de se adaptar ao tempo ou ao ritmo das necessidades da criança pequena.

Nesse sentido, podemos pensar sobre os conceitos de verdadeiro self e falso self propostos por Winnicott. Se o primeiro resulta da aceitação dos gestos espontâneos da criança por parte de quem cuida, o segundo revela uma submissão da criança aos gestos e vontades do adulto, incapaz de entender e satisfazer as necessidades do filho. Quando isso ocorre pela ausência de reconhecimento, podemos supor que se constrói um falso self como defesa contra o excesso de intrusão, impedindo o surgimento de manifestações espontâneas.

Assim, na relação terapêutica, o analista se vê diante da necessidade de um manejo que, diferentemente da técnica clássica baseada na interpretação do material inconsciente, se orienta por acolher o paciente e acompanhar cuidadosamente suas expressões e comunicações aparentemente mais singelas e triviais. Nestes casos, a técnica clínica mais clássica poderia contribuir para a manutenção de cisões do ego. O que impede a integração dos afetos e facilita a consequente desorganização psicossomática. Isso nos leva a pensar que a interpretação seja uma forma intrusiva de agir, que poderia ser comparada aos atos invasivos do cuidador.

Ciente das defesas primitivas respeitando a maneira peculiar de relação objetal, com toda a violência que as identificações carregam e das quais o analista é alvo, este poderá então exercer a escuta por meio das sensações que impregnam seu próprio corpo. Segundo o filósofo e psicanalista Fédida, o corpo do analista se concretiza como palco onde se encenam os “fantasmas” do paciente. Como já observou R. Volich, as sensações ocorridas no corpo do terapeuta se põem como caminho importante para a compreensão da dinâmica do paciente e contribuem para futuras possibilidades de interpretação. Ao suportar tais desconfortos (a exemplo da mãe que realiza sua função materna), o terapeuta metaboliza os conteúdos agressivos, transformando-os em elementos mais “palatáveis” ao paciente. Há grande importância na autopercepção do analista em relação a sensações corpóreas, com vistas a uma transformação em sua atividade interna como ferramenta construtiva do processo de estruturação subjetiva e da mentalização do paciente.

Parece fundamental, portanto, colocar o corpo a serviço da relação analítica, pois, se o corpo “fala” por meio dos sinais patológicos, será por meio do corpo tanto do paciente quanto do terapeuta que o diálogo será inicialmente instaurado. A psicanalista Joyce Mc Dougall traz essa ideia em sua obra: como se fosse um aparelho psíquico com- partilhado, dois corpos tornam-se apenas um no trabalho conjunto do ato de pensar e buscar significados.

Cabe ao terapeuta, portanto, tornar-se intérprete desses conteúdos, no momento em que os identifica, os toma como seus e, delicadamente, permite a construção de um ambiente acolhedor no qual o paciente poderá se sentir, gradativamente, capaz de suportar seus próprios conteúdos agressivos, na medida em que abre mão de defesas primitivas como a cisão e a projeção para defesas mais elaboradas. “É por meio da delicadeza da escuta, de uma leitura em filigrana das palavras, na sutileza da busca dos detalhes, dos gestos, do olhar, do silêncio, que o analista vai reencontrar as marcas das imagens internas do paciente. Tudo se passa como se a palavra do analista devesse incentivar o paciente a desenvolver seu poder imaginativo de tal forma que o acontecimento que toca o corpo não fique privado de possibilidades metafóricas”, escreve a psicanalista Maria Helena Fernandes, em seu livro Corpo (Casa do Psicólogo, 2008).

É na qualidade do vínculo psicoterapeuta-paciente que encontramos as condições de um recomeço. A ideia é que, aos poucos, o paciente adquira a possibilidade de expressar em palavras a parte que foi vivida como má, iniciando um processo de integração entre os próprios pensamentos e sentimentos – antes insuportáveis e assustadores –, e que aos poucos adquirem sentidos e significados. É por meio da relação com o terapeuta que aparecem novas capacidades, expressões menos regredidas, mais espontâneas e criativas.

Após algum tempo de análise, por vezes, surgem comentários dos pacientes sobre como se sentem acolhidos no espaço analítico. Isso nos lembra Winnicott, quando enfatiza que “na prática psicanalítica, as mudanças que ocorrem nesta área podem ser profundas. Elas não dependem do trabalho interpretativo, mas sim da sobrevivência do analista” a este tipo de relação fragilizada. Não é raro observar a necessidade de o paciente sentir-se fisicamente próximo ao terapeuta. Sobre isso, Fernandes escreve: “Não é por acaso que esse tipo de paciente tem necessidade de constatar a presença viva do analista; é essa presença que lhe assegura que o analista não está “morto”.

 

LÉDICE LINO DE OLIVEIRA – é psicóloga, mestre em ciências da saúde, professora do curso de psicologia da Universidade Paulista (Unip).

RAFAEL PICCOLO FELICIANO – é psicólogo clínico, autor do livro digital Escritos psicanalíticos da vida. (ePub, 2017).

ROSA JUNQUEIRA – é psicanalista. Os três são membros-fundadores do Departamento de Psicossomática Psicanalítica do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo